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sexta-feira, 7 de abril de 2017

Aleksandr Dugin - Terceira Guerra Mundial: O Início?

por Aleksandr Dugin



O que aconteceu em 7 de abril de 2017 poderia ser o início de uma Terceira Guerra Mundial. Em regra, ninguém quer guerra, mas eis que guerras ocorrem, e às vezes elas são mundiais. Portanto, eu proponho que em primeiro lugar, como no caso de qualquer desastre, é necessário permanecer calmo e recobrar o juízo.

Em 7 de abril de 2017, pela primeira vez desde o início do conflito na Síria, os EUA lançaram um grande ataque com mísseis Tomahwak contra uma base aérea síria, ou seja, contra nós. Por que não usamos um complexo de defesa anti-mísseis? Segundo uma teoria, nós não temos um número suficiente deles para repelir um ataque total de tropas americanas, já que eles estão programados primariamente contra ataques de mísseis de outros inimigos potenciais. A segunda teoria é que Moscou não ousou dar a ordem, já que isso significaria o início irreversível de uma guerra com os EUA. Washington ousou, e sabia bem o que estava fazendo. Nós não ousamos. Antes de seguir com as previsões, vale a pena examinar novamente o contexto, as condições iniciais do que poderia se tornar (ainda possivelmente não) a Terceira Guerra Mundial.

Um pretexto para uma invasão americana

O pretexto que Washington usou para o ataque foi um ataque químico. O fato de que Assad não cometeu este ataque é óbvio, já que isso seria extremamente prejudicial a ele. Ademais, na situação atual, recorrer a armas químicas seria suicídio para Assad. Há uma minúscula chance de que este foi um trágico acidente no qual mísseis sírios acertaram um depósito com armas químicas de propriedade do ISIS, que os terroristas foram provavelmente ensinados a esconder por inspetores europeus. Mas essa coincidência, fazendo colapsar em um instante o complicado equilíbrio de forças em escala global, é surpreendente demais. Ainda assim, não é difícil para os terroristas e seus instrutores representando o Governo Mundial global (o mesmo Pântano que Trump prometeu drenar) arranjar isso. E é realmente lucrativo para eles. Arrastar os EUA a uma guerra contra a Rússia não deu certo com a Hillary, então eles pensaram: "Agiremos de outras maneiras, através de Trump". Os globalistas aparentemente decidiram fazê-lo e encontraram um pretexto.

O Pântano drenou Trump

A decisão formal de atacar foi tomada por Donald Trump. Ao fazê-lo, ele deixou de ser Trump, e se tornou Hillary disfarçada de homem, um tipo de travesti. Tudo contra o que Trump lutou ao longo de sua campanha eleitoral e que ele prometeu mudar foi assinado por ele hoje. Portanto, não foi ele que tomou a decisão. Ele simplesmente mostrou que, a partir desse momento, ele não é capaz de decidir nada. Sob a pressão da mídia e dos políticos do Pântano, ele vendeu seus pequenos e dedicados seguidores, aqueles que não representavam o CFR, não representavam os neocons, e não representavam o Estado Profundo, mas a "boa e velha América". Essa "boa e velha América", que elegeu Donald Trump como seu presidente, foi novamente deixada ao relento, sem Trump. O que Trump fez, se permitindo "convencer" do envolvimento de Assad (ou seja, da Rússia) no ataque químico equivale a capitulação.

Bastante revelador, exatamente ontem ele com toda facilidade se livrou de Stephen Bannon, talvez o único verdadeiro conservador sem o prefixo "neo" em seu círculo. Ele queria drenar o Pântano. Isso é ótimo, mas é um negócio arriscado. O Pântano drenou Trump. O que está acontecendo agora na Síria é estritamente o que os globalistas, o Pântano, tem buscado.

O fator Trump desapareceu perante nossos olhos. Ele vacilou um pouco, e agora ele é um joguete em um jogo de forças mais sérias. Ele mostrou não ser mais o Trump. Talvez o Trump tente se tornar ele mesmo de novo, mas isso é improvável.

Nas sombras americanas

A história de Trump, sua brilhante campanha eleitoral, sua luta contra os globalistas, que foi inesperadamente apoiada pelo povo americano, expôs a estrutura complexa da sociedade americana que, ao que parece, é longe de ser monolítica.

Em primeiro lugar, há a "boa e velha América", isolacionista e conservadora, que pensou ter eleito seu representante. No mínimo, Trump desempenhou exatamente este papel. Nós de fato esquecemos a "boa e velha América", que estava eclipsada por uma elite globalista fanática, mas parece que ela ainda estava ali. Isso é muito importante porque, apesar de ela não ter poder e seu representante ter demosntrado ser fraco demais, ela não pode mais ser deixada fora de consideração. Essa é a revelação mais importante e encorajadora na história de Trump.

Ademais, a "boa e velha América" tem uma plataforma geopolítica que é o realismo, ou seja, América Primeiro, que significa que se os EUA não forem diretamente afetados, então eles não devem se involver. Este isolacionismo dominou nos EUA até Woodrow Wilson, e parcialmente após ele durante o período de três presidentes republicanos, Harding, Coolidge e Hoover. Na verdade, foi esse realismo nas relações internacionais (não-intervencionismo, foco em questões domésticas, rejeição do imperialismo) que Trump usou como fundação de seu programa.

Em segundo lugar, por trás de Hillary e do Obama estava a mais poderosa organização que determina o curso da política externa americana: o Conselho de Relações Exteriores, ou CFR. Essa estrutura proclama claramente a necessidade de criar um Governo Mundial. Os QGs do globalismo, como o Clube Bilderberg ou a Comissão Trilateral, bem como as instituições financeiras globais e as corporações transnacionais como a Reserva Federal e o Banco Mundial, são coordenados por ninguém menos que o CFR. Trump chamou isso de o "Pântano". O "Pântano" obviamente não gostou disso.

O método de ação do CFR é o "soft power", o estrangulamento. O CFR não se apressa, mas prepara de forma gradual seus agentes em praticamente todos os países do mundo, e promete e finge fazer concessões. Em quase todos os países, as elites políticas e econômicas que são externamente leais, mas internamente orientadas ao globalismo, as quais podemos chamar de Sexta-Coluna, estão ligadas ao CFR.

O CFR realiza não tanto os interesses da América quanto os interesses da oligarquia financeira transnacional. Para eles, os EUA são apenas uma ferramenta, ainda que a mais poderosa. Revoluções coloridas, soft power, e infiltração de sociedades que ainda não reconhecem diretamente o Governo Mundial, essa é sua especialidade. Os membros do CFR são liberais e seu objetivo é espalhar o liberalismo em escala global, o globalismo. O liberalismo é sua ideologia. Trump confrontou o CFR. Isso é um fato. E o CFR entendeu e reagir a isso colocando em prontidão todo o exército de liberais americanos cercando Trump no país, daí a marcha feminista, as obscenidades da Madonna e as depredações anarquistas.

Mas o CFR não é o único centro de poder nos EUA. Há também os neocons. Em anos recentes, sob Obama, eles perderam chão, mas não obstante mantiveram influência. Os neocons são os apoiadores abertos do imperialismo americano. Para eles, a comunidade internacional é um fardo. Eles estão construindo um império americano global e o chamam por seu nome. Se o CFR está constantemente flertando com aqueles que ele quer escravizar, então os neocons simplesmente quebram os insubordinados. McCain é um neocon típico. Os neocons apoiam intervenções militares diretas, derrubar governos rebeldes, golpes de Estado e aniquilar o inimigo. Trump se opôs a eles, como é óbvio em sua disputa com McCain.

Finalmente, há o Estado Profundo. Este compreende os funcionários de segurança e os apparatchiks burocráticos que representam o complexo militar-industrial, a comunidade de inteligência, e um número de outros guardiões da identidade americana sob a forma do Destino Manifesto. Eles não tem ideologia, mas buscam manter a continuidade das instituições americanas. Mas, é claro, eles não estão livres de ideologia. O CFR possui grande influência sobre o Estado Profundo, e nos anos 90 a influência neocon ali cresceu significativamente.

Cem anos atrás, aproximadamente, o Estado Profundo americano era dominado por realistas e conservadores tradicionais, mas eles foram gradativamente postos de lado. É precisamente por isso que o Estado Profundo, através dos líderes da inteligência e dos serviços especiais dos EUA, não expressaram lealdade a Trump, mas continuaram uma ostentosa investigação de uma fictícia interferência russa no processo eleitoral. Eles continuaram apoiando a gangue liberal através da disseminação maciça de "fake news". Assim, o Estado Profundo assumiu o lado dos inimigos de Trump o chantageando com o fator russo.

Essa revisão mostra que a presidência de Trump não tinha apoio institucional. Mesmo no Partido Republicano, uma minoria o apoia. Nessa situação, só se poderia esperar ou por um milagre ou por genialidade da parte de Trump, ou se preparar para que o Pântano em uma de suas três manifestações, o CFR, os neocons ou o Estado Profundo, subjugasse Trump. Se isso não tivesse sucesso eles simplesmente trabalhariam juntos para eliminá-lo.

Na manhã de 7 de abril se tornou claro que isso já havia acontecido. O Trump que a "boa e velha América" elegeu está morto. O novo "Trump" está fazendo exatamente o oposto do que ele prometeu. Trump, o realista, não deveria se preocupar com o que ocorre na Síria, para além de somar forças com os russos para eliminar o ISIS. Ele prometeu parar com as intervenções. Mas ele agiu de outra forma. Ele subitamente acredita em mais uma mentira globalista sobre um "ataque químico de Assad" e, sem qualquer esclarecimento das circunstâncias, toma uma "decisão", ou seja, ele assina um papel apressadamente sobre um ataque com mísseis a uma base síria.

Este é um cheque de realidade. Palavras são uma coisa, ações outra. Algo deu errado.

Quem governa Trump a partir de agora?

Se este não é o Trump, que foi "eliminado", então quem tomou a decisão sobre o ataque com mísseis? Julgando pela rapidez, isso provavelmente foi obra dos neocons alinhados com o Estado Profundo. O CFR teria agido de forma diferente. Eles teriam apresentado à Rússia algum projeto sufocador e enviado algum tipo de "marca negra" (apesar da explosão no metrô de São Petersburgo e os protestos de estudantes zumbificados de Navalny serem, em princípio, esse tipo de marca negra), e mais importantemente, eles teriam feito isso através de seus incontáveis agentes na elite russa, e teriam proposto um compromisso. A rapidez dessa provocação e golpe nos mostra que o avatar que se move sob o nome "Trump" está governando como conduíte para os neocons. Isso também foi evidentemente feito com apoio de Israel, que planeja se juntar à operação, já que tropas israelenses foram concentradas em disposição de combate na fronteira com Síria e Líbano. Afinal, os aliados mais próximos dos israelenses nos EUA não são ninguém mais, ninguém menos que os neocons.

Parece que a disputa de Trump com o CFR, que ele, enquanto ele ainda era Trump, travou em nome da "boa e velha América" e do realismo, foi aproveitada pelos neocons dessa vez, que assumiram o controle. Reveladora em relação a isso é a euforia do neocon Kristol em relação à remoção de Bannon. Seu twitter explodiu de alegria.

Portanto, os neocons controlam Trump.

Isso quer dizer que uma guerra é mais que provável.

Mas com quem, contra quem, quando e onde?

Guerra com quem?

Diferentemente de Trump, que eu penso não ter consciência da existência da geopolítica, os neocons são atlantistas. Para eles, como para seus predecessores, os trotskistas, o principal inimigo é a civilização telúrica, ou seja, nós. Para o Estado Profundo, isso também tem sido o normal desde a era da Guerra Fria e do mccarthyismo, e mesmo alguns falcões do CFR como Zbigniew Brzezinski partilha dessa visão dualista de Mar vs Terra. O CFR, em regra, tenta convencer Moscou de que não existe geopolítica e que não há "guerra de continentes", mas eles próprios são guiados pela geopolítica e estão travando contra nós exatamente essa guerra dos continentes. É claro, é melhor quando um inimigo não sabe que está sendo travada uma guerra contra ele, vamos deixá-los crer que estão se banhando pacificamente na praia. Então será uma surpresa quando um submarino nuclear emergir perto de sua cadeira de praia. Bingo!

Assim, os neocons entendem o ataque americano à base síria como o que ele é: um ataque militar contra os russos. Trump expressou isso de forma mais suave: "Os amigos de Assad ficarão desapontados". Essa é a retórica de um papagaio iludido, não um realista vitorioso que decidiu tornar a América grande novamente. O Pântano aplaude.

Uma coisa é clara: Essa é uma guerra contra nós.

Mas essa guerra será travestida como uma guerra contra nossos amigos e aliados, contra Assad (naturalmente), contra o Irã, contra os xiitas e contra o Hezbollah em particular. Como um compromisso Moscou receberá uma oferta de se unir às operações contra Assad e Teerã ao lado dos EUA e seus aliados: "Trump mudou de opinião da noite pro dia. Vamos lá, pessoal. Vocês deveriam ser 'realistas'." Alguém calculará que se nos rendermos, então poderemos evitar uma Terceira Guerra Mundial. Mas não podemos. Ela está sendo travada contra nós, e nossos amigos são apenas um alvo secundário, local, o principal teste de nossa resiliência. Se os entregarmos, então eles poderão fazer o que quiserem conosco.

Mas se os neocons são os manipuladores por trás de Trump, então eles não insistirão em cooptar a Rússia. Eles vão avançar de forma simples e dura. Eles tem um plano. E se eles conseguiram assumir os controles do poder sobre o equipamento pesado americano, o que eles quase perderam a esperança de fazer sob Obama, então eles agirão tão rápido quanto possível e tentarão não perder tempo.

Portanto, a Terceira Guerra Mundial será travada pelo Pântano, os atlantistas, e apoiadores do imperialismo americano contra nós. Formalmente, Assad e os xiitas serão designados como o inimigo. A União Europeia, que é completamente controlada pelo Pântano, se unirá à coalizão. Até Erdogan pode ser pressionado a retornar ao campo americano.

Guerra onde?

O principal front dessa guerra obviamente será o Oriente Médio, ou seja, a Síria e a região circundante. As profecias dos ortodoxos, dos protestantes, dos judeus e dos muçulmanos concordam com um Armageddon acontecendo nas redondezas da Terra Santa.

Mas claramente o inimigo abrirá outros fronts também, por proxies. Fundamentalmente, um ataque deve ser esperado no Donbass com uma invasão paralela da Crimeia. A portavoz neocon Victoria Nuland, esposa do importante neocon Robert Kagan, está na Ucrânia. Isso significa algo.

A isso se seguirão séries simultâneas de ataques terroristas na capital russa e em grandes cidades, e a ativação de militantes no norte do Cáucaso.

O conflito em Karabakh provavelmente será descongelado.

Contra este pano-de-fundo, os humores de protesto se erguerão e a quinta-coluna irá às ruas. Vimos uma repetição disso tudo antes.

Finalmente, o inimigo tentará orquestrar um golpe de Estado para descartar Putin, sobre quem a Rússia enquanto Estado soberano se apoia hoje. Isso será obra da sexta-coluna. O leitmotif dessa conspiração pode ser o liberal falando "olha aonde essa soberania, 'a Crimeia é nossa', e o conservadorismo, etc. nos trouxe" ou mesmo algum tipo de retórica ultrapatriótica do tipo: "olha como ele hesita" ou "olhem para nossas perdas, elas são todas por conta da indecisão dele".

Não se pode descartar que outros territórios também se tornem arenas dessa guerra.

Guerra quando?

Quando a Terceira Guerra Mundial começará? De certa forma, ela já começou. Mas ela pode terminar rapidamente. Como? Por exemplo, conosco reconhecendo a derrota. Então não haverá necessidade de lutar, já que o objetivo da guerra é estabelecer controle sobre um inimigo, seu território, suas instituições, e sua consciência. O Ocidente já estabeleceu controle parcial sobre a Rússia. A única coisa que eles não controlam é Putin. Portanto, a Terceira Guerra Mundial será, de alguma forma, dirigida contra ele.

Mas o que significa dizer que "a guerra já começou"? Isso significa que se a Rússia reagir duramente, então uma série de ações irreversíveis de natureza dramática característica da guerra serão postas em movimento e, considerando o envolvimento direto de duas potências nucleares, essa guerra será, por definição, uma guerra mundial.

Se recuarmos, a guerra tem toda chance de terminar rápido e com perdas mínimas, mas isso significaria nossa rendição com todas as consequências. Para nem mencionar a Crimeia, que é nossa apenas enquanto formos nós mesmos. Nós só temos que recuar um passo para que nossa imagem solipsista entrar em colapso.

Se respondermos, então o início da guerra pode ser adiado. Se deixarmos de resolver a questão de forma rápida, Washington enviará o CFR para negociações e a questão será arrastada. Segue-se uma visita de Kissinger a Moscou, ele é um negociador do CFR de primeira linha. Ele não vem para apunhalar, mas para estrangular.

