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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Mundo do Ruído e Virtude do Silêncio

por Ernesto Milà

Nenhuma civilização tem sido tão ruidosa como esta. Nem o barulho dos subúrbios da Roma Imperial, nem o barulho incômodo produzido por pedreiros, caldeireiros e ferreiros medievais pode comparar-se ao fragor de nossas atuais cidades; certamente, o ulular das sirenes e o repicar das máquinas nascidas com a primeira revolução industrial, começaram a causar danos nos aparelhos auditivos de muitos operários, porém não foi senão até meados deste século quando a poluição acústica converteu-se em um problema generalizado e sempre crescente. Em outro tempo o silêncio - isto é, a ausência de ruído - foi condição necessária para alcançar o que foi considerado como o mais alto grau da condição humana: a experiência mística. A conclusão é simples: se o silêncio nos eleva, o ruído nos subjuga no infernal. E hoje os estrondos já afogaram qualquer silêncio.

Do Sussurro ao Umbral da Dor

Considera-se que o ruído é uma sensação acústica incômoda. A intensidade do ruído mede-se em decibéis. Cinquenta decibéis situar-nos-iam no umbral da conversação, menos suporia um sussurro; a audição repetida de sons superiores a 85 decibéis pode causar danos físicos e psicológicos; níveis superiores a 132 ocasionam inclusive sensação de dor e a partir de 140 o perigo de ruptura de tímpanos ou alterações psicomotoras pode ser inclusive imediato. No conhecido cruzamento madrilenho do Passeio das Delícias com a rua de Méndez Alvaro, até as 16 horas, o nível de ruído flutuava entre 74 e 90 decibéis, quer dizer, suficiente para causar um deterioramento físico do aparelho auditivo dos vizinhos.

O pior é que as administrações renunciaram a combater o que veio a ser chamado "poluição acústica". O governo da Vestfália dizia em seu programa de 1975: 'Não é cabível a possibilidade de reduzir o ruído provocado pelos veículos, nem tempouco dos reatores na proximidade dos aeroportos, pois o número de voos diários crescerá nos anos seguintes. Em relação às fábricas e indústrias, os ruídos são inevitáveis, dado que as máquinas preparam-se de forma que sua produtividade seja maior e ao aumentar as revoluções de seus mecanismos, o problema acústico das oficinas torna-se mais agudo". O pior não é isso, mas sim que, longe de diminuir, a poluição acústica aumenta dia após dia.

Ruído nos Novos Hábitos Sociais

Fenômenos tão aparentemente banais como a mudança de hábitos alimentares tiveram uma incidência direta na poluição acústica, quando ao meio-dia e pelas noites centenas de motoristas cruzam as ruas em todas as direções transportando pizzas e outros alimentos entregues a domicílio em ciclomotores petardeantes, dotados de escapamento livre ou com silenciadores truncados ou simplesmente em mal estado.

Por outra parte, equipamentos de hi-fi, cada vez mais potentes, colocados em automóveis os convertem em discotecas ambulantes capazes de furtar um sono tranquilo aos vizinhos. Os auriculares dos "walkman" que, teoricamente deveriam individualizar a audição de música, utilizados em seu volume máximo por jovens consumidores de música mecanizada, são ouvidos pelos passageiros dos transportes coletivos. No metrô de Londres podem ver-se dezenas de cartazes alusivos a este transtorno: "Somente para seus ouvidos, por favor"; não parecem ter muito êxito. Finalmente nas discotecas e bares musicais os decibéis aumentaram até  produzir em jovens menores de 20 anos empanturrados de rock e derivados, cefaléias, zumbidos nos ouvidos, irritação nervosa, falta de auto-controle, diminuição da atividade, debilidade, dores de estômago, esgotamento físico e mental, etc.

É evidente, pelo demais, que todas estas músicas de qualidade mais que duvidosa tem outras repercussões sociológicas não desdenháveis: quem utiliza automóveis com equipamentos hi-fi a todo volume ou auriculares individuais, ou frequentam discotecas e bares musicais estão isolados em si mesmos: o volume do ruído é de tal calibre que impede qualquer tipo de comunicação com os demais, atordoa os sentidos e impede qualquer atividade discursiva, interior ou exterior; sofrem os efeitos de tais ruídos inclusive quando o foco emissor já está fechado.

O Deus do Silêncio

O mundo clássico conheceu uma divindade alegórica representada por um jovem que tapa a boca com o dedo ou com uma venda e ostenta um ramo de albérdigo - cuja folha tem forma de língua - como atributo; era Silêncio, aquele "que não tem nenhum defeito" e que estava presente na celebração de todos os mistérios; seu rito implicava necessariamente a concentração e ausência de qualquer ruído.

Em Roma celebrava-se em 18 de fevereiro a festividade de Muta, uma deusa menor à qual sacrificava-se para impedir os murmúrios. Mãe dos lares, estava relacionada aos espíritos dos mortos, que habitavam no mundo do silêncio. Ovídio conta-nos em que consistia o rito sacrificial: uma anciã rodeada de 12 virgens sacrificava à deusa, colocava três grãos de incenso em um buraco diante do altar, enquanto guardava sete favas negras na cova. Logo a anciã pegava a cabeça da estátua e a grudava com peixes, a atravessava com agulhas de latão e a lançava ao fogo que logo cobria com hortelã. Finalmente escançava vinho sobre ela e dava de beber às virgens, bebendo ela também até embebedar-se. O ritual terminava quando a anciã despedia às donzelas dizendo que havia aprisionado as línguas maledicentes.

No mesmo âmbito romano o deus Mutino era invocado para guardar segredos e reter os pensamentos ocultos e Lara, outra deusa, foi chamada a "charlatã" porque comunicou a Juno os amores que manteve com seu esposo Júpiter.

O Silêncio da Humanidade Medieval

A admiração do mundo clássico pelo silêncio prolongou-se na humanidade medieval. Nas grandes cidades os ofícios ruidosos foram situados ali onde menos podiam escutar-se: os ferreiros e caldeireiros, os moinhos e pisões, estiveram situados, geralmente nos arrabaldes ou lugares extremos.

