sexta-feira, 14 de junho de 2019

Eduardo Velasco - Heartland: o coração da Terra



FONTE


ÍNDICE

PRIMEIRA PARTE
- INTRODUÇÃO
- AS BACIAS ENDORREICAS E A IMPORTÂNCIA DOS SISTEMAS FLUVIAIS
- O QUE É O HEARTLAND?
- BREVE HISTÓRIA DO HEARTLAND
· Pré-história
· Antiguidade
· Idade Média: Pax Mongolica
· Antigo Regime: cossacos e czares
· O socialismo telúrico
· A Guerra Fria
· Globalização

SEGUNDA PARTE
- A BANANA VERMELHA
- A TEORIA DO HEARTLAND
· O mundo de acordo com Mackinder
· Extensão do Heartland e a importância do Leste Europeu
· Alemanha segundo Mackinder — Realpolitik, Kultur, Weltanschauung, Escola de Munique e Geopolitik de Haushofer
- A TEORIA DO HEARTLAND ESTÁ OBSOLETA?
- O HEARTLAND ÁRABE — NEJD E O CHIFRE DO DIABO
- O HEARTLAND AFRICANO
- O CERRADO — O BRASIL POSSUI O HEARTLAND DA AMÉRICA DO SUL
- A GRANDE BACIA E OUTROS HEARTLANDS DA AMÉRICA DO NORTE
- CASTELA-A-VELHA É O HEARTLAND DA ESPANHA

TERCEIRA PARTE
- A TEORIA DO MANPOWER ― A GLOBALIZAÇÃO CONTRA A RAÇA BRANCA
· A luta pela mente humana ― o ser humano como campo de batalha
- A REBELIÃO DA TERRA — DESMEMBRAR OS TENTÁCULOS DO OCEANO MUNDIAL É FORTALECER O HEARTLAND
· O Grande Tempo contra o Grande Espaço
· Futuríveis para o Heartland ― Um novo mundo, ou o império da terra fechada
· A gênese do atlantismo
- O ESTADO COMERCIAL FECHADO ― AUTARQUIA VERSUS GLOBALIZAÇÃO
- A IMPORTÂNCIA GEOPOLÍTICA E SOCIAL DAS FORÇAS ARMADAS E DAS FORÇAS E CORPOS DE SEGURANÇA DO ESTADO: O EXEMPLO COSSACO
- NOVOS VIKINGS E COSSACOS PARA A EURÁSIA: NECESSIDADE DE UMA BIOPOLÍTICA DEMOGRÁFICA-REPRODUTIVA E ÉTNICA PARA O HEARTLAND
· Espanha no contexto do Heartland ― de Ibéria à Sibéria


PRIMEIRA PARTE  

Os espaços dentro do Império Russo e da Mongólia são tão vastos, e suas potencialidades em termos de população, trigo, algodão, combustível e metais são tão incalculavelmente grandes, que é inevitável que um vasto mundo econômico, mais ou menos à parte, se desenvolva inacessível ao comércio oceânico. ― (Halford J. Mackinder).

INTRODUÇÃO

Se no Ocidente herdamos lendas sobre Atlântida — um rico Estado comercial marítimo que, por seus pecados, foi castigada pelos deuses a perecer sob o mar — no Oriente também abundam menções sobre terras perdidas. Nas grandes regiões budistas da Ásia Central existem inúmeros mitos sobre cidades subterrâneas e vales ocultos, como Shambhala, onde os antigos poderes tradicionais e espirituais do mundo estariam adormecidos, esperando para se manifestar na guerra final entre os espíritos do bem e os espíritos do mal. Os mongóis identificam Shambhala com vários vales do sul da Sibéria, enquanto no folclore altaico, o portão da cidade secreta está escondido no Monte Belukha, da cordilheira do Altai, onde segundo a lenda Genghis Khan foi enterrado. O Kalachakra, um escrito tântrico do budismo tibetano com fortes influências hindus, afirma que quando o mundo degenerar em um turbilhão de guerra e vicio, em Shambhala surgirá Kalki ("cavalo branco"), uma espécie de messias que formará um exército e lutará contra as forças demoníacas, matando em milhões aos "bárbaros" e "ladrões que usurparam o poder real". Reunindo todos os brâmanes do mundo, ele iria fundar uma nova raça para povoar a nova idade de ouro. Em seu passado xamânico, os povos turco-mongóis falavam de Ergenekon, um vale isolado supostamente situado no Altai, onde seus ancestrais foram aprisionados por quatro séculos até que um ferreiro conseguiu derreter a barreira que os aprisionava. O mito de Ergenekon seria então usado estrategicamente pelo nacionalismo turco em sua promoção do pan-turanismo.

Na China, a tradição contava que Lao Tsé ("velho mestre", o fundador do taoísmo) deixou o país montado em um búfalo branco para o Oeste, isto é, para a Ásia Central, talvez para às cordilheiras Kunlun, onde se encontravam as fontes do Rio Amarelo, um lugar considerado santo pelos monges e eremitas, onde o ar era puro e energizante, onde cresciam ervas curativas e onde viviam peixes longevos. O folclore taoísta explicava que, naquele tipo de Éden espiritual, na "montanha do centro do mundo", os homens "régios" encontravam a bebida da imortalidade nos tempos antigos, e onde o Rei Mu (um milênio antes de Cristo) encontrou o palácio de jade do Imperador Amarelo, fundador da civilização chinesa. Mitologicamente falando, a cordilheira conectava a Terra com o Céu e em algum lugar de seu seio havia um palácio de jade onde vivia Xi Wangmu, a "rainha mãe do Ocidente". Como uma versão oriental do mito grego do jardim das Hespérides, ali crescia uma enorme árvore que dava pêssegos de imortalidade a cada três mil anos.

A cordilheira de Kunlun.

No Ocidente, o interior da Eurásia também era visto através de um prisma de lendas. Em "Histórias", Heródoto fala de um lugar "ao noreste", além do Mar de Hircânia (o Cáspio), onde muito ouro é guardado por grifos. Buran (um forte vento do norte, equivalente ao Bóreas grego) soprava duma caverna montanhosa chamada Passo de Alataw, que separa o Uiguristão (também chamado Turquestão chinês ou Xinjiang) do resto da Ásia Central. Mais além deste domínio se encontrava o "país dos hiperbóreos", cujo território chegava ao mar (provavelmente o Oceano Ártico). Nos mitos bizantinos, Alexandre, o Grande, não encontrou outra solução para as hordas de "Gogue e Magogue" (bárbaros do interior continental, às vezes assimilados aos citas) senão contê-las com uma parede de ferro ou adamantio. Provavelmente trata-se das Portas de Alexandre ou Portas Cáspias, localizada no sul da Rússia, onde séculos posteriores um exército de eslavos e vikings aniquilaria o reino cázaro, fundando o primeiro Estado russo. O conteúdo metafórico da construção das Portas Cáspias funcionou — especialmente tendo em mente que, no folclore centro-asiático, uma "porta de ferro em um lago" ou um "buraco negro em uma montanha" são considerados a origem dos ventos. Após as malfadadas campanhas dos macedônios no norte da Índia, uma história helenística que chegou ao Ocidente fez circular o boato de que na mais profunda Ásia Central havia um vale acarpetado de diamantes e protegido por aves de rapina e serpentes de "aparência mortal". Nos tempos do comércio de seda, Roma sabia da existência dos "seres", um povo alto, longevo e saudável (possivelmente os tocários), localizado em Serica, a "terra da seda", que corresponderia ao Uiguristão. Esses mitos e rumores incorporaram de alguma forma a vontade da Europa de não perder sua conexão com o Oriente.

Nos tempos medievais, em Roma, Bizâncio e nos Estados cruzados se falava do reino de Preste João, um monarca que mantinha a ordem nas terras de Gogue e Magogue governando sobre um país cristão isolado entre domínios muçulmanos e "pagãos" (leia-se budista, hinduísta e/ou religiões ancestrais xamânicas e animistas). As tradições gnósticas consideravam que os homens sábios procediam deste país, onde se encontraria, ligadamente com outras relíquias sagradas da cristandade, o Santo Graal, obtido por Parsifal no Monte Salvat e levado ao Grande Oriente em navios com velas brancas e cruzes vermelhas... "João" era provavelmente uma corruptela de "jan" ou khan: o título dos reis tártaros. O personagem em questão provavelmente era um khan-bispo nestoriano de origem mongol com vontade de fortalecer os laços com o Ocidente, mas a situação logo se envolveu em símbolos e arquétipos no imaginário coletivo europeu. Marco Polo, que não poderia faltar nesse artigo, situou Gogue e Magogue ao norte de Catai (China), ou seja, Mongólia ou Sibéria. Na China, as autoridades imperiais fizeram algo parecido com Alexandre, dando o Heartland como impossível e se conformando em levantar a Grande Muralha para proteger o reino das invasões bárbaras do Norte.

Em meados do século XIX, os colonos russos na Sibéria, homens de excelente qualidade humana em todos os sentidos, tinham a ideia de Belovodye (ou Reino de Opona), um lugar mítico de "água branca" situado na Sibéria Oriental, desempenhando o papel de Terra Prometida em seu imaginário religioso e que provavelmente influenciou de forma importante o fluxo de populações etnicamente europeias para o Oriente, estabelecendo colônias cada vez mais próximas do Mar do Japão e das fronteiras com a China e a Mongólia. Enquanto a Rússia estava conquistando a Ásia Central, Nikolai Fedorovich Fedorov, fundador da corrente filosófica russa do cosmismo, situou Shambala no Pamir, atual Tajiquistão. A Ásia Central se tornou popular no Ocidente graças ao Michael Strogoff de Júlio Verne, a Ferdinand Ossendowski, ao nascimento da geopolítica e ao surgimento de correntes ocultistas que idealizavam a Ásia Central como um santuário de tradição e sabedoria. Na década de 1920, o pintor, historiador e esoterista russo Nikolai Roerich também descreveu uma expedição extraordinária em toda a Ásia Central, incluindo suas visitas a mais de cinquenta mosteiros e seus encontros com lamas budistas.

Mongólia.

Dessarte, as áreas mais recônditas da Ásia Central foram vistas como uma fonte de mistério e fantasia pelas sociedades que estavam em sua influência. Todos os mitos que observamos coincidem em apresentar o coração da Eurásia como um lugar interessantíssimo e digno de ser visitado pelos valentes e nobres. Neste artigo se abordará sobre este vasto espaço habitado por incógnitas e infinitas possibilidades ainda indescobertas, um novo mundo em potencial, uma enorme fortaleza fechada, inacessível, inexpugnável e zelosamente tradicional, repleta de inúmeros vales, montanhas, planícies, florestas, estepes e desertos, que não pôde ser conquistada nem mesmo por Alexandre, Roma, Bizâncio, os imperadores chineses, a Comunidade Polaco-Lituana, os jesuítas portugueses, Napoleão, o Império Britânico, Hitler, Japão, os oligarcas mafiosos do espaço ex-soviético, as multinacionais e os bancos da globalização capitalista-neoliberal ― a longo prazo nem mesmo por khans asiáticos ou o bolchevismo soviético ― mas apenas por dois povos extraordinários: os vikings e os cossacos, que, como Alexandre, levaram a cultura grega (caracteres cirílicos, herança bizantina) ao coração da Ásia.

Desde o alvorecer da história, quem possui o Heartland se move como um peixe na água, uma vez que é um oceano de terra, mas quem não o possui irá bater contra suas paredes.



AS BACIAS ENDORREICAS E A IMPORTÂNCIA DOS SISTEMAS FLUVIAIS 

A palavra "endorreica" vem do grego ἔνδον (endo, "interior") e ῖεῖν (rhein, "fluir"). O segundo vocábulo partilha raiz com Rhin e também com Reia, uma deusa primordial ctônica da mitologia grega. Uma bacia fluvial endorreica é, portanto, uma bacia de fluxo interno ou, se preferível, de circuito fechado, onde as águas não vão em direção aos mares, mas permanecem fechadas até que dão "umbigos" centrais terminais, especialmente lagos (muitas vezes salgados, como o Mar Cáspio, o Mar Morto ou o Grande Lago Salgado), sistemas cavernários, fluxos subterrâneos, aquíferos, oásis, pântanos, areias movediças e outros espaços fechados. Ao contrário das outras bacias fluviais, que estão abertas a um oceano e, portanto, são imperfeitas, as endorreicas são bacias perfeitas que retêm a água; são caldeirões fechados onde as correntes aquáticas que correm na superfície não podem entrar ou sair.

Se o mundo dentro das bacias marítimas convencionais representa o desperdício, o movimento e a explosão do perecível ("nossas vidas são os rios que vão lançar-se no mar que é o morrer", escreveu Jorge Manrique no século XV), dentro das bacias continentais endorreicas representa a conservação, fermentação, cultivo e implosão do perene. Na verdade, a civilização, cuja essência é o Devir (contraposição do Ser), nasceu nas bacias marítimas: a do Mediterrâneo e a do Golfo Pérsico — embora, curiosamente, Jericó, a primeira cidade do registro arqueológico com muros, torres e fortificações, surgiu em uma pequena bacia endorreica: o Mar Morto.

As bacias endorreicas geralmente correspondem a climatologias secas, pois em áreas de chuvas frequentes essas bacias transbordam, ligando-se com uma bacia convencional ou erosionando a barreira de menor resistência até encontrar uma saída hidrológica (como aconteceu com o Mar Negro, anteriormente um lago, após a última Era Glacial). Em climatologias secas, a água evapora ou é absorvida pelo subsolo antes disso acontecer. Por esta razão, a úmida Europa dificilmente possui bacias endorreicas (embora o Cáspio represente 20% do território europeu), tendo pequenas exceções, como o lago salgado de Acrotíri em Chipre, onde o Reino Unido mantém um enclave estratégico do tipo Gibraltar. Em Espanha, os sistemas endorreicos são pequenos, como Monegros (Aragão) ou o complexo endorreico de Puerto Real (Cádiz).

Bacias endorreicas do planeta.

Na geoestratégia, as bacias hidrográficas não são um critério aleatório, na verdade, são o melhor exemplo da força da gravidade, ou seja, a influência da Terra em relação a conduzir poderes. A razão pela qual prestamos muita atenção às bacias hidrográficas neste artigo é porque a Natureza e a vontade da Terra sempre acabam se impondo — e as bacias são uma expressão dessas forças, uma vez que suas águas obedecem a atração gravitacional da rota mais simples e lógica.

Na escrita chinesa, "ordem política" é expressa com os ideogramas "rio" (elemento água) e "represa" (elemento terra). O rio representa as forças "caóticas" da Natureza, que tentam ser controladas e contidas pela civilização humana, pela "ordem". Como foi dito na geopolítica moderna muitos milênios depois, os rios são sistemas políticos supranacionais: não em vão, as bacias hidrográficas atravessam fronteiras, canalizam bens, influências, tecnologia, exércitos, religiões, ideologias, animais, economias e estratégias, além de proporcionar terras férteis e úmidas para cultivar cereais. Foi nas margens do Rio Jordão que as primeiras sociedades proto-civilizadas nasceram, o Rio Tigre e especialmente o Eufrates eram o eixo das civilizações mesopotâmicas e o Nilo era e é a espinha dorsal do Egito, tal como o Rio Wei e, posteriormente, a bacia do Rio Amarelo, o foi no nascimento da China. Em frente ao rio, a construção de uma represa é uma tentativa de criar uma bacia endorreica artificial.

As bacias hidrográficas também são formas naturais de infiltração pelo mar: o Neolítico entrou na Europa através do Danúbio, como milênios depois os otomanos o fizeram — a Primeira Cruzada tomou a mesma rota no sentido inverso. Os romanos entraram na Hispânia através do Rio Ebro e os mouros através do Rio Guadalquivir, e dos afluentes desses rios, ramificaram sua estratégia de conquista e dominação. O simples fato de traçar os rios (Mississipi, Missouri, Ohio e San Lorenzo) deu ao franceses controle sobre uma área da América do Norte muito superior à que os ingleses controlavam, enquanto que os belgas puderam dominar o que hoje é a Kinshasa graças ao Rio Congo e seus afluentes. Até mesmo os vikings devem seu domínio das Rússias ou sua chegada ao Império Bizantino ou o Califado de Bagdá aos grandes rios do Leste, facilmente navegáveis. Graças aos rios da Europa Ocidental, os vikings puderam chegar a cidades tão importantes como Paris, Sevilha e Pamplona. O Rio das Pérolas foi a porta de entrada da influência britânica na China; o Rio Yangtzé a porta de entrada do Japão. Mais ao sul, o Rio Mekong foi crucial para a incorporação da Indochina ao Império Francês. Na África do Sul, os rios Orange, Vaal e Limpopo foram fundamentais na expansão dos bôers. A bacia do Zambeze deu nome ao projeto geopolítico de Cecil Rhodes e a Companhia Britânica da África do Sul no interior da África, um projeto que foi chamado de Zambézia antes de ser chamado de Rodésia. Os conflitos em Ruanda também tiveram relação com a luta por uma bacia hidrográfica (Nilo versus Congo), assim como em Darfur (Nilo x bacia endorreica do Lago Chade) e atualmente no norte da Nigéria (Níger x Lago Chade). Escusado lembrar que a fértil bacia do Rio Douro vertebrou Castela nos tempos da Reconquista, ou no papel central do Rio Ebro na Guerra Civil Espanhola, no papel do Rio Vístula (cuja internacionalização chegou a ser proposta) e sua foz, a cidade livre de Danzigue, no desencadeamento da Segunda Guerra Mundial, ou na importância da Amazônia e do Rio da Prata para vários Estados sul-americanos. Quanto à América do Norte, o sistema fluvial da bacia do Mississippi mais o Canal Intracosteiro do Atlântico fornece mais quilômetros de vias navegáveis ​​do que a soma do resto do mundo, além de nutrir com grande capilaridade e cercar o maior território contínuo de terras cultiváveis do planeta, transformando-a em uma ilha de fato. No início de 2014, os conflitos de Crimeia e Ucrânia direcionaram nossos olhos para o mapa das bacias hidrográficas, revelando a enorme silhueta desenhada pela bacia do Rio Don, que é facilmente geobloqueado no Estreito de Kerch, que separa a Crimeia da Rússia. A parte mais pró-russa da Ucrânia coincide suspeitamente com a região ucraniana da bacia do Rio Don. Quase confirmando, foi nessas áreas onde se formou a Milícia Popular de Donbass, um grupo paramilitar pró-russo.

Xangai, Hong Kong, Macau, Alexandria, Antuérpia, Roterdã, Londres, Danzigue, Nova Orleans, Buenos Aires, Daca, Calcutá, Cairo e Ho Chi Minh têm em comum que devem sua importância a dominar lugares onde uma grande bacia encontra o mar. Tampouco se pode entender o desenvolvimento e a história de cidades interiores, como Moscou, Kiev, Volgogrado, Frankfurt, Estrasburgo, Basileia, Paris, Milão, Roma, Budapeste, Belgrado, Montreal, Assunção ou Chongqing — ou em Espanha, como Valhadolide, Saragoça, Toledo, Madri, Sevilha ou Córdoba — como parte dos rios que a presidem: outra razão para não subestimar a importância dos sistemas fluviais.

Portanto, nos Estados dignos de tal nome, o que acontece em suas bacias hidrográficas, especialmente quando são partilhadas com outros pterceira aíses (a citar, Egito-Sudão, Sudão do Sul-Uganda-Etiópia, Bangladesh-Índia, Birmânia-China, Vietnã-Camboja-Laos-Tailândia-China, Espanha-Portugal, Holanda-Alemanha, Ucrânia-Rússia ou Brasil-Paraguai-Argentina-Uruguai), é um assunto de segurança nacional. Para dar exemplos, a Sérvia foi privada de suas saídas mediterrâneas após seus conflitos com a OTAN, mas não foi privada do Danúbio (rio navegável e, portanto, uma conexão fluvial que rompeu o isolamento que a OTAN queria submeter a Belgrado), e se a Etiópia e/ou a Uganda fizessem algo "suspeito" nas fontes do Nilo, estrangulariam fortemente uma nação de oitenta milhões de almas. O mesmo pode ser dito sobre a Turquia, que rapinou do Iraque a 90% das águas do Eufrates o desviando. A Síria também estava em posição de pressionar Israel com a questão das fontes do Jordão... até que Israel invadiu e ocupou (até hoje) as Colinas de Golã.

O Paquistão também mantém tensões com a Índia devido ao fato de controlar um trecho alto do rio Indo, do qual dependem os sistemas de irrigação do Paquistão, embora suas fontes estejam no Tibete. Talvez o exemplo mais claro seja Bangladesh, um Estado inviável com uma demografia ultra-densa e explosiva (150 milhões de habitantes, mais do que a Rússia, concentrados em um território do tamanho do Nepal, plano e baixo e muito sensível às inundações), que depende completamente do Rio Ganges, que por sua vez é controlado pela Índia. Como vimos no artigo sobre a guerra na Líbia, a luta por aquíferos e fontes de água é uma realidade geopolítica irresistível e será cada vez mais, conforme uma humanidade impulsionada pelo crescimento econômico e tecnoindustrial contamine e esgote mais as reservas de água do planeta.

Entre bacias existem sempre fronteiras naturais, como cordilheiras, ou pelo menos uma clara bacia hidrográfica, de modo que as bacias dos rios delimitam os domínios geográficos naturais. Assim, na época do Império Espanhol, a Coroa de Castela correspondia essencialmente à bacia atlântica da Península Ibérica, enquanto a Coroa de Aragão correspondia à bacia do Mediterrâneo — ambas as entidades, portanto, tinham uma coerência geográfica que tendia a dotá-las de coerência política. Também o Império Austro-Húngaro coincidia com a bacia do Danúbio e as Treze Colônias Inglesas na América do Norte com a bacia atlântica do continente; Uma das razões pelas quais a Inglaterra entrou em guerra com suas colônias foi porque proibiu os colonos de irem além dos Apalaches (Linha da Proclamação de 1763), o que os levaria a entrar na enorme bacia do Mississippi, transformando-os em uma entidade continental que diminuiria mais facilmente o poder fortemente marítimo de Londres. Nos casos em que os rios não têm esse papel central, eles têm um papel periférico como fronteira entre os Estados (a exemplo, o Rio Grande, Rio Congo, Rio Orange, Rio Amur), portanto sua importância permanece inquestionável.

Quando se situa em uma bacia marítima convencional, seguindo a força da gravidade e a "rota mais fácil", a terra invariavelmente leva ao mar, e é por isso que tantas vezes na História, quando um país aumenta seu poder político e econômico, produzindo um excedente de poder material, acaba sendo jogado ao mar. Mas há outras bacias onde a terra leva... para a terra. A particularidade das bacias endorreicas é que, se estiver fora da bacia, a Terra nunca lhe conduzirá naturalmente a ela e, se estiver dentro, a Terra nunca o conduzirá naturalmente para fora; Neste simples fato, há uma transcendência quase metafísica: o Heartland é, para todos os efeitos, uma bolha, uma anomalia, uma contradição no sistema geográfico geral, que é governado por leis totalmente diferentes e até opostas às do resto das superfícies terrestres do planeta.

Por fim, nas bacias endorreicas, as represas — relembrando, a chave da "ordem política" — são favorecidas pela geografia...   

O QUE É O HEARTLAND?   

O Heartland é a maior fortaleza natural da Terra. ― (Mackinder).

Heartland vem do inglês heart (coração) e land (terra), sendo talvez "terra central", "terra nuclear'' ou "região cardial" traduções mais próximas. O Heartland é a soma de uma série de bacias fluviais contíguas em que suas águas proporcionam corpos d'água inacessíveis à navegação oceânica. Trata-se das bacias endorreicas da Eurásia Central mais uma parte da bacia do Oceano Ártico congelada na Rota do Norte com uma camada de gelo entre 1,2 e 2 metros e, portanto, inavegável por boa parte do ano ― exceto por navios quebra-gelos de propulsão atômica (que só a Federação Russa possui) ou similares. Embora a palavra tenha sido usada em seu significado específico pela primeira vez por James Fairgrieve em 1915, o conceito de Heartland foi definido realmente pelo geógrafo inglês Halford John Mackinder (1861-1947), um dos fundadores da Geopolítica, em seu trabalho "O pivô geográfico da história" (1904), onde desenhou a primeira representação gráfica do que chamou originalmente de "área pivô":


Mackinder diz:

A margem norte da Ásia é uma costa inacessível, bloqueada com gelo, exceto por uma estreita via marítima que se abre algumas vezes ao longo da costa durante o breve verão, devido ao derretimento do gelo local formado durante o inverno entre os icebergs e a terra. Acontece que três dos maiores rios do mundo, o Lena, o Ienissei e o Ob, fluem setentrionalmente através da Sibéria até esta costa e, portanto, são divorciados para fins práticos do sistema geral de navegações oceânicas e fluviais. Ao sul da Sibéria há outras regiões ao menos igualmente extensas, drenadas para lagos salgados sem saída oceânica; tais são as bacias dos rios Volga e Ural que fluem em direção ao Cáspio, e do Oxo [nome grego do rio Amu Dária] e Jaxartes [Sir Dária] em direção ao Mar de Aral. Os geógrafos geralmente descrevem essas bacias internas como "continentais". Ao mesmo tempo, as regiões de fluxo ártico e continental ocupam quase metade da Ásia e um quarto da Europa, e formam uma grande faixa contínua no norte e centro do continente. Toda essa faixa, que vai da costa plana e gélida da Sibéria até as costas íngremes e áridas do Baluchistão e da Pérsia, tem sido inacessível para a navegação oceânica. Sua abertura por ferrovias ― pois antes não tinha estradas ― e rotas aéreas no futuro próximo, constitui uma revolução nas relações dos homens com as maiores realidades geográficas do mundo. Vamos chamar essa grande região de Heartland do continente. 

Aderindo estritamente à definição mackinderiana do Heartland, sua extensão exata seria esta:


Mackinder descreveu o interior do Heartland:

O norte, centro e oeste do Heartland é uma planície que se eleva, no máximo, a apenas algumas centenas de metros acima do nível do mar. Nesta maior planície do mundo estão incluídas a Sibéria Ocidental, o Turquestão e a bacia europeia do Volga, pois os Montes Urais, embora uma longa cadeia montanhosa, não são de uma altura significativa e terminam a cerca de trezentas milhas ao norte do Cáspio, deixando um amplo corredor que vai da Sibéria para a Europa. Chamaremos essa planície de Great Lowland. Ao sul, a GL termina ao longo de um planalto de altitude média de oitocentos metros, com cordilheiras montanhosas subindo até uma milha e meia. Este planalto sustenta em suas costas largas os países Pérsia, Afeganistão e Baluquistão; por conveniência, podemos descrevê-la como Iranian Upland. O Heartland, em seu sentido de drenagem ártico e continental, inclui a maior parte da GL e a maior parte da IP; estende-se, portanto, à borda longa e curva das montanhas persas, além da qual está a depressão ocupada pelo vale do Eufrates e pelo Golfo Pérsico.
A estepe eurasiática é a parte mais acessível e aberta do que Mackinder chamou de Great Lowland. Pode ser considerada o centro da Eurásia e o berço da pastorícia, do espírito da cavalaria e do poder terrestre. Ucrânia, Cazaquistão e Mongólia são os países-chave para o seu domínio; de fato, o controle da estepe é um imperativo estratégico para a Federação Russa ― da mesma forma, o atlantismo quer que a estepe nunca esteja sob o controle de uma única superpotência. O Passo de Alataw, marcado no mapa, é uma passagem montanhosa que separa o Uiguristão do resto da Ásia Central. Dominar uma área montanhosa estreita como essa é tão importante para uma telurocracia quanto o controle de um estreito marítimo é para uma talassocracia. Entre a grande estepe ocidental (da Hungria ao Cazaquistão) e a grande estepe oriental (Mongólia e Manchúria, principalmente), há apenas uma barreira importante: as Montanhas Altai. Budapeste, Bucareste, Odessa, Kiev, Volgogrado (Stalingrado), Astana, Omsk ou Ulã Bator são cidades-chave na vertebração da estepe eurasiática.

A base da Geopolítica é a contraposição entre o sea power ou poder marítimo ("talassocracia" em grego) e land power ou poder terrestre (telurocracia). O poder marítimo tende a gerar Estados comerciais e liberais, o poder terrestre Estados produtivos e autocráticos. Exemplos de talassocracias são Fenícia, Atenas, Cartago, Veneza, a Liga Hanseática, a República de Ragusa, a República de Salé, o Império Otomano, Portugal, Holanda, o Império Britânico e os Estados Unidos depois de 1898. Telurocracias são os citas, Esparta, o Sacro Império, o Império Mongol, o Império Russo, a Alemanha, a Áustria-Hungria, os Estados Unidos antes de 1898 e a União Soviética.

Os dois tipos de potência têm suas cidadelas naturais e suas esferas de influência na geografia terrestre. A cidadela da talassocracia é a metade norte do Atlântico (Midland Ocean ou "Oceano Mediterrâneo") e sua esfera de influência é a Oceania descrita em "1984" por George Orwell, famoso escritor que aparentemente entendia de geopolítica. A cidadela da telurocracia é o Heartland e sua esfera de influência é a Eurásia orwelliana. A Lestásia (Leste da Ásia) de "1984" seria, como outras regiões do globo, disputada entre os dois poderes arquetípicos, ou teria uma mistura dos dois: o Sudeste Asiático, Coréia, Sul da Índia e a costa chinesa teriam forte influência oceânica, enquanto que o Tibete, o Uiguristão, o interior e o exterior da Mongólia, a Manchúria e o norte da Índia seriam de influência continental. De acordo com Orwell, em um mundo onde a geopolítica se firmasse, as áreas disputadas do planeta — em guerra perpétua, mudando de mão em mão e sendo conquistada e reconquistada repetidamente pelas três superpotências — formariam um quadrilátero tendo nas pontas Tânger-Hong Kong-Darwin-Brazavile, além das fronteiras entre Lestásia e Eurásia. Esses territórios disputados correspondem vagamente ao mundo muçulmano.

As cidadelas naturais da talassocracia e da telurocracia. Notar-se-á que o caminho mais curto entre os dois é a Escandinávia e o Oceano Ártico, perto da fronteira russo-norueguesa. A Europa em geral tem a infelicidade de ser o campo de batalha natural entre a talassocracia e a telurocracia. Atualmente, um novo espaço talassocrático está sendo criado na Ásia-Pacífico, que, com o atlântico do Oeste, sitia o Heartland do Leste.
No livro "1984" de George Orwell é mencionado um ensaio que explica como a URSS conquistou a Europa Ocidental, convertendo-se em Eurásia (vermelho), os Estados Unidos e o Império Britânico se uniram para formar a Oceania (azul), e a Lestásia (amarelo) emergiu após uma década de lutas confusas. Nenhum dos três Super-Estados pode ser conquistado, nem mesmo com a união dos outros dois, pois seu poderio militar está no mesmo nível e suas defesas naturais são muito formidáveis. Dentro do quadrilátero de Tânger-Hong Kong-Darwin-Brazavile, se encontram as áreas disputadas do planeta. As fronteiras entre a Eurásia e Lestásia não são claras, exceto por uma referência à instável fronteira na Mongólia.

A globalização tem sua força no "Mercado" (principalmente bancos e multinacionais) e no comércio internacional, que se desenvolve maioritariamente no mar, apesar de que ferrovias e oleodutos são meios mais baratos, rápidos e eficientes — ou seriam senão fosse as instabilidades oportunas nos elos mais estratégicos das rotas terrestres. Portanto, um Estado que tenha uma via marítima tem um grande vetor de projeção de influência à sua disposição e compartilha uma fronteira efetivamente com todos os países com litoral no corpo aquático em questão. Ao contrário da massa de terra, os mares do planeta constituem um único corpo (teoria de Pantalassa ou Oceano Mundial), de modo que quem saia ao Oceano Mundial e o domine, tenderá a envolver toda superfície terrestre do mundo e infiltrará seu poder, especialmente através dos vales e planícies das grandes bacias fluviais. Mas apesar dessa grande vantagem, o mar, mutável, instável e móvel, serve apenas para transportar coisas que vêm da terra e sitiar a própria terra. Se dominar o mar é um meio simples de dominar a terra, dominar a terra é um fim em si mesmo, portanto, que uma superpotência marítima precise sitiar a terra só confirma a importância da própria terra.

O presente escrito, portanto, se situará no ponto de vista do antagonista natural do mar. A terra representa o estável, fértil, nutritivo, produtivo, organizado e disciplinado; se o mar se assemelha ao "Devir" com seus vai-e-vem, a terra se assemelha ao "Ser" com sua obstinada permanência. Se o mar se eleva apenas em tempos tempestuosos, a terra se levanta para sempre nas montanhas, o que poderia ser definido como "terra concentrada". Na esfera econômica, a estratégia telúrica não se concentra em mover bens de um lugar para outro, mas em produzi-los e fazê-los ficar o mais próximo possível do solo de onde foi produzido. A produtividade e a fertilidade, sendo assim, substituem o comércio e a especulação para formar um sistema político, econômico e social muito diferente do que prevalece hoje. Da mesma forma, a abertura de espaços para navegação livre, que é a obsessão do atlantismo, substitui-se pela tendência das grandes massas de terra estrangularem o tráfego marítimo em gargalos, para romper a Pantalassa, transformando os vários mares em meros lagos internos sob férreo controle. Pois, como veremos, tanto o Mar Báltico quanto o Mar Negro, o Mar Adriático, o Mar Egeu, em todo o Mediterrâneo, o Mar Vermelho, o Golfo Pérsico, o Mar de Andamão, o Mar da China Meridional, o Mar do Japão e até mesmo o Caribe, o Golfo do México e a Baía de Hudson, podem ser extirpados do seio do Oceano Mundial e se tornarem tão inacessíveis como o Cáspio, apenas fechando fechaduras naturais: estreitos marítimos como Gibraltar ou Ormuz, ou barreiras insulares como o Japão ou o Arco de Andamão.

BREVE HISTÓRIA DO HEARTLAND

· Pré-história   

Durante a última era do gelo (a Glaciação Würm), bolsas geográficas cercadas por geleiras foram formadas no Heartland, e, tal como vimos no artigo sobre os efeitos evolutivos do frio, é nas condições extremas de uma dessas bolsas gélidas que poder-se-ia desenvolver um tipo humano extraordinário, impiedosamente selecionado pelo ambiente. No artigo sobre a nova classificação racial, vimos que a raça nórdica centro-asiática, progenitora das linhagens genéticas R1a e R1b, e portanto antepassada paterna da maioria dos europeus étnicos modernos do mundo, nasceu no Paleolítico em pleno coração da Eurásia, propondo as regiões de Dzungaria e Altai como possíveis urheimats [terra natal] deste tipo evolutivo. Mackinder, que viveu numa época em que a eugenia e o estudo da biodiversidade humana não eram tabus, na verdade, senso comuns, relacionava o Heartland aos crânios braquicefálicos e considerava que o tipo racial centro-europeu "alpino" era um complemento do mundo antropológico da antiga Ásia Central, separando as cunhas das populações dolicocéfalas do sul da Europa ("mediterrâneos") das dolicocéfalas do norte ("nórdicos").

Após a deglaciação, o modo de vida caçador-coletor ainda era dominante em todo o mundo, mas dois novos sistemas de vida emergiram: no Oriente Próximo, o agricultor (evolução da colheita), e no Heartland, o gadeiro (evolução da caça). Desde o Neolítico, o Heartland não deixaria de lançar ondas e ondas de povos pastorais e montanheiros nas margens da Eurásia. Estes povos viriam a formar as aristocracias de muitas civilizações antigas do Oriente Médio.

Através do planalto persa e dos espaços montanhosos do Oriente Médio, a linhagem R1b chegaria à Europa, remontando o Danúbio e se assentando em núcleos de reprodução na região dos Alpes ("Cultura Unetice" e afins), bem como na orla franco-cantábrica. O R1a tomou a estrada mais simples da estepe para chegar na Europa Oriental e na planície germano-polonesa. É aqui que nasce o mundo propriamente "indo-europeu", relacionado com a mobilidade das grandes tropas conquistadoras, o uso do carro de guerra e do cavalo, o patriarcado e o sentido dos grandes espaços e horizontes que darão origem aos impérios, a tal ponto que milênios depois "cavalheiro" continua a designar um homem considerado digno de respeito. É, portanto, nas culturas pastoreiras-gadeiras de Yamna (ou Yamnaya), Poltavka e Cerâmica Cordada, que temos que procurar a origem das tradições cavalheirescas e imperiais da História.

A primeira cultura da Idade dos Metais típica do Heartland estepário é provavelmente a de Sintashta-Petrovka. O sítio arqueológico de Arkaim, ao sul dos Urais e em plena estepe, datado de 1600-1900 AEC, é o testemunho material mais conhecido dessa cultura mãe. Chamada de "cidade suástica", "cidade-mandala", "Stonehenge russa" (localizada aproximadamente na mesma latitude do Stonehenge inglês) e até "capital da antiga civilização ariana", Arkaim é uma cidadela de círculos concêntricos, orientada de acordo com os pontos cardeais e as estrelas, e seus habitantes foram provavelmente os ancestrais dos arianos descritos no Rigveda (Índia) e no Avesta (Pérsia).

Nascimento e expansão do uso do carro de guerra com duas rodas radiais, o precursor das modernas formações militares. Sua aparição ocorre dentro do Hertland, no sul dos Urais, atual Cazaquistão, que segundo Mackinder era "o próprio centro da Área Pivô". Aqui a cultura de Sintashta-Petrovka floresceu; a pecuária, a mineração de cobre e a metalurgia do bronze desempenharam um papel fundamental, além do carro de guerra e os assentamentos humanos fortificados, como o sítio de Arkaim. Mais tarde, apareceria a cultura de Andronovo (laranja) com seus complexos funerários, onde o guerreiro era enterrado em túmulos com suas armas, seus cavalos e sua carruagem. Na Anatólia e na Síria, a carruagem virá da mão dos hititas, no Egito dos hicsos, na Mesopotâmia dos cassitas e na Europa dos celtas.

Na Idade do Bronze, toda a estepe estava em ebulição. Em seus carros e cavalos, os mitânios caem na Pentalásia, os aqueus micênicos invadem a Grécia e os hicsos conquistam o Baixo Egito. O Rigveda narra como há três milênios e meio os arianos, liderados pelo deus Indra, arrasaram as cidades da civilização do Vale do Indo, dispersando "a pele negra" e se firmando como a nova aristocracia da região. Na Índia e Pérsia, conquistadas pelos povos indo-europeus do Heartland e de estilo pseudo-cita, os deuses mais importantes são representados como condutores de carruagens. Na Grécia, a Ilíada homérica é todo um canto ao estilo de vida dos guerreiros indo-europeus da Idade do Bronze. Até na distante e inóspita Escandinávia, o ruivo Thor era concebido dirigindo um carro de guerra puxado por cabras machos. Mesmo depois da civilização de vastos espaços da Europa e do Oriente Médio, nas estepes do interior continental continuariam a subsistir povos de populações de estirpe iraniana ("ariana") que, como os citas, sármatas e alanos, manteriam um modus vivendi bárbaro até serem varridos ou empurrados por novas migrações do interior.

Culturas da Idade dos Metais onde a criação de cavalos foi estabelecida. O uso do cavalo estava intimamente relacionado a uma paisagem de espaços abertos e horizontes planos, como o da estepe da Eurásia, bem como em formas de fazer a guerra com base na velocidade. Essa cultura acabaria tendo um tremendo sucesso social e militar em todo o planeta.

Essas sociedades indo-europeias estepárias tinham um claro predomínio de linhagens paternas R1a — associada aos eslavos, persas e as altas castas do norte da Índia — e legaram à arqueologia (primeiro soviética e depois internacional) o fenômeno da Cultura Kurgan: montes funerários (túmulos de terra) no qual importantes homens eram enterrados, e que encontramos tanto na Europa Ocidental como na Ásia Central. Filipe II da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande, foi enterrado em um túmulo. Este imaginário ritual é a origem das lendas do rei perdido: soberanos desaparecidos e muitas vezes ruivos (como o Rei Artur, Frederico Barbarossa ou Genghis Khan) que dormem no interior duma montanha esperando "o momento de despertar" para seu povo.

A origem dos mitos sobre reis adormecidos no interior de montanhas está nos kurgans (túmulos) da Idade dos Metais, onde importantes guerreiros eram enterrados com suas armas, seus cavalos e outros pertences. Aqui devemos procurar a gênese do mundo indo-europeu. Kurgan em Dnipropetrovsk, Ucrânia.

No artigo sobre os descendentes dos arianos, vimos, além de alguns mapas que ilustram o assunto que estamos discutindo, até que ponto muitas características antropo-físicas consideradas europoides sobrevivem em algumas bolsas étnicas da Ásia Central, incluindo Mongólia e Uiguristão. Precisamente da China vêm referências a povos ocidentais chamados Dingling e Boma (Alat), que surpreenderam a população local com sua aparência corada, olhos claros e cabelos avermelhados. Alguns arqueólogos russos ligam esses povos a descendentes da Cultura Afanasev.

· Antiguidade

O primeiro grande império do Heartland, o persa, surgiu após a irrupção, no planalto iraniano, de várias tribos arianas provenientes da atual Rússia e Ucrânia: os medas, persas e partas. Desde então, a Pérsia tem sido um país que se reciclou como um império repetidamente ao longo da história, tendendo a projetar poder nos cinco mares da Pentalásia (Mediterrâneo, Mar Negro, Cáspio, Golfo Pérsico e Mar Vermelho) e a ser uma ponte entre a Europa-Lestásia, Lestásia-África, Ásia Central-Índico e o Heartland eurasiático e árabe. 

O século IV viu um evento que influenciaria decisivamente a consolidação da Rota da Seda como o eixo do comércio internacional: o impulso ao Leste por Alexandre. Partindo da base balcânica no norte da Grécia, os macedônios conquistaram a Anatólia, o Levante, a Pentalásia, o Egito e o Império Aquemênida, chegando à Índia. Os gregos fundaram várias Alexandrias no Heartland: Alexandria na Ária (a atual cidade afegã de Herat, onde passa um estratégico gasoduto e uma estrada, e perto da qual existe uma base militar hispano-italiana), Alexandria Escate (atual Khujand, Tadjiquistão), Alexandria na Oxiana (atual Ai-Khanoum, Afeganistão), Alexandria do Cáucaso (provavel atual Bagram, Afeganistão, onde há uma importante base aérea da OTAN) e Alexandria na Aracósia (atual Candaar, Afeganistão, onde há outra base militar estadunidense). Segundo Isidoro de Cárax, os partas chamavam essa região de "Índia Branca". Ao norte dessas colônias gregas militarizadas e fortificadas, os citas e os masságetas — que Alexandre nunca ousou atacar — viandavam livremente nas estepes. Os macedônios haviam chegado aos portões de Gogue e Magogue.

Cidadela de Herat (Afeganistão), antiga capital de uma província persa que Heródoto descreveu como "a pocilga da Ásia Central". Vendo o sucesso das conquistas macedônias no Grande Oriente, é compreensível que Pompeu, Trajano, os cruzados medievais, Napoleão, os atuais exércitos da OTAN e qualquer potência ocidental que busca penetrar nas profundezas da Ásia, tenham como sua referência a Alexandre.

