Mostrando postagens com marcador Ernst Jünger. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ernst Jünger. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Armin Mohler: discípulo de Sorel e teórico da vida concreta

Por Dr. Karlheinz Weissmann

O “mito”, como a “representação de uma batalha”, surge espontaneamente e exerce um efeito mobilizador sobre as massas, incute-lhes uma “fé” e torna-as capazes de actos heróicos, funda uma nova ética: essas são as pedras angulares do pensamento de Georges Sorel (1847-1922). Este teórico político, pelos seus artigos e pelos seus livros, publicados antes da primeira guerra mundial, exerceu uma influência perturbante tanto sobre os socialistas como sobre os nacionalistas.
Contudo, o seu interesse pelo mito e a sua fé numa moral ascética foram sempre – e continuam a sê-lo apesar do tempo que passa – um embaraço para a esquerda, da qual ele se declarava. Podemos ainda observar esta reticência nas obras publicadas sobre Sorel no fim dos anos 60. Enquanto algumas correntes da nova esquerda assumiram expressamente Sorel e consideravam que a sua apologia da acção directa e as suas concepções anarquizantes, que reclamavam o surgimento de pequenas comunidades de “produtores livres”, eram antecipações das suas próprias visões, a maioria dos grupos de esquerda não via em Sorel mais que um louco que se afirmava influenciado por Marx inconscientemente e que trazia à esquerda, no seu conjunto, mais dissabores que vantagens. Jean-Paul Sartre contava-se assim, evidentemente, entre os adversários de Sorel, trazendo-lhes a caução da sua notoriedade e dando, ipso facto, peso aos seus argumentos.

Quando Armin Mohler, inteiramente fora dos debates que agitavam as esquerdas, afirmou o seu grande interesse pela obra de Sorel, não foi porque via nele o “profeta dos bombistas” (Ernst Wilhelm Eschmann) nem porque acreditava, como Sorel esperara no contexto da sua época, que o proletariado detivesse uma força de regeneração, nem porque estimava que esta visão messiânica do proletariado tivesse ainda qualquer função. Para Mohler, Sorel era um exemplo sobre o qual meditar na luta contra os efeitos e os vectores da decadência. Mohler queria utilizar o “pessimismo potente” de Sorel contra um “pessimismo debilitante” disseminado nas fileiras da burguesia.

Rapidamente Mohler criticou a “concepção idílica do conservantismo”. Ao reler Sorel percebeu que é perfeitamente absurdo querer tudo “conservar” quando as situações mudaram por todo o lado. A direita intelectual não deve contentar-se em pregar simplesmente o bom-senso contra os excessos de uma certa esquerda, nem em pregar a luz aos partidários da ideologia das Luzes; não, ela deve mostrar-se capaz de forjar a sua própria ideologia, de compreender os processos de decadência que se desenvolvem no seu seio e de se desembaraçar deles, antes de abrir verdadeiramente a via a uma tradução concreta das suas posições.

Uma aversão comum aos excessos da ética da convicção

Quando Mohler esboça o seu primeiro retrato de Sorel, nas colunas da revista Criticón, em 1973, escreve sem ambiguidades que os conservadores alemães deveriam tomar esse francês fora do comum como modelo para organizar a resistência contra a “desorganização pelo idealismo”. Mohler partilhava a aversão de Sorel contra os excessos da ética da convicção. Vimo-la exercer a sua devastação na França de 1890 a 1910, com o triunfo dos dreyfusards e a incompreensão dos Radicais pelos verdadeiros fundamentos da Cidade e do Bem Comum, vimo-la também no final dos anos 60 na República Federal, depois da grande febre “emancipadora”, combinada com a vontade de jogar abaixo todo o continuum histórico, criminalizando sistematicamente o passado alemão, tudo taras que tocaram igualmente o “centro” do tabuleiro político.

Para além destas necessidades do momento, Mohler tinha outras razões, mais essenciais, para redescobrir Sorel. O anti-liberalismo e o decisionismo de Sorel haviam impressionado Mohler, mais ainda do que a ausência de clareza que recriminamos no pensamento soreliano. Mohler pensava, ao contrário, que esta ausência de clareza era o reflexo exacto das próprias coisas, reflexo que nunca é conseguido quando usamos uma linguagem demasiado descritiva e demasiado analítica. Sobretudo “quando se trata de entender elementos ou acontecimentos muito divergentes uns dos outros ou de captar correntes contrárias, subterrâneas e depositárias”. Sorel formulou pela primeira vez uma ideia que muito dificilmente se deixa conceptualizar: as pulsões do homem, sobretudo as mais nobres, dificilmente se explicam, porque as soluções conceptuais, todas feitas e todas apropriadas, que propomos geralmente, falham na sua aplicação, os modelos explicativos do mundo, que têm a pretensão de ser absolutamente completos, não impulsionam os homens em frente mas, pelo contrário, têm um efeito paralisante.