A quietude instaurou-se nos mosteiros e algumas ordens ascéticas assumiram entre seus votos o do silêncio, junto ao de castidade e obediência. Os claustros construídos em todos os recintos monacais estavam estudados para atenuar toda sonoridade, quaso ao modo das câmaras de isolamento sensorial atuais. Tudo devia facilitar o recolhimento e a meditação para os quais o ruído era a principal ameaça.

Existiu naquele tempo um silêncio negativo, o que Satã impunha aos seus fiéis quando deviam afrontar os interrogatórios da Inquisição. Aos torturadores chamava muito sua atenção comprovar que, inexplicavelmente, alguns dos hereges ou bruxos interrogados não abriam a boca nem se quer para gritar sua dor; atribuíram dito comportamento a um pacto diabólico: Satanás havia-lhes paralisado as cordas vocais e a língua. Dito pacto seria selado por um amuleto que os interrogados esconderiam entre seus cabelos; daí que, a partir do famoso "Tratado Sobre as Bruxas" de Henri Bouguet, hereges e bruxas foram raspados antes do interrogatório. Consta que, efetivamente, entre os cabelos de alguns encontraram-se estranhos e sacrílegos amuletos...

A Civilização do Ruído

Dir-se-ia que a partir do Renascimento inicia-se um lento avanço do ruído e dos espaços de silêncio vão fazendo-se progressivamente mais reduzidos. Para isso contribui fundamentalmente o aumento do comércio e a proliferação de caravanas cujas rodas golpeiam agressivamente umas ruas que, cada vez mais, começam a ser pavimentadas. O aumento da população urbana e as subsequentes construções necessárias para abrigá-la fazem que cada esquina converta-se em um canteiro de obras. Porém apesar de tudo, as casas são de pedra e o som transmite-se dificilmente. Deverão passar ainda quatro séculos para que prolifere a utilização do cimento e muito especialmente do ferro, condutor excepcional do som; quase ao mesmo tempo as paredes afinar-se-ão e a vida familiar perderá intimidade. A revolução industrial, a era do maquinismo, primeiro, logo a aparição de novos inventos, a proliferação do trem, do automóvel e da navegação aérea, os sistemas de reprodução do som, tudo isso irá em detrimento do deus do Silêncio que ficará encurralado em espaços cada vez mais distantes e reduzidos e, desde logo, nunca nas grandes aglomerações urbanas.

A mudança é tão vertiginosa que afeta mais diretamente às novas gerações. No início dos anos 80 um estúdio da Universidade de Tennessee realizada com 4.500 estudantes demonstrou que tinham em média um ouvido tão ruim como o de uma pessoa de 65 anos. Nos Estados Unidos quase dois milhões de trabalhadores sofrem de problemas auditivos, em outros países industriais as cifras são idênticas; em Madri 25% da população infantil e adulta, sofria de uma minoração em sua capacidade auditiva. Não pode-se estranhar que diante de tudo isso o Conselho Internacional de Música em um simpósio organizado pela UNESCO proclamara em 1968 que "todo homem tem direito ao silêncio"...porém nas décadas seguintes este direito tem sido brutalmente lacerado pela marcha dos acontecimentos.

Da Vibração Acústica aos Infrassons

O ruído pode provocar - e de fato frequentemente provoca - transtornos orgânicos graves: diminuição dos movimentos estomacais, dilatação das pupilas, aumento da pressão sanguínea, alterações de impulsos cardíacos, agressividade, diminuição do pulso, produção excessiva de hormônios, redução na produção de sucos gástricos e saliva e predisposição ao infarto.

Em geral estas anomalias produzem-se por saturação de ruídos, porém a vibração produzida pelo som tem efeitos igualmente dramáticos. Em 1953 e 1954 espatifaram-se vários aviões "Comet" em todo o mundo. Tratava-se de um dos primeiros reatores comerciais e seu problema consistiu em que os engenheiros desconheciam os efeitos do que chamou-se "fadiga de material" produzido pela vibração dos gigantescos motores Rolls-Royce.

Os chamados infrasons, inaudíveis, porém que afetam nosso organismo mais que o ruído propriamente dito. Quando a frequência dos infrasons alcança os 7 Herz, a mesma das ondas cerebrais, produz-se um acoplamento causador de dor de cabeça, visão borrada, fadiga e incapacidade para desenvolver trabalhos intelectuais.

Os infrasons, são sem dúvida mais discretos que os ruídos, mas ainda assim utilizam-se cada vez mais em atividades industriais: limpeza de roupas e jóias, tratamentos médicos, soldas, ligas, laminação de metais, polimerizações, etc. Tem-se a convicção de que podem produzir mutações mais fortes que a radioatividade.

Ataque ao mais Íntimo do Ser Humano

Hoje poucos duvidam que medicinas tradicionais como a acupuntura chinesa tem um efeito benéfico sobre o ser humano. Porém os mesmos médicos que aprovam o tratamento a base de acupuntura, ignoram os fundamentos desta prática ancestral. A teoria médica chinesa baseia-se na existência de uma fisiologia oculta do ser humano, composta por 750 centros de energia e "meridianos"; a enfermidade consistiria em uma circulação anômala energética por esses pontos que as agulhas reconduziriam por seus canais normais.

A medicina chinesa, como a hindú ou tibetana, inclusive como as concepções que estiveram em voga no Ocidente, implicavam o conhecimento de "centros" de energia no corpo humano, sutis e imperceptíveis a simples vista, porém que o "iniciado" podia identificar e sanar. Cada um destes centros estaria - sempre segundo esta doutrina médica - conectado a uma determinada função orgânica ou a algum sentido físico.

Estas tradições negava que estes "centros" fossem imateriais, sustentavam, ainda assim, que tratava-se de matéria mais sutil que a ordinária, quer dizer que vibrava em uma frequência menor. Hoje os acupuntores sustentam que boa parte das enfermidades próprias da humanidade civilizada nasceram da deterioração que sofrem estes centros sutis agredidos por ruídos e vibrações e põem como exemplo a vibração do som que sente-se à altura do esterno quando estamos submetidos ao estrondo de uma discoteca. Ali fica o "Anahata-Chakra", um centro de energia identificado com o coração e cuja deterioração implica uma perda da sensibilidade e da intuição.