A geopolítica jamais pode prever o tempo exato dos processos, mas os geopolíticos entendem perfeitamente o que e onde. Mas o "quando" depende de fatores demais. O processo está aberto neste sentido.

O que deve ser feito?

Eu notei que todo analista ou, sendo mais duro, todo idiota sabe o que fazer na situação de hoje. Todos eles se atropelam com suas dicas e recomendações que parecem barulhentas e vulgares. Não desejamos participar nesse coral. Ademais, o governo não dá ouvidos a nada, nem ninguém. E talvez com razão.

Portanto, é suficiente nos limitarmos a essa análise preliminar e ser capaz de avançar, corrigir algo, esclarecer algo, e repensar algo. Afinal, em toda guerra, quase tudo depende das condições iniciais. Elas devem ser, portanto, analisadas tão precisamente quanto possível. Um erro nesse nível, mesmo o mais insignificante, pode depois gerar resultados catastróficos.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Aleksandr Dugin - Donald Trump: O Pântano e o Fogo

por Aleksandr Dugin



O Pântano se tornará o novo nome da seita globalista, os adeptos da sociedade aberta, os maníacos LGBT, o exército de Soros, os pós-humanistas, e assim por diante. Drenar o pântano não é apenas o imperativo categórico estadunidense. É um desafio global para todos nós. Cada aldeia está agora sob o poder de seu próprio pântano. Todos juntos temos de começar a luta contra o pântano russo, o pântano francês, o pântano alemão e assim por diante. Precisamos purgar nossas sociedades da influência do pântano. Então, em vez de lutar entre nós, vamos drenar juntos. Os purificadores do mundo inteiro devem estar unidos!

O outro ponto é que o antiamericanismo acabou. Não porque fosse errado, mas pelo contrário: porque o povo norte-americano iniciou a revolução precisamente contra esse aspecto dos EUA que todos nós odiamos. Agora, a elite governante europeia, assim como parte da elite russa (que ainda é liberal) não pode ser culpada (como antes) de ser muito pró-americana. Deve ser culpada de agora em diante por ser o que é: uma gangue corrompida, pervertida e gananciosa de banksters (combinação de banqueiro e gângster) e destruidores de culturas, tradições e identidades. Então vamos drenar o pântano europeu. Chega de Hollande, Merkel, Bruxelas. Europa para os europeus. Os Soros e sua seita devem ser julgados publicamente.

O pântano é agora um fenômeno extraterritorial. Exatamente como uma rede terrorista internacional. O pântano está em toda parte e em nenhuma parte. Ontem, o centro do pântano, seu núcleo, estava localizado nos EUA. Hoje não. É a oportunidade para todos nós começar a caçá-los. O pântano já não tem uma forma manifesta e regionalmente fixa. No entanto, ele existe e ainda é muito, muito poderoso. Mas seu caráter anti-nacional é agora claro, explícito. O pântano não se esconde atrás da América do Norte. Ele foi para o exílio. Onde, Canadá? Europa? Ucrânia? Outros planetas onde alguns atores dopados e atrizes prometeram emigrar no caso da vitória de Trump. Então agora é a hora de cumprir a promessa. Parece como o rapto globalista. Eles agora são absorvidos pelo não-espaço, a u-topia. Na terra da utopia liberal, na terra de ninguém. Somos testemunhas da desterritorialização do pântano, da elite globalista, do Governo Mundial.

Qual é a estrutura do pântano?

Primeiro lugar, é a ideologia, o liberalismo. Precisamos do julgamento de Nuremberg sobre o liberalismo: a última ideologia política totalitária da Modernidade. Vamos fechar esta página da história.

Segundo: O pântano é uma cultura pós-modernista especial. Baseia-se na decomposição de qualquer entidade, por digitalização, esquizomorfismo compulsório e assim por diante. Drenar significa restaurar a unidade de arte apolínea. A arte deve retornar ao holismo.

Terceiro: o capitalismo transnacional global. É o motor material do pântano. É o crédito e o FED que faz contas verdes envenenadas. Temos de acabar com tudo isto e voltar ao setor real e à abordagem mercantilista.

Sugiro redescobrir as idéias de Pitirim Sorokin. Ele via a dinâmica social da história como uma cadeia de paradigmas sociais: ideacional, idealista e sensorial. Ideacional é a dominação absoluta do espírito sobre a matéria, o ascetismo e a subjugação violenta do mundo material à aspiração espiritual e religiosa. O tipo idealista é equilibrado e baseado na coexistência harmoniosa do espírito e da matéria, onde a parte espiritual é ligeiramente dominante, mas não exclusiva (como no tipo ideacional). O tipo sensorial de sociedade é a dominação da matéria sobre o espírito, do corpo sobre a alma. O tipo sensato de sociedade é o pântano. E, recentemente, parecia que "sensato" e "América do Norte" eram sinônimos. Depois de Trump tudo é diferente. Agora o sensato é global e ex-cêntrico. Há uma espécie de "translatio Imperii" - em nenhum lugar ou em toda parte.

Mas Sorokin enfatizou que a natureza cíclica da sociedade só requer essa sucessão: ideacional-idealista-sensorial. Depois de sensorial não pode permanecer idealista. Não há evolução possível do pântano para o semi-pântano. Depois do pântano vem o Sol. O Fogo, o Espírito. O Espírito em sua forma radical e ideacional. Então, para drenar o pântano precisamos de fogo solar. O grande incêndio. Deve estar em abundância.

O pântano e o fogo são dois elementos distribuídos por toda a terra. A geopolítica agora se torna vertical. Ambos estão em qualquer ponto. O significado do lugar é agora o ímpeto do processo de drenagem do pântano. Onde? Aqui e agora.

O pântano não é mais a hegemonia americana, o presidente dos EUA rejeita tal hegemonia. Portanto, é a hegemonia da "tout court", a hegemonia como tal, com um vácuo puramente pós-modernista no centro.

Os EUA são a extremidade ocidental do mundo. É o espaço da meia-noite. E ali é alcançado o ponto final da queda. Então o momento é a mudança dos pólos. O Ocidente torna-se Oriente. Putin e Trump em dois cantos óticos do planeta. No século XX, os dois extremos eram as formas mais radicais da modernidade: capitalistas e comunistas. Dois monstros apocalípticos, Leviatã e Behemoth. Agora se tornam duas promessas escatológicas: a Grande Rússia de Putin e a América do Norte em estado de libertação por Trump. O século XXI finalmente começou.

Então tudo o que precisamos agora é o Fogo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Aleksandr Dugin - A Vitória de Trump

por Aleksandr Dugin



Hoje em dia é quase impossível falar de algo mais sério do que a surpreendente vitória de Donald Trump e a derrota esmagadora da protegida do globalismo, Hillary Clinton, nas eleições nos EUA. Este evento é tão importante para toda a ordem mundial, que pode ser analisado de diferentes lados. Tudo está tão saturado com significados diferentes que não sabemos por onde começar...

A ascensão de Trump, em primeiro lugar, põe um fim decisivo ao mundo unipolar. Trump rejeitou diretamente a hegemonia americana em sua forma moderada, na qual o CFR insiste, como em sua forma dura, como exigido pelos neoconservadores. Nessas eleições, os dois principais thinks thanks globalistas estadunidenses uniram-se em torno da candidatura de Clinton e entraram em colapso. Isso significa que o mundo unipolar é liquidado não apenas sob pressão de outros países, mas também dentro dos próprios EUA. Os povos e os estados do mundo podem finalmente respirar profundamente. A expansão do globalismo foi interrompida em seu próprio centro. O novo mundo multipolar significa que os EUA se tornarão um dos vários pólos da ordem mundial, um poderoso e importante, mas não o único, e o mais importante, que não pretende ser excepcional.

Putin, em sua posição na vanguarda da luta pela multipolaridade, levou a isso. O 8 de Novembro de 2016 foi uma vitória muito importante para a Rússia e para ele pessoalmente. Não há alternativa à ordem multipolar, e agora podemos finalmente criar a arquitetura desta nova ordem mundial, não através da guerra, mas através da paz. Trump trouxe isso com ele.

A vitória de Trump mostra que há duas América do Norte hoje, ou melhor, duas versões da América:  a América do Norte de Clinton e a de Trump. A América de Trump é tradicional e conservadora, saudável e respeitosa. Esta América do Norte disse um "não" retumbante ao globalismo e à expansão da ideologia liberal. Esta é a verdadeira América do Norte, o reino da América do Norte que elegeu seu presidente e não sucumbiu à falsa propaganda da mídia globalista liberal. Isso significa mais do que uma falência completa para quase todas as grandes redes e grandes corporações de informação além do The Angeles Times que, contra todos os outros, confiadamente previu a vitória de Trump. Isso significa o surgimento de uma nova esfera de informação, símbolo do qual é a Infowars por Alex Jones, que se tornou o recurso mais poderoso da verdadeira informação nos EUA, e cuja audiência rapidamente cresceu para 20.000.000 em questão de dias, E ultrapassou os canais de grande orçamento. Isso não é apenas o poder da crença, este é o poder da verdade. Ao insistir que a verdade importa, Alex Jones expressa a posição da verdadeira América do Norte, que a América do Norte que viu o seu representante completo em Trump. Mais da metade da população estadunidense acredita somente em si mesma, não na propaganda liberal globalista mentirosa das elites transnacionais. Esta é uma brilhante notícia. É possível ter um diálogo com este tipo de América do Norte. Fora das sombras surgiu uma segunda América do Norte, cujos recursos de informação simbólica são agora The Angeles Times e a televisão de Internet de Alex Jones.

Alex Jones afirma claramente: a vitória de Trump é o começo de uma revolução americana. As pessoas estão derrubando a elite transnacional. Este é o alvorecer de uma luta de libertação nacional. As redes do governo mundial afrouxaram seu aperto na garganta dos EUA, e doravante os EUA estarão na mesma posição que todos os outros estados que participam na mesma luta dos povos, das culturas e das tradições contra a maníaca seita liberal dos globalistas. Hoje, estamos todos em solidariedade com o povo americano.

Depois dessas eleições, devemos abandonar o antiamericanismo simplista, que era totalmente apropriado quando os EUA eram governados pelos globalistas, mas agora está fora de lugar. Se os EUA, como prometeu Trump, se concentrarem em seus problemas internos e deixarem a humanidade sozinha, então não há razão para detê-los mais.

Afinal, não é a América do Norte, mas suas elites, que agressivamente impuseram à humanidade valores antinaturais, repulsivos e destrutivos, estados subjugados, semearam terror e caos sob o disfarce de "democracia", derramaram oceanos de sangue e invadiram Estados soberanos. Trump não pertence a essas elites. Ele não é um deles. Isto significa que apoiará outros valores, conservadores, americanos e cristãos. Suas políticas para com o resto do mundo serão diferentes.

Os liberais europeus perderam seu conselheiro. Quando eles pateticamente chamarem Washington para perguntar onde e quando o próximo desfile gay será realizado, Merkel ou Hollande receberão agora uma dura e áspera resposta americana: 'Vão para o inferno'.

As redes globalistas de inúmeras ONGs e agentes estrangeiros na Rússia perderão ainda mais apoio. Se quiser ajudar a América do Norte de Trump, então você pode ir para os EUA e trabalhar incansavelmente. Não mais fundos serão alocados para combater e degradar outras culturas e tradições. Ao contrário de Clinton, Trump não considera o movimento LGBT, o feminismo e o pós-modernismo como as últimas palavras de progresso, mas uma doença. O mais que pode deixar a América agora é o tratamento para suas perversões. A Fundação Soros, uma organização que já é proibida na Rússia, parece ser reconhecida no futuro próximo como um extremista nos EUA. Tudo isso e muito mais é o trabalho de Donald Trump.

Alguns replicam que nós superestimamos Trump. Ontem eles zombaram de nós quando previmos sua vitória. Hoje chegou o momento. Esta é uma janela de esperança e está aberta. Se não usarmos agora, então teremos que nos culpar.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Aleksandr Dugin - Dia de Solidariedade com a Palestina

por Aleksandr Dugin



(29 de Novembro)

Hoje é o Dia Internacional de Solidariedade com a Palestina - uma ocasião para falar do futuro do povo palestino e do Estado de Israel.

A Palestina é uma terra sacra onde os principais santuários do Cristianismo, do Judaísmo e do Islã podem ser encontrados. Não apenas paixões políticas, mas paixões religiosas queimaram sobre a Palestina por milhares de anos. Esta terra foi deixara por Deus para Abraão, que veio de Ur, na Caldeia, para a Mesopotâmia. Moisés e Josué a reconquistaram do domínio egípcio, após o qual o Reino de Israel e da Judéia foi formado ali.

"Depois, a Palestina foi incorporada aos impérios globais - o Assírio, o Caldeu, o Persa, Grego, Romano, Islâmico e Otomano. Depois do colapso do Império Otomano, estes territórios caíram sob domínio Britânico".

Hoje, cada vez mais pessoas compreendem que as explicações materialistas, econômicas e evolucionárias da história são nada mais que um mito pobre da Modernidade. Os fatores da religião e do ethnos estão começando, novamente, a serem levados a sério e se tornando uma chave importante para o entendimento dos eventos mundiais. Portanto, a questão palestina deveria ser vista através destas lentes.

A população da Palestina é misturada. Centenas de povos habitaram, passaram por e se misturaram uns com os outros nestas terras. Os judeus a deixaram em massa após a ascensão falha do falso messias Simon bar Kokhba, em 135 d.C. Isso significou o quarto período de exílio, o Galut. O Talmude proíbe os judeus de retornarem a estas terras até a chegada do Messias. Este é um dos três principais mandamentos talmúdicos, que são: não se deve retornar a Israel, os povos entre os quais vive a Diáspora Judaica não devem ser feridos, e a construção do Terceiro Templo não deve começar até a vinda do Messias.

Durante o período da expansão do Islã, a Palestina foi conquistada dos Bizantinos romanos pelos Árabes, seguido de profunda arabização e islamização. Antes disso, a maioria da população era cristã. Na época das Cruzadas, os cruzados ocidentais tomaram de volta Jerusalém dos Sarracenos por um tempo, apenas para perdê-la novamente. Mais tarde, no começo do séc. XVI, a Palestina foi conquistada pelos Turco-otomanos.

Começando no final do séc. XIX, sob a influência da ideologia racista e nacionalista do Sionismo, um nacionalismo judeu que copiava o nacionalismo europeu, os judeus europeus começaram a migrar para a Palestina em massa e, portanto, violando os mandamentos talmúdicos.

"Os sionistas decidiram: se o Messias não está com pressa de voltar, então nós tomaremos a iniciativa nós mesmos e forçaremos o seu retorno. Nem todos os judeus concordaram com isso, então o movimento judeu antissionista conhecido como Neturei Karta se levantou, pregando que o Sionismo era uma heresia diabólica".

Em 1947, seguindo o final da Segunda Guerra, o Estado de Israel foi fundado sob a influência dos Sionistas. Na medida em que a religião judaica em sua versão sionista representa uma doutrina estritamente racista, a população palestina local - largamente árabe e muçulmana, embora também incluísse muitos cristãos - foi submetida a um verdadeiro genocídio, apartheid e limpeza étnica. Os judeus, tendo acabado de sofrer uma perseguição sem precedentes pelos nazistas no Terceiro Reich, pareciam estar descontando sua dor e ódio nos palestinos que não eram, aliás, culpados de nada. Milhões de palestinos foram deportados das terras nas quais eles viveram por anos.

Isso não aconteceu sob as conquistas árabes ou sob os Cruzados. Os sionistas não reconheceram qualquer resolução sobre o estabelecimento de um Estado Palestino nem o status internacional de Jerusalém. Constantemente citando o seu sofrimento nas mãos dos nazistas, os judeus usam isso como um pretexto para recusar a prestar atenção aos protestos dos árabes e as petições das Nações Unidas e da comunidade internacional. Afinal, por violar os mandamentos talmúdicos, os líderes sionistas essencialmente identificaram a si mesmos como o Messias. Tudo o que restou foi prosseguir e construir o Terceiro Templo. Para tal, os árabes precisam ser expulsos do Monte do Templo e o santuário Islãmico, a Mesquita de al-Aqsa, precisa ser destruída. A plenitude do genocídio dos palestinos é parte dos planos sionistas. Então, na opinião deles, o período de domínio judeu em uma escala global chegará - a Quinta Monarquia, sob a qual as nações da Terra, os gentios, reconhecerão a supremacia dos judeus e se submeterão a eles. Este é o credo pelo qual o Estado de Israel vive.

"Nesta situação, o Dia de Solidariedade com os povos da Palestina é celebrado por aqueles que não compartilham deste tipo de ideologia mística-política, racista e escatológica do Sionismo".

Para um ortodoxo, isto é claramente um reminiscente do Anticristo. Nós, igualmente, não podemos nos deleitar com a conquista islâmica da Palestina. Afinal, esta era parte da nossa terra ortodoxa, uma parte do nosso Império.

