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domingo, 22 de janeiro de 2017

Alexander Jacob - As Origens da Religião Indo-Europeia

por Alexander Jacob


Podemos recordar que nos anos 30 do século passado, a Alemanha procurou combater os regimes econômicos do capitalismo e do comunismo com doutrinas da primazia da raça, e da raça germânica em particular. Isso foi certamente em parte uma estratégia para impôr o domínio germânico sobre o continente depois da expulsão das forças judaicas internacionalistas que o haviam controlado até então. As glorificações de Alfred Rosenberg da raça nórdica em seu livro Mythus des zwangisten Jahrhunderts que foram utilizadas com este propósito estiveram naturalmente focadas em uma Europa ocidental germânica, mas ditos esforços geralmente descuidavam da parte oriental inteira da Europa, habitada por eslavos e governada por uma cultura ariana do oriente.

Hoje quando a Europa ocidental e central e parte da Europa oriental também estão totalmente sob o controle dos judeus estadounidenses por meio da trama econômica e militar transatlântica da União Europeia, é importante seguir a luta empreendida pela Alemanha Nacional-Socialista contra as forças globalistas, mas com uma visão mais ampla e mais profunda da Europa e de sua herança espiritual.

O propósito de meu discurso, portanto, é assinalar as origens comuns de todos os povos indo-europeus e a particular excelência espiritual que os distingue dos judeus, que, como autores de um árido mononacionalismo, representam um ramo corrompido da árvore genealógica indo-europeia.

Os recentes estudos de linguística e mitologia comparadas de investigadores como Giovanni Semerano [1] e M.L. West [2] deixaram claro que as origens da religião indo-europeia devem ser encontradas nos arredores do Oriente Próximo, e que a tendência anterior de distinguir, com base na diferença linguística entre línguas aglutinantes e declinantes, a civilização egípcia da suméria e ambas das chamadas culturas "indo-europeias" dos indo-iranianos, como hititas e gregos, ignorou a possibilidade de que elas possam todas ter derivado de uma fonte racial e linguística comum [3].

As semelhanças entre as religiões cosmológicas das três civilizações históricas mais antigas da Suméria, Egito e o vale do Indo dão, em efeito, crédito a esta possibilidade. As referências na epopeia suméria de Enmerkar e o Senhor de Aratta, 141-146, a uma época em que todos os povos da região "em uníssono/a Enlilem uma língua [davam louvores]", assim como em Gênese 11:1 os filhos de Noé (Sem, o semita; Jafet, o ariano, e Cam, o camita) falando originalmente a mesma língua, reforçam essa teoria.

A comum orientação cosmológica e solar das religiões da Suméria, Egito e Índia também sugere que essas três civilizações podem, em efeito, ter derivado de uma fonte comum. O professor Petr Charvat também notou recentemente o aparecimento da primeira "religião universal da Mesopotâmia" já nas culturas calcolíticas de Tel el-Halaf na Mesopotâmia do Norte e Ubaid na Mesopotâmia do Sul, que remontam ao 6º milênio a.C.

Quanto ao lar original da gente que desenvolveu a compreensão cosmológica compartilhada pelas religiões mais antigas da região, a principal evidência que temos é a da assim chamada história do "Dilúvio". A história di Dilúvio é um relato cosmológico do nascimento do universo e sua luz após a destruição do cosmo ao fim de uma idade cósmica. O "barco" que sobrevive à inundação leva as sementes da vida universal e se detém no cume de uma montanha, que é na realidade a localização a partir da qual surge a luz do universo, como a evidência egípcia deixa claro. A história do dilúvio, não obstante, é transferida a um cenário terrestre nas populares histórias do dilúvio da Suméria, Índia e Israel. A "arca", ou barco, que navega por sobre a inundação, se detém em uma montanha terrestre, e essa montanha é considerada o ponto originador da própria raça, já que o sobrevivente é descrito como um rei ou um sábio primitivo.

No relato indiano do Dilúvio no Bhagavata Purana, o sobrevivente do Dilúvio é o Manú (Homem), que é chamado Satyavrata, rei dos drávidas, e seu barco se detém sobre uma montanha inominada "do norte" (VIII, 24). Na história babilônica de Beroso, o barco de Xisouthros, o sobrevivente do DIlúvio, repousa na Armênia. Segundo Nikolaos de Damasco, um contemporâneo de Augusto, a montanha armênia na qual o barco se deteve é a montanha Baris, que pode ser a mesma que o monte Ararat (ao norte do lago Van) mencionado na história bíblica do Dilúvio do Gênese 8:3. Segundo Beroso, os babilônicos se trasladaram a diferentes partes da Babilônia desde a Armênia.

Na versão etíope do grego Pseudo-Calístenes, os brâmanes são chamados filhos do filho de Adão, Set e Noé é considerado transmissor da sabedoria de Set. Já que Adão e´, como veremos, em realidade o Homem Cósmico e não um humano, podemos supôr que os brâmanes mencionados aqui tem relação com a preservação da Consciência Divina de Brahma que provém do Ovo Cósmico e que é comunicada mais tarde à Humanidade por Manú/Noé.

Dado que os centros mais primevos de alta cultura são aqueles dos cananeus, hatti, elamitas, sumérios e egípcios, é possível que a região ao redor do Monte Ararat fosse a região central desde onde os proto-dravidianos viajaram a Palestina, Anatólia, Egito, Mesopotâmia e as costas do Mar Negro [5]. É provável também que uma das regiões que mais cedo foram colonizadas pelos povos descendentes de Noé da vizinha Armênia fosse a Anatólia. Isso é sugerido pela grande antiguidade dos achados arqueológicos neolíticos em Çatal Hüyük (ca. 7º milênio a.C.). A civilização da Síria-Palestina pode ser até tão antiga quanto a da Anatólia, já que os assentamentos na Jordânia são detectáveis desde fins do 7º milênio a.C. e em Biblos desde o 6º milênio.

Depois dos achados arqueológicos da Anatólia e Síria-Palestina estão aqueles de Susa em Elam, no sudoeste do Irã. Speiser, junto com Frankfort, conjecturou que a fonte dessa cultura pode ter estado na Armênia mesmo, já que o local ao norte mais distante onde se descobriu cerâmica do tipo Susa I é o Monte Ararat. Quanto ao relato bíblico dos elamitas mais primevos, considera Elam como um filho de Sem. Isso sugere que um componente principal da população proto-dravidiana em Elam devem ter sido os proto-semitas, provavelmente semitas proto-acádios.

A antiga cultura Ubaid da Mesopotâmia do Sul, Eridu, que data do 6º milênio a.C., mostra marcadas afinidades elamitas. É importante notar que, segundo Speiser, o nome original de Ku'ara (perto de Eridu) na primeira dinastia de Uruk - HA.Aki - pode ser de origem subaro [de Subartu ou Subar] ou hurrita. O próprio termo "subari" ou, mais precisamente, "suwari", está relacioado com Suvalliyat (Suvariya)/Surya, que é também o nome hitita/índico do deus do Sol. Hurri, então, seria a pronúncia irânica do mesmo nome, como o sugere o nome irânico do deus do Sol, "Hvare".

A raça noéica [de Noé] ou proto-dravidiana original é, assim, mais provavelmente identificável com os proto-hurritas que habitavam os assentamentos anatólios-halafianos associados com os subaros/suwaros/hurritas do 7º milênio a.C. Esses primeiros hurritas falavam uma língua caucasoide aglutinante que possuía características dravidianas, e F. Bork e G. W. Brown revelaram a íntima relação linguística entre o hurrita (junto com seu dialeto Mitanni), o elamita e o dravidiano. Os povos semitas, jaféticos e camitas mencionados na Bíblia estão todos estreitamente relacionados com essa raça original cujo próprio nome aponta a uma característica adoração religiosa do Sol.

Os sítios mais primevos da cultura mesopotâmica do norte se encontram em Tel el-Halaf, remontando a por volta do 5º milênio a.C. A poderosa influência da cultura halafiana é atestada nas imitações de sua cerâmica na Armênia do Sul assim como no noroeste da Síria. A cerâmica de Tel el-Halaf está marcada por desenhos bucrâneos [de cabeças de boi] que a associam com os santuários do 7º milênio de Çatal Hüyük na Anatólia Oriental, que podem ter sido estabelecidos pelos primeiros proto-dravidianos ou hurritas. Petr Charvat revelou que as formas sociais e religiosas fundamentais da posterior cultura mesopotâmica, inclusive a de Uruk na Suméria, são evidentes já em sua forma embrionária nos sítios calcolíticos [da Idade do Cobre] primevos da Mesopotâmia do Norte. As práticas crematórias associadas com rituais do fogo são notadas aqui, e Tel Arpachiyah (TT6, perto da atual Mosul no Iraque) também apresenta as primeiras provas do uso da tríade de cor branco-vermelho-negro que persiste desdetempos calcolíticos até Uruk [6] e que é representativa das três castas originais dos indo-europeus: sacerdotes, guerreiros e povo (quer dizer, agricultores e artesãos).

O imperfeito estado das investigações arqueológicas nas regiões sob investigação proibe qualquer identificação definida da raça original que criou a cultura espiritual dessas civilizações originais da Humanidade. Não obstante, dado que todas essas civilizações estão situadas no sul e, segundo Gordon Childe, o elemento racial predominante nas tumbas mais primevas na região do Elam ao Danúbio é o "mediterrâneo" [7], podemos supôr que essas culturas primevas foram fundadas pelo gênio daquele amplo grupo racial. A raça mediterrânea dolicocéfala, ou "morena" [8], pode ter constituído assim o estrato mais primevo das populações da Ásia, Egito e Europa. Essa raça pode ser identificada como "proto-dravidiana" ou "proto-hurrita" ou inclusive como a raça proto-indo-europeia.

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Dos três ramos linguísticos históricos associados com os filhos de Noé - Sem, Jafet e Cam [9] - , a evidência literária mais primitiva é principalmente a da semítica proto-acádica [10]. Muitas das palavras das tabuletas de Uruk mais primitivas que foram designadas como "proto-eufráticas" por B. Landsberger são mais provavelmente de origem proto-acádica, como G. Rubio assinalou recentemente. Langdon, não obstante, notou que a maior parte dos nomes semíticos estavam concentrados no norte, e isso sugere a "entrada dos semitas na área do norte em Kish e Maer em um período bem antigo".

A cultura semítica acâdica da Mesopotâmia do Norte deve ter estado relacionada também com a de Elam, que é descrita em Gênese 10:20 como um "filho" de Sem. Não é surpreendente que os acádios mais antigos estiveram estreitamente associados com tribos hurritas também, com os quais eles parecem ter compartilhado uma tradição histórica comum. Temos aqui uma indicação da grande antiguidade da família semítica acádica.