A Mística do Silêncio

Seja como for, mais além da linguagem própria de cada tradição ou de uma ou outra escola médica concreta, todas coincidem em que a vibração sonora a partir de certos níveis supõe um perigo, ainda que uns limitem-se aos riscos do corpo físico e outros falem de males situados em esferas mais profundas da personalidade.

Por que, efetivamente, as velhas tradições ancestrais coincidem em afirmar que as enfermidades do corpo tem sua causa em camadas mais profundas e evidenciariam, afinal, enfermidades da alma. Dado que o mais importante para a humanidade tradicional foi deslocar o eixo da personalidade, do corpo físico e da mente, para a alma, evitava-se tudo aquilo que pudesse causar danos a essa "fisiologia oculta" que seria uma espécie de corpo sutil situado entre o corpo físico e a alma e ao mesmo tempo primava-se tudo o que podia beneficiá-lo. E no terreno que nos ocupa fugia-se do ruído e aconselhava-se o silêncio.

"Ninguém pode dialogar com Deus a não ser através do silêncio" havia predicado o grande místico alemão Dietrich Eckhart. O silêncio considerava-se que era um prelúdio à revelação divina e não era possível experimentar a presença divina entre algazarra e bramidos. Algumas escolas de meditação budistas são extremamente radicais nesse sentido: "se algo molesta tua meditação e mancha teu silêncio, destrua-o."

A mística católica e muçulmana preocupa-se em distinguir entre silêncio e mutismo: o silêncio, dá grandeza aos acontecimentos, o mutismo os esconde e degrada, implica um fechamento à revelação divina. Deus somente chega à alma que faz reinar nela o silêncio porém abandona à que dissipa-se no palavrio vão e estéril.

Uma das práticas comuns a todos os sistemas de meditação tradicionais consiste na observação do silêncio. Trata-se de que o praticante situe-se em um lugar silencioso, colocando-se em uma postura cômoda, frequentemente com a coluna vertebral erguida. Nesse instante e após uns exercícios prévios de relaxamento, deverá advertir o silêncio de sua própria interioridade, "ouvir o silêncio".

Um livro tibetano tem precisamente por título "A Voz do Silêncio": "Aquele que pretenda ouvir a voz do Nada, o 'Som insonoro' e compreendê-la tem que inteirar-se da natureza do Dharana", assim começa o tratado, e termina "Mira, tu chegaste a ser a Luz, tu te converteste no Som; tu és teu mestre, és tu mesmo o objeto de tuas investigações, a incessante voz que ressoa através das eternidades, livre de mudanças, isenta de pecado, os sete sons em um, a voz do silêncio". O taoísmo chinês fazia do silêncio uma escola de vida: "O silêncio é a melhor escola dos humanos", "se queres viver em paz, olha, ouça e cale", "o homem quanto mais sofreu mais é silencioso", "mais ameaça quem guarda silêncio do que quem grita desordenadamente", "unicamente o silêncio é grande, o resto é debilidade", todos estes provérbios taoístas confirmam a virtude do silêncio e implícitamente condenam a proliferação de sons: tanto a "logomaquia" (o falar vão e a charlatanice) como os ruídos que perturbam a quietude estável e silenciosa de uma busca interior.

Também na Mística Cristã

Alguns mestres de meditação advertem ao sujeito sobre o risco da meditação sobre o silêncio; sabem que há gente que recolhe-se em um ambiente de total insonoridade. Bernanos fazendo-se eco dessa sabedoria escreveu: "Existem coisas que não amamos, porém que nos fascinam. Uma delas é o silêncio." O próprio Escribá de Balaguer, fundador do Opus Dei outorga uma grande importância ao silêncio e entroncando com a mística cristã escreve na citação 281 de "Caminho": "O silêncio é como o porteiro da vida interior" e na 304 acrescenta: "Procura lograr diariamente uns minutos dessa bendita solidão que tanta falta faz para ter em marcha a vida interior". Monsenhor Escribá havia tomado como referência os textos de Meister Eckhart, porém também de Miguel de Molinos e seu "Guia Espiritual" e, particularmente a "Imitação de Cristo" de Thomas de Kempis: "Não esteja tua paz na boca dos homens, pois se pensarem de ti bem ou mal não serás por isso outro homem".

***

Todos estes textos falam-nos claramente de um mundo feito de silêncios no qual tinha-se por possível o entrar em contato com camadas mais profundas da personalidade. Assim como nos templos gregos presididos pela estátua de Harpócrates, deus do silêncio, no átrio de nosso mundo interior, a ausência de ruído e a quietude são as companhias necessárias para sua visita e redescobrimento. Plutarco, um dos mais ativos propagadores do culto ao Silêncio, escreveu esta frase lapidar: "Dos homens aprendemos a falar. A calar somente dos Deuses."

Como o homem que o destino situou nas portas do terceiro milênio poderá conhecer essa parcela interior em um mundo feito de ruídos, estridências e vibrações acústicas, em um mundo que é puro ruído?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A Morte do Trabalho

por Ernesto Milà

Pode ser um drama constatá-lo, mas é uma realidade. O trabalho está a morrer. É certo que todos os dias se criam novos postos de trabalho, mas se observamos os números absolutos, em 20 anos a capacidade produtiva duplicou, mas a ocupação só aumentou 5%. O que é que isto quer dizer? Que cada vez menos pessoas fazem mais trabalho. Porquê? Por causa da automatização de processos. Constatar este facto é o elemento sociológico de maior interesse no nosso tempo. 

Chama a atenção que, precisamente no momento em que o trabalho agoniza, este se converteu num mito universal: tanto a direita, como o centro, como a esquerda veneram o trabalho, considerado como uma obrigação social. Todos os partidos lançam medidas para “estimular o trabalho”, “diminuir a fraude no desemprego”, “reciclar os trabalhadores”, etc. Nenhum explica – talvez porque na sua estupidez não o percebam – que o resultado da era tecnotrónica é a eliminação progressiva do trabalho físico.