Ernst Jünger, discípulo alemão de Georges Sorel

Mohler sentiu-se igualmente atraído pelo estilo do pensamento de Sorel devido à potencialidade associativa das suas explicações. Também estava convencido que este estilo era inseparável da “coisa” mencionada. Tentou definir este pensamento soreliano com mais precisão com a ajuda de conceitos como “construção orgânica” ou “realismo heróico”. Estes dois novos conceitos revelam a influência de Ernst Jünger, que Mohler conta entre os discípulos alemães de Sorel. Em Sorel, Mohler reencontra o que havia anteriormente descoberto no Jünger dos manifestos nacionalistas e da primeira versão do Coração Aventureiro (1929): a determinação em superar as perdas sofridas e, ao mesmo tempo, a ousar qualquer coisa de novo, a confiar na força da decisão criadora e da vontade de dar forma ao informal, contrariamente às utopias das esquerdas. Num tal estado de espírito, apesar do entusiasmo transbordante dos actores, estes permanecem conscientes das condições espacio-temporais concretas e opõem ao informal aquilo que a sua criatividade formou.

O “afecto nominalista”

O que actuava em filigrana, tanto em Sorel como em Jünger, Mohler denominou “afecto nominalista”, isto é, a hostilidade a todas as “generalidades”, a todo esse universalismo bacoco que quer sempre ser recompensado pelas suas boas intenções, a hostilidade a todas as retóricas enfáticas e burlescas que nada têm a ver com a realidade concreta. É portanto o “afecto nominalista” que despertou o interesse de Mohler por Sorel. Mohler não mais parou de se interessar pelas teorias e ideias de Sorel.

Em 1975 Mohler faz aparecer uma pequena obra sucinta, considerada como uma “bio-bibliografia” de Sorel, mas contendo também um curto ensaio sobre o teórico socialista francês. Mohler utilizou a edição de um fino volume numa colecção privada da Fundação Siemens, consagrado a Sorel e devida à pluma de Julien Freund, para fazer aparecer essas trinta páginas (imprimidas de maneira tão cerrada que são difíceis de ler!) apresentando pela primeira vez ao público alemão uma lista quase completa dos escritos de Sorel e da literatura secundária que lhe é consagrada. A esta lista juntava-se um esboço da sua vida e do seu pensamento.

Nesse texto, Mohler quis em primeiro lugar apresentar uma sinopse das fases sucessivas da evolução intelectual e política de Sorel, para poder destacar bem a posição ideológica diversificada deste autor. Esse texto havia sido concebido originalmente para uma monografia de Sorel, onde Mohler poria em ordem a enorme documentação que havia reunido e trabalhado. Infelizmente nunca a pôde terminar. Finalmente, Mohler decidiu formalizar o resultado das suas investigações num trabalho bastante completo que apareceu em três partes nas colunas da Criticón em 1997. Os resultados da análise mohleriana podem resumir-se em 5 pontos:

Uma nova cultura que não é nem de direita nem de esquerda

1. Quando falamos de Sorel como um dos pais fundadores da Revolução Conservadora reconhecemos o seu papel de primeiro plano na génese deste movimento intelectual que, como indica claramente o seu nome, não é “nem de direita nem de esquerda” mas tenta forjar uma “nova cultura” que tomará o lugar das ideologias usadas e estragadas do século XIX. Pelas suas origens este movimento revolucionário-conservador é essencialmente intelectual: não pode ser compreendido como simples rejeição do liberalismo e da ideologia das Luzes.

2. Em princípio, consideramos que os fascismos românicos ou o nacional-socialismo alemão tentaram realizar este conceito, mas estas ideologias são heresias que se esquecem de levar em consideração um dos aspectos mais fundamentais da Revolução Conservadora: a desconfiança em relação às ideias que evocam a bondade natural do homem ou crêem na “viabilidade” do mundo. Esta desconfiança da RC é uma herança proveniente do velho fundo da direita clássica.

3. A função de Sorel era em primeiro lugar uma função catalítica, mas no seu pensamento encontramos tudo o que foi trabalhado posteriormente nas distintas famílias da Revolução Conservadora: o desprezo pela “pequena ciência” e a extrema valorização das pulsões irracionais do homem, o cepticismo em relação a todas as abstracções e o entusiasmo pelo concreto, a consciência de que não existe nada de idílico, o gosto pela decisão, a concepção de que a vida tranquila nada vale e a necessidade de “monumentalidade”.


Não há “sentido” que exista por si mesmo.

