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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Na Casa de Pound - Entrevista com Gianluca Iannone

por Colin Liddell



Casapound é um movimento político italiano que toma seu nome do poeta e simpatizante fascista americano, Ezra Pound. Ainda que seja inevitavelmente referido como "extremista", "racista", e "neofascista", o movimento, que foi fundado em 2003, é na verdade mais complexo e interessante, especialmente a partir de uma perspectiva alternativa de direita. Ele assume uma abordagem holística e comunitária à política, focando em cultura, comunidade, e uma variedade de atividades para seus membros, tanto quanto em política de rua tradicional. Esta é uma entrevista que fiz por email com Gianluca Iannone, o líder do movimento, no início de 2011 para um artigo que eu estava escrevendo.

A CasaPound ainda não é muito conhecida nos países anglófonos, mesmo para aqueles ativos em política direitista. Tu poderias introduzir seu movimento para nossos leitores e descrevê-lo? Quão grande é CasaPound? Quantos membros e quanto apoio tendes?

Em primeiro lugar, ligar a CasaPound à direita é um pouco restritivo. CasaPound Italia é um movimento político organizado como uma associação de promoção social. Ele começa na direita e passa por todo o panorama político. Direita ou esquerda são duas visões antigas da política, e nós precisamos gerar uma nova síntese. A CPI tem mais de 4000 membros por toda a Itália, mas as ajudas e simpatia que nós recebemos diariamente é muito maior... Basta considerar que o Blocco Studentesco, nossa organização estudantil, conseguiu 11.000 votos em Roma nas eleições estudantis.



Por favor, conte-nos um pouco sobre ti e teu background.

Eu nasci em agosto de 1973 e comecei a fazer ativismo político aos 14 na Fronte della Gioventù em Acca Larenzia, uma das vizinhanças do centro de Roma. Desde então eu nunca parei de ser parte desse mundo. Jornalista desde 1999, eu trabalhei para estações de TV e rádio e também escrevi para jornais nacionais sobre conflitos internacionais, literatura, cinema e música.

Por que tu te tornastes politicamente ativo? Foi algum evento, ação, ou pessoa que impeliu-te ao ativismo político?

Para falar a verdade, não houve uma coisa em particular. Creio que foi simplesmente destino.


Quais são as principais políticas e objetivos da CasaPound, tanto a curto prazo como a longo prazo?

A CPI trabalha com tudo que tenha relação com a vida de nossa nação: do esporte à solidariedade, cultura, e é claro política. Nos esportes, nós temos times de futebol e uma academia, nós praticamos hockey, rugby, skydiving, boxing, brazilian jiu-jitsu, scuba diving, escalada, espeleologia.  A nível de solidariedade, nós temos equipes de auxílio, nós levantamos fundos para o povo Karen, e nós prestamos auxílio a órfãos e mães solteiras. Uma linha telefônica chamada "Dillo to CasaPound" está ativa 24h/dia para dar conselhos gratuitos em questões legais e tributárias. No campo cultural nós, promovemos autores e organizamos apresentações de livros; nós temos um clube de artistas, uma escolha de teatro, aulas gratuitas de guitarra, baixo e bateria, nós criamos uma tendência artística chamada Turbodinamismo, nós temos uma casa editorial, dúzias de livrarias e sites. Politicamente nós propusemos diversas leis como o Mutuo Sociale (Hipoteca Social), o Tempo di essere Madri (Tempo de ser mãe) ou contra a privatização da água e diversas outras. Falar sobre a CPI nunca é fácil porque todas essas coisas são CasaPound. Todas elas representam nossos desafios e projetos para agora e para o milênio. 



Tu tens alguma ligação significativa com grupos ou partidos de fora da Itália?

Não.
A primeira coisa que chama a atenção nos países anglófonos é o nome de teu grupo, que, é claro, faz referência ao famoso poeta americano Ezra Pound. Quão importantes são as idéias de Poundo para teu movimento? Por que resolveu-se incluir seu nome no título de teu movimento?

Ezra Pound foi um poeta, um economista e um artista. Ezra Pound foi um revolucionário e um fascista. Ezra Pound teve que sofrer por suas idéias, ele foi enjaulado para impedi-lo de falar. Nós vemos em Ezra Pound um homem livre que pagou por suas idéias; ele é um símbolo das "visões democráticas" dos vencedores.

Ezra Poundo também é um nome rotineiramente associado com o antissemitismo. Alguns automaticamente verão a invocação de seu nome como uma chamada ao antissemitismo. Poderias esclarecer a posição da CasaPound em relação aos judeus e Israel?

Associar Ezra Pound e antissemitismo é uma falsificação total. É a mesma coisa para a CasaPound, não faz sentido. É verdade que nós somos contra a política israelense em relação aos palestinos, contra o bombardeio de civis, e contra o embargo sobre o auxílio internacional. Dizer isso não significa ser antissemita, significa analisar os fatos.
Tu também és conhecido por uma retórica anti-usurária. A maioria das pessoas racionais opõe-se a usura excessiva, mas tu te opões a toda forma de usura? Se não, onde termina o crédito construtivo e começa a usura destrutiva?

Usura é a pior das coisas. É a cabeça do polvo. É aquilo que deu início às guerras que estão começando no Mar Mediterrâneo, que gera a imigração ilegal e a destruição. É aquilo que cria desemprego, e dívidas. É o que ameaça o futuro de nossas crianças, que as torna fracas e preparadas para o massacre.
Minha impressão da CasaPound é a de que é fundamentalmente uma organização comunitária que opera com sucesso na arena da política de rua, com marchas, paradas, e eventos que fortalecem a identidade e a comunidade, ao invés de através de eleições convencionais. Nos países anglo-saxões a política de rua da direita falhou no passado, permitindo à mídia oficial pintar imagens bastante negativas do National Front na década de 70 e do BNP posteriormente. Por causa disso o BNP agora evita a rua como arena política. O sucesso de teu grupo sugere que a rua é uma arena política muito mais aceitável para a direita na Itália. Por que crês que seja assim? Quais são as diferenças que tornam isso possível?

Em primeiro lugar, a Inglaterra nunca foi um estado fascista. Isso já cria uma grande diferença cultural. Também, como eu disse antes a CPI trabalha em dúzias de projetos e com diversos métodos: de conferências a demonstrações, distribuição de informações, pôsteres, etc. O que é importante é gerar contra-informação e ocupar o território. É fundamental criar uma rede de apoiadores ao invés de focar em eleições. Nas eleições, tu estás competindo com grupos com um forte financiamento e com apenas uma ou duas pessoas eleitas, não podes mudar nada. Política para nós é uma comunidade. É um desafio, é uma afirmação. Para nós, política é tentar ser melhor a cada dia. É por isso que nós dizemos que se não te vemos, é porque tu não estás lá. É por isso que estamos nas ruas, nos computadores, nas livrarias, nas escolas, nas universidades, nos ginásios, no topo das montanhas ou nas bancas de jornal. É por isso que estamos na cultura, no ativismo social e nos esportes. Este é um trabalho constante.