Há 10 anos atrás eram precisos 12 trabalhadores para vindimar um campo de um hectare. Hoje, esse mesmo trabalho realiza-se mediante uma máquina provida de sensores que detectam os racimos e outra pessoa que, a pé, examina se há algum racimo não detectado. Na construção, há 20 anos atrás, construía-se uma casa ladrilho a ladrilho; hoje tende-se às estruturas pré-fabricadas. Inclusivamente nos autocarros, até há pouco tempo eram necessários um condutor e um revisor, e dentro em breve haverá só um programa computorizado que levará os passageiros ao destino. O trabalho agoniza. Mas nunca como agora se prestou tal culto ao trabalho. O culto do trabalho pertence à mitologia moderna. É universal: mas é um mito.


Diariamente legiões de desempregados vivem um drama que parecem não entender: estão dispostos a vender uma força de trabalho… que ninguém está interessado em comprar. Estas pessoas ou vão engrossar as filas de desemprego e da assistência social, ou então aceitam trabalhos mal remunerados, que não exigem qualificação profissional e para os quais têm de competir com outros milhares de trabalhadores. O resultado é uma queda no preço da força de trabalho e a proliferação de trabalhos-lixo remunerados com salários-lixo que apenas permitem uma subsistência mínima.

Nos últimos 20 anos assistimos a uma mutação imperceptível mas contínua. Paralelamente à morte do trabalho, está também em vias de extinção a economia de produção que se converte progressivamente em economia de especulação.

Nas bolsas, a loucura financeira não tem nada a ver com a economia produtiva. No passado, os investidores investiam numa empresa porque acreditavam nas suas possibilidades produtivas, o que se reflectiria na hora de repartir os dividendos. Agora tudo isto mudou: investe-se na bolsa apenas durante algumas horas, e ao registar alguma subida, retira-se imediatamente o dinheiro, e a diferença entre o valor investido e o registado duas horas depois já constitui um lucro apreciável. De seguida o dinheiro migra para outras empresas, noutras fronteiras, noutras bolsas… Não existe nenhuma relação entre a economia produtiva e a especulação financeira. Estas práticas especulativas não fazem mais do que acelerar a morte do trabalho.


Em primeiro lugar temos de considerar a morte do trabalho como algo irreversível: os processos de automatização irão avançado e diminuirão progressivamente o mercado de trabalho. Este processo não é bom, nem mau: é bom se se reconhece no seu verdadeiro rosto e se actua em consonância. É mau, na medida em que os partidos políticos mentem e se negam a dizer à população a realidade da morte do trabalho.

Imaginemos uma sociedade em que o trabalho não seja o grande valor universal. Há outras actividades humanas, que não produzem benefícios económicos, mas que são indispensáveis para o equilíbrio psicológico da vida humana: o ócio, o estudo, a investigação, o exercício da paternidade, todas estas actividades podem dispor de mais tempo numa sociedade em que o trabalho tenha morrido.

Torna-se claro que nestas circunstâncias há que reduzir as jornadas laborais (trabalhar menos para trabalharem todos) e aumentar as ajudas sociais do Estado. É possível um programa baseado nestes dois pontos? É cada vez mais possível. Basta reconhecer os factos, estimular os canais educativos da população e realizar uma melhor distribuição das receitas do Estado que deve aumentar as suas receitas castigando fiscalmente a economia especulativa.


Reconhecer que o trabalho está a morrer é reconhecer também que há que remover dos programas dos partidos políticos de estilo novo qualquer referência ao culto do trabalho, é preciso ser realista: o trabalho é uma actividade como outra qualquer. Certamente que desde o nazismo todos os partidos promovem um “culto ao trabalho”. E isto gerou uma distorção da realidade: porque o trabalho não é a única tarefa que pode realizar o ser humano.

Felizmente a vida humana é extremamente rica em matizes. Além do trabalho existem muitas outras formas de actividade: a criação artística, o ócio, a investigação, a aprendizagem, o estudo, cuja natureza é muito diferente da do trabalho e que, frequentemente, é gerada por interesses não económicos.

A morte do trabalho é uma das formas que adquire a norma aconselhada por Julius Evola de “cavalgar o tigre”: porque se a morte do trabalho é uma tragédia, é-o, sobretudo, para a sociedade burguesa das Luzes e da prática política-económica do século XIX, não para aqueles que queremos um mundo novo e original, no qual a possibilidade de não morrer de fome não se dê necessariamente por troca com a de morrer de aborrecimento.

Em 1965 Herbert Marcuse estabeleceu que a diferença entre a nossa época e as anteriores, consistia em que agora era possível a realização prática dos ideias utópicos dado o crescimento das forças produtivas. Marcuse adiantou-se quase 40 anos: para que a utopia fosse possível era preciso uma maior automatização dos processos produtivos… e uma vontade decidida de conter o crescimento da economia especulativa. Isso não ocorria em 1965, mas ocorre hoje.


A utopia é possível, desde que se adoptem medidas drásticas: em primeiro lugar é necessário cortar radicalmente o fluxo de imigrantes para a UE, de seguida inverter a tendência e proceder ao repatriamento progressivo dos imigrantes. Neste terreno a divisa é: “Os Espanhóis primeiro”. Assim se põe termo ao crescimento da população que pretende vender a sua força de trabalho e, em consequência, o seu valor aumenta.

A segunda medida é a redução drástica dos horários de trabalho. Hoje é possível manter os salários com menos de 35 horas semanais. Além do mais, as reduções de horários devem ser acompanhadas por medidas sociais: subvenção ao trabalho no lar, protecção à família, etc. As protecções no desemprego, longe de diminuir como até agora, devem aumentar. E tudo isto, que implica um forte aumento dos gastos públicos, obtém-se mediante uma maior distribuição das receitas do Estado.