4. Nesta mesma ordem de ideias encontramos também esta convicção de que a existência é desprovida de sentido (sinnlos), ou melhor: a convicção de que é impossível reconhecer com certeza o sentido da existência. Desta convicção deriva a ideia de que nunca fazemos mais que “encontrar” o sentido da existência forjando-o gradualmente nós próprios, sob a pressão das circunstâncias e dos acasos da vida ou da História, e que não o “descobrimos” como se ele sempre tivesse estado ali, escondido por detrás do ecrã dos fenómenos ou epifenómenos. Depois, o sentido não existe por si mesmo porque só algumas raras e fortes personalidades são capazes de o fundar, e somente em raras épocas de transição da História. O “mito”, esse, constitui sempre o núcleo central de uma cultura e compenetra-a inteiramente.

5. Tudo depende, por fim, da concepção que Sorel faz da decadência – e todas as correntes da direita, por diferentes que sejam umas das outras, têm disso unanimemente consciência – concepção que difere dos modelos habituais; nele é a ideia de entropia ou a do tempo cíclico, a doutrina clássica da sucessão constitucional ou a afirmação do declínio orgânico de toda a cultura. Em «Les Illusions du progrès» Sorel afirma: “É charlatanice ou ingenuidade falar de um determinismo histórico”. A decadência equivale sempre à perda da estruturação interior, ao abandono de toda a vontade de regeneração. Sem qualquer dúvida, a apresentação de Sorel que nos deu Mohler foi tornada mais mordaz pelo seu espírito crítico.

Uma teoria da vida concreta imediata

Contudo, algumas partes do pensamento soreliano nunca interessaram Mohler. Nomeadamente as lacunas do pensamento soreliano, todavia patentes, sobretudo quando se tratou de definir os processos que deveriam ter animado a nova sociedade proletária trazida pelo “mito”. Mohler absteve-se igualmente de investigar a ambiguidade de bom número de conceitos utilizados por Sorel. Mas Mohler descobriu em Sorel ideias que o haviam preocupado a ele também: não se pode, pois, negar o paralelo entre os dois autores. As afinidades intelectuais existem entre os dois homens, porque Mohler como Sorel, buscaram uma “teoria da vida concreta imediata” (recuperando as palavras de Carl Schmitt).

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Nacionalismo em Marcha

Por Ernst Jünger

Nós auto-denominamo-nos nacionalistas – uma palavra que nos foi consagrada através do ódio à populaça inculta, aos pedantes e a um exército de oportunistas e farsantes. O que é odiado, o que é rechaçado pelas superficiais correntes do progresso, do liberalismo e da democracia, tem pelo menos a vantagem de não ser comum. Nós não exigimos o comum. Nós rechaçamos o culto das verdades comuns, dos direitos humanos comuns, das obrigações comuns, do direito ao voto comum, da baixeza comum – consequência última de tudo o que é comum. As características e as exigências comuns, são as características e as exigências das massas. Quanto mais comum é algo, menor é o valor que contém. Rever-se e apoiar-se nas massas, equivale a acreditar que a força do próprio peso é um mérito em si e não das leis da gravidade. A ideia de valorizar a Humanidade como o bem mais alto e puro, equivale a considerar que a essência do indivíduo é unicamente a sua pertença a uma determinada espécie de mamíferos. O comum é contado e pesado, o particular é valorizado e apreciado. A vontade comum significa ser incapaz de encontrar um valor específico em si mesmo, por si mesmo. Significa, na melhor das hipóteses, ter razão objectivamente, intelectualmente, cientificamente, comummente… A vontade particular, significa ser a medida de si mesmo, sentir a própria responsabilidade, reconhecer a própria força espiritual. O nacionalismo moderno, o sentimento básico de um novo género de homem cansado até ao vómito da oca fraseologia da Ilustração, quer o particular. Ele não quer massa e extensão, mas sim o que permanece mais profundamente próprio interior: vigor espiritual. Ele não quer demonstrar os seus direitos mediante estudos científicos como faz o marxismo, mas antes demonstrá-los com a sua própria existência, queira ou não a ciência. Ele não quer uma meticulosa medição de peso e medida dos seus direitos, mas somente o Direito que possui a vida para viver, e que forma uma unidade inquebrantável, de destino, com a sua própria existência. Ele não quer o domínio das massas, quer, isso sim, o da Personalidade, cuja ordem se define no conteúdo dos valores interiores e da energia viva. Ele não quer nenhuma igualdade, vazia de justiça e liberdade, que só fundamenta exigências, sem sentir a sorte de se ser o que se é. O nacionalismo moderno tão pouco se rege por alguma ideia de independência que vagueie pelos espaços vazios, nem um qualquer “espírito livre” prefere, pelo contrário, o firme compromisso. Ele não quer o socialismo das exigências, mas o do dever: o socialismo de um mundo duro e estóico, em que cada um esteja disposto a sacrificar-se pelos demais. A mãe deste novo nacionalismo é a Grande Guerra. O que literatos ou intelectuais escrevam sobre ela não tem para nós qualquer interesse. A guerra é o resultado do sangue: aqui pouco importa o que os homens tenham para dizer sobre ela. O tristemente famoso manifesto pacifista dos literatos, não conseguirá eliminar a Guerra nem o que esta criou. É quanto muito uma bandeira ao vento, dependente da brisa que sopre em cada ocasião. Aquele que procure mesurar a guerra com uma maior ou menor superficialidade, tem um interesse unicamente psicológico. O núcleo da juventude alemã não viveu a guerra nos cafés nem em cómodos escritórios. Ele pode ter estado no Inferno, porém, é próprio da alma fáustica não sair com as mãos vazias nem sequer do Inferno. Barbuse, o intelectual pacifista francês, pode ter visto ali o que quiser, mas nós vimos aquele fogo dantesco com uma intensidade infinitamente maior.