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Ainda que as religiões atestadas mais antigas são as dos semitas e dos camitas sumérios e egípcios, os ários jaféticos, em efeito, podem ter sido mais antigos que os camitas, já que Cam é representado na versão javista mais primitiva da Bíblia como "o filho mais jovem de Noé" [11]. Os ários são geralmente divididos em ários do leste, "shatem", e ocidentais, "centum". Quanto aos povos ários ocidentais, podemos notar que em Gênese 9:2 o filho maior de Jafet (dos ários) é chamado Gomer, representando aos cimérios, que são descritos por Heródoto (IV, 14) como tendo tido seu lar inicial "nas margens do Mar Negro".

Os cimérios são provavelmente idênticos aos celtas mais antigos, já que os gauleses (que são um povo celta do sul como os bretões) chamam a si mesmo, até hoje, "cymry". Diodoro Sículo (Bibliotheca Historica V, 32) também declara que os celtas que vivem próximo ao Mar Negro estão dispersos "tão longe quanto a Cítia", e as mais nortenhas dessas tribos celtas são as mais selvagens e as mais poderosas, tendo aparentemente "vagado através e devastado toda a Ásia, sob seu nome de então de cimérios". Os celtas do norte são, sem dúvida, os goidélicos [gaélicos], mas o fato de que o nome antigo se conserve principalmente entre os gauleses bretônicos pode ser devido ao predomínio do conservador elemento druídico entre estes.

Ainda que os celtas sejam ários jaféticos ocidentais, os filhos de Gomer, na bíblica Tábua das Nações (Gênese 10), incluem Ashkenaz (os citas, que são ários jaféticos ocidentais), Riphath (incerto) e Thokarmah (possivelmente os tocharianos, ou armênios, cujo ancestral é chamado Tcorghom [12]). Os celtas e os citas estão estreitamente relacionados, como indica Estrabão (XI, 7, 2), que declara que os autores gregos chamaram a todas as populações do norte de citas ou celto-citas.

Os "irmãos" de Gomer incluem Magog (os magi ou irânicos), Madai (os medas/mitânios/indo-irânicos), Javan (gregos), Tubal, Mesec e Tiras, os últimos três não identificáveis. Os irânicos jaféticos do leste são representados em Heródoto como adoradores do "círculo do céu" (Ahura, de Ashur/Anshar = círculo do céu) assim como dos corpos celestes. Os irânicos referidos por Heródoto, não obstante, não construíram templos nem adoravam representações estatuárias de suas divindades (I, 131), e isso enfatiza sua antiga afiliação com os citas, enquanto que os hurritas-hititas e hurritas-mitânios, não obstante, não eram certamente contrários a tais representações. Ademais, os rituais irânicos são descritos por Heródoto como não involucrando o fogo, ainda que mais tarde a religião zoroastriana, em efeito, seja tipificada por sua adoração do fogo, Atar. Isso sugere que os irânicos posteriores devem ter entrado em contato no sul com os ailas [uma dinastia] de Pururava (elamitas/hurritas), os quais, com overemos, derivaram sua adoração do fogo dos gandharvas, os quais estão relacionados com os povoadores do complexo arqueológico Báctria-Margiana no Afeganistão.

O ramo histórico mais antigo dos indo-ários está manifestado no século XVI a.C. no norte da Mesopotâmia, no reino de Mitanni. O lar original dos mitanios permanece incerto. Os mitanios mesmos podem ser identificáveis com os medas, e, como revela Heródoto (VII, 69), os medas foram alguma vez universalmente chamados ários. Os medas podem ter estado relacionados aos proto-irânicos, já que várias palavras medas são detectáveis no persa antigo. Os reis de Mitanni tem nomes sânscritos que se distinguem por sua afiliação à condução de carros, e essa habilidade é refletida também nos nomes (Keres-aspa, Pourus-aspa) do ramo irânico da família ária, assim como no extraordinário prestígio atribuído ao cavalo pelos indo-ários em seus rituais sagrados.

A relação próxima entre os indo-ários e os irânicos e os citas é confirmada pela veneração do cavalo entre os citas, relatada por Heródoto (IV, 61). Não obstante, os mitanios exibem uma adesão a uma forma védica de religião (e não À posterior forma avéstica zoroastriana), junto com uma adoração de divindades hurritas, estabelecendo dessa maneira o relativamente tardio da religião zoroastriana.

O terceiro e mais jovem grupo dos ários do leste, os citas, está localizado por Heródoto ao norte do Mar Negro nas proximidades dos cimérios, que estão representados na bíblica Tábua das Nações como seus antepassados ("pai") sob o nome de Gomer. Segundo Heródoto (IV, 3), os citas se consideravam como "a mais jovem de todas as nações". Não obstante, o amplo território dos citas se estendia através da Rússia até a Ásia Central. Os citas também estão estreitamente associados com os indo-irânicos, com quem eles compartilham uma linguagem ária "shatem" do leste e muitas de suas práticas religiosas.

O predomínio da língua irânica nas regiões habitadas por cimérios e citas, quer dizer, do Danúbio ao Dnieper, é evidenciado também pelos nomes do Danúbio, Dnieper e Dniester, que empregam o termo avesta danu para rio. Em efeito, essa área corresponde à habitada pelos eslavos, e podemos considerar razoavelmente os citas como antepassados desses.

Sem embargo, a descrição que faz Heródoto dos citas (IV, 59) sugere que eles não possuíam muita sofisticação em seus ritais religiosos. O próprio Dario I (522-486 a.C.) se refere aos sakas como "rebeldes" e infieis a Ahura Mazda. O relato de Heródoto dos costumes religiosos dos citas (IV, 59) em efeito revela seu agudo foco na vida marcial, já que eles pelo visto não estabeleceram altares ou estátuas a nenhum deus exceto a Ares, deus da guerra. As investigações de Eliade também apontam a uma aplicação prática muito rudimentar das bases espirituais da religião cosmológica do antigo Oriente Próximo a rituais quase-xamanísticos. Isso também explica a antiga designação dos citas como "haoma-varga" ou "bebedores de soma".

É interessante notar, não obstante, que inclusive os indianos e os irânicos avésticos parecem originalmente ter sido povos nômades afins aos citas, como está atestado pela linguagem do velho Avesta, onde o cosmo era visto como uma enorme tenda de campanha. MEsmo assim, parece que seguiram outras ondas de indo-ários que se instalaram no Complexo Arqueológico Bactria-Margiana (situado nos atuais Turcomenistão e Afeganistão) ao redor de 2.200-1.700 a.C. e na região de Gandhara (arredores de Peshawar) por volta de 1.700 a.C., os quais haviam mantido a tradição dos rituais do fogo. Os templos também contém quartos com "todo o aparato necessário para a preparação de bebidas extraídas da amapola, o cânhamo e a efedra" que pode ter sido utilizado para os rituais com soma [13].

Quando investigamos o assunto crucial da instituição de rituais do fogo entre os indo-ários, deveríamos recordar que nem os irânicos mais antigos, nem os indo-ários de Mitanni, nem os citas, apresentam alguma evidência de tal adoração do fogo. Nos Puranas, Pururavas, o antigo rei aila (elamita?), diz ter obtido o fogo do sacrifício dos "Gandharvas", que também o ensinaram a constituição dos três fogos sagrados dos ários. Isso sugere que os primeiros hurritas de Elam e os irânicos mais antigos não adoraram o fogo e o aprenderam de uma onda posterior de ários de mais ao norte. Não obstante, inclusive os gandharvas são inclídos entre as dinastias ailas (elamitas?) nos Puranas, o que sugere que eles também eram um ramo do norte e do leste de proto-hurritas identificável com os jaféticos. Essas tribos jaféticas que se moveram para o norte às estepes pôntico-cáspias criaram a cultura yamnaya ali, que é considerada a fonte principal dos povos ários.

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Quando aos ários "centum" ocidentais, ainda quando os cimérios ou os celtas, representados por Gomer, seja considerados como o primogênio de Jafet, a evidência histórica mais antiga de uma língua "centum" vem da Anatólia, entre os hititas. Os chamados hititas eram, diferentemente dos nativos de Hatti, ários. Mas eles, tal como os jafetitas cimérios (assim como os semitas e camitas), não proporcionaram qualquer evidência arqueológica de qualquer ritual do fogo em sua adoração religiosa.

O reino hitita também mostra uma forte influência cultural neo-hurrita a partir do século XV a.C., e muitas das rainhas hititas levam nomes hurritas, como no caso dos mitânios. A religião hitita é totalmente sumério-hurrita, mas tem afinidades particulares com os mitânios e indo-ários também.

Os gregos muito provavelmente chegaram à região da Hélade por volta de 2.200 a.C. desde a Anatólia, ainda que seja possível que tribos jaféticas das margens do Mar Negro tenham se trasladado por terra à Grécia também. Não obstante, a cultura minoica pré-grega de Creta contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da escrita Linear A (antes de 1.700 a.C.) que precedeu à ário-micênica Linear B (1.300 a.C.). E tal como a escrita cretense está na base da micênica, assim também sua religião é seguida sem alteração pelos imigrantes posteriores. Não é surpreendente assim que o Zeus cretense, que é filho de Cronos, seja chamado Zagreu, o que sugere uma origem da divindade nos montes Zagros do Irã ocidental.

Mais ao oeste, um dos ramos mais antigos dos povos germânicos é chamado de alemanni, um nome que certamente está relacionado com Aryamanni, que pode ser igualmente o original do termo "armênio". Segundo Snorri Sturlusson, o autor da Edda em prosa, os germânicos primeiro derivaram sua religião dos anatólios, que se trasladaram à Europa. Diz-se que o primeiro anatólio (um dos Aesir ou Asuras) que emigrou à Germânica é "Voden" ou "Odin", o deus do Vento (a forma germânica original, Wotan, está claramente relacionada com o indo-irânico Wata, uma forma do deus do vento, Vayu). Diz-se que Odin, não obstante, é um descendente distante de "Tror" ou "Thor", o filho de um rei troiano chamado Mennon ou Munon (= Manú?) que se havia casado com uma filha do rei Príamo. Diz-se que Thor mesmo havia perambulado primeiro pela Trácia e logo por outras partes do mundo. Notaremos que a Trácia é também a fonte do culto dionisíaco.

Os três filhos de Odin, Vegdeg, Beldeg (Baldur) e Sigi, governaram sobre a Germânica Oriental, a Vestáflia e a França, respectivamente. Expedições adicionais levaram Odin à Dinamarca, Suécia e Noruega, pelo que ele teve êxito em difundir a "língua da Ásia" por todas as partes da Europa. Vemos, portanto, a posição central da Anatólia como a terra de onde derivou a maior parte das culturas indo-europeias ocidentais, ainda que os cimérios celtas estivessem em grande parte localizados ao norte do Mar Negro.

