sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Eduardo Velasco - O Chifre do Diabo: geopolítica sob a tormenta árabe


ÍNDICE

PRIMEIRA PARTE
- INTRO
- CRONOLOGIA DE EVENTOS RECENTES
- PODEROSO CAVALEIRO É DOM PETRÓLEO — POR QUÊ?
- A CONEXÃO KUSHNER-ROCKEFELLER
- SAUDI ARAMCO E O OASIS DE DHAHRAN — A TERRA PROMETIDA DOS ROCKEFELLERS
• UMA BREVE HISTÓRIA DO PETRÓLEO ÁRABE

SEGUNDA PARTE (em breve)


INTRO  

Meu reino só sobreviverá enquanto permanecer um país de acesso difícil, onde o estrangeiro, uma vez cumprido sua tarefa, não terá outro objetivo senão partir. — (Abdul Aziz bin Saud, 1930).

No Hádice (escrito muçulmano complementar ao Corão) é narrado como Maomé pede a Deus que abençoe várias regiões árabes, omitindo especificamente o Nejd, a inóspita região do centro da Península Arábica, situada em pleno Heartland árabe. Quando os seguidores de Maomé pedem-lhe para abençoar o Nejd, ele os ignora, até a terceira vez:

Al-Bukhari relata que, segundo Abdulá ibne Saade, o Mensageiro de Alá (que a paz e a benção de Alá estejam com ele), disse: "Ó Alá, abençoe a Síria! Ó meu Senhor, abençoe nosso Iêmen!" As pessoas disseram: "E o Nejd?" Ele continuou: "Ó Alá, abençoe a Síria! Ó meu Senhor, abençoe nosso Iêmen!" Eles disseram: "E o Nejd?" E creio que ele respondeu na terceira vez: "Neste lugar haverá terremotos e sedições, e é também neste lugar onde aparecerá o Chifre do Diabo". 

No Oriente Médio há um país árabe, hermético como a Coréia do Norte, mas com o wahhabismo como ideologia de Estado e método de controle social. É uma ditadura tão férrea como a soviética, mas também uma monarquia absolutista no estilo do Antigo Regime, e não há partidos políticos, eleições ou parlamento. Ao contrário dos marítimos Emirados Árabes Unidos ou Qatar — moderadamente abertos e com certas futilidades cosmopolitas —, continua sendo um Heartland: conservador, fechado e celoso, tal como são os heartlands. A Xaria é constitucional e lei. A escola de jurisprudência é o Hanbalismo, a mesma seguida pelo ISIS, por isso não é incomum que as penalidades criminais sejam geralmente as mesmas que as prescritas pelo ISIS. Não há vistos de turista para viajar para o país, é necessário um "patrocinador", e qualquer dispositivo eletrônico que a pessoa aporte passará por uma inspeção minuciosa. As fotografias são severamente limitadas, e se o visitante usa binóculos, o mesmo será confiscado na alfândega. Se o visitante nasceu em Israel ou tiver um visto no passaporte em Israel, sua entrada será recusada.

A música está proibida e apenas as orações por megafonia pública são ouvidas, cinco vezes ao dia, durante o qual os estabelecimentos fecham por meia hora. Dançar está proibido, álcool está proibido, carne de porco está proibida, comer, beber ou fumar no Ramadão também, assim como o adultério (punido com lapidação [apedrejamento], muitas vezes aplicado a vítimas de estupro), magia, adivinhação ou feitiçaria (existe na polícia religiosa uma unidade especial de antifeitiçaria), posse de talismãs da sorte, pornografia (ou simplesmente fotografias de pessoas com pouca roupa), desrespeitar o Corão, ter cães ou gatos, ou participar de costumes ocidentais "frívolos" como São Valentim, Halloween ou Natal. As mulheres devem estar completamente cobertas e não podem dirigir (parece que isso mudará em 2018) e a homossexualidade é punida com a morte. Há uma polícia religiosa semelhante à que existia no Afeganistão durante a era talibã: o orwelliano "comitê para a promoção da virtude e prevenção do vício", que vigia as ruas da cidade, assegurando que homens e mulheres permaneçam segregados, e que se um homem caminha com uma mulher (que deve estar vários passos atrás dele), é devido a ele ser seu wali ou guardião (geralmente pai ou marido).

As transgressões à Xaria Islâmica são punidas com chicotadas ou decapitações por espada, a mesma que aparece na bandeira nacional. Roubar resulta em amputação da mão. Às vezes, os corpos decapitados, mesmo jorrando sangue, são levantados em guindastes e crucificados no ar em plena luz do dia, em cenas dantescas que lembram às cidades mexicanas dominadas pelos cartéis de drogas.





Há trinta mil membros da família real titulados, pelo qual ganham automaticamente um bom trabalho... embora não capacitado para o mesmo. A meritocracia está ausente: ser engenheiro vale muito menos do que ter nascido em berço real. Ao planear os planos da cidade, a polícia religiosa (vinda geralmente das classes mais baixas) frequentemente impõe exigências, como ruas desenhadas em direção da Meca ou que os drenos não fluam na direção de sua cidade santa. Esses mesmos policiais usam Internet e redes sociais e entram em contato com material que é abertamente pornográfico ou subversivo.

É impossível encontrar um Estado tão religiosamente fundamentalista, feudal e totalitário. No entanto, estas rígidas regulações parecem se aplicar apenas às pessoas comuns. Usando novamente terminologia orwelliana, a elite do "partido interno" — totalmente vertebrada em torno da família real, que é por sua vez o Governo e o Estado — frequentemente inaparenta fazer esforço para fingir que a Xaria é lei, e se permitem depravações que até na Europa moderna traumatizam. A classe dominante é poligâmica, como todas as classes dominantes no mundo, mas em um grau superlativo, o que significa que por um lado eles têm famílias enormes e muitos "príncipes" (sete mil) em torno dos quais estruturam o Estado e que, por outro lado, há uma grande massa de homens à margem e frustrados que, devidamente recrutados e doutrinados, fornecem a carne de canhão para defender os interesses da dinastia governante no exterior, onde extravasam seu caos interior em horríveis atrocidades e crimes. Essa massa militou nas fileiras dos "rebeldes líbios", dos "rebeldes sírios", do ISIS, dos rebeldes da Al-Qaeda no Iraque e continua lutando uma guerra sangrenta no Iêmen enquadrada no exército.

Trata-se da ditadura petrolífera mais férrea do planeta, e pode-se dizer que toda a estrutura de repressão social e contenção construída em torno do wahhabismo serve bem para proteger os interesses globais do petróleo, de alcance estratégico esmagador.

Se o leitor pensou na Arábia Saudita... acertou. O mencionado Nejd é o núcleo geográfico duro do país, onde está sua capital e onde irradiou no século XVIII a corrente fundamentalista wahhabista, tão inóspita, estéril e hostil como a terra em que nasceu. Quais misteriosos desígnios engendrou tal país? Quem os engendra? Quem se beneficia do petróleo saudita? Quanto poder deriva dele? Existe alguma verdade no fundo das teorias da conspiração que apontam para o clã Rockefeller como os imperadores dos interesses petrolíferos?