Por causa das diferenças entre Grã-Bretanha e Itália pensas que seja melhor para a direita no Reino Unido evitar a política de rua? Nesse contexto, qual é sua opinião da English Defence League, um grupo que obviamente vê a rua como sua arena ou fórum?

 Eu penso que a EDL está apelando para o discurso do choque de civilizações. Para mim e para a CasaPound, isso provoca um certo desagrado. Se a direita britânica está reduzida a isso, então vamos conversar sobre futebol, que será melhor.



domingo, 30 de outubro de 2011

O Mito e a Vanguarda

Por Adriano Scianca


O problema da linguagem

Todo movimento autenticamente revolucionário – isto é, portador de projetos radicalmente inovadores e originais a tudo aquilo que se experimentou e em tudo e por tudo heterogêneo e alternativo com respeito ao mundo sócio-político no qual irrompe – inevitavelmente se choca com o problema da linguagem.

Isto acontece porque todo movimento “novo” deve necessariamente fazer uso de uma linguagem “velha”, impregnada da sensibilidade e da lógica própria do mundo ao qual se queria subverter. Além disso, não poderia acontecer de outra forma: a linguagem é sempre a linguagem recebida. Observa com lucidez um filósofo contemporâneo – embora muito distante de nossa perspectiva – que “um sujeito que fosse a origem absoluta do próprio discurso e o construísse “em todas as suas peças”, seria o criador do verbo, o Verbo em pessoa” [1], seria, portanto, o Deus da Bíblia que cria ex nihilo, sendo o “totalmente outro” a respeito do mundo, estando então fora da história e da linguagem. O homem, em troca, encontra-se sempre na linguagem; uma obra de engenharia lingüística lhe resulta completamente impossível, já que sempre deve atuar com os “instrumentos” que encontra em seu lugar. Mas atuar com “instrumentos” pensados para finalidades completamente distintas a respeito das quais se propôs nem sempre é cômodo.

Pensemos em Heidegger – mas problemas análogos já se apresentam em Nietzsche –, que deixa inacabada sua obra prima, Ser e Tempo, porque carece de uma linguagem apropriada; em certo momento ao pensador alemão “lhe faltavam as palavras”, já que todas aquelas disponíveis estão irremediavelmente empapadas da visão de mundo dominante no Ocidente. Mas para que o problema aqui abordado não resulte excessivamente abstrato e individualista, pensemos também em todos aqueles movimentos políticos e culturais que passaram à história com o nome de Konservative Revolution: observando aos slogans, aos lemas, aos títulos dos livros, aos nomes dos distintos grupos, não se pode mais do que perceber certo gosto pelo oximoro, pelo paradoxo, pela violação aberta dos cânones e dos esquemas comuns; pensar em um socialismo que seja também nacional, em uma aristocracia que funda suas raízes no povo, em uma democracia desvinculada da tutela do liberalismo plutocrático, em um cristianismo que afirme valores germânicos (isto é, pagãos) – tudo isto possui origens de muitíssima maior profundidade do que uma simples ânsia por originalidade.

Por detrás de tudo isso se encontra melhor exposta a incapacidade de definir-se a si mesmo de maneira adequada através da linguagem dominante e há, portanto, uma vontade de síntese, uma tentativa de pensar de forma simultânea o que sempre se concebeu como distinto. Um exemplo a mais, porém desta vez mais concreto: pensemos em nós mesmos; ponhamo-nos em relação aos grandes temas da atualidade e tratemos de tomar parte no debata tal e como nos vem apresentado pelos meios de comunicação.

E bem, estamos com a retórica angelical, enjoativa, igualitária e hipócrita dos pacifistas, ou com a cruzada feita a base de bible & business de George W. Bush? Estamos contra os bárbaros imigrantes islâmicos em nome do Ocidente cristão ou somos filo-imigracionistas intransigentes, seguidores do cosmopolitismo e da mestiçagem étno-cultural? Estamos na corrida desenfreada de “desenvolvimento” neoliberal, ou a favor do “retorno” a uma civilização neopastoral, fora da história, ao estilo das últimas tribos africanas? De maneira mais banal: somos de direita ou de esquerda? Estas são as alternativas que nos propõe o mundo contemporâneo. Nosso desconforto ante estas é evidente, já que a posição que deve ser tomada nos parece sempre uma terceira a respeito das quais nos são dadas. Isto acontece na medida em que somos realmente revolucionários, utilizamos uma linguagem diferente. A linguagem do mito.

O mito

Segundo Giorgio Locchi [2], todo movimento que encarne uma tendência histórica nova se apresenta sob uma forma mítica. O mito, precisamente pelo fato de ser “novo” não pode falar uma linguagem totalmente in-formada por valores a ele antiéticos e, todavia, não possui outras formas expressivas a sua disposição; por isso, nasce sob o signo da ambigüidade, sua expressão é o paradoxo.

A respeito dos códigos lingüísticos dominantes, a expressão mítica aparece como heresia, como transgressão, como unidade dos opostos. Isto acontece precisamente em virtude da violação – mais ou menos consciente – da dialética da linguagem utilizada. A linguagem que se parasita se desenvolve e articula-se, de fato, mediante a instituição de pares de opostos e de contrários – que, no caso do igualitarismo são, entre outras, cristianismo/ateísmo, comunismo/capitalismo, nacionalismo/internacionalismo, direita/esquerda, individualismo/coletivismo, reação/progresso, etc. – que refletem a auto-reflexão ideológica do universo político-cultural imperante. A expressão mítica faz um curto-circuito nesta dialética ao não pensar nos contrários como tais. As palavras fundamentais são, por tanto, “falsificadas”. Significados novos são derramados em significantes velhos. Têm-se assim um uso instrumental da linguagem, que não deve mais “explicar” analiticamente, mas deve agora evocar, tocar uma sensibilidade profunda que vai mais além da simples razão. A unidade dos contrários, própria do mito, é dada pelos Leitbilder (imagens condutoras) das quais fala Armin Mohler [3].