Talvez o mais justo seja devolver a Palestina para nós, cristãos. Nós não somos racistas ou fanáticos, e não queremos exclusividade. Nós garantimos o direito de ambos muçulmanos e judeus em nossa terra sagrada. Portanto, encontremo-nos na Jerusalém ortodoxa.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Alexander Dugin - Sobre os Identitários, a Tradição e a Revolução Global

por Aleksandr Dugin



Considero que os identitários são aliados quando rechaçam a modernidade, a oligarquia global e o capitalismo liberal mortífero para as culturas étnicas e as tradições. 

A ordem política moderna é essencialmente global e se baseia puramente na identidade individual. É a pior ordem possível e deve ser totalmente destruída. 

Quando os identitários militam por uma reafirmação da Tradição e das antigas culturas dos povos europeus, têm razão. Mas quando atacam os imigrantes, os muçulmanos, os nacionalistas doutros países (baseado em conflitos históricos), quando defendem os EUA, o atlantismo, o liberalismo ou a modernidade, quando consideram a raça branca (a que criou a modernidade) como a raça superior e afirmam que outras raças são inferiores, estou em total desacordo com eles. 

Mais do que isso, não posso defender brancos contra não-brancos apenas por ser branco e indo-europeu. Reconheço a diferença de outros grupos étnicos como uma coisa natural e rechaço qualquer hierarquia entre os povos, dado que não existe, e não pode existir, uma medida universal para a comparação das sociedades étnicas e os sistemas de valores. 

Tenho orgulho de ser russo, exatamente como os estadunidenses, os árabes, os chineses, e os africanos estão orgulhos de ser como são. É nosso direito e nossa dignidade afirmar nossa identidade. Não a de uns contra outros, mas a de uns ao lado dous outros, sem ressentimento para com os outros ou remorso em relação a si.

Não posso defender a nação, porque a nação é um conceito burguês imaginado pela modernidade para destruir as sociedades tradicionais (Império) e as religiões para sua substituição por pseudo-comunidades artificiais baseadas na identidade individual. Atualmente, a nação está sendo destruída pelas mesmas forças que a criaram no primeiro período da modernidade. As nações têm cumprido seu papel de destruidor de identidades orgânicas e espirituais e agora os capitalistas destroem seus próprios instrumentos para fazer possível a globalização. 

Devemos atacar o capitalismo como um inimigo absoluto, responsável tanto pela criação da nação como simulacro da sociedade tradicional, como de sua destruição atual. A razão da catástrofe atual tem suas raízes nos fundamentos ideológicos e filosóficos do mundo moderno. E a modernidade que era branca e nacional em sua origem tornou-se global finalmente. É por isso que os identitários devem escolher seu campo real: a Tradição (o que inclui sua própria tradição indo-europeia) ou a modernidade? O atlantismo, o liberalismo, o individualismo, são as formas do mal absoluto para a identidade indo-europeia, são incompatíveis por si. 

Se os identitários realmente amam sua identidade, eles converter-se-ão em eurasianos e unir-se-ão aos tradicionalistas, aos inimigos do capitalismo de todos os campos políticos, raças, religiões ou culturas. Ser hoje anti-comunista, anti-muçulmano, anti-oriental, pró-yankee, atlantista, significa pertencer ao outro lado, estar ao lado da Nova Ordem Mundial e da oligarquia financeira. Mas é uma atitude ilógica porque as consequências da globalização destroem todas as identidades exceto as individuais, e fazer uma aliança com aqueles que a apoiam significa trair a própria essência da identidade cultural.  

O problema com as esquerda é diferente. É positiva em sua oposição a ordem capitalista, mas carece da dimensão espiritual. A esquerda se apresenta habitualmente como uma via alternativa para a globalização, que é a razão de sua oposição aos valores orgânicos, às tradições e à religião. 

Seria bom ver aparecer algo como “identitários de esquerda” que por um lado defendessem a justiça social atacando o capitalismo, e por outro, defendessem as tradições espirituais atacando a modernidade. 

O inimigo é único, é a ordem global liberal do capitalismo da hegemonia norte-americana (que também é dirigido contra a verdadeira identidade americana)

Nós ganharemos se unificarmos nossos esforços.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Aleksander Dugin - O que acontece com a Europa?

por Aleksander Dugin



Para entendermos corretamente a natureza da crise atual precisamos fazer uma breve análise da situação. Sugiro três níveis: 

- Ideologicamente,

- Economicamente,

- Geopoliticamente.

A ideologia liberal é a fonte do problema

Ideologicamente o problema é o liberalismo como única ideologia imposta à Europa e ao resto da humanidade pelo mundo anglo-saxão. O liberalismo afirma somente a identidade individual e proíbe qualquer tipo de identidade coletiva ou orgânica. Então, passo a passo, o liberalismo nega a religião, a nação e a associação de gênero a fim de estabelecer um indivíduo completamente livre de qualquer tipo de holismo. O gênero é o núcleo do problema político porque os liberais insistem no caráter facultativo do gênero, um gênero como eleição individual (antes a luta estava próxima da religião como opção individual ou da nação como escolha individual). O outro ponto importante é a imigração. O liberalismo nega-se a reconhecer identidades religiosas ou culturais, assim como as de gênero: assim, um imigrante não é considerado como portador de uma identidade diferente, mas um indivíduo numérico e atomizado. O liberalismo destrói qualquer identidade coletiva. Logicamente o liberalismo destrói a identidade europeia (com a chamada tolerância e as teorias dos direitos humanos). Junto com a destruição intensiva da identidade sexual acelera o fim da sociedade como tal. O fim da Europa está garantido pelo próprio fato da aceitação do liberalismo como ideologia dominante.

O último passo no desenvolvimento do liberalismo será negar a identidade humana coletiva. Assim sendo bem vindos ao trans-humanismo. Essa é a agenda liberal para o amanhã.

O liberalismo é uma ideologia niilista. Ele insiste na liberdade de qualquer tipo de identidade, mas nunca sugere algo positivo. Na última competição com as ideologias totalitárias – o comunismo e o fascismo – o liberalismo era concreto e atrativo porque negava o totalitarismo concreto considerado como uma alternativa. De fato, foi uma alternativa. Mas quando os totalitarismos foram superados, a natureza niilista do liberalismo revelou-se. Ele só pode negar. Não pode afirmar nada. Não é a ideologia da liberdade positiva, é a ideologia da liberdade negativa. Antes não era tão explícito, agora é. 

O liberalismo se tornou totalitário. Você não tem liberdade de não ser liberal. Você deve ser liberal. Você pode optar por ser liberal de esquerda, liberal de direita, ou liberal de centro. Pode ser – em casos extremos – liberal de extrema-esquerda ou liberal de extrema-direita. Mas sempre é liberal. Se você é julgado pelos liberais como não liberal, você está acabado – etiquetado como extremista, terrorista e assim sucessivamente. Os liberais podem tolerar, mas só as pessoas tolerantes. Se você não é tolerante (no sentido liberal), você é intolerável. 

O que podemos fazer para opor-se ao liberalismo? No século XX houveram duas opções: o comunismo (socialismo) e o fascismo. Ambos fracassaram historicamente – política, filosófica, militar e economicamente. Agora existem como simulacros. São ou marginais ou manipulados pelo liberalismo: daí o liberal-comunismo do pós-modernismo, anarquistas e trotskistas ou liberal-fascistas que servem aos liberais para promover sua causa exatamente como o fundamentalismo islâmico é utilizado como arma dos EUA. Assim, a minha ideia para opor-se ao liberalismo (primeira teoria política), não é a segunda teoria política (o marxismo), ou a terceira (o fascismo), mas a quarta. Eu desenvolvi essa ideia no livro A Quarta Teoria Política, traduzido em muitos idiomas. Temos que lutar contra o liberalismo, refutando-o e desconstruindo-o totalmente. Ao mesmo tempo, temos que fazer isso não em nome da classe (como no caso do marxismo) ou em nome do Estado-Nação ou da raça (como no fascismo), mas em nome da unidade orgânica do povo, da justiça social e da democracia real. Os liberais interpretam a democracia como o domínio das minorias. Necessitamos restaurar o sentido original do termo: a democracia é o governo da maioria, da maioria orgânica, maioria que partilha uma identidade em comum – que é a laocracia, governo do povo, como a unidade histórica e cultural.

O capitalismo financeiro é uma catástrofe 

Economicamente, o problema está no capitalismo financeiro que finge superar o setor real da indústria em favor da tecnologia dos mercados financeiros virtuais. Tal capitalismo é monopolista e cria bolhas no lugar de desenvolver a infraestrutura econômica. Essa economia se baseia nas especulações financeiras (do tipo de George Soros) e alimenta a ilusão do crescimento infinito. Isso contradiz a realidade. A classe média não está crescendo mais. O crescimento dos mercados financeiros não corresponde com o crescimento do setor real. Por toda a atenção nas instituições financeiras que promovem a deslocalização do setor real até os países do Terceiro Mundo no curso da globalização é o caminho até o abismo. 

As primeiras ondas da crise já passaram, mas novas ondas virão em breve. O colapso econômico dos países do sul da Europa como a Grécia, e num futuro próximo Itália e Espanha, é só o pico visível da imensa catástrofe. A unidade europeia se baseia na aceitação total da logística do capitalismo financeiro. Só a luta da Alemanha agora, a fim de manter a economia em contato com as realidades industriais, se recusa a embarcar no trem que vai para o nada. Essa é a razão da histeria anti-alemã na Europa e nos EUA. A economia alemã pode ser a última economia real, o resto são economias virtuais.

Portanto, temos que reconstruir a Europa sobre bases econômicas alternativas. 

O crescimento infinito não é mais que uma ilusão liberal. A caída da classe média é a severa realidade. A maneira de sair disto é a revisão completa dos mitos do capitalismo financeiro.

O Atlantismo é um mal 

Geopoliticamente a Europa é hoje uma entidade atlantista. A teoria geopolítica criada pelo inglês Sir H. Mackinder declara que há dois tipos de civilizações – a civilização do Mar (Seapower) e a civilização da Terra (Landpower). Ambas estão constituídas sobre sistemas de valores opostos. O Seapower é puramente mercantil, modernista e materialista. O Landpower é tradicionalista, espiritual e heroico. Esse dualismo corresponde ao par conceitual de Werner Sombart: Händlres e Helden. A sociedade europeia moderna está plenamente integrada na civilização do mar. Isso se manifesta na hegemonia estratégica norte-americana e na OTAN. 

Essa situação impede que a Europa se converta numa entidade geopolítica independente. Mais profundamente, perverte a natureza geopolítica da Europa como entidade continental – Landpower. 

Portanto, há uma necessidade de mudar a situação e restabelecer a estratégia do Landpower baseada na verdadeira soberania europeia. Em vez do atlantismo, a Europa necessita converter-se numa potência estratégica continental.

Europa e Rússia 

Se nós resumirmos os pontos podemos logicamente deduzir onde estamos nas relações entre a Europa e Rússia. 

No presente a Rússia é: 

- Relativamente hostil ao liberalismo (mais inclinada ao tradicionalismo e ao conservadorismo). 

- Economicamente, está tratando de liberar-se da ditadura do Banco Mundial e do FMI. 

- Geopoliticamente, continental e anti-atlantista. 

Essa é a razão pela qual a Rússia está sendo atacada – em Ucrânia, em Moscou, em todas as partes. 

O recente assassinato do liberal Boris Nemtsov foi uma provocação que serve para demonizar a Rússia cada vez mais aos olhos do Ocidente. Os liberais, a oligarquia financeira mundial e atlantista (os EUA e a elite financeira), tratam de provocar hostilidade entre a Rússia e a Europa, assim como tratam de salvar seu trêmulo império promovendo conflitos étnicos. A guerra na Ucrânia é o primeiro passo na série de conflitos étnicos em solo europeu. A elite liberal mundial planeia a guerra étnica não só na Ucrânia ou Rússia, mas na Alemanha, França, no leste da Europa e em outros lugares. O império liberal trata de salvar sua hegemonia, que se desmorona, nos dividindo. 

Temos que resistir a fim de construir uma Europa melhor, a Europa verdadeiramente europeia. E em tal situação a Rússia é o amigo e os EUA é o inimigo. Temos que trabalhar numa aliança russo-europeia, não porque os europeus gostam da Rússia ou os russos gostam dos europeus. A razão é diferente: temos que estar juntos para salvar a cada um de nós do perigo que nos ameaça. 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Aleksandr Dugin - Clinton é Guerra, Trump é Paz

por Aleksandr Dugin



Hoje, o destino da humanidade está sendo decidido. A questão é bem clara: guerra ou paz? Os EUA são a única hiperpotência, e há eleições acontecendo neste país hoje. Ah! E que eleições! Pela primeira vez em muitas décadas, os dois candidatos incorporam dois caminhos alternativos de desenvolvimento para os EUA e, em sendo assim, para a humanidade como um todo.

Hillary Clinton é o caminho do globalismo, do mundo unipolar, e a continuação da hegemonia americana. Sob as circunstâncias atuais nas quais o poderio americano está em colapso em todas as regiões do mundo, uma vitória de Clinton significa guerra, guerra contra todos que se opõem à hegemonia americana e escolhem o mundo multipolar ao invés do mundo unipolar. Clinton é a velha ordem mundial, a que foi formada no início dos anos 90. Essa ordem está chegando ao fim, mas ela não quer acabar. E isso significa agonia. A agonia de um pequeno Estado ou nação é uma coisa. Ela é assustadora e perigosa, até mesmo tóxica. Mas a agonia de uma hiperpotência global é um desafio monstruoso para todo o mundo, para toda a humanidade. Ela é como um titã caindo no abismo. Ela pode facilmente arrastar todos os outros consigo. Na verdade, Clinton é uma candidata genuinamente possuída. Mas não por virtude de suas qualidades pessoais. Ao invés, sua obsessão individual reflete a loucura das elites globalistas. Eles ainda governam o mundo, mas seu tempo está se esgotando. Eles não mais atraem ou seduzem ninguém. As pessoas os obedecem apenas por medo e fraqueza. Hillary Clinton é uma imagem da insana Grande Mãe Cibele que castrava seus amantes. Ela porta o elemento matriarcal do horror que demanda submissão sem garantir nada em retorno. Clinton significa guerra.

Donald Trump é a América que quase perdemos. Este é um país imenso habitado por pessoas rústicas, ingênuas e de vontade férrea todas elas ocupadas com suas próprias questões pessoais, estabelecendo negócios e companhias, trabalhando e diversão, mas eles são todos os americanos de Trump por uma razão: eles querem se sentir livres. Só isso. Os apoiadores de Trump são os personagens do livro de Ken Kesey "One Flew Over the Cuckoo's Nest", os pacientes da clínica psiquiátrica governada pela Grande Mãe, a enfermeira-chefe Mildred Rached, a Grande Enfermeira como Grande Mãe. Eles veem que a elite globalista de Wall Street, os maníacos da Reserva Federal e os ultraliberais estão privando os americanos comuns do que é mais importante para eles: sua identidade. Como Patrick Buchanan disse, a América subjugou o mundo, mas perdeu a si mesma. A única escapatória para a América real, a América da liberdade, é democracia direta e dignidade. E isso é Donald Trump. Nele há esperança para paz com outros povos, os americanos voltam para casa para sua "cidade na colina" há muito esquecida e abandonada pela elite transnacional, os neocons e os conspiradores globais do CFR que não se importam com a América. A América de Trump é uma América voltando a suas raízes, uma América focada em sua situação doméstica e renunciando à hegemonia e estratégias globais. Essa América pode se tornar não só uma parceira, mas uma amiga sincera de todos os outros povos e nações. Trump é o Randle Patrick McMurphy do "One Flew Over the Cuckoo's Nest". Ele se rebelou contra a Grande Enfermeira para libertar todos os outros. Ele os encorajou a terem fé em si mesmos e os livrou de seu medo da magia negra da Grande Mãe. A batalha de Trump contra Hillary é também um drama psicanalítico. É o macho independente patriarcal deixando para trás a feitiçaria castradora da feminilidade agressiva.

A América de Trump é uma América de homens, rústicos e desastrados, mas um pouco charmosos.

Tudo será decidido hoje. A vitória de Hillary poderia representar o fim do mundo. É necessário se preparar para isso. Ela se tornou refém das forças que apostaram nela. Muito provavelmente, ela está doente e é mantida apenas pelas drogas médicas mais eficientes. Mas isso não muda nada. O próprio diabo governará a América e parcialmente o resto do mundo por trás dela. A situação é sempre a mesma: as bruxas em si não são nem de longe tão aterrorizantes quando seu senhor escuro. O Evangelho diz que a perversão virá ao mundo, mas ai daquele por quem ela vier.

A vitória de Trump significa um recomeço completo do sistema global. A América será grande novamente, mas não mais será o único pólo. Isso significa que os americanos e outros povos terão liberdade. E o nome dessa liberdade é Donald Trump.