A Arábia não é um bloco unido e existem diversos poderes competindo em seu seio para assumir o controle de sua posição estratégica e suas vastas reservas de petróleo e gás natural. A Arábia Saudita é uma potência regional que guarda ciumentamente suas vastas riquezas naturais e alimenta sua esfera de influência pseudo-imperial. Hoje, o império dos interesses saudis está lutando para não perder para o Irã posições como Líbano, Qatar, Iraque, Turquia, Síria e Iêmen. Até na Europa há presença imperialista árabe, e a impunidade que desfruta o islamismo na Europa Ocidental deve ser atribuída aos petrodólares árabes que generosamente enchem os bolsos de políticos, clérigos, influentes, serviços sociais, movimentos e ONGs. A tal ponto chega este monstruoso suborno coletivo, esta alta traição, que até as autoridades europeias estão dando apoio logístico, econômico e cultural à invasão e implantação de colonos muçulmanos na Europa.

No entanto, antes de analisar as ramificações de todas essas questões, precisamos examinar mais de perto alguns eventos recentes. Esse artigo, tal como outros, tem formado de livro e seu intento é auxiliar a entender as complexidades do processo de globalização e extremismo globalista. 

CRONOLOGIA DE EVENTOS RECENTES

Em Janeiro de 2016, a Arábia Saudita anunciou que estava considerando colocar no mercado de ações uma parte de sua empresa petroleira estatal (na verdade, de matriz rockefelleriana): a Saudi Aramco. Se trata da empresa petrolífera mais importante do mundo, com sua mastodôntica produção de dez milhões de barris de petróleo por dia, três vezes mais do que o (também rockefelleriano) gigante ExxonMobil (Esso na Europa). Este anúncio deixou a comunidade financeira ouriçada. Ao longo de 2016 os boatos começaram a se concretizar e em 2017 ficou claro que:

- A IPO (oferta pública inicial) da Saudi Aramco ocorrerá em 2018 ou 2019.

- 5% da Saudi Aramco serão colocados à venda, embora pareça que será o ponto de partida para futuros desembarques de capital estrangeiro na Arábia Saudita e provavelmente futuras expansões da privatização da Saudi Aramco. Esses eventos financeiros desencadearão uma onda de mudanças no país árabe, que terá que se liberalizar, modernizar, destradicionalizar e parecer mais com as petro-monarquias mais abertas, como Qatar, Emirados Árabes Unidos [EAU] ou Bahrein. As mudanças, ao mesmo tempo, anunciarão uma profunda transformação global de todas as sociedades muçulmanas do mundo, que terão de abandonar o seu conservadorismo e serem melhores cidadãos globalistas: se identificar com hábito e música da Civilização Ocidental tardo-decadente.

- A família real Saud afirma que o gigante de ouro negro será avaliado em dois trilhões de dólares. De acordo com isso, a Saudi Aramco seria muito mais poderosa do que titãs econômicos globais como ExxonMobil, Apple, Microsoft, Amazon ou Alibaba.

- Portanto, a IPO de 5% da empresa terá um valor de 100 bilhões de dólares e será a maior de toda a história das finanças.

- Os bancos J.P. Morgan Chase (intimamente ligado ao poder financeiro-petrolífero dos Rockefellers e Warburg), Morgan Stanley (famílias Rockefeller e Morgan) e HSBC (banco matricial rothschildiano) seriam os laranjas da operação, que contará também com um antigo executivo do Citigroup.

- Se teme um desembarco de capital chinês na IPO, mas se permanecemos fieis à regra de sempre seguir a trilha do dinheiro, a verdadeira origem desse capital é a Reserva Federal dos EUA [FED] e vários bancos privados que emitem créditos a um ritmo vertiginoso.

- Vários mercados de ações flertam a Saudi Aramco para conseguir sua IPO. Os mais flertadores sendo Wall Street, a Cidade de Londres [City], Toronto, Tóquio e Hong Kong.

A Saudi Aramco é cria do envolvimento da Standard Oil of California (parte do cartel petroleiro de Rockefeller) com a família Saud ― que é o Governo e o Estado saudita. Se trata da primeira empresa petrolífera do mundo. A segunda é a Companhia Nacional Iraniana de Petróleo (NIOC), teoricamente sua rival mortal.
Em 1955, o Chase Bank (família Rockefeller) e o Manhattan Bank (família Warburg) se fusionaram para criar o Chase Manhattan Bank. Este banco, fundido novamente em 2000 com o banco J.P. Morgan (família Morgan), é o a atual JPMorgan Chase. O mesmo terá um papel proeminente na IPO da Saudi Aramco.

Voltemos pra primavera de 2017. É o ocaso do ISIS na Síria e Iraque. Os exércitos sírios e iraquianos, como vários grupos curdos, avançam contra os mercenários jihadistas, ameaçando se trombarem na fronteira sírio-iraquiana. Os gigantescos esforços dos petro-regimes árabes para derrubar Bashar Al-Assad e assim obter o cobiçado gasoduto do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo, se entrelaça nessa questão. O Irã está ganhando a vantagem estratégica, e, com isso, seu próprio projeto de gasoduto persa-xiita (em detrimento do árabe-sunita proposto pelos petro-regimes) está ganhando peso na luta por se conectar com um terminal de exportação no Mediterrâneo que lhe dá acesso ao mercado de gás europeu — o mais desenvolvido do mundo. Turquia e Qatar tomam nota do fiasco na Síria e miram seus olhos para o Irã, afastando-se da esfera de influência saudi. Não podemos esquecer que, depois da Saudi Aramco, a segunda maior petroleira no mundo é a NIOC iraniana.

• 14 de março de 2017: Trump se encontra na Casa Branca com Mohammad bin Salman, o príncipe herdeiro da coroa saudita e ministro de defesa da Arábia Saudita.


• 20 de março de 2017: após ter recebido sete transplantes de coração ao longo de sua vida, David Rockefeller morre aos 101 anos, realizando o sonho de atingir o centenário que seu avô não atingiu (ele morreu aos 96 anos). David foi homenageado por figuras como o casal Clinton e a família Bush, que destacaram seu valor como "conselheiro e assessor". Seu filho David Rockefeller Jr. herda a liderança de sua rede de interesses.

David Rockefeller (1915-2017).

• 3 de abril de 2017: Qatar retoma uma moratória de doze anos para retomar seus projetos de desenvolvimento no campo gasífero de North Dome, compartilhado com o Irã (eles o chamam de South Pars), o maior do mundo. A aproximação do Qatar ao Irã tem sido uma realidade há anos, mas começa a tomar formas muito concretas.

• 21 de abril de 2017: para negociar o resgate de vinte e seis membros da família real qatari, sequestrados por milícias xiitas no sul do Iraque, o Qatar entra em negociações com o Irã e paga 700 milhões de dólares a grupos insurgentes (incluindo o libanês Hezbollah). As negociações com o Irã enfurecem a Arábia Saudita e os Emirados (que são potências sunitas como o Qatar): muitas vezes esses "resgates" são pretextos para financiar secretamente os grupos terroristas.

• 24 de abril de 2017: a Arábia Saudita é eleita como membro da comissão da ONU para os direitos das mulheres. Pode parecer irônico, mas também pode significar que a Arábia Saudita "emancipará" suas mulheres.

• 1 de maio de 2017: Saudi Aramco assume o controle da refinaria de Port Arthur, Texas. Se trata da joia do sistema de refinamento petroleiro americano.