Algumas expedições gregas, partindo do vale tajique de Fergana, chegaram à cidade de Kashgar (atual Uiguristão), onde vivia uma tribo indo-europeia: os tocários. Acredita-se que os dayuans ("grandes jônios") das crônicas chinesas da dinastia Han eram descendentes desses colonos gregos. Alexandre foi o primeiro que, estabilizando um vasto espaço entre o Grande Ocidente e o Grande Oriente, abriu os dois domínios ao comércio mútuo. Portanto, o efeito mais importante e duradouro das campanhas macedônias foi a abertura definitiva da Rota da Seda.

Quando Alexandre morreu em 323 AEC, os diádocos (generais do exército macedônico) dividiram seu império, lutando por duas décadas pela hegemonia regional. Após a sua morte, os epígonos, seus sucessores, reinaram sobre as unidades territoriais resultantes da fragmentação do império alexandrino. O que mais nos interessa neste artigo é o Reino Greco-Báctrio, centrado em Báctria (atual Balkh, norte do Afeganistão). O século III AEC viu a entrada do budismo neste domínio grego, proveniente do Império Máuria da Índia, com o qual o Reino Greco-Báctrio manteve numerosas relações políticas e comerciais. É o começo de uma extraordinária civilização heleno-budista, liderada por monges gregos e uma aristocracia militar grega, descendentes dos antigos exércitos macedônicos, no seio da Ásia Central, um episódio raramente lembrado na historiografia moderna [para mais informações, pesquisar sobre greco-budismo]. As primeiras representações artísticas de Buda, que influenciaram fortemente o imaginário budista em toda a Ásia, ocorreram neste reino. Tem-se especulado até a influência de Apolo nas primeiras esculturas do santo hindu, com as quais o legado do deus mais tipicamente ocidental teria chegado ao Pacífico ― algo que os pastores-guerreiros dos Bálcãs sequer poderiam ter imaginado. Toda a corrente artística de Gandara é de gênesis grega e, portanto, europeia. No meio da Rota da Seda, as colossais estátuas no Afeganistão dos Budas de Bamiyan (demolidas pelo Talibã em Março de 2001), eram de clara herança greco-budista. Essa corrente cultural é um excelente exemplo dos extraordinários frutos que uma interação saudável e positiva entre o Ocidente e o Oriente poderia resultar.

Extensão aproximada do Reino Greco-Báctrio no ano 180 AEC. Até então, o budismo com influências pagãs-helênicas era a religião dominante, a ponto de esculpirem relevos do Buda hindu sendo protegido pelo Herácles grego. Apesar das problemáticas barreiras montanhosas, o reino foi orientado principalmente para a Índia. Dominava claramente um importante segmento da Rota da Seda, controlando as saídas da China em direção ao Ocidente.
Museu de Lahore, Paquistão. Esta estátua gandara do segundo século é claramente a Atena grega, esculpida no estilo grego e com características faciais típicas da aristocracia da Grécia Clássica. Faz parte do legado do primeiro Estado europeu no Heartland.

Por volta de 130 AEC, o Reino Greco-Báctrio foi invadido pelos tocários, que acabaram fundando o Império Cuchana. Todavia, por algum tempo, o Reino Indo-Grego ainda sobreviveu, separado do Greco-Báctrio, quando este conquistou a bacia do Indo e parte da bacia do Ganges, em uma expansão que lembra as conquistas indo-arianas de quatorze séculos atrás.

Os reinos Indo-Grego em AEC, no que hoje são Afeganistão e Paquistão. 14: Pushkalavati. 15: Taxila. 16: Sagala. Ocupam uma posição a meio caminho entre o Heartland e as férteis, superpovoadas e ricas planícies do Indo e do Ganges. Incluem o que hoje são a fronteira da AfPak e as problemáticas áreas tribais do Paquistão (FATA). Esses reinos, seguindo o rastro dos antigos indo-arianos, acabaram por conquistar boa parte das bacias do Indo e do Ganges. Note que as regiões do Nuristão (Afeganistão) e os vales de Chitral e Hunza (Paquistão), onde as características físicas europeias foram melhor preservadas até hoje, estão dentro desta área de influência helenística, tal como vimos no artigo dos descendentes dos arianos.

O avanço dos macedônios para o coração da Ásia não foi mais do que um processo iniciado séculos atrás pelas colônias gregas na Ásia Menor, atual oeste da Turquia. Neste ponto, se notará que na civilização hindu, centrada no norte do Hindustão, predomina a influência do Heartland, independentemente do fato de que mais tarde a Índia foi conquistada por um império tipicamente marítimo como o britânico [1]. Parece que, desde então, os territórios montanhosos que separam o Hindustão da Ásia Central são uma clara frente de batalha entre a talassocracia e a telurocracia. É inevitável que isso nos lembre do papel do Afeganistão e do Paquistão no cenário internacional atual.

Roma e China estavam mutuamente conscientes da existência um do outro e, em certa medida, mantinham relações, essencialmente indiretas [para mais informações, pesquisar sobre as relações sino-romanas]. O Império Han considerava Roma uma espécie de contraparte ocidental, e provavelmente Roma pensava o mesmo da China. No entanto, entre os dois poderes estavam dois Estados localizados nas antigas conquistas alexandrinas: o Império Parta e o Império Cuchana. Roma tendeu a penetrar em direção ao Leste, chegando a conquistar o Cáucaso e o que hoje é o Iraque, mas os problemas no Levante, tal como vimos no artigo sobre o cristianismo, faziam que as conquistas romanas no resto da Pentalásia fossem bastante efêmeras. O Mediterrâneo era o único mar que Roma poderia chamar de Mare Nostrum ["nosso mar", nome dado pelos antigos romanos para o Mar Mediterrâneo]; nem o Mar do Norte, nem o Atlântico, nem o Mar Negro, nem o Mar Vermelho ― e muito menos o Cáspio ou o Golfo Pérsico ― poderiam ser chamados totalmente romanos.

O Senado romano veio proclamar vários editais proibindo, inutilmente, o uso da seda, porque seu comércio causava prejuízo ao Império de suas reservas de ouro, indicando que dois milênios atrás, o que passava em uma extremidade da Rota da Seda influenciava o outro extremo ― um exemplo de proto-globalização. Plínio, o Velho, disse em "História Natural" que "Índia, Serica e Arábia, no mínimo, fazem com que o Império perca cem milhões de sestércios todos os anos; é isso que nossos luxos e nossas mulheres nos custam". Parece que em Roma havia fenômenos comparáveis ​​aos do fluxo de prata para a China antes das guerras do ópio e o enfraquecimento do patriarcado no Ocidente atual.

Em 56 AEC, Roma lutou contra o Império Parta na Batalha de Carras (atual Curdistão). A temida cavalaria parta consegue derrotar a legião e Crasso, o general romano que cometeu um erro crasso (daí o termo), foi executado. Dez mil soldados romanos são feitos prisioneiros e deportados para o extremo oriental do império inimigo, para o Heartland da Eurásia ― especificamente para Báctria (Afeganistão). Plutarco e Plínio contam que boa parte dos sobreviventes romanos foram escravizados ou enviados para fazer trabalhos forçados, mas alguns conseguiram se firmar no mundo parta como mercenários. Supostamente, os partas empregariam essas tropas romanas para lutar contra os hunos na província de Margiana, que hoje é o Turcomenistão. O Império Romano e o Parta assinaram um tratado de paz em 20 AEC e tentaram trazer de volta os prisioneiros, mas nessa época todos os vestígios da desafortunada legião tinham sido perdidos. As crônicas de Han do ano 36 AEC, que descrevem uma campanha militar chinesa no oeste do país, falam de um disciplinado exército inimigo que guardava a praça de Zhizhi, atual Uzbequistão. Essas crônicas mencionam uma fortaleza quadrangular de madeira e soldados inimigos que entravam em combate perfeitamente alinhados com seus escudos em uma formação parecida com escamas de peixe: a "tartaruga" das legiões romanas havia alcançado o Heartland. Depois de finalmente serem derrotados, esses soldados foram levados, novamente como mercenários, para a fronteira sul do Deserto de Gobi, para proteger a China de ataques bárbaros. Eles foram alfim instalados em Li-Jien (atual Liqian), um nó da Rota da Seda cujo nome é uma corruptela de "legião". A hipótese da "legião perdida de Crasso" foi levantada em 2001 e as análises genéticas confirmaram uma herança de sangue europeu nesta área, sendo mais expressivo nos narizes retos, cabelos ondulados-acastanhados e olhos mais claros.

O caminho da "legião perdida".

A irrupção das legiões romanas no Levante catalisou um processo histórico de enorme importância. Nos séculos I e II, ocorreram várias limpezas étnicas dos gregos no Mediterrâneo Oriental. Chipre, Líbia, Egito, Síria, Creta, Sicília, Rodes e outros lugares viram como as comunidades judaicas, aproveitando a ausência das legiões romanas (ocupadas em uma campanha militar contra o Império Parta) se levantaram totalmente contra as odiadas comunidades gregas da região. Embora essas revoltas tenham sido sufocadas por Roma, a europeização do Levante nunca se concretizou e, a longo prazo, todo o Império Romano se semitizaria e veria de uma forma muito mais rotunda a erradicação do legado greco-latino, desta vez sob um signo cristão, mas essa história vimos em outro artigo. Os grupos gregos na Índia e na Ásia Central, privados da fonte de sua cultura e capital humano, perderiam influência até serem engolidos pelo Heartland. Quatorze séculos passariam antes que outro poder, desta vez a Rússia, reintroduzisse a chama da cultura grega no coração do continente. Essas limpezas étnicas das populações europeias foram uma reação da vontade do Oriente desértico e seco em romper a continuidade da cultura grega do Império Romano para a Índia.

Os hunos, surgidos do Heartland nos últimos dias do Império Romano, são de etnogênese nebulosa. Sabemos que eles eram uma sociedade de guerreiros pastoris cujos alimentos principais eram carne e leite, e em que sua tática militar era baseada em grandes formações de cavalaria usando magistralmente o arco e o lançamento de dardo. Os hunos eram, mais do que um grupo étnico específico, uma confederação de cavaleiros estepários, onde suas fileiras havia povos uralo-altaicos, túrquicos, mongóis, iranianos, germanos, eslavos e outros, provavelmente chefiados por uma aristocracia turco-mongol, embora nos territórios hunos da Europa Oriental a língua franca era o gótico. Com a morte de Átila, sua confederação se dissolveu tão depressa quanto apareceu, mas os efeitos de sua breve existência ― especialmente para pôr em marcha a grande migração dos povos germânicos, que constituiriam a nobreza medieval da Europa Ocidental ― durariam muito tempo.

O caso dos hunos é comparável ao da Rota da Seda em relação as repercussões que as extremidades causavam de parte a parte, pois se os hunos se espalharam pela Europa é porque não o puderam pela China. A Europa, ao contrário da Lestásia, carecia de um Estado com uma clara doutrina estratégica que levasse em conta a importância do Heartland. Pelo contrário, os chineses, que haviam criado represas para controlar as desastrosas inundações do Rio Amarelo (cujas fontes estão no Heartland), também decidiram represar as inundações humanas vindas do coração do continente, construindo a Grande Muralha da China... mais uma vez, com o objetivo de preservar sua "ordem política". A Grande Muralha é um testemunho impressionante sobre a importância do interior eurasiático; De fato, em muitos aspectos, ela corresponde exatamente aos limites do Heartland. Parece que os imperadores chineses viram o Heartland como um domínio impenetrável, uma fonte de bárbaros e um ninho de vespas que era melhor deixar em paz. Mas a Grande Muralha não era apenas uma barreira militar, mas também um corredor de transporte e um sistema para extrair impostos, taxas e pedágios do comércio da Rota da Seda, estabelecer tarifas e controlar os fluxos migratórios.

O fato de a Grande Muralha ser uma infra-estrutura com uma infinidade de muros diferentes, construída ao longo de dezoito séculos, mostra que defender-se das tribos do Heartland era uma constante obsessão por sucessivas dinastias chinesas. Os mongóis tinham uma dieta baseada em produtos animais e eram, como povo, mais belicosos do que os chineses, embora na China existissem as tradições marciais mais eficazes do mundo.

No ano 431, o cristianismo nestoriano foi condenado pelo Primeiro Concílio de Éfeso, levando a um grande exílio de cristãos nestorianos em direção à Pérsia Sassânida. Doravante, Bagdá e Selêucia-Ctesifonte se tornaram centros do nestorianismo, que enviaram um grande número de missionários (ou talvez melhor dizendo "agentes", em sua maioria sírios e persas) para os confins do continente, fundando comunidades cristãs por toda a Ásia. Cidades como Herat, Farah, Almalik (conhecidas pelos cristãos do século XIV como Armalec), Samarcanda, Kashgar e até a própria Beijing (Pequim) da Dinastia Tang, abrigariam prósperas comunidades nestorianas desde a Alta Idade Média.

· Idade Média: Pax Mongolica

Os cristãos nestorianos foram apenas uma anedota como poder na Ásia Central. Se no início os mercadores hindus e bactrianos dominaram o comércio da Rota da Seda, entre os séculos V e VIII o fariam os sogdianos, e depois das conquistas muçulmanas, os árabes e os persas. No extremo oeste da rota, Bizâncio foi a primeira potência europeia a compreender que o Heartland era uma realidade geopolítica a ser levada em conta. Alternando diplomacia e guerra com os povos da estepe (ávaros, pechenegues, quipchacos e outros), Constantinopla pôde prolongar sua existência por um milênio depois da queda de Roma.

Muito inter-relacionada com a história de Bizâncio está a dos varegues (assim os eslavos chamavam os vikings da Suécia) que, remontando os grandes rios russos, passaram da bacia báltica ao Mar Negro e se aliaram aos eslavos em uma tentativa de derrotar os cazares ― uma confederação estepária do sul da Rússia que adotou o judaísmo como religião oficial e que provavelmente é a antepassada de muitos dos judeus asquenazes. Os varegues tomaram Kiev (Quieve), a cidade mais meridional do rio Dnieper, o que lhes permitiu manter contato constante com Bizâncio e, finalmente, conquistar a capital cazar, Sarkel, não muito longe do atual Volgogrado. Ao fazê-lo, eles passaram a dominar o corredor comercial estabelecido, onde os rios Don e Volga se aproximam, saltando da bacia do Mar Negro à bacia do Cáspio ― daí o Heartland ― e estabelecendo-se como uma espécie de segundo Império Bizantino para conectar a Europa à Ásia: começa a história das Rússias, agrupada em torno de cidades como Kiev, Novgorod, Vladimir, Suzdal, Pskov ou Moscóvia, em territórios que geralmente são densamente boscosos, onde a fé ortodoxa acabaria sendo imposta.

Vermelho: áreas sujeitas à colonização viking. Verde: áreas sujeitas à influência viking. A Rússia nasceu como intermediária entre os mundos escandinavo e bizantino, assim como a Germânia entre o mundo escandinavo e romano. Os vikings, sendo os fundadores dos primeiros Estados russos, assentaram as bases da única potência capaz de dominar o Heartland a longo prazo e conectá-lo com a Europa Oriental. Embora o núcleo da Rússia histórica nasce em Kiev, ele mover-se-ia lentamente para o Norte, passando por cidades como Smolensk, Novgorod, Vladimir, Suzdal, Moscou e São Petersburgo.

Genghis Khan, descendente do clã Borjigin ou Bourchikoun ("homens de olhos verdes"), foi em muitos aspectos o equivalente asiático e medieval de Alexandre, o Grande. Devido sua personalidade extraordinária, o Genghis conseguiu unir as tribos e clãs da Mongólia, se lançando a conquistar o controle da Rota da Seda, de modo que em sua morte ele era soberano de um império que ia do Mar do Japão ao Mar Cáspio, governando pela capital da Mongólia de Caracórum (não confundir com a cadeia de montanhas de mesmo nome). O caráter fortemente continental desses domínios foi brilhantemente retratado quando a invasão mongol ao Japão foi um falhanço: os cavaleiros das estepes, que nunca tinham visto o mar antes, sofreram de fortes tonturas e vômitos em sua aventura naval; além disso, o que os japoneses chamavam de kamikaze ou "vento divino" causou perdas tão fortes à frota mongol que a invasão fracassou. Outros ambientes onde a Mongólia nunca pôde sentir seu domínio foi nas montanhas e nos bosques ― os mongóis eram um povo de planícies e estepes, e tanto a Sibéria como os principados russos possuem enormes massas arborizadas. Na verdade, na época do "jugo mongol", durante o qual as Rússias eram tributárias dos tártaros, o khanato da Horda Dourada terminava onde a estepe dava lugar às florestas do Norte. Desses espaços fechados e impenetráveis, Alexander Nevsky, Demétrio Donskoi, Alexander Peresvet e outros heróis nacionais da história russa forjariam a grandeza do futuro Principado da Moscóvia.

As aventuras militares dos mongóis atingiram a Síria, Polônia, Hungria e os portões de Viena, mas não conseguiram cruzar o Mar do Japão ou outros espaços marítimos. É visível que o Império Mongol obtinha seu poder devido a seu domínio do Heartland. No Oeste, os mongóis puderam avançar graças às excelentes informações fornecidas pela rede de Inteligência dos mercadores venezianos. Um desses agentes era o pai de Marco Polo.

De qualquer forma, as conquistas mongóis resultaram na Pax Mongolica ("Paz Mongol", em latim) e numa continuidade territorial relativamente estável do Oriente Próximo e Europa Oriental à China. Graças a isso, a partir de 1245, por ocasião do Primeiro Concílio de Lyon, podemos encontrar emissários europeus enviados aos domínios mongóis por ordem do Papa e do rei da França: Giovanni da Pian del Carpine, Nicolas Ascelin e André de Longjumeau. O objetivo era, por parte do Papado, adquirir influência na Ásia, especialmente conquistando as antigas comunidades de cristãos nestorianos e, por parte da França, estabelecer laços entre Luís IX da França e Güyük Kha e solidificar um aliança franco-mongol, supostamente para fazer causa comum no Levante (época das cruzadas).

Em 1253, o monge franciscano flamengo Guilherme de Rubruck conseguiu atravessar toda a Ásia Central e chegar a Caracórum, onde encontrou franceses, russos e húngaros capturados na Hungria. O frade também relatou a presença de prisioneiros alemães que trabalhavam em minas de ferro na Ásia Central ― parece que Stalin não foi o primeiro a capturar alemães na Europa Oriental e deportá-los como escravos para o Heartland. Na Mongólia, florescia o islamismo, o budismo, o maniqueísmo e o cristianismo nestoriano, protegidos sob a tolerância religiosa dos khans. Rubruck retornou à Europa com um relatório detalhado para o rei Luís IX da França.

Viagens de Rubruck. Na época, Sarai desempenhou o mesmo papel que a cázara Sarkel havia desempenhado antes e que desempenharia a soviética Stalingrado mais tarde: servir como uma ponte entre os rios Don e Volga, entre as bacias do Mar Negro e do Cáspio... e, sendo assim, entre a Europa e o Heartland.

A posterior, no mesmo século, os irmãos Niccolò e Matteo Polo, mercadores venezianos, puderam estabelecer prósperos empórios mercantis em Constantinopla e Sudak (ver mapa das conquistas mongóis acima), onde a presença da poderosa talassocracia veneziana era forte. Animados pela riqueza do khanato da Horda Dourada, os irmãos Polo acabaram se estabelecendo em sua capital, Sarai, situada dentro dos confins do Heartland euro-asiático. Sarai estava no sul da Rússia, perto da antiga Sarkel e da Volgogrado de hoje, compartilhava com essas cidades seu papel como uma dobradiça entre a bacia do Mar Negro e do Volga (sendo o último parte do Heartland) e, com seiscentos mil habitantes, foi uma das maiores e mais ricas cidades do século XIII. Lá, os irmãos Polo se familiarizaram com os costumes dos tártaros, com o mundo da estepe e com a informação trazida por mercadores estrangeiros das distantes rotas mais ao Leste. Seguindo essas indicações, os venezianos seguiram para Bucara, atual Uzbequistão, onde viveram por três anos. Voltando pela Rota da Seda, chegaram a Dadu (atual Pequim), onde havia o trono de Kublai Khan, neto de Gengis. O monarca asiático forneceu-lhes um embaixador mongol para o Papa de Roma, um salvo-conduto para viajar por todos os domínios mongóis e uma carta ao Papa, na qual pediu uma amostra de óleo de lâmpada do Santo Sepulcro, bem como cem "sábios" para ensinar o cristianismo e os costumes ocidentais na China: as relações sino-romanas, que nunca haviam se concretizado na Antiguidade, estavam começando a se formar na Idade Média graças a Veneza, ao Papado e às conquistas mongóis.

O Papa Gregório X recebeu a carta do khan mongol em 1271, enviando apenas dois frades dominicanos com os irmãos Polo, desta vez também acompanhados por Marco, o filho de dezessete anos de idade de Niccolò. Os frades não completaram a viagem por medo, enquanto os mercadores venezianos passaram por toda a Rota da Seda, chegando à capital do khanato em 1274, três anos depois de sua partida. Recebidos pelo khan, eles viveram dezessete anos sob sua hospitalidade antes de voltar para a Europa. As viagens de Polo nunca teriam sido possíveis sem a existência de um Estado a partir do Oriente Médio ao Pacífico; Graças a isso, a Europa foi capaz de ler as histórias de Marco Polo, acessando um testemunho em primeira mão sobre o que estava no coração da Eurásia.

Marco Polo não foi o último europeu a pisar na Lestásia graças à estabilidade da Pax Mongolica. Em 1318, quatro anos após a dissolução da Ordem dos Templários, o frade franciscano Odorico de Pordenone embarcou em um impressionante périplo que o levou da Veneza à Armênia, Pérsia, Índia, China, Indonésia e outros lugares do Extremo Oriente, chegando descrever até mesmo o Tibete, "onde mora o Papa dos idólatras".

Vários eventos acabaram truncando a Pax Mongolica:

• A virulenta expansão da peste negra na década de 1340. Originada na Ásia Central, a peste espalhou-se por rotas comerciais terrestres e marítimas, afetando tanto a Europa como a China, a Índia e a Arábia, e causou o terror, a paranoia e a quarentena de cidades inteiras em rotas comerciais.

• Os cavaleiros mongóis estavam se tornando disformes ​​e decadentes, e os chineses, acostumados com as intrigas palacianas, tomaram o poder, expulsaram a dinastia mongol Yuan e outras influências estrangeiras (inclusive europeias e cristãs) e fundaram a dinastia Ming em 1368. O golpe de Estado na China foi fortemente influenciado por uma sociedade secreta: a Lótus Branco.

• O ascenso fugaz de Tamerlão, o último grande conquistador estepário, que aniquilou os cristãos nestorianos da Pérsia e atacou o khanato da Horda Dourada (sul da Rússia), fazendo com que a Moscóvia, então governada por Basílio I, parasse de pagar tributos aos tártaros. Em 1382, Moscou ainda seria saqueada por eles.

• Começara a penetrar na Mongólia o budismo, uma nova corrente cultural e ideológica muito diferente do paganismo ancestral que os mongóis haviam professado até então. O budismo levaria alguns séculos para se estabelecer no país, mas era uma questão de tempo até que os novos monges acabassem se impondo aos xamãs locais, chamando a atenção da aristocracia mongol e levantando mosteiros em cruzamentos de rotas e em povoados de grandes pastos onde um grande número de pastores costumava se reunir para realizar sacrifícios e outros rituais. Nunca deixou de haver rumores de que foram os chineses que favoreceram a introdução do budismo na Mongólia, esperando que o novo credo enfraquecesse a ancestral mentalidade guerreira dos mongóis e, por sua vez, descongestionasse a Grande Muralha; Realmente, a Lótus Branco era uma sociedade budista. O processo culminaria séculos depois, em 1568, quando Altan Khan concedeu ao chefe da linhagem tibetana, Gelug, o título de "Dalai Lama".

Embora a peste negra, os ataques de Tamerlão e o colapso do khanato tenham cortado as comunicações entre o Oriente e o Ocidente, um novo acontecimento, à primeira vista lamentável, provocaria sua restauração: a queda de Constantinopla pelos turcos em 1453 fechou a "rota varega" e bloqueou a saída marítima natural das estepes, enquanto muitos imigrantes gregos emigraram gradualmente de Constantinopla pelo Mar Negro até a Ucrânia e finalmente Moscou. A Europa foi transformada em uma ilha, cercada a oeste pelo Atlântico, a sul pelo Mediterrâneo, a sudeste pelo Império Otomano e a leste pela Horda Dourada e outros khanatos. Nesta situação, os únicos Estados capazes de romper a insularidade da Europa e reuni-la em terra com o Grande Oriente eram os principados russos. Assim, a catástrofe de 1453 forçou os russos a se retirarem para o leste, em direção à conquista dos domínios tártaros, assim como forçou os povos do Ocidente a se lançarem ao Atlântico para conquistar o Novo Mundo. Ambos os movimentos europeus, orientais e ocidentais, inicialmente tinham um objetivo semelhante: reconectar-se com a Lestásia. No entanto, enquanto o impulso ocidental da Europa acentuaria sua insularidade e caráter marítimo, o impulso oriental acabaria enfatizando seu caráter terrestre.

· Antigo Regime: cossacos e czares

Essa diferença entre Europa marítima e Europa continental, que contrasta as tsunamicas conquistas marinhas com os penosos avanços terrestres, foi estabelecida no ano chave de 1571: enquanto a Europa mediterrânica (Espanha, Veneza) derrotava os turcos em Lepanto e a Europa atlântica (Portugal) fundava Nagasaki (Nangasaque) no Japão, na telúrica Europa Oriental, Moscou é saqueada pelos tártaros mais uma vez. No entanto, os ventos estavam prestes a mudar no leste, e eles o fariam através da única ponta de lança que poderia quebrar a insularidade do mundo europeu: os cossacos.

Os cossacos eram uma confederação de homens livres, comparáveis ​​aos fidalgos da Espanha ou aos camponeses fugidos da servidão feudal em Rutênia, Galícia e Leste Europeu em geral a partir do século XIII. Estas sociedades, com uma forte paixão pela liberdade, se estabeleceram no atual sudoeste da Ucrânia, onde coincida as turbulentas fronteiras da República Polaco-Lituana, o Império Russo, o Império Otomano e os khanatos tártaros. Nenhum desses poderes podia controlar os cossacos, que fizeram da independência sua principal bandeira e realizavam incursões em todas as direções, provocando cruzamentos de missivas oficiais nas quais o czar russo, o sultão otomano, o grão-duque polonês ou o khan tártaro da época pediam a seu homônimo que controlasse "seus" cossacos. A resposta costumava ser que os cossacos não eram propriamente "seus" e que eles não respondiam a nenhuma outra autoridade, exceto a que emanava deles mesmos. "Os cossacos não me juraram fidelidade, e vivem a seu belo prazer", escreveu o sultão otomano ao impaciente grão-duque Basílio III de Moscou em 1539. "Os cossacos de Don não são da minha conta, e eles são livres de entrar em guerra ou viver em paz sem o meu conhecimento!", respondeu Ivã IV ao sultão dez anos depois.

O modo de vida cossaco representa a adaptação definitiva dos eslavos, originalmente um povo dos bosques, ao mundo da estepe, na época dominado pelos povos turco-mongóis de religião muçulmana, chamados "tártaros" no Ocidente. Os cossacos, apesar de sua natureza livre, independente, feroz e guerreira, sabiam que eram europeus e cristãos e portanto inimigos, sobretudo, de poderes estrangeiros, como os representados pelo sultão e pelos khans. Um cossaco devia se casar com uma cossaca ou tomar uma eslava de uma cidade vizinha; lhe era proibido casar com turcas, tártaras, mongólicas, judias ou ciganas. No século XVII, os príncipes russos provavelmente haviam percebido o potencial dos cossacos como ponta de lança europeia nas profundezas da Ásia. Por seu papel fundamental na conquista da Sibéria, é essencial dar um mínimo de atenção aos cossacos se quisermos entender a história do Heartland.

O primeiro czar russo, Ivã IV, derrotou o khanato de Cazã em 1552, alcançando o Cáspio (e, portanto, fechando um definitivo muro protetor em torno da Europa Oriental) e assim livrando-se do último obstáculo entre as Rússias e a Sibéria. Em 1582, um grupo de oitocentos homens, liderados pelo atamã cossaco Ermak Timofeevitch e financiados pela família Stroganov, derrotou Kuchum Khan e conquistou o khanato da Sibéria. A família Stroganov descendia de camponeses pomors — colonos da região subártica da Rússia, às margens do Mar Branco, que prolonga a rota da Liga Hanseática — que floresceram como comerciantes de peles, que na Rússia tinham a mesma importância que o comércio de lã e panos na Europa Ocidental, ou o comércio de seda para o Império Romano. A intenção econômica por trás desse evento era abrir a Sibéria aos caçadores russos, controlar a "rota das peles" e acessar o vasto potencial da região, que séculos depois não consistiria mais em peles e passaria a ser uma questão de petróleo, gás natural, carvão, ferro, cobre, ouro, grafito, alumínio, níquel e toda uma gama de outros minerais, além de madeira e do potencial hidrelétrico dos poderosos rios siberianos. Ermak se tornou um herói folclórico russo, uma espécie de versão eslava de Hernán Cortés ou Francisco Pizarro, e foi dado o pontapé inicial de um enorme fluxo europeu que, armado com as armas de fogo da Era Moderna, varreria os tártaros e acabaria conquistando toda a Sibéria. Os cossacos conseguiram o que nenhuma superpotência europeia conseguira: subjugar o Heartland. Estabelecendo redes de stanitsas (povoamentos) e colônias protegidas, e dominando a arte de cavalgar para dominar as distâncias, os cossacos aniquilaram os khanatos locais, ergueram a cruz sobre a estrela e a meia lua e, emulando os antigos citas, godos e vikings, prepararam a infinita estepe eurasiática para um novo Drang nach Osten ("impulso rumo ao Leste") dos povos indo-europeus, ao mesmo tempo em que as Américas eram conquistadas pelos indo-europeus do Oeste.

Pintura de Vasily Surikov. Ano 1582: enquanto os europeus do Ocidente, de herança celta, romana e germana, conquistam as Américas, outros europeus, de herança eslava, grega e vikinga, conquistam a Ásia. Os cossacos, que começaram a se assemelhar aos conquistadores ibéricos da América do Sul, aos bôers da África do Sul ou aos caubóis do Oeste da América do Norte, acabaram sendo para o Império Russo o que os casacas vermelhas foram para o Império Britânico; o que a Califórnia foi para o impulso ocidental da humanidade europeia, o seria a Sibéria para o impulso oriental.

O século XVII veria uma nova penetração europeia em direção ao Heartland, desta vez marítima e através da Índia: os jesuítas. Tanto o italiano Matteo Ricci quanto o português Antonio de Andrade realizaram implementações bem sucedidas da cultura europeia em solo chinês. Graças ao seu conhecimento científico, Ricci conseguiu se infiltrar na corte imperial Ming e até na Cidade Proibida, conseguindo importantes conversões para a fé católica, enquanto Andrade foi da cidade hindu de Agra para a cidade tibetana de Chaparangue com o objetivo de encontrar resquícios de seitas nestorianas e reunir informações sobre a Ásia Central ou a "Grande Tartária". O caminho foi re-aberto: o extremo Ocidente se encontrava com o extremo Oriente.

Em 1648, enquanto a Guerra dos Trinta Anos terminava na Europa Ocidental, o cossaco Semion Dejniov chegou aos confins da Eurásia, onde a Sibéria enfrenta o Alasca. Hoje, o estreito marítimo que separa a Ásia da América é chamado Estreito de Bering — em homenagem a um homem que o "descobriu" oitenta anos depois — quando, na verdade, deveria ser chamado Estreito de Dejniov. No mesmo ano foi desencadeada no que hoje é a Ucrânia uma rebelião cossaca contra a Comunidade Polaco-Lituana, a Revolta de Khmelnitski. A Rússia escolheu lutar ao lado dos cossacos, emergindo dessa guerra com ganhos territoriais significativos na Europa Oriental e uma relação mais forte com os cossacos. A partir de então, nenhum dos principais rivais da Rússia na Europa Oriental (Suécia e Comunidade Polaco-Lituana) seria capaz de invadir o Heartland. Em 1649, depois de terem atacado violentamente os judeus da atual Ucrânia, os cossacos estabeleceram a Oblast de Zaporíjia. Em 1670 foi estabelecida a Oblast de Astracã, uma praça conquistada pelos tártaros. Ao mesmo tempo, o Mar Negro estava cheio de piratas cossacos que estavam causando dores de cabeça ao Império Otomano, chegando a saquear lugares costeiros muito próximos a Istambul. Apesar das ameaças do sultão, os cossacos ucranianos, futuros conquistadores do Heartland, continuariam hostis ao poder turco.

Quando o czar Pedro I ascendeu ao trono na Rússia em 1672, o país era o maior do mundo graças à reconquista de Kiev, à "pacificação" das tribos siberianas e à chegada da colonização russa às costas do Pacífico. Em 1709, a população russa da Sibéria chegou a duzentos e trinta mil. Pedro, o Grande, estava determinado a modernizar o país para afirmar sua europeidade e se deparou, pela primeira vez, com uma forte influência econômica e comercial da Europa Ocidental: os judeus. Após sua morte em 1725, sua viúva, Catarina I, decidiu expulsar do Império Russo "todos os judeus que estão em cidades russas e ucranianas... A partir de agora, eles não serão mais admitidos na Rússia". A natureza telúrica da Rússia, tão propícia ao fortalecimento do Estado, parecia não se dar bem com os poderes comercial, internacional e supra-estatal do Mercado, nem com "estados" dentro do próprio Estado ou redes para-estatais que cuidavam apenas de seus próprios interesses. Os judeus desfrutaram de um status privilegiado no Império Otomano por muitos séculos e, cordialmente odiados pelo campesinato russo e ucraniano, bem como pelos cossacos, encontrariam no Império Russo um domínio impenetrável a suas intrigas econômicas, sociais e políticas. Enquanto isso, no Hindustão, em 1739, um exército turco-afegão liderado pelo persa Nader Xá saqueia a Deli, capital do Grande Mogul.

Entre 1756 e 1763, a Guerra dos Sete Anos veria a luta entre a Inglaterra e a França na América do Norte, e a Prússia e a Rússia na Europa Oriental. Embora a Prússia emergiria como uma grande potência, Berlim seria brevemente ocupada pelas tropas do Czar em 1760. Em 1762, Catarina II foi coroada czarina em Moscou. Catarina deu mais poder aos nobres, mas em troca teve que lidar em 1773 com revoltas furiosas de camponeses e cossacos, especialmente na Ucrânia, contra as políticas que os reduziam à servidão. Catarina, ela mesma de origem alemã, convidou europeus (exceto judeus) a emigrar para a Rússia para povoá-la e solidificá-la como país. Essa é a origem dos alemães do Volga. Todas as expansões territoriais russas do século XVIII se devem em grande parte à descoberta de grandes depósitos de minério de ferro nos bosques dos Urais, com os quais foram feitos canhões e mosquetões.

Após a primeira guerra russo-turca, a Rússia anexou as estepes do sul da Ucrânia, território tão assediado ao longo da História e que, após séculos de opressão turca, tráfico de escravos e sequestro de mulheres (chamados de "a colheita das estepes", com forte participação de judeus do Império Otomano no mercado negro da Crimeia), definitivamente retornou ao mundo eslavo. Um espanhol, o almirante José de Ribas, fundou a estratégica cidade de Odessa no local de uma antiga colônia grega. Em 1783, a não menos importante ilha da Crimeia, o último vestígio do khanato tártaro, foi anexada pela Rússia.

Novos e estranhos ventos sopravam do oeste. Em 1789, a violência extrema da Revolução Francesa — atiçada durante décadas por maçons e iluministas de origem judaica, portanto, de caráter fortemente comercial, internacional e marítimo — levou Catarina a rechaçar ideias iluminadas que ela anteriormente apoiara. Enquanto o Iluminismo na França emancipou os judeus, em 1791, a Catarina expulsou os judeus russos para uma área chamada Pale (Zona de Assentamento Judeu), que consistia em territórios tradicionalmente muito judaizados, incluindo áreas mais tarde arrebatadas da Comunidade Polaco-Lituana e do Império Otomano. Acredita-se que a Pale acabaria abrigando um total de cinco milhões de judeus, que se segregavam de não-judeus, especialmente nas cidades, onde se formaram guetos herméticos e estranhas seitas fundamentalistas como os hassidim ou judeus chassídicos, que durante muitas gerações alimentaram um enorme ressentimento contra os povos eslavos que se opunham ao avanço de suas instituições financeiras e comerciais.

A origem dos judeus no Leste Europeu é devida em grande parte aos antigos cázaros e nas incessantes expulsões da maioria dos Estados europeus organizados. Pouco a pouco, os judeus aumentaram sua presença no amplo istmo que, entre o Báltico e o Mar Negro, liga a Rússia ao resto da Europa. Esta faixa fortemente judaizada tendia a separar a Europa do Heartland eurasiático.
Densidade dos judeus em Pale. A origem das perseguições nos guetos judaicos pelas Schutzstaffel, Sicherheitsdienst, Einsatzgruppen durante a Segunda Guerra Mundial (sendo estes massacres, não as supostas execuções em câmaras de gás, o verdadeiro holocausto judeu), deve ser buscado na criação da Zona de Assentamento Judeu, decretada por Catarina II em 1791. Os judeus foram proibidos de entrar no resto do território do Império Russo. Observe novamente como essa área tende a formar uma parede que, como o Império Otomano ao sul, isola a Europa do restante da Eurásia. Na atual Lituânia, uma estreita faixa livre de judeus, correspondendo a domínios prussianos e à Ordem Teutônica, mantém a conexão com a Eurásia.

No início do século XIX, a Rússia foi invadida por um novo refluxo ocidental: Napoleão e a República Francesa. Na Batalha de Borodino (1812), os russos aniquilaram um terço do exército francês, mas mesmo assim os franceses tomaram o controle da zona. Depois disso, os russos decidiram abrir fileiras e deixar os franceses adentrarem cada vez mais para o vasto país. Seguindo a velha estratégia de "terra arrasada", a população abandonou suas casas, pegou seus pertences, queimou os campos e se dirigiu para o leste, deixando o caminho livre para Napoleão, que chegou a Moscou e encontrou-a vazia e queimada. Os russos sabiam o que estavam fazendo, pois o exército de Napoleão carecia de um serviço logístico: como os exércitos do passado, seus homens viviam daquilo que roubavam do terreno ocupado. Isso funcionou bem nas áreas densamente povoadas e cultivadas da Europa, mas nas imensas planícies da Rússia, cultivadas e povoadas de maneira dispersa, foi sua ruína: os homens e cavalos franceses começaram a morrer de fome e de doenças contraídas por ingestão de alimentos estragados ou águas de poços estagnados.


Napoleão, cujo objetivo era cercar os ingleses e atacar suas posses na Índia — suas campanhas anteriores no Egito e na Síria tinham a mesma intenção — foi ao Heartland, mas a retirada estratégica dos russos, mais o "General Inverno", forçou os franceses a desistir, sendo assediados sem misericórdia em sua volta por unidades regulares e irregulares da Rússia, sob o comando do marechal de campo Mikhail Kutuzov. Foi por causa dessa contenda que Napoleão disse que "os cossacos são as melhores tropas apeadas que existem. Se eu os tivesse no meu exército, eu conseguiria conquistar todo o mundo com elas!". Napoleão havia entrado na Rússia com mais de seiscentos mil homens; graças em grande parte aos cossacos, retirou-se catastroficamente com apenas onze mil. No final das Guerras Napoleônicas, os cossacos haviam entrado em Paris, onde sua imagem exótica acabou associada à cultura popular com todo o povo russo.

Este mapa resume a história dos hostes cossacos, uma volátil confederação de homens livres, no conturbado oeste da Ucrânia, a ser as tropas de elite preferidas do czar, nos confins do Império Russo. Os cossacos se assentaram em torno do Cáucaso, Ásia Central, Mongólia e Manchúria. Os cossacos do Don e do Kuban eram os mais conhecidos na Europa Ocidental.

Na Guerra da Crimeia de 1853-1856, se havia algo claro, era que o colapso do Império Otomano era uma questão de tempo e que a rapina logo começaria em vários territórios do moribundo estado. Quando os russos ameaçaram reconquistar Constantinopla e conectá-la à Grécia, além de dominar a foz do Danúbio e fazer "coisas suspeitas" em regiões otomanas como a Bessarábia, a Moldávia, a Valáquia e a Armênia, os franceses e os ingleses foram à guerra contra a Rússia e, flertando com o Império Otomano, ocultavam sua ânsia de ganhar influência em seus domínios.

Alexandre II foi um czar atípico, que esperava lutar contra as correntes subversivas dentro de seu Império para diminuir a repressão estatal. Em 1861, ele aboliu a servidão, quiçá esperando que a onda de camponeses "emancipados" povoasse os bairros proletários das cidades e servisse como carne de canhão para a ainda balbuciante indústria russa. Também apaziguou o antiguíssimo antissemitismo de Estado, fazendo com que os judeus começassem a sair da Pale para o Leste, imigrando em grande número, especialmente para São Petersburgo, Moscou e Odessa, rapidamente alcançando posições no setor bancário, na indústria, no comércio e no direito. Esse fluxo étnico coincidiu com o aparecimento de estranhas correntes ideológicas dentro do corpo nacional russo, como o niilismo e vários socialismos revolucionários. A repentina interferência judaica na vida social e cultural eslava logo provocou uma reação antissemita por parte do povo. Começaram a ser publicados periódicos antissemitas (como "Novoye Vremya") e uma onda de nacionalismo pan-eslavista e "teorias da conspiração" colocaram os judeus sob vigia, acusando-os de formar um "estado" dentro do Estado, apoiar grupos revolucionários e conspirar para derrubar o czar e tomar o poder. Em 1866, os revolucionários atentaram contra a vida do czar; apesar disso, não houve repressão. Mesmo assim, em 1871, enquanto o Império Alemão estava unificado ante a liderança da Prússia, a Rússia era a única nação europeia que não "emancipou" seus judeus, colocando-os em pé de igualdade com o resto dos súditos nacionais. Em 1880, após outra tentativa de assassinato contra o czar e vários atentados, criou-se a Okhrana, um serviço de Inteligência interno que não pôde impedir o assassinato do czar (oitava tentativa) no ano seguinte.