Os Leitbilder são os mitemas, as unidade primárias da estrutura mítica, do Weltbild, isto é, da imagem do mundo. São símbolos evocativos, imagens condutoras de uma idéia do mundo. A criação e a difusão dos mitemas instaura um fluxo comunicativo, isto é, a rede das relações humanas mediante a qual o próprio mito se diz e fala. Comunicar é, de fato, instaurar relações, vincular-se aos outros, descobrir afinidades ou idiossincrasias. Os indivíduos estão necessariamente abertos ao próprio contexto comunicacional; se comunicando, tendem também a reconhecerem-se, tendem a tomar posição junto aos quais sentem-se afins. A disposição mítica de quem profere o discurso mítico, na prática, tende a “excitar” a disponibilidade mítica de quem acolhe ao discurso. Quem consiga situar-se como centro da estrutura dos signos lingüísticos do discurso mítico – para utilizar a linguagem “estruturalista” própria – logra dominar (embora somente parcialmente: a linguagem não se domina nunca como uma coisa) o fluxo comunicativo, logra impor-se na produção dos símbolos e se situa como vanguarda metapolítica.

A vanguarda

Portanto, dominar a linguagem. Impor uma nova lógica que desconstrua os paradigmas dominantes, que dissolva e volte a plasmar as formações. A vanguarda deve distinguir-se por “uma ação sistemática e culturalmente subversiva, que trate de introduzir no circuito de idéias “envenenadas”, que trate não tanto de influenciar, demonstrar, convencer, organizar burocraticamente, como de chocar, fascinar, criar dúvidas, gerar necessidades, fazer com que cresçam consciências, produzam atitudes e condutas desestabilizadoras. Deve, em uma palavra, falar e saber falar a linguagem do mito, criar a partir de si mesma seu próprio público, atrair plenamente a atenção tanto das tendências espontâneas de refutação política da realidade do Sistema em suas variadas articulações, como dos arquétipos romântico-faustianos que ainda circulam no inconsciente coletivo europeu”[4].

Chocar e seduzir. Mas, para isto, é preciso de outro estilo, que saia definitivamente da ritualística vazia da nostalgia, dos slogans banais e idiotas, do conformismo sectário. Superar os estereótipos, falar uma linguagem nova, repudiar as lógicas do Sistema para impor outras novas, enfrentar-se ao presente e projetar o futuro – aqui está o nosso objetivo. Devemos praticar – como já o fez brilhantemente a Nouvelle Droite em seu período de ouro – a lógica do terceiro incluso: se participa no debate sustentando sempre uma terceira opinião (logicamente utilizando a cabeça: inovar apenas por inovar é um exercício estéril) em comparação às oposições opostas em que se dividem os seguidores do Sistema.

Deste modo, eles são colocados diante de um discurso novo, para o qual não estão preparados, obrigando-os a tomar um posicionamento e a redefinir os alinhamentos. Os indivíduos habituados, por convicção ou costume ao discurso dominante, nos consideram algo já previsível, nos atribuem de ofício uma identidade composta de ignorância e prepotência, de nostalgia e intolerância, de preconceito e arrogância. Nossa missão é surpreender-lhes, fazer com que se explodam pelos ares as lógicas e os ritmos impostos, escapar às classificações e às etiquetas. O que importa é estar no mundo contemporâneo sempre dispostos a enfrentar-nos com este e a aceitar seus desafios sem ser deste mundo, pertencendo a outra raça, a outro estilo, ligados a outros mitos e a outros valores. Somente assim pode-se escapar de dois comportamentos especulares, mas igualmente perigosos: a ânsia de tomar posição, de participar, de ser recuperados pelo Sistema e admitidos na discussão entre as “pessoas civis”, e a oposta retirada para debates esotéricos e insignificantes, todos internos a um micro-ambiente isolado do mundo.

Depois de tudo, a mesma Nouvelle Droite, embora aqui se tenha tomado ela como exemplo positivo, não aplicou esta estratégia senão de forma parcial, limitando-se ao discurso cultural e filosófico, quase como se uma idéia por si mesma inovadora se tornasse revolucionária pelo simples fato de ser dita. A elaboração ideológica em sentido estrito, contudo, deve integrar-se a uma ação global e diversificada, mais ambiciosa e de maior alcance embora, ao mesmo tempo, mais humilde e concreta.

O mito se afirma com qualquer linguagem possível, embora e sobre tudo, com a do exemplo e da ação, afirmando cotidianamente uma presença ativa na sociedade e sobre seu território; presença que, por sua vez, não sirva para reclamar suborno ou uma cadeira, mas que seja, ao contrário, a demonstração concreta de que a alternativa é possível. Somente amadurecendo a capacidade de manter e afirmar tal presença no coração da sociedade, poderemos arrancar das indignas mãos da caravana new-global o monopólio do pensamento alternativo, atraindo por conseguinte para o nosso campo, todas os instintos de rebelião e as tentativas de revolta, tratando assim de “dar forma” e de mobilizar conscientemente tais sentimentos expressados até agora somente em estado bruto. Somente este esforço constante em direção a uma abertura ao mundo contemporâneo pode permitir-nos falar a verdadeira linguagem do mito, que por sua natureza, é sempre provocadora (pro-vocar, isto é, etimologicamente, “chamar para fora”, ou seja, convidar, desafiar, tentar, excitar, incitar; em uma palavra: mobilizar).

A alternativa é o fechamento orgulhoso em um gueto que se crê comunidade, em uma seita que se crê aristocrática, fora do mundo e dos desafios da contemporaneidade, eternamente tarde na história, por todos desconhecida e ignorados mesmo antes de condenados e proscritos.

Cabe a nós a escolha.
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Fonte: Centro Studi La Runa

Extraído de Orion n° 228, setembro 2003.

[1] Jacques Derrida, La struttura, il segno e il gioco nel discorso delle scienze umane, in La Escrittura e la diferenza, Einaudi, Turín 2002.

[2] Cfr Giorgio Locchi, Wagner, Nietzsche e il mito sovrumanista, Akropolis, Roma 1982.

[3] Cfr. Armin Mohler, La Rivoluzione Conservatrice in Germania 1918-1932. Una guida, Akropolis/La Roccia di Erec, Florencia 1990.

[4] Stefano vaj, Introduzione alla prima edizione de Il Sistema per uccidere i popoli di Guillaume Faye (SEB, Milano 1997).

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Casa Pound, um Modelo

por Pascal Cornet


Nos feriados, alguns vão à praia. Outros, sentam-se ao lado da piscina em um hotel 4 estrelas. Eu escolhi viver 10 dias na Casa Pound, em Roma.

Roma é uma cidade antiga, bela, onde a história pode ser vista em cada esquina. Mas eu não estou aqui para falar sobre a cidade. Mas, sobre a Casa Pound. [1]

Este edifício de seis andares é o resultado da luta de quinze militantes romanos que escolheram fazer a política de uma forma diferente. Seu plano era simples: permitir que famílias romanas vivessem em apartamentos decentes pagando um aluguel justo. Então, eles tomaram uma série de edifícios. Perseguidos diversas vezes pela polícia, continuaram a ocupação e finalmente encontraram sucesso e a Casa Pound nasceu. Este prédio abriga escritórios, um espaço permanente para ativistas, uma sala de encontros, uma sala de conferências e mais de 15 famílias vivem decentemente no local.