• 20 de maio de 2017: Donald Trump visita a capital Riade e fecha o maior tratado armamentístico da História no valor de 350 bilhões de dólares, incluindo tecnologia de segurança cibernética, tanques, sistemas de mísseis, radares e comunicações. Esta cúpula consagra a Arábia Saudita como o terceiro maior orçamento de defesa do mundo (depois dos EUA e da China, e à frente da Rússia) e selou a "amizade" entre Jared Kushner (sobrinho judeu de Trump) e Mohammed bin Salman. O apoio explícito de Trump envalenta a Arábia Saudita e os Emirados e preocupa a atores regionais mais ambíguos, como Kuwait, Qatar e Omã. Alguns acreditam que os EUA querem fortalecer a Arábia Saudita contra o Irã. Outros acreditam que Washington busca criar divisão entre xiitas e sunitas, e até nas próprias fileiras sunitas. Outros consideram que se trata duma chantagem: segurança em troca de petróleo. Provavelmente é uma mistura de todos citados.

Trump em Riade com o rei Salman bin Abdulaziz.

• 23 de maio de 2017: o site da agência de notícias do Qatar é hackeado e é atribuído ao emir do Qatar frases de reconhecimento e apoio tácito ao Irã. Algumas fontes culpam a Rússia, mas a verdade é que até então havia uma longa guerra cibernética entre o Qatar e os países do Golfo alinhados com a Arábia Saudita. A Inteligência estadunidense considera que o ataque veio dos Emirados.

• Junho de 2017: os hackers começam a enviar e-mails para o embaixador dos Emirados nos EUA, Yousef Al Otaiba. Os e-mails mostram pagamentos de prostitutas de luxo, uma disputa entre o Qatar e os Emirados para hospedar uma embaixada talibã, corrupção com ligações na Malásia, fortunas em paraísos fiscais, vínculos com a FDD (fundação para defesa da democracia) e como os Emirados foi em 2013 o Estado que mais gastou dinheiro em lobby nos corredores do poder de Washington. Assume-se que o hack foi pago pelo Qatar.

• 1 de junho de 2017: apesar de vários protestos ― financiados pelos petro-regimes árabes do Golfo usando como desculpa a segurança ecológica de uma reserva nativa americana ― o oleoduto Dakota começa a funcionar. Ele transporta o petróleo de Dakota para Illinois e é outro passo em direção ao objetivo de tornar os EUA um país autônomo em petróleo. A posição dos EUA como o principal produtor mundial de petróleo é reforçada.

• 5-6 de junho de 2017: crise diplomática em pleno Ramadão. A Arábia Saudita, os Emirados, o Bahrein, o Egito, o Iêmen (governo de Hadi) e as Maldivas anunciam que cortaram os laços diplomáticos com o Qatar. Todos os cidadãos desses países devem deixar o Qatar, e os cidadãos qatários nesses países receberam duas semanas para sair do país. A desculpa foi hipócrita na maior parte do tempo: o Qatar apoia grupos terroristas (exatamente como todos os países do Golfo). A Arábia Saudita impõe um bloqueio e embargo ao Qatar, e não permite que seus aviões voem sobre o espaço aéreo saudita (vai para o espaço aéreo iraniano). Isso causa um enorme problema porque mais de 80% das importações de alimentos do Qatar transitavam pela fronteira com a Arábia Saudita. Kuwait e Omã permanecem neutros. Nos meses subsequentes, Chade, as Ilhas Comores, Maurícia, Mauritânia e Senegal se juntarão à iniciativa saudita, assim como o "governo" líbio de Tobruque e as regiões semi-autônomas da Somália. Djibouti, Jordânia e Níger reduziram os laços diplomáticos com o Qatar. O império da influência saudita é delineado no mapa mundial. Com suas rotas terrestres, aéreas e marítimas calculadas por seus rivais árabes, o Qatar não tem escolha senão mirar os olhos para o Irã, em uma virada diplomática incomum. A Turquia, que espera ser rota de trânsito para gás natural qatari e/ou iraniano, condena os ataque contra Qatar e segue com seus planos de ter uma base militar no país. O Irã também condena o boicote anti-Qatar. Apesar da intoxicação diplomática, o gás natural qatari continuará a fluir para os Emirados e Omã, ao longo de rotas que contornam o Estreito de Ormuz, considerado vulnerável ​​à pressão iraniana.

Países aderidos, dalguma forma, ao boicote saudita no Qatar.
Arábia Saudita acusando o Qatar de financiar o terrorismo.


• 22 de junho de 2017: Arábia Saudita, Emirados, Bahrein e Egito lançam um ultimato ao Qatar que inclui a cessação do seu idílio com as forças armadas turcas, reduzir seus laços com o Irã, fechar o Al Jazira e outros empórios mediáticos, descontinuar seu apoio a vários grupos terroristas e se submeter a monitoramento. A proposta foi obviamente feita para ser negada e aprofundar a lacuna diplomática no Golfo.

• 24 de junho de 2017: Al-Sisi, o presidente egípcio pró-saudita, ratifica que a soberania das estratégicas ilhas de Tiran e Sanafir, na foz do Golfo de Aqaba, passe para a Arábia Saudita. É o primeiro passo para a Arábia Saudita criar nessa região uma zona econômica especial que atue como pólo geopolítico, como veremos mais adiante. Israel tem um porto importante no Golfo de Aqaba e espera-se que tenha algo a dizer sobre isso.

• 10 de junho de 2017: o exército iraquiano (e, em menor medida, peshmergas curdos) toma a cidade de Mossul (região curda do Iraque). Concerne um importante nó petroleiro que esteve nas mãos do ISIS durante um reinado de terror de três anos, durante o qual o ISIS estava extraindo petróleo curdo e vendendo clandestinamente no mercado negro para a Turquia, muitas vezes através de comandantes curdos corruptos.

O comportamento do Estado Islâmico nos territórios ocupados por ele (muitas vezes com o apoio direto da OTAN durante o governo Obama-Hillary) lembra o dos bolcheviques na Rússia. Pode-se notar que tanto os bolcheviques como o ISIS tinham petrodólares originários da família Rockefeller.

• 20 de junho de 2017: o "Asia Times", porta-voz da comunidade financeira e empresarial de Hong Kong, fala sobre um leve golpe de Estado na Arábia Saudita e prevê mais problemas no reino, falando novamente sobre em 29 de setembro.

• 1 de agosto de 2017: a China abre sua primeira base militar em solo estrangeiro: é uma base naval no Djibouti, presidindo o Estreito de Mandeb. Outras forças que têm bases militares em Djibouti são o AFRICOM do Pentágono, França (e elementos alemães e espanhóis), Itália e Japão (também a única base militar japonesa em solo estrangeiro). Arábia Saudita está construindo uma base militar no país.

• 23 de agosto de 2017: Jared Kushner, o genro de Trump e conselheiro presidencial, visita a Arábia Saudita, em teoria, para retomar as negociações de paz em torno do conflito israelense/palestino.

• 25 de setembro de 2017: referendo não vinculante para a independência do Curdistão iraquiano. Os partidários da independência ganham. Principais vítimas do movimento de independência curdo: Turquia, Iraque e Irã, que aspiram a se conectar territorialmente. Os curdos sentem o avanço do exército iraquiano e sabem que perderão o controle do tráfego de petróleo em sua região.

• 5 de outubro de 2017: visita do rei saudita Salman a Moscou. É a primeira visita da História de um rei saudita à Rússia. Ele e Vladimir Putin falam sobre a Síria e o preço do petróleo, e assinam um tratado de armas no valor de 3 bilhões — a primeira vez que a Rússia irrompe em um mercado tradicionalmente monopolizado pelos EUA.