Segundo Tácito, Mannus (relacionado com o índico Manú) foi o antepassado da raça germânica, e ele teve três filhos representados pelos Ingaevones (os germânicos do norte incluindo os escandinavos e os antepassados dos anglossaxões), os Hermiones (os germânicos ocidentais incluindo os godos, os burgúndios e os lombardos) e os Istvaeones (os germânicos da Baixa Germânica, os francos, os holandeses e os belgas). A primeira tribo germânica que cruzou o Reno e expulsou os celtas autóctones foi a dos Tungri (uma tribo belga), cujo outro nome, Germani, foi usado por todas as tribos.

O deus chefe dos germânicos diz Tácito que é o deus criador Tuisto (de Tvashtr/Tvoreshtar/Tartarus), ainda que Ingvi, outro nome para Freyr, devesse ter sido o deus dos ingaevones, tal como Hermin, um nome para Wotan, deve ter sido a divindade principal dos hermiones, enquanto Istae permanece obscuro.

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Quanto às percepções cosmológicas e filosóficas que dão forma às religiões antigas, é provável que elas fossem desenvolvidas primeiro por meio da meditação iogue, como declara, por exemplo, o Brahmanda Purana I, i, 3, 8. É significativo que no Mahabharata, Shalyaparva 44, Skanda ou Muruga, o deus dionisíaco dos dravidianos, seja descrito com poderes iogues enquanto seu pai Shiva no Mahabharata, Anushasanaparva 14, é referido como a "alma do ioga" e o objeto de toda meditação iogue. Já que é muito provável que a raça noeica fosse, em realidade, uma proto-dravidiana/proto-hurrita, é portanto provável que este profundo conhecimento iogue do universo seja característico dela.

A religião dos antigos estava baseada em uma visão espiritual da formação do cosmo [14]. Depois do dilúvio cósmico que marca o fim da primeira idade cósmica (kalpa), a Alma Divina, Âtman, dentro do oceano cósmico (o Abismo) gradualmente recria o cosmo assumindo a forma de um Macroanthropos ideal, um Homem Cósmico. O alento ou força vital (Vayu/Wotan) do Homem Cósmico primeiro se une com a matéria (Terra) para formar um complexo estreitamente unido do Céu (a substância do Purusha, o homem cósmico) e a Terra. Mas o aspecto temporal (Kala, Cronos) do rapidamente móvel alento ou vento também separa os dois elementos, um acontecimento representado como uma castração do Purusha. O sêmem que cai do falo cortado impregna o próprio Purusha com um Ovo Cósmico do qual surge o cosmo manifestado composto, outra vez, de substância terrena e luz divina (Brahman). Este luminoso Brahman também é representado antropomorficamente como um Homem Cósmico.

Sem embargo, essa luz continua possuindo uma qualidade tempestuosa que é uma persistência de Cronos no cosmo manifesto. Essa força, representada como Zeus/Seth/Ganesha, destroi a luz e a obriga a descer às regiões inferiores da Terra, onde jaz moribunda como, por exemplo, Osiris. Ainda assim, a mesma força tormentosa tragou, enquanto isso, o falo divino e assim finalmente reanima à luz moribunda no mundo inferior com sua potência. Logo separa a substância da Terra nas regiões terrenas e o ceu de nosso universo e emerge pela fenda entre os dois na região média das estrelas como uma universal Árvore da Vida ou Falo. A semente desse universo recém-formado é emitida então dentro de nossa galáxia, primeiro como a Lua, e logo a força solar finalmente surge no cume da Árvore (Falo) como o Sol.

O processo da vida que se desenrola na Terra é supervisionado pelo sétimo Manú de nossa era a quem encontramos como o Rei dos Drávidas. Este Manú é responsável pela continuação da humanidade na Terra assim como de sua evolução espiritual. Nessa tarefa o ajudam sete sábios, que representam a sabedoria e a cultura do homem iluminado. Os brâmanes derivam sua ascendência desses sete sábios, e assim vemos que a religião brahmânica é, em efeito, a mais antiga e una que está originalmente marcada pela elevação espiritual iogue.

Já que identificamos os proto-indo-europeus como proto-hurritas ou proto-dravidianos, podemos fazer uma pausa para considerar qual pode ter sido a forma mais antiga de sua religião. Notamos que os cimérios são os mais antigos dos ários jaféticos, e sabemos que seus sacerdotes eram chamados "druidas", de modo que é possível que os druidas sejam, em efeito, descendentes dos próprios proto-dravidianos. As semelhanças fonéticas entre "druida" e "drávida" são óbvias. Nos textos clássicos, o nome dos druidas aparece fundamentalmente em uma forma plural, como "druidai" (em grego) ou "druidae" ou "druides" (em latim). Em irlandês, "drai" ou "druí" é a forma singular de uma palavra que significa "homem sábio", do qual "draod" ou "druida" é o plural. A associação dos druidas com a palavra grega para "carvalho", primeiro feita por Plínio (Historia Naturalis, XVI, 95), é provavelmente posterior, devido à importância da adoração da árvore entre os antigos druidas, assim como entre a maior parte dos povos indo-europeus antigos, já que a árvore sagrada serve como um símbolo do falo divino que representa a vida do universo.

Os druidas parecem ter sido os sacerdotes dos celtas cimérios, principalmente na Gália e Grã-Bretanha. Já que não há qualquer evidência deles em outros territórios celtas como no Danúbio, na Gália Cisalpina e na Transalpina, é possível que eles sejam de origem não-celta [15]. Sem embargo, entre os gauleses, os druidas, junto com os equites constituíam as "castas" superiores. Piggott acreditava que a tradição druídica podia ser remontada a pelo menos o 2º milênio a.C. já que tem muito em comum com a linguagem e a ideologia indo-europeias, especialmente o sânscrito e o hitita. Ainda assim, é completamente possível que os druidas tivessem se estabelecido na Europa inclusive antes dos ários, quiçá tãocedo quanto o 3º milênio a.C. O deus tricéfalo atribuível aos druidas no Marne e na Costa do Ouro está possivelmente ligado ao deus tricéfalo ou tetracéfalo [16] do vale do Indo do 3º milênio a.C. [17].

Daí que não seja surpreendente que Clemente da Alexandria acreditasse que os pitagóricos e os filósofos gregos pegaram sua sabedoria dos gauleses e outros bárbaros, com o que ele sem dúvida se referia ao núcleo sacerdotal druídico dessas tribos. Dião Crisóstomo (século I d.C.) considerava os druidas como similares aos magi persas, os sacerdotes egípcios e os brâmanes indianos. Pode-se recordar que F.E. Pargiter uma vez sustentou que o brâmanismo mesmo podesse não ter sido originalmente ário, mas sim ter sido adotado na religião indo-ária desde os dravidianos [18]. Não obstante, Pargiter não considerou a possibilidade de que tanto a cultura ária como mais tarde a dravidiana podem ter derivado de uma cultura espiritual proto-dravidiana ou proto-hurrita.

A religião dos druidas era claramente cosmológica, como está atestado nos Comentários de César, que lhes atribuiu muito conhecimento sobre as estrelas e seu movimento, e do tamanho do mundo (Pargiter, op. cit). Amiano Marcelino declarou que eles investigavam "problemas de coisas secretas e sublimes". Diodoro Sículo, seguindo Posidônio, sustentou que eles acreditavam que "as almas dos homens são imortais, e que depois de um número definido de anos eles tem uma segunda vida na qual a alma passa a outro corpo", que é também a doutrina dos proto-dravidianos que formularam os princípios originais da religião índica.

Ainda que a religião celta incluísse sacrifícios, inclusiveh umanos, não há nenhuma prova, ainda assim, da adoração do fogo entre os druidas como era característica dos indo-ários e irânicos. Não obstante, a veneração do fogo entre os antigos celtas pode ser debilmente detectada na relativa frequência da denominação "Áed" (fogo) entre os lendários e primitivamente históricos reis supremos da Irlanda [19]. Foi só entre os proto-ários que os rituais religiosos indo-europeus se centraram na adoração do fogo, o que implica uma dramatização externa de acontecimentos cósmicos e particularmente do nascimento do Sol dentro do fogo sacrificial sagrado, Agni. Sem embargo, com a aparição mais tardia das culturas camitas da Suméria e do Egito, a adoração das forças cósmicas assumiu formas antropomórficas, e a idólatra adoração do templo se converteu na regra, como o fez no hinduísmo posterior também.

Ao mesmo tempo, haveria que notar que os templos dos antigos indo-europeus assim como os rituais do fogo dos ários estão ambos igualmente construídos sobre um plano sagrado (mandala) do Purusha que é revivido, mediante os diversos rituais realizados ali, a seu esplendor solar cósmico original. Nos sacrifícios dos indo-ários o sacrificador se submete a uma morte e renascimento rituais como o Sol, enquanto que na adoração camita do templo, o ídolo sagrado é adorado como uma representação vivente do Sol nascente e em desenvolvimento. Ambas formas de adoração estão naturalmente relacionadas com exercícios iogues tântricos que empregam as correspondências entre o macrocosmo e o microcosmo para divinizar o próprio adepto.

Os deuses das diversas culturas que surgiram da pátria original dos indo-europeus simbolizam vários aspectos vitais do macro-antropomórfico Purusha. Assim, Enlil, Vayu, Wotan, que representam o alento divino ou força vital, são os principais deuses entre os sumérios, indianos e germânicos; Thor, Zeus, Indra e Perun representam a força da tormenta entre os germânicos, gregos, indianos e eslavos; e Aton, An, Brahma, Mitra, Helios e o Sol são adorados pelos egípcios, sumérios, indianos, zoroastrianos, gregos e mitraístas como a Luz cósmica. Se bem os sacrifícios do fogo e os rituais do templo das religiões indo-europeias antigas foram considerados necessários para o bem-estar do Purusha e o adequado funcionamento do universo, o objetivo do sábio verdadeiramente iluminado, sem embargo, era transcender completamente a encarnação cósmica por meio da ascese iogue.

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Vimos que a prisca theologia (teologia primeira) dos antigos indo-europeus é claramente politeísta, e a transformação desse politeísmo em pseudo-monoteísmo cristão sob a influência do monoteísmo hebreu merece uma investigação mais próxima. O monoteísmo hebreu deveria ser mais corretamente designado como um mononacionalismo baseado no culto tribal a Javé, deus dos hebreus. Os hebreus são um ramo dos arameus semíticos ocidentais (e indo-europeus), e são reconhecíveis nos nômades "habiru" do antigo Oriente Próximo, que foram considerados como perigosos bandoleiros, subversivos e mercenários [20]. A aversão abraâmica original ao politeísmo cosmológico dos indo-europeus é evidente de acordo com as referências existentes nas Antiguidades Judias de Josefo, I, 157 e em De Mutatione Nominum de Filão, 72-6.