Nós não voltamos dali com um mero niilismo. Acima do poder da matéria, manifestou-se-nos o poder da Ideia. Para além do horror das vítimas, reconhecemos o verdadeiro valor do homem e da força do seu posto. Mais claramente que as vermelhas chamas do fogo da guerra, vimos brilhar a luz da Vontade. Granadas, nuvens de gás, veículos blindados, tudo isto pode ser essencialmente brutal e cobarde, para nós é unicamente a aparência externa, o tétrico pano de fundo de que um novo homem, uma nova visão, havia nascido. Mais, assistimos a este nascimento em todos os povos da Europa, pois a guerra não só afectou os alemães. Este novo nacionalismo não é um fenómeno que se limite apenas à Alemanha. Em todas as partes vemos, diferenciada pelas características de cada povo, aquela força, força nascida do sangue, que exige novas formas. Alegremo-nos todos, gritemos uns aos outros “Sede fiéis ao que sois!”, pois nós preferimos viver num mundo cheio de sentido a viver numa papinha movediça, sem carácter, sem forma e sem personalidade. Porém, acima de tudo devemos recordar: que a guerra nos tocou da forma mais dura. É necessário um tempo para tomar consciência, após termos sido ofuscados daquela maneira pelo mais horrendo, no entanto, devemos esperar, que, passando o tempo, cresça a semente, e a nossa colheita será a mais rica. A guerra é a nossa mãe, ela gerou-nos no ardente regaço das trincheiras como uma nova raça, e nós reconhecemos com orgulho a nossa origem. Daí que os nossos valores sejam heróicos, os valores do guerreiro e não os do tendeiro que pretende medir o mundo com o seu diminuto padrão. Nós não queremos o útil, nem o prático, nem o cómodo, senão o necessário: aquilo que o Destino exija. O soldado alemão chegou da frente, está desfilando. Direita, esquerda, e ao centro. Concedamos tempo às colunas para definir a direcção da marcha, cada um para si mesmo. Acabará por acontecer que todos iremos em direcção ao mesmo ponto. A nossa bandeira não é vermelha, tampouco negra, vermelha e dourada, nem negra, vermelha e branca, a nossa bandeira é a bandeira de um novo grande Reich, que nasceu dos nossos corações e que somente desde eles pode ser cosida. Chegará o dia, em que poderá ondear livremente. A nossa tradição comum é a guerra, o grande sacrifício. Permaneçamos conscientes sobre o sentido desta tradição.

Neste escrito, no qual te saúdo como irmão, companheiro de luta e amigo, e ao qual se seguirão muitos mais escritos, ficam abarcados os quatro pilares do nacionalismo moderno. Eles correspondem à atitude de uma juventude que não é doutrinária, tão pouco liberal nem reaccionária, e que também recusou a mentalidade dessa revolução de demagogos e charlatães. Esta juventude conquistou a consciência, nas paragens mais horrendas do mundo, mundo esse em que os velhos caminhos já acabaram, sendo hora de abrir novos. Nós saudamos aquele sangue que não se queimou na luta, mas que se transformou em brasas e fogo. O que aí não foi destruído, está à altura de qualquer luta. Nós saudamos os que vêm, aqueles que serão unidos pela profundidade dos velhos rigores. A marcha está a caminho, em breve as linhas convergirão numa só e imparável coluna. Nós saudamos os mortos, cujos espíritos permanecem nas nossas consciências. Não, não podem ter morrido em vão. Alemanha, saudamos-te!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Tradição e Sangue