Os tempos de seu sucessor, o Alexandre III, foram diferentes. O magnicídio causou pogroms (palavra de origem russa) antissemitas em mais de cem cidades russas, especialmente na Pale, e deflagrou até 1884. Em 1882, o novo czar, um homem de caráter determinado e inflexível que viu seu pai sangrando depois que uma bomba amputou suas pernas, promoveu as famosas Leis de Maio, que confinaram novamente os judeus à Zona de Assentamento nas províncias ocidentais do Império e os proibia de exercer uma série de transações importantes. Em 1886, se decretou um edito oficial de expulsão dos judeus de Kiev e, em 1892, eles foram formalmente expulsos de Moscou. Se no passado houve um claro conflito de "Roma contra Judeia", tal como vimos em outro artigo, aqui podemos falar de uma "Rússia contra Judeia", na verdade, a forma moderna da luta metafísica entre a espiritualidade grega e a espiritualidade semítica. Alexandre III era um convicto pan-eslavista que acreditava firmemente que, para se salvar, a Rússia deveria se fechar às influências subversivas e decadentes vindas do Ocidente, ao mesmo tempo em que lançava seus tentáculos em direção aos Bálcãs e a outros lugares. Influenciado por seu tutor, o Alexandre III rechaçou noções ocidentais como democracia, liberdade de imprensa e expressão, constituições, eleições e parlamentos, e executou um programa de russificação do Império através de colonos russos e afirmação da cultura russa. Pouco a pouco, centenas de milhares de judeus emigraram da Rússia para a Europa e, especialmente, para os Estados Unidos. Lá, com o apoio de influentes correligionários do mundo das finanças, comércio e indústria, agitaram subversivas redes anti-russas, assim como os sefarditas haviam feito na Holanda e na Inglaterra depois de 1492 contra a Espanha. A Rússia se tornou, de longe, a nação mais odiada pela judaria no mundo: os judeus tiveram praticamente seu acesso negado ao Heartland.

O mapa dos pogroms no Império Russo. Amarelo: Área de Assentamento Judeu, reintegrada em 1882.

O verdadeiro beneficiário das guerras napoleônicas, da Guerra da Crimeia e das revoltas na Rússia foi o Império Britânico, que sempre se aproveitou dos conflitos entre seus rivais continentais e que assim poderia continuar a aprofundar seu domínio no Hindustão, competindo literalmente contra o Império Russo pelo domínio da Ásia Central, em uma corrida contra o tempo chamada "o Grande Jogo" na Grã-Bretanha e "Torneio das Trevas" na Rússia. A Grã-Bretanha pretendia impedir que os russos conseguissem por terra o que o resto dos europeus estava conseguindo por mar: estabelecer uma presença no leste da China. Enquanto os ingleses negociavam e lutavam na Índia, os russos dominavam toda a Ásia Central. Entre 1857 e 1882 foram construídos quase 25,000 km de ferrovias, ligando Moscou à Prússia a oeste, Nijni Novgorod a leste e Crimeia a sul. Entre 1879 e 1886, engenheiros russos construíram uma ferrovia que ia de Krasnovodsk (costa leste do mar Cáspio, atual Türkmenbaşy) para Merv (no atual Turcomenistão, ao lado do Afeganistão e da Pérsia). Em 1888, esta estrada se estenderia para noreste, em direção a Samarcanda (com um novo trecho curto de Merv até a fronteira afegã). Em 1891, os russos inauguraram seu primeiro eixo de transporte eurasiático completo: o Transiberiano. Em 1904, o Império Russo poderia se gabar de uma rede ferroviária de 60,000 km de trilhos.

A Ferrovia Transiberiana ligava a capital russa ao Mar do Japão e estavam sendo construídas importantes ramificações para o Afeganistão, Mongólia, China e Báltico. O que preocupava Londres era que, se a Europa Oriental se estabilizasse, o czar estenderia a Transiberiana para Berlim, Viena, Amsterdã, Paris, Roma e os Bálcãs, fornecendo uma linha direta do Atlântico, do Mar do Norte e do Mediterrâneo até o Mar do Japão e do Pacífico: uma rota muito mais rápida, mais eficiente e estável do que a rota marítima britânica de Gibraltar-Suez-Babelmândebe-Singapura. Resumidamente, se a Transiberiana se consolidasse no Oeste com a participação alemã e austro-húngara, a enorme frota militar e comercial da Grã-Bretanha teria de ser transformada em uma frota de cruzeiros para marinheiros aposentados e marinheiros licenciados.

Todas essas manobras russas, em uma macrorregião inatingível pelo poder marítimo, perturbava seriamente Londres, posto que o fim lógico deste movimento era acabar inundando o Hindustão, a "joia da coroa", como os indo-arianos tinham feito trinta e cinco séculos atrás. Em 1895, os domínios britânicos e russos tinham alcançado os vales de Chitral (atual Paquistão) e Pamir (atual Tadjiquistão), respectivamente: agora apenas um vale afegão, o Corredor de Wakhan, separava a talassocracia da telurocracia. 

Afeganistão e Tibete foi os mais próximo que o Império Britânico chegou do Heartland, enquanto, ao mesmo tempo, tentava desesperadamente evitar que a influência russa chegasse ao Oceano Índico, especialmente no Baluchistão. Mackinder considerava que a fronteira noroeste dos domínios britânicos na Índia (isto é, a atual fronteira AfPak, onde o lorde inglês Gilbert sugeriu em 2012 lançar uma bomba de nêutrons) era a mais perigosa de todo o Império. Entre os vales de Pamir e Chitral, o Corredor de Wakhan, por uma margem estreita, evitou que o Império Russo e o Império Britânico compartilhassem fronteiras. Se as fronteiras da Pérsia, China, Rússia e Índia Britânica tivessem coincidido, teria sido desencadeado um conflito armado na Ásia Central. Tanto os russos quanto os britânicos decidiram deixar o Afeganistão em paz como terra de ninguém para abafar os conflitos de interesse entre as duas superpotências. Ressalta-se que muitas das praças localizadas na área de expansão russa (Samarcanda, Bucara, Merv) eram nós importantes da antiga Rota da Seda, a qual falamos em outro artigo. Os britânicos estavam mais focados no domínio da Rota das Especiarias. A confluência das conquistas russas e britânicas foi imortalizada em 1889, quando o oficial inglês Francis Younghusband e o oficial russo Bronislav Grombchevsky se encontraram no norte do Paquistão e compartilharam conhaque e vodca durante uma reunião. Nessa época, os principais espiões eram os topógrafos: mais além do Passo Khyber e da Caxemira, agentes britânicos, disfarçados de monges budistas, escondiam ciumentamente seus mapas.

Mais para o nordeste, o movimento russo continuou sua marcha imparável em direção as fronteiras chinesas. Os trechos superiores dos rios Irtysh e Bukhtarma originalmente pertenciam à China da Dinastia Qing, mas, antes de serem cedidos à Rússia por meio de tratados, os russos haviam as russificado com assentamentos e colonização. Esses colonos tinham um espírito empreendedor, uma determinação e uma qualidade biológica particularmente notável. O explorador e arqueólogo Nikolai Yadrintsev escreveu que os habitantes russos do Altai-Sayan (mais ou menos onde as fronteiras modernas da Rússia, Cazaquistão, China e Mongólia coincidem) eram "altos e fortes, com constituição atlética. Um caçador que vive perto do rio Bukhtarma é famoso por sua semelhança com um bogatyr". Também escreveu "As pessoas nestas comunidades eram notáveis ​​por seus físicos altos e fortes, sua saúde de ferro e força excepcional. Na região do Altai, vimos uma moça tão forte que podia levantar doze poods [200 kg]". Essas constituições físicas indicam um povo vigoroso e à frente de seu tempo, tanto física como mentalmente, em parte devido às demandas de seu entorno e clima, e por outro lado devido a uma dieta privilegiada com uma grande proporção de carne de caça. Com tal vanguarda humana, é fácil para um império erguer fronteiras e defender seus interesses geopolíticos, mesmo nas regiões mais isoladas e inóspitas de seus domínios.

É nesta época de conquistas asiáticas que situa a história do Miguel Strogoff de Júlio Verne, um livro de grande interesse por tratar duma viagem por boa parte do Império Russo, de Moscou à capital siberiana Irkutsk, bem como sua descrição das pessoas que a habitam. O livro, publicado em 1875, é uma verdadeira apologia da Rússia czarista e da família Romanov como representantes da civilização ocidental em plena barbárie asiática, encarnada nos tártaros, no Emirado de Bucara e nos renegados russos que traíram o czar ao ir para as fileiras da Ásia.

O inglês Rudyard Kipling também falou do "Grande Jogo". Em seu romance "O homem que era quinta-feira", ele descreve a chegada de um tal de Dirkovitch, oficial cossaco, na cidade de Peshawar (atual Paquistão), que, com o mortal passo montanhoso de Khyber, separa as possessões da Índia britânica do inexpugnável Afeganistão. Os desnorteados ingleses especularam sua rota: Balkh? Badakhshan? Chitral? Baluchistão? Nepal? Um capitão da cavalaria ligeira, enquanto conversava amigavelmente com o russo, calcula quantos cossacos como ele seriam capazes de despachar seus homens em um ataque motivado. Acolhido pela guarnição britânica, o Dirkovitch logo elogia a organização e o aspecto do regimento dos hussardos, falando do futuro glorioso que aguardaria as armas combinadas da Inglaterra e da Rússia "quando seus corações e territórios andarem de mãos dadas e começarem a grande missão de civilizar a Ásia".

Esses mapas não têm a expansão russa sobre o Alasca. O território havia sido objeto de expedições russas desde o século XVII e, na segunda metade do século XVIII, os russos e os espanhóis haviam começado uma corrida para afirmar seu domínio sobre o arco da América do Norte pacífica. Em 1867, o Czar, reconhecendo a natureza telúrica de seu Império, decidiu se livrar do Alasca, vendendo-o ao governo dos Estados Unidos da América.

As conquistas russas no Extremo Oriente continuaram avançando. Em 1860, a Marinha Russa havia fundado Vladivostok, no Mar do Japão, e em 1871, a cidade já tinha linhas telegráficas para Xangai e Nagasaki. Em 1903, Vladivostok se conectou com a Transiberiana... e no ano seguinte a guerra estourou. Quando a influência russa penetrou na Manchúria e na Coréia, ameaçando isolar o Japão da Eurásia, Tóquio foi à guerra, apoiada pelo Império Britânico e pelos mesmos banqueiros que uma década depois financiariam a revolução bolchevique: Kuhn-Loeb, Jacob Schiff, entre outros. A guerra russo-japonesa, como a rebelião russa de 1905, mostrou que a plutocracia internacional estava fazendo tudo o que podia para desestabilizar o regime autocrático do czar antes que firmasse tratados com o Império Alemão e a Áustria-Hungria para conectá-los com a Lestásia. Mackinder considerava o Japão, ao lado da Alemanha, Rússia e China, um candidato razoável como "organizador do Heartland", e a Manchúria era, evidentemente, a ponte do Japão para a estepe eurasiática.

Em 1903, o Estado russo parecia suspeitar que os judeus, tanto na Rússia quanto no estrangeiro, eram os principais agitadores dos movimentos sociais desestabilizadores dentro de seu órgão nacional. Esse ano viu a publicação de "Os protocolos dos sábios de Sião", provavelmente uma criação dos serviços de Inteligência do czar, que estavam cientes das intrigas e das ideias que circulavam no amago da judaria e que pretendiam pressionar o Governo a levar a repressão estatal ao próximo nível. Nicolau II, sucessor de Alexandre III, declarou diretamente que "os judeus são a alma do movimento revolucionário na Europa, que é subsidiado, com gigantescos meios monetários, pelos grandes financistas hebreus". Nietzsche havia refletido que

Os judeus mudam, quando e se se mudam, sempre do mesmo modo que o Império Russo alarga suas conquistas ― império que tem muito tempo diante de si e que não data de ontem ― , quer dizer, "o mais lentamente possível"! Um pensador que fosse responsável pelo futuro da Europa, em todos os seus projetos deveria incluir os judeus e os russos, fatores seguros e prováveis na liça, no grande confronto de forças.

Essa relação entre os judeus e a Rússia engendraria anos depois a Revolução Bolchevique e a União Soviética.

Conquistas russas desde o século XVI. No final do século XIX, as principais áreas de expansão da Rússia eram a Ásia Central (especialmente o Afeganistão, onde entrou em conflito com a Grã-Bretanha) e a Manchúria (onde entrou em conflito com o Japão). A Mongólia, a Mongólia Interior, o Uiguristão, o Tibete e o norte da Pérsia tinham uma forte influência russa. Os russos continuamente batiam nos portões do Levante e da Índia, ameaçando os impérios coloniais francês e britânico. Não à toa: ainda em 1916, no meio da Primeira Guerra Mundial e às portas da revolução bolchevique, as autoridades russas tiveram que sufocar duramente uma revolta do movimento muçulmano centro-asiático chamado de Basmachi, em Samarcanda e Semirechye.


A influência oceânica e atlântica é muito perceptível na Europa Ocidental, entre outras coisas, devido à importância que a historiografia atribui às operações militares no Oeste, quando as mais importantes e determinantes foram mais as do Leste. É o caso da Segunda Guerra Mundial, com inúmeros filmes sobre a "resistência francesa" e os desembarques da Normandia, mas poucos sobre a Frente Oriental. A Primeira Guerra Mundial não é exceção: apesar da importância da Frente Oriental, nossa historiografia resume a Primeira Guerra Mundial com a guerra das trincheiras na Bélgica e na França, quando os movimentos na Europa Oriental foram o verdadeiro destaque da guerra. A Guerra Mundial foi, acima de tudo, uma luta da internacional oceânica contra dois projetos terrestres: a Transiberiana e a ferrovia Berlim-Bagdá. A diplomacia inglesa triunfou novamente confrontando seus rivais continentais e, enquanto conspirava contra a Alemanha no Oeste, a apoiava no Leste, especialmente em suas tentativas de desestabilizar o Império Russo apoiando os bolcheviques: foi a Alemanha quem mandou Lenin — um líder bolchevique com sangue tártaro e judeu — a Rússia para provocar em 1917 a Revolução Bolchevique, graças à qual a Alemanha e a Áustria-Hungria obtiveram imensos territórios na Europa Oriental. A Alemanha perderia todos esses territórios no ano seguinte, quando de maneira inaudita, com a Reichswehr prestes a tomar Paris, eclodiu uma revolta que levou a Alemanha a assinar o armistício.

Depois da Primeira Guerra Mundial, a Europa Oriental saiu arruinada e muito mais balcanizada. Os grandes impérios tradicionais, centrais e continentais (o Império Russo, o Império Alemão, o Austro-Húngaro e o Otomano) foram desmantelados e a influência do Império Britânico, da França e dos Estados Unidos tomou conta da Europa Ocidental. Foi o fim definitivo do Antigo Regime. Como não há grandes barreiras naturais entre a Alemanha e a Rússia, vários Estados artificiais foram erguidos na Europa Oriental como um muro de contenção para evitar o surgimento de uma única continuidade territorial. Mackinder foi um dos defensores da criação de um "cordão sanitário" na Europa Oriental para impedir que um poder europeu organizasse os recursos do Heartland para constituir um vasto império continental.

· O socialismo telúrico 

A Revolução Bolchevique foi um tipo de extensão do cordão sanitário da Europa Oriental. Em Moscou foi estabelecido um regime genocida (chamado por Mackinder de "reino czarista jacobino") que incrementou o terrorismo de Estado em níveis inimagináveis e que, com o auxilio de bancos nova-iorquinos, londrinos, parisienses e suecos [2], começou a exterminar à família Romanov, os partidários czaristas do Exército Branco, a aristocracia, os donos de terra, os anarquistas ucranianos, os cossacos (daí vem o termo "descossaquização") e os camponeses que resistiram a ser saqueados por um politburo formado maiormente por judeus que pareciam estar realizando uma vingança talmúdica contra o mundo eslavo, recriando a antiga limpeza étnica anti-grega do tempo das revoltas judaicas e do estabelecimento do cristianismo no Império Romano, tal como vimos em outro artigo.

Com uma União Soviética hostil ao Ocidente, a constituição de um eixo eurasiático não era possível. Apenas o capital dos EUA parecia oferecer refúgio à expansão do bolchevismo, que tem muitas semelhanças com o atual patrocínio da Al-Qaeda e do jihadismo internacional pelas próprias forças que supostamente lutam contra ele.

Essa caricatura, vinda da esfera lealista czarista e do Exército Branco, representa a Leon Trótski, o organizador do Exército Vermelho, como um demônio que trouxe ao país chineses para matar russos.

A principal resistência ao bolchevismo na Ásia Central veio de Roman Ungern von Sternberg (conhecido pelas tribos locais como Ungern Khan), um general czarista que lutou para libertar a Mongólia dos chineses e comunistas e que, tendo contato com as autoridades religiosas budistas e muçulmanas, formou uma frente para lutar contra as forças subversivas surgida após a revolução francesa e fortalecidas com a revolução bolchevique de 1917. Com o apoio de japoneses, o Ungern conseguiu algumas vitórias, como a tomada de Urga, a capital mongol, mas acabou sendo traído por alguns de seus mais próximos, sendo executado a mando de Lenin em 1921.

Quando os bolcheviques tomaram o controle da Rússia, os impérios petrolíferos dos EUA correram para garantir fontes de combustível que antes lhes eram fechadas. Assim — enquanto os criminosos do Tcheka, GPU, OGPU e NKVD torturavam e escravizavam os povos do Leste e o Partido Comunista enriquecia com a venda de grãos para o exterior ao mesmo tempo que camponeses do Volga e da Ucrânia morriam de fome, sem que a "Comunidade Internacional" movesse um dedo — a companhia Standard Oil (matriz das posteriores Exxon-Esso, Texaco-Chevron, ConocoPhillips, Amoco, Marathon e outras) de John D. Rockefeller, Jr. manteve importantes explorações de petróleo no Cáspio. A Vacuum Oil (mais tarde Mobil) assinaria um contrato com o sindicato soviético Nafta e doaria 75 milhões de dólares à URSS. A Anglo-Persian Oil Company (agora British Petroleum) conseguiu até mesmo fornecer petróleo bruto persa para a URSS através do Irã. Pela primeira vez na história, as potências oceânicas tinham um pé no Heartland. Graças a isso, na União Soviética — ao contrário da Alemanha, que precisava encontrar formas de refinar artificialmente o petróleo — nunca faltou petróleo durante a Segunda Guerra Mundial, durante a qual também receberia auxilio massivo dos EUA: 15,000 caças (aeronaves), 7,200 carros blindados, 500,000 caminhões e tratores, 100 navios de transporte, 12 milhões de pares de botas, mais de 50% do combustível para aviões, uma quantidade incalculável de explosivos, suprimentos, material de transmissão, milhares de quilômetros de telefonia a cabo, 70% dos pneus, 80% de cobre, trilhos de trem, locomotivas, vagões e todos os tipos de mercadorias, alimentos e munições. Os EUA chegaram a deslocar fábricas inteiras para a URSS, e quanto aos veículos, o Exército Vermelho simplesmente os recebia e pintava sob a estrela branca ianque. O Império Britânico também se apressou em seus auxílios pró-soviéticos, com seus 6,500 aviões, 5,000 carros blindados, 4,000 peças de artilharia e matérias-primas no valor de 45 milhões de libras esterlinas na cotação da época. Essa incomum aliança comercial e econômica para se livrar de um protagonista regional é raramente discutida pela historiografia oficial.

O confronto III Reich vs. USSR teve muitos elementos dos antigos confrontos da cruz contra a estrela e a meia-lua.

A ascensão ao poder do NSDAP na Alemanha foi uma reação direta do corpo nacional alemão contra o capitalismo-comunismo, tal como contra as medidas extraordinariamente duras do Tratado de Versalhes e a ideia, difundida na Alemanha e na Áustria desde o século XIX, que os judeus tinham muito mais poder e influência que lhes pertenciam e que também usavam isso em prol de seus interesses, sempre com o propósito de dominação. A mudança política na Alemanha não teria sido possível sem o apoio de vários grupos econômicos e conglomerados de interesses, geralmente correspondentes à esfera industrial-nacional e produtiva (nomes como Krupp, Flick, Bosch, Siemens, Junkers e Rheinmetall-Borsig e outros). O NSDAP conquistou mentalmente as classes operárias e camponesas do país e a Gestapo aniquilou as estruturas de poder da Maçonaria na Alemanha e na Áustria — continuando de alguma forma o trabalho que os membros da Sociedade Thule haviam realizado nos anos convulsivos que se seguiram na Primeira Guerra Mundial. A Alemanha aboliu o padrão-ouro, a usura e a especulação, estabeleceu o padrão-trabalho, entrou nos mercados da Europa Oriental e da América do Sul com o comércio de escambo, se recusou a aceitar empréstimos de instituições financeiras internacionais, atingiu o pleno emprego e sua economia e ciência decolou de uma maneira impressionante. Toda a sociedade alemã tornou-se firmemente arregimentada e integrada em várias organizações políticas que procuravam vertebrar o povo alemão para torná-lo em uma falange perfeita e etnicamente coerente: o oposto da balcanização social promovida pela globalização. No Leste, os judeus conseguiram acesso à Rússia, mas repentinamente, na retaguarda, a Alemanha estava se revoltando contra eles, colocando-os sob vigia, acabando com sua influência e promovendo sua emigração. Além disso, várias medidas de natureza racial e eugênica procuravam melhorar gradualmente a raça do povo alemão para aumentar sua força de trabalho ou capital humano, opondo-se diretamente tanto às velhas ideias cristãs quanto às novas ideias democráticas igualitárias.

Mas apesar de colher muitos frutos, a Alemanha nazista também teve alguns problemas. O mais importante foi o do lebensraum ou espaço vital. Através de sua chacina, o Reino Unido conquistou um vasto império, do qual obteve mão-de-obra e todo tipo de matéria prima, especialmente do Hindustão. O mesmo poderia ser dito da França em boa parte da África Subsaariana, ou dos Estados Unidos (que confinaram os índios a reservas) e da Rússia. Mesmo países pequenos comparados com a Alemanha, como Holanda (que possuía grandes territórios na Indonésia e na América do Sul), Bélgica (que dominava a maior parte da bacia do Congo), Portugal (que ainda controlava Angola e Moçambique, além de enclaves na Índia, China e Indonésia) e até mesmo Dinamarca (na Groenlândia) tinham enormes quintais. Por outro lado, a Alemanha, com seus 80 milhões de habitantes, não dispunha de um espaço tão vital, pois em 1919 fora arrebatada de suas possessões africanas e de todo o território conquistado na frente oriental. Essas tentativas dos Aliados de interromper o crescimento da Alemanha a fontes de matérias-primas foram claramente feitas para provocar a eclosão da Alemanha e, portanto, outro conflito sangrento na Europa continental.

O outro problema da Alemanha era a massificação das tropas soviéticas em suas fronteiras, do qual o objetivo era lançar uma mega-ofensiva para conquistar toda a Europa. Para antecipar este ataque, a Alemanha precisava de um corredor para transportar forças militares até a fronteira com a URSS. A Prússia Oriental (principalmente de língua alemã e sentimento junker) cumpriu essa função, mas sendo separada do resto do território alemão por Danzigue, algum tipo de eixo era necessário para conectá-la. A Polônia, pressionada ferozmente por Londres e Paris, se opunha veementemente a qualquer projeto que tendesse a quebrar o cordão sanitário do qual fazia parte. O conflito fronteiriço entre a Alemanha e a Polônia tornou-se a Segunda Guerra Mundial quando o Reino Unido e a França declararam guerra à Alemanha — a URSS também invadiu a Polônia a partir do Leste, mas os Aliados nunca declararam guerra. O Pacto Molotov-Ribbentrop, junto com o anterior Tratado de Rapallo, foi o mais próximo que houve de uma colaboração germano-soviética pelas costas do mundo oceânico; e desde o início era sabido que sua duração seria curta.

Todos os movimentos alemães na Europa Oriental foram recebidos com grande alarde pela "comunidade internacional" (isto é, pela Liga das Nações, por sua vez uma organização globalista fortemente controlada por lojas maçônicas e bancos atlantistas) porque o domínio alemão não se estendia a povos do Terceiro Mundo ou mão-de-obra semi-escrava, mas sobre povos europeus de grande potencial cujo valor era indubitável, como os poloneses, os tchecos ou os eslovacos, e também era um território com um grande número de judeus que tinham uma enorme influência sobre a política internacional e o mundo econômico. Espalhadas entre essas nacionalidades, as populações alemãs da Europa Oriental foram precursoras de uma nova marcha europeia em direção ao coração da Eurásia. Para conter a lenta colonização germânica do Leste — que no passado havia organizado a Rússia e fornecido a fonte de sua aristocracia — os Aliados criaram uma barreira de Estados-tampões. Este muro norte-sul, do Báltico ao Mediterrâneo, teve que cortar o movimento oeste-leste do chamado Drang nach Osten (impulso rumo ao Leste das populações germânicas). A ideia dos poderes oceânicos era a balcanização da Europa Oriental e enfrentar os germanos e eslavos para enfraquecer qualquer concentração de poder na região estratégica, cujo domínio, sempre segundo Mackinder, oferecia controlo do Heartland.

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A presença de populações etnicamente alemãs mostra em que medida a Alemanha e a Áustria estavam começando a se tornar, no início do século XX, candidatas a organizar os recursos humanos da Europa Oriental e prolongar sua penetração em direção ao coração da Eurásia. Entre a Alemanha e a URSS, o elemento germânico e o elemento judio competiam para dominar os povos eslavos. Para isolar essas populações alemãs, os Aliados criaram após a Primeira Guerra Mundial todo um cinturão de países artificiais que mimetizavam uma represa ante a onda germanizante do Leste, frustrando toda a comunicação entre a Europa Ocidental e o Heartland. A intenção de Hitler era romper esse cerco e levar a colonização germânica do Leste ao próximo passo. Na segunda imagem, as fronteiras do Heartland são mostradas. Lembre-se que entre a planície germano-polonesa e o Heartland não há barreiras naturais importantes, é uma imensa planície de Berlim até os Montes Urais.

Nas "Conversas de Hitler à mesa", o Hitler acreditava que um Estado comercialmente fechado desde o Reno a Vladivostok era perfeitamente viável: "A Europa é auto-suficiente enquanto evitarmos que exista outro Estado-mamute para mobilizar a Ásia contra nós". Tais "Estados gigantescos" eram, obviamente, o Império Britânico e a União Soviética.

O plano de Hitler era seguir de alguma forma a estrela de Napoleão e colonizar a Europa Oriental, especialmente a Ucrânia e o Volga, com fazendeiros alemães de linhagem "nórdica" — considerados pelos nazistas os mais disciplinados ​​e criativos do mundo — governados, por sua vez, pela SS como uma aristocracia militar e política. Era o modelo geopolítico de Blut und Boden, ou "sangue e solo", defendido por Karl Haushofer, o pai da Geopolítica alemã. Hitler, que viveu grande parte de sua juventude em Viena, rejeitava o velho modelo "multicultural" da Áustria-Hungria, que buscava assimilar e germanizar culturalmente as populações submetidas. No Reich agrário e produtivo que o líder austríaco tinha em mente para os territórios conquistados na URSS, a população local eslava seria reduzida à mesma condição que os hindus tinham sido no Hindustão britânico. Deixando-se levar pelo seu sonho de germanizar etnicamente o Heartland, o Hitler dizia a seus mais próximos: 

Nós seremos o Estado mais autárquico do mundo, até mesmo em relação ao algodão. A única coisa que nos falta será o café, mas saberemos como obter uma colônia para nos fornecer. Teremos madeira em abundância e ferro sem restrições. Quanto ao manganês, seremos o povo mais rico do mundo. O petróleo será quantioso. E o potencial de trabalho dos alemães, usado aqui... Meu Deus! O que não nos dará? 

Os únicos bens que preocupavam Hitler eram café, chá e cacau, do qual o cultivo ele esperava reivindicar o Congo belga. As populações arrebatadas da URSS se tornariam um fabuloso mercado interno para exportar todos os tipos de produtos industriais fabricados na Europa Ocidental. Em uma conversa com Heinrich Otto Abetz, seu embaixador na França, em 16 de Setembro de 1941, o Hitler continuou a visualizar a formação de um bloco geopolítico que, com seus 285 milhões de habitantes, superaria em número a URSS e os EUA (embora não o Império Britânico ou a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental):

A Europa terá as suas necessidades de matérias-primas satisfeitas e terá os seus mercados de exportação nos territórios russos, pelo qual não mais necessitará do resto do comércio mundial. A Nova Rússia, a leste dos Urais, será nossa Índia, embora mais confortavelmente localizada que a da Inglaterra. O novo Grande Reich alemão terá 135 milhões de habitantes e dominará mais de 150 milhões.

A Operação Barbarossa visava claramente tomar o controle do Heartland da União Soviética, preferencialmente unindo forças com o Império Japonês, que deveria invadir a Sibéria. Também pretendia quebrar o muro das cidades judaicas que se estendiam entre o Báltico e o Mar Negro desde a época de Catarina, a Grande. Para isso, o regime nazista utilizou unidades que, como a Schutzstaffel, a Sicherheitsdienst, a Einsatzgruppen ou a polícia militarizada, realizaram massivas execuções de judeus na Frente Oriental (ações que constituíram o verdadeiro holocausto judeu dos anos quarenta). Apesar de contar com o exército mais eficaz da Segunda Guerra Mundial, devido à forte infiltração de Inteligência estrangeira na Alemanha, às ofensivas do General Inverno, ao círculo de espionagem "Lucy" (que passou informações em um triângulo de Berlim-Genebra-Moscovo), ao peso de lutar em muitas frentes, a confusão estratégica resultante da luta entre as duas possíveis operações Barbarossa (a estratégia zelosa do Estado-Maior da Wehrmacht, que consistia em marchar diretamente para Moscou, como Napoleão, e a estratégia ousada de Hitler, que consistia em fazer uma dupla-ofensiva a Leningrado e a Stalingrado para estrangular Moscou), à escassez de petróleo e também pelas forças armadas alemãs terem se desdobrado com menos brutalidade do que as soviéticas fizeram na Frente Oriental, a ofensiva alemã afogou antes de chegar à praia, fracassando praticamente às portas do Heartland.

Quando o avanço alemão começou a ameaçar o coração industrial da União Soviética, o Stalin moveu indústrias inteiras, com seus respectivos trabalhadores da parte europeia da URSS até o Heartland, onde os centros de produção e suas rotas de abastecimento para a frente, estavam fora do alcance alemão. Por meio de rotas e operações militares pouco conhecidas (rota ártica, invasão do Irã), os anglo-americanos contribuíram enormemente para o funcionamento dessas fábricas.

A marcha da Alemanha foi, na verdade, a repetição moderna da migração dos alemães do Volga e de outros movimentos alemães para o Leste Europeu. As publicações da SS costumavam inspirar-se no passado da Ordem Teutônica e dos godos na Ucrânia e no Leste para fornecer uma cobertura histórica e ideológica de suas campanhas militares. A própria SS pretendia tornar-se uma vanguarda da colonização e da civilização no estilo das legiões romanas ou das falanges de Alexandre, o Grande. Dentro da Waffen-SS, a ideia era de que, após a vitória da Alemanha, estas unidades, cobertas de prestígio, voltariam para a Alemanha para executar os traidores, os altos oficiais sabotadores e o resto do poder burguês anterior a 1933. Mas o mundo plutocrático não podia permitir que a história se repetisse e um império hostil surgisse na Eurásia. Nas palavras chocantes de Mackinder, "uma corrente de contra-filosofia purgadora deve varrer a magia negra da mente alemã". Ele continua:

Da Conferência de Casablanca veio o chamado para destruir a principal filosofia alemã. Isso só pode ser feito irrigando a mente alemã com a água limpa de uma filosofia rival. Presumo que, digamos, dois anos a partir do momento em que a ordem do "cessar fogo" for dada, os Aliados ocuparão Berlim, julgarão os criminosos, consertarão as fronteiras no local e completarão outros tratamentos cirúrgicos para que a geração mais velha na Alemanha, que morrerá impenitente e amargurada, não possa mais deturpar a história para a geração mais nova. (...) No entanto, o canal contaminado pode ser limpo de forma muito eficaz se for controlado por fortes instituições de poder em ambos os lados ― poder terrestre a leste, no Heartland, e poder marítimo a oeste, na bacia do Atlântico Norte. 

Mackinder, talvez plenamente ciente disso, estava descrevendo o estabelecimento da Escola de Frankfurt (matriz do pensamento politicamente correto e progressista, nascido no período intra-guerras), do Pacto de Varsóvia e da OTAN, com o objetivo de destituir o povo alemão como uma comunidade guerreira e o Estado alemão como uma nação soberana capaz de abrigar sua própria vontade e de apoiar a Europa contra as potências estrangeiras. Essas medidas tiveram que ser completadas com a aniquilação da Prússia — onde se encontrava a fonte da tradição militar alemã — e a brutal limpeza étnica dos prussianos nos territórios que agora são poloneses. O restante das populações etnicamente germânicas (Volksdeutsche) do Leste Europeu teria o mesmo destino. Como o próprio Mackinder dizia que o alemão do norte estava "entre as raças mais viris da humanidade", não se podia permitir que essa raça voltasse a organizar o potencial do Leste Europeu como alternativa de poder aos bolcheviques de Moscou e a plutocrática de Nova York e da Cidade de Londres — ambas fortemente subservientes à internacional judaica e aos interesses da usura globalista.

Como resultado deste sinistro plano de engenharia geopolítica, milhões de mulheres, meninas e até mesmo senhoras alemãs e eslavas foram estupradas; a Europa Oriental foi tomada por atrocidade, fome, doenças, perseguição e terror, campos de concentração foram erguidos para prisioneiros alemães, cidades inteiras foram devastadas na Europa Central (a doutrina genocida do bombardeio estratégico foi idealizada por dois judeus, Solly Zuckerman e Frederick Alexander Lindeman, também conhecido como Lord Cherwell, além de Arthur Harris, um chauvinista inglês falante de língua alemã), milhões de cidadãos foram privados de seus direitos mais básicos, a indústria alemã foi aniquilada em uma tentativa de mandar o país de volta à Idade Média, a arte Nacional Socialista foi destruída de maneira similar à arte clássica no século quinto, e os britânicos entregaram várias populações de refugiados (por exemplo, cossacos) para Stalin, sabendo que seriam exterminados.

Nem o Plano Morgenthau (concebido pelo Secretário do Tesouro dos EUA, o judeu Henry Morgenthau, Jr.), nem o panfleto "A Alemanha deve perecer" (escrito pelo igualmente judeu Theodore N. Kaufman), que solicitou diretamente o desmantelamento da Alemanha e da castração do povo alemão, chegou a ser executado inteiramente devido à reticência de muitos generais Aliados. Um desses generais era o norte-americano Patton, do qual sua ideia sobre o tratamento de um inimigo valoroso e valente não condicia com o ressentimento de homens como Eisenhower, para quem a "des-nazificação" era uma palavra-chave para "genocídio". Mesmo assim, as políticas dos Aliados custaram entre 9 e 12 milhões de vidas alemãs.

· A Guerra Fria    

Na União Soviética aconteceria uma mudança notável. Stalin, que era um estadista bem impiedosamente pragmático, percebeu durante a Segunda Guerra Mundial que a "luta de classes", o ateísmo e a filosofia "de pé, ó vitimas da fome!" poderia atrair pensadores decadentes, lumpemproletariados e outras entidades apátridas, mas não era o suficiente para conquistar milhões de camponeses eslavos e ortodoxos que morreriam por sua pátria na guerra mais feroz da história da humanidade. Reconhecendo este fato, o Stalin mudou o hino "A internacional" para um hino nacional, se apropriou da luta contra o invasor da Igreja Ortodoxa russa e até fez discursos lembrando "nossos ancestrais" Alexandre I de Quieve e Demétrio de Moscou. Stalin era um georgiano com alguma ascendência judaica e sua linhagem paterna G2a1a não tinha relação com o R1a predominante da maioria dos russos, mas ele se viu forçado a recorrer a esses mitos para inspirar os eslavos em sua luta contra os germanos.

A virada de Stalin selou definitivamente sua ruptura com a causa internacionalista, representada pelo fantasma de Leon Trotsky, e fez da URSS um Estado nacional. Quando o Estado de Israel foi estabelecido no Levante em 1948, logo ficou claro que o novo país cairia sob a órbita atlantista. Em Outubro daquele ano, a embaixadora de Israel, a Golda Meir, visitou uma sinagoga no centro de Moscou e os judeus se reuniram aos montes para honrar a dignitária. Tudo isso alarmou as autoridades, que viam o sionismo como uma ameaça ao nacionalismo soviético. Stalin diria em um discurso no Politburo em 1 de Dezembro de 1952 que "todo sionista é um agente da espionagem americana. Os nacionalistas judeus pensam que sua nação foi salva pelos Estados Unidos, onde podem se tornar ricos e burgueses. Eles pensam ter uma dívida para com os americanos". Em 13 de Janeiro do ano seguinte apareceu no Pravda (jornal do Partido Comunista) a manchete "Prendam os médicos assassinos" no qual foi denunciada "uma conspiração de sionistas burgueses" organizada pela CIA e pelo Congresso Mundial Judaico.

Na purgação antissemita de 1948-1953, "cosmopolitas sem raízes" se tornou um eufemismo para "judeus sionistas" e houve vários golpes contra a influência judaica na União Soviética, incluindo a prisão e execução de membros do CJA ou Comitê Judaico Anti-fascista (acusado de "nacionalismo burguês", referindo-se aos israelenses, e de querer estabelecer em Crimeia uma cidade-satélite judaica dos Estados Unidos) e a chamada Noite dos Poetas Mortos, na qual vários escritores judeus foram executados secretamente na temida prisão moscovita de Lubianka.

Nestes ventos estranhos do stalinismo tardio, havia motivos geopolíticos fortemente relacionados a Israel e à formação da OTAN (1949), mas também havia outros fatores, como a rivalidade entre o GRU (serviço de Inteligência militar com laços czaristas) e o NKVD (serviço de Inteligência política e de segurança do Estado) e o fato de que Stalin sempre teve aquela paranoia de que podia ser deposto. As campanhas antissemitas de Stalin culminaram no Complô dos Médicos Judeus: segundo o ditador, um círculo de médicos de Moscou conspiravam para envenenar altos líderes soviéticos, incluindo o próprio Stalin, tendo conseguido assassinar Andrei Jdanov (que seria seu sucessor). O caso acabou afetando os judeus em geral e muitos foram demitidos de seus empregos, presos, enviados para o Arquipélago Gulag ou executados. Durante os julgamentos, foram publicadas matérias antissemitas na mídia e parecia que o antigo antissemitismo russo estava revivendo: fecharam escolas, teatros e museus judaicos, dissolveram coros, e a literatura judia, antes protegida pelo regime, foi suprimida das bibliotecas. Voltaram os tempos de pogroms na Rússia? Os judeus começaram a ser sistematicamente tirados de posições de liderança no exército, na administração, na imprensa, nas universidades e no mundo judicial. O processo se espalhou em muitos países do futuro Pacto de Varsóvia: na longínqua Checoslováquia, o presidente Klement Gottwald anunciou que "durante a investigação e o julgamento do centro de conspiração anti-estatal descobrimos um novo canal através do qual a traição e a espionagem penetram no Partido Comunista: o Sionismo". Stalin também assinou sentenças de morte para a Romênia, Hungria, Alemanha Oriental e outros países do Leste Europeu.

Essa caricatura, que parece mais típica de panfletos antissemitas nazistas do semanário "Der Stürmer" do que de uma publicação soviética, apareceu na revista "Krokodil" em Janeiro de 1953. Um médico judeu, pago pelos Estados Unidos, é desmascarado pelo serviço de Estado. Na mesma edição, a revista ataca os banqueiros ocidentais, os "reis do armamento", os generais nazistas, o Vaticano e a "conspiração sionista".

A comunidade judaica começou a temer que o processo com os médicos fosse um pretexto para deportar todos os judeus da URSS para campos de concentração na Sibéria. No entanto, esses planos, já discutidos no Politburo, foram interrompidos com a misteriosa morte de Stalin em 1953. O principal beneficiário e provável arquiteto de sua morte, o judeu Lavrenti Beria, seria deposto meses depois por um golpe liderado por Nikita Khrushchev, anteriormente encarregado das operações em Stalingrado. Beria foi interrogado no Lubianka e depois o general Pavel Batitsky deu-lhe um tiro. Certamente, os negócios obscuros dos médicos nunca se aclararão. No entanto, uma coisa é clara: para que União Soviética passasse, de um Estado claramente criado e controlado por judeus, sendo o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel, a perseguir o mencionado no mais puro estilo czarista e a se alinhar com poderes anti-israelenses como o Egito e a Síria — onde a influência da antiga Inteligência alemã era forte — algo muito estranho aconteceu.

O que sabemos realmente é que a URSS se tornou uma potência nacional e anti-globalização. É assim que no "Dicionário Soviético de Filosofia" de 1965 podemos ler que o Cosmopolitismo é uma

Teoria burguesa que exorta à renúncia dos sentimentos patrióticos, da cultura e das tradições nacionais em nome da "unidade do gênero humano". O cosmopolitismo, tal como o propugnam os ideólogos burgueses contemporâneos, expressa a tendência do imperialismo ao domínio mundial. A propaganda cosmopolitismo (da ideia de criar um governo para todo o mundo) debilita a luta dos povos pela sua independência nacional, pela sua soberania como Estado. 

Sem dúvida, a Rússia caiu muitas vezes, mas nunca parou de se reciclar como um império. É curioso que a Guerra Fria tenha terminado em 1991, logo no final da construção da ferrovia Baikal-Amur, concebida como uma alternativa estratégica para a Transiberiana em seus segmentos mais próximos da China e, portanto, mais vulnerável.

Na época da Guerra Fria, havia dois movimentos notáveis ​​dentro do Heartland: um era a Ruptura Sino-Soviética, na qual a China estava se afastando da URSS para se aproximar dos EUA. Após este evento, a Índia estaria alinhada com a URSS e o Paquistão com os EUA. Vários marcos marcam a aproximação da China aos EUA e, portanto, a consolidação da Chimérica, por sua vez essencial para a futura globalização. Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras, sendo assim, podemos revisar esses marcos em imagens:

Mao Tsé-Tung e David D. Barrett.
Yan'an, China, 22 de Julho de 1994.
David D. Barrett e Zhu De. Lugar e data desconhecidos.
George C. Marshall e Mao Tsé-Tung.
Yan'an, China, 20 de Dezembro de 1945.
Zhou Enlai e Henry Kissinger.
China, Julho, 1971.
Mao Tsé-Tung e Richard Nixon.
Pequim, China, Fevereiro de 1972.
David Rockefeller e Zhou Enlai.

Mackinder havia previsto:

No devido tempo, a China receberá capital em uma escala generosa como uma dívida de honra para ajudá-la em sua romântica aventura de construir uma nova civilização, nem muito oriental nem muito ocidental. Então, o ordenamento do Mundo Exterior será relativamente fácil, com a China, os Estados Unidos e o Reino Unido à frente.

O que esses laços transpacíficos implicam é que a revolução comunista na China foi na verdade outro episódio das guerras do ópio do século XIX. Os EUA queriam fortalecer o Partido Comunista Chinês para primeiro lutar contra os japoneses e depois contra os nacionalistas de Chiang Kai-shek, retratados por membros da Missão Dixie como "fascistas" e "senhores feudais". Massivamente financiados pelo tráfico de ópio [3], os maoístas prepararam a China para seu futuro tecno-industrial a serviço da globalização: as tradições chinesas foram aniquiladas, a intelligentsia exterminada e as políticas agrária e industrial do "Grande Salto Adiante" (1958-1961) produziu dezenas de milhões de mortes. A Revolução Cultural de 1966-1971 expurgou a maioria dos vestígios da tradição chinesa atacando especialmente professores e anciões: agora o Antigo Regime também estava chegando ao fim na China. Em suma, o gigante asiático estava finalmente pronto para convergir com a plutocracia ocidental, que viria a "hongkongizar" gradualmente todo o país.