Enquanto a religião genuinamente universal dos indo-europeus está baseada em uma compreensão científica e filosófica do cosmo, o monoteísmo hebreu começou e continua hoje não tanto como uma adoração de alguma força espiritual universal, mas sim como uma doutrina política de mononacionalismo (quer dizer, a concentração única na história dos israelitas como o destino da Humanidade). A rebelião monoteísta mononacionalista dos hebreus (Abraão) contra as religiões cosmológicas de seus vizinhos no antigo Oriente Próximo representa, assim, a primeira queda da Humanidade, dirigida pelos judeus, desde seu foco espiritual original. Como assinalou o historiador cultural inglês do século XIX Houston Stewart Chamberlain, a mentalidade predominantemente materialista dos escribas judeus é claramente evidente em sua transformação das elaboradas especulações mitológicas dos sumero-acadianos em um mero registro histórico da própria tribo judia:

"As ideias fantasticamente científicas que aparecem no Gênese, sobre a origem do mundo orgânico, que era originalmente a concepção mítica e simbólica de um povo imaginativo (provavelmente os sumero-acádios)... tudo aquilo se converteu em 'história' (nas mãos dos judeus), e por conseguinte ao mesmo tempo perdeu todo significado como mito religioso, posto que o mito é elástico e inesgotável enquanto que aqui jaz, diante de nós, uma simples crônica de fatos, uma enumeração de acontecimentos. Isso é materialismo... Com essa visão da religião, são perseguidos somente fins práticos, nenhum fim ideal" (em Os Fundamentos do Século XIX, Londres, 1911).

É verdade que há algum misticismo cosmológico nas obras cagalísticas como o Sepher Yetzirah (Livro da Criação) e no Zohar (Livro da Luz), que também foram compostas nos primeiros séculos d.C. Essas obras, como as gnósticas, derivaram com toda probabilidade dos assírios entre os quais os hebreus foram exilados no século VI a.C. [21], e contém algumas noções das bases cosmológicas originais das primeiras seções do Gênese.

Quanto ao culto cristão, o fato de que também derivasse de noções cosmogônicas indo-europeias, e que se remonte, como a Cabala, ao tempo do exílio babilônico, é claro a partir das descrições cosmológicas gnósticas contemporâneas do Cristo como a manifestação macro-antropomórfica cósmica da Ideia de Deus, assim como na história extraordinária da morte e à ressurreição do Cristo mesmo, já que isso só pode ser uma historicização do drama cósmico da descida da força solar (Osiris) ao inframundo e sua posterior aparição como o Sol (Hórus) de nosso Sistema Solar.

Outra prova da base mitológica da história de Cristo é o emprego de um "carpinteiro" como o pai de Jesus, já que essa figura corresponde exatamente à força formativa Tvashtr (Tuisto entre os germânicos) do Homem cósmico, Purusha, já que para os indo-irânicos Tvoreshtar também significa um carpinteiro. É Tvashtr que forma a semente da luz do universo que aparece como Brahma, enquanto que a impregnação do substrato material do cosmo é empreendida pelo alento de Purusha, representado como a divindade do vento Vayu (Wotan), que corresponde ao Espírito Santo cristão.

Como sabemos, no Concílio de Éfeso de 431 d.C., a virgem Maria também foi confirmada como a mãe não de um filho humano, mas sim de Deus, enquanto que o Concílio Lateranense de 469 esclareceu que Maria concebeu Jesus por meio do Espírito Santo. A tradução desse mito cosmológico de Jesus, que é o mesmo que o de Hélios/Brahma, em um conto histórico ambientado na Judeia dos tempos romanos é, quiçá, o trabalho dos judeus que se chamaram a si mesmos os evangelistas, e de Paulo, que desejou fazer do culto cristão um culto judeu internacional acrescentando um capítulo final à história judia do Antigo Testamento.

A aversão cristã à forma histórica e nacionalista do judaísmo bíblico aparece já nas doutrinas do antigo pensador cristão Marcião de Sinope (s. II d.C.) [22]. Marcião se horrorizou da concepção hebraica de Javé como um deus tribal que aprova toda sorte de crimes de seus israelitas "eleitos", e por tal razão ele, como os gnósticos contemporâneos, diferenciou entre o demiurgo do universo material, Javé, e o "Pai Celestial" de Cristo.

A oposição de Marcião a Javé nos mostra que, já em sua época, a concepção de Javé contida no Antigo Testamento era considerada totalmente diferente da cabalística. Segundo Marcião, os pecados da Humanidade criada por Javé tiveram que ser expiados pelo sacrifício do deus encarnado, Cristo, a fim de que todos os homens pudessem herdar a Vida eterna. Lamentavelmente, apesar de seu discernimento intelectual, Marcião foi excomungado pela Igreja romana, a qual reforçou suas conexões judaicas formando uma Igreja ortodoxa "católica", ou universal.

O cristianismo antijudaico de Marcião, assim como os ensinamentos dos gnósticos que chegaram tão longe como a identificar o deus judeu com o "diabo", a demoníaca divindade que governa o mundo da matéria, destacam o fato de que o Antigo Testamento como o temos ignora as bases espirituais da antiga cosmogonia politeísta contida na Cabala em favor de uma glorificação monoteísta da história das tribos judias. Em efeito, o judaísmo como regra subordinou a exegese cabalística ao estudo literal da Torá e do Talmud, que são registros mundanos da primitiva vida política e social judia que carecem completamente de espiritualidade. A inexistência de qualquer desenvolvimento vigoroso da Cabala como um culto judio predominante confirma as origens estrangeiras do sistema, e seu modelo cosmogônico quase-politeísta não teve êxito na transformação da obsessão etnopolítica dos hebreus que deu à religião revolucionária de Abraão sua primeira e mais típica forma.

Ainda que os europeus fossem obrigados a esquecer suas próprias religiões cosmológicas indo-europeias quando eles foram convertidos a uma religião judia reformada, o cristianismo, eles mantiveram a sensibilidade religiosa politeísta original do cristianismo em sua adesão à doutrina da Santa Trindade de Deus o Pai, Deus o Filho e o Espírito Santo, assim como na adoração católica a Maria e aos diversos santos. Sem embargo, como as rebeliões protestantes, e acima de tudo a puritana, contra o catolicismo, os aspectos cosmológicos da Trindade e da adoração a Maria foram arrancados à força por um retorno a uma interpretação literal, mundana e monoteísta do Antigo Testamento.

Hoje essa tendência progrediu até tal ponto que os atuais evangelistas nos EUA lutam por Israel como se fosse por sua própria nação. Posto que, como vimos, a forma rabínica do judaísmo não é realmente religiosa em absoluto, mas sim um culto político que mantém os judeus unidos em suas ambições materialistas e financeiras, a luta das potências ocidentais em favor de Israel só pode esperar estabelecer um "paraíso" material, estilo Las Vegas, na terra regida ditatorialmente pelo suposto "deus" de Israel. Os esforços militares, comerciais e sociais dos judeus sionistas para sustentar sua aberrante religião mundana e ao Estado israelense que serve como seu símbolo político, constituem dessa maneira a ameaça mais alarmante hoje para a cultura espiritual cosmocêntrica dos indo-europeus que conforma o fundamento profundo tanto da civilização europeia como da hindu.

Para que Europa recupere sua força deve cortar todos os vínculos com os agregados judios do cristianismo, quer dizer, deve voltar às formas mais antijudaicas de cristianismo que marcou à Igreja católica romana na posterior Idade Média e aos dois impérios que se desenvolveram sob sua égide, o Sacro Império Romano e o bizantino. Um cristianismo assim renovado que esteja de acordo com o espírito do politeísmo cósmico e da autorrenúncia que vislumbramos nas antigas religiões indo-europeias é o fundamento óbvio da reunificação das diversas partes da Europa, ocidental e oriental.

Ao mesmo tempo, este é o baluarte mais seguro contra o sionismo que continua a irreligiosidde dos judeus javistas na forma do internacionalismo ateu marxista e suas diversas formas vazias do modernismo. Se a Europa deve sobreviver aos efeitos apocalípticos das duas grandes guerras do século passado, deve ser reunida outra vez com uma cultura religiosa uniforme cuja elevação espiritual possa permitir que seus povos assumam outra vez o domínio de suas próprias antigas e sagradas terras.

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[1] - Giovanni Semerano, Le Origini della Cultura Europea: Rivelazioni della Linguistica Storica, Florença, 1984-1994. O dicionário etimológico proporcionado neste trabalho apresenta origens acádias e sumérias para muitas das antigas palavras gregas, latinas e germânicas.

[2] - M. L. West, The East Face of Helicon, Oxford, 1997.

[3] - Em realidade, será necessário daqui em diante renomear o atual termo linguístico "proto-indo-europeu" como "proto-ário", já que "proto-indo-europeu" denota mais a linguagem proto-dravidiana/hurrita original da qual se derivam o semítico, o dravidiano moderno e o ário, que a é a forma mais primitiva do ramo jafético/ário dele. O proto-indo-europeu deve incluir elementos semíticos também, já que estes são um dos ramos mais antigos. a moderna oposição entre "indo-europeu" e "semítico" deve, portanto, ser reconstruída como religiosa mais que como linguística ou racial, essencialmente com na radical oposição de um ramo dos semitas, os monoteístas e mononacionalistas hebreus, à religião cosmológica dos outroas ramos da família indo-europeia (veja-se Josefo, Antigüedades Judías,  I, 157, y Filón, De Mutatione Nominum, 72-6).

[4] - Enlil, o deus sumério do Vento, é o mesmo que Vayu (sânscrito), Wata (avéstico) e Wotan (germânico), que representam o alento vital da divindade suprema em sua forma macro-antropomórfica.

[5] - As costas do norte do Mar Negro, na atual Ucrânia, podem ser identificadas como a pátria dos ários jaféticos.

[6] - P. Charvat, Mesopotamia before History, p. 92. Na Antiguidade grega, o negro pode ter denotado à matéria-prima, o vermelho à matéria, e o branco ao espírito (ibid., p.93). Isso corresponde às três energias básicas mencionadas na filosofia hindu: Tamas [matéria ou inércia], Rajas [movimento ou vibração] e Sattva [inteligência]. A associação das três castas indianas dos brâmanes kshatriyas e vaisyas com essas cores se deve ao predomínio dos elementos sáttvicos, rajásicos e tamásicos, respectivamente, presentes nelas.