"Não: o nosso nascimento não deve ser uma casualidade para nós! Esse nascimento é o acto que nos radica no nosso reino terrestre, o qual, com milhares de vínculos simbólicos, determina o nosso posto no mundo. Com ele convertemo-nos em membros de uma nação, por meio de uma comunidade estreita de laços nativos. E daqui vamos depois ao encontro da vida, partindo de um ponto sólido, mas prosseguindo um movimento que teve início muito antes de nós e que muito depois de nós terá o seu fim. Nós percorremos apenas um fragmento desta avenida gigantesca, neste trecho, todavia, não devemos transportar apenas uma herança inteira mas devemos estar à altura de todas as exigências do tempo."
(Ernst Jünger)


terça-feira, 10 de maio de 2011

Destino e Morte

"Perdidos na vastidão da paisagem, e separados de mim por uma grande distância, os acontecimentos que lá embaixo se desenrolavam tinham um aspecto inofensivo e diminuto; me estranhou que aquele bosque me tivesse impressionado tanto no dia anterior. Se existisse um grande ser ao qual não lhe custasse nenhum esforço abarcar com um só olhar o espaço que desde os Alpes se estende até o mar, veria toda aquela andança como uma engraçada batalha de formiga, como uma suave martelada em uma mesma obra. Porém nós vemos unicamente uma percela minúscula, e por isso nosso pequeno Detino nos esmaga e a Morte nos aparece com uma figura terrível. Tão somente podemos conjecturar que essas coisas que aqui ocorrem formam parte de uma grande ordem, e que em algum lugar se atam, para formar um sentido cuja unidade nos escapa, esses fios dos quais pendemos e em cujo extremo realizamos contorções aparentemente absurdas e incoerentes."
(Ernst Jünger, Tempestade de Aço)

domingo, 6 de março de 2011

Os Novos Deuses

Envelhecemos, e como os velhinhos gostamos das nossas comodidades. Tornou-se um crime ser-se mais e ter-se mais do que os outros. Devidamente privados dos entusiasmos fortes, tomámos em horror tudo o que seja poder e virilidade; a massa e o igualitarismo, são estes os nossos novos deuses. Uma vez que a massa não pode modelar-se pela minoria, que pelo menos o pequeno número se modele pela massa. A política, o drama, os artistas, os cafés, os sapatos envernizados, os cartazes, a imprensa, a moral, a Europa de amanhã, o Mundo de depois de amanhã: explosão de massa. Monstro de mil cabeças à beira dos grandes caminhos, espezinhando o que não pode engolir, invejosa, nova-rica, má. Uma vez mais, o indivíduo sucumbiu, mas não foram os seus defensores naturais os primeiros a traí-lo?

(Ernst Jünger em “A Guerra como Experiência Interior”, Ulisseia (2005).

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

'Titanic'

"O indivíduo já não está na sociedade como uma árvore no bosque, assemelha-se, ao invés, ao passageiro numa embarcação, que se move rapidamente e que se pode chamar 'Titanic' ou também Leviatã. Desde que faça bom tempo e a paisagem seja agradável, ele mal se aperceberá do decréscimo de liberdade em que caiu."
(Ernst Jünger)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Os autênticos

"Nós, os verdadeiros, os autênticos, os implacáveis inimigos da burguesia, nos rimos de sua putrefação. Nós não somos burgueses.Somos os filhos da guerra e dos confrontos civis. Somente quando toda esta pantomima gire e gire sem cessar no vazio e se esfume, ao fim logrará desenvolver-se o que todavia nos sobra de natural, de elemental, de autêntico."
(Ernst Jünger)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A Nação: Sangue e Tradição!

por Ernst Jünger

Tradição: para uma estirpe dotada da vontade de voltar a situar a ênfase no âmbito do sangue, é palavra brava e bela. Que a pessoa singular não viva somente no espaço. Que seja, pelo contrário, parte de uma comunidade pela qual deve viver e, sucedida a circunstância, sacrificar-se, esta é uma convicção que cada homem com sentimento de responsabilidade possui e que postula à sua maneira particular com os seus meios particulares. A pessoa singular não se encontra, no entanto, ligada a uma comunidade superior unicamente no espaço, mas, de uma forma mais significativa, ainda que invisível, também no tempo. O sangue dos antepassados está latente, fundido com o seu, ele vive dentro de reinos e vínculos que eles criaram, custearam e defenderam. Criar, custear e defender: esta é a obra que ele recebe das mãos daqueles e que deve transmitir com dignidade. O homem do presente representa o ardente ponto de apoio interposto entre o homem do passado e o homem do futuro. A vida relampeja como o rastilho incendiado que corre ao largo da mecha que ata, unidas, as gerações… queima-as, certamente, mas mantém-nas enlaçadas entre si, do princípio ao fim. Em breve também o homem presente será igualmente um homem do passado mas, para conferir-lhe calma e segurança, permanecerá a ideia de que as suas acções e gestos não desaparecerão com ele mas antes constituirão o terreno sobre o qual os vindouros, os herdeiros, se refugiarão com as suas armas e instrumentos.