O fim da revolução cultural assistiria a uma série de reuniões entre os principais líderes da China e dos Estados Unidos. David Rockefeller, depois de ter visitado o país, declarou em 10 de Agosto de 1973 que "Qualquer que tenha sido o preço da Revolução Chinesa, obviamente teve êxito não só produzindo uma administração mais dedicada e eficiente senão inclusive no fomento de uma alta moral e propósito comunitário. (...) A experiência social na China, sob a liderança de Mao, é uma das mais importantes e bem sucedidas na história humana". Graças à abertura da China, o banco rockefelleriano — o Chase Manhattan Bank — tornou-se o primeiro sócio estadunidense do Banco Nacional da China, e Washington reconheceu o regime chinês (em detrimento de Taiwan), permitindo-lhe entrar no Conselho de Segurança da ONU. Todas essas operações de engenharia social e econômica explicam o status atual da China como um pilar essencial da globalização capitalista e neoliberal.

O outro grande movimento no Heartland, junto com a Revolução Islâmica de 1979 no Irã, foi a relação entre a URSS e o Afeganistão, que produziria o movimento "jihadista internacional" quando os serviços de Inteligência dos EUA, Reino Unido, Arábia Saudita e Paquistão envolveram-se no conflito. Os planos estratégicos do general Sergei Shtemenko (que estava na lista negra dos "médicos judeus"), um dos geoestrategistas mais proeminentes da URSS, ao lado do almirante Gorshkov e do marechal Ogarkov, incluíam uma penetração pacífica e cultural no Afeganistão, bem como a entrada das tropas soviéticas em várias capitais árabes (Damasco, Beirute, Cairo, Argel). A invasão afegã de 1979 foi um grande erro do alto comando soviético, já que desestabilizou a Ásia Central, precipitou o Afeganistão ao fundamentalismo islâmico e contribuiria ao sangramento econômico e ao caos social que, por sua vez, teria peso no colapso da URSS ou, nas palavras de Vladimir Putin, "a maior catástrofe geopolítica do século XX".

· Globalização  

Após a queda da Cortina de Ferro, a URSS perdeu metade de sua população e um quarto de sua superfície, tornando-se a Federação Russa. Durante o caótico reinado de Boris Iéltsin, de 1991 a 1999, a Rússia foi saqueada por oligarcas mafiosos (a maioria judeus) e por multinacionais estrangeiras. A OTAN se aproveitou para ganhar influência nas repúblicas ex-soviéticas e os serviços de Inteligência atlantista estabeleceram hubs (centro de conexão) na Federação. Parecia que uma cultura e um poder iriam conquistar o mundo: uma corrente absoluta e global, neomarxista na cultura e capitalista-neoliberal na economia.

Naquela época estava claro que os globalistas são os internacionalistas de nosso tempo, os novos "cosmopolitas sem raízes" que buscam dissolver todos os povos, Estados, religiões e sinais de identidade em detrimento de um governo mundial ou mundo unipolar, que, controlados por uma minúscula elite financeira — que, é claro, não se dissolverá no maremagnum étnico que promove para os outros — dominará um rebanho mundial desenraizado e sem os pilares de identidade coletiva em torno dos quais se organizar. A deslocalização corporativa, a desertificação industrial do Ocidente, as dívidas, juros, tráfico de drogas, feminismo, pornografia, sequestro de mulheres, imigração em massa, ataques terroristas de bandeira falsa e engenharia social para modificar o comportamento de povos inteiros são as armas dos novos cosmopolitas sem raízes. É a forma moderna de monoteísmo (pensamento único, uniformização) contra o politeísmo (diversidade de centros de poder e pensamentos).

Mas esses cosmopolitas são meros servidores de uma entidade que, como os Estados e as multinacionais, também se comporta como um organismo vivo: o Capital. O Dinheiro — quando não equivale a trabalho ou produtos, sendo ele próprio uma mercadoria e, portanto, se tornando uma abstração extremamente perigosa — é o Diabo, e as grandes concentrações de capital tendem muito facilmente adquirir vontade própria e lutar por seus próprios interesses: concentrar e aumentar para se apropriar do trabalho humano, as mercadorias que produz e as pessoas que vivem para produzi-la e consumi-la. Para isso, é claro, o Grande Capital deve expropriar as concentrações modestas de capital que não estão em suas mãos, especialmente os fundos soberanos dos Estados e as poupanças do cidadão comum: para que alguns possam ser muito ricos, alguns precisam ser muito pobres.

A situação na Rússia foi revertida depois de 1999, em um lento processo de reconstrução do antigo poder russo, graças ao qual hoje em dia a Federação é mais uma vez uma superpotência capaz de lidar mano-a-mano com os outros pesos pesados ​​do tabuleiro mundial. Quando, em 2006, o oligarca Mikhail Khodorkovsky foi mandado a uma prisão na Sibéria, depois foi espancado por um detento e depois posto em confinamento solitário, quando, em 2009, Putin sentou na mesa com vários oligarcas e forçou Oleg Deripaska, o homem mais rico da Rússia, a assinar um documento fundamental, quando, em 2013, Boris Berezovsky foi encontrado morto na Inglaterra, a mensagem foi lançada: a Rússia não é uma lacaia da globalização decretada pela Cidade de Londres e Nova York, mas uma potência independente com seus próprios interesses.

Os movimentos estratégicos que ocorreram após a queda da cortina serão vistos na segunda parte deste artigo.

SEGUNDA PARTE

A menos que eu malinterprete os fatos da geografia, eu diria que o agrupamento de terras e mares, e de fertilidade e rotas naturais, é tal que se presta ao crescimento de impérios e, no final, de um único império mundial. — (Mackinder)

A BANANA VERMELHA   

A Europa é um centro nevrálgico da civilização moderna, como a Lestásia (Leste da Ásia), América do Norte e outros centros menores, mas dentro da Europa Ocidental há uma crescente faixa particularmente importante, chamada em alemão Blaue Banane ou Banana Azul. A Banana Azul vai da Inglaterra para a Lombardia e coincide aproximadamente com o reino medieval de Lotaríngia, assim como com o chamado Caminho Espanhol do século XVI. No Renascimento, a radical heresia calvinista balcanizou este espaço econômico cortando-o em seus dois pontos geograficamente mais vulneráveis: sua barreira montanhosa (Suíça) e sua barreira marítima (Holanda), esperando que assim o Sacro Império Romano-Germânico, naquela época unido ao Império Espanhol sob a mesma coroa, não conquistasse a hegemonia na faixa vital ou nas costas continentais do Canal da Mancha. Desde então, a estratégia do Império Britânico tem sido destinada a desestabilizar a Banana Azul, estimulando as divisões territoriais e as rivalidades regionais (especialmente entre a França e a Alemanha), bem como o surgimento de Estados artificiais como a Bélgica e a Holanda, cujo objetivo é dividir o espaço marítimo e as costas que estão à frente da Grã-Bretanha, para que não caiam sob o poder de uma potência hegemônica do outro lado do Canal da Mancha. Essa tática foi eufemisticamente chamada em Londres de "equilíbrio de poder". Como um exemplo da dinâmica claramente geográfica de muitos processos econômicos, a Revolução Industrial, originada em uma das extremidades da Banana Azul (Inglaterra), expandiu-se primeiro para a Bélgica, depois para a França, Alemanha e Lombardia.

A chamada Banana Azul vai da Grã-Bretanha ao norte da Itália e foi estabelecida desde as lutas entre os francos e os saxões durante o tempo de Carlos Magno, embora sua importância cresceu após o Renascimento. De orientação ocidental e oceânica, separa claramente a Europa Atlântica (Ilhas Britânicas, Ibéria e França) do resto do continente. A antiga capital de Carlos Magno, Aachen, dominava essa faixa.

Somente o Império Bizantino, Veneza, Castela e a Comunidade Polaco-Lituana vieram ofuscar a Banana Azul, mas no século XIX, duas potências alemãs ― a Prússia na bacia do Báltico e a Áustria na bacia do Mar Negro ― ameaçaram vertebrar toda a Europa Oriental, constituindo uma faixa econômica alternativa à qual podemos chamar de "Banana Vermelha", orientada para o Leste e, portanto, para o Heartland e a integração eurasiática. As áreas urbanas, industriais e de mineração da Prússia Oriental, Pomerânia, Silésia, Sudetos, Boêmia, Morávia, Áustria, Hungria e Croácia, unidas sob um único poder unificador: o germanismo. A Banana Vermelha era quase exclusivamente continental, fornecia uma ponte entre o Mediterrâneo e o Báltico, não havia espaço marítimo divisor (como o Canal da Mancha no caso da Banana Azul), a balcanização era inexistente, com espaço controlado por apenas dois Estados aliados (ao contrário da Banana Azul, dividida entre o Reino Unido, os Países Baixos, Bélgica, França, Alemanha, Luxemburgo, Suíça, Liechtenstein e Itália) e mais importante: nenhum desses Estados era o Reino Unido.

A Banana Vermelha lembra a antiga Rota do Âmbar. A Europa em 1914, antes da Primeira Guerra Mundial, tinha fronteiras geopoliticamente muito mais harmoniosas e coerentes do que as que vieram depois. O Império Alemão e o Império Austro-Húngaro tinham sido um eixo central de Berlim-Viena ligando o Báltico ao Mediterrâneo, libertando-os em grande parte da dependência das rotas marítimas controladas pelo Reino Unido e pela França. A Banana Vermelha que estava se formando era orientada para o Leste, portanto para o Heartland e a vertebação da Eurásia, ao contrário da Banana Azul, orientada para a Europa Ocidental e o Mediterrâneo — isto é, o Atlântico Norte, o coração do poder marítimo. As fronteiras traçadas pelo Tratado de Versalhes tiveram o efeito de balcanizar esse promissor espaço econômico alternativo germano-eslavo do Leste Europeu em inúmeros Estados, muitas vezes confrontando-se mutuamente e com governos onde era forte a influência da diplomacia e da espionagem do Reino Unido e França. Antes da Segunda Guerra Mundial, o III Reich estava em vias de constituir uma faixa muito semelhante à representada aqui, talvez mais voltada para o noreste da Itália. Veja também que a faixa coincide em boa medida com a Cortina de Ferro da era da Guerra Fria.

A consolidação definitiva de um espaço econômico comum em torno do eixo da Banana Vermelha teria automaticamente fornecido ao Heartland um centro nervoso, de modo que a internacional financeira, oceânica e subversiva impôs a Primeira Guerra Mundial e a necessidade de desmantelar os impérios centrais, semeando o caos no mapa da Europa Oriental (ao ponto de que "balcanização" significa hoje desestabilização geopolítica) e estabelecer as bases para um futuro conflito ainda maior. O Tratado de Versalhes de 1919, mais do que um tratado de paz, foi uma declaração de continuação da guerra contra a Europa Central e a Europa Oriental.

A Alemanha nazista retomou o antigo projeto da Banana Vermelha. Além disso, também realizou um pleno assalto ao Heartland eurasiático, na verdade, se adiantando algumas semanas da invasão planejada durante anos por Stalin. Tanto a Prússia Oriental (via Danzigue) quanto a Rutênia Subcarpática (potencial embrião de um Estado fantoche ucraniano direcionado à Alemanha) estavam destinadas a se tornarem trampolins para esse assalto. Embora a URSS-Heartland fosse um corpo em busca de uma cabeça e o III Reich-Banana Vermelha uma cabeça em busca de um corpo, a aliança entre os dois poderes era impossível, entre outras coisas porque a URSS emergira como um projeto da Alta Finança para evitar a vertebração da Eurásia e precipitar a Europa continental à destruição, em benefício das potências periféricas do mundo, em cujo solo nem uma única batalha seria travada. De fato, a Alemanha foi devastada por uma coalizão incomum de capitalistas e comunistas e, depois de 1945, a Banana Azul tornou-se o eixo anti-Europa: hoje em dia, cidades da Banana Azul como Bruxelas, Estrasburgo, Maastricht, Haia, Luxemburgo, Genebra, Basileia, Estugarda e Frankfurt são centros de várias potências internacionais (ou talvez "anti-nacionais"), incluindo a OTAN, a União Europeia, o Eurocorps, o Conselho Europeu, o Parlamento Europeu, o Instituto Nacional de Direitos Humanos, o Banco Central, o AFRICOM do Pentágono, o Tribunal Internacional de Justiça, a Organização Mundial de Saúde, o Banco de Compensações Internacionais, a Organização Mundial do Trabalho, a Cruz Vermelha e a Organização Mundial do Comércio. A própria UE vem da Organização para a Cooperação Econômica Europeia (OECE), cujo objetivo era em principio administrar os auxílios do Plano Marshall. Enquanto isso, a Banana Vermelha foi dividida em duas pela Cortina de Ferro e, desde 1990, nunca mais foi a sombra do que era.

Uma das lições que podemos extrair da teoria das bananas é que eixos e rotas verticais tendem a abalar a Europa, dividindo-a em partes isoladas. Somente os eixos horizontais, isto é, o Leste-Oeste, ajudam a unir esta península da Ásia, que é a Europa ― a partir da qual se pode deduzir que a planície Norte-Europeia, a estepe, o corredor do Danúbio, o Caminho de Santiago e o Mediterrâneo são os cinco eixos que devem inspirar uma verdadeira organização do continente.

A TEORIA DO HEARTLAND    

Quem governa o Leste Europeu controla o Heartland; quem governa o Heartland controla a Ilha Mundial; quem governa a Ilha Mundial controla o mundo. ― (Mackinder)
Quem governa a Boêmia, controla a Europa. ― (Bismarck)

A regra de ouro de Mackinder poderia ser traduzida como "Quem une a Europa com o coração da terra, dominará o coração da terra e, portanto, a Terra". O Heartland não tem um centro nervoso claro e pode ser definido como um corpo em busca de uma cabeça. Dado que entre o Heartland e a Europa não há barreiras geográficas naturais (cadeias de montanhas, desertos, mares e mais), a cabeça mais viável para o coração é claramente a Europa, seguida a grande distância pela China, Irã e Índia.

A marcha da humanidade europeia em direção ao coração da Ásia culminou quando a cultura grega foi introduzida na Mongólia: hoje a língua mongólica é escrita com caracteres cirílicos de herança greco-bizantina, significando que a queda de Constantinopla realmente projetou a influência bizantina muito mais a leste do que os imperadores ortodoxos poderiam imaginar. No entanto, a tarefa da Europa não termina aqui, já que apenas a Europa pode empreender o empreendimento que faz do Heartland o poderoso espaço fechado profetizado por Mackinder.

O mundo de acordo com Mackinder

A fim de aprofundar o assunto, é necessário nos familiarizarmos com a cosmogonia mackinderiana, que dividiu o planeta em vários domínios geopolíticos claramente definidos.

• A Ilha Mundial é a união da Europa, Ásia e África, e a coisa mais próxima que existe na terra para a Pantalassa ou Oceano Mundial. Dentro da Ilha Mundial está a Eurásia, a soma da Europa e da Ásia, que é uma realidade mais separada da África desde a abertura do Canal de Suez em 1869, que permitiu que o poder marítimo envolvesse ambos os continentes.

• O Heartland não precisa de muita introdução. A teoria mackinderiana parte da base de que o Heartland é uma realidade geográfica no coração da Ilha Mundial, da mesma forma que a Ilha Mundial é uma realidade geográfica no seio do Oceano Mundial.

• O Rimland, também chamado de Crescente Interior ou Marginal, é uma enorme faixa de terra que circunda o Heartland e que consiste nas bacias oceânicas anexadas a ele. Pentalásia, os Bálcãs, a Escandinávia, a Alemanha, a França, a Espanha e a maior parte da China e da Índia, estão no Rimland.

• A Crescente Exterior ou Insular é um conjunto de domínios ultramarinos periféricos, separados da Crescente Interior por desertos, mares e espaços congelados. A África Subsaariana, as Ilhas Britânicas, as Américas, o Japão, Taiwan, a Indonésia e a Austrália estão localizadas na Crescente Exterior.

• O Oceano Mediterrâneo (Midland Ocean) é o Hearland do poder marítimo. Mackinder definiu o Oceano Mediterrâneo como a metade norte do Atlântico mais todos os espaços marítimos tributários (Báltico, Baía de Hudson, Mediterrâneo, Caribe e Golfo do México). Lembre-se de que as maiores bacias fluviais do mundo são aquelas que correm para o Atlântico — depois vêm as do Ártico e apenas a terceira vem das bacias do Pacífico.

Em outros artigos, o Mackinder propõe outra divisão geográfica para a Ilha Mundial. O Heartland, que é estendido na Europa Oriental e na China, as "costas monções" (vagamente a Lestásia), "Arábia" (do vale do Nilo aos Zagros), as "terras costeiras europeias" (incluindo a Anatólia e parte do Magrebe) e, separado do resto da Ilha Mundial, o "Heartland do sul", ou seja, todo o continente africano, exceto o Saara e as partes pertencentes à Arábia. Notar-se-á que a "Arábia" é dividida pelo Canal de Suez e atualmente pelo Estado de Israel. É surpreendente que Mackinder não incluísse a costa da província líbia de Cirenaica na Europa.

Extensão do Heartland e a importância do Leste Europeu    

O Hindustão e a China, separados do resto da Eurásia pelos desertos e enormes cadeias de montanhas, são continentes separados com muito mais razão do que a Europa, cuja conexão com a Eurásia é aberta, plana e, em suma, de "banda larga". Portanto, para Mackinder, as relações geográficas do Heartland com a Europa (e em menor medida com o Oriente Médio) eram muito mais íntimas do que suas relações com a China e a Índia — portanto, segundo ele, governar o Leste Europeu significa controlar o mundo, o fluxo entre a cabeça (Europa) e o resto do corpo (o Heartland). Como a Europa, diferentemente da China e da Índia, carecia de barreiras geográficas para isolá-la do Heartland, havia a necessidade de erigir uma barreira artificial no Leste Europeu, contrariando, por assim dizer, a vontade da Terra, que é a de manter um fluxo bidirecional de influências através da estepe. Mesmo assim, Mackinder via a Europa como uma ilha natural:

No mapa "O ponto de vista do marinheiro", o Mackinder representa a Europa como uma ilha natural cercada por um anel: gelo ao norte, deserto ao sul e as bacias endorreicas e árticas isoladas a leste. Segundo Mackinder, as únicas saídas naturais que a Europa poderia usar para sair do anel eram as "rotas das caravanas" na Pentálasia e o "vento comercial" que levava às Américas. Este mapa mostra claramente a importância da estepe eurasiática como a rota mais lógica para quebrar a insularidade europeia.

Em 1919, o Mackinder estende o Heartland para incluir as bacias do Mar Báltico e do Mar Negro (com exceção do Danúbio da Baviera).

A nova descrição do Heartland. Mackinder considerava que o Báltico e o Mar Negro, estando perfeitamente bloqueados por uma potência continental, deveriam ser considerados como sujeitos ao Heartland eurasiático; a zona marcada em rosa na Europa Oriental representaria, portanto, o primeiro passo lógico na expansão da influência do Heartland. O mapa resume o que aconteceria se o Canal de Kiel, o Estreito de Escagerraque, o Bósforo e os Dardanelos fossem bloqueados, tirando o Mar Negro e o Báltico do seio do Oceano Mundial e transformando-os em lagos interiores inacessíveis à navegação oceânica. Mackinder excluiu o Danúbio da Baviera (que é representado neste mapa) porque tem pouco valor para navegação e, em vez disso, adicionou o que viria a ser a Alemanha Oriental (que não está representada no mapa). Ele também acrescentou ao Heartland as partes altas e montanhosas dos rios chinês e hindu, tão inacessíveis à navegação oceânica quanto o Lena ou o Volga. Se pode ver o papel central da Alemanha, percorrendo três bacias diferentes: o Mar Negro (Baviera e Áustria), o Mar do Norte (Saxônia, Renânia, Westfália) e o Báltico (Prússia). Para evitar a perda da bacia do Mar Negro, Mackinder propôs que a Liga das Nações (antepassada da "Comunidade Internacional" de nossos dias) concedesse à República Americana e ao Império Britânico nada menos do que o papel de "governantes da paz dos oceanos" e o controle dos estreitos que ligam as bacias dos vários espaços marítimos, transformando Istambul em a "Washington da Liga das Nações". Para conseguir algo semelhante no Báltico, foi criado o corredor de Danzigue, que dividiu a costa báltica da Alemanha em duas.

No entanto, existem muitas razões pelas quais as bacias do Mar Báltico e do Mar Negro não podem ser consideradas parte do Heartland, pelo menos no presente. Por exemplo, a Turquia pertence à OTAN, a Geórgia era aliada dos EUA até pouco tempo (note que é o caminho mais curto entre o Heartland e o Mar Negro) e tanto os países Bálticos como a Polônia foram integrados na OTAN e na União Europeia. Até mesmo o Cáspio é duvidoso, já que o Azerbaijão é pseudo-aliado de Israel na região. Portanto, esta área anexada não pode ser considerada parte do Heartland até que o Báltico esteja definitivamente fechado ao Atlântico e uma potência continental reconquiste Constantinopla fechando o Mar Negro.

Sem embargo, a primeira extensão lógica do Heartland nos dá algumas pistas. Por exemplo, tanto Montenegro como Kosovo, ao pé dos Alpes Dináricos, aparecem, juntamente com Istambul, como tentativas atlantistas de impedir que a influência russa penetre na bacia do Mar Negro ― que mais domina graças a Sevastopol, Odessa e Transnístria ― penetrando o Mediterrâneo, puxando a Grécia do resto da Europa e unindo-a com a Sérvia, Chipre, Síria e, do outro lado do "arco ortodoxo", Armênia, agarrando a Turquia. Mackinder pensava que "nestes tempos de submarinos e aviões, a posse da Grécia por um poder do Heartland provavelmente implicaria o controle da Ilha Mundial; a história da Macedônia seria recriada". 

Alemanha segundo Mackinder — Realpolitik, Kultur, Weltanschauung, Escola de Munique e Geopolitik de Haushofer  

A obra de Mackinder nasceu em uma época que Londres estava profundamente preocupada com os avanços do Império Alemão e do Império Russo. Em 1909, apenas cinco anos antes do início da Primeira Guerra Mundial, o governo britânico fundou o Escritório de Serviço Secreto (iniciativa do Almirantado Britânico com o Departamento de Guerra) para monitorar as atividades do governo imperial alemão. Mackinder sempre teve em mente a ameaça imposta ao Império Britânico por um poder autoritário e continental em busca de hegemonia na Eurásia Central, com vistas a organizar seus recursos. Em "O pivô geográfico da história", o Mackinder é obcecado pelos possíveis organizadores do Heartland: Japão através da Manchúria; A China, presumivelmente, através da Mongólia e do Uiguristão; o Império Russo por sua simples possessão da maior parte do Heartland (surpreendente que não mencione a Turquia ou a Pérsia), e especialmente a Alemanha através da Europa Oriental, considerando em particular que se Alemanha e Rússia se aliassem, seria o fim do Império Britânico e o começo de um novo império mundial:

A reviravolta do equilíbrio de poder em favor do Estado pivô, resultando em sua expansão sobre as terras marginais da Eurásia, permitiria o uso de vastos recursos continentais para a construção de frotas navais, e o império mundial estaria à vista. Isso poderia acontecer se a Alemanha se aliasse à Rússia.

Ainda que o Império Britânico tendia a penetrar ao Heartland para o qual segundo Mackinder era a fronteira mais preocupante e volátil de todo o Império (o noreste da Índia britânica, isto é, o que hoje é a fronteira AfPak e a faixa da FATA [Território Federal das Áreas Tribais] do Paquistão), a região claramente favorecia o poder terrestre sobre o poder marítimo e, portanto, o Reino Unido nunca poderia competir contra o Império Russo nos campos de batalha da Eurásia. Londres também não pôde fazer nada na Europa Oriental contra Berlim e Viena... exceto confrontar as várias potências regionais continentais entre si.

Prússia em 1795. Juntamente com a Áustria, foi o núcleo de influência germânica na Europa Oriental. Note como isso coincide principalmente com a Polônia moderna. A aventura política prussiana, herdeira da antiga Ordem Teutônica, terminou abruptamente nos anos 1944-46 com a deportação e o genocídio dos prussianos pelas mãos do Exército Vermelho.


Os alemães haviam fundado no século XIX uma escola geoestratégica baseada na terra: a Geopolitik. Os geógrafos Alexander von Humboldt, Carl Ritter e especialmente Friedrich Ratzel lançaram suas fundações, mas seria o geógrafo e militar Karl Haushofer, discípulo direto de Ratzel, que refinaria a nova ciência no início do século seguinte. Mackinder admirava a escola cartográfica alemã, afirmando que, se alguém desejasse um bom mapa, deveria procurá-lo na Alemanha, concluindo, a partir desse fato revelador, que a Alemanha estava criando um pensamento estratégico muito bem preparado para a dominação mundial. Foi um professor alemão, o geógrafo Ferdinand von Richthofen, tio do "Barão Vermelho", que cunhou o termo "Rota da Seda" (Seidenstraße), evidenciando que na Alemanha havia um interesse crescente nos assuntos eurasiáticos.

Mackinder distingue duas possíveis filosofias para a casta dominante de uma nação: a dos "organizadores" e a dos "idealistas". Os organizadores, de natureza continental (Napoleão e Bismarck eram organizadores por excelência aos olhos de Mackinder), reconheciam fria e pragmaticamente a realidade dos fatos e atuavam sobre eles impondo ordem, arregimentação e disciplina paramilitar em seus Estados, enquanto que os "idealistas", de caráter oceânico, atuam com base em abstrações ideológicas sem nenhum tipo de sustentação no mundo real, impondo ideologias liberais em seus Estados. Mackinder considerava que a Democracy inglesa era um exemplo de "idealismo" e a contrastava com a Kultur alemã de herança prussiana e militarista: era a forma moderna que havia adotado o velho conflito metafísico Esparta x Atena ou Roma x Cartago. O inglês lamenta que o Reino Unido tenha valorizado mais o aspecto moral da educação, esquecendo uma educação estratégica e materialista orientada para a Realpolitik. Mackinder escreveu que as nações individualistas estavam condenadas a repetir um ciclo fatal, reproduzido monotonamente ao longo da história: idealismo-desordem-fome-tirania. Para evitar a tirania, pensava ele, era necessário que as nações idealistas reconhecessem, como os organizadores, a realidade dos fatos, entre os quais a geografia tem um papel determinante. Tudo isso é curioso, porque, por um lado, uma estratégia baseada em abstrações e negação da realidade ("mercado", dívida, crédito, moeda fiduciária criada a partir do nada, liberdade, igualdade, livre navegação, internacionalismo, etc.) caiu como uma luva para Londres e, por outro lado, seria difícil encontrar um poder histórico mais impiedosamente pragmático que o Império Britânico.

Cartaz propagandístico dos EUA na Primeira Guerra Mundial, com matizes claramente idealistas. King Kong, com a palavra militarismo escrita em seu capacete prussiano, invade a América do Norte depois de ter destruído a Europa com a maça da Kultur. A donzela representaria um desses "ideais modernos" valorizados pelos poderes marítimos — talvez "liberdade". Atrás desse cartaz se esconde um poder que ainda antes da Primeira Guerra Mundial tinha a maior frota do mundo e tinha sérias aspirações à dominação da Europa Ocidental, que varreu a América do Norte desde o Atlântico até o Pacífico, que balcanizou todo o território ibero-americano, que havia roubado a Cuba e as Filipinas da Espanha e que não ia parar até lançar duas bombas atômicas no Japão, ocupar a Berlim, colocar a Coréia e a Indochina de cabeça para baixo e realizar a "hongkongzação" e a "walmartização" da China.


Para Mackinder, por sua vez, havia dois tipos de organizadores: o "administrador" e o "criador de mecanismos sociais". O primeiro seria a encarnação do burocrata engravatado, enquanto o segundo é aquele que põe em movimento a inércia e as tendências sociais duradouras. Embora a Alemanha fosse uma nação com uma burocracia de precisão mecânica, o que a comandava, a chamada casta dominante prussiana, seria um exemplo de criadores de mecanismos sociais. Enquanto Mackinder considerava a Alemanha como uma nação organizadora, ele também identificou duas tendências internas:

Frankfurt seria a sede da Alemanha "idealista", de comerciantes, economistas, financistas e engenheiros sociais, o berço da família Rothschild, da Escola de Frankfurt (a criadora do progressismo e do politicamente correto), do Banco Alemão, do Banco Central Europeu e da Alemanha "moderna" da União Europeia. Está na Banana Azul.

Berlim seria a sede "organizadora" da Alemanha, a sede imperial e prussiana dos grandes caudilhos militares e estadistas, o berço das ideias de Kaiser, Bismarck e Hitler, e da Alemanha, mais precisamente o "Reich". Ao contrário de Frankfurt, não foi apoiada pelos poderes globalistas da era da Guerra Fria e, durante décadas, foi dividida em dois pela Cortina de Ferro. Está na Banana Vermelha.

Karl Haushofer recolheu os ensinamentos dos pais da geopolítica, como o estadunidense Alfred Thayer Mahan, o sueco Rudolf Kjellén, o alemão Friedrich Ratzel e o próprio Mackinder, aplicando-os à situação contemporânea na Alemanha e levando a formulação dessa ciência ao próximo nível. As ideias de Haushofer eram muito diferentes daquelas adotadas do oeste distante. Convicto de que a proliferação de grandes centros urbanos era um sintoma de declínio de uma nação (falta de terra, queda nas taxas de natalidade nas cidades, colapso da agricultura com consequente dependência de quintais no terceiro mundo, falta de eficácia dos sistemas centralizados de poder), promoveu um modelo agrário e rural, não baseado no comércio exterior, mas na auto-suficiência interna e na relação entre o indivíduo e a terra: todo cidadão alemão deveria ter um mínimo de terreno. Para levar adiante este modelo étnico-agrário, a Alemanha teve que se apropriar do Lebensraum ("espaço vital", termo cunhado por Ratzel), ou seja, a melhor terra agrícola do mundo: a Ucrânia e outros territórios da União Soviética.

Enquanto Mackinder promovia a formação de pequenos Estados na Europa com objetivos claramente balcanizadores, o Haushofer afirmou, ao contrário, que a existência de pequenos Estados não fazia sentido, já que estes eram elementos contraditórios e desestabilizadores. O alemão não viu com bons olhos, por exemplo, a existência de Estados como Bélgica, Holanda, Portugal, Dinamarca, Suíça, Grécia e países de "aliança" como a Áustria-Hungria.

Provavelmente, não se pode superestimar a influência que, através de seu aluno Rudolf Hess, o Haushofer teve em Hitler e no nazismo. Quando Hitler e Hess foram presos em 1923 após a tentativa de golpe de Estado, o Haushofer os visitou em longas sessões, armado com livros geopolíticos dos autores mencionados além de Von Clausewitz. Foi a época em que o veterano de guerra austríaco escreveu "Minha Luta". Também parece claro que essas ideias influenciaram fortemente outras hierarquias do Terceiro Reich, como Walther Darré, ministro da Alimentação e Agricultura, que já havia expressado sua oposição à Alemanha recuperar suas ex-colônias no Terceiro Mundo e que se mostraria a favor da teorias de Blut und Boden (sangue e solo) e Rasse und Raum (raça e território), segundo a qual a colonização do Leste por fazendeiros alemães de ascendência "nórdica" seria a única maneira pela qual o Reich teria de fixar seu domínio sobre a terra que conquistou. Durante o período nazista, o campesinato alemão aumentou seu prestígio e passou a ser considerado como um reduto da idiossincrasia alemã inalterada, a fonte de subsistência do país e um pilar essencial de um novo movimento étnico, social, cultural e geopolítico, uma combinação de germanização, "volta à terra" e Drang nach Osten.

A SS pretendia um dia tornar-se a aristocracia militar e política deste vasto desígnio. As revistas da SS também mostravam a influência de Haushofer no modelo agrário que propunham para o Leste: colônias de camponeses e militares alemães organizadas em uma rede de vilas e fazendas auto-suficientes e bem conectadas. Essas publicações também rejeitaram o modelo de crescimento econômico baseado em concentrações urbanas: as cidades tiveram que ser largamente desmanteladas e reduzidas a seu papel de simples nós administrativos e burocráticos, não formigueiros em que as pessoas são massificadas e separadas da terra, desprovendo-as de sua bagagem de identidade e tradições ancestrais. "Um povo nasce nos campos e morre nas cidades", diziam os diagramas demográficos que sustentavam tal afirmação. Em pôsteres de propaganda intitulados "nosso futuro está no Leste", mostrava famílias de camponeses alemães estabelecidos na Ucrânia, adultos andando a cavalo ou arando a terra enquanto as crianças corriam pelo campo. De uma forma ou de outra, o triunfo da Operação Barbarossa teria significado o domínio germânico da Europa Oriental e sua consolidação como um espaço produtivo e auto-suficiente, totalmente divorciado das rotas marítimas oceânicas. Além disso, o modelo territorial projetado para a Ucrânia e outros territórios teria se estendido ao longo do tempo para o quintal natural da Europa Oriental: Ásia Central, Sibéria e Mongólia.

Até mesmo Gottfried Feder, o pai da economia nazista — ignorado pela historiografia oficial por causa de suas ideias sobre a abolição do juros sobre o dinheiro — parecia mostrar a influência da escola geopolítica de Munique quando afirmou que os camponeses e a agricultura eram importância primordial para a Alemanha. No manifesto oficial de 6 de Março de 1930, ele acrescentou que "em primeiro lugar, a colonização fronteiriça no Leste é importante, mas não pode ser feita apenas através da criação de fazendas rurais, mas através do desenvolvimento de povos com poder aquisitivo em combinação com o reagrupamento de estabelecimentos industriais". Acrescentou no mesmo escrito que era necessário realizar uma "re-nordização" do povo alemão.

Depois de 1945, os vencedores Aliados consideraram as teorias de Haushofer como uma fonte de perigo e cuidaram para que não aparecessem mais na grade curricular. Enquanto a arte nazista foi destruída, as mulheres alemãs estupradas, os soldados alemães torturados em campos de concentração, os prussianos submetidos a genocídio, todo o povo alemão foi tomado pela fome e pela doença e a indústria nacional ficou arrasada, a Geopolitik foi proscrita, Karl Haushofer se matou na Baviera com sua esposa (uma judia que nunca foi perseguida pelo regime nazista) e suas obras foram censuradas, a tal ponto que hoje são difíceis de encontrar. Numa amostra do pior chauvinismo entre os europeus, o Mackinder declarou que seria necessário "matar a filosofia de guerra alemã", "exorcizar os espíritos obscuros da alma da nação alemã conquistada", "varrer a magia negra da mente alemã" e "que o Diabo na Alemanha nunca possa levantar a cabeça e morrer de fome". Isso foi dito por um geoestrategista de um império que havia conquistado pela força mais de 20% da superfície terrestre do mundo e que dominava a maior parte da superfície do mar. Em todo o mundo, a Geopolítica tornou-se uma ciência "politicamente incorreta", de tal forma que hoje em dia em muitos países é muito limitada nas faculdades e em outros países, como a China, é diretamente proibida, sendo seu ensino permitido somente a quadros políticos, generais e almirantes das Forças Armadas, pessoal da Inteligência e provavelmente grandes empresários dos setores estratégicos.


Vale lembrar que a destruição da Europa Central e da Europa Oriental foi feita para o benefício da Lestásia, daqueles "um bilhão de pessoas da antiga civilização oriental" na Índia e na China que, segundo Mackinder, "devem prosperar enquanto a Alemanha e o Japão são domesticados pela civilização".

A TEORIA DO HEARTLAND ESTÁ OBSOLETA?    

Já durante a Segunda Guerra Mundial surgiram vozes questionando a teoria do Heartland por várias razões, das quais a mais importante foi o surgimento do poder aéreo (air power, ou aerocracia): os ares são algo como a quinta essência do mar, o mar elevado ao quadrado, pois conformam um corpo único que permite envolver todas as terras do mundo... e também todos os mares. Para continuar defendendo sua posição, Mackinder escreveu em 1943 mais teorias, onde disse, entre outras coisas, que "O poder aéreo depende absolutamente da eficiência de sua organização na terra". De fato, as bases do poder aéreo são sempre terrestres (aeródromos convencionais) ou marítimos (porta-aviões), de modo que embora o ar possa ser o vetor de algumas façanhas (por exemplo, manter a ilha de Berlim Ocidental no meio de territórios comunistas só poderia ser feito graças a um transporte aéreo), não pode escapar à influência da terra ou do mar: se a atmosfera existe, é simplesmente porque a gravidade da Terra a mantém no lugar. Sessenta anos após a morte de Mackinder, os Estados Unidos abastecia sua presença militar no Iraque do outro lado do mar e sua presença no Afeganistão por meio da terra; fazê-lo por via aérea teria sido um custo exorbitante e as cadeias de logística teriam sido muito mais vulneráveis.

Um porta-aviões como este é praticamente uma instituição inteira. A ideia do monstro é a do poder aéreo ligado ao poder marítimo e dependente dele. Sua vantagem em relação a uma base aérea terrestre é a mobilidade, sua desvantagem é que essa mobilidade requer muita energia e também pode ser afundada. Muitas vezes se ouve dizer que o dólar americano, cuja enorme oferta de dinheiro não é mais garantida pelo ouro ou pela produtividade real, é na verdade respaldado pelos porta-aviões da Marinha dos EUA. Apenas dez países do mundo têm um porta-aviões, e os Estados Unidos, com onze enormes porta-aviões em serviço, são os únicos que possuem mais de dois. No século XIX, a Marinha Real construiu sua frota de acordo com o tamanho das frotas de seus potenciais inimigos, especialmente Espanha e França. Hoje, os estrategistas do orçamento de defesa do Pentágono declaram que será o juízo final de Washington se as frotas da Marinha dos EUA tiveram um tamanho menor que cinco vezes as frotas da Rússia e da China combinadas.

Convencido da validade eterna de sua teoria, o Mackinder declarou: "Descrevi meu conceito do Heartland, que não hesito em dizer que é mais válido ainda hoje do que vinte ou quarenta anos atrás". No entanto, o geógrafo sabia aprofundá-lo e atualizá-lo para os novos tempos, nos quais a Guerra Fria que estava no porvir. A primeira contribuição nova de Mackinder foi a ideia de Lenaland, uma subdivisão do Heartland que tomou o nome do rio Lena, a figura geográfica central desse espaço. Para Mackinder, o Lenaland não era propriamente parte do "Heartland russo" e era "um país geralmente áspero de montanhas, planaltos e vales, coberto quase de ponta a ponta por florestas de coníferas". A região estava particularmente isolada, longe da estepe, dos principais centros urbanos siberianos e da rota para Vladivostok, e seus recursos permaneciam quase intactos.

Lenaland (rosa) como definido por Mackinder em 1943: o território dentro do Heartland, a leste do rio Ienissei e ao norte de uma linha imaginária de Bering-Romênia. Tanto para Mackinder quanto para o contemporâneo Robert Kaplan, o Ienissei, não os Urais, é a verdadeira linha divisória da Rússia, já que a leste do rio começa uma paisagem de montanhas e planaltos, diferente das planícies do oeste.

O segundo novo conceito mackinderiano é o "manto de espaços vazios", que Mackinder o descreve:

Um manto, por assim dizer, ligado nas regiões polares do Norte. Começa com o deserto do Saara, é seguido a medida que se move para o Leste através dos desertos árabe, iraniano, tibetano e mongol, e depois se espalha, através dos espaços selvagens de Lenaland, Alasca e do Escudo Canadiano, ao cinturão sub-árido do Oeste dos Estados Unidos.

Como se vê, o manto do deserto quebra seu caráter terrestre em Bering, Ormuz e Suez. Sua baixa densidade populacional é parcialmente interrompida no vale do Nilo. Note que o Saara Ocidental é a rota de entrada do atlantismo para o manto. Mackinder considerou que, embora através desses espaços tendessem as estradas e as rotas aéreas, o manto "por um longo tempo quebrará a continuidade social entre as principais comunidades da humanidade no globo".

Dizem que a melhor maneira de prever o futuro é criá-lo. Não sabemos se Mackinder era um profeta, se conscientemente moldou a segunda metade do século XX, se seu gênio foi usado pelas elites ou uma combinação das três coisas, o que sabemos, com certeza, é que o inglês claramente imaginava a formação da escola de sociologia de Frankfurt (falando da necessidade de criar uma "corrente de contra-filosofia" para neutralizar o nacionalismo e o militarismo alemão), do início da Guerra Fria, da incorporação da Alemanha Oriental na esfera de influência do Heartland, do surgimento do Pacto de Varsóvia e da criação da OTAN, quando descreveu sua visão estratégica do "Oceano Mediterrâneo" (o Atlântico Norte): "uma cabeça de ponte na França, um aeródromo protegido por um fosso na Grã-Bretanha e uma reserva de força humana treinada; agricultura e indústrias no leste dos Estados Unidos e no Canadá". O inglês Lord Ismay, o primeiro Secretário Geral da OTAN, que indubitavelmente estava familiarizado com a geoestratégia mackinderiana, declarou em 1949, a data do estabelecimento do novo Estado da Alemanha Ocidental (cuja constituição foi elaborada e assinada pelos anglo-americanos), que o objetivo da OTAN era "manter os americanos dentro, os russos fora e os alemães submissos".

No entanto, há uma profecia mackinderiana que não foi cumprida, a mais importante, que encabeça a primeira parte deste artigo: aquela segundo a qual o Heartland acabará sendo o terreno fértil de um vasto império continental. Por que a Eurásia não se tornou esse espaço econômico inacessível organizado com mão de ferro por um poder autoritário?

Simplesmente porque os poderes oceânicos notaram esse perigo, sendo assim, o anteciparam, separando a cabeça natural da Eurásia de seu corpo. Mackinder considerou que a era "colombiana" tinha sido a do poder marítimo e que o século XX seria o começo da era do poder terrestre... a menos que a Internacional Marítima fizesse algo a respeito. E como já sabemos, ela fez: enfrentou a Alemanha e Áustria-Hungria contra a Rússia, patrocinou a Revolução Bolchevique, criou um cordão sanitário no Leste Europeu, aniquilou a Europa Central e levantou sobre as ruínas do antigo cordão sanitário um novo — desta vez chamado de Cortina de Ferro — que impediu a Europa de se tornar a cabeça da Eurásia, tornando-se uma colônia dos Estados Unidos e do Reino Unido.

Mackinder tinha claramente previsto que "se a União Soviética emergir desta guerra como conquistadora da Alemanha, ela deve ser classificada como a maior potência terrestre do globo. Ademais, ela será a potência colocada estrategicamente na posição mais vantajosa do ponto de vista defensivo". Devido à ação do atlantismo, a União Soviética conquistou só a Alemanha Oriental, e sua dominação da Europa Oriental (a prolongação do Heartland que vimos antes) nunca foi completa devido à Finlândia, Suécia, Grécia e Turquia, bem como os países duvidosos tais como a Jugoslávia e até a Romênia.