Finalmente a utopia é possível desde que se ponha termo à economia especulativa. A taxa Tobin parece uma medida oportuna, mas não é a única, nem sequer a mais aplicável. É preciso impedir fiscalmente as grandes acumulações de capital. É impossível abolir o capital, mas é possível orientá-lo em direcção à produção em vez da especulação. Os rendimentos procedentes da especulação devem restringir-se ao máximo. Hoje, a utopia é possível, mas a utopia já não está na nova esquerda, mas sim em quem tenha a coragem de denunciar o principal facto do nosso tempo: a morte do trabalho.

sábado, 9 de outubro de 2010

O Teatro de Ibsen e sua influência sobre a crítica de Hitler à Democracia

por Ernesto Milà

Desde o segundo grau não havia tido ocasião de reler a Ibsen. Mas sim de vê-lo representado, pois não em vão sua obra é exclusivamente teatral. Hoje segue-se representando a Ibsen se bem que se haja perdido a memória de qual era o verdadeiro pensamento desse autor que renovou o teatro europeu. Na Internet é fácil baixar algumas de suas obras representadas em princípios dos anos 70 na memorável série televisiva Estudo 1. Porém de todas elas, sem dúvida, a que necessariamente há que ser vista - ao menos, a que todo "regeracionista" tem obrigação de ver - é O Inimigo do Povo.

Quem era Ibsen?

Em 2006, a Noruega celebrou com estilo o centenário do falecimento de sua grande glória literária, Henrik Johan Ibsen. Tratou-se de uma homenagem nacional e popular que involucrou a todos os cidadãos noruegueses que dispunham de um mínimo de sensibilidade cultural, não em vão Ibsen é considerado como um dos autores uqe mais influenciou no teatro realista moderno.

O aspecto que se destaca em Ibsen nas fotos que chegaram até nós o mostram como um indivíduo quase vitoriano, com cabelos brancos desordenados e barba do mesmo jaez, tudo isso sobre o cinza escuro das primeiras fotos novocentistas com as quais se divertiam os pequeno burgueses bem-pensantes. Ainda assim, não há ninguém menos burguês e menos vitoriano do que Ibsen. Seu teatro é, simplesmente, revolucionário em relação ao seu tempo... e à atualidade, pois não em vão, as obras de Ibsen conservam com um não usual frescor todo o seu interesse.

Conhece a miséria epois que seu pai se arruina; trabalha durante seis anos como aprendiz em uma farmácia e logo estuda medicina, porém antes de terminar começa a escrever poemas e pequenas peças teatrais nas quais dá vazão a uma rica interioridade que a sua timidez impedia de exteriorizar.

Sua primeira obra teatral - Catilina - é um fracasso que nem se quer logra ser representada, porém sua hora chega quando outra de suas obras, A Tumba do Guerreiro, é representada pela primeira vez em 1851. De Cristiania se estabelece em Bergen onde conhece a que será sua mulher e estreia nessa época (os anos 50 do século XIX) algumas de suas obras mais populares (Os Vikings de Helgeland, entre outras). Cansado do ambiente luterano da Noruega em 1864 se exila em Roma e em 27 anos não voltará a seu país. Residirá uma temporada em Munique quando já era um autor reconhecido a nível europeu. Em 1891 regressa definitivamente à Noruega e morrerá em 1906 com a idade de 78 anos.

Em 2006 ao cumprir-se 100 anos do falecimento de Henrik Ibsen, o Ministério de Assuntos Externos desse país decidiu que esse deveria ser comemorado em todo o mundo como o "Ano Ibsen". Ibsen é hoje o autor teatral mais interpretado depois de Shakespeare.

O quê escreveu Ibsen?

As obras completas de Ibsen (publicadas em um único volume em 1952) são facilmente acessíveis em qualquer biblioteca e basta passar rapidamente a vista para perceber a existência de três etapas em sua obra. A primeira coincide com sua estada na Noruega durante sua juventude. São obras de caráter romântico nas quais frequentemente aparecem elementos folclóricos locais. Brand, por exemplo, alude à invasão da Dinamarca pelos prussianos e à ausência de solidariedade que outros países nórdicos praticaram. Mais interessante e atual é Peer Gynt (1868) cujo protagonista Peer, caricaturiza o gênio norueguês, submerso na fantasia e pouco previdente.

A partir de seu auto-exílio sente-se mais livre para se aprofundar em duas direções: realismo (não em vão é o pai do teatro realista) e crítica social. Isso o converte em um autor polêmico cujos extremos não passam desapercebidos. Nesse período escreve suas duas melhores peças: Casa das Bonecas, e O Inimigo do Povo, que é a obra que justifica esse artigo. A primeira tem sido considerada falsamente como uma obra feminista. Não o é, sendo em verdade, uma obra na qual são denunciadas as características da burguesia, sua linguagem dúplice, seu conformismo e, finalmente, seus preconceitos. E não é feminista na medida em que o autor não reinvidica a "igualdade" para a mulher. De fato, a nega. Escrevia a propósito da obra: "Existem dois códigos de moral, duas consciências diferentes, uma do homem e a outra da mulher" e aqui reside o problema, porque ainda quando a igualdade não exista e o homem e a mulher sejam diferentes, as leis eram escritas e eram interpretadas naquela época somente por homens. A obra foi estreada em toda Europa e em toda ela foi objeto de vivas polêmicas.

Muito mais polêmica seria, porém, O Inimigo do Povo (1882), a que, em nossa opinião, é sua melhor obra. No ano anterior, Ibsen havia sido muito atacado por sua obra Espectros e Ibsen se sentiu como o protagonista dessa obra seguinte que apresenta o drama de um homem de convicções frente a uma sociedade sem princípios que pratica o oportunismo mais absoluto e imoral. Seu protagonista, denuncia que as águas do balneário são um perigo para a saúde. As forças sociais do povo tratam de ocultar isso na medida em que a prosperidade do povo está intimamente ligada ao balneário. Sua obstinação em defender a causa da verdade o levará a enfrentar-se com as forças vivas do povo que terminam declarando-o inimigo ainda tendo consciência de que a denúncia do protagonista é perfeitamente certa. Esse, por sua vez, descobre bruscamente que "as raízes de nossa vida moral estão completamente apodrecidas, que a base de nossa sociedade está corrompida pela mentira". Tem que abandonar o povo, somente com sua mulher e sua filha.