[7] - G. Childe, The Dawn of European Civilization, Londres, 1961, p.109. A evidência germânica para este tipo data do período chalcolítico tardio (começos do 4º milênio a.C.) chamado Danubio III.

[8] - H. Heras, Studies in Proto-Indo-Mediterranean Culture, Bombay, 1953, p.465: "A raça mediterrânea, considerada etnologicamente, forma o subgrupo moreno dentro da raça branca, o qual se diz que se encontra na Europa na península ibérica, sul da França, sul da Itália, as ilhas do mediterrâneo e na Grécia continental".

[9] - Por "filhos" obviamente se faz referência a variantes anteriores e posteriores da raça caucásica com seus divergentes traços físicos e linguísticos. Se explicamos as culturas desenvolvidas pelos filhos de Noé com as subdivisões da raça europeia apresentadas por William Z. Ripley em The Races of Europe: A Sociological Study (1899), a jafética corresponderia ao ramo teutônico; a semítica, à mediterrânea, e partes da camita, à alpina (cf. A. Jacob, Atman: A Reconstruction of the Solar Cosmology of the Indo-Europeans, Hildesheim, 2005).

[10] - Nessa breve fala apresento o aparecimento somente dos ramos semita e jafético da raça indo-europeia. Para um estudo mais detalhado dessas, assim como do ramo camita, veja-se A. Jacob, op. cit.

[11] - Veja-se The Interpreter's Bible, I:560.

[12] - Veja-se A. E. Redgate, The Armenians, Oxford, 1998, p. 14.

[13] - Veja-se J. P. Mallory y V. H. Mair, The Tarim Mummies, p. 262.

[14] - Para um estudo mais detalhado da cosmologia dos antigos indo-europeus, veja-se A. Jacob, op. cit.

[15] - O tipo drida é quiçá mais evidente hoje entre os gauleses, cuja forma de pronunciar o inglês é notavelmente similar às dos indianos do sul.

[16] - A quarta cabeça do deus é invisível, já que está voltada para trás.

[17] - Veja-se p. ej., M. Jansen, Die Indus-Zivilisation.

[18] - Veja-se F. E. Pargiter, Ancient Indian Historical Tradition, Londres, 1922, cap. 26.
[19] - Por exemplo, Áed Rúad (veja-se o Lebor Gabála Érenn).

[20] - Veja-se J. Bottero, Le Problème des Habiru, Paris, 1954; cf. Early History of Assyria, Londres, 1928, p.192. A equiparação de "habiru" com "hebreu" é confirmada pela explicação de Filão desse último termo como "migrante" (De Migratione Abahami, 20).

[21] - O Sefer Yetzirá data de ao redor o século II d.C., e contém noções cosmogônicas babilônicas, egípcias e helênicas. O Zohar foi publicado primeiramente na Espanha no século XIII por Moisés de Leão, que atribuiu a obra ao rabino Simon bar-Yochai do século II d.C. Não obstante, grande parte do livro pode remontar-se à época do Talmud da Babilônia.

[22] - A maioria das doutrinas de Marcião devem ser retiradas do tratado de Tertuliano Adversus Marcionem, que rechaça o dualismo das doutrinas de Marcião em favor de um monoteísmo estrito.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Sebastian J. Lorenz - Indo-Europeus: Mitologia, Antropologia e Ideologia

por Sebastian J. Lorenz


Os Mitos de "Sangue e Terra"

Desde a mais remota antiguidade, a origem nórdica tem fascinado à maioria dos povos de estirpe indo-europeia, que assinalaram ou usurparam o Norte como pátria ancestral em seu imaginário étnico coletivo. De fato, a etnografia clássica assinalava a Ilha de Scandia, por referência a um lugar indeterminado entre Escandinávia e o Mar Báltico, como "fábrica de nações e matriz engendradora de povos" (Vagina Gentium). Certamente, nas estruturas religiosas dos indo-germânicos ocupa um lugar comum a referência a uma terra mitológica situada no norte, na qual seus deuses e heróis se forjam em uma dura luta contra a noite e o gelo eternos, utilizando poderes da natureza como o sol, o trono ou o fogo: o mito ariano nasce, precisamente, da fenomenologia e simbologia solares como patrimônio da raça branca nórdica frente aos mitos da noite e das trevas das raças escuras.

E os germânicos não foram uma exceção. Mais que isso, as distintas formações étnicas surgidas, com certa simultaneidade, como reação perante a queda do Império Romano, como os godos, os suevos, os vândalos, os francos, os alamanos, os anglos, os saxões, os burgúndios ou os longobardos, assim como, posteriormente, os escandinavos (dinamarqueses, suecos, noruegueses), competiram entre si para demonstrar sua primazia, sua pureza racial, fazendo remontar suas linhagens a longas árvores genealógicas que se perdiam na tradição escandinava das lendas nórdicas. Precisamente, este orgulho genético da origem nórdica constituiu a base fundamental para a formação de unidades etnopolíticas em torno às elites germânicas que tomaram o relevo civilizador de Roma, espalhando-se por todos os rincões do Velho Continente e provocando o nascimento do estamento real e nobiliárquico que regiria os destinos da Europa durante a Idade Média como uma autêntica "aristocracia de sangue" (Geburtsadel).

Tácito, um escritor latino, ao que parece metade romano, metade gaulês, estava convicto de que "os germânicos são indígenas e de modo algum estão misturados com outros povos, seja por resultado de migrações ou por pactos de hospitalidade". Nesse sentido, aderia à opinião "de que os povos da Germânia, ao não estarem degenerados por matrimônios com nenhuma das outras nações, lograram manter uma raça peculiar, pura e semelhante somente a si mesma. Daí que sua constituição física, no que é possível em um grupo tão numeroso, seja a mesma para todos: olhos ferozes e azuis, cabelos loiros, corpos grandes e capazes somente para o esforço momentâneo, não aguentam da mesma forma a fadiga e o trabalho prolongado, e muito menos a sede e o calor, se estão acostumados ao frio e à fome pelo tipo de clima e de território nos quais se desenvolvem". Devemos ter presente que Tácito utilizava a comparação racial entre romanos e germânicos com um objetivo de propaganda moralizante: a decadência e corrupção do Império Romano frente à originalidade e naturalidade dos costumes dos povos germânicos, longe do estado de barbárie e selvageria - tão humilhante para o nacional-socialismo, ainda que o próprio Hitler reconhecesse a superioridade da cultura grecorromana frente à celtogermânica - descrito pelos autores clássicos.

Não obstante as alusões que faz Tácito aos judeus, que se constituirão na historiografia e na filosofia germânicas como antítese dos arianos nórdicos, são bastante menos prosaicas: "Os costumes judaicos são tristes, sujos, vis e abomináveis, e devem sua persistência a sua depravação... Para os judeus é desprezível tudo o que para nós é sagrado e para eles é lícito o que nos repugna... Os judeus, entre si, mantem uma enorme fidelidade, uma piedade manifesta; por sua vez, para todos os outros, tem um ódio mortal... Quando os macedônios tomaram o poder, o rei Antíoco procurou extirpar suas superstições e introduzir os hábitos gregos para transformar essa raça inferior!.

Muito tempo depois, o historiador Montanelli, também de origem itálica, narrando com sua particular ironia a invasão da Grécia pelos dóricos, povo indo-europeu considerado pelos pensadoresn azistas como o melhor exemplo das essências arianas, os descrevia como "altos, de crânio redondo e olhos azuis, de um valor e uma ignorância a toda prova. Tratava-se, certamente, de uma raça nórdica". E mais adiante continua sua crítica dizendo que "os dóricos tinham uma feia enfermidade: o racismo. E até nisso se confirma que se tratava de nórdicos, que o racismo sempre levaram e seguem levando no sangue: todos, até os que de palavra o negam. Por bem que fossem muito menos numerosos que os indígenas, ou talvez precisamente por isso, defenderam sua integridade biológica, não raro com autêntico heroísmo como em Esparta".

Comentários despectivos à margem, nas descrições anteriores, tão distantes no tempo, encontramos as bases que fundamentarão o mito racial do nacional-socialismo. Trata-se de povos de origem nórdica, cuja pátria originária se situaria na região europeia compreendida pela Alemanha setentrional, Escandinávia e os Países Bálticos. Sua constituição física não deixa lugar a dúvidas: altos, fortes, loiros e de olhos azuis, o clássico padrão nórdico. Por esta condição não se misturaram com outros povos, ou o fizeram com grupos da mesma família genética, celtas, eslavos, baltos, itálicos, conservando a pureza de sua raça, inclusive quando entram em contato bélico ou colonizador com outras civilizações em busca do espaço vital necessário para assegurar sua sobrevivência racial. Por último, o racismo inato aos povos nórdicos, que ao longo da história será especialmente virulento com os povos de cor, os leva a defender sua integridade biológica, inclusive recorrendo à violência e à guerra, único ofício honrado para uma "raça ariana de senhores e conquistadores".

Os mitos do sangue e do solo (blut und boden), de uma raça nórdica herdeira da raça ariana primigênia (urvolk), cuja pátria originária (urheimat) se situava precisamente no solar ancestral dos germânicos, em algum lugar ao norte da Europa, assim como a necessidade de conseguir terras suficientes que assegurassem um espaço vital (lebensraum) para a conservação, desenvolvimento e predomínio daquela raça nórdica sobre outros povos eurasiáticos, especialmente a custa dos eslavos (drang nach osten), constituem os dois axiomas fundamentais da ideologia racial nacional-socialista: raça e espaço (rasse und raum).

E, não obstante, os milhares de livros publicados sobre Hitler, nacional-socialismo, o Terceiro Reich, a Segunda Guerra Mundial e o holocausto, se limitam a estudar, desde distintas perspectivas políticas, econômicas, sociais ou militares, as consequências derivadas do mito racial nazista, sem nem mesmo entrar na análise da ideologia racial que as provocou. Fórmulas simples e concludentes como a ideia triunfante na Alemanha nazista, segundo a qual os germânicos eram os mais puros representantes de uma raça ariana superior e os judeus a escala inferior da hierarquia racial bastam, em princípio, para explicar a guerra de aniquilação e destruição mais cruel que já viu a história da humanidade. Mas por trás desse simplismo, como falamos, subjazia ma autêntica ideologia racial que pretendia aplicar aos homens as mesmas leis de seleção e sobrevivência que regem a Natureza. E para isso, se adotaram uma série de medidas enquadradas em uma política biológica global e totalitária, que iam desde a eugenia ativa à reprodução seletiva, da eliminação dos elementos raciais e sociais indesejáveis à formação de uma elite racial aristocrática encarnada na Ordem das SS.