O Pacto de Varsóvia.

Nessa época, o geoestrategista norte-americano Nicholas Spykman fez alguns "ajustes" na teoria mackinderiana, mudando a regra de ouro de Mackinder por "Quem governa o Rimland, controla a Eurásia, quem governa a Eurásia, controla o destino do mundo". Como o Heartland era claramente dominado pela URSS, o atlantismo só precisava cercar o gigante continental para contê-lo e evitar que sua influência se espalhasse pelos oceanos. Agora, o objetivo da OTAN era impedir que a URSS rompesse a região do Rimland, obtendo portos-estratégicos no Mediterrâneo, no Golfo Pérsico, no Oceano Índico e no Mar do Sul da China. Mas o simples fato de que Spykman reconheceu a importância de cercar o Heartland fala sobre sua proeminência, pois, realmente, não fez nada mais que validar a teoria de Mackinder: que o Heartland é um pivô natural inacessível ao redor do qual gira uma bússola inteira de civilizações, guerras e cercos. A brecha mais importante dentro da OTAN ocorreu quando, em 1966, a França degaullista optou por deixar a organização (Paris retornaria ao reduto otaneiro em 2009).


Após a queda da cortina, a URSS retirou-se da Europa Central e Oriental, mas o atlantismo não retirou suas bases da Alemanha e em outros lugares, pelo contrário, aprofundou seu cerco ao Heartland, movendo-se na Ásia Central e Europa Oriental e adquirindo bases (Polônia, países bálticos, Geórgia, Quirguistão, Kosovo, Afeganistão e outros) com os quais não poderia ter sonhado durante a Guerra Fria. E assim como durante o período intra-guerras foi criado um "cordão sanitário" de Estados entre a Alemanha de Weimar e a União Soviética, hoje a barreira artificial da Europa Oriental foi recriada pela desintegração da antiga Iugoslávia, envolvendo vários familiares Estados da OTAN (Hungria, Chéquia e Polônia em 1999, Bulgária, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Letônia, Lituânia e Romênia em 2004, Croácia e Albânia em 2009), expandindo a União Europeia (Áustria, Suécia e Finlândia em 1995, Chipre, Chéquia, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Malta e Polônia em 2004, Romênia e Bulgária em 2007, Croácia em 2013) e com a instalação do chamado "escudo antimíssil" (eufemismo para "instalações de mísseis ofensivos e defensivos") em vários desses países. Parece que o fantasma de Mackinder segue vagando mais de meio século após sua morte. 

Assim, podemos resumir o cerco do Heartland em vários pontos:

• Expansão da influência da OTAN no Ártico e no Báltico. Talvez possamos ver isso em mais detalhes em um artigo futuro.

• Expansão da influência da OTAN na Europa Oriental. Esses novos países vassalos de Washington tendem a formar um muro de disputas entre a Europa Central e o Heartland. Muitos deles não são fiéis ​​e acabarão por se inclinar para a Rússia. Os países bálticos e especialmente a Polônia são os mais reticentes à influência russa. Albânia, Bósnia e Kosovo permanecem como bastiões do atlantismo na região.

• Expansão da influência da UE na Europa Oriental.

• Expansão da influência da OTAN no Pacífico. Sob a doutrina do Novo Século do Pacífico e da Parceria Transpacífica (que nada mais é do que o braço econômico da reviravolta indo-pacífica dos EUA), podemos esperar um maior envolvimento dos EUA no Cinturão de Fogo, isto é, na cadeia insular que cerca a China do Oriente. Provavelmente veremos isso com mais detalhes em um artigo futuro.

• Expansão da influência da OTAN no Golfo Pérsico. "Atlantização" do Conselho de Cooperação do Golfo: Bahrein, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (tanto a Jordânia quanto o Marrocos estão interessados ​​em se aproximar da organização). Todos esses países são monarquias tirânicas governadas por casas reais degeneradas ligadas à casa real inglesa, cujo único propósito é garantir petróleo e gás natural para a OTAN e agir como uma barreira contra a influência persa-xiita, encarnada especialmente no Irã, mas também na Síria e no Líbano. Esses regimes irrepresentáveis, que podemos chamar de Os Golfos, foram essenciais no nascimento do "jihadismo internacional" e na expansão do salafismo — o papel do Qatar tem sido muito proeminente desde a Guerra da Líbia, embora a partir de Julho de 2013 seu protagonismo tenha diminuído. Os inimigos regionais dos Golfos são a Síria, o Irã e, em geral, a religião xiita, que é maioria no Golfo Pérsico.


O papel dos Golfos será visto em maior detalhes em outro artigo. Por enquanto, prestaremos atenção a uma característica da geografia regional: a ponta sul do Heartland, o lugar onde apenas uma estreita faixa costeira de terra persa, dividida entre Irã e Paquistão, separa o Heartland dos mares quentes. Ao sul das bacias endorreicas do Sistão e dos lagos Niriz e Jaz Murian, termina o Heartland e começa o Rimland e as bacias do Golfo Pérsico e do Mar da Arábia. Podemos citar nomes como Assaluyeh, Bandar Abbas, Bahrein, Bushehr, Chabahar, Doha, Dubai, Gwadar, Ormuz, Kish, Manama, Qatar e as montanhas Zagros, pois são nós ultra-estratégicos por causa de sua importância como rotas de energia, porque ligam o Heartland com os mares quentes do sul e porque flanqueiam o Estreito de Ormuz — um dos chokepoints ou gargalos mais importantes do tráfego internacional de petróleo e gás. O eixo Rússia-Cáspio-Irã é herético para o atlantismo porque quebra o Rimland. 

É no sopé das montanhas Zagros onde termina o Heartland e onde começa a faixa mais estreita e delicada de todo o Rimland: a do Baluchistão e o Estreito de Ormuz. As praças indicadas são fundamentais para a contenção ou expansão da influência do Heartland (neste caso, a influência persa) em direção ao Golfo Pérsico e ao Oceano Índico. O Irã, uma enorme fortaleza natural, porque é um planalto cheio de montanhas, é o único país do Oriente Médio com fronteiras moderadamente coerentes (porque foi o único país da região que preservou sua independência durante a era colonial), e claramente tem a posição geográfica mais dominante, presidindo o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz a partir de suas elevações estratégicas. Note que no auge de Bandar Abbas e do Estreito de Ormuz, o Heartland está prestes a dividir o Rimland ao meio, fragmentando-o e desafiando a estratégia do Spykman.


Os EUA estão no processo de apoiar e fortalecer os Golfos. O Qatar abriga a sede do CENTCOM do Pentágono, um comando do movimento talibã e vários membros da Al-Qaeda e da Irmandade Muçulmana; deles, se recruta os mercenários do submundo muçulmano para fazer o trabalho sujo do atlantismo na Síria, Chechênia e outros lugares. Os Emirados Árabes abrigam instalações de Inteligência, uma base de drones e uma base de treinamento da Academi (a antiga Blackwater), o Bahrein é a base da Quinta Frota dos Estados Unidos, o Kuwait recebeu muitas das tropas militares que Washington retirou do Iraque, entre outros. Se colocarmos todas essas instalações no mapa acima, perceberemos em que medida o cerco do Heartland é particularmente intenso em sua zona sul e a paranoia ao redor do Estreito de Ormuz e Irã é máxima.  

Portanto, revendo a situação do mundo de hoje, vemos que a teoria do Heartland não é "ultrapassada", mas ainda é mais atual do que nunca — só que agora a vertebração do Heartland não vem de mãos de ferro, mas de organizações internacionais, oleodutos e gasodutos, dos quais o que ocupa o papel mais proeminente (nos bastidores) nas notícias é o Oleoduto Islâmico.


O mapa acima é interessante. Das 26 cidades com mais de 1 milhão de habitantes no Heartland, o Estado que mais controla é a Rússia (11), seguido pelo Irã (9). Nenhum outro Estado tem mais de uma cidade com mais de um milhão de habitantes no Heartland [O Cazaquistão pode vir a ter outra se continuar a desenvolver sua capital, Astana, que pretende se transformar na nova capital da Ásia Central, à frente de Tashkent]. As maiores cidades do centro são Moscou (Rússia), Teerã (Irã), Urumqi (China), Mexed (Irã), Baku (Azerbaijão), Almaty (Cazaquistão), Tbilisi (Geórgia) e Novosibirsk (Rússia). Aprecia-se que os centros populacionais mais importantes do Heartland estão concentrados a oeste, mostrando que o impulso que conquistou, colonizou e organizou o Heartland ao longo da história veio do Ocidente e que as conexões do Heartland com a Europa são muito mais praticáveis e íntimas do que com a Lestásia ou Hindustão. Se seguirmos o círculo de cidades que circunda o Heartland, começando com o número 1 e terminando com o 24, cruzaremos vários mundos culturais: eslavos-ortodoxos, turcos, persas, árabes, indo-iranianos, budistas, chineses, manchus... e eslavos-ortodoxos novamente. Nenhum deles é de cultura anglo-saxônica. A faixa mais crítica, onde o Heartland está mais perto de um grande oceano, sem contar as costas árticas do norte (congeladas e, portanto, inacessíveis durante grande parte do ano), é a região do Baluchistão, situada entre o Irã e o Paquistão, que separa Heartland do Oceano Índico e onde o Heartland poderia mais facilmente dividir o Rimland em dois, obtendo uma saída para esse oceano.

HÁ OUTROS HEARTLANDS?   

Mackinder tinha o ponto de vista de um geoestrategista oceanista obcecado com a Eurásia, mas também poderíamos identificar um heartland na América do Norte seguindo exatamente as mesmas explicações que Mackinder deu à Eurásia. Para citar um exemplo, podemos considerar os lagos e golfos do norte da América do Norte como mares interiores fechados, já que, ao contrário do Mar Negro, do Báltico ou do Cáspio, eles são controlados por uma única potência geopolítica: o atlantismo anglo-americano.

Da mesma forma, existem outras bacias endorreicas e espaços interiores que, sem ser de natureza continental tão pura como o Heartland eurasiático, merecem ser levados em conta e considerados como pequenos núcleos regionais. É importante ter em mente que Mackinder parecia conceber um heartland como um lugar que, além de ser inacessível ao poder marítimo, possuía um poder fluvial, isto é, rios navegáveis. Alguns dos núcleos menores que descreveremos a seguir não atendem a essa condição.

O HEARTLAND ÁRABE — NEJD E O CHIFRE DO DIABO  

No Hádice (escrito muçulmano complementar ao Corão) é narrado como Maomé pede a Deus que abençoe várias regiões árabes, omitindo especificamente o Nejd, a inóspita região do centro da Península Arábica, situada em plena bacia endorreica árabe. Quando os seguidores de Maomé pedem-lhe para abençoar o Nejd, ele os ignora, até a terceira vez:

Al-Bukhari relata que, segundo Abdulá ibne Omar, o Mensageiro de Alá (que a paz e a benção de Alá estejam com ele), disse: "Ó Alá, abençoe a Síria! Ó meu Senhor, abençoe nosso Iêmen!" As pessoas disseram: "E o Nejd?" Ele continuou: "Ó Alá, abençoe a Síria! Ó meu Senhor, abençoe o Iêmen!" Eles repetiram: "E o Nejd?" E creio que ele respondeu na terceira vez: "Neste lugar haverá terremotos e sedições, e é também neste lugar onde aparecerá o Chifre do Diabo".

Maomé descreve que um povo iria distorcer a fé muçulmana para um caminho sem volta e que seu símbolo seria a cabeça raspada. Lendo nas entrelinhas e a partir do século XXI, podemos identificar o Chifre do Diabo com a corrente religiosa wahhabista-salafista, promovida pela família real Saud, uma versão radical do Islã que poderia ser descrita como um calvinismo muçulmano, ao qual muitos sequer consideram como o Islã propriamente dito e que é a corrente religiosa professada pela Al-Qaeda, pela Irmandade Muçulmana, pelos terroristas chechenos e muitas das madrassas paquistanesas onde se doutrinam futuros talibãs. As cabeças raspadas podem ser perfeitamente aquelas dos terroristas salafistas patrocinados pelos Golfos na Síria e na Líbia.


O wahhabismo surgiu no Nejd no século XVIII e sua fúria foi direcionada principalmente contra os xiitas (massacres de An-Najaf e Carbala, atual Iraque) e o Império Otomano. Este foi cooptado junto com a casa dos Sauds pela missão inglesa de Lawrence da Arábia e atualmente, generosamente financiado pelos petrodólares sauditas e pelo gás natural do Qatar, se encontra até implantado em mesquitas europeias com total conhecimento e tolerância por parte dos serviços de Inteligência dos países da UE. Também os mercenários que devastaram a Líbia e a Síria eram, em sua maioria, a escória social recrutada pelas redes religiosas e de Inteligência do jihadismo salafista internacional.

Bacias endorreicas da Península Arábica.

Existem muitas anomalias geopolíticas no entorno árabe (a citar, Qatar, Kuwait e Bahrein), mas sem dúvida a mais importante é o Estado de Israel, que divide o mundo árabe e muçulmano em dois, que rompe o elo entre a Eurásia e a África e que dispõe de um porta-aviões do atlantismo nesta ligação geográfica vital. A penetração de Israel no Oriente (Cisjordânia, Jerusalém Oriental e as zonas de assentamento de colonos judeus) é na verdade uma manobra para controlar os aquíferos e fontes dos rios da região e ter um pé no vasto heartland árabe, que poderia se unir automaticamente ao grande heartland eurasiático simplesmente bloqueando o Estreito de Ormuz e com o heartland africano bloqueando o Canal de Suez, como veremos na terceira parte. O atlantismo quer evitar a todo custo esses bloqueios.

O Estado de Israel e a bacia endorreica da Arábia no Oriente Próximo. O heartland árabe marca a fronteira onde a Eurásia continental termina e o Levante começa, um domínio claramente marítimo. Como acontece com o heartland eurasiático, a parte mais povoada e urbanizada da bacia árabe, sua cabeça natural, é sua parte ocidental. As colinas de Golã, Jerusalém Oriental e os assentamentos na Cisjordânia são manobras estratégicas do atlantismo para penetrar mais profundamente no coração do país árabe.

Ao olhar o mapa acima podemos concluir que, se o Estado de Israel é uma anomalia geopolítica, a mais monstruosa é uma região de Israel em particular: a metade sul do país, ou seja, tudo abaixo da Cisjordânia, incluindo o Neguev e especialmente a pequena franja costeira que Israel tem em seu vértice do sul, no Mar Vermelho. Esta franja do Golfo de Aqaba — onde a Marinha de Israel tem uma base naval e submarinos — que nunca pertenceu aos reinos históricos judios, é realmente onde se rompe a continuidade territorial do mundo árabe e da Ilha Mundial, transforma Israel em um segundo Canal de Suez (entre o Mar Vermelho e o Mediterrâneo), em uma passagem forçada entre a Eurásia e a África e também é responsável pela projeção do poder de Israel para a África, especialmente no vale do Nilo (a independência do Sudão do Sul e muitas manobras em Uganda foram de autoria israelense) e no Chifre da África. Israel aparece, portanto, como uma tentativa oceânica de obter uma fortaleza para sitiar o heartland árabe e impedi-lo de se unir territorialmente com o heartland eurasiático e o heartland africano para formar um bloco territorial indivisível e impenetrável ao poder marítimo. De particular importância para Israel é frustrar as rotas e relações entre a Síria e o Egito — as colunas gêmeas do mundo árabe clássico e o berço do pan-arabismo.

Riade, a capital saudita, é a maior cidade do heartland árabe, cercada por deserto e isolada no meio do Nejd.
"Os conquistadores móveis das terras aradas". Entre o heartland árabe e eurasiático se encontra a Pentalásia — o que Mackinder chamou "terra dos cinco mares". Entre o heartland árabe e o africano estão o Estado de Israel, o Canal de Suez, o Mar Vermelho e o Vale do Nilo. Mackinder ilustra as potências históricas que tendem a lutar pelo controle da Pentalásia: da Europa, marinheiros (shipmen), do Heartland, cavaleiros (horsemen) e da Arábia, condutores de camelos (camelmen). O geoestrategista inglês afirmou que a região representada no mapa é "a mais vital das vias". A atual importância do Iraque, Síria, Líbano e Israel vem à mente.


O HEARTLAND AFRICANO   

Mackinder considerou que o Saara era, em frente aos Himalaias, a barreira natural mais formidável do planeta. A análise genética confirma: em um mapa de semelhanças genéticas entre as "tribos" do mundo, a diferença entre o norte da África e a África Subsaariana forma uma clara lacuna, muito mais radical do que a existente entre os dois lados do Himalaia.

Mapa de semelhanças genéticas de um europeu ocidental. Nele, a eficácia do Saara como uma barreira geográfica é perfeitamente apreciada. 

Na África existem várias bacias endorreicas, especialmente as do deserto do Saara, que geralmente vão para aquíferos e oásis.

Bacias endorreicas da África. De forma reveladora, a região do Mali ameaçada pelos jihadistas da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico e invadida pela OTAN coincide com a região do país que faz parte das bacias continentais do Saara. O estranho status do Saara Ocidental deve-se, entre outras coisas, ao fato de que as bacias endorreicas do Saara são mais acessíveis pelo Atlântico e que é a entrada natural dos Estados Unidos e do Reino Unido ao manto de espaços vazios [O Baluchistão tem um papel semelhante, fazendo com o heartland eurasiático de sul a norte o que o Saara Ocidental faz com o Saara endorreico de oeste a leste.]. O Saara Ocidental é também a região africana mais próxima dos EUA.

No entanto, para Mackinder, o heartland africano tinha uma definição simples: era toda a África Subsaariana. Os inglês baseava-se nos rios subsaarianos que são navegáveis ​​no interior mas que antes de chegarem ao litoral caem pelas encostas íngremes das margens do planalto, em cachoeiras, corredeiras e trechos de rios impossíveis de ultrapassar por barco. Até mesmo o Nilo tem várias cachoeiras e hoje não é mais navegável a partir de Juba, a capital do Sudão do Sul.

No heartland africano, se precisa atentar a duas características geográficas. A primeira são os lagos (Vitória, Chade, Tanganica, Malawi e outros). Parece claro que o Império Britânico e a França traçaram as fronteiras de tal maneira que cada grande lago africano nunca foi controlado só por um Estado. Malawi, Ruanda, Burundi e outros países são exemplos perfeitos de Estados artificiais e geograficamente incoerentes, que simplesmente estão ali para causar instabilidade e balcanizar o domínio dos lagos e bacias dos rios africanos. A divisão territorial do Lago Vitória também é outro exemplo.

A outra característica a prestar atenção na África Subsaariana são os parques naturais. Se, em teoria, os parques naturais são uma ideia muito louvável, na prática eles são simplesmente um conto chinês para evitar a construção de bases militares, a exploração de recursos ou o desenvolvimento econômico em áreas com as quais a "comunidade internacional" não quer o fortalecimento. Em Espanha, o Parque Natural do Estreito, a Praia dos Lances ou o Parque Nacional das Ilhas Atlânticas da Galiza são outros exemplos. Ao mesmo tempo, esses parques fornecem a desculpa perfeita para instituições internacionais como a UNESCO ou vários grupos ambientais interferirem no quintal de países estrangeiros. Por exemplo, os tigres e rinocerontes do Nepal foram a desculpa hipócrita para instalar uma base de drones no país e atormentar seu espaço aéreo não tripulado; é óbvio que o objetivo real é a China. Tudo isso não significa que não haja sérios problemas ambientais no mundo, mas é insensato pensar que sua resposta é encontrada em drones, agências ambientais, escritórios de monitoramento regional, satélites ou preenchendo tudo de agentes estrangeiros.

O CERRADO — O BRASIL POSSUI O HEARTLAND DA AMÉRICA DO SUL    

A América do Sul não tem, como a Eurásia, uma região claramente endorreica que pode ser chamada de heartland como tal. Sendo um continente geralmente úmido e cheio de aquíferos e rios, o mapa das bacias endorreicas da Sulámerica é bastante enxuto:

Bacias endorreicas da América do Sul

A coisa muda se formos ao Rio da Prata, que foi vital para que a influência inglesa penetrasse no interior do continente para maquinar a aniquilação de um país central de grande preocupação para o Império Britânico: o Paraguai. A Bacia da Prata é canalizada para um estuário. Os ingleses, responsáveis por traçar grande parte das fronteiras da América Ibérica com o apoio de lojas maçônicas locais — totalmente controladas por eles — tiveram que balcanizar a foz do Rio da Prata com um Estado artificial: o Uruguai. Assim, se Buenos Aires não concordasse com sua linha de interesses, eles poderiam sempre se aliar a Montevidéu. O que esta balcanização indica é que os britânicos estavam preocupados que a Argentina e/ou o Brasil pudessem bloquear a Bacia da Prata. Veremos o por quê.

O bloqueio do estuário do Rio da Prata, em combinação com as bacias endorreicas naturais, geraria um pseudo-heartland na América do Sul que recriaria a república utópica teocrática que os jesuítas queriam estabelecer na área no século XVII. Portugal flertou com a ideia de estabelecer uma base no estuário durante a época da Colonia do Sacramento, ocupada em três ocasiões por eles. Da mesma forma, ocuparam Montevidéu. Os ingleses tentaram invadir o Rio da Prata três vezes. Em sua segunda tentativa (1807), 12,000 britânicos desembarcaram em um Buenos Aires, que naquela época não tinha mais de 42,000 almas. Para evitar o surgimento de uma potência central sul-americana que dominava a Bacia da Prata, o Império Britânico criou o Uruguai e intrigou o restante dos Estados da região contra o Paraguai. Naquela época, Juan Manuel de Rosas, governador de Buenos Aires, sustentava que o Rio da Prata, o Paraná e o Uruguai eram rios internos argentinos e uruguaios, e não rotas fluviais internacionais. Suas ideias culminaram com uma lei aduaneira muito protecionista em 1835, o que, por consequente, ofendeu seriamente Londres e Paris. Entre Março de 1838 e Outubro de 1840, a França bloqueou o Rio da Prata. Cinco anos depois, houve um novo bloqueio ao estuário da Prata, desta vez anglo-francês, que durou entre Agosto de 1845 e Agosto de 1850, e a frota anglo-francesa romperia as correntes que fecharam o Rio Paraná. Após este bloqueio, Paris e Londres seriam forçadas a reconhecer a soberania argentina sobre os rios internos. No entanto, os interesses do Império Britânico retornar-se-iam à Bacia da Prata, desta vez incorporados na Ferrocarril Oeste de Buenos Aires, que estabeleceu na Argentina a segunda rede ferroviária mais importante dos Estados Unidos para importar carne, trigo e algodão dos pampas. Esta infra-estrutura ferroviária seria quase totalmente privatizada pelas mãos desta empresa britânica.

Se fosse definida uma área central da América do Sul, poderíamos identificar vagamente o território a leste dos Andes, a norte da Serra do Mar, a oeste da Serra do Espinhaço e da Chapada Diamantina, o curso superior da Bacia da Prata e excluindo as regiões baixas da bacia amazônica. Neste heartland se encontra o Mato Grosso, as famosas chapadas (mesetas) brasileiras, a capital Brasília, o Paraguai, o Chaco, partes da Bolívia e do norte da Argentina, a zona estratégica da Tríplice Fronteira e, acima de tudo, vários aquíferos importantes (como o guarani, o maior do mundo). Como no caso do heartland eurasiático ou das bacias endorreicas do Saara, há uma faixa crítica em que esse heartland se aproxima do mar, quase tocando-o: na costa sudeste do Brasil, onde São Paulo e Rio de Janeiro estão localizados. A parte brasileira deste heartland tende a coincidir com o apropriadamente chamado Cerrado [Fechado] Brasileiro, uma eco-região do tipo savana tropical, sujeita a intensa colonização alemã e italiana. Coincidindo o cerrado com uma dominante meseta no centro do heartland da América do Sul, poderíamos estender seu nome a todo o heartland.

Veja aqui as subdivisões geopolíticas da América do Sul. Se tivesse que definir algo como um heartland na América do Sul, seria assim. O mapa não pretende representar uma realidade geográfica claramente definida como o heartland eurasiático, mas simplesmente um domínio de caráter continental, que não deve ser interpretado literalmente, mas de forma orientativa, e que admite muitas variações. Geralmente, incluiria o Cerrado brasileiro, o Altiplano andino, as bacias endorreicas andinas do Titicaca e outras, o Paraguai e o curso superior da bacia do Rio da Prata. Esse heartland até tem sua própria versão dos cossacos da estepe eurasiática ou dos caubóis da América do Norte: os gaúchos, que criaram uma cultura pecuária no sul do Brasil não muito diferente de suas contrapartes americanas. O Cerrado também tem em comum com a Grande Bacia do Nevada a presença de seitas cristãs muito organizadas, prósperas e de excelente qualidade humana, neste caso, menonitas de origem principalmente russa [4].
A ecorregião brasileira do Cerrado. Graças ao Cerrado, o Brasil passou de importador de alimentos a exportador internacional, junto aos Estados Unidos, China, Canadá, Austrália, Argentina e União Europeia. O país aumentou dez vezes suas exportações de carne bovina, à frente da Austrália como o Estado mais importante, e é o segundo país em número de cabeças de gado depois da Índia. É também o Estado com a terra mais arável do mundo (a FAO da ONU fala de mais de 400 milhões de hectares, dos quais "apenas" 50 milhões estão sendo utilizados) e a maior parte dessa terra arável não está na Amazônia, mas no Cerrado. Grande parte do sucesso agrícola do Brasil deve ser atribuído à Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), uma empresa pública criada em 1973 pelos militares que então governavam o país, e que foi a que preparou o Cerrado para a agricultura e a pecuária. Atualmente, a proliferação de agrônomos no Brasil pode fazer com que o país mantenha presença em vários Estados africanos, especialmente em Angola.

A água ou "ouro azul" é outro grande patrimônio do Brasil, dado que um ser humano pode viver perfeitamente sem ouro, diamantes, petróleo ou gás natural, mas não pode viver sem água, que também é necessária para irrigar campos e alimentar gado. O Brasil tem mais de 8 bilhões de quilômetros cúbicos de água renovável por ano, o que faz dele o mais importante país-aquífero do planeta, com mais água renovável do que toda a Ásia. O Piauí, apesar de ser uma das regiões mais secas e menores do Brasil, obtém um terço a mais de água do que todo o cinturão de milho dos Estados Unidos. Os aquíferos do Brasil são de importância, não apenas regional, mas global para a segurança alimentar de toda a humanidade, por isso não é de surpreender que, por exemplo, a Coca-Cola e a Nestlé estejam em frenética aquisição de terras pelo Aquífero Guarani, enquanto o Fundo Mundial para o Ambiente (EGF), uma organização financeira internacional sediada nos Estados Unidos e administrada pela ONU e pelo Banco Mundial, também colocou seus olhos sobre os aquíferos. [5]

Extensão do aquífero guarani. O aquífero inclui a estratégica zona da Tríplice Fronteira (Brasil-Argentina-Paraguai) e possivelmente é uma das principais razões para o estabelecimento de uma base aérea dos EUA no Paraguai. Um dos desafios do Império brasileiro, além de impedir a "internacionalização" do aquífero por multinacionais estrangeiras, é evitar que ele seja contaminado por agrotóxicos.


É bastante claro no Brasil que onde há recursos ou posições estratégicas inacessíveis ao atlantismo, a UNESCO sistematicamente proclama uma "reserva protegida": o meio ambiente está em toda parte e, portanto, é um vetor de tremenda projeção para a globalização. Existem dezenas de grupos étnicos indígenas ameaçados pelo avanço dos campos de soja e outros, mas os únicos que interessam para a globalização são aqueles que vivem em lugares importantes. Cavar no concerto econômico dessas áreas e lutar contra a influência ibérica (católica, portuguesa e especialmente espanhola) é o que querem o Banco Mundial e as organizações USAID (uma pseudo-ONG fachada da CIA, expulsos da Rússia) e NED, com seu financiamento do movimento indigenista em toda a América Ibérica. Objetivos semelhantes de desestabilização são aqueles buscados pela Fundação Ford em sua promoção do "movimento negro" no Brasil.

Mas o fato é que o Brasil, com seus aquíferos, grãos de cereais, carne e terra, cobriu a mais importante de todas as soberanias: a comida. Além disso, diferentemente das possessões espanholas, o Brasil não sofreu a terrível balcanização promovida pelo Império Britânico e pelos Estados Unidos (embora no século XIX os EUA tivessem vários projetos de partição no Brasil, que foram sufocados pelo governo brasileiro). Portanto, o Brasil continua até hoje como um enorme bloco de terra e o candidato mais razoável para se tornar o núcleo dos Estados Unidos da América do Sul.

Os territórios espanhóis da América do Sul foram menos afortunados e, de todos eles, talvez o Paraguai foi o mais maltratado pela história. Ele se tornou independente da Espanha em 1811 sob a liderança de José Gaspar Rodríguez de Francia, que imediatamente lutou contra a influência da Igreja Católica, aboliu a Inquisição, expropriou propriedades eclesiásticas, formou um exército com o material confiscado dos arsenais jesuítas e proibiu em 1814 casamentos entre espanhóis, forçando-os a casar com negras, mulatas e índias para obter uma sociedade mista e homogênea. O estadista foi fortemente influenciado pelas leituras dos enciclopedistas franceses e por suas amizades maçônicas, e procurou criar uma república utópica baseada sobretudo na filosofia do "proto-progressista" Rousseau. Na prática, ele criou um estado policial isolacionista, um tipo de Coreia do Norte no meio da América do Sul, onde todos os opositores de seu regime foram executados ou presos.

Durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), o Paraguai foi devastado e saqueado pelo Brasil, pela Argentina e por um Uruguai sequestrado. A indústria têxtil do Império Britânico, cada vez mais privada de suas fontes de algodão (era a época da Guerra Civil na América do Norte e o Paraguai era o segundo produtor de algodão no mundo), olhou para os recursos paraguaios, controlados por um governo centralizado e fechado, e atiçou uma mobilização dos outros três Estados contra Assunção, que sob o presidente Francisco Solano Lopez, estava no controle total da Bacia da Prata.

O cônsul britânico Henderson escreveu ao Ministério das Relações Exteriores (FCO na época) que "a maior parte da propriedade rural é de propriedade do Estado, as melhores casas da cidade pertencem ao Governo e este tem valiosas fazendas de criação e agricultura em todo o país". 98% do território paraguaio era de propriedade pública e foi o Estado que concedeu terras aos camponeses para cultivar, sem o direito de vendê-las. Mais de sessenta grandes fazendas foram construídas diretamente pelo Estado, e toda uma rede de pontes, canais, repesas e obras de irrigação interligou a rica bacia com muita eficiência. Também não havia grandes fortunas privadas, tampouco mendigos, vagabundos, ladrões ou famintos. O estadunidense Hopkins afirmou em 1845 que "não há criança que não saiba ler e escrever". O Paraguai tinha uma linha telegráfica, uma linha férrea e várias fábricas industriais para materiais de construção, tela, tecidos, pólvora, papel, ponchos, tinta e louça de barro. Suas fundições construíram canhões, morteiros, obuses e balas de qualidade e existiam estaleiros e uma frota nacional, como toda atividade econômica importante, nas mãos do Estado. Embora o centro econômico do país não fosse o comércio exterior, mas a produtividade interna, a balança comercial apresentava um superávit significativo. A frota britânica também não era livre para entrar nos fechados rios paraguaios para saturá-los com as indústrias britânicas que afundariam a indústria local. Mais importante, o Estado tinha riqueza e capital suficientes para subsidiar seu próprio desenvolvimento, de modo que a dívida externa era inexistente. O Paraguai era, portanto, uma economia fechada, nacional e estatal, que não dava espaço para "livre mercado", "livre comércio" e "livre navegação". A influência do comércio internacional (isto é, do mar e, portanto, do Império Britânico) era mínima no país.

O diplomata britânico Edward Thornton conspirou ativamente em Buenos Aires, com o presidente argentino Bartolomé Mitre, para destituir o sistema paraguaio de uma vez por todas. Mitre, que era anglófilo e grau 33 no Grande Templo da Maçonaria Argentina, já havia reprimido revoltas autarquizantes no norte da Argentina para assegurar o abastecimento de mercadorias ao porto de Buenos Aires. Quanto ao Reino Unido, ele já governava a Índia, uma nação de 250 milhões de habitantes, com apenas três mil funcionários ingleses, mas não queria a menor ameaça ao seu status de rainha dos mercados. Emprestando mais de 10 milhões de libras esterlinas para o Brasil e 3,5 milhões para o Uruguai, os bancos londrinos (N M Rothschild & Sons, Banco da Inglaterra e Barings Bank) garantiram que o autárquico Paraguai fosse devastado apesar de sua tenacidade e resistência patriótica. Ele também intensificou a campanha de imprensa contra Solano López: se a imprensa argentina o chamava de "Átila da América" ​​e assegurava que "É preciso matá-lo como um réptil", a Standard britânica de Buenos Aires afirmou que "ele infringiu todos os usos das nações civilizadas".

Depois da guerra, o Paraguai ficou endividado com os bancos britânicos, a produção agrícola foi posta sob o controle dos "investidores" ingleses, as fundições e outras indústrias foram desmanteladas e o Brasil e a Argentina, arruinados pelo custo exorbitante da guerra e definitivamente acorridos por Londres, obtiveram navegação livre em seus rios. O trecho ferroviário de Assunção-Villarrica foi alienado para pagar as dívidas e 29 milhões de hectares de terras passaram para mãos privadas, simplesmente "expropriadas" dos camponeses, que tecnicamente eram trabalhadores do Estado. O "governo provisório do Paraguai" declarou livre o comércio de erva-mate, tabaco, algodão e o corte de madeira no comércio internacional: a Bolsa de Valores da cidade de Londres deu um suspiro de alívio. O argentino Bartolomé Mitre diria que triunfou "os grandes princípios do livre comércio".

Junto com o "genocídio econômico", houve um colapso demográfico: de 1,3 milhão de habitantes que o Paraguai tinha (não muito menos que a Argentina), a maioria descendentes de espanhóis, alemães e guaranis, sobreviveu 300 mil ― a maioria mulheres e meninas. 90% dos homens paraguaios foram mortos na contenda. Muitos prisioneiros paraguaios foram carregados com correntes para trabalhar como escravos nos cafezais do Brasil, o império escravista de Pedro II. Em Assunção, os cadáveres não enterrados produziram pragas e a demografia paraguaia só pôde se recuperar parcialmente graças à concubinagem e à poligamia extra-oficial. A Guerra do Paraguai é o exemplo perfeito da crueldade mostrada pela talassocracia com os territórios fechados ao seu comércio internacional e como, acima de tudo, esta atacou a mão-de-obra desses países, transformando uma nação que poderia ter sido a Suíça da América do Sul em uma pilha de cadáveres e restos de fumo. No século XX, tanto a Argentina como o Brasil admitiriam a injustiça cometida com o Paraguai: o argentino Perón devolveria simbolicamente a Assunção os tesouros saqueados durante a guerra em um gesto de boa vontade.

Em 1711, o inglês John Pullen já havia declarado que o Rio da Prata era a melhor área para estabelecer uma colônia inglesa. O Paraguai tem uma posição central na Bacia da Prata e no século XIX organizou toda a bacia, colocando-a sob forte economia estatal. Fronteira vermelha: Paraguai antes da Guerra da Tríplice Aliança. Cinza: territórios perdidos após a guerra. A região do Gran Chaco que se estende acima da fronteira vermelha no leste do país foi conquistada pela Bolívia na Guerra do Chaco dos anos 30 do século seguinte. Desta vez, os protagonistas econômicos seriam o petróleo, a Standard Oil de Rockefeller e a Shell Oil de Rothschild, e o conflito tinha relação com o revezamento regional do Império Britânico às mãos dos Estados Unidos.


Outra característica geográfica que deve ser levada em conta na definição de uma fortaleza natural sul-americana é o Altiplano andino. Com uma altitude média de 3,800 m, rico em minerais e razoavelmente fértil, o Altiplano foi o núcleo de civilizações como a antiquíssima Tiauanaco ou o Império Inca, o bioma original de espécies tão expansivas quanto a batata ou a lhama e, com suas minas de prata, uma importante base econômica do Império Espanhol. É também o ambiente da língua aimara, falada por 2 milhões de pessoas. O Altiplano andino tem uma importante bacia endorreica e atravessa as fronteiras do Peru, Bolívia, Chile e Argentina. Como é frequente em territórios de grande importância geopolítica, há uma grande proliferação de áreas protegidas e parques nacionais.


Em um tópico sobre o heartland sul-americano e nos tempos de um papa jesuíta e argentino, não podemos ignorar o périplo da Companhia de Jesus na Bacia do Rio da Prata. Muitas ordens religiosas do passado formaram Estados monásticos (a Ordem Teutônica na Prússia e Livônia, os hospitaleiros em Rodes e Malta, os Templários provavelmente pretendiam fazer o mesmo em Chipre) e os jesuítas procuraram fazer algo similar na Sulamérica guarani. O século XVII teve um importante destaque internacional da Companhia de Jesus, que via seus missionários viajarem para o Tibete e subir o Rio da Prata, convertendo os índios locais e fundando colônias missionárias bem organizadas, que eles chamavam de reduções. Cada vez mais militarizadas sob táticas intermediárias entre a Guerra dos 30 Anos e o combate na selva, essas reduções formaram uma barreira ante a expansão da influência portuguesa que irradiava do Brasil. A pergunta é: Estava sendo estabelecida uma ordem religiosa-militar no atual Paraguai, Argentina e Brasil?

Mapa das reduções jesuíticas. A ideia da Companhia de Jesus era fundar uma república teocrática independente. Observe sua proximidade com a área da Tríplice Fronteira. 
Ruínas de uma redução jesuítica no Paraguai.

Todos esses movimentos estratégicos em torno do Paraguai têm sua contrapartida moderna na importância da zona da Tríplice Fronteira (Paraguai-Brasil-Argentina), uma área tão estratégica que o atlantismo está tentando encontrar a todo custo células do Hezbollah entre imigrantes libaneses xiitas ali estabelecidos, como uma desculpa para legitimar o aumento da presença de Washington na área.

O Paraguai nunca conseguiu se emancipar completamente do atlantismo. Durante a década de 1970, a máfia corsa usou o país como uma estação intermediária para transportar heroína de Marselha para os EUA, e então o tráfego de cocaína foi implementado entre a Bolívia e o Paraguai através do Chaco. Considerando que o tráfico de drogas em todo o mundo é amplamente controlado por agências estatais dos EUA, não é de surpreender que existam duas bases americanas na área: uma base da corrupta DEA (Agência Antidrogas) na cidade fronteiriça paraguaia de Pedro Juan Caballero e outra base aérea pseudo-disfarçada no aeroporto internacional Dr. Luis María Argaña, na localidade de Mariscal Estigarribia, localizada no Chaco. Essas bases são a via de Washington para se aproximar da área da Tríplice Fronteira, do Aquífero Guarani e da Bolívia... e, portanto, ter um pé no coração da América do Sul e monitorar as atividades dos exércitos do Brasil e da Argentina. Tendo em mente que a Colômbia, atormentada por bases dos EUA, é o país número um em produção de cocaína e que o Afeganistão, também cheio de bases, é o produtor número um de ópio, o estabelecimento dessas cidades-foco de Washington na área poderia ser o avanço da conversão do Paraguai em um novo narco-Estado, já que está claro que as bases dos EUA não estão lá para lutar contra o narcotráfico, mas para controlá-lo. O atual presidente do Paraguai, o Horacio Cartes ― que substituiu o ex-bispo católico Fernando Lugo depois de um leve golpe em 2012, semelhante ao que derrubou Manuel Zelaya em Honduras em 2009 ― é um banqueiro, magnata do tabaco e fazendeiro cujo Banco Amambay foi acusado de evasão fiscal e de lavagem de dinheiro do narco-tráfico. Se a tendência continuar, o regime de Assunção pode ser sequestrado por poderosos cartéis de drogas transnacionais relacionados às agências de Inteligência dos EUA, que transformariam o país em uma nova Colômbia e, portanto, uma ameaça à segurança nacional dos países vizinhos. 

O Brasil é, sem dúvida, o poder regional com o chamado a dominar o heartland da América do Sul, especialmente através de organizações ibero-americanas do tipo MERCOSUL. O Brasil também poderia se tornar a base de um atlantismo alternativo, mas um baseado no Atlântico Sul e Ibéria (Espanha + Portugal), que tende a isolar o Atlântico Norte o fechando (não precisa ser manu militari [com mão militar], pode também ser feito através de comércio e alianças) do Caribe, do Mediterrâneo e do arco insular Fernando de Noronha-Macaronésia (arquipélagos do Atlântico Norte: Cabo Verde-Saara Ocidental-Ilhas Canárias-Ilha da Madeira, Ilhas Selvagens e Açores). Também tem, junto com a Argentina, a missão de controlar a Antártida e a passagem do Atlântico para o Pacífico, para o qual é necessário contar com o problema das ilhas geo-bloqueadoras das Malvinas.

Um olhar sobre a ZEE (Zonas Econômicas Exclusivas) do Atlântico mostra duas coisas: a extraordinária proeminência do Reino Unido (paraísos fiscais obscuros e bases estratégicas) e o potencial de uma ponte geopolítica Brasil-Ibéria. Esta ponte tenderia a atenazar o Marrocos isolando-o de seus aliados Reino Unido e EUA, bem como bloquear o acesso do atlantismo ao Saara e, portanto, ao manto de espaços vazios. Também separa as possessões britânicas no Atlântico Norte das do Atlântico Sul e fecha o Mediterrâneo.

Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos propuseram ao Brasil, Argentina, Uruguai e África do Sul a formação da OTAS ou Organização do Tratado do Atlântico Sul. Os países envolvidos recusaram, sabendo que era o truque de Washington para incorporá-los em sua esfera de influência. O Brasil também estava relutante em se envolver com a África do Sul por causa de seu interesse em se relacionar comercialmente com países africanos negros como Nigéria e Angola. O eixo IBAS (Índia-Brasil-África do Sul), a Lusofonia e o Mercosul poderiam facilmente se tornar uma nova OTAS, autônoma e, portanto, desconectada da OTAN. O Brasil e a Ibéria deveriam ter, pelo menos, relações tão boas quanto as dos Estados Unidos e do Reino Unido, enquanto a Argentina poderia ser uma versão hispana da Austrália. Lembre-se que no sul do Brasil e no pampa da Argentina existe um tipo de solo chamado molisol, o mesmo que predomina na Ucrânia e em áreas do Heartland cobiçadas pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.

A França também não pode escapar desta possibilidade geopolítica: o Rio de Janeiro teve historicamente uma forte influência francesa, Paris apoiou a Argentina durante a Guerra das Malvinas e até hoje mantém laços armados com o Brasil e realiza numerosas transações financeiras através da Guiana Francesa.