No momento, eles estão tentando criar uma economia paralela. Também possuem no mesmo bairro: um pub (o Cutty Sark), uma livraria nacionalista e uma loja de roupas (a Badabing). Mas não param por aí – recentemente, alugaram um restaurante que serve pratos da culinária Romana com qualidade, por um bom preço. E, em outubro, abrirão uma petiscaria.

O que tirei da minha experiência, além de ter estado no próprio prédio, é a determinação das pessoas que conheci. Eles são exemplos de ativistas. Seja o barman do Cutty Sark, o cozinheiro e os funcionários do restaurante ou os vendedores da livraria e da loja, o cuidado que estes ativistas permanentes têm, 24/7, é tamanho e eles fazem isso incansavelmente e voluntariamente, sem sequer olharem para os relógios.

A Casa Pound também faz parte da cultura alternativa, com a banda ZetaZeroAlfa e uma rádio que funciona 24 horas diárias: a Rádio Bandiera Nera.

Um exemplo para todos.

Concluo me dirigindo a todos aqueles que dizem: “é inútil; de qualquer forma, é tarde demais; somos pequenos demais, não mudaremos muito”.

Olhem para eles! Eles acreditaram e estão aqui! Por que não nós? Vamos parar de reclamar e começar a agir! Que nos sacrifiquemos para que construamos um futuro juntos!
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[1] O nome Casa Pound foi escolhido em honra a Ezra Weston Loomis Pound. Ele foi poeta, músico e um crítico Americano, que foi parte do movimento modernista do início dos anos 20 e é comumente ligado à “geração perdida”. Pound foi o líder de diversos movimentos literários e artísticos como o Imagismo e o Vorticismo. Em 1924, afetado pela “graça” de Mussolini, tornou-se um ardente propagandista do fascismo e partiu para viver na Itália. Durante a guerra, suas emissões na rádio Italiana conquistaram para ele o status de ser o Único criminoso de guerra americano. As autoridades do EUA, envergonhadas pelo seu caso, preferiram fingir que ele estava louco – enviando-o por doze anos a um sanatório do qual, após ter recebido alta, retornou prontamente à Itália.

Fonte: Nation.be

sábado, 3 de setembro de 2011

O que é a Casa Pound Itália?


A CPI é uma associação de promoção social constituída e reconhecida legalmente. É um movimento político que trabalha para outra política. Seus militantes são, em sua maior parte, jovens que realizam sua atividade à luz do sol. A CPI é um salto social, uma esperança de insurreição, uma vanguarda do pensamento. É o escudo e a espada de um povo traído, humilhado, vendido e que segue traindo-se a si próprio. É arte, cultura, empenho social – em uma palavra: vida – em um mundo agonizante e plastificado.

Que relação há entre o Blocco Studentesco e a CPI?

Blocco Studentesco é o movimento estudantil que a CPI organizou nas escolas. BS e CPI são o mesmo.

De que se ocupa a CPI?

De política. Do bem da polis. De dar esperança, dignidade, força e vontade. A CPI atua na sociedade que nos rodeia com uma só vontade, que se une em milhares de vozes: mostras, conferências, grupos de estudo, experimentação artística, concertos, cervejarias, comunidade juvenil, ginásios, voluntariado, sindicalismo, provocações midiáticas. E também eleições.

A CPI é um partido?

Em absoluto. A CPI é transversal, livre e criativa. A CPI tem militantes e programas; tem carga ideológica e não dá esperanças de carreira. Assim, não pode ser um partido. Isto não significa que não faça política. Acreditar que somente um partido possa fazer política significa ter uma visão idealizada, oitocentista, superficial, da dinâmica política contemporânea.

Que relação há entre a CPI com os diversos partidos da chamada “direita radical”?

A CPI é externa e autônoma em respeito a qualquer realidade partidária. Fora desta autonomia, pode dialogar e colaborar em igualdade de condições com qualquer partido que deseje ter uma confrontação honesta, que pertença ou não à “direita radical”.


A CPI é um movimento extra-parlamentar?

Em absoluto. A CPI tem militantes, titulares e amigos que trabalham na política institucional, na cultura oficial, nas associações que determinam a vida social da nação. Não é um grupo de marginais sediciosos, de loucos terroristas, nem de cabeças loucas em busca de aventuras. As veleidades rebeldes extremistas não nos interessam, não nos atraem, não gostamos delas. Nós queremos ser protagonistas de nosso tempo, não comparsas de um espetáculo cujo argumento já foi escrito, deixando-nos o papel dos maus, dos subversivos ou dos fanáticos. Não daremos este gosto a nossos inimigos. Acusado de confabular nas sombras contra um regime do qual era, contudo, franco e progenitor, o Comandante d’Annunzio respondeu: “Ardisco, non ordisco” [Não confabulo, me atrevo]. Esse é o mesmo espírito nosso.

A CPI é um movimento xenofóbico?

Em absoluto. As fobias, por sua natureza, são o produto de cérebros débeis e corações quentes. A CPI quer fazer análises e formular soluções, não fomentar obsessões. Análises radicais e não-conformes sem, por outro lado, invocar ao “caminho mais simples”, nem buscar bodes expiatórios. Não nos interessam as guerras entre débeis nem os temores/tremores burgueses. Isto não significa que a condenação da CPI sobre a confrontação do fenômeno da imigração massiva, da sociedade multirracial, da oligarquia que se beneficia desta, ou dos lobbys sociais, políticos e culturais seja menos clara. A imigração massiva é uma faca de dois gumes, que corta a ambos os lados, que desarraiga e humilha tanto ao hóspede como ao anfitrião. Mas reconhecer tudo isto atuando em conseqüência de uma política de preferência nacional e de inspiração identitária não significa ser xenófobo. Significa reconhecer um dado elementar da política: o Estado se é tal, não deve nunca esquecer-se de seus próprios filhos.

É a CPI um movimento anti-semita?

Em absoluto. A CPI repudia a paranóia. Mas, ao mesmo tempo, não admite tampouco chantagens. Por isto, a CPI defende seu direito de criticar qualquer governo ou minoria organizada com um objetivo concreto, sem preconceitos de nenhuma classe, sejam positivos ou negativos.

A CPI é um movimento homofóbico?