Em todo caso, o mundo será um lugar diferente amanhã. Ou muito pior do que é agora ou muito melhor. Mas apenas uma coisa é clara: o mundo nunca mais será o mesmo.

Aleksandr Dugin - A Revolução de Outubro

por Aleksandr Dugin



Hoje, 7 de novembro, é o dia da Revolução Bolchevique de Outubro, uma data terrível e importante.

Há muito que deve ser dito sobre a Revolução de Outubro. Essa é, indubitavelmente, uma parte de nossa história e somos responsáveis por ela. Portanto, estamos simplesmente obrigados a compreender o sentido desse evento.

Primeiramente, nos tempos soviéticos, a Revolução de Outubro era reverenciada como algo praticamente sagrado, como um evento seminal marcando o início do ciclo soviético.

Na URSS, essa data era considerada como o início do tempo infinito eventualmente levando ao comunismo. Mas como acabou sendo, essa foi apenas uma época que se iniciou em outubro de 1917 e terminou em 1991. Isso significa que o entendimento soviético da Revolução de Outubro estava profundamente incorreto. Nós tomamos uma coisa por outra e tolamente nos apegamos a uma velha interpretação. Precisamos encontrar uma nova explicação para este evento, já que a soviética acabou se mostrando falsa.

Em segundo lugar, essa avaliação positiva, idealizada de outubro de 1917 dominou em nossa sociedade como a única possível por 70 anos.

Ela era falsa, o que significa que precisamos encontrar outra. E é importante levar em consideração a posição da outra metade do povo russo, que não era a favor dos Vermelhos, mas dos Brancos. Para os Brancos, a revolução foi resultado de uma monstruosa conspiração de uma seita puramente infernal e satânica que lançou mão de mentiras e violência para tomar o poder e radicalmente abandonou qualquer legitimidade após a dissolução da Assembleia Constituinte. Ademais, os Brancos especialmente enfatizavam que os bolcheviques consistiam em boa parte de minorias nacionais e dependiam de brigadas estrangeiras, como rifleiros letões ou até soldados chineses. Em outras palavras, Outubro era visto como uma tomada violenta do poder por uma organização terrorista russofóbica. Essa avaliação puramente negativa está provavelmente tão longe da verdade quanto a soviética. De fato, ela está. A teoria conspiratória dos Guardas Brancos é tão inaceitável quanto a idolatria soviética da Revolução de Outubro.

A verdade, aqui, é um pouco assimétrica. Todos estão familiarizados com a interpretação comunista equivocada, enquanto bem poucos de nossos cidadãos estão familiarizados com a versão dúbia e simplista da Guarda Branca. É necessário, no mínimo, consertar esse erro e equiparar duas teorias igualmente questionáveis, tanto o sem-sentido Vermelho da natureza socialista da revolução (em um país agrário com capitalismo subdesenvolvido e quase sem proletariado!) e o sem-sentido Branco de uma conspiração judaica. Mas já que o sem-sentido Vermelho está representado em milhares de filmes e peças, então que haja tantos monumentos ao sem-sentido Branco também. Nós já temos uma explicação tola de Outubro na forma da versão comunista, que é uma mentira tão difundida que qualquer tentativa de publicar as teorias da Guarda Branca no espírito de Ataman Krasnov imediatamente provoca uma onda de protestos. Desde a perspectiva da justiça histórica, hoje os Brancos precisam de espaço absolutamente livre. Eles devem até ser auxiliados nisso até que o equilíbrio seja restaurado, especialmente já que a percepção de Outubro como uma tragédia é inteiramente justificada, na medida em que nosso povo pagou por isso com milhões de vidas de seus melhores filhos e filhas.

Em terceiro lugar, devemos procurar explicar o significado histórico genuinamente profundo da Revolução de Outubro, ou golpe de Outubro, para além das interpretações simplistas e incorretas de Vermelhos e Brancos.

Porém, aqui nos deparamos com um importantíssimo problema metodológico. A história é a ciência da interpretação de fatos, e não só os fatos em si mesmos. Fatos sem interpretações não existem. Portanto, é impossível avaliar um evento ideológico como a Revolução (ou golpe) sem nos basearmos em algum tipo de ideologia. Os Vermelhos e Brancos tem suas plataformas ideológicas. Mesmo suas explicações falsas e contraditórias são mais confiáveis que as teorias inúteis daqueles que reivindicam objetividade. Não há objetividade na história, ela é só uma figura retórica de linguagem. Assim, até que determinemos a cosmovisão de plataforma da nossa sociedade contemporânea, e até que nos reconheçamos hoje, o significado dos eventos de outubro de 1917 permanecerá inacessível e fechado para nós.

Em quarto e último lugar, 1917 foi um fenômeno interrusso. Este foi um monstruoso drama para alguns e um grande feito para outros.

Só nós mesmos, russos, podemos decidir o que 1917 foi na verdade e como isso se relaciona com a lógica geral da história russa. Este é nosso problema e nossa revolução. Portanto, apenas nós temos a tarefa de completar esse quebra-cabeça. Mais ninguém.

Outubro tentou muitos grandes pensadores e poetas russos que viram na revolução um evento escatológico e até o advento da Hora Russa. Quase todos eles se arrependeram depois. Mas isso não significa que eles esperavam a Hora Russa em vão. Dito simplesmente, a verdadeira Revolução Russa ainda está no futuro.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Aleksandr Dugin - O Último Presidente: Um Ensaio sobre William Jefferson Clinton

por Aleksandr Dugin



(1999)

O Enigma de William Clinton

Clinton é o último presidente americano desse milênio. De certa maneira, ele é o último acorde de uma cadência, ele é o presidente do "fim da história" fukuyamiano. Sua imagem psicológica, política e ideológica são à sua maneira marcas do pós-moderno. Ele é um dos maiores sucessos que o Ocidente teve em sua estrada rumo à dominação mundial total.

Porém, o significado objetivo dessa figura emblemática é radicalmente diferente de sua imagem geral. Ele não é de forma alguma como um heroi cultural, "o grande vitorioso". Aqui devemos perscrutar o enigma de William Clinton, porque há este enigma. Sua banalidade, indistinção e previsibilidade pseudo-leviana portam realmente um sentido mais profundo.

Clinton se tornou o presidente americano quando o país que havia originalmente apresentado a própria essência da "pós-história" estava apto a revelar sua ditadura civilizada ao resto da humanidade. O planeta Terra atual é, de certa forma, uma colônia americana, e neste contexto William Clinton se tornou o "senhor desse mundo".

Desde a perspectiva ideológica, Clinton tem três elementos separados nele, todos unidos em um grande todo de forma a fazer dele o presidente em um momento tão importante para os EUA e todo o mundo ocidental.

Examinemos estes elementos.

Um Democrata Atípico

William Clinton foi eleito pelo Partido Democrata. No sistema bipartidário dos EUA, os democratas são usualmente considerados como "de esquerda". Eles são diferentes da direita por suas demandas sociais; demandas de elevação de impostos para as camadas mais ricas da população, e de redução de impostos para os mais pobres; apoio às demandas de várias minorias (sexuais, raciais, religiosas); pacifismo; orientação para uma redução do orçamento militar; prioridades de "valores humanos básicos" acima de interesses americanos; simpatia por formas moderadas de social-democracia; a ideologia de "direitos humanos"; apoio a organizações multinacionais (como a ONU); a busca por uma "conspiração direitista" por trás de toda crise; comportamento leve e sorridente; o "globalismo" resultante, ou seja, a busca pela criação de Um Mundo, um mundo sem nações, Estados, povos e fronteiras.

Invertendo essas teses nós chegamos à retórica republicana clássica: demandas por cortes em gastos sociais; prontidão para redução dei mpostos para os mais ricos, para que cada classe seja igual em termos de impostos; prioridade para normas da maioria moral sobre os "pervertidos"; militarismo; demandas por aumento do orçamento militar; prontidão para apoiar interesses americanos acima de todo o resto; antissocialismo e anticomunismo; livre iniciativa; crítica a organizações multinacionais (incluindo a ONU); busca por uma "conspiração esquerdista" por trás de toda crise; comportamento apreensivo e quase-ascético; a ideologia básica da dominação americana sobre todo o planeta ao invés de um ideal de "Um Mundo".

Porém, o democrata Clinton não porta todas as características básicas. Por várias razões, seus camaradas o acusaram várias vezes de ser "direitista demais", ou seja, parecido demais a políticos republicanos. O segredo ideológico de Clinton é que nele podemos enxergar os próprios elementos da "direita" e da "esquerda" que são típicos de nossa época. Clinton representa a figura ideal de um liberal, um liberal e não um democrata ou um liberal-democrata.

O ponto é que o liberalismo é o modelo ideológico exclusivo que se tornou máxima norma do politicamente correto ao fim do século XX, quando todos os outros modelos ideológicos já se desintegraram. Estes foram outrora os modelos que se opuseram à tendÊncia supramencionada, e assim ocorreu a reestruturação da arena política.

O liberalismo enquanto tal é uma ideologia, cujo aspecto econômico se baseia em ideologias "direitistas" ("economia de mercado", "republicanismo"), e cujo aspecto político em "esquerdistas" ("democracia", "libertarianismo"). O denominador comum dessa síntese é uma estratégia internacional, melhor caracterizada pelo termo "atlantismo", que almeja atingir um controle estratégico sobre todo o planeta para o Ocidente, através de membros da OTAN. Porém, não faz diferença como classificamos esse atlantismo, poderia ser como "globalismo" (infiltração de valores universais e individualistas do "american way" sobre todos os povos de modo a criar uma "humanidade unificada" a partir das menores partículas possíveis) ou simplesmente como "americanismo" (forçar outros países a ficarem subjugados aos interesses estratégicos dos EUA); ambas variantes do atlantismo diferem em nuances e métodos apenas, mas servem ao mesmo propósito, domínio ocidental total.

William Clinton é um democrata naquelas esferas que não concernem economia ou política externa. Ele sorri bastante, é doce, tolerante, simpatiza com minorias e com feminismo, expressa uma orientação social (elevar o nível dos serviços médicos), gosta de falar em "direitos humanos". Ao fazê-lo, ele se aproxima bastante do estereótipo clássico de um democrata, tentando até superar Kennedy.

Ao mesmo tempo, Clinton está bem próximo à direita política sempre que há qualquer questão sobre impostos, livre iniciativa e especialmente seguir o "american way" em questões internacionais, onde os EUA da era Clinton pôs em prática estratégias crueis e agressivas do atlantismo "direitista" (Iraque, Bósnia, Afeganistão).

Segundo testemunho de amigos, Clinton está preocupada sobre como ele será visto na sequência de presidentes americanos. Desde a perspectiva ideológica, ele é o presidente "ideal", "o último presidente" no mesmo sentido em que Nietzsche falou sobre "o último homem".

A Conspiração Sexual

Toda a história política de Clinton tem sido acompanhada por escândalos sexuais. A psicanálise da vida sexual de Clinton é um dos temas favoritos de psicólogos e jornalistas americanos. Nós não sabemos menos sobre sua vida íntima, preferências sexuais e perversões do que sabemos sobre os desvios da exibicionista Madonna. Poder-se-ia pensar que um político pragmático que está no topo do poder político do pais mais importante do mundo seria capaz de controlar seu apetite ou, pelo menos, cuidar de ocultar seus segredos. O retrato psicológico de Clinton não nos leva a pensar que estamos lidando com um fraco inútil incapaz de controlar seus apetites.

Deve haver algum outro mecanismo ou razão por trás disso tudo. O psicanalista Paul Lovinger apresentou a seguinte versão: William Clinton e sua esposa Hillary ("Billy e Hilly") representam o análogo contemporâneo da parelha divina, um tipo de remake do "deus" e "deusa" mitológicos antigos. É exatamente assim que a audiência americana infantil criada por desenhos, fantasias hollywoodianas e terror, os vê. Hillary é a Grande Mãe da América. Ela se preocupa com os pobres, e tanto as mulheres ativas quanto os homens passivos confiam nela. Sua função pública corresponde à da antiga deusa grega Hera. 

Já o próprio Bill Clinton é a encarnação do lúdico Zeus, cercado por ninfas e pela equipe da Casa Branca. Suas escapadas tem um sentido psicológico, além do mitológico. Ele é a prova do poder prolífico e da atratividade universal do macho americano. O fato de que Hillary, sendo constantemente chifrada por seu esposo, está sempre pronta para defendê-lo diante dos inimigos, ilustra o fato de que não estamos lidando com emoções humanas espontâneas, mas com um psicodrama cuidadosamente planejado encenado no palco do teatro global. (Para mais informações, Paul Lovinger: "Bill Clinton se encontra com os Psiquiatras", 1998)

Há também outra versão, um tanto paradoxal, do pano-de-fundo secreto por trás dos escândalos sexuais do primeiro casal do planeta. Ela se baseia na ideia de que Clinton, representando ideias "direitistas" ("republicanas"), se diverte constantemente de forma descuidada para ocultar o fato de que sua política carece todos os traços realmente democratas.

Hillary Clinton uma vez veio com uma versão de que todos os escândalos (sejam adultérios reais ou supostos) foram criados pelos "direitistas". Por outro lado, estes mesmos "direitistas" continuam a culpar Clinton por ser um "nazista", já que ele acredita em uma teoria da conspiração, que é bastante próxima a, bem, vocês sabem o que...

Fim de Jogo

William Clinton não é objeto de crítica. Ele apresenta em si mesmo, em suas ações e palavras, a imagem objetiva de como as coisas são. Ele é o espelho da história, um ator adequado e humilde desempenhando seu papel, de modo que não possamos alterar nem uma única entonação de sua fala, sem falar nas próprias palavras. Ele tem sido culpado por não tomar qualquer decisão, mas nenhuma decisão é possível após o fim da história. Algumas pessoas afirmam que ele não mudou uma única coisa na história americana, mas é impossível mudar qualquer coisa nessa vida.

O último presidente, o batista de cabelos brancos, o senhor globalista desse mundo, com poder total sobre o planeta, é incapaz de completar qualquer coisa. 

Seus olhos injetados nos trazem à mente a fisionomia de Volodin, de "O Diabrete" de Sologub, impotentemente e tristemente testemunhando: "Isso foi tudo. Vocês esperavam algo mais? Ah, convenhamos, sejam realistas...isso foi definitivamente tudo".

Fim de jogo.

domingo, 23 de outubro de 2016

Aleksandr Dugin - René Guénon: Tradicionalismo como Linguagem

por Aleksandr Dugin



(1998)

Estruturalismo: Linguagem e Metalinguagem

A partir do fim do século XIX desenvolveu-se a chamada "linguística estrutural". Um de seus fundadores foi Ferdinand de Saussure (1857-1913), que descobriu um número de padrões dessa disciplina. A ciência se provou tão popular e interessante (especialmente como metodologia), quantou uma maneira eficaz e célere de resolver um número de problemas que ela originou uma nova virada na metodologia filosófica e científica do século XX, levando ao chamado "estruturalismo" e então ao "pós-estruturalismo".

Nosso século começou com a surpreendentemente precisa (como o resto de seus aforismos) frase de Nietzsche, que nomeou um de seus primeiros trabalhos: "Nós filólogos". E aqui, ao compreender a medida em que nós (como humanos, seres pensantes) somos "os linguistas", um número de filósofos chamou atenção para o problema da linguagem.

Muito resumidamente nós podemos dizer que a linguagem no estruturalismo, na linguística estrutural, estará em uma categoria separada, nos mostrando um mundo pré-determinado pelo fato de que o mundo está estruturado por significados interrelacionados, ou seja, que a linguagem é compreendida como algo que conjuga a esfera do inteligível, do intelectual, o escopo do pensamento, a esfera do noumenon e a esfera fenomenológica, realidades ônticas imediatas disponíveis para nós na percepção exatamente daquilo com o que estamos lidando. Assim, entre significado (ou, digamos, espírito) e matéria está a linguagem. A linguagem possui, como notado por linguistas estruturais, alguma autonomia "mágica", todas as coisas corpóreas neste mundo a têm em sua dissolução, uma entrada na linguagem: cortando com os elementos da linguagem, as coisas são redimidas, retiradas do mundo da corporeidade através do que é nomeado. Simultaneamente, na direção oposta, através da linguagem o reino do espírito afeta a esfera carnal, a matéria. Vocês podem se lembrar do enredo de Hoffmann (repetido por E. Golovin), onde personagens da narrativa usavam gramática convencional para a evocação de espíritos. Linguistas estruturais usando o conceitual desenvolvido, racional, expressaram essencialmente a mesma ideia mágica: a coisa se dissolve na palavra, a palavra diz uma coisa.