• 11 de outubro de 2017: derramamento de petróleo no Golfo do México. A culpada é uma tal de LLOG Exploration Company, de Luisiana, anexada ao consórcio HWCG LLC, responsável, entre outras coisas, por avisar sobre incidentes subaquáticos que podem resultar em vazamentos de petróleo. A HWCG LLC foi formada por vinte e quatro companhias petroleiras de segunda categoria após o derramamento da BP no Golfo do México em 2010, o que levou Obama a promulgar uma moratória sobre a exploração de petróleo no mar.

• 16 de outubro de 2017: Kirkuk, a cidade petroleira do meio curdo do Iraque, durante anos nas mãos das milícias do governo regional curdo, cai nas mãos do exército iraquiano. Imediatamente há confrontos entre militares iraquianos e curdos, que vão recuando enquanto os curdos se afastam do caminho e dão lugar ao governo iraquiano. Os curdos são um meio de Israel para pressionar a região, e eles também receberam apoio da OTAN para ter uma cunha regional em caso de desobediência turca ou iraquiana. O governo autônomo curdo abriu em 2013 um oleoduto para canalizar o petróleo de Kirkuk para a Turquia através do território curdo. Este oleoduto logo caiu nas mãos do ISIS, que o usou para inundar o mercado negro de petróleo barato, através da Turquia, afundando os preços do petróleo, muitas vezes com a cooperação de comandantes curdos corruptos. O Iraque anuncia que vai reabrir o gasoduto Kirkuk-Ceyhan, chegando à costa do Mediterrâneo turco sem passar por territórios do governo autônomo curdo, mas desta vez a um preço um pouco mais caro. [Taq Taq, Khurmala e Khabur são os nós do novo oleoduto curdo. Presidindo a tríplice fronteira Turquia-Irã-Iraque está a base aérea de Harir no Curdistão iraquiano. Como a Turquia está negando a OTAN em usar İncirlik para seus bombardeios na Pentalásia, pode-se esperar que a OTAN se estabeleça mais poderosamente em uma base curda.]

• 24 de outubro de 2017: o príncipe Mohammad bin Salman anuncia, no âmbito do projeto Saudi Vision 2030 (veremos mais adiante), a construção da NEOM, uma cidade e uma zona econômica transnacional no Golfo de Aqaba, onde convergem as fronteiras marítimas de Egito, Jordânia e Arábia Saudita. Em suma, trata-se de criar um pólo econômico com vista à exportação de petróleo para o Mediterrâneo, sem depender dos pontos vulneráveis ​​de Ormuz, Mandeb e Suez. Também está prevista uma ponte que unirá o Egito com a Arábia Saudita, fechando com poder terrestre o poder marítimo de Israel. O projeto tenderia a estrangular geopoliticamente o hub israelense de Eilat, a única base estratégica que Israel tem nas margens do Mar Vermelho e que o torna um país de dois mares, independente do Canal de Suez. O príncipe anuncia este plano no mesmo hotel onde ele irá confinar as vítimas da purga estatal que acontecerá em menos de duas semanas.

• 27 de outubro de 2017: Jared Kushner faz uma viagem secreta à Arábia Saudita. Kushner já havia visitado o país em maio e novamente em agosto.

• 4 de novembro de 2017: dia recheado de eventos.

- Trump twitteia que ele quer que a Saudi Aramco faça sua IPO (oferta pública inicial) na Bolsa de Nova York. Outros bolsas rumoradas são Toronto, Londres, Tóquio e Hong Kong, e os EUA naturalmente querem garantir a hegemonia de Wall Street na operação.

- O primeiro-ministro do Líbano viaja para Riade e renuncia de forma incomum, citando a crescente influência do Irã e seu medo de ser morto em seu país. [Seu pai, Rafik Hariri, também primeiro-ministro, foi morto, teoricamente, por uma bomba do Hezbollah, mas provavelmente foi por um míssil lançado por um drone israelense]. Acredita-se que seja um movimento saudita no tabuleiro para levantar hostilidades contra Teerã e desestabilizar sua influência no Líbano. Em teoria, pelo Irã, na prática, provavelmente por um drone israelense de tecnologia alemã. O governo libanês não aceita a renúncia até que a apresente pessoalmente em Beirute.

- Purga na família real = aparato estatal da Arábia Saudi. Onze príncipes e quatro ministros são presos. Centenas de estadistas, membros da família real e empresários cairão nos dias subsequentes, suas contas bancárias serão congeladas e eles serão confinados em um hotel de luxo na capital. Em questão de semanas, eles serão liberados, destituídos de seu cargo público, somente em troca de pagar 70% de sua fortuna pessoal. Este golpe de Estado brando é interpretado como um movimento da coroa no para consolidar o poder de Mohammad bin Salman, príncipe herdeiro.

- Arábia Saudita aumenta seu bloqueio naval do porto de Áden. É um dos portos mais estratégicos e históricos em todo o Oceano Índico, presidindo um importantíssimo funil de tráfego marítimo que culmina no Estreito de Mandeb e é atormentado pela pirataria. O porto foi bloqueado por dois anos pelo exército saudita, o que causou uma mortal fome e epidemias no Iêmen.

- À noite, um míssil iraniano lançado do Iêmen é interceptado perto de Riade. A retórica anti-persa é revivida.

• 5 de novembro de 2017: O príncipe saudita Mansour bin Muqrin morre em um acidente de helicóptero junto com outras sete autoridades de alto escalão, perto da fronteira com o Iêmen.

• 9 de novembro de 2017:

- O Kuwait e a Arábia Saudita pedem a todos os seus cidadãos que deixem o Líbano imediatamente. Este movimento procura polarizar o Oriente Médio e traçar uma linha clara entre a Arábia Saudita e seus aliados versus o Irã e seus aliados

- A empresa espanhola Técnicas Reunidas recebe um contrato multimilionário para desenvolver projetos de gás na Arábia Saudita. No dia seguinte, a empresa sofre um desastre monumental no mercado de ações.

• 10 de novembro de 2017: visita não programada de Macron à Arábia Saudita, onde ele se encontra com Hariri. A França é a potência mais ex-colonial no Líbano.

• 12 de novembro de 2017: terremoto entre o Irã e o Iraque. Mais de quinhentos mortos. O Irã sofre a maior parte do dano.

• 16 de novembro de 2017: a Turquia retira quarenta soldados das manobras militares da OTAN na Noruega quando o rosto de Erdogan e Ataturk aparecem como inimigos em um exercício. Da mesma forma, em uma rede social, aparece um perfil falso de Erdogan escrevendo mensagens anti-OTAN. Se está justificando a progressiva ruptura diplomática com a Turquia; A verdadeira razão é que a Turquia agora olha para o Irã e o Qatar devido ao fracasso de seu gasoduto favorito na Síria.

• 18 de novembro de 2017: Macron encontra Hariri em Paris.

• 19 de novembro 2017: Arábia Saudita fecha sua refinaria de petróleo em Jidá para se tornar um centro de distribuição de produtos petrolíferos.

• 22 de novembro de 2017: Hariri, já de volta a Beirute, anuncia que está suspendendo sua renúncia. O príncipe Sultan bin Salman anuncia que a Arábia Saudita concederá vistos de turista de trinta dias a partir de 2018.

• 24 de novembro de 2017: massacre em mesquita sufi no Sinai (Egito) com mais de trezentos mortos.