O mito ariano não é, não obstante, uma invenção de Hitler e do nacional-socialismo, mas sim fruto da manipulação ideológica sobre um problema real da arqueologia e da linguística em relação com a existência das línguas e povos conhecidos como "indo-germânicos" ou "indo-europeus", dos quais os "arianos" não seriam mais que sua extrema ramificação oriental, mas aos quais se outorgou uma pureza e uma preeminência racial e atribuiu uma lendária origem nórdico-germânica. Mas o ideal racial não interessou somente aos cientistas, quase sempre próximos aos postulados ideológicos e raciais do nazismo, como Kossinna, Penka, Reche, Lenz, Fischer ou Wirth, mas também a grandes pensadores ou criadores alemães como Herder, Fichte, Hegel, Kant, Sombart, Weber, Schopenhauer, Nietzche, Wagner, Spengler, Jünger, Schmitt, Jung ou Heideger. Com estes precedentes ideológicos, de da mão de disciplinas auxiliares como a mitologia, a filologia, a arqueologia e a antropologia, os autores racistas, como Gobineau, Vacher de Lapouge, Woltmann, Chamberlain, Rosenberg, Günther, Clauss e Darré, construíram uma doutrina "ário-nórdica" que logo se identificou com a Alemanha nacional-socialista, mas que levava vários séculos fluindo pelas frágeis aberturas ideológicas do humanismo europeu.

O culto à raça ariana, em suas versões germânica ou nórdica, que se foi consolidando na Europa desde princípios do século XIX, não adquiriu em nenhum dos nacionalismos racistas do continente a orientação biologista e genetista que alcançou na Alemanha. Da ideia de uma missão de domínio mundial para a salvação da humanidade, à qual o povo alemão parecia estar predestinado, se passou, sem transição alguma, à preocupação pela pureza do sangue germânico, cuja futura hegemonia universal se encontrava em perigo pelos efeitos nocivos e contaminantes de sangues impuros como o judaico, o eslavo ou o latino, messianismo racial, sem dúvida, que não obstante não trazia sua causa de um ódio ou preconceito específico, mas de poderosas imagens coletivas que deformavam as características físicas e éticas daqueles, infra-humanizando-os e, inclusive, demonizando-os, em contraste com a beleza e honra germânicas, quando em realidade se tratava de uma manobra, muito trabalhada ideológica e filosoficamente, de proteção de determinados interesses econômicos, territoriais e militares que, finalmente, Hitler soube explorar adequadamente, se bem que com um fanatismo que, certamente, não teriam compartilhado seus principais inspiradores ideológicos.

Não obstante a distinção entre uma "raça superior" e outras "inferiores", o racismo alemão se fundamentava em uma hierarquização racial arbitrária e cruel em cuja cúspide se situavam os descendentes de sangue nórdico-germânico. Segundo Blank (o velho e novo fascismo), "os nazistas proclamaram que a raça germânica (nórdica ariana) é portadora das melhores qualidades das raças humanas: a lealdade ao dever e à honra, valor e audácia, capacidade organizativa e potencial de criação. Quanto mais puro é o povo no aspecto racial, mais claramente pode expressar essas qualidaes. Nenhuma raça na Terra está dotada das qualidades da raça germânica, que é a parte melhor, a superior, da raça nórdica ariana. Todas as outras raças são inferiores porque estão arruinadas pelas misturas com outras raças, que originaram nelas traços negativos. São inferiores aos alemães os escandinavos e os ingleses (estes últimos estão contaminados pelo espírito mercantilista e pela influência dos plutocratas); ainda mais inferiores são os franceses e os espanhóis; os seguem, em ordem decrescente, o povo italiano e o romeno, e mais abaixo, os eslavos. Entre os povos asiáticos, os japoneses são a raça eleita; abaixo deles estão os indianos e depois os coreanos e os chineses. Os negros são inferiores aos asiáticos. E nos cimentos da pirâmide racial estão os árabes, junto aos cimentos se encontram os ciganos e, por último, no fundo, à margem do conceito de raças aptas para a vida, estão os judeus, que segundo a terminologia hitlerista são "sub-humanos", "uma raça irremediavelmente viciada e que segue envenenando a outras raças viáveis".

Contudo, a definição de "ariano" na Alemanha nazista seguiu sendo tão imprecisa quanto premeditadamente vaga era também sua concepção na doutrina de Hitler, que utilizará o "arianismo" segundo as circunstâncias biopolíticas ou geopolíticas de cada momento em benefício de sua política racial e expansionista. Em princípio, a condição de "ariano" se predicava a qualquer alemão que não fosse judeu ou negro, nem de origem africana ou asiática, nem tivesse ascendentes de tais raças até a terceira geração. Mas esta circunstância pôde aplicar-se, em função dos acontecimentos da política internacional e da marcha da guerra, a todos os europeus que não tivessem tal ascendência, de tal forma que tão "ariano" podia ser um alto e loiro escandinavo, como um escuro e vivaz mediterrâneo.

Na prática quotidiana da Alemanha nazista, não obstante, a condição de "ariano" se media, não tanto atendendo a determinadas características antropológicas de origem, como ao grau em que uma pessoa podia demonstrar sua utilidade e serviço à comunidade racial alemã, de tal maneira que a pretendida pureza racial, deixando à margem o âmbito particular das SS, dependia exclusivamente do capricho da hierarquia nazista para decidir quem podia ser considerado como arianos puros ou não. Bastava que um alemão classificado como "racialmente ariano" se comportasse como um dissidente ou manifestasse qualquer dúvida perante o regime para que, imediatamente, fosse considerado como um "bastardo judaizado", ao menos de um ponto de vista espiritual e ideológico.

O antropólogo-raciólogo oficial do regime Hans F.K. Günther descrevia assim o que não sera senão um anseio: "A questão não radica em se nós somos agora mais ou menos nórdicos; a pergunta que devemos nos fazer é se temos ou não a valentia de legar às gerações futuras um mundo capaz de se purificar no sentido racial e eugênico". Tratava-se, nada mais e nada menos, que de um movimento orientado à "nordicização" (Aufnordung): "o movimento nórdico pretende voltar a despertar no povo alemão a força criadora que antes possuiu o germanismo, e isso se conseguirá por meio de um triunfo na natalidade dos elementos germânicos, isto é, de caráter nórdico". Os líderes nacional-socialistas, especialmente o próprio Hitler, eram perfeitamente conscientes de que o povo alemão não constituía uma raça pura e, muito menos, nórdica, pelo que essa foi adotada como um "modelo racial ideal" ao qual se devia chegar por todos os meios da ciência eugênica e da seleção racial. E a antropologia se converteu assim na ferramenta propagandística que clamava pela purificação da raça alemã. O ambicioso sonho nazista era transformar substancialmente a natureza biogenética do povo alemão.

Não obstante, o mito ariano não foi nunca abandonado. Ao fim e ao cabo, aqueles povos arianos, indo-germânicos ou indo-europeus, de origem nórdica, que com o contato com as culturas autóctones, provocaram, segundo o discurso nazista, o nascimento de grandes civilizações na Índia, Pérsia, Grécia, Roma e, inclusive, para os ideólogos afeitos ao nazismo, também no Egito pré-dinástico, China e as misteriosas culturas pré-colombianas, assim como a maioria dos Estados europeus medievais surgidos após as invasões germânicas, deviam se encontrar presentes, em maior ou menor medida, na composição biogenética de todos os povos europeus. E isso havia culminado na civilização europeia ocidental exportada a todos os continentes. Dessa forma, a "germanidade" se convertia no nexo comum que unia a todos os povos europeus e, em consequência, deviam ser os alemães, os mais puros representantes dos antigos germânicos, os chamados a cumprir a missão de unificar a Europa sob seu domínio racial e espiritual (Herrschertum).

Desde logo, as diversas ondas migratórias dos germânicos (Völkerwanderung) se estenderam desde os fiordes nórdicos até o mar mediterrâneo e as estepes russas. Eram germânicos os vândalos que passaram pela Península Ibérica e ocuparam efemeramente Cartago no norte da África, como também o eram os visigodos (ou talvez fossem baltos?) e os suevos instalados na Hispania, os francos e burgúndios que deram lugar ao Império Carolíngio, os ostrogodos e os lombardos na Itália, os anglos, saxões e jutos que invadiram a Grã-Bretanha e, é claro, os alamanos, os saxões, os turíngios, os bávaros e outros povos que provocaram o nascimento dos países de língua alemã (Áustria e Alemanha), ou como os frísio, os holandeses, os dinamarqueses, os suecos e os noruegueses que ficaram perto de seus lugares de origem. Em todos os casos, salvo no norte da Europa, nas regiões escandinava, alemã setentrional e báltica, onde formarão o contigente humano majoritário, os germânicos se encontrarão em franca minoria em relação às populações autóctones, inferioridade quantitativa que souberam compensar privilegiadamente mediante sua constituição como uma aristoracia de sangue, uma casta senhorial e nobiliárquica somente apta para a arte de governar e fazer a guerra.

Posteriormente, se produziram vários episódios de regermanização da Europa: germânicos eram os povos nórdicos, conhecidos como normandos ou vikings, que voltaram a invadir as Ilhas Britânicas, ocuparam o noroeste da França (Normandia) e colonizaram a Islândia e a Groenlândia até alcançar o continente americano; germânicos nórdicos eram também os "rus" que fundaram os primeiros principados russos, os que se apossaram da ilha da Sicília e os que formaram a guarda "varyag" em Bizâncio. Germânicos, se bem que agora exclusivamente alemães, os que sob o auspício do Império e o ímpeto expansionista da Ordem dos Cavaleiros Teutônicos germanizaram extensas regiões da Hungria, Boêmia, Morávia, Eslovênia, Romênia, Polônia e os Países Bálticos; germânicos prolíficos, sem dúvida, que chegaram a constituir a República dos Alemães do Volga na extinta União Soviética. E, enfim, germânicos eram também (majoritariamente anglo-saxões, escandinavos, holandeses e alemães) os europeus que colonizaram a América do Norte, a África do Sul e a Austrália.

O denominador comum a todos eles é bem conhecido: o expansionismo militar ou colonizador, a conservação do patrimônio biogenético mediante uniões intrarraciais e o estabelecimento de uma hierarquia sócio-racial que convertia aos germânicos em uma autêntica aristocracia, nobreza de sangue, e aos "inferiores" povos coabitantes, fossem ameríndios, africanos, semitas ou aborígenes australianos, em vítimas propiciatórias dos deslocamentos, submissões, da exploração ou do extermínio.