Essa possibilidade geopolítica já foi antecipada por Washington e por Londres, que cercam o Brasil e a Argentina por meio de um anel de bases e países-satélites.
Clique para aumentar. O anel atlantista em torno do Brasil parece ter o objetivo de conter sua influência na Amazônia, na Bacia da Prata e no Atlântico Sul, tendendo a separá-los da Angola e da África do Sul e, portanto, de sua entrada ao Oceano Índico e aos mercados da Ásia.


O Brasil possivelmente vai aumentar seu potencial devido a descoberta de petróleo perto da costa brasileira em 2007, mas para afirmar sua soberania nacional, o mesmo precisa de uma armada forte (com ajuda francesa, está construindo uma frota de submarinos, inclusive nuclear) e entrar no Conselho de Segurança da ONU, que, por sua vez, não pode sem desenvolver a bomba atômica.

A GRANDE BACIA E OUTROS HEARTLANDS DA AMÉRICA DO NORTE   

O controle dos mares significa segurança. O controle dos mares significa paz. O controle dos mares pode significar vitória. Os Estados Unidos devem controlar o mar se pretendem proteger nossa segurança. ― (John F. Kennedy).


No mapa que apresenta esse tópico, a fronteira canadense é claramente representada, envolvendo suas numerosas ilhas pelo mar. A mensagem é clara: este espaço marítimo é impenetrável, aqui só há "liberdade de navegação" para o atlantismo. A advertência é direcionada principalmente à Rússia, que é a potência destinada a dominar o Ártico e que, se infiltrando pela Baía de Hudson ou pelo Rio São Lourenço, poderia ficar a poucos passos da região dos Grandes Lagos.

O geógrafo suíço Arnold H. Guyot analisou as possibilidades dos EUA em 1849, muito antes da Guerra Civil e da industrialização generalizada do país, e concluiu que ele era um dos "corações continentais" destinados a governar o mundo. Embora Mackinder mencione a existência de algo semelhante a um heartland africano, é curioso que ele omita a existência de um claro heartland no continente norte-americano, que contém cidades como Chicago, Detroit, Toronto, Milwaukee, Cleveland, Winnipeg, Edmonton ou Calgary. E, ao contrário do Mar Cáspio ou do Mar Negro ― ao qual os EUA têm acesso através de aliados regionais ― tanto a Baía de Hudson como os Grandes Lagos dos Estados Unidos são única e exclusivamente controladas pela mesma superpotência: o atlantismo-anglo-saxão. Portanto, neste momento, esses espaços marítimos podem ser considerados lagos fechados com muito mais fiabilidade do que o Cáspio, o Mar Negro ou o Golfo Pérsico e, portanto, suas bacias devem ser consideradas como domínios fechados. Se às bacias hidrográficas que vão dar esses corpos aquáticos adicionarmos a bacia do Ártico, congelada em boa parte durante os invernos, geraríamos um novo heartland, menor, menos telúrico e menos povoado que o eurasiático, mas ainda digno de ser chamado de heartland. A maior parte do território deste está no Canadá, mas a maioria de sua população e as maiores cidades estão nos Estados Unidos.

A união das bacias do Ártico, da Baía de Hudson e dos Grandes Lagos gera um vasto heartland no continente da América do Norte.

No entanto, há outra área crucial nos Estados Unidos e em parte do México: a Great Basin ou Grande Bacia, um conjunto de bacias endorreicas contíguas no oeste do país, entre a Costa Oeste dos Estados Unidos e as Montanhas Rochosas, e que cobre a maior parte das regiões do Estado de Nevada, a metade oeste de Utah, a margem leste da Califórnia (incluindo o Vale da Morte) e pequenas regiões de Oregon, Idaho, Wyoming e Baixa Califórnia (México). Estes territórios pertenciam ao Império Espanhol até que ficaram sob o controle do México em 1821 e depois dos EUA em 1848. A maior parte da superfície desta peculiar bacia é ocupada por um deserto: o Deserto da Grande Bacia.

A Grande Bacia cobre uma área de 475,000 quilômetros quadrados e uma população de pouco mais de 3 milhões de almas. Em muitos aspectos, é um buraco negro geográfico que tende a separar a bacia do Pacífico da bacia do Golfo do México e a Costa Oeste dos EUA do resto do país, tornando-a especialmente sensível à influência de Lestásia. Se há algum tipo de cunha natural que separa a vocação atlântica dos EUA de sua vocação pacífica, é sem dúvida a Grande Bacia mais as Montanhas Rochosas, que poderiam ser acrescentadas ao heartland norte-americano por causa de sua natureza inacessível. Esta cunha já foi superada pelo Old Spanish Trail ou Antigo Caminho Espanhol, uma rota que, durante o Império Espanhol, uniu Los Angeles (Califórnia) a Santa Fé (Novo México), passando pela Grande Bacia.
Se unimos à Grande Bacia dos Estados Unidos aos espaços do Centro-Oeste, que, apesar de pertencerem à Bacia do Golfo do México, são bastante inacessíveis e continental por sua elevação e abundância de cadeias de montanhas, teríamos algo semelhante ao que é representado no mapa. A região pode lembrar o estranho aeroporto de Denver ou o Comando Espacial da Força Aérea (AFSPC) da Força Espacial dos Estados Unidos (USSF) em Colorado Springs. Parece que as instalações secretas, obscuras e de alta segurança dos EUA tendem a gravitar em direção a este heartland, que tende a coincidir com o chamado Jello Belt.

Essa área menor pode parecer pitoresca, deserta, estéril e sem importância, uma mera curiosidade geográfica, mas vê-la sob a lupa nos fará descartar essa ideia. Na Grande Bacia estão localizadas curiosidades como Salt Lake (a capital mórmon de Utah), Las Vegas (abrangendo a Grande Bacia e a Bacia do Golfo do México), Reno (outra cidade-cassino), instalações de Inteligência da NSA (Agência de Segurança Nacional) em Bluffdale e a base da Força Aérea dos Estados Unidos conhecida como Área 51. Também tem sido palco da maioria das detonações nucleares realizadas por Washington, 100 delas atmosféricas e 926 subterrâneas (incluindo 24 britânicas), assim como testes de mísseis de todos os tipos e vários experimentos militares, especialmente aeronáuticos e de alto escalão. 

A sobriedade da capital mórmon Salt Lake (acima) contrasta com a depravação de Las Vegas (abaixo), mas ambas estão localizadas na Grande Bacia e ambas são peculiares enclaves estratégicos localizados intencionalmente longe das principais regiões econômicas dos Estados Unidos.
Acima, o Centro de Processamento de Dados Utah, um complexo faraônico de tecnologia da NSA localizado em Bluffdale, Utah, cinco vezes maior que o Capitólio de Washington, projetado para espionar as telecomunicações do mundo e monitorar o tráfego global da Internet. Abaixo, o Templo de Salt Lake, a principal igreja dos mórmons, com uma altura comparável à Notre Dame de Paris. O Estado de Utah tem 65% de mórmons e graças a isso desfruta de uma força humana de excelente qualidade. [6]


Mais a sudeste, há outra bacia endorreica ainda menor e isolada, a de Tularosa e o aquífero Hueco Bolson, abrangendo o Novo México, o Texas e o México. Neste pequeno espaço está a Alamogordo, uma cidade remota onde os Estados Unidos detonaram sua primeira bomba atômica em 1945.

O Monumento Nacional de Areias Brancas, no Novo México, é um belo deserto de areias brancas, habitado por índios apaches até a conquista espanhola em 1534, três séculos antes da chegada dos caubóis anglos do Leste. Vale lembrar que o nome de Nevada se deve aos espanhóis, maravilhados pelos brancos desertos salgados da Grande Bacia. A peculiar formação geográfica da imagem pertence à bacia endorreica de Tularosa. Foi em um deserto de areia branca como este que a Força Aérea dos Estados Unidos detonou "Trinity", sua primeira arma atômica.

Existem outras importantes bacias endorreicas norte-americanas, como a bacia de Guzmán — que forma um caminho entre México, Novo México e Arizona — e o Bolsão de Mapimí, no norte do México. Ambos os espaços estão sendo progressivamente ocupados por cartéis e milicias de narcotraficantes, frequentemente ex-militares e com fortes laços com agências estatais dos EUA, como a DEA, a ATF, o FBI e a CIA.

Bacias endorreicas do continente norte-americano.

Os EUA ainda são um país quase impossível de invadir, por um lado, porque é protegido por dois oceanos e, por outro lado, porque, embora as elites econômicas e políticas dos Estados Unidos tentem combatê-lo, armas de fogo são populares nos EUA.

CASTELA-A-VELHA É O HEARTLAND DA ESPANHA   

Se Castela morrer, a Espanha morre. Enquanto Castela estiver dormindo, a Espanha dormirá. — (Onésimo Redondo, político falangista espanhol).

A Espanha já é uma fortaleza natural que mantém a passagem entre o Atlântico e o Mediterrâneo e entre a Eurásia e a África, uma base elevada e dominante, inserida em uma encruzilhada de tremenda importância global. Sua alta altitude [7], a escassez de rios navegáveis, a abundância de cadeias montanhosas e um planalto central que ocupa 40% do país, tornam-na uma espécie de Pérsia do Ocidente — realmente, Peter Brown, historiador da Universidade de Princeton, descreve o Irã como "a Castela do Oriente", com o qual faz Gibraltar parecer Ormuz.

A Espanha está, portanto, em boa posição para dominar os mares, mas ao mesmo tempo é pouco vulnerável ao poder marítimo inimigo. Mesmo que o nível do mar suba cinquenta metros (o suficiente para submergir debaixo d'água a Londres, Amsterdã, Paris e Berlim), Madri permaneceria intacta e o país sairia relativamente ileso ante uma hipotética elevação do oceano. A complicada geografia espanhola faz o país prestar-se particularmente à guerra de guerrilhas, uma palavra de origem espanhola que nasceu para descrever a resistência à invasão francesa.

Nesta península chamada Ibéria, Portugal e Gibraltar são as duas anomalias geopolíticas que impedem a formação de uma Federação Ibérica orientada para o Atlântico e para o Magrebe, bem como a unificação das costas ibéricas e das águas territoriais em um espaço marítimo contínuo da Catalunha para o País Basco. Pra variar, ambas as anomalias geopolíticas são obra da Inglaterra e sua eterna estratégia de dividir para conquistar. 

Na Espanha não se tem grandes bacias fluviais que desembocam em lagos interiores ou mares congelados, mas se tivéssemos que definir a área mais inacessível à força marítima, um heartland ibérico, seria sem dúvida a parte espanhola da bacia do Douro. O Douro foi uma bacia endorreica durante o Neogeno e talvez até o Plioceno, e ainda reteve parte desse caráter continental. Protegida a norte pelos Picos de Europa, a sul pelo Sistema Central e a oeste pelo Maciço Galaico-Leonês, a bacia do Douro é apenas vulnerável à força marítima na sua parte inferior, que coincide com a parte portuguesa.

As bacias do Douro e do Tejo, excluindo as suas partes portuguesas, cobrem a maior parte da região de Castela e Leão, toda a região de Madrid, grande parte da Estremadura e de Castela-Mancha e uma faixa da província galega de Ourense. Tinha suas próprias versões da Rota da Seda: o Caminho de Santiago e a Via da Prata. Como uma zona central inacessível, poderia ser alargada para incluir o Bierzo, a faixa florestal e montanhosa de Galiza que faz fronteira com Leão, a bacia do muito alto Ebro e a área de Teruel-Cuenca. O papel geopolítico de Portugal pode ser comparado ao do Saara Ocidental ou do Baluchistão: separar um heartland continental de um oceano importante.


Pelo contrário, tanto o Guadalquivir quanto o Ebro são as partes da Espanha mais vulneráveis ​​ao poder marítimo e, de fato, essas foram as rotas escolhidas pelos povos neolíticos, romanos e mouros para entrar em Espanha. Portanto, Castela não é Castela apenas pelos castelos, torres, ameias, muralhas e cidades fortificadas, como Ávila. Castela é Castela, em primeiro lugar, porque ela mesma é como uma imensa força geográfica natural, alta, rodeada de montanhas, fácil de defender e cheia de recursos vivos (especialmente terra arável) que tendem a torná-la auto-suficiente.

Hoje, a situação foi invertida. Muitos dos imensos campos de cultivo da região estão desertos, os povos ― muitos com valioso patrimônio artístico ― estão velhos ou abandonados, os campos não estão funcionando, a população está concentrada em alguns centros urbanos, deixando o resto da região deserta, o desenvolvimento econômico severamente impedido e também dependente de subsídios externos, em vez de trabalho interno. Castela é, sem dúvida, uma região danificada pela globalização. 

No entanto, Castela experimentou tempos melhores e até hoje é a chave para o renascimento da Espanha. Durante a Idade Média, o Caminho de Santiago ajudou a estruturar os pequenos reinos cristãos em seu caminho para o sul, e durante a Reconquista, Castela também possuía uma vanguarda de colonização semelhante aos cossacos do Império Russo, aos caubóis norte-americanos ou aos gaúchos sul-americanos: os cavaleiros-vilãos das Extremaduras (fronteiras entre o Islã e o Cristianismo), de organização espontânea, livre e quase anarquista. A partir do final do século XIII, o boom de lã e cereais fez de Castela uma espécie de "banana independente", embora intimamente relacionada com o mercado de Flandres, onde a presença de mercadores castelhanos era forte. Em geral, a lã se acumulou em Burgos e foi para o Mar de Bilbau, que na época era como um porto particular de Burgos. A luta sangrenta entre Inglaterra e Espanha pela Holanda pode ser resumida em grande parte como a competição entre lã inglesa e espanhola para entrar na Banana Azul e dominar a Rota da Lã fortemente marítima, então sob a influência de marinheiros bascos e cantábricos. Nesta época, Medina del Campo (casa das feiras mais importantes do país), Medina de Rioseco (local de distribuição da prata americana), Villalón e Valladolid eram centros financeiros e comerciais de primeira ordem no cristianismo.

Cavaleiros-vilãos da Extremaduras castelhanas, época da Reconquista.

Diversos processos marcaram a perda do protagonismo de Castela-a-Velha e o enfraquecimento de seu poder geopolítico:

• Século XVII. A perda de posições estratégicas na Flandres arrebatou o comércio da lã castelhana do seu mercado tradicional, a dando aos ingleses. Neste século, os Países Baixos e a França se revelariam a Espanha como as principais superpotências, seguidas pela Inglaterra, que tomaria o trono no século XVIII.

• O sangramento da melhor força humana castelhana nas guerras e a emigração para a América Ibérica. Também, por razões estudadas pela eugenia, o lento aumento do peso demográfico ― especialmente no sul do antigo Reino de Leão ― dos descendentes dos mouros deportados após a Rebelião das Alpujarras em 1571 e que conseguiram escapar, ou acabaram voltando, da expulsão decretada em 1609 por Filipe III, bem como de populações de sangue mulato do comércio de escravos em Sevilha.

• Início do século XIX. O final definitivo dos "panos castelhanos" e, portanto, da indústria mais genuinamente castelhana ocorrida na época da Guerra da Independência. Os altos comandantes ingleses, incluindo o famoso Duque de Wellington, ordenaram a destruição das incipientes infraestruturas industriais da Espanha. Assim, a indústria têxtil de Béjar (Salamanca), que era uma concorrente direta dos ingleses, foi bombardeada com canhões, outras fábricas de Béjar foram queimadas, todos os teares que as tropas inglesas encontraram em Castela foram incendiados, inúmeras ovelhas merinas (que eram a matéria-prima do tecido castelhano) foram roubadas (muitas acabaram na Austrália) para se beneficiar de sua lã ou abatidas para alimentar as tropas francesas e inglesas, causando um golpe mortal na economia castelhana, e até a Real Fábrica de Porcelana do Bom Retiro em Madri foi devastada pelos ingleses... mesmo quando os franceses já haviam evacuado a cidade. A "ajuda" fornecida pela Grã-Bretanha durante a Guerra da Independência era de natureza um tanto peculiar e, embora o povo espanhol simplesmente lutasse contra os franceses como qualquer povo decente faria quando invadido, o alinhamento com Londres foi um erro grave. Na marítima Cádis, que nunca foi tomada pelos franceses, a Maçonaria se enraizaria e cooptaria fortemente todos os processos constituintes da Nação espanhola: a burguesia do mar e do comércio ― isto é, vassada da Grã-Bretanha ― se impusera ao desenvolvimento de uma burguesia da terra e da produtividade (como a prussiana). A Maçonaria logo criaria raízes na América do Sul, onde foi totalmente responsável pelos processos de independência das colônias da Espanha. A possibilidade de uma Castela-epicentro de uma revolução industrial independente na Espanha foi inviabilizada para sempre. A partir de então, o País Basco (sob influência britânica) e a Catalunha (sob influência francesa) seriam a base da indústria espanhola.

• (1798-1924). Os confiscos foram processos nos quais o Estado expropriou terras, imóveis e outras propriedades das "mãos mortas" (instituições que representavam o Antigo Regime, especialmente a Igreja e ordens religiosas) para vendê-las a uma nova geração de proprietários oportunistas. Se destaca o confisco decretado em 1836 por Juan Álvarez Mendizábal, um político liberal de origem judaica e membro de uma loja maçônica de Cádis, além de agente de Nathan Rothschild na Espanha. Era a época da Primeira Guerra Carlista, na qual ― como aconteceria mais tarde na Guerra Civil Americana ― a nova economia bancária, industrial e comercial enfrentava a economia agrária e produtiva do Antigo Regime. Durante as guerras carlistas, os bancos Rothschild em Londres, preocupados sobretudo com suas minas de mercúrio em Almadén (Cidade Real), deram seu apoio à causa liberal de Isabel II, fazendo com que a França enviasse a Legião Estrangeira para intervir no país e que a Inglaterra enviasse uma força voluntária financiada diretamente por Nathan Rothschild. Os confiscos, em combinação com as guerras carlistas, tiveram vários efeitos: aniquilação do Antigo Regime na Espanha, perda de enormes quantidades de herança artística em toda a Espanha em geral e em Castela em particular, triunfo do liberalismo, desenraizamento de grandes massas camponesas que se acumulariam nas cidades, formando a carne-de-canhão da futura industrialização urbana e o estabelecimento, pela Grã-Bretanha, de toda uma rede econômica e de Inteligência na Cornija Cantábrica espanhola. Sob o guarda-chuva dessa influência e do comércio de ferro do País Basco para a Inglaterra, surgiu o separatismo basco e aqueles que são atualmente os bancos mais importantes da Espanha: Banco Santander e Banco Bilbao-Vizcaya, que surgiram nas duas cidades espanholas melhor conectadas com a Inglaterra.

• (1986-). As políticas da União Europeia arrasaram ― não com tochas e canhões, mas indiretamente por meio de processos burocráticos e fiscais ― as infraestruturas produtivas (industriais e agrárias) criadas pelo general Franco (onde, quando este morreu, a Espanha era a oitava potência industrial do mundo). Em troca do desmantelamento do tecido produtivo ("reconversão industrial"), o Estado espanhol recebeu grandes quantias de capital de bancos europeus, dinheiro que o permitiu importar produtos do exterior quando não conseguisse produzi-los e, portanto, dinheiro maldito que o levou a uma dependência externa semelhante à dos países do Terceiro Mundo. Este dinheiro também foi usado para dar uma aposentadoria gorda aos trabalhadores de estaleiros, minas, altos fornos e mais, para que não se rebelassem, para financiar o estilo de vida corrupto da casta política espanhola, tornando-a vassala de Bruxelas, e para financiar os vários projetos de engenharia social que transformaria para sempre o panorama cultural e social do do país, como previsto pelo político do PSOE, Alfonso Guerra, declarando que "Nós faremos a Espanha não reconhecer seu própria mãe". Os principais beneficiários das políticas agrícolas da UE em relação à Espanha foram França, Marrocos, Turquia e Israel, que se livraram de um importante concorrente no jogo. 

A atual estratégia seguida pelo atlantismo para isolar o heartland da Península Ibérica e afastar a Espanha do Atlântico é favorecer o projeto ferroviário do Corredor Mediterrâneo em detrimento do Corredor Central. Com isso, o atlantismo espera que um eixo Madrid-Lisboa nunca seja estabelecido, que a Espanha nunca seja uma potência atlântica de peso, que a dobradiça mediterrâneo-atlântico sempre dependa de Gibraltar e além de aumentar a pressão catalã sobre o resto do país. A polêmica "Corredor Central vs. Corredor Mediterrâneo" é realmente a necessidade de escolher entre duas rotas: Lisboa e o Atlântico ou Gibraltar e o Magrebe. 

Clique para aumentar. O Corredor Mediterrâneo é um projeto ferroviário claramente orientado para Marrocos e Gibraltar, a sanguessuga fiscal de toda a Península Ibérica. A costa do Mediterrâneo é claramente privilegiada, onde a influência estrangeira e do crime organizado é muito forte e acentuaria ainda mais a "periferização" da Espanha, isolando Portugal (o que é ridículo considerando a posição imbatível dos portos portugueses) e impedindo a Ibéria Atlântica (tudo entre Ferrol e Cádiz) de se tornar muito forte.
O Corredor Central, muito mais ramificado, ligaria a Espanha a Portugal, tornaria Lisboa um porto privilegiado para o comércio com as Américas e tenderia a compartilhar os benefícios e as mudanças da economia espanhola em lugares muito mais inacessíveis à energia marítima. Além disso, o projeto claramente não favorece a Gibraltar.

A organização da Espanha não pode ser feita a partir das costas para o interior. A costa cantábrica é um feudo britânico, a costa galega de narcotraficantes e máfias, a costa andaluza de ingleses e marroquinos e a costa levantina e mediterrânea é o feudo de todos, exceto do povo espanhol. Se a Espanha pretende voltar à soberania, precisa reverter a periferização do país e organizar uma implosão controlada em direção aos campos centrais, com enorme potencial produtivo. Também precisa girar do Mediterrâneo para o Atlântico. 

Da mesma forma, a Espanha precisa reconhecer o valor de sua força humana e cultivar sua linhagem, ou seja, de herança ibérica, celta, romana, germânica e eslava. É claro que essa medida ― numa época em que nossos impostos são desperdiçados subvencionando ferozmente a reprodução excessiva de outros tipos, como os ciganos, os magrebinos, os subsaarianos ou os andinos ― soa como herético, entretanto, isso só indica o nível de lavagem cerebral e etnomasoquismo que o povo espanhol sofre em aceitar sua própria extinção étnica. Se a Espanha não quer decair como povo, então, deve favorecer a reprodução de seus melhores tipos humanos. Todo o mais é negação politicamente correta e, portanto, "idealista", dos fatores reais. 

Castela tem um papel chave a desempenhar se a Espanha pretende se salvar, não só como Estado, nação e entidade política, mas como comunidade humana. O que foi feito durante a Reconquista militarmente — a partir de um núcleo social atlanto-cantábrico-pirenaico para colonizar terras desérticas e organizar as grandes bacias hidrográficas do país formando uma frente para lutar contra a influência africana — deve ser repetido de uma moderna forma demográfica, genética, social e cultural, a partir do bom sangue "fidalgo", que é aquele a que o Estado espanhol tem a obrigação de conservar, cultivar e multiplicar se ele mesmo tem a pretensão de sobreviver. Em que consistiria uma repetição arquetípica da façanha da Reconquista nos tempos modernos: na des-africanização da Espanha e sua constituição como uma frente contra o Magrebe. A mistura do código genético espanhol não formará uma cultura diversa, ao contrário, tão somente terá como feito que a Espanha, cada vez mais confusa e desenraizada, se torne em um espelho-quebrado das bolsas de pobreza da América Ibérica. 

TERCEIRA PARTE 

[A vontade] maior e mais maravilhosamente desenvolvida se encontra no império do meio, onde a Europa se coliga à Ásia, isto é, na Rússia. Lá, a força do querer foi mantida durante muito tempo, acumulada, lá a vontade permanece alerta — sem saber se será afirmativa ou negativa — em espera ameaçadora, em espera que poderá descarregar-se, para adotar um vocábulo entre os prediletos dos físicos modernos. ― (F. Nietzsche).
Nas décadas futuras, as ferrovias, as rodovias e as redes para o transporte de energia conectarão toda a Eurásia a uma central asiática e, acima de tudo, a uma afegã. ― (Robert D. Kaplan).

A TEORIA DO MANPOWER ― A GLOBALIZAÇÃO CONTRA A RAÇA BRANCA

O trabalho assalariado inferior dos brancos perdeu seu valor; as massas de operários radicadas no carvão nórdico tornaram-se desnecessárias. Foi esta a primeira derrota dos povos brancos frente à massa dos povos de cor de todo mundo. ― (Oswald Spengler),

Mackinder não considerou, como os historiadores marxistas ou demoliberais, que a História era uma conjunção de processos econômico-sociais facilmente previsíveis, mas o trabalho da vontade dos homens. Fruto da aceitação desse fato é o reconhecimento da importância absoluta do manpower, chamado pelos romanos de germen, que seria, pelo menos, tão determinante quanto o território na geopolítica ― lembre-se que, na geopolítica, o geo depende da terra e a política depende do homem, sendo assim, estudar o homem e as comunidades humanas é de fundamental importância na geopolítica, não esqueçamos que Stalin chegou até a proibir a geografia humana.

Manpower significa em inglês "o poder dos homens". Mas traduções mais próximas seriam "força humana" ou "capital humano". Para Mackinder, havia três fatores que modulavam a expressão estratégica do manpower: seu número (demografia), sua virilidade (organização, disciplina, coragem, resistência, "espírito", etc.) e seus equipamentos (tecnologia). Reconhecer a importância do capital humano implica aceitar que, se um país não tem indústria, pode construí-la, se não tem matéria-prima, pode enviar soldados e/ou empresas para conquistá-las, se seu território não favorece o desenvolvimento, terras melhores podem ser anexadas, se uma cidade for destruída por um terremoto, pode ser reconstruída, até se uma pandemia dizimar a demografia, o país pode ser repovoado desde que haja um depósito de capital humano de qualidade. Mas se um povo corrompe seu capital humano, ele se perde, já que somente o trabalho ― a ação construtiva ou destrutiva do ser humano ― é o motor do desenvolvimento. O trabalho é a única fonte de riqueza e depende da força humana. Portanto, raramente uma nação sucumbe a guerras, catástrofes e ataques externos se antes a degradação fisiológica, genética e moral de seu povo não tivesse sido corrompida.

A China mostrando sua força humana em um desfile militar.

Para a internacional marítima e comercial da época de Mackinder, o "problema" da Alemanha era que ali a importância do capital humano era reconhecido desde a época de Frederico, o Grande. Citando o monarca prussiano:

É uma infelicidade ver o esforço colocado em nosso rude clima para crescer frutas exóticas enquanto cuidam pouco da prosperidade humana. Mas independente do que digam, o homem é mais importante do que todas as frutas. Ele é a planta a ser cuidada e cultivada pois representa o orgulho e a glória de nossa Pátria.

Sem repetir o conteúdo, mas a forma, o capítulo dois da segunda parte do Minha Luta hitleriana é também um hino para a necessidade de cultivar e aumentar o capital humano com vista a fortalecer o Estado:

[O Estado racialista] deve começar fazendo da questão da raça o ponto central da vida geral da nação; deve assegurar a preservação de sua pureza e deve consagrar a criança como o bem mais precioso de seu povo; deve cuidar para que apenas indivíduos saudáveis tenham filhos. (...) Por outro lado, o Estado tem que garantir que a fecundidade da mulher saudável não sofra restrições como resultado da terrível administração econômica de um regime governamental que se tornou uma maldição para as famílias.

O austríaco continua:

Serão formadas colônias cujos habitantes serão todos portadores do sangue mais puro e, ao mesmo tempo, de grande capacidade. Será o tesouro mais precioso da nação. Seu progresso deve ser considerado com orgulho por todos, porque são as sementes de um grande desenvolvimento nacional e da própria Humanidade.

Apoiada pelo Estado, a ideologia racialista acabará por alcançar o advento de uma era melhor, na qual os homens se importarão menos com a seleção de cães e cavalos do que elevando o nível racial do próprio homem

Também a educação e a cultura sofrem uma mudança radical sob essa mentalidade herética. A memorização mecânica de dados inúteis que o estudante não retém passado anos — e que, na verdade, serve para castrar os instintos naturais da juventude para formar uma geração fraca e conformista — é substituída por uma educação destinada a promover capacidade física, força de vontade, liderança, caráter, decisão, espírito de combate, pensamento crítico e clareza mental. Tais ideias levaram Hitler a pensar que o boxe, o jiu-jitsu, o treinamento militar, a arte, a história e a vida no campo eram muito mais importantes que a matemática ou a química para a educação da juventude e para a sobrevivência de um povo.

Com base nessa convicção, o Estado racialista não limita sua missão educacional à mera tarefa de inflar o conhecimento humano. Seu objetivo é, antes de mais nada, treinar homens fisicamente saudáveis. No fundo está o desenvolvimento das faculdades mentais e aqui, de preferência, da educação de caráter e, acima de tudo, do incentivo da força de vontade e decisão, acostumando o aluno a assumir a responsabilidade por seus atos. Só depois de tudo isso vem a instrução científica.

O Estado racialista deve partir do ponto de vista de que um homem, embora de instrução modesta, mas de corpo saudável e caráter firme, cheio de vontade e espírito de ação, vale mais para a comunidade do povo do que um intelectual decadente.

Apesar dessa educação supostamente anti-científica, o período nazista coincidiu com uma extraordinária decolagem da ciência e tecnologia na Alemanha. Os nazistas basearam sua biopolítica ou política reprodutiva em várias correntes, que incluíam a eugenia, a promoção de grandes famílias e dos tipos humanos nórdicos e uma educação baseada em esportes, combate e vida a céu aberto. O NSDAP pretendia organizar a demografia alemã como se fosse uma fazenda — de fato, dois dos principais ideólogos raciais alemães, Heinrich Himmler e Walter Darré, tinham formação agrícola. Os irmãos Lutz e Heinz Heck, ambos biólogos e zoólogos alemães, iniciaram, já no período de Weimar, um experimento zoológico para recriar os auroques (antepassados dos bovinos) e tarpãs (antepassados dos equinos). Sua ideia era demonstrar que uma espécie não estava extinta se seus genes tivessem sobrevivido, ainda que dispersos, em outras espécies modernas, e que poderia ser facilmente reconstruída com um programa de cruzamento seletivo. Apesar de chegarem muito próximos de seu objetivo (cavalos e touros de raça heck), não conseguiram concluir. Eles também tentaram o possível para evitar a extinção do bisonte-europeu. Isso mostra que os estudos hereditários e pecuários estavam muito avançados na Alemanha.

No presente, o Japão fornece o exemplo perfeito da importância do capital humano. O Japão é um arquipélago de ilhas rochosas, isoladas, montanhosas e íngremes, a terra arável é escassa e as matérias-primas, incluindo carvão e ferro, são quase inexistentes. Devido a orografia diabólica, a construção de ferrovias foi problemática e foi preciso escavar túneis e construir pontes. Historicamente, o Japão foi bloqueado de todo o acesso a fontes de matérias-primas. Por fim, no final da Segunda Guerra Mundial o país foi devastado por duas bombas atômicas. Embora a repressão do pós-guerra não tenha sido tão selvagem quanto a sofrida pela Alemanha, o Japão foi governado entre 1945 e 1951 por um ditador estadunidense: o General MacArthur, que presidiu a engenharia social e as reformas econômicas que transformaram para sempre a sociedade. Os japoneses poderiam ter passado o resto de sua história choramingando, se fazendo de vítimas, vivendo de ajuda humanitária e reclamando de sua "dívida histórica", mas apesar desse cenário material tão contrário à prosperidade, outro fator igualmente material (a enorme qualidade genética de sua força humana, sua inteligência e capacidade de trabalho) fez com que o Japão renascesse das cinzas se reconstruindo em tempo recorde para se tornar a primeira economia da Ásia (agora é a segunda). Embora seja verdade que sua idiossincrasia e cultura foram distorcidas pela ocupação dos EUA e traumatizadas pela derrota do Império, a tal ponto que hoje o caráter nipônico parece uma caricatura do que foi outrora (algo que também aconteceu na Alemanha e até mesmo em outras nações que teoricamente venceram a guerra), a promessa de um Japão próspero e livre continuará enquanto subsistir a qualidade humana do arquipélago, a homogeneidade étnica do povo e sua tradição.

O Japão não é uma planície fértil de clima ameno, mas um arquipélago dividido, rochoso, montanhoso, vulcânico, assediado por terremotos, com escassa terra arável, poucos recursos de vida e matérias-primas, invernos gelados e costas abruptas. Se fosse habitado por um povo incapaz, seria um Estado falido em vez da segunda maior economia da Ásia.

A Islândia é outro exemplo. A menos de 3,000 km do Polo Norte, apenas 1% de sua superfície é arável, o resto é uma mistura de geleiras, montanhas, terras vulcânicas, gêiseres, planícies pedregosas e outras superfícies estéreis e não-aráveis ​​nem mesmo na primavera ou no verão. Não possui rios navegáveis ​​ou fontes de matérias-primas, está a mais de cinco horas das capitais europeias e a dez horas da América do Norte — isso se a atividade vulcânica não ofuscar a visibilidade do espaço aéreo. As ligações marítimas são ainda mais dolorosas, os icebergs não são incomuns e o turismo é anedótico. A Islândia não é uma sociedade perfeita, tampouco, mas apesar de tudo isso, além das crises financeiras e das maquinações dos bancos britânicos e holandeses, a prosperidade da ilha de rocha, fogo e gelo é inquestionável devido à diligência, disciplina e inteligência de seu capital humano.

O Haiti é um exemplo oposto. Fértil e de clima ameno, a terra permite produzir três safras por ano, mais do que suficiente para não apenas alimentar a população nativa, mas também exportar excedentes para o exterior. Durante seu tempo como uma colônia francesa, o Haiti produziu mais riqueza do que as treze colônias inglesas da América do Norte, abastecendo toda a França e grande parte da Europa. Em 1791, a população negra e mestiça, atiçada pelos novos slogans de "liberdade, igualdade e fraternidade", se rebelou contra a minoria francesa, exterminando-a numa colossal limpeza étnica pouco lembrada pela história. Logo a fome chegou. Desde então, o Haiti é um desastre socioeconômico, uma piada como Estado, uma base norte-americana, um parasita que vive de ajuda do mundo desenvolvido e, em suma, um pedaço da África Subsaariana no meio do Caribe.

Islândia, Haiti e a importância do capital humano, ou como transformar um inferno glacial em um paraíso nórdico e um paraíso tropical em um inferno subdesenvolvido. Se o Haiti fosse habitado por franceses (como no século XVIII) ou por alemães (como o Sul do Brasil), seria um país inquestionavelmente próspero.

Devido à ação ideológica e social do cristianismo primitivo, do demoliberalismo, do marxismo, da psicanálise freudiana, da antropologia boasiana, da escola de sociologia de Frankfurt e do Concílio Vaticano II, todos antepassados do atual pensamento politicamente correto (talvez melhor chamado de judaico-cristianismo cultural), esses exemplos contundentes são rapidamente censurados: o importante é "cultura", "educação" e "meio ambiente". Eduque um povo, eles dizem, e será capaz de elevá-lo. "A educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo", declarou o ex-terrorista anglófilo Nelson Mandela, agente da ONU e da família Oppenheimer na África do Sul e atualmente um "mártir" da globalização.

Esquecem-se que a Natureza estabelece limites. Sendo assim, alguns tipos humanos têm mais potencial do que outros, portanto, a semente da educação brota melhor em certas pessoas. Livros e aprendizado artificial não podem substituir o instinto inato e centenas de milhares de anos de seleção natural, porque a cultura e as modas são fenômenos mutáveis, acessórios e transitórios, enquanto o genoma é muito mais permanente. Da mesma forma, um subnormal nunca vai ganhar o Prêmio Nobel de Física, um tetraplégico nunca vai bater o recorde de 200m com obstáculos, um aborígine australiano nunca será um campeão de xadrez, um negro nunca será um campeão de natação, um chines nunca será um campeão de fisiculturismo e um branco nunca será um campeão de 100m rasos — e isso não é discriminação nem racismo, é a realidade natural dos fatos em oposição ao idealismo artificial de "igualdade". Mesmo quando a educação dá um certo verniz ordenado a tipos humanos desordenados (sempre levando em conta que existem indivíduos excepcionais acima e abaixo da média de cada raça), qualquer situação de crise, qualquer mudança de ventos, qualquer caos provisório, qualquer regressão e a natureza e a barbárie farão com que a genética seja novamente imposta e que os efeitos do treinamento superficial voltem ao seu estado primitivo.

Poder-se-á falar da importância da cultura como elemento social unificador na Geopolítica, dando coesão e continuidade histórica a um grupo humano, mas sempre tendo em mente que a relação entre uma cultura e um grupo étnico é uma via de mão dupla: toda cultura, todo imaginário coletivo, toda cosmovisão, toda ideologia, tradição e religião é sempre o resultado do tipo humano que a criou e do território onde nasceu — e, portanto, de um código genético, um entorno ambiental e até um determinado momento histórico. Uma raça não pode adotar uma cultura alheia à sua psique inata sem causar sérios desequilíbrios. Portanto, aqueles que afirmam a importância da educação na verdade afirmam a importância de "educadores", isto é, sistemas de controle social, narcose social, castração social e domesticação social nas mãos de obscuros engenheiros sociais dedicados a combater a natureza, especialmente a natureza humana. Se partirmos da base de uma raça nobre, altruísta, trabalhadora, auto-suficiente, saudável, forte, valente, competitiva e inteligente ― ou seja, uma raça que exige menos esforço educacional para alcançar a excelência ―, todos os vampiros das máfias de engenheiros sociais e profissionais de caridade (que sob sua fachada de querer "melhorar o homem", na verdade, sempre aspiram a se tornar pastores-escravistas de um rebanho domesticado) não teriam substância do qual sugar, deixando de existir. A casta dos engenheiros sociais, deste modo, precisa de bolsas sociais de pobreza, ignorância, instabilidade, insegurança, doença, depravação, promiscuidade, miscigenação e desenraizamento, quer dizer, eles precisam de pessoas incapazes de ajudar a si mesma para serem os únicos a "ajudá-las" para poder se apresentar como os únicos organizadores possíveis do mundo e da humanidade. Para se perpetuar no poder, precisam perpetuar um tipo humano permanentemente dependente de educação e/ou dominação para ser salvo de si mesmo e, isto posto, dependente de seus mestres. Assim, a casta de engenheiros sociais visa concentrar tanto poder quanto possível (o Governo Mundial) em menos mãos possíveis (um pequeno núcleo de famílias agrupadas em torno da Alta Finança). E, claro, tudo isso não é possível sem "educação", isto é, a manipulação da mente humana para adestrá-la na fazenda global defendida pelos pastores de nosso século. A reprodução excessiva de pobreza no Terceiro Mundo desde a segunda metade do século XX é um fenômeno extraordinário de importância global em que suas origens devem ser buscadas na cultura judaico-cristã de ONG's e fundações privadas do Ocidente.

Daí, conclui-se que as máfias de caridade (igrejas, ONG's, serviços sociais) não têm a menor intenção de acabar com a pobreza e a miséria, da mesma forma que a indústria farmacêutica não tem a menor intenção de acabar com as doenças.

Recentemente, o Papa visitou o Brasil. Francisco I falou da educação para lutar contra o problema das drogas... naturalmente, essa "educação" estaria a cargo da Igreja: enquanto houver drogas, a Igreja, tão pós-Concílio Vaticano II, continuará a ser necessária. Parece que o Vaticano não quer que o indivíduo se aproxime da Igreja espontaneamente por causa de crenças sólidas ou tradição ancestral, mas por puro desespero e abandono. O verdadeiro objetivo do Vaticano no "submundo" do mundo é penetrar nesses cenários para estabelecer redes de Inteligência nas ruas. Mas a realidade é que o problema das drogas pode ser combatido efetivamente de muitas outras maneiras e a mansidão não é a melhor maneira de um povo enfrentar obstáculos. As drogas poderiam ser combatidas dando um tiro em todo homem negociando drogas em vias públicas, caçando como animais os grandes traficantes, destruindo suas propriedades e exterminando tanto seus exércitos privados como os vendidos e corruptos que trabalham para eles dentro do sistema, levando-os a apodrecer na prisão ou trabalhos forçados, fazendo incursões e buscas em massa em boates e prendendo qualquer um carregando drogas, ou mesmo devastando militarmente as redes de cultivo do narcotráfico. A maioria dos Estados desfruta dos meios para realizar todas essas operações, o que, por consequente, produziria um choque poderoso na psique coletiva do povo e mudaria para sempre a cultura popular nas ruas. Se essas operações não são realizadas, é porque existem organizações globalistas, bem como interesses comerciais geridos por vários serviços de Inteligência, que seriam altamente prejudicados, fazendo-os reagir violentamente com todos seus meios contra o Estado que se comportasse como tal. Mas isso não significa que a luta contra as drogas não possa e deva ser realizada, como na verdade está sendo feito no Brasil, na Rússia (enfatizando Victor P. Ivanov, diretor do Serviço Federal de Narcóticos da Rússia) e no Irã.

Voltando novamente ao assunto do capital humano. Por muito tempo a inércia da civilização tendeu a drenar e desperdiçar a moeda genética dos povos europeus. Contra os tomahawks de bronze da Idade dos Metais, contra os escudos das legiões romanas, contra as flechas dos arqueiros ingleses, contra as cimitarras dos sarracenos, contra as lanças dos terços espanhóis, contra as galeras turcas, contra os muros das cidades holandesas, contra as lanças da cavalaria francesa, contra as repressões de Cromwell, contra as baionetas de Napoleão, contra as metralhadoras dos alemães, contra as armas do Exército vermelho, se lançou onda após onda de homens de uma qualidade que atualmente é difícil conceber; homens duros que, se existem no presente, não permitiriam a destruição de seu povo pelas mãos de uma casta de parasitas, a escravização de seus descendentes por uma elite degenerada ou a colonização de suas terras por povos do Terceiro Mundo que se aproveitam da decadência da nossa civilização e que executam a agenda de limpeza étnica da oligarquia globalista.

George B. Shaw disse que "os fortes se destroem enquanto os fracos continuam a viver". Durante milênios, os povos europeus, por sua natureza muito guerreira e ativa, passaram por uma seleção natural invertida que erradicou os melhores estratos genéticos — um fenômeno conhecido como disgenia. Essa disgenia enfraqueceu nosso patrimônio genético a ponto de comprometer nossa sobrevivência como família internacional e nos subordinar aos descendentes daqueles que não viviam pela espada e pela verdade, mas por dinheiro e mentiras. Tem sido uma luta entre duas formas antigas de guerra: a convencional e a parasitária... e, infelizmente, a parasitária está ganhando. Em termos geopolíticos, isso se traduz na desvalorização dos impérios até que eles se tornem seus reflexos antitéticos: o Império Romano deixa de ser um império do "Senado e o Povo Romano" para se tornar o império da oligarquia religiosa do Vaticano, o Império Britânico deixa de ser um império dos militares ingleses para se tornar no império da elite financeira da Cidade de Londres, o Império Francês deixa de ser um império da República para se tornar no império de um conglomerado de multinacionais e lojas maçônicas e assim por diante: outrora reinava a força bruta, a luta direta e o caminho das armas, agora reina a manipulação da mente e do dinheiro; outrora o homem-guerreiro era exaltado, agora o homem-rebanho e o usurário são exaltados.