Isto transforma uma acção num gesto heróico que nunca pode ser absoluto nem completo como fim em si mesmo e que, pelo contrário, encontra-se articulado por meio de um conjunto dotado de sentido e orientação, dados pelos actos dos predecessores e apontando ao enigmático reino daqueles que ainda estão para vir. 

Obscuros são os dois lados e encontram-se mais para cá e mais para lá da acção, as suas raízes desaparecem na penumbra do passado, os seus frutos caem na terra dos herdeiros… a qual não poderá nunca vislumbrar quem actua e que é todavia nutrida e determinada por estas duas vertentes nas quais justamente se funda o seu esplendor intemporal e a sua sorte suprema. É isto que distingue o herói e o guerreiro face ao mercenário e ao aventureiro: e é o facto de que o herói extrai a sua força de reservas mais elevadas do que as que são meramente pessoais, e que a chama ardente da sua acção não corresponde ao clarão ébrio de um instante mas ao fogo cintilante que funde o futuro com o passado. Na grandeza do aventureiro há algo de carnal, uma irrupção selvagem, e em verdade não privada de beleza, em paisagens variadas… mas no herói cumpre-se aquilo que é fatalmente necessário, fatalmente condicionado: é o homem autenticamente moral e o seu significado não repousa unicamente em si mesmo, nem só no seu dia de hoje, mas é para todos e para todo o tempo.

Qualquer que seja o campo de batalha ou a posição perdida na qual se esteja, ali onde se conserva um passado e se deve combater por um futuro, não há acção que esteja perdida. A pessoa singular certamente pode andar perdida mas o seu destino, a sua sorte e a sua realização, valem em verdade como o crepúsculo que favorece um objectivo mais elevado e mais vasto. O homem privado de vínculos morre, e a sua obra morre com ele, porque a proporção dessa obra era medida só em relação a ele mesmo. O herói conhece o seu crepúsculo mas o seu crepúsculo assemelha-se àquele sangue vermelho do sol que promete uma manhã nova e mais bela. Assim devemos recordar também a Grande Guerra: como um crepúsculo ardente cujas cores já antecipam uma alvorada sumptuosa. Assim devemos pensar nos nossos amigos caídos e ver no seu crepúsculo o sinal da realização, o assentimento mais duro dirigido à própria vida. 

E devemos olhar longe, com um desprezo imundo, perante o juízo dos negociantes, daqueles que sustêm que “tudo isto foi absolutamente inútil”, se queremos encontrar a nossa fortuna vivendo no espaço do destino e fluindo na corrente misteriosa do nosso sangue, se queremos actuar numa paisagem dotada de sentido e significado, e não vegetar no tempo e no espaço onde, nascendo, tenhamos chegado por casualidade.

Não: o nosso nascimento não deve ser uma casualidade para nós! Esse nascimento é o acto que nos radica no nosso reino terrestre, o qual, com milhares de vínculos simbólicos, determina o nosso posto no mundo. Com ele convertemo-nos em membros de uma nação, por meio de uma comunidade estreita de laços nativos. E daqui vamos depois ao encontro da vida, partindo de um ponto sólido, mas prosseguindo um movimento que teve início muito antes de nós e que muito depois de nós terá o seu fim. Nós percorremos apenas um fragmento desta avenida gigantesca, neste trecho, todavia, não devemos transportar apenas uma herança inteira mas devemos estar à altura de todas as exigências do tempo.

E agora, certas mentes abjectas, devastadas pela imundície das nossas cidades, surgem para dizer que o nosso nascimento é um jogo de azar, e que “poderíamos perfeitamente ter nascido franceses como alemães”. Certo, este argumento vale precisamente para quem assim pensa. Eles são homens da casualidade e do azar. É-lhes estranha a fortuna que reside no sentir-se nascido por necessidade no interior de um grande destino e de sentir as tensões e lutas desse destino como nossas, e com elas crescer ou inclusive perecer. Essas mentalidades sempre surgem quando a sorte adversa pesa sobre uma comunidade legitimada pelos vínculos do crescimento, e isto é típico delas. 

Reclama-se aqui a atenção sobre a recente e bastante apropriada inclinação do intelecto de insinuar-se parasitariamente e nocivamente na comunidade de sangue, e a nela falsear a essência em nome do raciocínio… isto é, através do conceito, à primeira vista correcto, de “comunidade de destino”. Da comunidade de destino, no entanto formaria também parte o negro que, surpreendido na Alemanha ao início da guerra, foi envolto no nosso caminho de sofrimento, nas senhas do pão racionado. Uma “comunidade de destino”, neste sentido, é constituída por passageiros de um barco a vapor que se afunda, muito diferentemente da comunidade de sangue: formada esta pelos homens de um navio de guerra que descende até ao fundo com a bandeira ondulando.