O fato de que dois seres humanos do mesmo sexo amem-se e desejem viver livremente sua sexualidade não nos incomoda minimamente. Claro, nem todos vivem tal condição com equilíbrio e bom gosto, mas isto vale igualmente para demasiados casais heterossexuais, já que o bom gosto forma parte do estilo e isto, é claro, não pode ser imposto por lei. Da mesma forma, também não vemos nenhum problema no fato de que tais uniões tenham algum tipo de reconhecimento civil ou administrativo, com a atribuição de determinados direitos e deveres para o casal. Contudo, somos totalmente contrários a qualquer hipótese de adoção de crianças por parte de casais homossexuais.

Está presente na ideologia da CPI o ódio pelo diferente?

Nós lutamos por um mundo plural, no qual as diferenças, sob qualquer forma, sejam tuteladas e incrementadas. Queremos um mundo com povos diferentes, culturas diferentes, religiões diferentes, alimentos diferentes. Queremos um contraste entre formas de existência diferentes, que não degenerem nunca na confusão, nem na desfiguração de suas respectivas identidades. Quem nos acusa de “odiar ao diferente” está simplesmente reciclando um estereótipo jornalístico que explora aquilo que queria denunciar: a pura e simples ignorância. Nosso inimigo é uma ideologia que desde há dois mil anos impõe o igualitarismo e a nivelação e o mundo em uma só dimensão; trata-se da homologação global; é a monocultura da mente; os logotipos onipresentes e o cosmopolitismo progressista. É esta ideologia aquela que explora o verdadeiro “ódio pelo diferente”.

É a CPI um movimento católico?

A CPI é um movimento laico e não confessional. Respeita qualquer credo e qualquer via de acesso ao sagrado como processo individual. Desde um ponto de vista mais político, pensamos, contudo, que um católico (assim como um pagão, muçulmano, budista ou também um ateu) pode aderir-se à CPI sempre que compartilhe de seus programas, idéias, estilos e linguagens. Um católico não pode, contudo, pertencer à CPI se crê que pode continuar, sob nossas bandeiras, uma política de estampa confessional, clerical, reacionária ou neo-guelfa. Sobre estes pontos, não será tolerado nenhum desvio da linha já traçada.

A CPI é um movimento violento?

A CPI faz política, e não vandalismo. Não está interessada em mostrar os músculos. Quer a força serena. Mas, ao mesmo tempo, não pode permitir quem quer que seja de lhe impedir a legitimidade de atuar e de existir. Queremos a confrontação, mas não repudiamos o encontro se este nos vem imposto e nele dependa nossa sobrevivência política e física.

Há mulheres na CPI? Que função tem na organização?

Há muitas mulheres na CPI e estão enquadradas nas coordenações DeA [Mulher e Ação]. Nossas mulheres estão sempre na primeira linha em qualquer ação, aportando cada vez mais uma fundamental contribuição. Na articulação da função individual, atribuída com base no gênero, a CPI repudia tanto a confusão como a submissão. A humilhação da mulher é típica do mundo contemporâneo em seus dois aspectos – materialista-consumista e fundamentalista-monoteísta. O que queremos, contudo, é a complementaridade orgânica entre homem e mulher. Por uma política real da diferença.


Os rapazes da CPI praticam a “cinghiamattanza”. São bestas sedentas de sangue?

A cinghiamattanza – que tirou o sono de tantos moralistas, fanáticos, jornalistas e sociólogos de “talk show” – é um “esporte não-conforme”, cuja carga vitalista somente pode ser negada por aqueles que tenham abertamente má fé. Pratica-se somente entre adultos, voluntariamente. Não é uma “iniciação”, não é um “adestramento”. É jogo, luta e vida. Ninguém está obrigado, ninguém crê realmente em formar parte de uma “casta guerreira” somente pelo fato de portar ludicamente um cinto. É, por outra parte, um momento de reapropriação da corporalidade. Em um mundo que tem com o corpo uma relação complexa, paranóica, decadente; em um mundo que produziu a anorexia, automutilação, castração, cansaço; a nós, gostamos de jogar, redescobrindo a beleza do corpo no suor, a alegria e a ação.

Então, em duas palavras, o que quer a CPI?

Retomar tudo.
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CasaPound Itália

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Assim não é, porém parece

por Adriano Scianca



Em um bom artigo de uns anos atrás, Charles Champetier identificava o novo rosto do inimigo em um triplo sistema de domínio composto por técnica, mercado e espetáculo. As figuras tradicionais do enfrentamento político, explicava Champetier, ficaram já obsoletas; ao dia de hoje o poder exerce-se mediante mecanismos impessoais que não executam-se em momentos e lugares simbólicos, senão em todo instante e em todas as partes.



Mais que por uma estrutura de poder, o sistema está hoje constituído por uma dimensão existencial, na qual todos estamos imersos. Assim é, porque a nova forma do domínio não prevê uma imposição externa, senão mais exatamente uma absorção em seu interior. Nós vivemos na técnica, no mercado, no espetáculo.



Todo aspecto de nossas existências que não possa-se redirigir a tal esquema é "normalizado" ou suprimido: o que não é eficaz é superado, o que não é rentável é absurdo, o que não é visível é inexistente. O resultado é o mundo sem sentido: a economia produz por produzir, a técnica progride por progredir, o espetáculo mostra por mostrar. O que em seu momento era um meio submetido a oturos fins, agora é fim em si mesmo. Volta à nossa mente a frase de Nietzsche sobre o niilismo como ausência de resposta ao porquê. Pois bem, a profecia cumpriu-se. Vivemos em um mundo que, como diria Alain de Benoist, não sabe para onde ir, porém não deixa de afirmar que somente há um modo para dirigir-se.



Espetáculo e Realidade



O espetáculo está formado por aspectos individuais do mercado e da técnica que constituem um conjunto autônomo que engloba o âmbito da informação e das representações coletivas. Observaram-no já Adorno e Horkheimer em tempos insuspeitos: "os filmes, a rádio e os semanários constituem, em seu conjunto, um sistema. Todo setor é harmonizado em seu interior e todos são entre si". E tudo isso apesar do tão ostentado pluralismo: "as distinções enfáticamente afirmadas" entre os diferentes produtos culturais, continuavam os dois filósofos judeus, "mais que estar fundadas sobre a realidade e derivar desta, servem para classificar e organizar aos consumidores, e para tê-los em um punho mais sólidamente. Para todo o mundo está previsto algo para que ninguém possa escapar; as diferenças são inculcadas e difundidas artificialmente".



O que vemos muda continuamente, porém segue sendo constante o domínio da visão da imagem espetacularizada. Em nossa sociedade, de fato, a visão substituiu tanto a ação como a reflexão. Não crê-se mais do que naquilo que vê-se. O que é visto suplanta o que é vivido. O espetáculo, diz Guy Debord, não é outra coisa que "o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real". A visão espetacularizada converte-se na única possibilidade de existência dos entes.