A medicina moderna também fez um trabalho desastroso no campo evolucionário. Por um lado, trancafiou os inteligentes em laboratórios de estudos, diminuindo sua taxa de fertilidade, e, por outro lado, conseguiu multiplicar os tolos e fracos: uma situação exatamente oposta à desejável. No mundo moderno, os fortes e inteligentes são os que dão seu sangue e suor para os tolos e fracos.

Foi na era da globalização que o genocídio do melhor sangue europeu foi totalmente institucionalizado pelas novas castas dominantes. Hoje estamos testemunhando uma limpeza étnica da humanidade euro-descendente em todo o mundo; apesar de ser uma limpeza étnica às sombras (às vezes nem tanto), executada não por exércitos convencionais, mas por bancos, mídia, ONG's, governos, prefeituras, mesquitas, igrejas, empresas, ideologias, movimentos, máfias e serviços sociais, que cumpre absolutamente todos os requisitos de um genocídio em grande escala, de acordo com a definição da ONU. Os geoestrategistas da globalização estão claramente determinados a extinguir a força humana dos europeus étnicos, demolindo as bases de nossa ordem social, envenenando nosso espírito com ideias autodestrutivas, castrando psicologicamente os homens, vulgarizando o caráter das mulheres, destruindo nosso instinto de autodefesa e territorialidade, e colonizando-nos e hibridizando-nos com outras raças para exterminar para sempre os resquícios do legado genético das raças nórdicas do Paleolítico.

Paris.
A oligarquia globalista (que considera que a tecnologia já possibilita que o mundo seja governado por um pequeno número de pessoas, conforme descrito pelo geoestrategista Zbigniew Brzezinski em "A era tecnotronica") não precisa mais da raça branca para impor seu domínio global. Pelo contrário, agora ela precisa se livrar dos povos europeus (incluindo os euro-descendentes nas Américas, Oceania, África do Sul e outros lugares) porque os considera os principais obstáculos ao Globalistão. Afinal, mais quantidade de pessoas inteligentes, organizadas, corajosas, com consciência de grupo e com instinto de território significa mais pessoas com as quais compartilhar os recursos do mundo. Se o objetivo é concentrar o capital de modo que uma pequena minoria seja enormemente poderosa e rica, então, todos os outros povos devem ser impotentes e pobres. À vista disso, assim como a família Oppenheimer está tirando os brancos sul-africanos do caminho para que possam saquear ouro e diamantes da África do Sul com mais facilidade, fazendo com que o país se torne em um Estado falido vítima de empresas transnacionais, ao mesmo tempo, outras famílias da Alta Finança precisam se livrar da "raça branca" para dominar o mundo sem oposição, e, para isso, eles promovem todas as outras raças em detrimento da raça branca. O fim será a nivelação dos povos em um mundo de escravos sem identidade no meio do qual, como oásis neo-feudal, serão erigidas as luxuosas e hipertecnológicas torres de marfim e bolhas de vidro dos descendentes da atual elite financeira que, é claro, não vão se misturar com outras raças. Os Estados Unidos e a União Europeia parasitam a genialidade e a laboriosidade da raça branca, mas são, de fato, entidades ferozmente anti-brancas: dentro delas, o homem branco se entregou e trabalhou mansamente e pagou religiosamente seus impostos para financiar sua própria aniquilação. A "terceiro-mundização", por assim dizer, do Ocidente parece ser uma das paradas obrigatórias na rota para a Nova Ordem Mundial, e tanto os EUA quanto a UE são núcleos essenciais dessa nova ordem.

Por isso, qualquer Estado verdadeiramente soberano deve vislumbrar o futuro sombrio que aguarda o mundo se a globalização triunfar; Portanto, se rebelar contra os apóstolos do Globalistão e aceitar, sem mais nem menos, que os tipos humanos mais evoluídos — particularmente com maior desenvolvimento de tecidos e áreas do cérebro de aparição evolutiva recente —, de maior potencial e máximo valor para a estruturação de um Estado são, em geral, os do norte da Europa e os do Leste da Ásia. As relações entre essas comunidades raciais (por exemplo, a Rota da Seda, como vimos em outro artigo) são como o fluxo negativo-positivo de um circuito elétrico, pois têm sido a chave da geopolítica por séculos e é de se esperar que elas permaneçam assim para bem ou para mal. Entre o norte da Europa e o leste da Ásia, o mundo semítico aparece como uma anomalia intermediária, um curto-circuito que perturbou o fluxo correto das relações: do mundo semítico veio o judaísmo, o cristianismo primitivo, o islamismo, o capitalismo, o comunismo e o globalismo.

Tanto o tipo europeu quanto o tipo leste-asiático são variedades humanas que surgiram em ambientes frios (no século XVIII, o Montesquieu notou as diferenças evolutivas produzidas pelo frio em raças humanas) e altamente hostis à sobrevivência, o que impôs a necessidade de aumentar as operações de caça, de comer carne e adotar fortes tradições e organizações tribais, como vimos em outros artigos. A civilização é o mero produto do transplante desses tipos humanos em territórios muito mais propícios à vida, onde a sobrevivência não envolve tanto esforço, onde essas tribos arregimentadas se tornaram Estados e Impérios e onde seu gênio inato ― "libertado" da tarefa difícil de sobreviver e evoluir ― se desviou por labirintos tortuosos. Os Estados que sistematicamente protegem, cultivam e multiplicam a qualidade e a quantidade desses tipos humanos aumentarão seu poder e se tornarão ilhas de ordem e eficiência, os Estados que desconsiderarem a desigualdade dos homens acabarão engolidos pelo buraco negro do Globalistão.

De tudo isso, podemos deixar claro que a civilização moderna, de influência predominantemente marítima, incapaz de homogeneizar a humanidade com base em fatores reais como sangue ou território, visa nivelá-la com base em fatores abstratos e intangíveis como cultura, ideologia, "democracia", "liberdade", "direitos humanos", "mercados", educação, usura, dívida e moeda falsa, todos fatores "idealistas" que escondem a ânsia de poder de uma minúscula elite plutocrática, usureira e manipuladora da mente humana.

Uma civilização telúrica deve basear-se em fatores reais como território, produtividade, as necessidades reais da população, os limites dos recursos terrestres, a demografia, o capital humano e as semelhanças genéticas das grandes famílias humanas, das quais, a que nos interessa, os nativos do continente europeu, ou seja, a "raça branca":  um bloco social multinacional que, sem ser homogêneo, longe disso, compartilha um patrimônio similar, tem mais coerência étnica do que qualquer outro grupo humano de tal tamanho e é caracterizado por sua alta inteligência, criatividade, espírito empreendedor, abundância de gênios, potencial atlético e algo que poderíamos chamar de "plusultrismo" {neologia de Plus Ultra, ou seja, "Mais além" em latim}. Reveladoramente, essa grande família de povos é a que está sendo mais agressivamente atacada pela globalização — o que implica que lutar pelo aumento da identidade desse conglomerado, bem como pelos seus valores tradicionais associados, equivale a lutar contra o globalização.

Escussado dizer que os geoestratégias da globalização (ou seja, homens poderosos da Alta Finança, das multinacionais, da indústria da mídia e outros empórios carcinogênicos) acreditam claramente na supremacia da força humana sobre a educação. A prova disso é que eles não se limitaram apenas a "educar" (lavagem cerebral) os povos europeus para degradá-los, mas implantaram colonos extraterrestres no Ocidente na esperança de subverter completamente sua paisagem étnica e sua geografia humana.

· A luta pela mente humana ― o ser humano como campo de batalha    

A manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Aqueles que manipulam esse mecanismo invisível da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder dominante de qualquer país. Somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos são formados, nossas ideias são sugeridas, em grande parte por homens dos quais nunca ouvimos falar. Em quase todos os atos de nossas vidas diárias, seja na esfera da política ou dos negócios, em nossa conduta social ou em nosso pensamento ético, somos dominados por um número relativamente pequeno de pessoas que entendem os processos mentais e os padrões sociais das massas. São eles que puxam os fios que controlam a mente do público. ― (Edward L. Bernays).

Se levarmos a importância do capital humano à sua consequência lógica, concluiremos que os processos mais importantes no destino histórico da civilização não são os econômicos, mas os que evoluem a longo prazo: aqueles que afetam a mente e os genes, mudando a expressão da qualidade humana. Tendências reprodutivas, mudanças na dieta, religiões, ideologias, culturas, filosofias e muito mais, têm uma influência desproporcional na medida em que são capazes de conquistar um grupo humano e modificar seu comportamento. Quando uma determinada oligarquia deseja obter poder sobre a vontade humana (e não há forma mais absoluta de poder), a primeira coisa que faz é manipular a paisagem psicológica e biológica dos povos que deseja dominar.

Em comparação com esses processos que ocorrem na dimensão do imaginário coletivo de um povo e na reprodução das novas gerações, a economia e as estratégias globais são o mero resultado inevitável da mentalidade, modo de pensar, tipologias humanas e de misturas e hibridações genéticas, bem como de condicionamento instintivo adquirido em nossa longa pré-história e profundamente enraizado no comportamento humano, que pode ser usado, subvertido e voltado contra seus portadores. A dieta pós-neolítica e agora a dieta industrial, o surgimento de religiões orientais na Europa, a varredura do antiguíssimo imaginário pagão, o controle da televisão ou a atual imigração  em massa do Terceiro Mundo para o Ocidente, estão jogando e vão jogar um papel evolutivo no futuro da espécie.

Consequentemente, o ser humano tornou-se um campo de batalha entre o mundo natural enraizado em nossos genes e em nossa "voz interior" versus a decadente modernidade pregada por bancos, multinacionais, seitas, música e mídia. Se aqueles que querem o poder devem lutar para possuir a mente humana, aqueles que dominam a propaganda (mídia, sistemas educacionais, modas, ideologias e outros), irão dominar o ser humano e, portanto, o mundo. O conjunto de esforços destinados a mudar o comportamento de nações inteiras chama-se engenharia social.

Neste ponto da globalização não há mais qualquer dúvida de que aqueles que dominam o mundo não estão interessados ​​em deixar que o indivíduo se eleve e cultive sua criatividade, fertilidade e poder individual, muito menos permitir que vários indivíduos fora dos círculos de poder possam se agrupar e se comportar como um único ser com seus próprios interesses. Já estamos em posição de identificar as tendências que a globalização procura impor à raça branca por meio de sua engenharia social:

• Destruição da coletividade: raça, nação, cultura, religião, classe social, profissão, família ou qualquer outra identidade coletiva em torno do qual um grupo possa se organizar. Tudo deve estar submerso em uma confusão global. Quando o indivíduo é apenas "mais um" e não está integrado a um grupo que o canaliza, é quando é mais fácil dominar, manipular e colocar ideias em sua mente. Toda boa seita (e a globalização é uma seita de massa) deve desenraizar o indivíduo antes de remodelar sua mente.

• Balcanização social e guerra-civilismo: homens contra mulheres, nova geração contra velha geração, separatismos, tribos urbanas, seitas, partidos políticos, times de futebol, subsídios para "minorias étnicas" e tudo o que divide a sociedade, promovendo o "todos contra todos", o que, por consequente, desvia a atenção do povo para que a casta financeira se perpetue no poder.

• Relativismo e degeneração. Se pode viver uma vida errante. Se pode incorrer nos vícios mais depravados e absurdos pois não há limites. Não existe responsabilidade ou consequências. Esquecem-se que o ser humano, quando desprendido dos laços terrenais e do peso carnal, verão as coisas mais claras e serão chamados para prestas contas por seus atos e pagar por suas falhas para equilibrar o equilíbrio do Cosmos.  

• Promoção do hedonismo, ou seja, o indivíduo vive apenas para si mesmo, isto é, sem responsabilidades para um grupo. O ser humano precisa conquistar por seu próprio esforço, sendo assim, esse hedonismo gratuito e barato não o satisfará e ele sempre buscará mais matéria e mais prazer sensorial. A consequência disso é a confusão mental, a degeneração física, o envelhecimento prematuro e um espírito enfraquecido que não acredita em mais nada.

• Esquecimento dos valores do Velho Mundo. Honra, fidelidade, altruísmo, patriotismo, senso de dever, coragem, proatividade, heroísmo, generosidade, disciplina, respeito, solidariedade coletiva, orgulho familiar, tradição e linhagem, etc.

• "Emancipação das mulheres" é o nome dado à operação de duplicação de trabalho, aumento do consumo e redução de salários pela metade graças à submissão das mulheres aos caprichos do mercado de trabalho e do capitalismo. Os efeitos têm sido a desintegração da célula familiar e o desenraizamento das crianças, lançando-as para serem criadas pelo Estado, pelo sistema educacional, pela televisão e pelas multinacionais, fazendo com que o comércio internacional entre no último reduto do mundo natural: a casa. Uma sociedade que promove a mulher promíscua como "interessante" e "experiente", que ridiculariza as mães de famílias e que carece do arquétipo da mãe jovem e pura, a verdadeira mulher, é uma sociedade condenada à dissolução.

• Materialismo. A abundância material e os estímulos sensoriais desordenados são controlados pelo sistema, tornando o ser humano viciado na matéria inerte e, por consequente, criando um ciclo vicioso, distanciando-o do espiritual, do exercício das partes cerebrais de aparição evolucionária recente (como o neocórtex) e do mundo dos sonhos, experiências místicas, amor verdadeiro, paixão, fé e sobrenatural. Prosperidade, riqueza e abundância realmente corrompem a alma humana, fazendo-os esquecer o que realmente importa. O que faz os seres humanos crescerem são obstáculos, adversidade e serem forçados ao máximo a exercitar todo o seu potencial. Entre os três pilares de um Estado (Palácio, Templo e Mercado), o Mercado identifica-se com os objetos inanimados, com o dinheiro e com os baixos instintos que impulsionam sua aquisição. Em última análise, o Mercado negocia com as pessoas. Para isso, é necessário objetificar e reificar as pessoas, quer dizer, desumanizá-las e privá-las de espírito, enquanto conferem qualidades humanas e divinas a objetos inanimados, por um lado, para justificar a quantidade de dinheiro sem lastro que existe no mundo, e, por outro lado, para encher o vazio do homem; Essa é a essência da especulação. Despojado de seu lado espiritual e do amor, mas também despojado de seu lado natural e animal, de seu instinto de conquista e luta, o ser humano moderno se torna um fantoche manipulável.

• Promoção agressiva de disgenesia, de multiculturalismo e de todas as raças, exceto as brancas, nas nações ocidentais: a raça branca parece um obstáculo para a globalização. Imigração e multiculturalismo são inquestionáveis, são vacas sagradas, são tabus modernos. A ideologia multirracial tornou-se o novo dogma de nosso tempo; Agora, o revolucionário e herético é falar sobre raças e sobre lutar pela sobrevivência de seu código genético.

Embora a oligarquia moderna esteja se tornando em um ninho de ervas daninhas altamente danosas para a humanidade e o planeta, o problema não está em si mesmo na existência de elites e castas. O Homo sapiens é mamífero e primata e, como tal, hierárquico: sempre haverá Alfas e Betas e, portanto, sempre haverá elites. A única pergunta que pode ser feita é: qual tipo de elite nos conquistará? Por uma interessada em elevar os povos do mundo e desenvolvê-los na orquestra do Cosmos, ou por uma interessada em escravizá-los e afundá-los, tirando qualquer anseio espiritual, qualquer pequeno ato de rebeldia, qualquer pequeno prazer pessoal, qualquer modesto triunfo ou satisfação íntima, qualquer sentimento de amor e sacrifício para com os semelhantes, qualquer traço de ódio e raiva contra os vermes do mundo, capaz de elevá-los?

A REBELIÃO DA TERRA — DESMEMBRAR OS TENTÁCULOS DO OCEANO MUNDIAL É FORTALECER O HEARTLAND   

A vida no planeta surgiu no mar; a terra é um ambiente evolutivo conquistado pela vida apenas recentemente. Acredita-se que a vida apareceu no mar há 3,8 bilhões de anos e que os primeiros seres vivos a colonizar o continente o fizeram "apenas" há 440 milhões de anos. O mar representaria, portanto, o abismal e primordial, um reservatório de vida e evolução; Mesmo que um cataclismo devastasse a superfície da Terra, matando todos os seres vivos, as terras emergentes acabariam por ser colonizadas e repovoadas, mais cedo ou mais tarde, por novas formas de vida das profundezas do mar. O geoestrategista e contra-almirante da Marinha dos EUA, o Alfred Thayer Mahan, considerou o mar como uma "grande via" ou um "grande espaço de uso comum" e acrescentou que o poder naval não era outra coisa senão a capacidade de proteger frotas comerciais. "Quem domina o mar, domina o comércio mundial; quem domina o comércio mundial, domina o mundo", disseram os militares.

Em comparação com o instável e dinâmico mar, sulcado por ondas inesgotáveis, correntes marinhas, ventos imprevisíveis, espumas, empresários empreendedores e navegantes ousados, a terra, estável, "conservadora" e duradoura, não parece à primeira vista dada a um ataque feroz e súbito. Na verdade, o papel da terra é incubar sementes e cozinhar ingredientes, neste caso, o gênio humano, recursos materiais, vontade de poder e a energia latente das grandes massas humanas e sistemas de poder político. Estes ingredientes, firmemente enraizados e desenvolvidos no devido tempo, são responsáveis ​​por estender a missão da Terra.

Se o poder do Mercado se encarnou nas potências marítimas, então, pela força, o poder do Palácio (o Estado, como vimos no artigo sobre economia) deve encarnar nas potências continentais. Se a estratégia marítima consiste em multiplicar as ilhas e dividir as terras ― especialmente escavando canais, aproveitando os lugares onde o mar engole a terra (ou onde a terra se estreita) e pescando a balcanização política ―, a estratégia terrestre deveria consistir em multiplicar os lagos fechados, dividir os mares, bloquear os estreitos e construir, em vez disso, pontes de terra que cortam o comércio marítimo. Da mesma forma que a estratégia marítima converte enormes espaços terrestres em ilhas separadas, a estratégia continental converte oceanos e mares inteiros em simples lagos interiores, câmaras marinhas fechadas para o exterior. O bloqueio dos estreitos e o controle dos mares levariam o Heartland a se expandir, engolfando a maior parte da Eurásia e também abrangendo grandes extensões da Arábia e da África em uma vasta continuidade terrestre desde o Oceano Ártico até o Estreito de Gibraltar.

Dizem que a unidade dos oceanos é um fato. Bem, a ação das potências continentais pode subverter esse fato, criando espaços marítimos fechados, convertidos em lagos sob o controle efetivo da Terra, ou partindo o Oceano Mundial em inúmeros mares separados por cadeias insulares. Da mesma forma que o Oceano pode ser usado para balcanizar a Terra (por exemplo, o Canal de Suez transformou a Eurásia e a África em ilhas separadas e o Panamá o mesmo com as Américas, enquanto que durante anos, uma penetração atlantista da Geórgia ao Azerbaijão separou a Rússia da Armênia e do Irã), a Terra pode ser usada para balcanizar o Oceano. Os lugares onde essas táticas de balcanização marítima seriam mais fáceis de realizar estão nos principais estreitos, canais e barreiras insulares do mundo.

Agora veremos o que aconteceria se alguma/s superpotência/s bloqueasse/m o acesso a certos espaços marítimos, convertendo-os em lagos interiores. Estes mapas destinam-se a dar apenas uma leve ideia do potencial de uma superpotência euro-asiática que usa a terra para projetar poder. Fechar estreitos não necessariamente têm que ser manu militari (artilharia costeira, minas submarinas, frotas e outros), é perfeitamente viável fazê-lo através de rotas comerciais, alianças políticas e outras formas de controle territorial.

Os mapas que se seguem destinam-se apenas a ser indicativos e dão uma ideia aproximada das implicações geopolíticas do fechamento de certos estreitos e barreiras insulares (negação do acesso oceânico a certas bacias hidrográficas), não expressando realidades inquestionáveis.

Se o Leste Europeu é a saída mais clara do Heartland, os primeiros espaços marítimos a serem fechados seriam o Mar Negro, o Mar Báltico e o Mar Branco. Os gasodutos Nord Stream e South Stream são passos muito importantes neste processo, sendo o "escudo antimísseis" da OTAN um importante obstáculo.
A continuação lógica da expansão do Heartland descrita por Mackinder em 1919. Uma potência dominante do Heartland dividiria o Rimland em dois, dominando praticamente toda a Pentálasia e obtendo uma saída para o Oceano Índico no ponto mais vulnerável do Rimland: Baluchistão. A operação quase levaria a um bloqueio do Estreito de Ormuz, transformando o Golfo Pérsico em um lago interior inacessível ao poder marítimo e unindo o heartland árabe ao heartland eurasiático. O Irã seria claramente o candidato mais razoável para realizar essa operação. A região é repleta de hidrocarbonetos, por isso é compreensível a obsessão do atlantismo com o Irã e Ormuz.
Bloqueio do Egeu e do Adriático. Neste mapa, o papel de narco-Estado da Albânia é muito bem apreciado. O Egeu era o Mare Nostrum da Grécia clássica, sendo a Ásia Menor o que a África do Norte era para Roma e o que Troia era para Cartago. A cadeia de ilhas do sul (que inclui Creta e Rodes) atua como um terceiro raio do Mar Negro, depois do Bósforo e dos Dardanelos. Hoje, o Adriático é um mar balcanizado e isolado pela OTAN, quando em outros tempos floresceu cidades tão prósperas como Veneza, Trieste ou Zara. Outros espaços no Mediterrâneo que podem ser bloqueados são o Mediterrâneo Oriental (a leste da linha Creta-Cirenaica), o Mar Jônico (leste da Sicília-Tunísia) e o Mar Tirreno (Gênova-Córsega-Sardenha-Tunísia).
Bloqueio do Mar Vermelho (Suez-Mandeb). Inexpressivo do ponto de vista das bacias hidrográficas, este bloqueio é importante devido ao seu papel em frustrar a ligação entre o Mediterrâneo e a Índia, forçando a seguir pelo caminho mais difícil do Cabo da Boa Esperança. Tanto a Itália quanto a Rússia e a França tiveram ambições de dominar o Estreito de Mandeb.
O bloqueio de Gibraltar teria consequências tremendas, incluindo a negação do acesso do oceano à rica bacia do Nilo. Durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler pediu a Franco para bloquear o Estreito de Gibraltar, oferecendo tropas alemãs para tomar o rochedo de Gibraltar (Operação Félix). Como esse teria sido um cenário semelhante ao da Guerra da Independência contra os franceses, Franco se ofereceu para tomar Gibraltar, mas colocou uma condição: que antes os alemães e italianos fechassem o Canal de Suez. O plano era negar todo o acesso do Império Britânico ao Mediterrâneo, transformando-o em Mare Nostrum como nos tempos romanos. A derrota do Eixo frustrou essa operação, mas a possibilidade surgiu novamente sob o eixo de Franco-Nasser. A existência do Estado de Israel (que a Espanha só reconheceu em 1986) não seria possível em uma situação como a mostrada neste mapa.
Bloqueio do Mar do Japão, do Mar de Okhotsk e dos golfos de Bohai e Coreia. A existência da Coreia do Norte como uma "terra morta" e estéril entre a Coreia do Sul e a China é muito interessante para o Atlantismo. Graças ao regime de Pyongyang, as conexões da Coreia do Sul com a China e a Rússia são exclusivamente marítimas e é impossível estabelecer um comércio regional centrado em torno de Vladivostok, Manchúria e cidades como Harbin e Chengdu (a antiga Shangdu dos khans). Se houvesse uma abertura política na Coreia do Norte visando a reunificação coreana, a Coreia do Sul se ligaria imediatamente à China e à Rússia por terra e o Japão seria muito mais voltado para a Eurásia do que para o Pacífico (e também dos EUA). A importância de Nagasaki ― uma ex-colônia portuguesa onde Washington soltou uma bomba atômica e é o elo natural entre o Japão e a Eurásia ― cresceria exponencialmente. Tudo isso não convém ao atlantismo, a menos que a China tenha sido infiltrada para ser totalmente confiável. Um mapa das operações da Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) pode ser muito instrutivo neste cenário.
Bloqueio do Mar Amarelo, do Mar da China Oriental, do Mar da China Meridional e do Mar de Andamão e, portanto, o fechamento completo do Círculo de Fogo, uma cadeia insular que protege a China pelo Leste ou oferece uma base avançada para os Estados Unidos para controlar o gigante asiático. Esses espaços marítimos têm sido chamados de "Mediterrâneo asiático" (por Spykman) e "caixas de batalha da China" (pelo Pentágono). O Círculo de Fogo poderia ser um efetivo quebra-mar contra a influência de Washington no Pacífico, onde parece que somente bombas atômicas, bancos, multinacionais e tsunamis chegam. Neste mapa se pode ver quais são os domínios verdadeiramente marítimos da Eurásia: Europa Ocidental, Iêmen (porto de Áden) e Hindustão. Destaca-se também o Chifre da África e a fachada atlântica do Magreb.
Bloqueio da Baía de Hudson, as costas congeladas do norte da América do Norte, do Golfo de São Lourenço, do Golfo da Califórnia, do Golfo do México e do Caribe (mar que o geoestrategista Spykman considerava o "Mediterrâneo americano"). De acordo com o analista geopolítico Robert D. Kaplan, os EUA pode perfeitamente isolar os países da bacia caribenha e mexicana dos mercados internacionais, usando as cadeias insulares do Oriente Leste para fechá-las, razão pela qual ele considera que a real divisão geopolítica do continente americano, entre América do Sul e América do Norte, não é encontrado no Canal do Panamá, mas na selva amazônica: o norte da Amazônia seria a América do Norte e o que há ao sul, a América do Sul. Quanto à vasta bacia do Mississippi, é bom salientar que seus sistemas fluviais e o Canal Intracosteiro do Atlântico fornecem aos EUA mais quilômetros de vias navegáveis do que o resto do mundo, tornando a parte leste do país em uma ilha de facto, que inclui um dos maiores territórios contínuos de terras aráveis do planeta. Pode-se entender a importância do Canal do Panamá, que permite a passagem da bacia do Mississippi para o Pacífico. Espera-se que a ampliação do canal, além do projeto rival na Nicarágua, abra o Caribe aos mega-navios comerciantes da Lestásia.


Hoje, o Caribe é o espaço marítimo mais balcanizado do mundo. A bacia dos EUA do Golfo do México, a maior do país, depende tanto do Golfo do México quanto do Caribe para chegar ao mar. Se o Caribe fosse governado por Estados sérios, ou por apenas um, todo o comércio estadunidense na área estaria sujeito à regulamentação e uma boa parte seria deixada no caminho. Mas como o Caribe é dividido em inúmeros paraísos fiscais, colônias e Estados pequenos e ridículos, o comércio dos EUA se protege. O caso de Cuba é particularmente representativo. Sendo uma ilha extraordinariamente rica no início do século XX, alimentada por imigrantes galegos e asturianos altamente organizados, a revolução cubana e o bloqueio dos EUA a transformaram em um país pobre, com boa parte de sua intelligentsia emigrando para Flórida e Nova Orleans. Na frente de Cuba passa uma das mais importantes rotas comerciais marítimas para os EUA, portanto, Washington não quer que Cuba absorva parte desse tráfego. O fato de o governo de Eisenhower ter favorecido tanto o embargo de armas à Cuba de Batista e que Fidel Castro manteve boas relações com o Conselho de Relações Exteriores de Nova York e com Pinochet, implicaria que o primeiro interessado na revolução cubana era Washington e que a inimizade tem sido só teatro. Algo semelhante poderia ser dito sobre a Venezuela: depois da "revolução bolivariana", Caracas parou de exportar petróleo para a Espanha para exportá-lo para os Estados Unidos. O fato de o regime venezuelano apoiar as FARC também não dá muita esperança sobre a natureza da "revolução bolivariana".

Bloqueio da Amazônia e do Rio da Prata.

A internacionalização da Amazônia é um dos cenários mais preocupantes que pesam sobre a América Ibérica em geral e o Brasil em particular. Al Gore, representando os interesses da petrolífera Oxy e um dos apóstolos dos problemas ambientais como vetor da globalização, declarou que "Ao contrário do que os brasileiros pensam, a Amazônia não é deles, mas de todos nós". Gorbachev, arquiteto do desmantelamento da URSS, disse que "O Brasil deve delegar parte de seus direitos sobre a Amazônia aos organismos internacionais competentes". Também Kissinger, porta-voz dos interesses da família Rockefeller, pressionou nessa direção e até Miterrand, presidente da França, disse em 1989 que o Brasil precisa aceitar uma "relativa soberania" sobre a Amazônia. Devido a seus interesses estratégicos, realmente se pode dizer que convém a Washington os incêndios na Amazônia, pois justificam sua interferência nos assuntos internos de uma nação soberana, com a verdadeira intenção de controlar reservas de água, petróleo, gás natural, madeira e minerais.

Embora os objetivos de "internacionalizar" (tradução: "submeter-se ao controle de organizações globalistas") da Amazônia sejam de natureza econômica, os pretextos são invariavelmente de natureza ambiental: os países da Amazônia, especialmente o Brasil, não sabem como cuidar da selva; a Amazônia é "o pulmão do mundo", portanto, o que acontece lá é de interesse global para toda a humanidade. Neste caso, uma grande parte da Rússia, Alasca, Canadá e EUA também deve ser internacionalizada, onde há vastas massas florestais (algumas superiores em extensão à Amazônia) que também podem ser consideradas o "pulmão do mundo". Falando de tesouros de importância global, poderíamos também internacionalizar todas as reservas de petróleo e gás natural do mundo, toda a arte, a ilha de Manhattan e os arsenais nucleares, como respondeu Chico Buarque, ministro da educação no Brasil.

Fronteira verde: extensão da floresta amazônica. Região verde-amarela: bacia amazônica.

Outro eixo de pressão internacional na área é a questão do indigenismo e das populações deslocadas: muitos grupos indígenas da Amazônia foram expulsos de suas terras ancestrais e isso, para a "comunidade internacional", é condenável. É notável que o indigenismo é financiado pelo Banco Mundial, várias ONGs (incluindo NED e USAID, fachadas legais da CIA já expulsas da Federação Russa) e várias instituições globalistas. O objetivo dessas entidades é sempre o mesmo: enfraquecer as autoridades do Estado e as soberanias nacionais, promover a balcanização social, lutar contra a influência ibérica (cultura católica, espanhola e portuguesa) e, em suma, pavimentar o caminho para o advento do Globalistão na Iberamérica. Ninguém duvida que o deslocamento de grupos étnicos indígenas é algo trágico, assim como a destruição de grandes massas florestais, mas o que surpreende mais uma vez é o duplo padrão empregado pela globalização: os grupos étnicos da Amazônia (ou melhor, apenas aqueles grupos étnicos que vivem em lugares da Amazônia ricos em recursos naturais) são intocáveis ​​e "reservas naturais" devem ser decretadas, enquanto os nativos do Arquipélago de Chagos, no meio do Oceano Índico, foram deportados entre 1967 e 1973 para que a OTAN pudesse construir uma importante base militar na ilha Diego Garcia, e, em seguida, criado um "parque natural" nos arredores para evitar que os indígenas se reassentassem na área, e tudo isso sem protesto pela "comunidade internacional". Também é bastante irônico que um país como os Estados Unidos, que praticamente exterminou os nativos americanos, deveria dar lições a outros países sobre como tratar seus povos indígenas.

Na Colômbia, é de conhecimento geral que as FARC ― treinadas por Israel, armadas pelos EUA e que apareceram em 1964, quando a Colômbia estava prosperando imparavelmente ― foram uma criação dos EUA para desestabilizar toda a região, estabelecer sete bases militares no país e controlar firmemente o tráfico de cocaína. Isso pôde ser feito em silêncio porque a influência da Espanha sobre seu antigo império é realmente fraca e a embaixada espanhola não tinha poder suficiente para agir contra a influência dos Estados Unidos. Se as ambições de Washington sobre o Brasil forem frustradas, é muito possível que essa instabilidade ultrapasse fronteiras e possamos ver o surgimento de grupos terroristas indigenistas.

Bases da OTAN na América Ibérica. Desde a entrada da França na OTAN em 2009, a Guiana Francesa também deve ser contada. 

As potências oceanistas ou talassocráticas querem neutralizar a expansão da influência do Hearland promovendo a liberdade de navegação em todos os mares e ganhando aliados até mesmo nos mares interiores da Eurásia (como a Turquia no Mar Negro ou o Azerbaijão no Cáspio). O lugar onde o Heartland estendido da Ilha Mundial (Eurásia e África) salta para se unir a outras entidades geográficas semelhantes de além-mar, ocorre nas Ilhas Canárias-Cabo Verde-Fernando de Noronha-Brasil. Isso dividiria o Atlântico em duas partes, uma ao norte e outra ao sul. O salto da Eurásia para a Australásia ocorre na Indonésia. Tudo isso tenderia a unir o Atlântico Sul e o Oceano Índico em um todo relativamente impenetrável para o Atlantismo.

· O Grande Tempo contra o Grande Espaço   

Para a globalização, não convém que nos orgulhemos do sangue que corre em nossas veias ou de nossa terra natal (fatores reais), por isso, eles estigmatizam o etnocentrismo e o patriotismo ― ou seja, a implosão construtiva ― como "racismo", "nazismo" e "fascismo", tentando nos orgulhar de ter nascido no século XXI, a "era do progresso" (abstração) e da globalização (explosão destrutiva). Parece que qualquer cidadão deste século, por mais comum e vulgar que seja, tem a obrigação de se sentir superior a, digamos, um cavaleiro medieval ou um cro-magnon do Paleolítico, só pela época em que vive e por desfrutar de invenções que não inventou e que são a conquista de uma minoria da humanidade.

Há, portanto, aos olhos da globalização, algum tipo de contradição estratégica entre o espaço (o Ser, o que não muda, a cruz, os quatro pontos cardeais mais o centro imóvel, os quatro elementos mais o éter) e o tempo (o Devir, o círculo, a roda, a curva, a meia lua e o movimento). A globalização é claramente baseada na velocidade, no movimento e no tempo. A terra, especialmente as montanhas, o gelo, os desertos e as florestas, retardam o processo de globalização, tornam tudo lento, pesado, doloroso, tendendo a congelar o tempo e formar mundos separados. A água, por outro lado, faz com que os poderes se espalhem como pólvora e penetrem no coração dos continentes. Os fenícios nunca poderiam ter chegado às Ilhas Britânicas por terra, nem os atenienses à Ucrânia, nem os árabes à Indonésia, nem os espanhóis à América, nem os portugueses ao Japão, nem os holandeses à África do Sul, nem os ingleses à Índia e à Austrália.

· Futuríveis para o Heartland ― Um novo mundo, ou o império da terra fechada  

A escrita chinesa contém uma sabedoria muito interessante. Se, como vimos na primeira parte do artigo, "ordem política" é expressa com os ideogramas "rio" e "represa", a palavra "crise" também é expressa com dois ideogramas reveladores: um é "conflito-perigo", o outro é... "oportunidade". Agora, o mundo oceânico está triunfando, entretanto, essa dissolução contém em si a semente da oportunidade: um renascimento dos povos, uma tomada de consciência, a possibilidade de alquimia e o ressurgimento da tradição no imaginário coletivo ancestral.

Em outros tempos, as Américas foram chamadas de Novo Mundo pois se tratava de um continente inteiro a ser desenvolvido, que oferecia oportunidades magníficas para empreendedores e pessoas valentes. O Heartland também abre muitos futuros possíveis. A Ásia Central pode se tornar uma imitação do Ocidente ianque misturado com o pior dos petro-emirados muçulmanos (como podemos começar a ver em Baku, Astana e outras capitais pós-modernas), ou se tornar em uma nova terra prometida para os povos tradicionais afetados pela globalização. Na luta entre a Tradição e a Modernidade, a terra certamente acolherá uma nova encarnação da Tradição.

O Heartland pode se tornar um novo modelo geopolítico caracterizado pela dispersão da população e dos meios de produção. O modelo oceânico é baseado na concentração de pessoas e meios de produção nas grandes cidades e na manutenção do mundo rural com pouquíssimas pessoas graças à tecnologia. As cidades tornam-se em nós cruciais, mas extremamente vulneráveis ​​a qualquer ataque inimigo. Um bombardeio seletivo é tremendamente "lucrativo" em uma cidade por causa das possibilidades de destruição que oferece e das enormes taxas de mortalidade que podem ser alcançadas em tempo recorde. Pelo contrário, uma vasta extensão de terra onde o mundo rural é mantido graças a pequenas fazendas familiares e terroirs, onde a economia é localista, onde a população e a indústria estão muito dispersas e onde não há nodos onde se concentrem alvos vulneráveis, torna os ataques militares muito caros, forçando o inimigo a realizar um enorme esforço industrial em troca de uma destruição muito modesta e pouco acessível. As grandes cidades, deve ficar claro, são pontos nevrálgicos extremamente frágeis, vulneráveis ​​e deficientes em termos de segurança, além de prejudiciais à demografia e à biologia humanas.

Distribuição de molisols (tipo de terra particularmente adequada para a agricultura) no mundo. Impossível não ver que as extensões menos desenvolvidas economicamente são as da Eurásia e da América do Sul, enquanto as mais desenvolvidas são as norte-americanas. O uso deste tipo de terra fornece a mais básica de todas as soberanias: comida. A Ucrânia é o país com a maior proporção dessas terras ao longo de sua extensão total.

Embora a talassocracia internacional pretenda manter o Heartland subdesenvolvido, o destino natural deste domínio é tornar-se um gigantesco caldeirão no qual os Estados Unidos da Eurásia serão cozinhados, o que, por sua vez, fornecerá o guarda-chuva e o aparato político, econômico, militar, cultural, ideológico e espiritual necessário para desenvolver e fortalecer o tipo humano que herdará o planeta, proporcionando uma vitória moderna como contrapartida ao antigo triunfo do homem Cro-Magnon na Europa e da raça nórdica centro-asiática na Ásia. Para colonizar e organizar o Heartland, é preciso usar os equivalentes modernos dos antigos vikings e cossacos, como veremos mais abaixo.

· A gênese do atlantismo     

O Atlantismo é forte porque se baseia numa realidade geográfica (o Atlântico Norte, cidadela do poder marítimo), cultural e humana: a herança romana e da Europa Ocidental. Se a intenção é neutralizar a influência desestabilizadora e caótica do atlantismo, é necessário investigar sua origem e evolução e concluir que talvez a solução esteja em um atlantismo alternativo, a cargo de países como Espanha, França, Portugal, Brasil e Argentina, atuando como braços marítimos do Heartland.

Durante o Paleolítico, a Grã-Bretanha se uniu ao continente euro-asiático, o Rio Tâmisa era um mero tributário do Reno e até mesmo as Américas e a Indonésia se uniram à Eurásia e, portanto, faziam parte da Ilha Mundial. Mesmo assim, a Europa manteve relações muito mais importantes com a Ásia do que com as Américas. A deglaciação teve efeitos tremendos na história da humanidade, entre muitos outros, separando as Ilhas Britânicas e as Américas da Eurásia.

Se um cataclisma surgisse e a humanidade voltasse para o Paleolítico, as relações entre a Europa e a América deixariam de existir. No caso de uma era glacial, os europeus, aprisionados pelo Mediterrâneo e pelas cadeias de montanhas, ficariam presos em seu continente e forçados a se adaptar às condições do Ártico ou morrer, enquanto os norte-americanos sempre poderiam migrar para um sul com um clima mais temperado. A Europa e a América do Norte são, portanto, muito diferentes na influência evolutiva que têm sobre as comunidades humanas que as habitam. O Heartland, cercado por cordilheiras, é, como a Europa, outro domínio geográfico que, em caso de glaciação, forçaria a "nordização" do ser humano.

No entanto, a Hipótese Solutreana postula que, durante o Paleolítico Superior, as comunidades Cromagnon da região franco-cantábrica cruzaram a calota polar (do qual suas bordas meridionais ligavam o sudoeste da França com a América do Norte) até o Oeste e alcançaram o continente norte-americano. Essa presença europeia tão antiga na América do Norte é demonstrada por análises genéticas e restos de indústrias líticas relacionadas com as do Solutrense francês.

Os seguintes atlantistas ligados às Américas foram os fenícios. Também os monges irlandeses e os vikings noruegueses mantiveram sua própria rede atlantista, que incluía a Islândia, a Groenlândia e partes da América do Norte, enquanto os vikings suecos penetravam em direção ao Heartland. Essa rede vikinga entre a América do Norte e o Heartland é talvez a coisa mais próxima que existe da ideia geopolítica de "Setentrião", defendida por pensadores como Guillaume Faye e Jean Mabire.

Durante a Idade Média, a Ordem dos Templários estabeleceu em La Rochelle (Arrochela) um importante porto, bastante estranho considerando que as rotas comerciais da época eram mediterrâneas e que o Atlântico supostamente carecia de importância comercial. Arrochela fica na costa franco-cantábrica, onde no Paleolítico se encontrava o limite da frente glacial. Desse porto, onde os Templários haviam estacionado sua frota principal, é muito provável que tenham alcançado as Américas, obtendo enormes quantidades de prata e lançando as fundações para as viagens de Cristóvão Colombo, cujas informações sobre as rotas para o Oeste vinham certamente dos registos dos Templários guardados em Portugal.

O sudoeste da França seria ocupado pela Inglaterra em longos períodos durante a Guerra dos Cem Anos e, durante a Renascença, em Arrochela, iria enraizar fortemente o Calvinismo. Depois de terem fracassado em sua tentativa de França Antártica e de estabelecer colônias no Brasil (que foram destruídas pelos portugueses), os calvinistas franceses, chamados huguenotes, decidiram se barricar em Arrochela. Em 1560, tanto Arrochela como Rouen foram as primeiras cidades francesas a sofrer distúrbios iconoclastas (destruição de ídolos religiosos), de acordo com o beeldenstorm ("tempestade das estátuas") que havia ocorrido na Holanda décadas atrás (também em Zurique, em 1524). Em 1568, Arrochela se autoproclamou uma República Reformada como a Genebra de Calvino, aliando-se à revolta anti-espanhola de William de Orange na Holanda e se tornando a base da pirataria holandesa. Depois de um cerco, Arrochela foi ocupada pela França em 1573. A cidade ainda seria sitiada pelo cardeal Richelieu no início do século XVII.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha estabeleceu em Arrochela uma importante base naval, especialmente submarinos, defendida por uma guarnição de vinte e dois mil soldados alemães. Arrochela foi a última cidade francesa a ser arrebatada dos alemães, após um cerco de oito meses. Juntamente com as bases de submarinos na Noruega (que resistiram mesmo após a queda de Berlim), Arrochela fazia parte do plano alemão de manter uma presença na América do Sul e na Antártida.