Segundo a hipótese de Whorf-Sapir, "a realidade ao nosso redor é moldável por nossa linguagem". Se algo não possui nome, ele simplesmente não é. A hipótese Whorf-Sapir, em princípio, coincide perfeitamente com a visão de mundo característica na Tradição de que a existência das coisas se dissolve em seus nomes, e que os nomes são capazes de criar, incorporar, materializar uma coisa específica. Mesmo ao nível doméstico, é suficientemente claro em uma certa situação dizer com o tom do "fazer" tal-e-tal, "silêncio", "morra", "mate" ou "não matarás", e o mundo material começa a mudar. Ainda assim, não importa que mecanismos ou como eles agem, é simplesmente óbvio que a palavra possui um imenso valor "teúrgico". A Teurgia era chamada pelos antigos gregos de arte sacerdotal, por meio da qual as pessoas usando encantamentos e rituais poderiam compelir as Divindades a se expressarem de certa maneira.

Conseguintemente, o estudo da fala, da linguagem e seus modelos é um tipo de equivalente moderno da "magia operativa" que lhe permite mudar, transformar a realidade e ao mesmo tempo levar ao mundo concreto do fenômeno ao mundo conceitual, abstrato, à realidade eidética, dissolvendo a existência em algum tipo de conjunto conceitual. Hoje isso confirma uma visão distorcida das artes mágicas da antigidade: que elas serviam apenas para fins práticos e usavam o mundo espiritual para influenciar a situação e coisas materiais. Na verdade, este era apenas o lado operacional, um lado da magia. Havia outro lado, especulativo, da magia, projetado não para mudar coisas materiais existentes mas para compreender, explicar, elevar ao arquétipo, desvelar o "significado sideral" inerente.

Central no tópico dessa apresentação é a separação de Ferdinand de Saussure (e por trás de tudo, da filosofia estruturalista) do agregado da linguagem em duas partes: potencial e atual. Em diferentes línguas essa divisão pode se expressar em terminologia diferente. No francês le language se divide em la langue (parte potencial, "linguagem propriamente dita") e la parole ("palavra") ou le discours ("enunciação") é a parte relevante. Na linguagem russa, você pode falar sobre a divisão entre linguagem (potencial) e fala (atual).

O que isso significa? É difícil traduzir de forma precisa estes termos, porque, de modo geral, a questão não é uma de definições simples e prontas, mas uma de operações espirituais complexas da diferenciação sutil (diacrítica) separando dois componentes do que parece ser uma única realidade. A linguagem é o próprio ashwathama, uma realidade potencial que é removida do estado natural, externalizada, alienada e se tornando uma negação de si mesma no exato instante em que a pessoa fala, realiza um discurso, uma narrativa.

Neste ponto, a linguagem é atualizada. Quando uma pessoa diz algo, ela usa alguma massa linguística "adormecida" que não existe na atualidade, seletivamente retirada da linguagem potencialmente presente, para pronunciar uma fala (simples ou complexa). Na linguagem há dois elementos. O primeiro é efetivamente uma linguagem, um conjunto de padrões léxicos, morfológicos, vocabulares e leis governando a estrutura frasal. Essa linguagem é enfatizada pela estruturalidade, há um certo valor constante, sincrônico. Talvez, a linguística estrutural mais interessante é o reconhecimento da realidade independente de uma existência sincrônica complexa da linguagem no espaço potencial. A linguagem existe em um tipo de condição permanente abstraída da fala concreta. Ela é sempre auto-identificada, soberana, sincronística. A fala específica (enunciação) retira dela fragmentos, traduzindo a Gênese da linguagem de um estado sincrônico a uma sequência diacrônica. A linguagem é dividida em duas partes: o que ela diz, e então, por meio de que ela diz é o que ela diz. Linguagem como uma parte potencial inextricavelmente fundida com a esfera dos sentidos. E assim, quando o estruturalismo descobriu essa circunstância, aconteceu que a linguagem que se expressa através dela não é idêntica à totalidade de todas as falas existentes (e mesmo todas as falas possíveis): ela é sempre mais ampla do que o que ela diz, e pode ser um objeto separado de estudo. O estudo da realidade linguística sincrônica abre possibilidade de uma excelente maneira de ressaltar os mecanismos do comportamento social, aspectos psicanalíticos da personalidade, estrutura, normas e anomalias até de desordens somáticas. Assim surgiu a escola de Lacan, o psicanalista francês que combinou linguística estrutural com psicanálise e criou uma doutrina razoavelmente ampla. Aliás, foi em Freud que eu me deparei pela primeira vez com a ideia de uma combinação entre psicanálise e linguística estrutural, linguística enquanto tal. Lacan aplicou este tema, tal como autores pós-estruturalistas como Deleuze e Guattari, e desenvolveu a metodologia da origem da linguagem a partir da raiz vegetativa da fisicalidade. Foi uma linha de pesquisa bastante interessante e sagaz. Deleuze, em "Lógica do Sentido", por exemplo, mostra como, a partir de perturbações iniciais na realidade corpórea do ser humano, surge uma linguagem metaestrutural e o pensamento lógico. Aqui, apesar do contexto racionalista moderno, aparece novamente a velha ideia do significado operacional da linguagem, que não só revela e vela (o verbo latino revelare significa "abrir" e "fechar" ao mesmo tempo) o status do nível humano vegetativo, corporeamente inconsciente, mas também ao mesmo tempo o efeito reverso afeta a pessoa, modifica sua (e apenas a sua) fisicalidade, a governa. Daí o papel da fala na prática psicanalítica. Fala, conversa, história, discurso em algumas situações é capaz de curar doenças mentais sérias.

Isso levanta uma questão importante: o estudo estrutural da linguagem por linguistas e estruturalistas, na verdade, também ocorre por meio da linguagem. E aqui chegamos ao mais importante: metodologicamente, estudando a linguagem, os linguistas estruturas desenvolveram uma "superlinguagem" ou "metalinguagem" especial.

Metalinguagem é a linguagem por meio da qual estudamos a linguagem. Este é um grau maior de generalização.

O próprio fato de abrir uma linguagem separada da fala já é se aprofundar em um tipo de "revisionismo ontológico" porque a consciência ordinária (digital, binária, o "senso comum" proverbial) não conseguem apreender a linguagem sincrônica. A consciência ordinária compreende a linguagem apenas como fala, como coleção de falas ou como um padrão se manifestando por meio da fala. A consciência ordinária é verbal, mas não consciência linguística, ela é sensível ao discurso, mas surda para a linguagem.

O próximo passo na compreensão da ontologia da linguagem é identificar as questões metalinguísticas através das quais exploramos uma certa linguagem. Ele contém o mais importante, que é o fato de que explorando a linguagem, e os modelos da linguagem, os estruturalistas se apropriaram de alguns deles, a partir de certos paradigmas, prefigurações, modelos predestinados, com os quais estudaram o que está por trás da linguagem. 

Por isso falamos hoje sobre a crise do estruturalismo e do pós-estruturalismo, sobre o esgotamento dessas áreas - por causa do esgotamento (metalinguístico) do paradigma, que se baseou na escola estruturalista em geral, oriundo de uma ou outra fonte positivista-kantiana (Saussure) ou (na versões de vanguarda da "nova esquerda") do paradigma marxista. Em outras palavras, a aprendizagem de línguas em modelos estruturalistas foi realizada com a ajuda de alguns proto-estruturalistas já definhados (profundamente enterrados), mas, na verdade,trata-se, certamente, de um modelo limitado. O estudo da natureza da linguagem foi realizado a partir de posições de outra língua.  

No caso da aprendizagem estruturalista a língua não estava limpa (se era possível purificar o aprendizado da linguagem - essa era a querstão), e, obviamente, os modelos especificados da metalinguagem subjacente eram limitados e predefinidos. Daí o interesse prioritário dos estruturalistas, não na ontologia linguística, mas na evolução do discurso. 

Na verdade, daí a crise moderna da filosofia da "nova esquerda". Eu não estou falando sobre a completa ausência de seus representantes na Rússia. Nós nunca compreendemos adequadamente essa filosofia, e agora não há nada para ser compreendido. Os europeus de hoje, que um dia (há 10 anos atrás) compreendiam perfeitamente, já não entendem Deleuze ou Lacan, haja vista que os marcos metalinguísticos subjacentes mudaram completamente. As implicações marxistas da "nova esquerda" esgotaram o paradigma (o que não significa "compreenderam") e o denominador comum da investigação linguística já não serve mais. O campo da linguística e dos estudos da linguagem chegou a um fim trágico que exige uma superação radical. Se olharmos atentamente para o otimismo nos estudos semióticos e linguísticos dos anos 60-70 (inclusive em nosso país) e compararmos com a maneira com que problemas semelhantes são tratados agora, notaremos um acentuado contraste. Hoje, nessa área, há uma completa passividade, autismo... os pesquisadores perderam a noção do que estavam fazendo, de repente esqueceram o significado e a importância do que foi feito, deixando escapar o conteúdo vital do aparelho categórico.

Mas há um homem, um autor (e associado à sua filosofia o nome do século XX), que se manteve distante dos interesses da linguística estrutural. Esse autor é muito, muito importante para o estruturalismo, apesar de nunca ter contado para os estruturalistas. Agora que essa área em geral perdeu as batidas de seu coração intelectual (e com elas os significados inerentes), o autor (através de seu legado ideológico) pode juntá-los na íntegra e preservar sua roupagem conceitual, como a "couraça irresistível" de um novo tipo de arma, porque esse campo está vazio, e ele, cheio. Estou falando sobre René Guénon.                  

René Guénon

René Guénon é a pessoa mais reta, inteligente e importante do século XX. Um trabalho mais esperto, profundo, claro e absoluto não houve e provavelmente não poderia haver. Não é coincidência que o tradicionalista francês René Alleau em um volume dedicado a Guénon comparou sua obra à de Marx. Aparentemente, figuras bem diferentes, opostas. Guénon é um ultratradicionalista conservador. Marx era um inovador revolucionário, um iconoclasta subversivo radical. Mas René Alleau adivinhou de forma absolutamente correta a mensagem revolucionária da exegese de Guénon, o inconformismo extremo e brutal de sua posição, sua derrubada de tudo, a natureza totalmente radical de seu pensamento. O fato de que René Guénon foi o único autor, o único pensador do século XX, e muitos séculos antes disso, que não só identificou e entrou no paradigma secundário da linguagem, mas também questionou a própria essência da linguagem (e da metalinguagem). A linguagem do marxismo era metodologicamente muito interessante (especialmente em certo momento histórico), reduzindo estreitamente a existência histórica da humanidade por uma fórmula clara e convincente ao confronto entre trabalho e capital (o que, na verdade, foi um progresso epistemológico e revolucionário colossal, na medida em que permitiu que muitas coisas fossem organizadas e postas em um design dinâmico e mais ou menos consistente). Sendo um zeitgeist paradigmático, o marxismo foi tão popular a ponto de conquistar as mentes dos maiores intelectuais do século XX. Mas na obra de Guénon há uma análise ainda mais fundamental, um desmascaramento ainda mais radical, um conflito ideológico ainda mais amplo, pondo tudo em questão.

Guénon desenvolveu um dos sistemas intelectuais paradigmáticos mais importantes. Naturalmente, ele existia antes de forma vaga, e foi usado em alguma medida, mas somente Guénon o identificou enquanto linguagem. Ele fez algo similar a Saussure ou outros linguistas estruturais. O aspecto mais importante do sistema paradigmático de Guénon, que ele havia deduzido, e que é, talvez, o mais universal e poderoso dos termos e conceitos de nossa época, é o conceito de "linguagem da modernidade".

O Conceito de "Moderno", "Modernidade" enquanto Conceito

O academicismo histórico tem corretamente oposto a sociedade nova (moderna) à sociedade tradicional. O significado da palavra moderno, modernidade, na boca de Guénon possui tamanho valor que ele descreve toda a metalinguagem do mundo em que vivemos. Na verdade, no conceito de "modernidade" Guénon situa a ideia de paradigmas, pré-esvaziando uma metalinguagem, uma linguagem, e então, o campo de discursos da modernidade. Você pode imaginar qual é o grau de generalização?

Estruturalistas tem indicado que além do discurso de falas verbais diacrônicas, independentemente do quão desenvolvidas sejam as cadeias lógicas verbais, uma realidade sincrônica é sempre existente acima e antes da linguagem verbal, que eles estudaram usando uma metalinguagem baseada em uma metodologia filosófico-linguística especial.

Guénon, por outro lado, e este modelo estruturalista, e muitos outros paradigmas epistemológicos que determinam as várias linguagens mais específicas (no sentido estruturalista), complexos paradigmáticos mais específicos e estruturas sócio-culturais, inclui o termo, concluindo em fronteiras claramente definidas, apreendendo a coisa toda, detectando e revelando a essência da modernidade como um imenso campo, abarcando tudo com que estamos lidando e com que estamos acostumados a operar, sem saber que isso é apenas uma coisa, e que para além disso há todo um conjunto de outras oportunidades e outras linguagens. Toda metodologia, todas as linguagens da modernidade, todo seu paradigma foi incorporado por Guénon em um único conceito, relegando a "Sua Majestade" da linguagem (a metalinguagem) ao nível moderno de uma das linguagens possíveis entre outras. Nós podemos dizer que ele destruiu a reivindicação da modernidade de ser a linguagem universal, um conjunto de falas, construídas sobre certas regras estritamente específicas e uma certa lógica, demonstrando que há outros modelos plenos que são muito mais universais. Ele derrubou abruptamente o grau ontológico, o nível ontológico que determina toda nossa civilização e todas as realidades de nosso mundo. E este é um ponto importante. Em relação a Guénon, vendo-o como um autor que se comprometeu com uma revolução estruturalista análoga, podemos descobrir todo um novo sentido de sua obra e compreender a importante orientação de sua missão.

Então, o que é "modernidade"? Modernidade em Guénon é um paradigma de fundo, o sistema operacional, um tipo de linguagem de computação. A analogia com linguagens de programação é muito produtiva. Com o desenvolvimento da tecnologia da computação, os códigos de programação básica, a linguagem do computador vai mais e mais fundo no campo de fundo. Gradativamente, há linguagens que operam com a linguagem original da máquina. Então há usuários completamente ignorantes em relação à linguagem original e a secundária, desenvolvida por cima dela, e agora quase ninguém se recorda da tecnologia de computação primitiva. Inicialmente, todo usuário de computador tinha que ser em alguma medida, mesmo que pequena, um programador. Gradativamente essa necessidade desapareceu, e correspondentemente, isso mudou a compreensão de como um computador funciona. Posteriormente apareceram mais e mais novos sistemas operacionais, e eventualmente, mesmo dentro da teoria geral do processo de programação, a existência de uma linguagem do computador se dissipou. Mas a linguagem original da máquina não desapareceu. Ela simplesmente passou a atuar fora de nossa atenção, no fundo, onde ela não mais atua de forma direta. Nós não a vemos mais, essa linguagem não é aparente como antes, nos primeiros computadores. Agora não conseguimos nem imaginar o que essa linguagem é; ela existe em uma camada diferente de equipamento. No fim das contas, há pessoas que sabem como usar um computador, que o dominam, mas, ainda assim, não sabem o que se encontra em sua base tecnológica. Assim como há motoristas que não fazem ideia do que há dentro de um motor, e, mesmo assim, podem passar toda sua vida dirigindo.

A definição de "modernidade" nos ensinamentos de Guénon é uma seleção de alguns patomecanismos paradigmáticos que definem como o mundo funciona. Nós, como seres humanos ordinários, submersos em um processo de devir, tendemos a perceber o que nos cerca, o que nós somos e o que está ao nosso redor é tomado como dado, como um tipo de "tudo". É a partir desse "só" que desenvolvemos nossa cognição; tendo uma ideia do que aconteceu no passado, o que o futuro reservará, nós a comparamos com nosso "tudo". Este nosso "tudo" momentâneo é para nós tudo sem aspas. E fora dele só pode haver analogia, a analogia do passado (memórias), a analogia do futuro (antecipação, evangelho, planejamento). Guénon afirma que, na verdade, todo o sistema do sistema operacional de hoje, nosso "tudo" proverbial", não é nada além de uma ilusão artificial imposta, maliciosa, anormal, vil, distorcida e desarmônica, um artefato, um simulacro, um maquinário e não um "tudo". Tal simulacro do sistema operacional na doutrina de Guénon é chamado o "moderno", "o mundo moderno". A modernidade, em sua opinião, é um aborto. É apenas um entre modelos possíveis, mais precisamente o modelo anormal dentro de um conjunto infinitamente grande de outras possibilidades. Apenas uma linguagem, não uma realidade universal.

Guénon opõe a noção de "modernidade" à noção de "tradição". Assim, isso levanta a questão interessante que, do ponto de vista do estruturalismo filosófico, é central para a obra. Guénon afirma que há dois tipos de linguagem: a linguagem da modernidade (incluindo todas as possibilidades inerentes ao conceito de "modernidade" que predeterminam todas as linguagens e até as metalinguagens no esquema da modernidade) e a linguagem da Tradição. E aqui surge o primeiro conflito, a primeira linha de separação: por um lado a modernidade, do outro lado a Tradição. Por um lado a linguagem da modernidade, do outro lado a linguagem da tradição. Outros pesquisadores também usam os termos "sociedade moderna", "sociedade tradicional", "tempos modernos", "algo que precede um novo tempo", mas usualmente todos nós, com exceção dos seguidores de Guénon, partilhamos por trás das cenas os padrões do paradigma moderno, mesmo que eles estejam latentes, e toda a terminologia da sociedade tradicional é considerada como algo do passado, correspondentemente inferior, e o moderno, como algo presente, próximo ao presente e, portanto, superior. Ademais de nossa vontade, nós operamos no ambiente operacional do estilo "moderno", independentemente de se compreendemos os mecanismos de seu funcionamento (como programadores), ou os tratamos (como usuários) simplesmente de forma inercial.

