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terça-feira, 28 de junho de 2011

O Quinto Império

por Fernando Pessoa



Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz -
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem,
Que as forças cegas se dormem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatros se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vai viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Noite

por Fernando Pessoa

A nau de um deles tinha-se perdido
No mar indefinido.
O segundo pediu licença ao Rei
De, na fé e na lei

Da descoberta, ir em procura
Do irmão no mar sem fim e a névoa escura.
Tempo foi. Nem primeiro nem segundo
Volveu do fim profundo


Do mar ignoto à pátria por quem dera
O enigma que fizera.
Então o terceiro a El-Rei rogou
Licença de os buscar, e El-Rei negou.


Como a um cativo, o ouvem a passar
Os servos do solar.
E, quando o vêem, vêem a figura
Da febre e da amargura,


Com fixos olhos rasos de ânsia
Fitando a proibida azul distância.
Senhor, os dois irmãos do nosso Nome
-- O Poder e o Renome--


Ambos se foram pelo mar da idade
À tua eternidade;
E com eles de nós se foi
O que faz a alma poder ser de herói.


Queremos ir buscá-los, desta vil
Nossa prisão servil:
É a busca de quem somos, na distância
De nós; e, em febre de ânsia,


A Deus as mãos alçamos.

Mas Deus não dá licença que partamos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A Guerra é a Mãe de todas as Coisas

"O patriotismo - vimos nós e demonstramos - é a base do instinto social, é, mesmo, o único instinto social verdadeiro; não é de resto, mais que um egoísmo coletivo, ou, melhor, a forma colectiva do egoísmo, base de toda a vida psíquica. Demonstramos também que, ao contrário da inteligência - que busca compreender e, pois que o busca, não pode odiar aquilo cuja compreensão a atrai -, o instinto odeia tudo quanto não seja ele, que o instinto é, portanto, radicalmente antagonista; que, portanto, a atitude normal de qualquer nação com relação às outras é o ódio; que a guerra é, por conseguinte, o estado natural da humanidade, não sendo a paz, evidentemente, mais que um estado de preparação para a guerra.
É esta a velha tese do povo inglês, do damned foreigner; é esta a teoria para sempre célebre de Heráclito, quando, comentando o desejo de Homero, de que as guerras cessassem de vez, diz que se as guerras cessassem, a própria vida cessaria, porque a 'guerra', diz, 'é a mãe de todas as coisas'. E assim é (...).
A tese, com efeito, pode ser alargada, e aplicada não só ao egoísmo nacional, como também ao egoísmo dos indivíduos. Se o amor é fonte de toda a vida física, o ódio é a fonte de toda a vida psíquica. É do ódio entre homem e homem que a civilização nasce, é da concorrência entre homem e homem que o progresso surge, é do conflito entre nação e nação que a humanidade recebe o seu impulso. Só a paz é infecunda, só a concórdia é improfícua, só o humanitarismo é anti-humanitário. E assim morre, ante a análise sociológica, o último dos falsos princípios da Democracia moderna.
E como vimos que a base do instintivismo social é o sentimento patriótico; como vimos que o instinto é radicalmente antagonista, sabemos, por conclusão, que não há instinto patriótico que não seja antagonista e guerreiro. No que pacifista, portanto, a democracia moderna é radicalmente inimiga do sentimento patriótico, radicalmente antipatriótica e antinacional."
(Fernando Pessoa)