Pois bem, voltando àqueles povos primitivos de uma suposta raça nórdica - arianos, tocharianos, dórios, jônios, aques, macedônios, trácios, dácios, frígios, ilírios, latinos, celtas, baltos, eslavos e germânicos - observamos retrospectivamente seu insistente constume de instalar-se, como uma aristocracia de senhores e guerreiros, nas culturas euromediterrâneas e indo-arianas, submetendo ou escravizando a seus povoadores, mas mantendo uma autêntica separação ou segregação racial a fim de preservar suas características étnicas (dórios espartanos, patrícios romanos, brâmanes hindus, nobres germânicos), até que as implacáveis leis da convivência humana impuseram a mestiçagem racial, a hibridização cultural e, por fim, a inevitável decadência racial e espiritual que, segundo Gobineau, acaba com todas as civilizações. Milhares de anos depois, o movimento nazista se propôs a recuperar a figura nórdica do ariano criador, conquistador, dominador e escravizador. E para cultminar essa obra, o povo escolhido não podia ser outro que o germânico, o mais puro dos antigos nórdicos.

O fato histórico transcendental, que provocou tal explosão ideológica, é que em torno ao 5º milênio a.C., começa a grande expansão, a Grosswanderung, desde o norte da Europa, de uns povos aparentados cultural, linguística, religiosa e, nos arriscamos a supôr, também antropologicamente. Invadirão, em sucessivas ondas migratórias, toda Europa, chegando ao Mediterrâneo e ao norte da África, assim como às atuais Turquia, Armênia, Curdistão, Irã, Afeganistão, Paquistão, Índia e a parte ocidental da China. Fundarão, em contato com as populações autóctones de origem euromediterrânea e afroasiática, as grandes civilizações que são fundamento do mundo que hoje conhecemos. São povos de guerreiros e conquistadores, que praticam um tipo de nomadismo depredador e que dominam a arte e o ofício da guerra, com suas armaduras, escudos, espadas e machados, a montaria de cavalo e a carruagem de combate. Se impõem com facilidade aos povos submetidos, pacíficos, sedentários e agrícolas que vivem, com escassa proteção, em vales, planícias, estepes e litorais, próximos aos mares, lagos e leitos de rio sobre os quais giram suas concepções domésticas da vida.

A chegada desses invasores implica em uma mudança notável: a sociedade se torna hierárquica, em cuja cúspide se situam os conquistadores, os quais, durante muito tempo, praticam uma separação radical, racial, social, cultural, confessional, com os indígenas, quando inauguram uma organização trifuncional (senhores, guerreiros e camponeses ou servos) e um tipo de assentamento em forma de cidades fortificadas que se situam nos altos promontórios naturais. Os testemunhos dos povos submetidos nos legaram numerosas descrições de seu aspecto físico: altos, fortes, loiros e de olhos azuis. Descrições que, saltando as distâncias, correspondem ao tipo nórdico atual e que, obviamente, devem ter surpreendido, por pouco comuns, aos povoadores periféricos do mundo civilizado de então, de pequena ou média estatura e traços escuros. Mas, realmente, de onde vinham estes conquistadores? Quem eram? Como eram?

Uma Língua, Um Povo, Uma Pátria

Gustav Kossinna, e posteriormente também Adriano Romualdi, pensava que "a raça nórdica dolicocéfala deve ter se desenvolvido a partir dessas duas raças do paleolítico superior, a Cro-Magnon e a de Aurignac-Chancelade, durante o primeiro neolítico ou o mesolítico que segue à glaciação e se considera o início da Idade da Pedra". De fato, a arqueologia documenta um deslocamento do elemento cro-magnoide da Europa ocidental na direção do Báltico. Outros, como Hans F.K. Günther, negavam que a raça nórdica fosse o resultado de uma evolução, ou mais tecnicamente, de uma adaptação, do Cro-Magnon, que podia dar lugar à raça fálida, sendo mais provável a mutação da de Aurignac no território livre de gelo da Europa central. Mas ambos aceitaram de forma acrítica que os falantes da língua indo-europeia original pertenciam a uma raça nórdica de homens altos e loiros, que viviam na antiga região alemã e que em sucessivas ondas, invasões e conquistas levariam o progresso cultural, unido à superioridade biológica, às civilizações clássicas.

No que estavam de acordo, de Otto Reche a Hans Günther passando por Kossinna, é que foi a Europa do último período glacial o berço da raça nórdica e, portanto, dos indo-europeus, sendo ademais na atualidade, algo que passam por alto muitos autores, a região do mundo em que, à margem de outras migrações mais recentes, se encontra em maior número e com maior fidelidade o tipo humano nórdico, enquanto que a área que vai da Ásia Menor até a Ásia Central foi, frequentemente, a tumba de numerosos povos indo-europeus (hititas, anatólios, armênios, frígios, tocharianos, arianos e indo-iranianos em geral), na qual foram fagocitados deixando, talvez, sistemas linguísticos, organizações hierárquicas ou certas tradições religiosas, mas não seus traços físicos e antropológicos.

Concluindo, podemos aventurar, sempre no terreno da especulação história e não no da constatação antropológica e arqueológica, que o tipo de "homo sapiens sapiens" desenvolvido na Europa, seja o de Cro-Magnon ou o de Aurignac, apareceu em algum lugar da região compreendida entre os mares Báltico e Negro, originando as primeiras povoações pré-indo-europeias: as que permaneceram em seus lugares de origem, dando lugar ao tipo europeu oriental "caucásico"; as que emigraram para o sl da Europa em busca de terras férteis, que seriam os ancestrais do tipo europeu ocidental "mediterrâneo"; e as que emigraram para o norte à caça de animais conforme o gelo ia retrocedendo e descobrindo novas terras inóspitas, que seriam os antepassados do tipo europeu "nórdico". Nessa pátria secundária de neves perpétuas e tênues luzes adquiririam os traços físicos que, segundo parece, caracterizaram os povos indo-europeus que, posteriormente, certamente coincidindo com outra época intermediária de clima glacial, emigrariam novamente para o sul, chegando ao Mediterrâneo, e para o leste, alcançando o Índico, misturando-se com as populações pré-indo-europeias que lhes precederam.

A seguinte exposição não deixa de constituir mais uma hipótese, mas cumpre perfeiamente o papel de ponto de partida para compreender o complexo processo de formação e posterior migração de determinados conjuntos étnicos que a linguística englobou em torno ao conceito de "indo-europeus". Pois bem, em torno ao ano 13.000 a.C. começa o grande degelo no norte da Europa. Até o ano 10.000 a.C. os gelos já haviam se retirado até a área norte da região de Hamburgo; no ano 9.000 a.C. o gelo libera a região de Copenhague e no 7.500 a.C. a área de Estocolmo, completando-se o degelo e formando-se o mar Báltico; posteriormente, por volta do 5.500 a.C., a terra livre do gelo se eleva e as águas liberadas ocupam as zonas baixas, originando o mar do Norte e separando as Ilhas Britânicas e Escandinávia do resto do continente.

Os protonórdicos (pônticos, caucásicos, danubianos?) seguem às manadas de animais que migram para o norte, assentando-se na Europa setentrional, caçando e pescando, até que surge a agricultura neolítica oriunda da Ásia Menor, que penetra pelos Bálcãs e através do Mediterrâneo, alcançando o Danúbio e posteriormente o Báltico meridional. Os povoadores da cultura dos "campos de urnas" (Urnenfelderkultur) não constituem todavia um povo indo-europeu definido, mas um conjunto ainda indiferenciado dos paleo-europeus que permaneceram em seus lugares de origem, mas que até o ano 1.400 a.C. vão adquirindo uma fisionomia própria: ilírica, céltica, itálica, germânica. Começa então a grande migração para o sul, a Grossewanderung, e posteriormente, no período 1.200-1.000 a.C., partindo do Cáucaso e passando por Irã e Afeganistão, os indo-iranianos, dos quais os arianos seriam apenas um grupo diferenciado, chegam à Índia. Seu caráter guerreiro, a simbologia solar da suástica, a lembrança de uma pátria nórdica ancestral e seu característico blondismo, os converterão em um útil instrumento para construir uma mítica identificação com os jovens povos germÂnicos. Quanto à pátria originária (urheimat), segundo Alain de Benoist (Indoeuropeus: Em Busca da Pátria de Origem) existem atualmente duas teses majoritárias. A primeira delas é a nórdica ou germânica. Assim entenderam Hermann Wirth e Karl Penka, a quem devemos a equação "indoeuropeu = dolicocéfalo loiro de olhos azuis", e para os quais a zona do Báltico não podia ser a pátria originária por estar habitada por "braquicéfalos racialmente inferiores", distintos dos autênticos arianos, "raça poderosa e enérgica como é a raça loira". Penka afirmará que "os arianos puros só estão representados por alemães do norte e pelos escandinavos, uma raça muito prolífica, de grande estatura, força muscular, energia e coragem, cujos esplêndidos atributos naturais lhes permitiram conquistar a raças mais frácas do leste, sul e oeste e impôr sua língua aos povos submetidos".

A segunda escola majoritária, que é também a mais corroborada pelas descobertas arqueológicas, defende a tese de uma pátria russo-meridional. A lituana Marija Gimbutas, seguindo este caminho, propôs as estepes do sul da Rússia, do Ponto ao Volga, como pátria original, utilizando o conceito da "cultura dos kurgans" (a primeira manifestação conhecida da cultura dos túmulos funerários) desenvolvida por volta do 5º milênio a.C. e que teve vários movimentos migratórios: 1) por volta do 5º milênio a.C. (ao redor do 4.400) a primeira onda alcançou a Europa balcânica e danubiana; 2) no milênio seguinte (entre o 3.500 e o 3.000 a.C.) se produz um deslocamento duplo, pelo Cáucaso rumo ao domínio indo-iraniano, por um lado, e rumo a Europa central, pelo outro; 3) no 3º milênio a.C. teve lugar uma penetração, que não seria a última, na direção do Mediterrâneo, alcançando a península anatólica e o noroeste africano.

Para Alain de Benoist, não obstante, as teorias sobre a localização de uma pátria original russo-meridional ou euro-setentrional não são irreconciliáveis. Para Ward Goodenoug, a cultura dos "kurgans" de Gimbutas não seria senão a extensão pastoril da cultura indo-europeia desenvolvida no norte da Europa; uma parte desse povo, depois de destruir a cultura paleolítica europeia, teria descido para o sul (o povo do machado de guerra) difundindo a cerâmica polida e a metalurgia do bronze. Os restos étnicos que permaneceram na Europa central formariam os contingentes das migrações posteriores. Essa teoria obteve a aprovação de um dos autores mais especializados na questão indo-europeia, James Mallory, que situa o lar ancestral em uma zona delimitada entre os rios Elba e Vístula, margeando ao norte com a península da Jutlândia e ao sul com os montes Cárpatos. Enquanto isso, a tese nórdico-europeia tem sido aceita, em datas recentes, por Harold Bender, Hans Seger, Schachermeyer, Gustav Neckel, Ernst Meyer, Julius Pokomy e, mais recentemente, por Nicolás Lahovary, Paul Thieme e Raim Chandra Jaim.