A onda atlântica mais recente é de natureza subversiva e suas fundações foram baseadas na Carta do Atlântico de 14 de Agosto de 1941, no qual, como representantes de uma corrente de internacionalismo anglo-americano, Churchill e Roosevelt se encontraram em Terra Nova e Labrador (Canadá). A derrota da Alemanha significou a expansão do atlantismo anglo-americano através da Organização para a Cooperação Econômica Europeia (OECE) de 1948,  sendo seu objetivo administrar o Plano Marshall e que também foi precursora da União Europeia e da Declaração Schuman (1950), instituidor da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) de 1951 (entre a Alemanha e a França existe abundante solo de loesse, rico em carvão e ferro). Em 1948, o Tratado de Bruxelas criou a Aliança Atlântica, e no ano seguinte o Tratado de Washington criou a OTAN. O pouco conhecido Comitê Americano sobre a Europa Unida (ACUE) também data de 1948, por sua vez apoiado pelas fundações da CIA e Ford e Rockefeller, e que se concentraria em impulsionar o CECA. Um relatório da empresa privada da Inteligencia de Stratfor observa que "A costa atlântica dos Estados Unidos tem portos mais notáveis ​​do que o restante dos países do hemisfério ocidental". 1957 veria o estabelecimento definitivo da Comunidade Econômica Europeia (CEE). A Comunidade Europeia da Energia Atômica (CEEA) veria a luz no ano seguinte.

Desde então, os únicos atlantismos alternativos que existiram foram os espanhol (quando tínhamos soberania nacional e relação com Cuba, Argentina, Saara Ocidental, Guiné Equatorial e outros países), o argentino (era da Guerra das Malvinas), o luso-rodesiano-suláfricano (Salazar manteve importantes relações diplomáticas com a Rodésia e a África do Sul à luz das contra-insurgências coloniais e do bloqueio comercial de ambos os regimes africanos) e o francês ― com Charles de Gaulle visitando Quebec no ano seguinte da saída da França da OTAN e exclamando "Viva o Quebec livre!". Lembre-se que a França tem um território na América do Norte (a citar, São Pedro e Miquelão).

O ESTADO COMERCIAL FECHADO ― AUTARQUIA VERSUS GLOBALIZAÇÃO    

O Estado racional é um Estado Comercial Fechado, assim como é um reino fechado de leis e indivíduos. ― (Johann G. Fichte).

"O Estado comercial fechado" (1800), de Johann Gottlieb Fichte, é um livro tedioso, utópico e pedante em seu racionalismo, mas tem sua importância. Por um lado, teve certa influência sobre o desenvolvimento do que Spengler chamaria de "socialismo prussiano" ou "prussianismo" e, por outro lado, defende a tese exatamente ao contrário da globalização, ou seja, que um país deve buscar uma autarquia para se auto-extirpar da rede de comércio internacional, tornando-se, por assim dizer, um Estado endorreico ― de fluxo (comercial, econômico) exclusivamente interno. Pensadores de todas as tendências políticas viram coisas interessantes nesta obra de Fichte, tanto liberais e socialistas, comunistas, anarquistas, fascistas e nazistas, por isso não é uma obra que deve ser descartada.

Nos situemos na Prússia, aquela terra que antes da Segunda Guerra Mundial abrigou, segundo Mackinder, uma das "raças mais viris da humanidade", uma raça que sofreria entre 1944 e 1946 uma limpeza étnica de extrema brutalidade. Enquanto a Inglaterra era liderada por uma aristocracia centrada na navegação, comércio e especulação bancária, a Prússia era governada por uma aristocracia militar, provinciana, centrada na terra e na produtividade. Fichte até enviou uma cópia de seu livro a Frederico Guilherme III supostamente com o objetivo de influenciar sua política econômica.

Fichte foi inspirado pela sociedade camponesa do mundo germânico e pela organização econômica das antigas cidades alemãs. É impossível não ver em sua obra afinidades com Licurgo, Platão e Thomas More. O ideal econômico do filósofo alemão era um Estado completamente autárquico, sem "nada a exigir de seus vizinhos e nada para lhes dar". Fichte diz que nesse tipo de Estado, "o governo não aspira adquirir uma predominância comercial, o que é uma tendência muito perigosa, mas tornar a nação completamente independente e autônoma". Pois "se uma única nação alcança a supremacia no comércio, suas vítimas usam todos os meios possíveis para mitigar essa supremacia e restaurar o equilíbrio" ― uma clara referência ao poder da Grã-Bretanha. O perigo da supremacia comercial por uma única nação reside no fato de que o comércio internacional tratado por essa nação é feito com todos os bens de um Estado rival até que sobre para o dito somente uma mercadoria para vender: ele mesmo. Dessa maneira, "o Estado se vende, vende sua independência, recebe um subsídio permanente, se tornando, por assim dizer, uma província de outro Estado e um meio para qualquer um de seus objetivos".

A este respeito, é conveniente lembrar que, embora a autarquia esteja hoje em dia cercada de tabus, na Grécia clássica era o ideal a se aspirar, embora nem sempre fosse inteiramente alcançável. Aristóteles, em sua "Política", considerou que a autarquia é a situação ideal para um Estado. Hesíodo foi mais longe e propôs a autarquia de cada lar de família. A telúrica Esparta, o Estado mais respeitado na Grécia clássica, era uma economia fechada e auto-suficiente graças à conquista da fértil Messênia. Atenas, por outro lado, fortemente urbanizada, dependia de mercados cerealistas como do Egito e do sul da Ucrânia.

Fichte dividiu a sociedade em três estamentos: produtores, comerciantes e artesãos. Depois vinham os militares, professores e estadistas. De todas essas castas, a mais perigosa para Fichte era a dos comerciantes, já que, por possuírem mercadorias e especialmente dinheiro, tendiam a escapar da autoridade do Estado, impondo suas próprias regras.

O filósofo pensava que a Europa tinha uma grande vantagem comercial sobre o resto dos continentes, tendendo a aproveitar a força de trabalho e os bens dos mesmos. Ele considerou que esse estado de coisas não poderia ser perpetuado para sempre e que, algum dia, um grande Estado deveria deixar "a sociedade comercial europeia" para constituir seu próprio circuito fechado de produção. O que Fichte veio a criticar nessas reflexões foi a explosão da Europa, mostrando-se a favor de uma implosão: a Europa não pode depender eternamente de "quintais" ultramarinos do Terceiro Mundo e um dia poderia sobreviver por conta própria. Além disso, uma economia planificada não pode ser planificada, tampouco um país pode ser como um microssistema autônomo, se depender de bens e produções estrangeiras cujo fornecimento, processamento e transporte não controla, estando, portanto, à mercê dos caprichos do mercado: flutuações de preços, embargos comerciais, competição com o produto nacional, etc. Tais fenômenos econômicos tendem a converter o país que se submete a eles em uma mera província da rede do comércio internacional, tendendo a se especializar em um setor econômico em vez de abrigar todos eles.

Nos anos trinta do século passado, a autarquia parecia estar ganhando a competição contra o comércio internacional. Surgiram três blocos geopolíticos claramente autárquicos: o Eixo europeu (Alemanha, Itália e nações correlegionárias), a Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental (as vastas conquistas do Império Japonês a partir da Manchúria à Indochina) e a União Soviética. Com a Europa, a Ásia e o Heartland fechado ao mercado de exportação dos EUA (exceto, no caso da URSS, dos grandes subsídios militares, econômicos e petrolíferos que recebeu dos Estados Unidos e do Reino Unido), tudo o que restava no planeta era o Império Britânico e o empobrecimento do Terceiro Mundo colonial. Em "A tragédia da diplomacia americana" (1959), o William Appleman argumentou que a oligarquia dominante dos Estados Unidos entrou em guerra contra a Alemanha e o Japão para proteger os mercados globais de exportação dos efeitos da autarquia. A dinâmica dos blocos autárquicos foi neutralizada com o estabelecimento do Sistema Bretton Woods (1944), com seus três pilares: o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o dólar como moeda de reserva do comércio internacional. O único bloco que se livrou até certo ponto foi a URSS, que formou a organização econômica COMECON, fundada em 1949, no mesmo ano em que a OTAN foi fundada.

O bloco COMECON (Conselho para Assistência Econômica Mútua), do qual o Pacto de Varsóvia seria o braço militar. Vermelho: Estados-Membros. Amarelo: Estados Observadores. Violeta: pertenciam à organização, mas não participavam. Vermelho: não pertenciam à organização, mas participavam.

Fichte ― que acreditava que "no princípio era ação" e que a propriedade emana do trabalho e da atividade produtiva, ou seja, que a terra pertence àquele que derrama seu sangue e suor nela ― não reconhecia o valor do dinheiro, mas o valor da mercadoria e dos bens produzidos. Para ele, "A massa total de dinheiro representa e vale tanto quanto a massa total dos bens". Não importa quanto dinheiro esteja em circulação ou que seja criado a partir do nada na forma de crédito, seu poder de compra será sempre limitado por bens e serviços reais que podem ser comprados. Pois "a riqueza não depende da quantidade de dinheiro que se tem, mas quão grande é a fração da quantidade total de dinheiro que se tem". É claro que quando há, como hoje, muito mais dinheiro em circulação (especialmente dinheiro digital e juros sobre a dívida) do que bens reais, o excesso de capital flutuando nos "mercados" é dedicado a inflar bolhas, abrindo novos mercados artificiais (por exemplo, transformando em um negócio as emoções do indivíduo e até a natureza humana), manipulando as necessidades e demanda com publicidade agressiva. Sem mencionar que, cada vez que a oferta monetária é aumentada, os criadores de dinheiro (ou melhor, falsificadores) aumentam a proporção de capital que têm sobre a oferta monetária total, usando este capital como se fosse uma mercadoria em si. Mas é "na simples expressão 'fazer algo com dinheiro' que se encontra toda a falsidade do sistema. Nada pode ser feito com dinheiro, porque o dinheiro não é real, a mercadoria é a verdadeira realidade e é nela que fazem o dinheiro ".

Para realizar o fechamento do Estado Comercial, o Fichte defendeu a "supressão da moeda mundial" (que ele identificou com ouro e prata) e a "introdução de uma moeda nacional". É difícil não ver aqui a influência de Esparta, que proibiu a posse de ouro e prata ao criar uma nova moeda que não era aceita fora do território do Estado lacedemônio: barras de ferro ásperas que, de modo que não podiam ser manipuladas ou moldadas, eram submersas em vinagre quando estavam em brasa; a ideia era se proteger contra a influência flutuante e movediça do comércio exterior. Nessa situação, não há mais trocas com Estados estrangeiros, exceto eventuais acordos comerciais baseados em permuta direta, sem intermediários monetários. Isso é o que a Alemanha estava fazendo antes da Segunda Guerra Mundial na Europa Oriental e na América do Sul: um comércio de troca que não precisava usar moedas internacionais das mãos de seus inimigos. Em contraste, iniciativas para alcançar uma moeda global sempre vieram de mãos dadas com indivíduos ou entidades globalistas, por exemplo, a família Rothschild (a título de exemplo, Evelyn de Rothschild propõe uma "moeda internacional" para evitar conflitos, entretanto, não diz quem emitirá tal moeda ― presumivelmente ele mesmo).

Outra contribuição de Fichte à geopolítica é a sua ideia de que os Estados não devem exceder suas "fronteiras naturais", entendidas como aquelas dentro das quais um Estado pode alcançar a autarquia. No final, ele reflete:

É evidente que em uma nação tão fechada na qual seus membros coexistem apenas com eles mesmos e muito pouco com estrangeiros; em uma nação que preserva seu modo particular de vida, suas instituições e costumes; em uma nação que ama profundamente sua pátria e tudo o que é nacional: logo emergirá um alto grau de honra nacional e um caráter nacional muito peculiar. Tal nação se tornará uma nação completamente nova. Essa introdução da moeda nacional é sua verdadeira criação.

A IMPORTÂNCIA GEOPOLÍTICA E SOCIAL DAS FORÇAS ARMADAS E DAS FORÇAS E CORPOS DE SEGURANÇA DO ESTADO: O EXEMPLO COSSACO 

Não esqueçamos que a Rússia é o maior país do mundo, a soberana do Heartland e alternativa nacional em uma era de internacionalismo, graças aos cossacos. Os cossacos, conquistadores do Heartland, não eram apenas uma vanguarda militar e étnica contra a barbárie asiática, mas também, de certa forma, bastiões da liberdade: embora fossem leais ao czar, não tinham escrúpulos em se rebelar violentamente se considerassem que a burocracia havia ultrapassado seus limites, que o czar estava tratando o povo com negligência ou cometendo erros políticos, ou se percebiam sinais de tirania no governo. A expressão medieval rex eris si recte facies, si non facies, non eris (será rei quem proceder corretamente, senão, não será) expressa perfeitamente a mentalidade cossaca no que concerne às relações entre pessoas e Estado. Mesmo as legiões romanas eram uma força política a ser considerada, capaz de exercer pressão sobre o Senado e de nomear um imperador por aclamação. A educação e mentalidade cossaca têm virtudes inegáveis ​​que exemplificam o quanto um núcleo patriótico, saudável, combatente e militarizado pode contribuir para a estrutura e a solidez de um Estado. Espírito de liberdade, mas ao mesmo tempo a obediência que implica uma educação militar e religiosa. Trabalho e vida ao ar livre, esportes, um espírito de ataque e de autodefesa, patriotismo, apego à família e à terra, mas ao mesmo tempo uma mentalidade conquistadora e um anseio de novos horizontes. 

Tudo isso contrasta com outros exércitos históricos que afastavam do indivíduo sua criatividade, imaginação, iniciativa e espírito empreendedor, exércitos que, apesar de seu imenso poder (em última instância, o poder é exercido por aqueles que exercem o monopólio da violência, e não se pode desencadear mais violência do que um exército moderno), limitaram-se a criar uma cadeia de comando mecanicamente piramidal. Este tipo de instituições burocráticas é muito vulnerável à infiltração de organizações subversivas, como diplomacia estrangeira, ONG's, fundações privadas ou serviços de Inteligência. Tais organizações podem facilmente mudar a ponta da pirâmide, substituindo-a por uma ponta direcionada a eles, e, com isso, se apropriar do resto da piramide, obrigando a obedecer qualquer ordem do vértice por mais injusta que seja. Portanto, é necessário que os exércitos e os corpos de segurança sejam organismos incorruptíveis e escolas de pensamento com uma vontade coletiva própria que o alto comando se limite a expressar e a "cavalgar", por assim dizer. Organismos que sabem que leis e ordens injustas não precisam ser obedecidas: lex iniusta non est lex (a lei injusta não é lei).   

Temos o exemplo perfeito do caso oposto ao cossaco na Espanha pós-franquista. Durante a Transição, os serviços de Inteligência espanhóis, cooptados pelos Estados Unidos mesmo antes do assassinato do almirante Carrero Blanco em 1973 (pois o aparato de segurança estatal estava fortemente infiltrado), usaram a instabilidade política e o terrorismo para varrer o alto comando nacionalista que estava no Exército, na Guarda Civil, na Polícia Nacional, na Marinha e na Força Aérea. ETA ("Pátria Basca e Liberdade"), herdeira da Operação Gladio da OTAN, é na verdade um sinônimo para o genocídio de generais e outros elementos nacionalistas que eram contra a integração da Espanha na OTAN, que queriam a bomba atômica e a energia nuclear, que preferiram se relacionar com a França, Egito, Argentina, Síria, Líbia, Cuba, Iraque, Iugoslávia, Brasil e até mesmo com a URSS do que com o atlantismo anglo-saxão, que estavam prestes a formar serviços de Inteligência independentes da influência atlantista, que queriam se distanciar da UE, que queriam reconquistar o Saara Ocidental e isolar Gibraltar, que lutaram em Sidi Ifni, Leningrado e no Ebro, que distribuiriam armas ao povo espanhol no caso de uma insurreição do Terceiro Mundo dentro da Espanha ou uma invasão estrangeira e que nunca teriam permitido que as máfias estrangeiras tomassem o poder nas ruas espanholas.

Em vários ataques terroristas e outros incidentes estranhos, como a tentativa de golpe de Estado do 23-F (destinado a fazer com que os comandantes promulgassem medidas extraordinárias de espionagem e de controle das Formas Armadas e das Forças e Corpos de Segurança do Estado), esses patriotas caíram como moscas até alcançar o verdadeiro intento da Transição: mais generais mortos do que durante a Guerra Civil e mais jovens mortos pelas drogas do que pela guerra. Muitos dos generais assassinados eram veteranos da Guerra Civil e/ou lutaram durante a Segunda Guerra Mundial na Rússia com a Divisão Azul. Durante décadas, o CESID ou Centro Superior de Informação da Defesa (criado em 1977, no meio da Transição) e o CNI ou Centro Nacional de Inteligência (a partir de 2002), foram quase exclusivamente dedicados ― inclusive durante o período de efervescência dos assassinatos do ETA e do tráfico de heroína ― a monitorar inquisitorialmente o clima político e as opiniões dentro das Forças Armadas e da "extrema direita", a fim de destituir os pequenos grupos que poderiam instituir um modelo de Estado espanhol muito diferente do defendido pelo Fundo Monetário Internacional. Até ministros do Interior, como Rosón, declarariam abertamente, enquanto a droga destruía bairros e gerações inteiras e o ETA chacinava a classe nacionalista espanhola, que sua prioridade era... a "extrema direita". Presumivelmente, o assassinatos cessaram porque não há mais altos comandantes patriotas, porque a Espanha "está sob controle" (se curvando diante de organizações globalistas como a UE, a OTAN ou o FMI) e porque a "extrema direita" espanhola foi infiltrada e atomizada em dezenas de grupelhos que lutam entre si, mas não há dúvida de que, se a Espanha se tornasse herética e nacionalista novamente (Kissinger diria "perigosa"), os assassinatos retornariam. 

A tentativa de golpe do 23-F inicialmente teve o apoio do rei, que só queria trazer à luz os setores nacionalistas das Forças Armadas espanholas. Quando o golpe foi dado, o rei abandonou seus líderes (entre eles, os generais Alfonso Armada e Jaime Milans del Bosch, ambos veteranos da Guerra Civil e da frente de Leningrado), que caíram na armadilha. O tenente-coronel Tejero (foto), que entrou no Congresso dos Deputados com um grupo de guardas civis, estava estacionado no País Basco no meio da era do terrorismo e teve que vigiar os cadáveres de seus companheiros enquanto o rei estava em orgias em iates e fazia negócios no Marrocos. Graças ao 23-F, o Regime de 78 passou a justificar as medidas extremas de controle e espionagem das Forças Armadas, elevou definitivamente o rei como chefe de Estado, assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, abandonou a Argentina em sua guerra contra o Reino Unido e (graças à vitória do PSOE em 1982, um partido do congresso de Suresnes totalmente coordenado pelos Estados Unidos e pela social-democracia alemã), abriu o portão de Gibraltar, entrou na OTAN e na UE e reconheceu o Estado de Israel, com todas as consequências que isso implicava.

Agora, a Espanha terá engenheiros oficiais ante guerreiros. Além disso, nas Forças Armadas estão minorando os programas de treinamento e instrução estritamente militares, masculinos e combativos, a fim de transformar o Exército em uma carreira "civilizada", não um lugar onde tipos humanos viris, amantes da aventura, da guerra, da violência, do Povo e da Pátria, podem desenvolver seu espírito guerreiro, hoje em perigo de extinção no Ocidente e, portanto, mais necessário do que nunca. Apesar de serem forçados a sacrificar suas vidas para defender a atual ordem política e social, os militares não têm o direito de ter opiniões políticas ou sociais; Aparentemente, os únicos com carta branca para interferir na sociedade espanhola são os engenheiros sociais aprovados pela UNESCO... 

Mas enquanto capitãs "empoderadas" ensinam aos nossos futuros sargentos que uma cantada é "violência de gênero", enquanto professoras progressistas ensinam que não houve Reconquista, ao mesmo tempo que ensinam que a conquista das América foi algo vergonhoso, e que os espanhóis são todos uma mistura de fenícios, árabes, berberes, ciganos, mulatos e judeus, enquanto o espírito patriótico e a ânsia de ação de nossos futuros oficiais, suboficiais e tropas são suprimidos com base em estudos e provas inúteis, doutrinação patriótica zero, zero treinamento militar adequado e uma instrução física alienante e prejudicial, limitada à corrida continua dia após dia e também, enquanto os burocratas ligados ao Estado-Maior cedem aos caprichos dos partidos políticos ― se cobrindo com medalhas ―, enquanto as Forças Armadas e Forças e Corpos de Segurança do Estado estão se enchendo de mulheres, mercenários estrangeiros, sedentários e conformistas, sem patriotismo ou combativismo e espírito coletivo, o país, isto é, o povo, apodrece e morre. Os estrategistas que dirigem esse processo sabem que tempos turbulentos estão à frente para a Espanha e, portanto, tentam fazer das Forças Armadas e das Forças e Corpos de Segurança do Estado um ponto de encontro para homens de ideais patrióticos, espírito de ação e certa brutalidade, capazes de ordenar situações de crise e de ignorar os engravatados das "organizações internacionais competentes". A globalização não pode tirar do meio militar a velha escola e a velha mentalidade, mas pode reinventar a Instituição a partir de dentro, cortando a entrada de elementos sociais saudáveis ​​e colocando burocratas engravatados e outros espécimes fracos e emasculados em postos militares.


Algo semelhante está acontecendo na Polícia e na Guarda Civil. Esses corpos precisam de uma base de homens com caráter firme treinados para intervenções violentas e, mais importante, capazes de treinar e armar, em tempos de crise, mais pessoas para o mesmo propósito. Os corpos policiais precisam adquirir uma condição mental e uma mentalidade em que a brutalidade, a autoridade e a violência não sejam veladas, especialmente se o preço for permitir que a violência mude de direção (do criminoso para o Estado e não vice-versa). Em um tempo de caos, onde reina o crime, traição e corrupção e em que o que move o ser humano são dinheiro e sexo e só é respeitado quem se faz respeitado, essa atitude de determinação, incorruptibilidade e inflexibilidade é mais necessária do que nunca, e os elementos que estão entrando nas Forças e Corpos de Segurança do Estado graças a processos seletivos mais brandos, mais inclusivos, mais orientados para a formação de burocratas do que de combatentes ― além da redução de ex-militares e filhos de guardas civis e militares, isto é, de pessoas educadas no patriotismo ―, não necessariamente equivalem com tal descrição.

Por exemplo, muitas pessoas ficariam indignadas se a Polícia Nacional e a Guarda Civil caçassem como animais os traficantes de drogas, destruindo os becos onde floresce o tráfico de drogas, de armas ilegais e de prostituição, prendendo os marginais que acumulam denúncias mas não são presos, pois se escondem no falso humanitarismo de um sistema decadente dirigido por traidores da Pátria. As operações de assalto que o BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e outros corpos paramilitares realizam nas favelas brasileiras são impensáveis ​​na Europa; lembre-se que a globalização protestou contra isso, uma vez que a ONU solicitou em 2012 a supressão da Polícia Militar brasileira. A Anistia Internacional e a Universidade de Direito de Nova Iorque também pressionaram para pôr fim nos métodos da Polícia Brasileira, argumentando que violam os direitos humanos... dos vermes sociais que violam os direitos humanos dos outros. Na Europa, há pessoas do alto escalão que louvam que há bairros onde a política não entra, e não por falta de necessidade, mas por causa de "força maior".  Atualmente, parece que a polícia está mais ocupada em multar no trânsito para encher a máquina do único aparato estatal que realmente funciona na Espanha: o aparato de coleta (ou saqueador). Hoje, a maioria dos policiais não sabe mais lutar e imobilizar um desordeiro, atirar com uma arma, entrar em um bairro perigoso, extrair informações de um mafioso em uma delegacia de polícia e, em suma, manter a ordem nos bairros. "Direitos humanos", "Estado de Direito", tornaram-se quimeras que justificam a degradação dos antigos bairros da classe trabalhadora e a suave e silenciosa limpeza étnica do Povo Espanhol. "Estado de Direito" na verdade significa "Estado que é constituído como resultado de um conflito armado"; A Espanha franquista era um Estado de Direito, ao contrário, o Regime de 1978 é nada menos do que o resultado da Alta Traição, do assassinato ou do ostracismo dos altos comandantes patrióticos e das intrigas de vários serviços de Inteligência.

Guillermo Quintana Lacaci, tenente-general do Exército Terrestre, é o protótipo de um nacionalista espanhol morto pelo ETA. Católico, austero, veterano da Guerra Civil e da Frente Oriental (uma das medalhas em seu peito é a Cruz de Ferro alemã), neto e filho de militares e pai de sete filhos, foi retirado do serviço ativo em 1982 (ano em que a Espanha aderiu à OTAN). Dois anos depois, um comando da ETA o matou no meio da rua quando retornava da missa com sua esposa, que ficou ferida quando atacou um dos pistoleiros. Era 1984, o ano em que a ETA faria trinta e três mortes. O general Quintana pertencia a uma casta de homens que não permitiam o que está acontecendo agora na Espanha. Uma vez que esta casta foi eliminada, as portas foram abertas para a destruição sistemática da Espanha e do povo espanhol.


Graças aos assassinatos do ETA e à infiltração do braço político da OTAN, agora os generais espanhóis são, em grande parte, traidores da Pátria e entreguistas promovidos a dedo pelos políticos. Para esses generais é mais importante enviar nossos jovens ao Afeganistão, Congo, Líbano ou Mali, lutando contra fantasmas e supostas ameaças que, realmente, não afetam nosso país, enquanto nossas soberanias mais básicas são prostituídas em negócios obscuros e organizações internacionais e até para governos estrangeiros, enquanto o desemprego, a imigração e as drogas devastam o país, enquanto a mente dos garotos é deturpada e pervertida pela pornografia, enquanto as garotas são hipersexualizadas e vivem uma vida errante, onde se drogam, se depravam, abortam e destroem seus corpos com contraceptivos, enquanto somos agressivamente colonizados por humanidades do Terceiro Mundo, enquanto o nosso povo é castrado cultural, espiritualmente e até biologicamente, enquanto o espanhol branco e heterossexual é criminalizado por organizações globalistas e agências estatais apoiadas pelos impostos que o espanhol paga religiosamente, enquanto se desmoraliza o espírito lutador do nosso povo pelo sistema educacional e pela mídia, enquanto a substância do Povo Espanhol se extingue ou migra para a Alemanha, para o Reino Unido e outros lugares, enquanto, em resumo, o declínio e a morte do Ocidente estão avançando. 

Podemos destacar os parasitas do povo: 

• Grandes parasitas: banqueiros, grandes empresários, "fundos de investimento", "fundações", ONG's, políticos, celebridades do mundo do entretenimento, figurões dos serviços de Inteligência e do submundo estatal, lojas maçônicas e paramaçônicas, círculos político-culturais ligados ao setor público, etc.     

• Pequenos parasitas: máfias do crime organizado e as bolsas sociais de marginais sustentados pelo aparato estatal que florescem como fungos em toda a geografia nacional, graças ao "humanismo" mal-entendido da cultura judaico-cristã enraizado no Ocidente e a falta de um Estado que ― como as tribos do passado ― realmente representa os interesses das pessoas que o sustentam e das quais emanam seus poderes. Esses parasitas só conseguiram prosperar ao corromper e castrar a Guarda Civil e a Polícia Nacional, além de promover a proliferação de outras forças policiais (autônomas, locais, portuárias) e estigmatizar a autodefesa no Código Penal e no imaginário coletivo do povo. Essa mentalidade automaticamente confere o poder dos antigos bairros operários, nas ruas, às mafias (principalmente de origem cigana, magrebina, subsaariana, andina e outras), já que, como vimos, o poder exerce o monopólio da violência e são essas organizações criminosas que claramente têm esse monopólio, acima da polícia (que não é permitida por lei a reagir) ou dos habitantes nativos dos bairros espanhóis.

As duas castas parasitárias (a nova nobreza do dinheiro e os novos párias da terra) são respectivamente martelo e bigorna que esmaga as classes médias e trabalhadoras europeias, são vampiros que sugam a substancia vital dos tipos humanos bondosos, nobres, altruístas e honrados. É, portanto, necessário repetir a história cossaca: uma rebelião de homens bons, trabalhadores, honestos, idealistas e altruístas contra a sanguessuga que rouba a verdadeira substância do país, isto é, o trabalhador espanhol, ao qual podemos considerar herdeiro do sangue e da idiossincrasia dos ibéricos, celtas, romanos, alemães e eslavos. 

Outro exemplo contundente é o caso da Turquia. Erdogan, o primeiro-ministro turco, queria se livrar do Exército como um poder secular e guardião da soberania turca, caso contrário a islamização do país, patrocinada pelo Reino Unido, Estados Unidos, Israel, Qatar e Arábia Saudita, não concluiria. Para este fim, ao longo de seu mandato, o Erdogan  processou e aprisionou nada mais e nada menos do que 80% da liderança militar turca, presumivelmente porque esses altos comandantes eram a favor de uma aproximação com a Rússia e a China e arquitetavam um golpe. E é uma lástima que uma instituição tão poderosa possa ser subvertida e neutralizada apenas atacando o vértice da pirâmide sem que o resto da estrutura mostre qualquer reação.   

Pelo contrário, os cossacos russos foram capazes de sobreviver perfeitamente como uma força de choque, mesmo após o assassinato do czar pelas mãos dos bolcheviques. Quando o bolchevismo precisou tirar os cossacos do caminho, não o bastou matar seus líderes, muito mais, eles precisaram realizar a "descossaquização", um genocídio de todo o povo cossaco e, ainda assim, os poucos cossacos que sobreviveram mantiveram sua integridade étnica até hoje e agora renascem na Rússia como milícia e escola militarizada.

A campanha de subversão por parte do globalismo dos corpos armados do Estado deveria ser um argumento muito convincente sobre a importância dessas instituições para um Estado verdadeiramente nacional e, portanto, antiglobalização. Mas há uma sombra: os serviços de Inteligência, por causa de sua opacidade, são um problema para uma República no sentido mais amplo da palavra, isto é, um regime político que concede destaque à "Coisa Pública". Na Espanha, os serviços de Inteligência não defendem os interesses nacionais e muitas vezes conspiram diretamente contra eles, comportando-se como se fossem um ramo da CIA, do SIS (MI6) e do Mossad. Para prevenir esses processos de infiltração insidiosa, mecanismos de controle e supervisão devem ser criados para evitar que os serviços de Inteligência saiam do seu papel, assim, voltando-se contra os interesses do Estado.  

NOVOS VIKINGS E COSSACOS PARA A EURÁSIA: NECESSIDADE DE UMA BIOPOLÍTICA DEMOGRÁFICA-REPRODUTIVA E ÉTNICA PARA O HEARTLAND

Um poder baseado em um fato material tão obstinado como um enorme bloco de terra firme e fechada, precisa de uma base humana igualmente material, real e obstinada. Tal poder não pode ser baseado em enteléquias voláteis da talassocracia marítima, como cultura, ideias, democracia, "integração", aliança de civilizações, multiculturalismo e outros, mas no território e no povo. O próprio Zbigniew Brzezinski admite que um império deve ser baseado em um grupo étnico forte, homogêneo e numeroso, como os chineses Han, os WASP da América do Norte e do Reino Unido, os eslavos ortodoxos da Rússia ou os "gauleses" da França. E assim como devemos levar em conta a geografia da paisagem do Estado, devemos também levar em conta o tipo humano que a habita, inclusive a geografia de sua paisagem psico-coletiva e genética.

"Geopolítica" vem de geografia e de política. Portanto, um povo deve, para ter projeção geopolítica, possuir instintos relacionados à geografia e à política. E esses instintos não são adquiridos pela leitura ou pelo estudo, são instintos muito mais básicos, enraizados no subconsciente. O instinto geográfico do homem por excelência é o instinto do território, isto é, quando um povo diz a si próprio: "Esta é a nossa terra, o nosso povo, as nossas mulheres, o nosso modo de vida e, se necessário, morreremos para defendê-la, pois somos apaixonado por nossa terra". Hoje, o grupo étnico que tem um instinto territorial menos pronunciado, permitindo ― devido a lavagem cerebral da mídia e da cultura judaico-cristã ― que o Ocidente seja invadido por povos alienígenas, são os europeus étnicos. Quanto ao instinto político, o próprio Mackinder declarou que "o primeiro atributo político do homem animal é a fome". Só que os europeus não estão mais com fome e não necessariamente por comida, mas também por descobertas, por glória, por conquistas, por lutas e por vitórias. No Ocidente, a separação traumática do homem branco de seu lado animal o fez contrair uma doença insidiosa: a doença de não defender o que é seu. Essa doença está mais estabelecida na Europa Ocidental, onde pensamos que "o Estado" e a "Justiça" têm que lidar com todos os nossos problemas, quando as duas instituições são a antítese do povo há muito tempo.

Cultivar a qualidade genética da força humana de um Estado e realizar uma política reprodutiva sadia é de importância essencial numa época de degradação de todos os povos do mundo. Afinal, qual potência não aspira a ter cientistas mais inteligentes, empresários empreendedores, atletas mais fortes, soldados mais eficazes, trabalhadores mais qualificados, policiais mais incorruptíveis, políticos mais altruístas, mulheres mais belas, um patriotismo saudável e um poderoso mito unificador, espalhado em todas as camadas sociais como um cimento invisível que os une?

Os sistemas políticos não podem ignorar eternamente que aqueles que intervêm na reprodução humana para gerar, educar e treinar seres humanos saudáveis, inteligentes, fortes, criativos, disciplinados e corajosos estarão melhor posicionados para aumentar seu poder do que os sistemas sociais que permitem a proliferação de tipos humanos doentes, tolos, concupiscíveis e errantes. Assim como um jardineiro arranca as ervas daninhas.


O poder da Alta Finança é baseado no Reino Unido, na América do Norte e, em menor escala, no restante da Europa Ocidental, porque, entre outras coisas, há uma força humana de excelente qualidade. As tropas americanas instaladas no Iraque e no Afeganistão têm uma fabulosa herança genética, perfeitamente comparável às ondas indo-europeias da Antiguidade. Nos rostos de muitos americanos podemos distinguir um potencial cruzado, viking, navegador, soldado, agricultor ou trabalhador. Trata-se de pessoas valentes, ao qual se desenraizou ao atravessar o Atlântico, mas sem os fundamentos morais e espirituais que só a Ásia profunda, juntamente com a inspiradora história europeia — baseada em exemplos heroicos, guerra, arte, cultura, trabalho, beleza e amor — podem fornecem. O que é atualmente exportado por Hollywood e pela MTV não é "cultura americana", como dizem. "Cultura americana" é o amor à família e à pátria, o direito de defendê-las com armas, soberania cidadã, religião, liberdade e independência, ou seja, valores de um povo cuja terra não foi concedida por um senhor feudal, mas conquistada com sangue e suor. Nem Thomas Jefferson nem George Washington são relacionáveis com a subcultura ianque, e a esfera de influência do Pentágono e de Wall Street não é um "Império americano" da mesma forma que o Vaticano não é o Império Romano e a Cidade de Londres não é o Império Britânico.


Sabemos ― pois nos baseamos na realidade dos fatos ― o que acontece em países que esquecem as leis fundamentais da reprodução e da melhoria da raça: se tornam confusos, desorganizados, sem identidade e sem um sentimento de causa comum e misturados nessa confusão, decaem no caos. A degradação da raça é paralela com a degradação da mente e do espírito, pois as ervas daninhas se multiplicam freneticamente, destruindo tudo.

Há muito tempo a humanidade europeia vem explodindo desordenadamente em direção à dinâmica periferia do mundo, onde impera a lei do tempo; no entanto, o que precisa é uma implosão organizada em direção ao centro estático da superfície da Terra, onde impera o espaço. A dispersão de um povo reduz seu potencial ao dividi-lo, a menos que as pessoas mantenham a diáspora unida e se engajem em um comportamento parasitário nos povos a que invadem. No outro caso (comportamento predatório, aristocracias), os descendentes desse povo impulsionador não mantêm a diáspora unida, mas formam potências independentes com a mesma origem, mas, ganhando poder sobre as massas nativas e tornando-se elites regionais, acabam se enfrentando (como os generais de Alexandre fizeram em sua morte). Portanto, é necessário realizar uma concentração de tipos raciais em certos territórios, uma implosão da humanidade europeia, e o Heartland é o lugar perfeito, junto com áreas do Brasil (especialmente o Sul) e da Argentina.

Uma grande vontade organizadora e criativa, emanada do gênio europeu, poderia facilmente estabelecer no Heartland uma espécie de Eugea ou "Boa Terra", um futuro projeto demográfico, reprodutivo e cultural para a humanidade europeia, uma nova terra santa ou prometida para os povos europeus afetados pela globalização: as classes média e baixa da civilização ocidental, aquelas que sofrem de altas densidades populacionais, equivalentes modernas aos camponeses e aos nobres empobrecidos que acabaram formando os cossacos. O Heartland poderia se tornar a pátria de um novo povo escolhido, uma nova tradição e um novo tipo humano, cujo advento dará significado à história da humanidade fazendo "tudo valer a pena".

A ignorância deliberada e sistemática da reprodução humana, da importância das raças e da genética na geopolítica só terão o efeito de que o "mito do sangue" reaparecerá com mais força. A globalização pretende nos fazer acreditar que somos todos iguais ao mesmo tempo em que nos homogeneia racialmente, prova evidente de que não nos considera iguais. Estudos genéticos e antropológico-físicos, isto é, reconhecendo a diferença entre pessoas e povos, são, portanto, um vetor antiglobalização.

Mapa de ferrovias no mundo, ou todos as vias levam para a Alemanha. Curioso o caso do Congo-Kinshasa, os belgas deixaram uma magnífica rede ferroviária que mais tarde a população nativa não conseguiu manter: outro exemplo da força humana em ação.

· Espanha no contexto do Heartland ― de Ibéria à Sibéria

A Espanha era uma espada cujo punho estava em Castela e a ponta em todo lugar. ― (José Ortega y Gasset)

A América Espanhola é uma bomba geopolítica, falando castelhano da Califórnia à Terra do Fogo. Pense nas instabilidades e conflitos causados ​​pela diversidade de línguas e culturas em todo o mundo (por exemplo, na África e no Oriente Médio), bem, na América Ibérica, a variedade de línguas e culturas é muito limitada, com castelhano e a herança católica predominando. É por isso que o atlantismo quer afastar a Espanha da América Ibérica através da hispanofobia, cultivando a lenda negra, fomentando o indigenismo e os regimes "bolivarianos", financiando grupos insurgentes e narcotraficantes, protestando contra os sucessos das companhias petrolíferas espanholas em Cuba e no Brasil e, quando tudo isso falha, produzindo ataques como o Descarrilamento de Santiago de Compostela.

Contra o Atlantismo, o Iberismo. Falar das relações entre a América Ibérica e a Eurásia é necessariamente mencionar Espanha e Portugal: uma Federação Ibérica formada por esses dois países que não podem continuar a viver de costas um para o outro, separados por desertos econômicos e intrigas políticas. Se a Ibéria falhar, o Brasil entrará na Eurásia através da Índia e isso não ajudará de forma alguma a estruturar a Eurásia. Somente a conversão da Ibéria em um dos polos magnéticos da Eurásia (sendo o outro Sibéria) alcançará o estabelecimento de um fluxo leste-oeste que formará um eixo em torno do qual organizar o interior do continente e acabar saltando para o outro lado do Atlântico, dividindo o oceano ao meio.


A "periferização" da Espanha (população e meios concentrados na costa, interior despovoado) mostra claramente sua dependência do exterior em vez de seu interior auto-suficiente. Graças ao crédito cedido a Espanha (lembre-se, criado do nada e emprestado como dívida de juros), a Espanha conseguiu desmantelar a maior parte de seu tecido produtivo durante a "reconversão industrial", já que o crédito externo nos permitiu importar o que precisávamos. Em troca, nos tornamos uma província periférica da União Europeia, isto é, a anti-Europa. Se o objetivo é reverter a periferização da Espanha, uma implosão deve ser organizada em direção ao interior da península e, para isso, fortalecer toda a fachada atlântica da Península Ibérica, de Ferrol a Cádiz. Isso não pode ser feito, exceto pela emancipação do crédito externo e pela reabilitação da agricultura e pecuária nacionais, bem como da indústria de estaleiros.

Altai.
Afeganistão.
Mongólia Interior.



NOTAS

[1] Como exemplo de conquistadores da Índia vindos do Heartland podemos mencionar os indo-arianos, os macedônios e os mongóis (dinastia Mugal, ainda em vigor no século XVIII). Nem a influência persa pode ser subestimada: o persa era em muitos lugares da Índia a língua culta das elites sociais até a chegada dos ingleses.

[2] Família Schiff (Jacob H. e Mortimer L.), irmãos Warburg (Max, Felix e Paul), Armand Hammer, Kuhn, Loeb & Co., Otto H. Kahn, JPMorgan Chase, Max Breitung, Jerônimo H. Hanauer, Isaac Seligman, Solomon e Daniel Guggenheim, Samuel MacRoberts (National City Bank), Lazard Frères (Paris), Gunzbourg (Paris, São Petersburgo, Tóquio), Speyer & Co. (Frankfurt, Londres, Nova Iorque), etc. Olof Aschberg do banco Svensk Ekonomiebolaget (Estocolmo) desempenhou um importante papel de intermediário, estando à frente do Ruskombank (Banco Internacional soviético, mais tarde Vneshtorgbank) e atuando como agente do Guaranty Trust Company da família Morgan. O Gosbank (Banco Central soviético, supostamente estatal) tinha parceiros privados: o mais importante era Armand Hammer, da Occidental Petroleum (Actual Oxy, representado por Al Gore).

[3] O financiamento dos maoístas com dinheiro negro do narcotráfico do ópio é um fato pouco mencionado na história oficial. Em Nanniwan, província de Xianxim, em 1941, os comunistas chineses criaram um comitê de produção de ópio a mando de Ren Bishi, em resposta ao bloqueio econômico do exército japonês e do Kuomintang (Partido Nacionalista Chinês). O ópio financiou as primeiras repúblicas soviéticas na China: Jiangxi e Yan'an.

[4] Os menonitas não são uma mera curiosidade social, eles tiveram sua importância histórica. Quando em 1917 a Alemanha e a Áustria-Hungria receberam enormes extensões do Leste Europeu, na Ucrânia as potências alemãs deram poder a milícias menonitas de origem alemã, que tinham que controlar o território em nome de Berlim e Viena.

[5] O aquífero mais emblemático é o Aquífero Guarani, que o Brasil compartilha com Argentina, Paraguai e Bolívia. Há também um sistema de aquíferos na Amazônia que consiste nos aquíferos de Solimões, Içá e Alter do Chão, que poderiam ser mais importantes que o guarani e que o Brasil compartilha com o Equador, Venezuela, Bolívia, Colômbia e Peru.

[6] A colaboração dos mórmons com o Pentágono e a CIA é muito antiga. Hoje, a homogeneidade étnica da região é tão pronunciada que o rótulo "euro-americano de Utah" é usado como referência em análises genéticas para definir os padrões do norte da Europa.

[7] A Espanha é o segundo país com a maior altitude média da Europa depois da Suíça. 25% da superfície do país está acima de 1,000 m e as terras de altitude abaixo de 200 m representa apenas 11% do total.