Esse período termina com O Pato Silvestre (1884), aberta ao simbolismo no qual aborda o tema da dúvida sobre se o ser humano pode, ou não se regenerar. Ibsen toma o pato selvagem ferido que quer morrer no fundo do lago, como uma perífrase simbólica de ser uma sociedade que rechaça a verdade e vive em plena mentira auto-complacente. O protagonista diz: "A vida poderia ser bastante agradável se não chamassem à porta esses credores reclamando o cumprimento dos ideais a pobres humanos como nós". Essa obra se situa a meio caminho entre o realismo social e o simbolismo que preside sua terceira etapa.

Nessa terceira fase de sua obra, IBsen se torna metafórico e suas produções mais representativas serão A Dama do Mar, O Mestre Construtor e especialmente Hedda Gabler. Precisamente, essa obra é a negação mesma de qualquer "surto" feminista que pudesse ter tido Ibsen quando esreveu Casa das Bonecas. A protagonista não respeitava os ideais e a moral da mulher de sua época, está obcecada com o êxito, porém nada impede que seja profundamente desafortunada. Pode dizer-se que Ibsen se antecipou cem anos ao panorama da mulher "liberada" atual, cuja liberação em relação ao varão, longe de ser um "progresso" é a fonte de novas servidões sem compensação. Não tem saída, por isso na última cena se suicida.

Existe um nexo entre Hitler e Ibsen?

Estava folheando novamente O Inimigo do Povo para escrever esse artigo quando descobri uma frase que havia lido em um ensaio político. Dizia Ibsen pela boca do protagonista: "O homem mais forte do mundo é aquele que está mais só". A frase, em efeito, foi recuperada justo quarenta anos depois por um preso trancado em Landsberg que escreveu: "O forte é mais forte sozinho". Ambas frases são filhas da mesma inspiração, porém a segunda foi escrita por um admirador de Ibsen, Adolf Hitler cujas reflexões na prisão de Landsberg foram transcritas em um livro que inspiraria o maior movimento de massas da Alemanha moderna, Mein Kampf.

Bruscamente me dei conta de que a crítica que realizava Ibsen à Democracia Liberal, havia sido recuperada, frase a frase por Hitler em sua obra política até o ponto em que a posição do futuro Führer sobre esse tema era literalmente calcada na de Ibsen. A questão era se tratava-se de uma casualidade ou se algum historiador já havia analisado isso. É evidente que Mein Kampf tem sido analisado desde o momento em que foi publicado em centenas de ocasiões. Alguém, pois, deveria ter notado a influência de Ibsen no pensamento de Hitler. E, por outra parte, na biografia desse deveriam existir também rastros do momento em que se interessou pela obra do escritor norueguês. Era assim?

Sem dúvida. Existe um nexo entre Ibsen, o Mestre, e Hitler que assume boa parte de suas ideias e, em especial, a crítica à democracia contida em O Inimigo do Povo. Em alguns capítulos do Mein Kampf, quando Hitler fala da miséria dos políticos bávaros de Weimar, parece que está falando dos personagens pintados por Ibsen através dos quais denunciava a pequena burguesia conformista que tenta, acima de tudo, manter sua confortável posição...ainda quando se baseia em uma perigosa mentira. Os políticos conservadores, a imprensa liberal, os progressistas, são denunciados por Hitler com as mesmas palavras que se desprendem dos arquétipos da obra de Ibsen, até op onto de que cabe pensar se durante seu cárcere em Landsberg, Hitler não teve acesso aos libretos das obras de Ibsen.

Existia um testemunho de primeira mão que retrasava o conhecimento que Hitler teve da obra de Ibsen até seus anos escolares. Era, como não poderia ser de outra forma, August Kubicek, companheiro de adolescência de Hitler que transladou suas lembranças em uma obra ainda hoje frequentemente reeditada como a melhor fonte biográfica de Hitler nessa época: Hitler, Meu Amigo de Juventude. Ambos jovens iam frequentemente ao teatro e à ópera, porém não tiveram ocasião de ver a representação de nenhuma das obras de Ibsen. Mesmo assim, Kubicek diz a esse respeito: "Os dramas de Ibsen foram lidos por Adolf em Viena, em que causassem nele uma impressão especial" e acrescenta: "Ao menos, não posso me recordar disso". Fim de citação.

Era inevitável que as lembranças de Kubicek fossem limitadas apesar de que seu testemunho seja inestimável para comprovar as convicções do futuro Führer. Mesmo assim, outros autores já abundaram nas fontes das quais bebeu Hitler após se despedir de seu amigo de juventude. Devemos a Werner Masser uma das biografias mais completas de Hitler na qual, igualmente se fala nas "fontes" de Hitler, incluindo-se entre as mais importantes Ibsen.

Nos Estados Unidos inclusive, toda essa influência foi tratada em um volume dedicado exclusivamente a analisar a influência do dramaturgo norueguês sobre o Führer: Hitler e Ibsen, subtitulado: O Dramaturgo, o Plagiador e a parcela do Terceiro Reich, de Steven F. Sage. O livro entra dentro da órbita antinazi, porém a abundância de documentação contribui a dar credibilidade à tese central - mais além das crenças políticas do autor - a saber, que Hitler levou muito em conta a obra de Ibsen na hora de estruturar suas ideias e inclusive seu estilo.

Nessa obra Sage sustenta que "o jovem Hitler" ficou muito impressionado e recebeu a influência de três obras de Ibsen. A influência mais forte e, naturalmente, a de O Inimigo do Povo, com cujo protagonista, o Doutor Stockman, Hitler se identifica. Parece evidente e inegável: quando Stockman realiza no Terceiro Ato da obra uma crítica à Democracia perante a assembleia de vizinhos do povo, o essencial de seus pontos de vista estão presentes no Mein Kampf nos capítulos que aludem às inconsequências do sistema partidário e à volubilidade da opinião pública. Sage chega a opiniar que a influência dessa obra era, no mínimo similar a que exerceu sobre o "joven Hitler", a ópera de Wagner, Rienzi. Compartilhamos dessa opinião. Em ambos casos, não se tratava somente de "ideias", mas sim muito mais de "identificações". O "joven Hitler" ficou tão impressionado pelas figuras de Cola de Rienzi e do Doutor Stockman, que, a partir desse momento se identificou com ambos e com seus destinos. Porém há uma terceira identificação que não carece de interesse.