O homem nacional atribui valor ao facto de haver nascido entre confins bem definidos: nisto ele vê, antes de tudo, uma razão de orgulho. Quando acontece que trespasse esses confins, não sucede nunca que flua sem forma para além deles mas de modo a alargar com isso o seu espaço no futuro e no passado. A sua força reside no facto de possuir uma direcção, e portanto uma segurança instintiva, uma orientação de fundo que lhe é conferida em dote conjuntamente com o sangue e que não precisa das luminárias mutáveis e vacilantes de conceitos complicados. Assim a vida cresce numa maior unidade, e assim devém ela mesmo unidade, pois cada um dos seus instantes reingressa numa conexão dotada de sentido.

Claramente definido pelos seus confins, por rios sagrados, por férteis vales, por vastos mares: tal é o mundo no qual a vida de uma estirpe nacional se imprime no espaço. Fundada numa tradição e orientada para um futuro longínquo: assim se imprime ela no tempo. Ai daquele que corta as próprias raízes!, esse converter-se-á num homem inútil e num parasita. Negar o passado significa também renegar o futuro e desaparecer entre as ondas esquivas do presente. 

Para o homem nacional, por outro lado, subsiste um perigo grande: o de esquecer-se do futuro. Possuir uma tradição comporta o dever de viver a tradição. A nação não é uma casa na qual cada geração, como se fosse um novo estrato de corais, deva acrescentar tão-somente um piso mais, ou onde, por meio de um espaço preestabelecido de uma vez por todas, não sirva outra coisa que continuar a existir, mal ou bem. Um castelo, um palácio burguês, dir-se-ão construídos de uma vez para sempre. Prontamente, todavia, uma nova geração, incentivada por novas necessidades, vê a obrigação de impor importantes modificações. Ou, por outro lado, a construção pode acabar por arder num incêndio, ou terminar destruída, e então um edifício renovado e transformado vem a ser construído sobre os antigos cimentos. Muda a fachada, cada pedra é substituída, e todavia, como se encontra ligada à raça, perdura um sentido do todo específico: a mesma realidade que foi num princípio. Talvez se possa dizer que somente durante o Renascimento ou na idade barroca tenha existido uma construção perfeita. Por acaso então se detinha uma linguagem de formas válida para todos os tempos? Não, mas aquilo que existia então permanece de algum modo oculto no que existe hoje.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A Guerra é uma grande escola

"Quando os observo a abrirem em silêncio corredores na rede de arames farpados, a escavarem escadas de assalto, a compararem relógios fosforescentes, a determinarem a direção do norte pelas estrelas, ganho uma consciência flagrante: eis o homem novo, o sapador de assalto, o escol da Europa Central. Uma raça completamente nova, inteligente, forte, carregada de vontade. O que se descobre no combate, e surge até à luz, será amanhã o eixo de uma vida com rotação sonora e cada vez mais rápida. Não haverá sempre, como aqui, que abrir caminho entre as crateras, através do fogo e do aço, mas o passo de carga que impulsiona o acontecimento, o tempo ditado pelo ferro, continuarão imutáveis. O poente abrasado de uma era que desaparece é também uma aurora onde há que se armar para combates novos e mais duros. Longe, na retaguarda, as cidades gigantescas, os exércitos de máquinas, os impérios cujo tufão rasga os ligamentos internos, espelham o homem novo, mais intrépido, aguerrido no combate, que não se poupa nem poupa os outros. Esta guerra não é o final da violência, é apenas o seu prelúdio. É a forja onde o mundo é martelado em fronteiras novas e novas comunidades. Formas novas reclamam um sangue que as encha, e o poder quer que dele se apoderem com uma mão de ferro. A guerra é uma grande escola, e o homem novo será da nossa têmpera."
(Ernst Jünger, Trecho de "A Guerra como Experiência Interior")

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O apego burguês à segurança

"Entre os signos da época na qual nós entramos pertence a crescente intrusão do perigo na vida diária. Não há acidente ocultando-se por trás desse fato mas uma mudança compreensiva do mundo interior e exterior.

Nós vemos isso claramente quando nos lembramos que importante papel havia sido assignado ao conceito de segurança na época burguesa apenas passada. A pessoa burguesa é talvez melhor caracterizada como uma que coloca a segurança entre os valores mais elevados e conduz sua vida de acordo. Seus arranjos e sistemas são dedicados a garantir seu espaço contra o perigo que às vezes, quando escassamente uma nuvem aparece para escurecer o céu, aparece à distância. Porém, ele está sempre ali: ele busca com constância elemental romper as represas com as quais a 'ordem' cercou a si mesma.