• 2 de dezembro de 2017: delegação do governo sírio chega a Genebra para negociar com a ONU.

• 4 de dezembro de 2017: Saleh, presidente do governo não reconhecido do Iêmen, é assassinado em Saná. A Arábia Saudita e seus aliados vêm levando uma guerra custosa e sangrenta no Iêmen há anos, muitas vezes silenciada na mídia. Saleh era anti-saudita, teoricamente alinhado com o Irã e teoricamente assassinado por houthis (milícias pró-iranianas) por afirmar a possibilidade de um entendimento com Riade. O Iêmen ainda é um terreno fértil para operações de Inteligência, implantação de drones e equipes de operações especiais. Nas semanas seguintes, o campo "rebelde" iemenita estará dividido e sofrerá conflitos internos, mesmo em sua capital, Saná.

• 6 de dezembro de 2017: Trump anuncia que reconhecerá Jerusalém como a capital de Israel. Tanto a Arábia Saudita quanto o Irã olham torto para isso. Hamas chama a Intifada

• 8 de dezembro de 2017: Vladimir Putin inaugura no Ártico uma fábrica gasífera que fornecerá gás natural à Espanha, competindo com a Argélia, Nigéria, Noruega e Qatar. O gás russo começará a aparecer na Espanha ao longo de 2018. De repente, a mídia estatal espanhola cambia completamente a maneira de representar Vladimir Putin e Bashar al-Assad. Mais uma vez, a máxima orwelliana é cumprida: "sempre fomos amigos da Eurásia".

• 9 de dezembro de 2017: Iraque anuncia a vitória contra o ISIS.

• 10 de dezembro de 2017: o governo sírio retorna a Genebra para negociar com a ONU.

• 11 de dezembro de 2017:

- Bin Salman anuncia que em março de 2018 os cinemas serão reabertos na Arábia Saudita, após mais de trinta anos de proibição. A empresa americana IMAX será a grande beneficiária.

- Putin faz uma visita não anunciada à base aérea russa em Hmeimin, perto de Lataquia, na Síria. Ele anuncia uma retirada (parcial) das tropas russas do país, o que é interpretado como uma vitória pelo ISIS e os "rebeldes sírios".

- Pela primeira vez desde a revolução islâmica de 1979, o Irã promove um festival de música ocidental. Schiller, grupo alemão de música eletrônica, inicia a primeira de cinco noites de show, com um grande fluxo em uma propriedade local pertencente ao Ministério iraniano. Como os macro-festivais desse tipo tendem a ser monitorados pelas operações de engenharia social, controle social, lavagem de dinheiro negro e tráfico de drogas, se suspeita de uma abertura no regime aiatolá. E parece ser a UE que está se posicionando para aproveitar mais da abertura do Irã.

• 13 de dezembro de 2017:

- A imprensa estatal iraniana anuncia que até o início de 2018 o Irã entrará na União Econômica Eurasiática, um mercado comum transnacional que já inclui Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão, Quirguistão e Armênia.

- O presidente turco Erdogan emite uma recompensa de 800 milhões de dólares pela captura de dois funcionários dos EUA relacionados ao Pentágono e à CIA, e que, em tese, queriam derrubar Erdogan na tentativa de golpe em julho de 2016. Pode-se supor que essa seja a resposta turca ao processo, em Nova York, de Mehmet Hakan Atilla, um banqueiro turco que estava ajudando um comerciante de ouro iraniano a lavar dinheiro negro, com o objetivo de escapar das sanções internacionais contra o país persa.

- Israel, estranhamente, convida Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro e ministro da Defesa da Arábia Saudita, para mediar as negociações de paz com os palestinos. Seria a primeira vez que um chefe de Estado israelense visita a Arábia Saudita, ou vice-versa. O conflito na Síria aproximou os dois países, que compartilham interesses geoestratégicos.

- A cantora egípcia Shaimaa Ahmed (também conhecida como "Shyma") é condenada à prisão por um videoclipe sexualmente sugestivo envolvendo uma banana. O caso pretende anunciar ao mundo que algo está mudando na sociedade egípcia (que funciona na esteira dos petrodólares sauditas), mas a narrativa oficial é que "antigas resistências que são hostis à mudança ainda precisam ser superadas".

• 16 de dezembro de 2017: Rebecca Dykes, diplomata da embaixada britânica em Beirute, é encontrada estrangulada. A narrativa oficial é que ele foi vítima de uma agressão sexual por um motorista de Uber.

• 18 de dezembro de 2017: Trump proclama uma "nova estratégia de segurança nacional". Suas fundações são: America First, menos globalismo e mais nacionalismo, os EUA não podem suportar o fardo de ser o policial mundial, os outros países têm que assumir suas próprias responsabilidades imperiais (provavelmente um aceno ao Japão, Alemanha e outros), a maior queda de impostos da história, controle de fronteiras e prosperidade doméstica dos EUA como base de seu poder internacional.

• 21 de dezembro de 2017: a ONU vota 128-9 contra a declaração de Trump de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel.

• 28 de dezembro de 2017: começam protestos no Irã que continuarão por dias. Eles vêm de todos os tipos de movimentos de oposição, desde aqueles que exigem uma linha clerical mais dura até aqueles que pedem mais abertura e ocidentalização, passando por manifestações contra as condições de vida e trabalho. Alguns desses protestos são violentos, causando mortos e reação da polícia. Reaparece o fantasma das revoluções coloridas orquestradas pelo Departamento de Estado dos EUA no espaço eurasiático e os "manifestantes pacíficos" manejados pelos EUA na Líbia e na Síria. O ex-presidente Ahmadinejad é preso por incentivar os protestos.

• 4 de janeiro de 2018: confirma-se que os EUA suspenderão a ajuda ao Paquistão até que o país deixe de apoiar grupos radicais como a Rede Haqqani ou o Talibã. Fala-se em fazer o mesmo com a Autoridade Nacional Palestiniana.

• 6 de janeiro de 2018: a Sanchi iraniana, a transportadora de gás natural de banana panamenha, colide com um cargueiro de banana honconguês ao largo da costa de Xangai. Queimado e à deriva, afunda em 14 de janeiro. Sua tripulação inteira de trinta marinheiros iranianos e quatro bangladeshianos morre.

• 9 de janeiro de 2018: o Paquistão anuncia que suspenderá a cooperação militar e de Inteligência com os EUA.

• 18 de janeiro 2018: está ficando claro que, graças às políticas de autossuficiência em petróleo, este ano os EUA ultrapassarão a Arábia Saudita como o segundo maior produtor de petróleo do mundo (o primeiro é a Rússia).

• 23 de janeiro de 2018. o governo egípcio prende o ex-chefe do Estado Maior do exército egípcio, Sami Hafez Anan, que anunciou sua candidatura para as eleições de março.

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Lendo nas entrelinhas:

O ISIS foi varrido da Pentalásia. Sem dúvida, suas mudas brotarão em outros lugares.

- O Qatar fracassou em seus projetos de desestabilização na Síria, mas ainda quer exportar seu gás para o frutífero mercado gasífero europeu ― o mais lucrativo, organizado e interconectado do mundo ― onde terá de competir amargamente com o gás russo, argelino, nigeriano e norueguês. Então ele não tem escolha a não ser contar com o Irã.