Em qualquer caso, ainda que a questão da pátria de origem dos povos indo-europeus siga sendo objeto de debates linguísticos e arqueológicos polêmicos e interessantes, a teoria sincrética que provoca menos rechaço entre os estudiosos situaria a urheimat na extensa zona compreendida entre o mar Netro e o Báltico, epicentro indo-europeu a partir do qual se deslocariam os vários povos em todas as direções, alguns deles avançando lentamente para o norte da Europa, consolidando uma série de povos nórdicos com o característico fenótipo claro e dando lugar a uma etnogênese que conformaria posteriormente os distintos conjuntos tribais proto e indo-germânicos. O outro grupo separado do tronco original, importanto também quantitativamente, se assentaria em todos os cantos do sul da Europa, adquirindo o fenótipo mais escuro típico dos povos mediterrâneos, matizado posteriormente pelas contribuições dos povos vindos do centro e norte da Europa.

O "problema indo-europeu" foi realmente uma questão de identidade estritamente europeia. Quando ainda se acreditava que a luz civilizadora vinha do Oriente, apareceram os "arianos" como povo originário e primigênio (ariervolk), cujas migrações posteriores para o Ocidente teriam colonizado toda Europa. Conforma ia se desprestigiando a crença em uma exótica origem asiática e se abria caminho para as teorias eurocêntricas mais realistas, na Alemanha, possuída por uma quase divina predestinação de sua missão universal para salvar a humanidade, se adotou o nome de "indo-germânicos", unindo as duas ramificações extremas daquele povo misterioso (indo-iranianos no leste, germânicos no oeste) que, posteriormente, fundamentando-se nas descrições físicas que os autores clássicos faziam dos indivíduos (altos, fortes, loiros e de olhos azuis), confirmadas pelas provas arqueológicas e antropológicas encontradas na Escandinávia, Alemanha setentrional e Báltico, então os nazistas cunharam a denominação exclusiva de "nórdicos", aproveitando que o Reno passa pela Germânia, como havia escrito um Tácito latino ofuscado pela decadência dos romanos frente à vitalidade dos bárbaros germânicos.

O "arianismo" teve em suas origens umas conotações românticas que pretendiam enviar uma mensagem moralizante sobre a decadência da cultura ocidental em comparação com o estado puro e virginal de uma civilização ariana anterior à história, mas não pré-histórica, senão para-histórica. O germanismo mais radical, não obstante, se apropriou da origem ariana para proclamar e reivindicar seus direitos ao domínio mundial, convertendo o povo originário, mediante uma transmutação biogenética, na raça nórdica de senhores e conquistadores, selecionados naturalmente para a "arte de governar e fazer guerra". Estamos irremediavelmente diante de um autêntico "mito europeu", que começou fragilmente sua caminhada das mãos do darwinismo social para legitimar, entre as classes políticas e intelectuais, o supremacismo branco cúmplice do colonialismo depredador e das políticas discriminatórias, que faziam do europeu, especialmente dos nórdicos, o "prometeu da humanidade" (para empregar a conhecida expressão hitlerista) frente aos "escravos de uma sub-humanidade" luciferiana despossuída da evolução divina.

Dessa forma, no extremo oriental ocupado pelos "indo-europeus", nos encontramos com um povo misterioso que se denomina com o termo endoétnico "aryas", com o sentido de "nobre", ainda que haja autores, como o indólogo Paul Thieme que embaralham um termo exoétnico com o significado de "estrangeiro". Em todo caso trata-se dos conquistadores da Pérsia (Irã), Afeganistão, Paquistão e Índia. O livro sagrado Rig Veda reflete que se designavam a si mesmos com esse nome popular. O Avesta fala do Airyanem Vaejah (pátria solar dos arianos). Durante o Império Aquemênida, séculos mais tarde, os habitantes do Irã (evolução de Aryan) ainda utilizavam denominação idêntica e de alguns personagens se dizia que eram "arya-cica" (de origem ariana) ou "arya-putra, arya-kanya" (como títulos senhoriais). O nome do bisavô de Dario era Ariyaramma e o próprio Dario se considerava "de estirpe ariana, rei dos arianos". O termo teria perdurado no nome moderno do Irã, também no da Irlanda (Eire) e no de Ironistão, nome que dão os ossetas caucásicos, descendentes dos alanos indo-iranianos, a sua pátria (em sua língua se chamam "iron"). No extremo ocidental, ademais, se conservou a denominação de "arianos" em alguns antropônimos como o celta "Ariomano", os germÂnicos "Ariovisto", "Ariomer" ou "Ariogais", o escandinavo "Ari", o celtibérico "Arial", o gótico "Ariarico", o latino "Ariolus" e, inclusive, os gregos "Ariel", "Arianna" e "Aris".

Um inciso. Em relação ao conceito de "indo-europeu", introduzido pelo britânico Thomas Young, tecnicamente impreciso, mas que teve a sorte de substituir ao de "indo-germânico", cuja utilização nacionalista e racista na Alemanha durante o Segundo e Terceiro Reich o condenou ao ostracismo, há que sublinhar que não deixa de ser uma construção artificiosa e imprecisa, sendo preferíveis, em qualquer caso, os de "alteuropeu" ou "paleoeuropeu", no sentido de "europeu antigo", para designar o grupo étnico originário, enquanto aquele ficaria reservado ao âmbito da linguística comparada.

Fundamental na construção do mito ariano foi o romântico alemão Friedrich Schlegel, que pode ser considerado como o fundador da "indo-germanística". Estudioso do sânscrito e, por extensão, de todas as línguas indo-europeias aparentadas, em uma época em que se acreditava que a origem da raça branca devia se situar no norte da Índia e que logo irradiou por todo Ocidente, parece que foi o criador do termo "ariano", fazendo-o derivar do sânscrito "arya", com suas notáveis correspondências no grego "aroi", relacionado com o de "aristós" (nobreza) e o de "areté" (virtude), o latino "herus" (senhor), o irlandês "air" (honrar) ou o alemão "ehre" (honra) ou "herr" (senhor). Durante todo o século XIX, os linguistas passaram da defesa da origem asiática desses povos para situá-lo em distintos lugares da Europa: a zona caucásica, as estepes russas, a região danubiana, os países bálticos, o setentrião alemão, a península escandinava, etc.

Posteriormente, o hindu Lokamanya Bal Gangadhar Tilak, baseando-se em uma série de tratados e rituais védicos (o Devayana e o Pitriyana), chegava a conclusões radicais sobre o lugar de origem dos arianos, que descreviam uma divisão do ano em duas partes, uma indeterminada e outra clara, como nas zonas polares onde se conhece um dia e uma noite de seis meses cada uma (seis meses de claridade e seis meses de escuridão, como nas regiões setentrionais). De fato, o Avesta informa igualmente que, na pátria originária dos arianos, o inverno contava com dez meses, enquanto que o verão só contava com dois. Para desenvolver sua tese, Tilak recorria também a inúmeros mitos gregos, romanos, germânicos, eslavos e indianos, que mencionavam uma região primitiva ártico-hiperbórea ou circumpolar, nas regiões próximas ao pólo ártico, caracterizada por uma noite interminável, na qual os estrangeiros conquistadores da Índia deviam ter tido seu primeiro lar.

Por sua parte, o Rig Veda descreve as lutas dos "aryas" (grandes, belos, de belo nariz) com os "dasyus" (pequenos, negros, sem nariz). Distingue entre uma "aryavarna" (cor ariana) e uma "dasavarna" (cor inimiga) ou um "krishanavarna" (cor escura). Os arianos são loiros, "hari-kesha" (de cabeça loira) ou "hari-shmasharu" (de barba loira), ou simplesmente dos "hari" (os loiros). Também os deuses e os heróis homéricos são descritos como loiros ou de cabelos dourados como o sol, de pele branca como a neve e de olhos com a íris azul como o céu. E assim também os latinos romanos, cujas primeiras elites (os ascendentes dos patrícios) mostravam um acentuado blondismo no cabelo ("rutilus", loiro forte, ou "flavus", loiro suave), olhos azuis ("caesius") e estatura elevada ("longus") que, por outra parte, impregnaram o ideal estético romano.

Dessa forma, o tipo físico predominante entre os antigos povos indo-europeus, dos arianos aos germânicos, se converteu logo em objeto dos comentários dos escritores clássicos, que eram coincidentes na notoriedade de seus corpos altos, ágeis e musculosos, pele branca rosada, cabelos loiros ou ruivos e olhos azuis, se bem isso deve ser posto em relação com a novidade que seria para os olhos dos observadores mediterrâneos, de pigmentação escura, a descoberta de traços físicos tão distintos aos seus ainda que, sem dúvida, eram também os que correspondiam ao cânone da beleza clássica, certamente imposto pelos conquistadores nórdicos anteriores como os helenos, os ilírios e os latinos. Em qualquer caso, essas descrições corresponderiam ao elemento mais visível desses conjuntos populares multitribais, isto é, aos nobres chefes e guerreiros, dadas suas práticas endogâmicas, mas não ao resto da população, que seria o resultado de um amálgama multiétnico muito distante já do Herrenvolk (raça de senhores) glorificado pelos antropólogos afeitos ao nazismo.

Mas o mito já estava servido: o debate sobre a pré-existência de uma humanidade "ário-nórdica" superior, aberto quiçá prematuramente e fechado abruptamente pelos interesses e objetivos de uma doutrinação secular dirigida às novas gerações, formadas em uma frágil consciência europeia e presas de uma suposta culpabilidade derivada da vitimização causada por um estigma racial que não se consegue compreender, nem interpretar, pelos parâmetros humanistas e racionalistas entre os que se desenvolve, e se revolve, a mal chamada civilização ocidental.

Mas realmente, existiu um nexo intra-histórico e ideológico comum entre Darwin, Schlegel, Gobineau, Chamberlain, Wagner e Hitler? A resposta deveria ser rotundamente negativa. Não obstante, a forma pela qual Hitler, que se considerava herdeiro da refinada cultura europeia de tradição greco-romana frente à rudeza dos costumes nórdico-germânicos, soube vulgarizar, sintetizar, popularizar, ideologizar e, finalmente, explorar as constantes vitais da "arianidade" em busca de seus objetivos "biogeopolíticos" de expansão territorial, colonização racial e dominação mundial, poderia nos fazer pensar na tangibilidade desse condutor inexorável a que chamamos destino. Algo em que no crê o autor, ainda que a história, em ocasiões, esteja condenada a se repetir.

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