Isso é verdade para todas as pessoas do mundo moderno, sem exceções, na medida em que a linguagem do mundo moderno, o modelo paradigmático mais profundo e elevado, determina nossa atitude frente ao tempo, à história, à terminologia. Assim: como que as pessoas não criticam a modernidade, nenhuma delas, mesmo Marx (apesar de Marx, devemos dizer, ter sido um autêntico revolucionário que questionou camadas inteiras da realidade, dizendo que ela não é realidade, que o jogo do capital não é existência autêntica) cedo ou tarde para. Guénon vai muito mais longe do que outros. Guénon já está em uma realidade completamente diferente. Ele contrasta a linguagem da Tradição com a linguagem do mundo moderno. Ele está além de todos os outros aprisionados na modernidade, livre de todas as outras ilusões do mundo moderno. Ele está a tamanha distância conceitual da linguagem da modernidade que entre muitos de seus seguidores levanta-se a questão: quem é, realmente, Guénon? Alguns de seus discípulos se fascinam e espantam com isso: ele não pode ser humano, porque o homem é, por definição, um produto de seu meio (ou seja, de sua linguagem operacional básica). Guénon é algo oposto do "produto do meio", incluindo o espaço. Essa inferência levou a possivelmente uma das hipóteses mais radicais sobre uma natureza sua de avatar (pesquisadores começaram a pesquisar a localização da casa em que ele nasceu e da igreja em que ele foi batizado na infância, com que mão ele foi educado para escrever, a rua em que ele viveu, tentaram transformar sua casa em um templo de granito...). Tão fortes foram as suspeitas intuitivas de seus seguidores sobre sua distância da linguagem moderna, como expressa na descrição teórica da linguagem como algo separado, exterior, que não afeta os níveis paradigmáticos básicos da percepção da existência.

De qualquer maneira, René Guénon não se encaixava em nosso tempo. Ele era, disse Michelle Balsan, "o maior milagre intelectual desde a Idade Média".

Um milagre é um milagre, mas não obstante isso não termina aqui. René Guénon não foi, em absoluto, um autor contemporâneo, ademais, ele é possivelmente o mais removido do presente, mas ainda há algo de errado, porque mesmo no mundo de Tradições orgânicas e autênticas personagens tão impressionantes como Guénon eram poucos. Guénon não é apenas um mensageiro de Tradições em um ambiente baseado na negação da Tradição. As coisas são, possivelmente, mais complicadas.

Tradicionalismo e Tradição

O próprio Guénon disse que somente a Tradição é realmente importante. Acima de tudo, a linguagem da Tradição como um sistema de percepção confronta o mundo moderno, a linguagem do mundo moderno, e possui raiz na verdade, na verdade absoluta. A linguagem da Tradição para Guénon é a última e mais alta corte de justiça, a qual, como plenitude das possibilidades paradigmáticas ontoepistemológicas, possui o direito de dar seu próprio julgamento em relação a quaisquer fragmentos normais ou anormais da realidade, inclusive em relação ao paradigma (ou linguagens) da modernidade. Portanto, no livro "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos", Guénon sugere que a Tradição é mais importante que o tradicionalismo. Tradição como ato de pertencer a uma tradição muito mais séria e profunda situa a pessoa em um sistema operacional real, ao invés de um tradicionamento puramente teórico, que é somente um tipo de intenção, um desejo de pertencer à Tradição. Isso levanta um ponto interessantíssimo: se entendemos por "tradicionalismo" o reconhecimento, a aceitação e o desenvolvimento dos modelos paradigmáticos propostos por Guénon, a situação não é tão clara. A relação entre Tradição e tradicionalismo não é tão óbvia quanto Guénon quis indicar, porque caso ela não seja compreendida pelos tradicionalismo de outros tradicionalistas, nomeadamente tradicionalistas seguindo Guénon, os "guenonistas", então o cenário fica mais interessante.

Guénon não só apontou para o fato de que há uma realidade particular, a linguagem da Tradição, em um nível esquemático e a descreveu. Ele revelou o esqueleto estrutural que precede a formulação de uma encarnação histórica específica. Portanto, dominar o modelo guenoniano desvelado é algo que vai além de ser adepto dessa ou daquela tradição, compreendê-la, manifestá-la, desenvolver sua lógica. Guénon deu o passo que pode ser impossível dentro de uma tradição, porque é só dentro do mundo moderno (cuja linguagem é apenas a negação niilista completa da linguagem da Tradição em seu núcleo paradigmático) que é possível compreender a linguagem da Tradição como algo unificado em sua forma pura de uma cristalização ideal. Portanto, Guénon não falava em nome de uma tradição particular, e não fala por meio de sua linguagem (como ele teria que fazer se fosse apenas o emissário de uma tradição particular), Guénon criou uma metalinguagem especial, e ela é tão universal e compreensiva que é capaz de explorar adequadamente a estrutura de qualquer linguagem (no sentido mais geral do termo). Diferentemente da metalinguagem técnica dos linguistas, a metalinguagem de Guénon é realmente universal e sua operação, como um todo, é livre da interferência de um ambienta operacional acrítico. Guénon eliminou de forma firme e onsciente a camada enraizada da influência do paradigma da "modernidade". Ele o fez em uma situação na qual o paradigma da modernidade era tão total que o paradigma alternativo do Tradicionaismo só poderia ser adotado de fora para dentro. O destino pessoal de Guénon era passar das afirmações teóricas do tradicionalismo para o ser-na-Tradição. Mas mais importante, esse processo foi acompanhado por uma dura reflexão, cujo valor paradigmático excede o modesto esquema do destino humano.

A singularidade de Guénon é que sua doutrina tradicionalista representa algo radicalmente novo, previamente desconhecido. Graças a Guénon, graças à absorção da mensagem histórica de Guénon, nós podemos agora não só compreender qualquer tradição histórica particular ou mais tradições (como discursos específicos), mas também adquirir uma ideia sobre a estrutura e natureza da própria Tradição. É particularmente importante que metodologicamente isso acontece sobre um pano-de-fundo de contraste, comparando a Tradição com a linguagem do mundo moderno. Portanto, o Tradicionalismo (para Guénon e para nós, seus estudantes) é uma oportunidade histórica única que existe somente dentro da linguagem da modernidade como antítese dessa linguagem. Somente em nossas condições únicas (apocalípticas, segundo todos os indícios) há a possibilidade para a generalização e universalização dos paradigmas Tradicionais que eram previamente impossíveis sob um sem número de circunstâncias. Afinal, estando na Tradição nós não conseguimos vê-la a partir de fora; nós existimos como parte dela. Ao mesmo tempo, estando no tradicionalismo, nós, por força das circunstâncias, somos postos fora da Tradição, mas somos capazes de purificar e cristalizar a ideia de sua essência, se esqueleto. Na prática, metodologicamente, isso é feito por meio da negação do mundo moderno, através da negação da linguagem da modernidade. Tal negação não é uma abstração, ela é um ato direto e específico.

Nenhum dos "povos da Tradição" poderia fazê-lo pelas razões já indicadas, nenhum poderia criar uma descrição elaborada da linguagem da Tradição, desenvolvê-la como uma metalinguagem universal. Guénon o fez. Ele contrastou a linguagem da Tradição com a linguagem do mundo moderno. Essa, em primeiro lugar, é a importância colossal de Guénon. Qualquer um que siga Guénon vai na mesma direção, rumo à negação total do mundo moderno. A maneira que essa prática se dá é pelo sacrifício da linguagem do mundo moderno.

Também é importante que além de um dualismo radical, a linguagem da Tradição contra a linguagem do mundo moderno, há também um dualismo mitigado. Há autores (que dificilmente poderiam ser chamados "tradicionalistas" no sentido guenoniano, mas que, mesmo assim, estiveram sob sua influência direta, ou sob a influência de ideias similares), que assumiram uma tarefa diferente: identificar os elementos da linguagem da Tradição na linguagem do mundo moderno. Eles o fazem de forma diferente, taticamente, não por um confronto direto, mas por um "entrismo", "infiltração", uma tentativa evolucionista de modificar o paradigma da modernidade rumo ao paradigma da Tradição.

Entre estes estão Mircea Eliade, Carl Gustav Jung, etc. Essa é uma forma suave de tradicionalismo. "Guenonistas" ortodoxos (por exemplo, J. Evola, Valsan ou Titus Burckhardt) praticaram uma oposição total, considerando o mundo moderno como um fenômeno completamente negativo, e sua linguagem como as mentiras da abominação. A segunda categoria de pensadores, em contraste, afirmavam que a linguagem de nosso tempo retinha remanescentes dos principais padrões paradigmáticos do complexo tradicional. Eles insistiam que o paradigma da modernidade havia afetado o ser humano só superficialmente, que a influência da linguagem da modernidade afligia só o processo racional, que nas profundezas dos seres humanos, como antes, o paradigma da Tradição continuava a operar (Jung chamava essa realidade de "inconsciente coletivo").

Entre Guénon (e "guenonistas"), por um lado, e Eliade, Jung, etc., pelo outro, há uma razão similar a que há entre marxismo radical e social-democracia europeia. O Tradicionalismo de Guénon insiste na natureza irreversivelmente patológica do mundo moderno e sua linguagem, e que a situação só pode ser corrigida por uma ruptura radical com a modernidade, um tipo de "revolta contra o mundo moderno", uma "revolução conservadora".

Eliade e Jung acreditavam que o mundo moderno não é tão "moderno" em seu coração, e portanto, com algum esforço (mas sem confronto revolucionário) é fácil retornar ao caminho usual de "eterno retorno". Este é um tipo de "social-democracia" em relação ao socialismo.

Julius Evola, o seguidor mais radical de Guénon, considerava Eliade e Jung como apóstatas que "se venderam para o regime de ocupação global do Kali Yuga". Outros tradicionalistas discordam e alcançam um tradicionalismo similar, mais suave, introduzindo no mundo moderno temas tradicionalistas subversivos, um tipo de vírus conceitual, assim solapando o sistema operacional anormal, e trazendo restauração. Porém, sem as análises e ações de Guénon, Eliade (e autores similares) dificilmente estaria qualificado; não haveria termos e categorias adequadas, que poderiam determinar de forma precisa o que, na verdade, Mircea Eliade fazia em suas obras. Reconhecendo a corretude dos paradigmas da linguagem da Tradição, ele tentou encontrá-las no mundo moderno, identificá-las como complexos separados e, assim, reinterpretar o mundo moderno com o fim de, finalmente, realizar a "tomada do poder intelectual". Seu projeto, porém, não deu certo. Em geral, este caminho, o caminho do compromisso, resulta em um efeito positivo definido, porém, porque graças a Eliade uma grande massa de pessoas (e graças a Jung, ainda mais) foi capturada pelo estudo da linguagem da Tradição, enquanto Guénon foi deliberadamente deixado pelo autor para uma pequena elite intelectual, para um número bastante limitado de pessoas radicais e heroicas. O que é melhor: o crescimento quantitativo da fascinação com a história das religiões no "tradicionalismo suave", às vezes sem dar a qualidade desejada, ou a clareza do círculo de "guenonistas estritos", às vezes se degenerando em críticos inertes e estéreis, "movidos pelo ressentimento"? A questão é aberta, como no caso de descobrir quem tinha razão, comunistas ou social-democratas?

Tempo Qualitativo, Sincronismo, Ontologia da Eternidade

Passando a coisas mais específicas. Há dois elementos essenciais que nos permitirão compreender o que é a linguagem da Tradição e o que é a linguagem da modernidade. Na linguagem da Tradição, que Guénon revelou, há um conjunto de postulados, princípios fundamentais, que se relacionam com a qualidade necessária para nosso pensamento global em categorias paradigmáticas de tempo e espaço. Quando falamos sobre a compreensão do espaço e do tempo na linguagem, a Tradição e a linguagem de nosso tempo, nos encontramos no espaço dessas duas linguagens e começamos a reconhecer as coordenadas. Conforme marcamos a coordenada desse eixo, duas incertezas ambíguas se tornam mais distintas, mais concretas, mais visivelmente delineadas.

A modernidade (ou a linguagem moderna) vê a realidade unidirecional como o modo fundamental de existência. Este axioma, este postulado não é questionado na linguagem moderna. O tempo flui apenas em uma direção, e tudo que existe, existe dentro do tempo. Tudo que se encontra fora do tempo, se é que se consegue pensar nisso, é algum tipo de abstração, uma construção artificial, sem uma gênese própria. É um construto imaginário tendo, talvez, algo a ser considerado, mas é, realmente, algo ontologicamente negativo. Consequentemente, o devir é a única forma de existência, e o que existe está no tempo unidirecional. Na verdade, não há eternidade nessa linguagem. Se falamos sobre, ela é pura abstração neontológica. O devir deixado por conta própria, como algo autossuficiente, a única forma real de existência, recebe uma carga paradigmática fundamental. O processo do tempo se torna um processo ontologicamente positivo, obviamente positivo, já que a partir dele e através dele, se existe. O ser é idêntico ao tempo, já que fora do tempo nada existe. Essa atitude positiva frente ao tempo, a representação do tempo como um processo unidirecional, e a negação da existência de uma eternidade autocontida, é a coordenada principal da linguagem da modernidade. Essa linguagem é estruturada ao redor de um eixo ontológico. Pessoas comuns de nosso tempo, seja um filósofo, cientista, médico, banqueiro, zelador, linguista, matemático, físico ou motorista, claramente não entendem isso. A grande maioria das pessoas, seja da comunidade científica ou não, está absolutamente adormecida para quão profundamente o conceito de ser como tempo (Sein als Zeit) determina a compreensão atual da realidade. Ser, na linguagem da modernidade, é idêntico ao tempo, para ser mais preciso ao tempo unidirecional, o qual neste processo é positivo, já que ele porta em si mesmo a existência. Quase ninguém jamais pensa sobre isso, inconsciente de que todas as suas discussões, ações, decisões, planos e opiniões sobre a natureza das coisas deriva exatamente dessa premissa, que é um dos vetores mais importantes da linguagem da modernidade, mas que pode haver e de fato há um modelo de linguagem paradigmática (no sentido estruturalista) organizada de maneira bem diferente.

Se submetermos qualquer afirmação filosófica, qualquer hipótese física, qualquer ideia de processo químico, social e cultural expressada no esquema da modernidade a uma análise crítica cuidadosa, nós encontramos em toda parte um tempo unidirecional como um dos eixos fundamentais da linguagem da modernidade. O tempo unidirecional e a coincidência entre tempo e ser, a noção de que o mundo existe somente neste devir, que possui um caráter ontológico (e axiológico) positivo, é a lei mais importante do paradigma da modernidade.

Este tempo quantitativo (ou moderno) é pensado como infinito, não tendo progressão objetiva. Se navegarmos para manifestações mais específicas da linguagem da modernidade, ao nível de discursos específicos, é possível identificar duas variedades de ontologização do tempo. A mais ortodoxa, do ponto de vista da linguagem moderna, que reflete de forma mais precisa essa noção inerente do tempo é a abordagem positivista, generalizada pela cosmovisão da filosofia liberal (F. von Hayek, B. Russell, K. Popper, I. Lakatos, etc.). Aqui o tempo não possui teleologia, ele flui unidirecionalmente sem objetivos ou funções. Este tempo puramente quantitativo dos positivistas e liberais é o mais próximo do entendimento paradigmático básico dessa posição dentro da linguagem da modernidade. A abordagem positivista (e a pós-positivista), típica da ciência clássica, emprega e revela explicitamente a regra mais importante da linguagem moderna, a identidade entre Ser e Tempo. Este é um tipo de discurso exemplar, uma tautologia linguística, A = A, que nos informa sobre a estrutura da linguagem na qual ela é enunciada. Essa direção na filosofia moderna isola os parâmetros da metalinguagem da modernidade, distinguindo seu paradigma cristalino dos detalhes pouco importantes. Um exemplo notável aqui é Karl Popper.

Se tormarmos o marxismo, que, naturalmente, também é parte da linguagem de nosso tempo, ele representa o polo oposto aqui. O processo histórico (mesmo que seja o da "matéria") é reconhecido como uma certa tarefa teleológica. A história flui rumo à inteligência universal e ao comunismo como um propósito ontológico e escatológico.