- O Qatar também fracassou nas últimas eleições nos EUA, no qual apoiou claramente Hillary Clinton, que recebeu doações multimilionárias do Qatar através da Fundação Clinton. Trump está emergindo como o candidato preferido para a Arábia Saudita, ou pelo menos para a facção "reformista" de Mohammed bin Salman.

- O abandono da narrativa de "Assad deve cair" é o que valeu ao Qatar a inimizade do império saudita, que precisava derrubar Assad para colocar um fantoche que aceitasse seu corredor de hidrocarbonetos.

- O Qatar costumava ser um Estado vassalo da Arábia Saudita como os outros países árabes do Golfo, mas o boom do gás natural deu-lhe enorme poder, o que o levou a buscar maior soberania e maior independência. Ele não pode mais prosseguir sozinho e deve buscar o apoio de fortes atores regionais, que acabam sendo o Irã e a Turquia.

- O Qatar tem a maior base aérea do Oriente Médio (a estadunidense Al Udeid, de onde as operações militares são conduzidas em todo o Oriente Médio, do Paquistão à Síria), portanto, em teoria, é militarmente intocável por seus vizinhos. No entanto, Washington também tem bases militares em todas as outras monarquias petroquímicas do Golfo, e pode-se dizer que está jogando a velha tática de dividir para conquistar.

PODEROSO CAVALEIRO É DOM PETRÓLEO — POR QUÊ?



Por que o ouro negro tem uma importância tão colossal na geopolítica mundial? Estamos dando-lhe demasiada importância? O petróleo realmente tem esse peso na geopolítica global, ou são apenas teorias da conspiração?

Na época da Primeira Revolução Industrial, a energia (para calefação, iluminação, transporte e maquinaria) vinha principalmente de lenha, carvão, óleo de baleia, força animal e energia hídrica e eólica (em moinhos). Quando foi descoberto que o petróleo poderia ser refinado para obter querosene (mais barato e mais eficaz que o óleo de baleia para iluminar), foi inaugurada a corrida comercial do petróleo — embora apenas um punhado de mentes bem informadas, que pensavam à frente de seu tempo, foram capazes de ver a importância chave do ouro negro nos próximos anos, se lançando a monopolizá-lo.

No Império Russo, foram produzidas 3,500 toneladas de petróleo bruto em 1825, um número que dobraria até 1850 graças ao boom petrolífero de Baku (Azerbaijão).

Em 1870, a empresa Standard Oil foi fundada em Cleveland (EUA), em princípio dedicada exclusivamente ao refino de petróleo para comercializar querosene. Desde o início, a empresa, liderada pelos irmãos John D. e William Rockefeller, teve uma ascensão meteórica quase inexplicável, tornando-se conhecida por manipular preços para afundar os concorrentes mais modestos e assumir o monopólio de todo o mercado de petróleo e rede de transporte dos EUA.

Desde os tempos dos varegues, na Rússia o desenvolvimento é algo que vem do Ocidente. Seu cenário petrolífero ― no momento o mais importante do mundo ― não seria uma exceção, e os irmãos Ludvig e Robert Nobel, suecos que emigraram para a Rússia, fundaram em 1876, com o barão Peter von Binderling (militar russo de origem alemã) e o militar finlandês Carl August Standertskjöld, a companhia Branobel (1876). [Irmãos de Alfred Nobel, o fundador dos prêmios Nobel. Ludvig, em particular, não era apenas um magnata capitalista, mas um técnico altamente inventivo: ele inventou os primeiros navios-petroleiros e melhorou as refinarias e oleodutos.]

Onde exista ganhos financeiros sólidos, é muito provável encontrar algum descendente da família Rothschild, e a corrida do petróleo no Cáspio na segunda metade do século XIX não seria exceção. Os Rothschilds já controlavam o mercado mundial de ouro e, depois de verem as possibilidades do ouro negro, começam a controlar essa interessante mercadoria. O barão Alphonse Rothschild (ramo francês da família) estabelecerá a Societé de Commerce et d'Industrie de Naphte Caspienne-Mer Noire em 1883 e a colocará sob o controle de seu banco, o Rothschild Frères de Paris. Após enormes investimentos e um tremendo desenvolvimento de infra-estruturas, a própria Baku passará a ser conhecida como "a Paris do Cáspio". A ferrovia transcaucasiana e o oleoduto Baku-Batum, reminiscentes geograficamente do atual oleoduto BTC, o conectarão aos mercados internacionais da época.

Em 1885, a Standard Oil mudou-se para Nova York. Estabelecer sua empresa no coração dos negócios dos EUA foi uma grande tarefa aos Rockefellers. A fase meramente produtiva, industrial e comercial foi deixada para trás e se iniciava a fase política, especulativa e financeira. Agora, os Rockefellers são outra família da nova nobreza capitalista nova-iorquina que, ao lado de outras famílias como Warburg, Morgan, Vanderlip, Schiff, Speyer, etc, manobrarão e conspirarão ― não apenas na selva dos arranha-céus de Nova York com suas bem estabelecidas dinastias econômicas, mas também no tabuleiro geopolítico global ― para obter mais e mais dinheiro, controle e poder. Rapidamente se tornarão um desses trustes multinacionais que os pais fundadores dos Estados Unidos nunca teriam permitido.

No final do século XIX, acontece a Segunda Revolução Industrial. O telégrafo e a ferrovia estão em plena expansão e comunicam enormes extensões do mundo, assumindo na prática uma onda globalizadora que aumenta as interconexões no mundo. Os Rockefellers usarão os dois com maestria para estabelecer seu monopólio. Na década de 1880, empresas de petróleo controladas pelos Rothschilds irrompem em Baku, seguidas pela Standard Oil rockefelleriana. Na década seguinte, a Standard Oil lança um tentáculo na Ásia para vender querosene a quatrocentos milhões de chineses que estavam começando a usar lâmpadas de querosene. A Standard Oil já havia se tornado uma verdadeira multinacional com o poder de pressionar governos e economias inteiras.

O petróleo bruto é um líquido espesso, viscoso e opaco. Deve ser processado quimicamente em refinarias para fornecer produtos acabados, como gasolina, diesel ou querosene.

No início do século XX, o petróleo era o bem mais valioso dos mercados mundiais. Metade do petróleo produzido no mundo era russo, quase exclusivamente em Baku (atual Azerbaijão) e Grózni (Chechênia). O primeiro oleoduto da História digno de tal nome foi russo, datado em 1906, media mais de oitocentos quilômetros, transportava querosene e conectava o Mar Cáspio ao Mar Negro, tendo em vista o mercado europeu. Nessa época, o boom do motor de combustão interna iria criar um mercado crescente para a gasolina, que passou de uma modesta substância de refino de petróleo bruto para um produto valioso. Após o novo boom petroquímico, são fundadas a Royal Dutch Shell (1907) e a Anglo-Persian Oil Company (1908, futura British Petroleum, agora BP). Ambas estão sob a influência do sistema bancário rothschildiano europeu. A primeira também tem participação da família real holandesa. Em 1907, a Shell adquire os interesses petrolíferos da família Rothschild no Azerbaijão: a companhia petrolífera será totalmente guiado pelos interesses rothschildianos.