Em O Imperador e O Galileu, Ibsen rememora a figura de outro personagem "anômalo" da história: O Imperador Juliano, chamado "o Apóstata". Trata-se de uma das figuras ilustres da Roma crepuscular que se revelou contra a decadência e contra a força do destino em nome do velho paganismo. Assim como Stockman ou Rienzi, o Imperador Juliano é uma figura tão trágica como atrativa que define em si mesma o drama de todos aqueles que decidiram nadar contra a corrente. Ibsen considerava que essa obra era sua culminação como dramaturgo. É, de fato, a mais densa desde o ponto de vista das ideias que consegue transmitir o drama interior do Imperador Juliano aprisionado entre a vontade de restaurar o velho paganismo e a supremacia do cristianismo nos estratos populares da população.

Enquanto a terceira obra de Ibsen que mereceu um interesse da parte do futuro Führer é menos conhecida e - que saibamos - jamais foi representada na Espanha. Trata-se de O Mestre de Obras Solness, que recupera o velho tema do amor e das diferentes formas de amar. De fato, Ibsen foi um grande estudioso da mentalidade feminina e muito frequentemente faz de mulheres os eixos centrais de suas peças (Hedda Gabler, por exemplo, sem dúvida a mais famosa dessa incursão no mundo do feminino). Ainda assim, em O Mestre de Obras Solness, Hilde está apaixonada pelo artista que dá nome à peça. Esse corresponde a seus amores, porém é evidente que para ele não se trata de um ser carnal, mas sim que Hilde representa, não a uma mulher real, mas sim à força ideal que está por trás de toda obra de arte autêntica. Apesar de que essa temática não merecesse ser incluída em seu ensaio político, o Mein Kampf, é indubitável que Hitler tinha uma concepção particular do amor que afundava suas raízes na produção de Richard Wagner que coincide exatamente com a incorporada por Ibsen à co-protagonista de O Mestre de Obras Solness.

A demonstração que faz Sage dos vínculos entre o pensamento de Hitler e a produção de Ibsen não deixa lugar a dúvidas sobre a enorme influência que exerceu esse sobre as opiniões do "jovem Hitler", muito mais do que recordava August Kubicek. Sage indica que essas três obras de Ibsen nunca desapareceram da mente da Hitler o qual parafraseou quase textualmente em algumas intervenções públicas e em discursos perante as massas, frases dos dramas do norueguês. Porém, ademais Ibsen ofereceu ao "jovem Hitler" 'modelos de comportamente", no mínimo, tanto quanto Wagner, até o ponto de que termina assignando-se o papel dos protagonistas das peças de Ibsen. Se Wagner ofereceu em suas obras os valores metafísicos e transcendentais que assumiria Hitler em sua concepção do mundo, Ibsen, pôs, literalmente, as palavras em sua boca.

Outro aspecto que destaca Sage é a influência que tiveram as concepções neopagãs de Ibsen especialmente nos anos de juventude de Hitler. Mais adiante, quando já tivesse iniciado sua carreira política, não poderá evitar o estrategismo e que alguns de seus princípios mais enraizados sejam colocados em segundo plano, ou simplesmente, fossem colocados no baú das lembranças, simplesmente para não provocar fugas de eleitores ou não abrir problemas que tinham pouco sentido em uma carreira de subida ao poder.

O livro de Sage apareceu em 2006 quando se cumpria o primeiro centenário da morte de Ibsen. Há que dizer que o livro está redigido em um tom moderadamente anti-nazi, pois não em vão Sage é um antigo bolsista de investigação nos Estados Unidos do Holocaust Memorial Museum e não pode evitar demonstrar seu agradecimento a quem financiou seus estudos.

É inevitável ver nesse fragmento de O Inimigo do Povo a inspiração da sentença que Hitler inclui o Mein Kampf: "O forte é mais forte sozinho". Ibsen coloca essa frase ao final do Quarto Ato de sua obra:

"Doutor Stockmann: - Que loucuras estás dizendo, Catalina? Casar-me? A mim, que agora sou o homem mais poderoso da cidade?

Senhora Stockmann: - Poderoso?...Tú?

Doutor Stockmann: - Sim. E até me aventuro a dizer que sou um dos homens mais poderosos do mundo.

Morten: - Verdade, papai?

Doutor Stockmann (em voz baixa.): - Chris! Silêncio! Todavia é um segredo; porém acabo de fazer uma grande descoberta...

Senhora Stockmann: - Outra descoberta?

Doutor Stockmann: - Sim, outra. (Reunindo todos ao seu redor). Escutai. O homem mais poderoso do mundo, é aquele que está mais só.


Alguns fragmentos de O Inimigo do Povo:


(...) Não; a maioria não tem razão nunca. Essa é a maior mentira social que já se disse. Todo cidadão livre deve protestar contra ela. Quem constitui a maioria no sufrágio? Os idiotas ou os inteligentes? Espero que vocês concederão que os idiotas estão em todas as partes, formando uma maioria esmagadora. E creio que isso não é motivo suficiente para que os idiotas mandem nos outros. (Escândalo, gritos.) Afogam minhas palavras com vosso vozeirio! Não sabeis contestar-me de outra maneira. Ouvide: a maioria tem a força, porém não tem a razão. Temos a razão eu e alguns outros. A minoria sempre tem razão. (Tumulto).