Desde a perspectiva do paradigma da modernidade, o marxismo é um tipo de "heresia filosófica", ainda que ele permaneça dentro da linguagem da modernidade. Ele seria uma tentativa de "exílio interno" sem ir além. É possível expressar a ideia diferentemente: o marxismo é a afirmação mais contraditória desde a perspectiva das regras normativas paradigmáticas da linguística moderna. Este discurso vanguardista desafia os elementos daquela linguagem, na qual, pela qual e através da qual ele é feito. Ele é um discurso que tenta o reconhecimento da validade das regras linguísticas, a ameaça de demolição de toda a linguagem do presente, e a proposta de usar para se alcançar o modelo crítico a estrutura mais alienígena possível. O marxismo também se aproxima da transição para o nível da metalinguagem, na medida em que busca interpretar a modernidade universal. Mas se a filosofia liberal diz este "Sim" universal e total contemporâneo (e, portanto, a metalinguagem dos liberais é congruente com a estrutura do moderno), o marxismo tenta formular um universal e total "Não", mas sem ir além do que é aprovado pela modernidade (assim a metalinguagem oferecida pelo marxismo é uma crítica radical). Este esclarecimento é necessário para uma nova maneira de compreender a convergência entre Guénon e Marx em René Alleau. Mas essa semelhança só chega até certo ponto. Marx está na fronteira da linguagem da modernidade, Guénon, do outro lado da fronteira. Guénon é a linguagem transcendental.

O Tradicionalismo, afirma Guénon, como coordenada básica de tradições linguísticas, desenvolve uma imagem bastante diferente, uma diferente noção do tempo. Guénon afirma que a forma existencial da vida, par excellence, é a eternidade; Ser, que é ser eterno, imutável, que não vem de lugar algum, que é intacto e permanece intacto e não-afetado por qualquer processo, sempre, através de todas as formas de tempo, permanecendo autossuficiente, completo, realidade absoluta, uma realidade que é simultaneamente possível (em si e por si), necessária e absoluta. Assim, na linguagem da Tradição está pré-determinada uma noção radicalmente diferente de tempo. Junto à forma relativa de existência, que é Ser no tempo ou Ser em devir, há a existência eterna, um Ser autossuficiente, não sendo afetado por nada, onde nos deparamos com um paradigma bem diferente.

Este é o primeiro passo: a confirmação da existência da eternidade, da existência eterna, e isso segue logicamente da ideia de tempo como processo de de descida existencial, ontológica. O tempo, portanto, não é unidirecional, porque ele é ontologicamente dependente de uma ontologia fixa da eternidade e revolve ao seu redor, erguendo-se desde uma instância supratemporal, primordial e imutável e sendo absorvido por ela. Desde essa perspectiva como dependente de uma partícula infinitesimal, como um tipo de eternidade-alteridade, o tempo é ontologicamente relativo. Mas, tomado por si mesmo, isolado da eternidade, ele não tem peso nenhum e não significa nada, ele simplesmente não é, é o aspecto sombra do tempo nas linguagens Tradicionais. Em geral, é aqui o processo de determinar a redução, o distanciamento gradual em relação a eternidade, a distribuição diacrônica do conteúdo qualitativo em direção à descida existencial da eternidade. Portanto, o tempo não é apenas um certo vetor, uma certa teleologia, mas essa teleologia é negativa: é um movimento do mais para menos. Da completude à pobreza. Compreender o processo do tempo como degradação como uma categoria secundária (e razoavelmente negativa) da manifestação do Ser eterno (já que estamos falando do ir da qualidade superior para a qualidade inferior), nos dá um mundo totalmente diferente, uma visão diferente sobre a natureza da realidade, um enquadramento distinto, uma outra ciência, outra cultura, outra arte, tudo diferente.

Mas há um outro ponto muito importante para as tradições linguísticas: na medida em que a eternidade é um absoluto, constante e pleno, e o tempo é relativo, e decrescente, ele não pode decrescer para sempre, ou mesmo indefinidamente. Segundo a linguagem tradicionalista, o tempo decai até um certo ponto crítico, e quando um setor da realidade, capturado pelo tempo, atinge um certo limite, o ser eterno se encontra novamente e há um novo ciclo. Assim, o tempo na imagem tradicionalista é, simultaneamente, teleológico (orientado para um certo limite qualitativo específico) e cíclico. Ele se move da plenitude da revelação do ser à negação dessa revelação e, finalmente, quando ele chega a seu limite crítico máximo, suap arte positiva se torna infinitamente pequena, o lado conteudístico do tempo, seu corte ontológico, "fagulha do ser" no enquadramento do devir se exaure, e há então a situação especial do fim dos tempos, o Apocalipse. Virada a ampulheta do mundo, o Ser novamente se encontra em seu esplendor, em sua eterna plenitude, e há um novo AEON, um novo ciclo.

Assim, se temos um entendimento do tempo, tem-se a mais importante ilustração de um de dois eixos de coordenadas, centrais para a linguagem da Tradição. Guénon os descreve no livro "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos". Compreender o tempo na metalinguagem da modernidade é radicalmente diferente. Não é difícil entender agora que as duas linguagens descrevem e determinam duas realidades muito diferentes, dois mundos, com uma estrutura ontológica radicalmente distinta. E aqui não estamos falando de ênfases ou avaliações axiológicas (orientação, questões éticas, preferências, moralidade, etc.), mas a própria ideia do que é e do que não é. Na linguagem da Tradição o tempo em sua forma pura não é, e há uma eternidade. Na linguagem dos tempos modernos, a única coisa que há e tudo que há está no tempo, e o contrário não. Não é difícil imaginar a medida em que tais diferenças linguísticas paradigmáticas fundamentais afetam todas as outras formas de existência daqueles seres que atuam conforme as regras de dois "sistemas operacionais" tão diferentes um do outro.

O que é importante entender em primeiro lugar? O que não estamos falando aqui é de uma ou outra escola de pensamento. Não estamos falando sobre as opiniões de grupos, mesmo de instituições religiosas (digamos, ateístas pensam assim, idealistas de outra forma, cristãos e budistas de outro jeito). É uma coisa mais séria, profunda e geral. A linguagem de nosso tempo no sentido mais total interpreta de sua própria maneira paradigmática, de seu próprio sistema interpretativo, a estrutura conceitual e lógica de uma variedade de doutrinas como discursos separados, decodificados e avaliados segundo um modelo especial. Essa linguagem comum da modernidade pode usar outras linguagens, entendidas de forma mais estreita (incluindo religiosas, científicas, culturais, seculares, etc.), colocando em suas bases, de forma invisível, subjacente, elementos implícitos. Essa situação é o que o freudianismo chama de "complexos". O complexo em si nunca mente, ele tenta se esquivar de uma análise direta e demanda uma prática psicanalítica complexa para que uma pessoa se lembre de que na infância ele ficou apavorado, por exemplo, por conta de um rato ou um gato, e que esta era a causa da maioria dos problemas em sua vida. Se isso é relembrado, então a pessoa se recupera, ou assim pensam os freudianos. Há, porém, uma situação mais grave: não se lembrar de tudo e morrer sem tratamento, por causa do complexo.

Assim, é difícil chegar ao fundo e aos elementos básicos da linguagem. No estruturalismo e no tradicionalismo (escola guenoniana) se fala em um tipo de psicanálise, que afeta não só o indivíduo mas toda a ciência, religião, áreas inteiras da consciência. Por um método especial se abrem pulsões profundas que determinam toda a estrutura dos modelos subsequentes de camadas. Os fios de uma linguagem dificilmente perceptível são captados em algum lugar no fundo e sobem, se desdobram, mostrando o que jaz na base das construções discursivas subsequentes, negando sua artificialidade. Há um termo jornalístico americano, "sabedoria convencional". Qualquer afirmação banal é produto da sabedoria convencional. Parece que essa "sabedoria" vem de si mesma e corresponde exatamente à voz direta e espontânea da existência humana. Na verdade, isso é absolutamente falso. "Sabedoria convencional" é algo falso, artificial, mecânico, criado e moldado por engenheiros sociais segundo tarefas específicas de manipulação da linguagem padrão da modernidade.

Uma comparação e contraste entre a linguagem de nosso tempo e a linguagem das tradições, um estudo de suas leis internas, culmina na destruição total da notória sabedoria convencional. Este ataque é contra o mais profundo dos paradigmas que fogem à nossa atenção mesmo no estudo mais sério e cuidadoso de filosofia, quando se submerge na essência das coisas. Ele revela o horizonte ontológico, reservas e paisagens que possuem uma natureza fundamentalmente diferente, um delineamento diferente, uma configuração diferente do que aquelas que engajadas, submersas, acriticamente envolvidas no processo plano e ambíguo do devir.

Espaço Qualitativo

Agora é necessário dizer algumas palavras sobre a qualidade do espaço. Este é o segundo eixo linguístico das Tradições, por um lado, e da linguagem da modernidade, pelo outro. Na linguagem de nosso tempo o espaço é visto como algo que é livre de qualidades e homogêneo, como algo quantitativo. Há um mundo espacial especial na linguagem da modernidade. Essa linguagem espacial mundial organiza nossa perecepção de espaço, distância, com a qual lidamos.

No mundo espacial da linguagem moderna todos os itens consistem em componentes intercambiáveis, daí a ideia da natureza quântica do espaço, que não é nada além do limite de distribuição corpórea de alguma distância supostamente infinitesimal (matéria pura). Aliás, um dos primeiros catequistas da linguagem do mundo moderno, René Descartes, disse que há apenas duas coisas: "pensamento racional" e "discurso racional", "distância" e espaço. Aqui trata-se de uma extensão puramente quantitativa, homogênea, essa medida é o que se entende por espaço no mundo moderno. Este espaço é isotrópico, nele direita e esquerda, baixo e alto, oeste e leste não são fundamentalmente diferentes. Daí, como limite, flui a ideia de Um Mundo, um único mundo, "mundialismo", a ideia de unificação de todos os países, nações e povos em uma única comunidade.

Por que isso é possível? Isso não só é possível, mas necessário, da perspectiva da lógica da linguagem moderna, já que, em princípio, na homogeneidade essencial do espaço a diversidade só gera algumas imprecisões, uma distorção (ou campo gravitacional de Liouville, na física moderna) que é responsável pelo fato de que o espaço não é estritamente o mesmo em todo lugar. Desde a perspectiva paradigmática da linguagem moderna, este fato porta uma certa carga negativa sutil, sendo um componente perturbador que gradualmente, no processo de totalização modernista do paradigma de "civilização", deve ser superado.

Como no caso com o tempo, nós nunca pensamos sobre o espaço quantitativo especificamente, mas toda a linguagem de nossa era, todas as disciplinas e metodologias acadêmicas, atos culturais e quotidianos, tem como pano-de-fundo, profundamente enraizado e oculto de reflexões críticas diretas a ideia de um espaço quantitativo homogêneo. Este é um tipo de "espaço complexo", organizado com base nos sistemas galileu-cartesianos. Este é um espaço local.

Na linguagem da Tradição há uma perspectiva totalmente diferente sobre o espaço, o de um espaço qualitativo.

Ela desenvolve o conceito de um ciclo, de uma natureza cíclica da realidade. O ciclo emerge do fato de que há uma eternidade, e a heterogeneidade espacial emerge do fato de que há um ciclo. Há uma image, a chamada "cruz celta".  É um círculo com uma cruz, que é o mais arcaico calendário indo-europeu, o mais antigo modelo cíclico. Este símbolo combina espaço e tempo, tal como o faz sua Tradição. É como um tempo transformado em espaço ou um o espaço um tempo dinamicamente vivo. O ciclo inteiro é coverto desde a perspectiva da eternidade, onde vemos início e fim como não sendo uma série, ambos dentro do devir, simultaneamente. Nós vemos sincronicamente o início, o fim e o meio. Portanto, nos voltando para a apresentação das movimentações do sol, as estações anuais, nós podemos visualizar um declínio (lado esquerdo) e do outro lado (o direito), uma ascensão. Posto na matriz do ciclo, o espaço adquire um valor qualitativo, algum valor simbólico. A partir de agora, qualquer objeto, qualquer forma, qualquer configuração de objetos pequenos ou grandes com os quais lidamos, fronteiras, continentes, adquirem valor qualitativo adicional, que não é considerado como algo acidental, mas como a voz qualitativa do próprio espaço. E aqui não é importante se um simbolismo espacial (o yantra, no hinduísmo) é o produto de mãos humanas, ou se ele é obra da natureza. Você pode ver o bosque que cresce por conta própria, e ver inerente nele uma estrutura simbólica, e pode contemplar um ícone ou uma mandala tibetana, onde uma harmonia simbólica similar aparece artificialmente. Desde a perspectiva tradicional, a linguagem tradicional não diferencia entre um símbolo artificial e um natural. Sol pintado ou sol real simbolizam o mesmo princípio primeiro, Ser, eternidade. Por causa disso, (e há a possibilidade de algumas transformações mágicas) há metamorfose nas tradições. A Tradição, acentuando a carga simbólica, dissolve a existência de um corpo homogêneo, e a ideia, a parte espiritual, isenta as coisas e criaturas de sua casca escura quantitativa. O espaço é transformado, iluminado, espiritualizado, se torna vivo. Este amplo conceito se baseia na iconografia, simbolismo e geografia sagrada da Tradição.

Uma das aplicações parciais da linguagem espacial da Tradição é a ciência da geopolítica. Essa seria a mais moderna, tecnológica e, às vezes, pragmática aplicação do princípio do espaço qualitativo. A geopolítica enquanto metodologia contrasta radicalmente com os paradigmas linguísticos da modernidade, porque ela se  baseia em certas pressuposições mitológicas e simbólicas, virtualmente idênticas a elementos linguísticos da Tradição. Portanto, os portadores mais consistentes da ortodoxia moderna negam o fato da existência dessa ciência. Observem que as bases mais profundamente filosóficas e ontológicas da geopolítica residem não só em Carl Schmitt em sua obra "Terra e Mar", mas em sua forma mais pura nós as encontramos em René Guénon, em seu livro "Oriente e Ocidente".

Pós-Guenonismo

A linguagem da Tradição (e especialmente o tradicionalismo guenoniano como um tipo de metalinguagem tradicional, uma linguagem descritiva das linguagens tradicionais) é comum a todas as tradições históricas. Não estou falando aqui nas conclusões mais radicais de sua obra, onde ele afirma a existência de uma unidade metafísica das tradições. Em relação a essa questão pode haver perspectivas diferentes, e não quero me deter nisso. O que está, porém, além de qualquer dúvida é a absoluta unidade e autoridade dos discursos paradigmáticos do tradicionalismo, revelados por Guénon, e a aplicabilidade desse paradigma a todas as formas da Tradição, independentemente de como elas se expressem.

Todas as tradições existentes em seu nível linguístico paradigmático conflitam duramente com a linguagem contemporânea, por causa de sua contradição inerente com conceitos ontológicos básicos. Elas são absolutamente irredutíveis uma em relação a outra, inconvertíveis e mutualmente exclusivas.

Quando falamos sobre os eixos ontológicos, tempo e espaço, sobre seu papel central na linguagem tradicional e na linguagem moderna, nós tentamos mostrar que elas não podem coexistir pacificamente quando há um conflito fundacional, um confronto profundo. Há dois "exércitos", dois "partidos", o "partido" da linguagem tradicional e o "partido" da linguagem moderna.

Assim, o que é "pós-guenonismo"? "Pós-guenonismo" é um termo que funciona como um tipo de reação ao guenonismo. A guenonística, seus autores, repetindo Guénon, tratando-o como um guru, participam em uma repetição do discurso guenonista (sem dominar sua linguagem) com mínimos desvios e considerando essa atividade como um hobby intelectual. Alguém coleciona selos postais, alguns são sadomasoquistas e alguns exploram consistentemente a crise do mundo moderno, examinando os sinais dos tempos: é um tipo de nicho para um certo tipo de personagens europeus, que é percebido como um discurso guenonista. Para distinguir o tradicionalismo guenoniano enquanto metalinguagem da Tradição da reprodução do discurso de Guénon como simples repetição com mínimas variações do que já foi dito por Guénon, é útil introduzir o termo "pós-guenonismo". Ele deve ser entendido como um assimilação profunda do Tradicionalismo de Guénon como uma linguagem fundamental, realmente generalizando todas as outras linguagens. Mas quando o guenonismo se torna uma linguagem internalizada, uma metalinguagem, metodológica e ontológica e ao mesmo tempo estrutura paradigmática e não um discurso separado, pode haver um efeito inesperado.

O pós-guenonismo não é só uma posição, mas uma missão, é um imperativo à ação. Nesse processo de assimilação de Guénon, compreendendo Guénon como uma linguagem e não como discurso, há dois componentes. O primeiro é o estudo e assimilação de conhecimento a partir da perspectiva tradicionalista (guenoniana) pelo vivenciamento da tradição particular com a qual estamos lidando. Este é um processo de movimento gradual do tradicionalismo à Tradição. Este é um caminho bem sutil e delicado. Dependendo da ordem da tradição ou denominação particular em questão aqui, há especificidades, armadilhas, nuances e becos-sem-saída. Mas este é um tema especial. Digamos que este caminho não é tão suave quanto possa parecer à primeira vista, e os "tradicionalistas" não raro mudam de denominação como fantasias, não encontrando em lugar algum uma adequação estrita com a ortodoxia teórica guenonista.