Em 1911, a Suprema Corte dos EUA determinou que a Standard Oil era um monopólio ilegal. O tribunal declarou que "pela segurança da República, decidimos que essa perigosa conspiração deve terminar em 15 de novembro de 1911". O polvo rockefelleriano foi dissolvido em trinta e quatro tentáculos (empresas), mas o denominador comum permaneceu presente e John D. tornou-se o homem mais rico do mundo, uma vez que essas empresas divididas se revelaram, em geral, mais lucrativas do que uma grande empresa integrada:

A Socony (ou Standard Oil of New Jersey) se tornou em Exxon.
Standard Oil Company of New York, fundida com a Vacuum Oil, se tornou em Mobil.
Standard Oil of California: Chevron.
Standard Oil of Indiana: Amoco.
The Ohio Oil Company: Marathon Petroleum.

Em 1914, a Russian General Oil Corporation, um engendro fundado em Londres para dominar o petróleo russo, comprou ações na bolsa de valores de Berlim numa tentativa de dominar a Branobel. O movimento falhou, mas em 1916, a Shell envia engenheiros ao Azerbaijão para explorar as possibilidades de desenvolvimento de petróleo.

Após a revolução bolchevique de 1917, os irmãos Nobel voltam para a Suécia a fim de salvar suas vidas. Enquanto a Shell e a Anglo-Persian Oil Company tentam, sem êxito, garantir o apoio do governo britânico para entrar no mercado petroleiro russo, os irmãos Nobel começam a negociar com a Standard Oil rockefelleriana, que visita os poços de Baku enquanto o Azerbaijão ainda é um país independente, e compram concessões de petróleo.

Em 1920, os bolcheviques invadem Baku e implantam seus sangrentos expurgos, incluindo a nacionalização da Branobel, que se tornará parte da nova petroleira estatal soviética Azneft (atual SOCAR). Os poços de petróleo do Azerbaijão queimam, mas em consequência a Standard Oil adquire as ações dos irmãos Nobel a preço de banana.

Em 1924, Alexander P. Serebrovsky, chefe da comunista Azneft, visita Nova York para negociar com Rockefeller o refino do petróleo do Cáspio, já que os bolcheviques não tinham o saber-fazer para tal. Rockefeller se envolve no negócio e logo os métodos americanos e os engenheiros americanos se colocam a serviço da URSS.

Em 1925, o conglomerado Rockefeller firma com Stalin que eles financiariam os planos quinquenais soviéticos em troca de metade da produção de petróleo da URSS. Isso foi denunciado por alguns setores da opinião pública ocidental como um "pacto de Stalin-Rockefeller" ou um "eixo Rockefeller-União Soviética", no qual o clã de Nova York abandonou Trotsky e anulou seu suporte financeiro e político em apoio ao ditador. No ano seguinte, em março de 1926, a petroleira rockefelleriana Socony-Vacuum assina um acordo com o sindicato soviético Nafta e empresta 75 milhões de dólares aos comunistas. Em 1927, a Standard Oil of New Jersey constrói uma nova refinaria para a Azneft no Azerbaijão, compra 800 mil toneladas de petróleo bruto e 100 mil toneladas de querosene e concorda em exportá-los para a Europa. Em 1928, o Chase National Bank, de Rockefeller, já vendia títulos do governo soviético nos EUA.

¿A URSS estava se tornando a primeira Arábia Saudita do clã Rockefeller, uma ditadura repressora e implacável, uma "aliada que nos odeia e apoia movimentos contra nós", um projeto de controle social, um meio geopolítico hostil e fechado... exceto para os interesses rockefellerianos? ¿Seriam os regimes inóspitos e hostis ao Ocidente, como a Arábia Saudita ou a URSS, a maneira como o grupo Rockefeller tem de dizer: "Este é meu feudo, aqui somente eu faço negócios"? As perguntas são muitas, mas no caso russo, pode-se dizer que, onde antes existiam dezenas de companhias petrolíferas competindo entre elas, agora, após sangrentos processos de concentração e fusões empresariais que incluíam a primeira "revolução colorida" (vermelha) do espaço eurasiático, o negócio petroleiro russo caiu nas mãos de dois cartéis: o Rockefeller e, em menor grau, o Rothschild.

Descrever de uma maneira meramente superficial a história e importância do império Rockefeller levaria um artigo inteiro, quando mais, e não é o objetivo. Basta saber que a gruta dos petrodólares árabes é muito mais profunda, sinuosa e ramificada do que parece de fora e que a combinação de magia petroquímica com magia financeira conferiu ao grupo de interesse dos Rockefellers, de seu trono em Nova York, um enorme poder sobre assuntos globais. O clã manteve relações estreitas com o comunismo em todo o mundo, colocou e depôs governos, impôs embargos a países inteiros, investiu enormes somas em projetos de engenharia social e comportamento humano (feminismo, "direitos civis" e outros), criou agências de planejamento geoestratégicas como (como o Conselho de Relações Exteriores), organizações de encontro globalistas (Bilderberg, Comissão Trilateral) e lançou tentáculos para outros setores econômicos ― agrícolas e farmacológicos, entre outros. Os tentáculos da alquimia petroquímica-financeira são longos e estão maquiados de "filantropia".

John D. Rockefeller e seu filho John D. Jr. O pai havia assumido a hegemonia do mercado petroleiro dos Estados Unidos depois de um vórtice de competitividade desenfreada e "seleção natural" empresarial que lembra muito a protagonizada pelos randlords durante a febre dos diamantes sul-africanos, tal como vimos em outro artigo .

Já em nossos dias, basta dar uma olhada na lista de produtos obtidos a partir do refinamento do petróleo para entender a monstruosa e crescente importância do petróleo para nossa civilização:

- Gasolina.
- Gasóleo (Diesel).
- Querosene.
- Combustíveis de aviação.
- Asfalto. Sem petróleo não há estradas modernas.
- Fármacos.
- Fertilizantes, pesticidas A agricultura moderna é fortemente mecânica, química e globalizada, dependendo também do transporte de longas distâncias. Sem petróleo não há agricultura nem comida.
- Detergentes.
- Plásticos
- Polímeros.
- Náilon.
- Neopreno.
- Solventes.
- Lubrificantes, incluindo óleos para motores.
- Conservantes, corantes, sabores artificiais.
- Ceras
- Gás natural. Produtos como propano, butano, pentano, propileno ou etano.
- Petroquímicos como benzeno ou etileno.
- Enxofre.

Não só compõe o combustível dos nossos carros. Encontramos produtos petroquímicos em nossas roupas, computadores, calçados, ladrilhos, estradas, escovas de dentes, sacolas de supermercado, medicamentos, pneus, tintas, canetas, xampus, sabonetes, corantes, maquiagem, balas, chicletes... Depois de ver essa lista, é fácil perceber que sem petróleo não há civilização moderna e que, sem ele, em pouco tempo nosso mundo se implodiria e novos paradigmas teriam que ser encontrados para tornar a sociedade viável. Assim, o petróleo aumentou exponencialmente a importância estratégica das rotas comerciais, portanto, tudo o que envolve extração, refinação, informação, transporte e comercialização de petróleo são questões extremamente sensíveis que muitos países consideram segurança nacional e que estão no fundo da maior parte do jogo de poder dos séculos XX e XXI. Se em outro artigo falamos da rota da seda e da rota das especiarias para explicar muitas dinâmicas históricas globalizantes, nesse artigo falaremos das rotas de petróleo e de gás natural, chamadas oleodutos, gasodutos e outros transportes, tanto marítimos como terrestres ― navios, trens e caminhões.

David Rockefeller Jr. tornou-se a cabeça de interesses familiares após a morte de seu pai em março de 2017.