Daí deduz-se que a sociedade do espetáculo não é somente o reino da mentira (ainda que mentiras puras e simples há aos montes), senão mais exatamente a autêntica dimensão da não-verdade absoluta, a dimensão em que é impossível ter uma experiência da verdade, o mundo em que existe somente o que situa-se sob a luz dos refletores, enquanto que o que demora-se em sua existência autêntica é como se ficasse em uma escuridão originária. Como moscas diante de um cristal, damo-nos cabeçadas para alcançar uma realidade que não captamos sem entender quem e o quê interpõe-se entre nós e ela.



Deste modo, não obstante, nossa capacidade de compreensão e de comunicação fica irremediavelmente comprometida. A sociedade do espetáculo entra em nós e transforma-nos desde o interior. Em particular, nossa personalidade é desarticulada em três níveis distintos: nível informativo, nível social e nível psíquico.



Ver e Não Entender



O nível informativo é aquele no qual o espetáculo atua deformando nossa percepção do mundo. "Tudo o que sabes é falso", escreveu recentemente alguém, e resulta difícil discordar.



Hoje nós já não estamos em condições de compreender o que sucede ao nosso redor sem recorrer às respostas pré-fabricadas ou a paradigmas simplestas que são-nos administrados deliberadamente. O esquema moral dos "bons" e dos "maus" já foi inserido à força entre nossas estruturas mentais implícitas, e nossa "liberdade de pensamento" consiste simplesmente em assignar a cada figurante a posição à qual está destinado a pertencer. As peças do quebra-cabeças é-nos dada pela televisão e o encaixe é necessariamente o estabelecido, porém a final de contas, quando juntamos as peças ninguém põe-nos uma pistola na nuca: para a maioria isso basta-lhe para autoproclamar-se "livre". A multiplicação dos canais informativos acabou por coincidir com a total ausência de informação real.



Um símbolo eloquente a respeito é o ataque às torres gêmeas, ao mesmo tempo o acontecimento e o anti-acontecimento por excelência. O 11 de Setembro é o momento da transparência absoluta, da informação global realizada, o espetáculo que reúne ao mesmo tempo toda a humanidade diante do aparelho de televisão para assistir em tempo real ao mesmo acontecimento registrado por milhares de câmeras. Porém ao mesmo tempo, estamos diante de um anti-acontecimento, diante da mistificação mais absoluta da realidade, da ficção completa. É certo, todos nós vimos. E não obstante, ignoramos todos os seus aspectos. Sabemos com absoluta certeza que algo aconteceu, porém este algo estã tão próxima da essência mesma do mecanismo espetacular que é um concentrado de falsidade em estado puro. Não há nenhuma imagem que tenhamos visto tantas vezes como a dos aviões chocando-se; porém ao mesmo tempo, não há nenhum fato histórico do qual saibamos menos. Ver e não entender é já nosso destino. A compreensão ou a análise resultam-nos inacessíveis; fica-nos somente o estupor e a indiferença, o medo e a diversão, a histeria e a apatia, administrados em doses alternadas, segundo as exigências do sistema.



Desestruturação do Social



O nível social é aquele no qual a personalidade dos indivíduos e seu vínculo com os outros são desestruturados e remodelados com base em uma lógica mercantil. "O espetáculo não é um conjunto de imagens senão uma relação social entre indivíduos, intermediada pelas imagens", observava já Debord.



Não vivemos mais que relacionando-nos com os outros, porém hoje não existe vínculo social que não esteja submerso no espetáculo. Aqui, mais que os telejornais, o que vale são as séries de ficção, os reality shows e o "star system" em geral. Ao propôr determinados modelos, a sociedade do espetáculo penetra nas relações interindividuais e reproduz-se. A competição darwinista, o moralismo hipócrita, o individualismo decadente, o etnomasoquismo, a vaidade narcisista, a pequena mesquinhez, o conformismo mais vazio, a superficialidade mais desconcertante e a ignorância mais abismal elevados a norma: é em tudo isso que estamos imersos quotidianamente graças ao bombardeio midiático. Predomina a banalidade como linguagem, o que significa não tanto que diz-se coisas banais como que não é-se capaz de comunicar mais do que através da banalidade. Quer dizer: fala-se e não diz-se nada.



É a culminação da alienação: "a consciência espetacular, prisioneira em um universo degradado, reduzido pela tela do espetáculo por trás da qual foi deportada sua própria vida, não conhece mais que os interlocutores fictícios que falam-lhe unilateralmente de sua mercadoria e da política de sua mercadoria".



A Grande Família



Tal mecanismo alienante, para fazer-se sedutor, não pode mais que travestir-se de fingida autenticidade. A tendência ao "realismo" da televisão atual na realidade trata de criar uma espécie de "familiaridade" com a ficção da tela, tentando apaixonar o público com pequenos casos insignificantes com os que possa identificar-se. "Dizem que com uma segunda tela mural tens à Família ao teu redor constantemente" diz Julie Christie em Fahrenheit 451 de Truffaut.



É assim precisamente: a "Grande Família" envolve-te e engloba-te. Descobres-te chamando pelo nome uns desconhecidos que viu na tela como se fossem teus amigos íntimos. Sente-os próximos, parecem-se a ti. Porém em realidade és tu o que estás começando a ser como eles. Estes shows, de fato, não representam a realidade. Constroem-na. Não são descritivos senão normativos. Não mostram o que é senão o que deve ser. O mesmo pode-se dizer do culto dos famosos e dos aspectos mais privados de suas existências: o indivíduo "normal" vê-se empurrado às fofocas sobre a vida sentimental dos milionários ignorantes e viciados divinizados pelos meios e fantasia dessa maneira sobre uma vida que nunca poderá ter porém que servir-lhe-á como modelo para orientar a sua. Vivemos em um mundo de famosos truncados, que ao sonhar somente com o estilo de vida dos tediosos astros de aparência que estão podres de dinheiro, mostram que já interiorizaram um certo desprezo por si mesmos, por suas próprias origens sociais e culturais.



Graças à sociedade do espetáculo começamos a odiar a parte de nós que segue sendo autêntica, verdadeira, enraizada, a parte que se não fosse desintegrada impedir-nos-ia de ter acesso ao Olimpo midiático, tal e como prevê o classismo pós-moderno que separa quem aparece de quem não aparece.



A Devastação dos Cérebros



O nível psíquico, ademais, é o da autêntica desarticulação da personalidade a um nível inclusive fisiológico. Somente há que pensar na ação desestruturante que pode exercer no cérebro.