A peculiaridade da relação burguesa com o perigo reside em sua percepção dela como uma contradição insolúvel com a ordem, ou seja, como desprovido de sentido, irracional. Nisso ele se coloca à parte de outras figuras como, por exemplo, a do guerreiro, do artista, e do criminoso, que se atribuem uma relação elevada ou baixa em relação ao elemental. Assim a batalha, aos olhos do guerreiro, é um processo que se completa dentro de uma ordem superior; o conflito trágico, para o escritor, é uma condição na qual o sentido mais profundo da vida deve ser compreendido muito claramente; e a cidade em chamas ou tomada pela insurreição é um campo de atividade intensificada para o criminoso. Por sua vez, os valores burgueses possuem tão pouca validade para o crente, posto que os Deuses aparecem nos elementos, como a sarça em chamas não consumida pelo fogo. Através dos infortúnios e perigos o mortal é atraído à esfera superior de uma ordem mais elevada."
(Ernst Jünger, Trecho de "Sobre o Perigo")

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

A Figura do Trabalhador

"Visto na plenitude do seu ser, e na violência de um cunho que apenas começou, a figura do trabalhador aparece em si rica em contradições, tensões e, no entanto, de uma espantosa unidade e completude em relação ao destino. Ela ser-nos-à assim manifesta, de vez em quando, em instantes em que nenhum fim e nenhuma intenção perturbe a meditação - como poder subjacente e pré-formado.

É assim que, por vezes, quando de repente a tempestade dos martelos e das rodas que nos rodeia se silencia, a tranquilidade que se esconde atrás da desmedida do movimento parece contrariar-nos quase corporalmente, e é bom o costume que no nosso tempo, para honrar os mortos ou para gravar na consciência um instante de significado histórico, declara suspenso o trabalho por um intervalo de minutos, como por um comando supremo. Pois este movimento é uma alegoria da força mais íntima, no sentido em que o significado misterioso de um animal se manifesta o mais claramente possível no seu movimento. Mas o espanto sobre a sua suspensão e, no fundo, o espanto por o ouvido julgar perceber, por um instante, as fontes mais profundas que alimentam o curso temporal do movimento, e isso eleva este ato a uma dignidade de culto.

O que distingue as grandes escolas do progresso é faltar-lhes a relação às forças originárias e a sua dinâmica ser fundada no curso temporal do movimento. Tal é a razão pela qual as suas conclusões, sendo por si persuasivas, estão não obstante condenadas, como por uma matemática diabólica, a desembocar no niilismo. Experimentamos isto nós mesmos na medida em que tomamos parte no progresso e assumimos, como a grande tarefa de uma estirpe que vivia há muito numa paisagem originária, voltar a produzir o vínculo imediato com a realidade.

A relação do progresso com a realidade é de uma natureza derivada. Aquilo que é visto é a projeção da realidade na periferia do fenômeno; tal pode-se mostrar em todos os grandes sistemas do progresso e vale também para a sua relação ao trabalhador.

E, no entanto, do mesmo modo que o iluminismo é mais profundo que o iluminismo, também o progresso não está sem pano de fundo. Também ele conheceu aqueles instantes de que precisamente se falou. Há uma embriaguez do conhecimento que é mais do que de origem lógica, e há um orgulho nas proezas técnicas, no começo do domínio ilimitado sobre o espaço, que possui uma suspeita da mais misteriosa vontade de poder, para a qual tudo isto é apenas um armamento para combates e rebeliões insuspeitados, e precisamente por isso tão valioso e necessitado de um cuidado ainda mais afetuoso do que o que um guerreiro dedica às suas armas.

Daí que para nós esteja fora de questão aquela atitude que procura contrapor ao progresso os meios inferiores da ironia romântica e que é a característica segura de uma vida enfraquecida no seu núcleo. A nossa tarefa não é ser o adversário do tempo, mas a sua última cartada, cuja entrada em ação deve ser concebida tanto na sua extensão como na sua profundidade. O pormenor que tão vincadamente os nossos pais iluminaram muda o seu significado quando é visto numa imagem maior. O prolongamento de um caminho que parecia conduzir à comodidade e à segurança entra doravante na zona daquilo que é perigoso. Neste sentido, o trabalhador, para além do pormenor que o progresso lhe assinalou, aparece como o portador da substância heróica fundamental que determina uma nova vida."
(Ernst Jünger, Trecho de "O Trabalhador")

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Colosso com pés de barro

"Uma civilização, por mais superior que seja, não passa de um colosso com pés de barro, se o nervo viril perde o vigor."
(Ernst Jünger)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A Ilusão da liberdade

"A escravidão cresce desmesuradamente quando lhe dão a aparência de liberdade."
(Ernst Jünger)