O segundo componente do pós-guenonismo é uma revisão da linguagem da modernidade desde a perspectiva Tradicionalista, ou seja, mensurar a distância exata entre o que é exemplarmente moderno e os remanescentes fragmentados de estruturas arcaicais, ou seja, elementos inercialmente existentes da linguagem da Tradição.

O pós-guenonismo é realizado principalmente em duas áreas de ação. Por um lado, é a aplicação do paradigma guenoniano aberto para separar as tradições realmente existentes. Isso não é tão simples quanto parece inicialmente. Quando aplicamos a linguagem tradicional paradigmática (metalinguagem tradicionalista) à ortodoxia, ao budismo, ao judaísmo, ao islã, ao hermetismo, as tradições vivas e suas autoridades, nós submeteremos essas áreas a um raio-x metodológico e conceitual que ressaltará a estrutura de imperfeições e desvios em relação ao paradigma puro. Este é um teste sério e fundamental da adequação do que aparece como uma tradição.

Segundo: Guénon descreveu as principais características do mundo moderno, a linguagem da modernidade em seu paradigma puro (que coincide fundamentalmente com as teorias liberais), mas a modernidade real circundante possui desvios significativos em relação ao modelo básico ideal. Estes desvios são os elementos inerciais da Tradição que pervadem a modernidade.

O "mundo moderno" real é muito mais tradicional do que o "mundo moderno" ideal. Discursos específicos desse mundo tão somente aspiram à pureza da linguagem correta da modernidade. Assim sendo, o tradicionalismo enquanto método propicia uma maneira inusitada de olhar para muitos fenômenos modernos e abri-los para a nebulosa arcaica inercial. A fase que afirma a linguagem moderna como antítese da linguagem tradicional demanda uma segunda fase: a abertura no interior do mundo moderno de várias regiões que se desviam da linguagem da modernidade, e assim, estão sujeitas a uma interpretação adequada no contexto da linguagem tradicional. Isso é especialmente importante porque entre a linguagem tradicional e a linguagem moderna não há nem mesmo uma igualdade aproximada: a linguagem de nossa era é um fragmento extremamente distorcido e abortado da linguagem tradicional, que é primária, não só historicamente, mas também ontologicamente, metafisicamente. Já que o nível de uma matéria puramente quantitativa é inatingível por princípio, e a tentativa de realizar uma redução total a ela é apenas uma intenção impossível, a absolutização da linguagem moderna é inalcançável na prática. A modernidade não será expurgada da Tradição, na medida em que tamanha negação pura é onticamente impossível de se alcançar. Essa linha foi desenvolvida por M. Eliade, Jung e seus seguidores.

Porém, existe a circunstância reversa. As tradições modernas (mesmo as autênticas) são, na prática, mais modernas do que possa parecer de início. A linguagem fundamental da Tradição gradualmente recua sob a pressão dos sistemas operacionais atuais. E onde a fachada externa permanece imutável e tradicional, não raro há um espírito bastante moderno ao nível da exegese (interpretação, exploração e compreensão). É claro, uma tradição contínua sempre preserva a habilidade de recuperar a dimensão linguística tradicional autêntica, mas em certos casos, fazê-lo não é fácil e uma enorme porcentagem dos representantes das religiões não só não contribui para isso, mas até atrapalha. Este é um fato tão sério que em certos casos limítrofes correntes seculares e "modernas" podem portar traços mais arcaicos, seculares e, finalmente, tradicionalistas do que pode ser percebido em certas variedades religiosas com continuidade histórica. Assim, por exemplo, o comunismo soviético ou chinês contém mais elementos da linguagem tradicional (expressados, porém, de forma paradoxal e contraditória) do que a teologia protestante moderna.

O tradicionalismo (como pós-guenonismo) é, em nossas condições escatológicas, algo mais do que só pertencer a uma tradição particular. Um tradicionalista, que nem mesmo pratica qualquer religião (o que, porém, é raro, na medida em que é contrário à lógica natural do tradicionalismo), mas dominando Guénon, a linguagem da Tradição, está mais próximo (ou, no mínimo, dura e tragicamente consciente de sua distância em relação a ele) do que uma pessoa que parece e pertence formalmente a uma tradição autêntica (inclusive iniciática ou esotérica), mas não realiza um processo complexo e doloroso de desenraizar os paradigmas linguísticos da modernidade.

Guénon disse que o Tradicionalismo é apenas uma intenção, apenas uma expressão do desejo de se unir à Tradição. Na verdade, tudo é bem mais complicado. Em nosso ponto no ciclo, o tradicionalismo é o que valida a Tradição com autenticidade, que captura a presença (ou ausência) dos elementos da linguagem moderna.

A imagem que eu descrevo é bem simples. Se você aprende a perceber os conteúdos da própria consciência, muitas coisas se tornam claras. Tudo pode ser reduzido a fórmulas simples, porém, esses elementos simples lhe permitirão limpar imensos bloqueios paradigmáticos e tendências em problemas religiosos, filosóficos, éticos e práticos. Identificação e comparação entre linguagens paradigmáticas é uma técnica operacional bem importante. Afinal, mesmo uma tradição realmente viva pode, em algum ponto, simplesmente esquecer sobre as máximas fundamentais do Tradicionalismo. Por exemplo, a compreensão de Deus e da realidade divina em alguns pensadores cristãos e até semi-ortodoxos se torna uma relação com algo sujeito ao tempo. Teólogos cristãos (e mesmo ortodoxos) tem interpretado assim a mudança histórica de eras, antes de Cristo, depois de Cristo. Tudo muda com a encarnação do Filho, é verdade, mas o Divino é sempre transcendental em relação a história, ele faz a história, mas nunca está identificado com ela...

Por exemplo, o jesuíta Pierre de Chardin disse que Deus e a evolução do mundo material são a mesma coisa. Essa é definitivamente a linguagem da modernidade (evolucionismo) trajando vestes "teológicas" pseudo-cristãs. Mas o elemento de identificação entre ser e tempo pode muitas vezes ser encontrado entre autores não tão odiosos. A linguagem paradigmática de nossa era não é algo trivial (não há onde se esconder, nem mesmo usando um grande número de prostrações, jejum, orações, auto-melhoramento diligente). Ela é como o diabo, o cão espiritual que pode facilmente penetrar por trás de portas fechadas: mesmo onde estão santos e eremitas ela consegue se esgueirar. A linguagem de nossa época é o diabo, o Anticristo, como dizem os velhos crentes, o lobo mental. A linguagem da modernidade permanece invisível e imperceptível para se espalhar por dentro das faces conceitual, ontológica, semântica, metafísica de uma tradição decomposta pela preservação parcial ou completa de seus aspectos externos. Este é um momento muito sério. O tradicionalismo possui enorme importância religiosa, espiritual e escatológica porque ele está diretamente ligado com a restauração dos aspectos mais significativos e importantes da Tradição. É claro, se o tradicionalismo for limitado à crítica do mundo moderno, ele permanece inerte, impotente, estéril. Este pós-guenonismo crítico, ligando apenas com a modernidade e expondo todos os seus aspectos, é importante enquanto fase pré-niilista, mas insuficiente. Um pós-guenonismo pleno e completo sugere a presença de ambos estes elementos. Por um lado, uma "crítica desde a direita" positiva das tradições existentes particulares, com o ingresso nelas, com aprendizado, e pelo outro, a mais severa rejeição do mundo moderno ao nível da abertura e exposição de seus mais profundos paradigmas linguísticos.

Entre os guenonistas comuns (não os pós-guenonistas, como somos) há uma ilusão típica: eles repetem o tema crítico dirigido contra o mundo moderno, que foi desenvolvido por Guénon, com acréscimos mínimos. Percebendo o guenonismo como discurso, as invectivas contra a metalinguagem de nosso tempo são consideradas como algo fixo, de uma vez por todas. Mas o mundo moderno também muda, eficientemente e substancialmente. O mundo moderno se degrada. Sendo um complexo de anomalias, a degeneração vai de mal a pior.

O que acontece no processo progressivo de "modernização" do mundo moderno? Tudo que não era moderno o bastante, que não refletisse inteiramente a perfeita linguagem do mundo moderno com seu paradigma cristalino, é gradualmente desgastado e superado.

Observem os processos dinâmicos na esfera ideológica do século XX! Eles claramente mostram como a modernidade gradualmente se impele a partir do que era internamente menos moderno. Não é possível dizer que os rejeitos desse processo fossem verdadeiramente tradicionais, mas na linguagem moderna eles ainda eram mais tradicionais do que qualquer outra coisa. Ao aplicar este modelo analítico, podemos notar que no século XX, as ideologias mais "tradicionais" entre as ideologias "modernas" eram as da chamada "terceira posição". Sendo as menos modernas, elas caíram primeiro, superadas por formas ideológicas mais modernas. Os regimes comunistas eram mais modernos que as da "terceira posição", mas menos modernas que as liberais. Isso levanta um ponto bastante interessante que foi ignorado por críticos do mundo moderno entre guenonistas convencionais. O discurso liberal, consistentemente vencendo (e deslocando) primeiro as ideologias nacionalistas e depois as ideologias comunistas, gradualmente se aproxima do modelo linguístico puro do presente, praticamente identificado com ele.

O que Guénon reconheceu como base da linguagem moderna foi proclamado de forma mais plena por liberais radicais como B. Russell, K. Popper, R. Aron, F. von Hayek, F. Fukuyama, G. Soros. O discurso moderno dos ideólogos militantes liberais do Ocidente e seus serviçais filosóficos (Philippe Nemo, Bernard-Henri Lévy, André Glucksmann, etc.) não é só um discrso, expressado na linguagem moderna, mas é praticalmente a própria linguagem moderna. Assim eles falam sobre o "fim da história", sobre "a exaustão de todo discurso", sobre "a pós-modernidade". A pós-modernidade é o início de uma era de liberalismo triunfante, a última investida do mundo moderno em busca de sua linguagem ideal. A partir de agora, não há mais nada novo a ser dito, só citação, reciclagem, "remix" das declarações do passado, das fases anteriores da história. "O fim da história", compreendido liberalmente, é o limite de manifestação da linguagem moderna em sua fase "escatológica" final. Ele é compreendido por todos os liberais da mesma maneira que por nós, seguidores de Guénon. Portanto, há tensão real no diálogo entre nós, que é um verdadeiro conteúdo intelectual ocorrendo nos processos mundiais contemporâneos.

Todos os eventos mundiais ao nosso redor (a queda do rublo, conflitos militares, quedas de governos, novas descobertas arqueológicas) são parte de um conflito entre dois campos opostos. Um polo é um minúsculo campo de pós-guenonistas, quase inexistente, como um único grão em um deserto, o outro é um gigante do campo liberal da linguagem da pós-modernidade, que reivindica a dominação global. O pequeno campo do pós-guenonismo é, porém, herdeiro de um imenso domínio ontológico que está concentrado na linguagem da Tradição. Nele há uma incrível riqueza de significados. E estes significados estão vivos, eles se movem, tal como continentes ascendem e decaem. Essa é a vida real, que pode ser qualquer coisa, boa, má, bem sucedida, desastrosa, mas isso é vida. As tradições diferem: sinistras, benévolas, às vezes em conflito. Mas isso não é tão importante, porque somente nelas, no mundo da linguagem da Tradição, no mundo do tradicionalismo concentra-se hoje um enorme poder existencial real, que contrasta sua riqueza interior e pobreza exterior com o padrão oposto da paz liberal baseada na limpa e polida linguagem da modernidade, onde propagandas cintilantes abundantes acobertam um vácuo semântico sufocante.

Tradicionalismo e Rússia

O que se pode dizer sobre o pós-guenonismo (Tradicionalismo) em relação à situação russa? Para nós, a implementação do programa do pós-guenonismo é importantíssimo, a única grande tarefa cultural, social, nacional, estatal. Nós temos apenas um autor que deve ser lido, que é René Guénon. Nós tempos apenas uma tarefa, compreender o que ele queria dizer, tornar seu pensamento nosso pensamento, sua linguagem nossa linguagem. Apenas dessa maneira pode-se formular, descobrir e encontrar coisas que realmente importam em um contexto nacional. Fora daí, quaisquer mudanças de governo, desastres e reviravoltas sociais (mesmo as positivas) são metafisicamente nulas, porque fora do pós-guenonismo não há espiritualidade, não há justiça social, não há vida, não há nada.

Vale a pena enfatizar um ponto metodológico muito importante. Implementando os instrumentos do pós-guenonismo em relação à tradição ortodoxa, eu cheguei à conclusão de que há uma forma ideal, que em verdade é nosso "guenonismo nacional". São os Velhos Crentes, do antigo Cristianismo, os quais, desde a segunda metade do século XVII, estão realmente em um estado ontológico, escatológico e apocalíptico, no qual é cristalinamente fácil compreender as posições expressadas por Guénon. Não há apenas a proximidade ou semelhança de posições (a nível discursivo), mas quase completa identidade. O guenonismo adequadamente internalizado (ou seja, pós-guenonismo) na Rússia e no esquema da ortodoxia é uma realidade extremamente antiga que preserva a linguagem tradicionalista paradigmática, sobre a qual reside toda a tradição cristã. A ciclologia (ou "eclesiologia" histórica) do Cristianismo é adequadamente representada neste setor da ortodoxia. A "velha crença" é uma realidade conceitual, que vem à frente quando se aplica o método tradicional à consideração de toda a tradição ortodoxa.

Permitam-me enfatizar que esta conclusão não é resultado de relações pessoais com a comunidade dos "velhos crentes". Mais que isso, a adesão à lógica estrita do pós-guenonismo me levou à convicção na autenticidade e elevadíssimo valor da velha crença, e então depois aos contatos (extremamente produtivos e significativos) com os Velhos Crentes.

E porque essa conclusão é puramente teórica e verdadeira em abstrato, a situação objetiva (às vezes dissonante, fragmentada, perturbada) dos Velhos Crentes de hoje (longe, é claro, dos padrões epistemológicos e escatológicos inerentes aí) não muda nada sobre a razoabilidade de nossas crenças. A partir de agora, se buscarmos e utilizarmos as ferramentas conceituais adequadas, encontraremos na Velha Crença tudo de que precisamos.

Apocalipse e Linguística

As pessoas se desperdiçam na atualidade. A linguagem suméria, penso eu, morreu quando em que havia dito tudo que poderia dizer, daí continuar a história demandou a linguagem assíria, outras linguagens. A linguagem, sendo potencialmente inexaurível em seu centro ontológico no estado sincrônico, está confinada em seu desenvolvimento diacrônico progressivo. E eis uma interessante observação: a emergência da linguagem guenoniana, o aparecimento de Guénon, sua terminologia, seu modelo, sua transição paradigmática ontologicamente revolucionária ocorreu precisamento no momento em que a tradição no mundo moderno estava na beira do precipício de sua existência. Apenas então foi possível ver e abraçar todos os contornos do fato ontológico que se desenvolveu, feneceu e desperdiçou na história.

Nós, como herdeiros de Guénon, somos os sucessores de uma posição bastante perturbadora, desesperada, quase desesperançosa. Nós defendemos intransigentemente o que foi historicamente perdido, terminado. Porque conforme nos aproximamos do fim do ciclo o Ser gradualmente abandona o processo de devir, se remove dele e não amplia a escala de sua presença, e o tradicionalismo surgiu em situações críticas, limítrofes.

O pós-guenonismo, como conhecimento e ação subsequente, é extremamente trágico. Mas eu estou feliz com o seguinte: nós vemos rapidamente a exaustão do conteúdo dos discursos baseados nas normas linguísticas da modernidade.

Isso nos permite prever e antecipar a emergência de uma nova e aguardada era, quando a situação será um pouco diferente (radicalmente diferente). Hoje nossa linguagem (nosso discurso tradicionalista) é, ao invés, minimizado, praticamente oculto. Mesmo quando falamos alto, publicamente e abertamente, é mais como um sermão nas catacumbas do que um grito desde os terraços. Do nosso campo para a alma coletiva, após a filtração da polícia do pensamento, ouve-se apenas assobios, tosses e estalidos: eis "o último homem" e Fukuyama já ativou o silenciador.

Mas estou profundamente convicto de que nesse "crepúsculo externo" nós não estamos apenas impotentes e tristes avaliando os eventos que testemunhamos, mas a última pequena unidade resistindo em meio à desolação do Cálice Sagrado. Perdidos no inverno do fim do tempo somos uma pequena e beligerante faculdade na Nova Universidade (nova, porque pertence à realidade, brilhando do outro lado dos limites marginais). O Departamento dos "Reis-Pescadores" que estuda as leis da linguística. Eu comecei com o que Friedrich Nietzsche chamou uma de suas obras, "Nós filólogos". Eu ouso esperar que, em alguma medida, ele se referia a nós.