(...) Os juro que não outorgarei nem uma palavra de esmola aos desgraçados de peito comprimido e respiração vacilante, que não tem nada a ver com o movimento da vida. Para eles não são possíveis nem a ação, nem o progresso. Me refiro à aristocracia intelectual que se apodera de todas as verdades nascentes. Os homens dessa aristocracia estão sempre na primeira linha, longe da maioria, e lutam pelas novas verdades, demasiado novas para que a maioria as compreenda e as admita. Penso em dedicar todas as minhas forças e toda minha inteligência a lutar contra essa mentira de que a voz do povo é a voz da razão. Que valor oferecem as verdades proclamadas pela massa? São velhas e caducas. E quando uma verdade é velha, pode-se dizer que é uma mentira, porque acabará convertendo-se em mentira. (Se ouvem risadas, zombarias, murmúrios e exclamações de surpresa.) Não me importa o mínimo se me acreditam ou não. Em geral, as verdades não tem uma vida tão longa quanto Matusalém. Quando uma verdade é aceita por todos, só lhe restam de vida uns quinze ou vinte anos no máximo, e essas verdades, que se converteram assim em velhas e caducas, são as que impõe a maioria da sociedade como boas, como sadias. De que serve assimilar tamanha podridão? Sou médico, e asseguro-lhes que é um alimento desastroso, creiam-me, tão mal como os arenques salgados e o presunto velho. Essa é a razão pela qual as enfermidades morais acabam com o povo.

(...) E eu estimo, Pedro, que sejas um louco de pedra. Vou ao miolo da questão, posto que estou falando da repugnante maioria que envenena as fontes de nossa vida intelectual e o terreno sobre o qual nos movemos.

(...) Por Deus, senhor Hovstad, não me fale você agora de verdades evidentes, reconhecidas por todos! As verdades que aceita a maioria não são outras que as que defendiam os pensadores de vanguarda em tempos de nossos tataravós. E não as queremos. Não nos servem. A única verdade evidente é que um corpo social não pode se desenvolver com regularidade se não se alimenta mais do que de verdades dissecadas.

(...) A crença herdada de seus antepassados, e que você defende impensadamente sem descanso: me refiro à crença segundo a qual a plebe, a maioria, constitui a essência do povo; em sua opinião, o homem do povo, o que encarna a ignorância e todas as enfermidades sociais, deve ter o mesmo direito de condenar e aprovar, de dirigir e governar, que os seres seletos que formam a aristocracia intelectual.

(...) E não podeis ouvir por uma única vez em vossas vidas uma verdade sem se enfurecerem? Realmente, não esperava convencê-los a todos no primeiro momento; porém acreditava que, ao menos, estaria de acordo comigo o senhor Hovstad, que é "livre-pensador"...

(...) Condenem-me se não sois animais! Todos somos animais. O que ocorre é que há uma grande diferença entre os homens-mastins e os homens de Raça. E o mais engraçado é que tenho certeza de que o jornalista Hovstad me dará a razão... tratando-se de quadrúpedes (...) Quando se trata de animais de duas patas, o senhor Hovstad não se atreve a compartilhar de minha opinião. Predica em seguida n'A Voz do Povo que a galinha do camponês e o mastim de rua são mais distintos e melhores que a galinha e o cão de luxo. Assim será sempre com o homem, enquanto não eliminem o que há de vulgar nele, para alcançar sua verdadeira distinção espiritual. (...) A plebe a que me refiro não se encontra apenas nas classes baixas; também se agita ao nosso redor, ainda entre as classes mais elevadas da sociedade. Bastai olhar para o vosso próprio prefeito. Meu irmão Pedro é tão plebeu quanto qualquer outro bípede calçado com sapatos.

(...) E que importa que se arruine uma sociedade apodrecida? O melhor que se pode fazer é acabar com ela, acabar com todos os que vivem da mentira como feras daninhas. Terminareis por contaminar todo o país, e sois capazes de levar também a ele a ruína da cidade; se chegar a tal ponto de corrupção, gritarei com toda minha alma que esse país deve ser aniquilado, que nosso povo deve desaparecer de uma vez por todas.

(...) Que dizes, Catalina? Preferes vê-los viver em uma atmosfera como essa? Na outra noite, tu mesma pôde comprovar que a metade da população está louca de pedra; e que, se a outra metade não perdeu a razão, é porque os imbecis carecem de razão para perder.

(...) Que queres insinuar? Que não é exato o que digo? Que essas ideias não transtornam o juízo? Acaso não são uma mistura de justiça e injustiça? Não chamaram de mentira aquilo que sei que é verdade? Por último, a maior insensatez desses homens de idade madura, de todos esses liberais, de toda essa massa imunda, é que acreditam e se fazem passar por espíritos livres. Onde é que já se viu algo semelhante, Catalina?

(...) E que queres que eu faça, Catalina? Ou preferes que me arraste pela lama, dependendo da opinião pública, da maioria compacta e de todas essas boatarias? Não; o que desejo é bem simples: desejo enfiar na cabeça desses idiotas a que chamam aqui liberais, que são os piores inimigos dos homens livres, que os programas de partido abortam toda verdade capaz de viver, qeu a forma como interpretam certas conveniências está fora de toda moral e de toda justiça, e que acabarão por tornar a vida completamente insuportável. (...)

(...) Pois vai entendê-lo em seguida. É necessário que desapareçam os cabeças dos partidos. Todo cabeça é um lobo, um lobo faminto que necessita para viver, certo número de galinhas e cordeiros. E senão, que o digam Aslaksen e Hovstad. Quantos cordeiros devoram? E os que não devoram, os inutilizam, convertendo-os em proprietários de casas e em assinante d'A Voz do Povo. (Se senta na beira da mesa.) Vem cá, Catalina. Veja como nos envia o Sol seus raios generosos, e como nos refresca a brisa da primavera que entra por essa janela?

(...) Nunca. Lhes darei aula eu mesmo. Já não tereis que estudar nada de nada; porém, isso sim, farei de vós homens livres e superiores. Para isso, Petra, necessitarei de tua ajuda, me ouves?

Morten: - E o que vamos fazer quando nos tornarmos homens livres e superiores?

Doutor Stockmann: - Então, meus filhos, ireis à caça dos lobos, que por aqui abundam.


Tradução por Raphael Machado