Como sabe-se, o cérebro funciona graças à sinergia do hemisfério esquerdo e do hemisfério direito. Os dois hemisférios elaboram as informações de modos distintos destinados depois a entrelaçar-se harmonicamente: o hemisfério esquerdo raciocina de um modo que poderíamos definir analítico, linear, consequente, científico, digital, o direito, de modo intuitivo, simbólico, imaginativo, sintético, analógico.



Agora, revelou-se como o uso das novas tecnologias midiáticas está em condições de criar estruturas mentais prioritárias, favorecendo determinadas faculdades (as "digitais") em detrimento das centrais para o pensamento simbólico e relacional. Outros identificaram em tal separação a origem da barbarização de nossa sociedade e da extensão da violência niilista como fim em si mesma.



Aqui não falamos de atitudes ou de mentalidades, senão de organização cognitiva e inclusive neuronal. Somente há que pensar que a televisão modificou já o modo em que usamos nossos olhos e está contribuindo inclusive para desequilibrar nossoas valores hormonais.



E isso não é tudo: a autorizada revista especialista Pediatrics, por exemplo, levou a cabo estudos que demonstraram como nos Estados Unidos o cérebro das crianças forma-se de acordo com os tempos televisivos - nos quais tudo sucede rápidamente, como relâmpagos breves e repentinos - tanto que já não logram concentrar-se quando não recebem o mesmo tipo de estímulo veloz. Um número cada vez maior de crianças já não é capaz de concentrar-se nunca, nem sequer durante algum minuto. Estamos dando vida ao zumbi global, único cidadão possível do mundo pós-humano que estamos preparando.



A Rebelião Espetacular



Assim as coisas, como enfrentar-se à tirania do espetáculo? O caminho empreendido pela maioria é o do extremismo. O extremismo é a excessividade efêmera do gesto, a disposição a conferir aos próprios discursos uma visibilidade que supere durante um momento em intensidade a monotonia do já-visto, sem sair, não obstante, do paradigma da visão espetacularizada. Este encontra-se, como pode-se intuir, totalmente dentro da sociedade do espetáculo.



A nível macro-histórico e macropolítico, o extremismo converte-se em terrorismo: a final de contas, o mito do "choque de civilizações" (Ocidente vs. Terrorismo Islâmico) não é mais que a versão global e atualizada do mito dos "extremismos opostos" (anticomunismo reacionário vs. antifascismo reacionário). Muda a intensidade (e o caráter trágico) porém não os resultados. O potencial revolucionário do extremismo é, de fato, igual a zero.



É mais: jogando um papel no interior da sociedade do espetáculo, o extremista e o terrorista não somente não põem em questão nada, senão que convertem-se inclusive em elementos funcionais do sistema que de palavra queriam combater, adotam o semblante de figurantes em uma representação maior que eles. E muitas vezes nem ao menos são necessários os elencos dirigidos por outros: estes encontram por si mesmos seu próprio lugar na comédia, espontâneamente assumem a parte que foi-lhes assignada.



O Pensamento Radical



Fora da comédia, e, ao contrário, disposto a incendiar todo o teatro, encontra-se, por sua vez, quem saiba assumir posições radicais.



O radicalismo é a antítese do extremismo. O primeiro é silencioso, vivido, de longo alcance, operativo; o segundo é ruidoso, encenado, míope, inútil. Não centrado nos gestos senão nas ações, o radicalismo é, etimilógicamente, a capacidade de ir à raiz. À raiz de si mesmo acima de tudo: o pensamento radical está sempre enraizado. Ou melhor, deve está-lo: quem aventura-se no reino do nada deve ter uma identidade forte para não assumir ele mesmo as aparências do inimigo. Porém o pensamento radical significa também ir à raiz dos problemas, compreender os acontecimentos em profundidade, sabendo colocá-los em perspectiva.



Escola de autenticidade e de realismo, o pensamento radical é hoje a única via transitável que com razão pode-se definir revolucionária. Assim é, porque a primeira obrigação de toda vontade revolucionária é o de descer concretamente à realidade, mais além da histeria e da utopia, as duas únicas alternativas que a sociedade do espetáculo oferece-nos. Portanto, atuar para voltar ao real. Gerar novas consciências. Redespertar consciências adormecidas. Sair da capa sufocante da novidade para voltar, finalmente, a ver as estrelas.



O mundo no qual vives não existe.



Tudo o que sabes é falso.



Abra os olhos.



Agora.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Direitos Humanos?

por Adriano Scianca

Na pluralidade ruidosa e multiforme que caracteriza o sistema – pluralidade de todos os modos ilusória, que tende a mascarar a substancial convergência das suas formas – destaca-se, pela unanimidade que o rodeia, o tema dos "direitos humanos". Hoje em dia não há ninguém – ninguém – que se atreva a declarar-se publicamente contrário à moral dos direitos do homem e à filosofia que se encontra na sua base. Isto é facilmente constatável somente observando o "debate" que tem caracterizado estes dias de guerra, debate essencialmente destinado a demonstrar se o melhor modo de exportar ao mundo os valores "universais" dos direitos do homem é mediante a utopia cosmopolita e pacifista à maneira da "Emergency" ou mediante o precipitado pragmatismo ianque à maneira de Bush. Duas perspectivas, como se vê, tão distantes e no entanto tão próximas. Nenhuma das duas, em qualquer caso, se distancia dos mesmos valores de fundo e da mesma ideologia implícita. Os direitos humanos continuam sempre a ser o substrato, assumidos tacitamente como valor supremo.

Compreender a essência desta religião moderna, descobrir as suas origens e desenvolvimento parece-nos, portanto, essencial para quem queira hoje situar-se em contraposição ao sistema sem ter as suas armas obstruídas à partida encontrando-se entre aqueles que combatem o fogo com gasolina.

GENEALOGIA DA DOUTRINA DOS DIREITOS HUMANOS

Os "direitos do homem" são a suprema expressão do igualitarismo, isto é, daquela tendência histórica que nasce e se afirma pela primeira vez na História com o judaicocristianismo e, posteriormente, resulta historicamente nas suas variantes laicas (democracia-liberal, comunismo, mundialismo, etc.).

A fase originária – a que Giorgio Locchi chamava fase "mítica" do igualitarismo contém já em si todos os seus desenvolvimentos futuros, ainda que de forma latente e não expressa. Isto serve também para a doutrina dos direitos humanos. Adverte Stefano Vaj, de fato, que o monoteísmo judaico-cristão contém, na sua primeira formulação, todos os postulados teóricos que se encontram na base da moderna doutrina dos direitos do homem: a crença num direito natural cuja validade transcende todo o direito positivo concreto e que é expressão de uma moral objetiva e universal, a afirmação da prioridade do indivíduo sobre toda a comunidade orgânica, afirmação diretamente conseqüente da idéia de salvação individual; a crença na existência de uma 'pessoa humana' independente de toda a determinação concreta, isto é, a primazia do 'Homem' abstrato sobre os "homens" historicamente situados, a mentalidade universalista e cosmopolita que considera o gênero humano como uma unidade indiferenciada face à qual toda a pertença é um acidente que pode ser olvidado. Todos estes mitemas estão contidos de modo claro e explícito na formulação originária da tendência histórica igualitarista, isto não quer dizer, no entanto, que na Bíblia se encontre expressa, também de modo explícito, a mesma idéia de direitos humanos que conhecemos hoje. Para chegar a isto o igualitarismo deve desenvolver-se totalmente, atravessando e consumando até ao fundo a sua fase "ideológica" – usamos sempre a linguagem de Locchi – a fase, portanto, em que as diferentes ideologias humanas, nascidas do mesmo seio, se contrapõem umas às outras.

É esta a fase histórica que coincide com o período que vai da afirmação do protestantismo até ao final do Oitocentos. Neste arco de tempo as distintas formas ideológicas do igualitarismo, esquecendo-se da sua origem comum, combatem-se, reivindicando cada uma a primazia na afirmação da mesma visão do mundo.

Os fundamentos teóricos da doutrina dos direitos humanos surgem de modo cada vez mais evidente no interior da reflexão igualitarista (pensamos em Grócio, em Locke, em Kant, na Constituição dos EUA, nas declarações solenes da França pós-revolucionária, nos ideais da irmandade universal que constantemente emergem na tradição marxista, etc.), e no entanto, não se está em condições de 'recompor a ruptura', para dizer como Benjamin.

O que falta? É óbvio: falta um inimigo absoluto ante o qual coligar-se e reencontrar a unidade perdida. Este inimigo, quase não é preciso dizê-lo, está representado pelo surgimento na cultura européia de uma tendência nova, anti-igualitarista e anti-humanista, que se cristaliza logo politicamente nos movimentos fascistas europeus. É na guerra contra o fascismo que o igualitarismo encontra a sua síntese final debaixo da bandeira dos "direitos humanos". Esta unidade reencontrada terá a sua celebração na farsa judicial de Nuremberg. Todo o pós-guerra, servirá depois para expulsar todo o "resíduo ideológico". Neste sentido compreende-se o afã – entre arrependimentos, conversões, mudanças de opinião e psicodramas – dos "progressistas" em busca, durante toda a metade do Novecentos, de um comunismo "de rosto humano", de um ideal de emancipação depurado finalmente de toda a veleidade revolucionária, de todo o impulso de heroísmo, de toda a tentação autoritária. Encontrarão tudo isto no culto dos direitos humanos, verdadeiro ponto de convergência de todas as ideologias igualitárias, velhas e novas, lugar de abrigo para todos os que abandonaram os hábitos da revolução e para os maoístas em crise de consciência. 1989, ano da queda do muro de Berlim – e bicentenário da revolução francesa – representará portanto a data do triunfo da doutrina dos direitos humanos como nova religião laica do Sistema.

TRIUNFO DE UMA MORAL

Havido sido definitivamente elevada a "horizonte moral dos nossos tempos" (Robert Badinter), a religião dos direitos humanos celebra hoje o seu triunfo e a sua expansão planetária. Vírus ideológico pela sua capacidade etnocida quase total, esta moral presumidamente universal proporciona a armadura ideológica a um neo-colonialismo que em lugar do "fardo do homem branco" tem hoje como justificação um cocktail devastador de messianismo e hipocrisia. "Tratando de impor uma norma moral particular a todos os povos (a religião dos direitos humanos) pretende voltar a dar uma boa consciência ao Ocidente permitindo-lhe instituir-se uma vez mais como 'modelo' e denunciar os 'bárbaros' que rejeitam este modelo". A destruição dos povos passa também a partir daqui pela imposição a nível planetário dos "valores" ocidentais e pela conseqüente desintegração de todo o vínculo orgânico, de toda a tradição particular, de todo o resto de comunidade – obstáculos todos eles à tomada de consciência da nova "identidade global" por parte do cidadão da era da globalização. "Como edificar a sociedade multirracial? Evidentemente extirpando toda a identidade precedente (e, portanto, toda a diferença). A eliminação das diferenças é o a priori transcendental, a condição de possibilidade da sociedade multirracial.Mas como preencher este vazio? Recorrendo necessariamente a um instrumento abstracto (e, portanto, ideológico). E então: o Direito é a resposta; unir todos os homens através do Direito"… A resposta é óbvia: através da concepção abstrata e anti-política dos direitos do homem. Se a globalização é o nosso destino – como diz a vulgata – então os direitos do homem contêm em si uma verdade para-religiosa, são verdadeiramente a expressão de uma moral que tem o seu fundamento num renovado "sentido da História".

Pretendendo-se verdade auto-evidente (Cfr. A Declaração de Independência dos EUA: "consideramos como verdade evidente por si mesma que os homens nascem iguais…") a moral dos direitos humanos faz-se dogma, protege-se de todo o questionamento. Quem se opõe, portanto, ou inclusive quem simplesmente ostenta indiferença, situa-se contra uma espécie de verdade indiscutível, contra uma espécie de Lei inerente à História; é um herege, um blasfemo, um inimigo do Homem. Daí o ardor inquisitório por parte da "nova classe" contra povos e indivíduos culpáveis de transgredir os dogmas do politicamente correto.

ENTÃO?

Abandonemos os lugares-comuns induzidos pelo Sistema: rejeitar a doutrina dos direitos humanos não significa tomar partido pelo extermínio, a injustiça ou o ódio. Diga-se o que se disser na Declaração Universal, não é o reconhecimento de tal doutrina que funda "a liberdade, a justiça e a paz no mundo". Liberdade, justiça e paz já existiam antes que a expressão "direitos humanos" tivesse algum sentido. O reconhecimento dos direitos humanos, por si mesmo, não funda, na realidade, nada mais que o tipo de justiça e liberdade que, tautologicamente, se encontram expressos… na própria doutrina dos direitos humanos! Pese o fato de que os defensores de tal doutrina continuem a pensar que "inventaram a felicidade" é preciso manter com firmeza que outra justiça, outra liberdade, outra paz, são possíveis. Opor-se aos direitos humanos significa rejeitar uma moral, uma antropologia, uma certa idéia das relações internacionais e da política, uma visão do mundo global herdeira de uma tendência histórica bem identificável; hoje em dia "é o primeiro gesto subversivo fundamental que se impõe a quem queira tomar posição para regenerar a História contra o universalismo mercantilista e ocidental".