A CONEXÃO KUSHNER-ROCKEFELLER

Donald Trump tem sido o veículo de diversos grupos de poder, muitas vezes contraditórios entre si, dos Estados Unidos. De modo geral, se pode distinguir

a) Uma tendência nacionalista, anti-globalista, protecionista, militar e conservadora, proveniente da "América autêntica", principalmente das classes trabalhadoras brancas dos Estados republicanos. Essa tendência agrupou as melhores tradições isolacionistas e anti-establishment do passado americano, foi a que possuiu o clima "populista" de sua campanha eleitoral e consentiu na figura, já caída em desgraça, de Stephen Bannon. A DIA, a agência de Inteligência do Departamento de Defesa, parece ter apoiado Trump.

b) Uma tendência financeira, industrial, tecnológica, midiática e petroleira. Essa tendência representa as "realidades" inescapáveis ​​do establishment, com as quais Trump tem de enfrentar como presidente dos Estados Unidos, e está representada na figura de Jared Kushner. No que diz respeito às agências de Inteligência, tanto a CIA quanto a NSA parecem ter sido hostis a Trump, dentro da subordinação que é pressuposta ao presidente dos Estados Unidos.

Trump devia ser o homem que reconciliasse as duas tendências, uma operação que nunca poderá ser consumada e em que qualquer fórmula será sempre um remendo temporário. 


Jared Kushner tem acompanhado (supervisionado e monitorando?) Trump, participando de reuniões com figuras políticas internacionais, visitando e cumprimentando as tropas dos EUA no Iraque e negociando com poderosos potentados estrangeiros. Mas quem é Jared Kushner? Por que esse "jovem desconhecido" está visitando meios importantes e lidando com problemas de tal porte?

Para começar, Jared Kushner é um jovem (nascido em 1981, algo promissor para os corredores do poder mundial) judeu asquenaze de origem bielorrussa, bem relacionado com Wall Street e outros círculos de negócios em Nova York ― no qual é notório o poder das elites de etnia judeu-asquenaze da Alemanha e da Europa Oriental, que se coordenam como uma tribo fechada. Continuando, Kushner é o marido de Ivanka Trump (agora Ivanka Kushner) e, portanto, genro do presidente. Assim, Kushner, e a ala pró-establishment que ele representa, tem um pé no clã presidencial (provavelmente mais do que Trump tem um pé na tribo judaica de Nova York) e desfruta de algum poder de pressão sobre o presidente que transcende o cenário meramente público.

Antes de se tornar em assessor de seu sogro presidencial, Kushner era diretor da firma imobiliária Kushner Companies e do tabloide semanal The Observer. A Goldman Sachs e a Soros Fund Management de George Soros foram alguns de seus sócios, mas a operação mais conhecida da Kushner Companies é a compra, em 2007, do famoso edifício 666 na Quinta Avenida de Manhattan. O edifício foi projetado pela firma arquitetônica Carson & Lundin, a mesma que projetou o Rockefeller Center (número 600 na Quinta Avenida). Segundo a Wikipedia, a empresa projetou as duas torres para complementar o complexo Rockefeller entre ambas. A construção foi encomendada pela empresa judaica Tishman, posteriormente Tishman Speyer (duas famílias judias de renomada tradição financeira em Manhattan).

O edifício 666 na Quinta Avenida de Manhattan foi adquirido por Jared Kushner em 2007. O sinistro "número da besta" foi removido em 2002 e substituído pelo inócuo logotipo da Citi (a maior empresa de serviços financeiros do mundo, de afiliação rockefelleriana e com um papel importante na privatização da Saudi Aramco).
Localização do complexo Rockefeller (retângulo verde) com as localizações do edifício 666 (canto superior direito) e o edifício 600 (parte inferior).

Kushner parece ser o agente do conglomerado de interesses rockefellerianos (um monstruoso poder privado que domina os EUA desde o começo do século XX) na atual administração Trump. É inevitável que nos lembre das obscuras personalidades de brains trust (pessoas de confiança) de Roosevelt: pessoas não eleitas, mas bem conectadas, que acumulam enorme poder.

SAUDI ARAMCO E O OASIS DE DHAHRAN — A TERRA PROMETIDA DOS ROCKEFELLERS  


Apenas um fator decide o preço do petróleo, e esse é a Arábia Saudita. — (Joseph Story, analista do Oriente Médio e ex-executivo da Saudi Aramco)

Embora o clã Rockefeller tenha feito negócios lucrativos em lugares tão diversos quanto a URSS stalinista, a América Ibérica ou a China maoísta, foi na Arábia Saudita onde eles encontraram sua peça-chave, em um lugar chamado Dhahran.

Dhahran é onde a Standard Oil of Califórnia (agora Chevron) encontrou petróleo pela primeira vez. Geoestrategicamente, Dhahran é um nó imponente de comunicações petrolíferas que, com sua posição de conexão com Bahrein, tende a controlar o petróleo que sai da Arábia Saudita em direção ao Golfo Pérsico. É também onde está localizada a sede da petroleira Saudi Aramco.


Dhahran está localizado na parte saudita do Golfo Pérsico e é um peça-chave das comunicações de petróleo de toda a Arábia Saudita. Ras Tanura é o principal terminal de exportação da área e abriga a mais importante e avançada refinaria da Arábia Saudita. A mesma infra-estrutura de exportação não existe ao sul de Dhahran, porque a combinação de Qatar e Bahrein exerce uma posição muito confusa sobre essa parte do espaço marítimo saudita. Os britânicos desenharam o mapa árabe do Golfo Pérsico, certificando-se de que a divisão territorial garantiria que alguns países supervisionassem uns aos outros e que nenhum país teria uma clara hegemonia na região.

O complexo é um domínio marítimo liberalizado, uma espécie de Hong Kong situada às portas do Heartland árabe. Uma pequena talassocracia na periferia da telurocracia árabe, habitada por trabalhadores e executivos expatriados (especialmente geofísicos e geólogos) da Saudita Aramco e suas famílias ― cerca de dez mil almas.

Não só é um oásis de vegetação virente no meio de um imenso deserto, uma concentração de estrangeiros em um país altamente hermético ou um enclave altamente tecnológico em um país terceiro-mundista, mas também um oásis de liberdade ocidental no deserto da Xaria. Islâmica. O local aparenta uma comunidade suburbana estadunidense; Dentro deste complexo, a Xaria e o olhar inquisitivo da polícia religiosa não se aplica. As mulheres são mais independentes, podendo dirigir e sair de casa sem a companhia de homens que não têm parentesco e até se vestir a moda alá ocidental sem uma abaya. Embora o álcool ainda seja proibido, alguns residentes fermentam ou destilam suas próprias misturas. Na Arábia Saudita existem outras comunidades fechadas similares, mas Dhahran é a maior e mais importante. [A maioria é de propriedade da Saudi Aramco ou da empresa militar privada dos EUA, a Vinnell. A Universidade KAUST tem um status similar em relação à não-aplicação da Xaria. Outros lugares além do alcance da polícia religiosa são o bairro diplomático e as embaixadas estrangeiras em Riade, os resorts praieiros ao norte de Jidá, a cidade maioritariamente xiita de Qatif e outros complexos expatriados (como Shaybah e Abqaiq, também da Aramco Saudita)].

Inacreditavelmente, o peculiar e mega-estratégico lugar é protegido por uma base militar, a King Abdulaziz Airbase Dhahran.

Situação do complexo residencial da Saudi Aramco em Dhahran (oval verde), da base aérea King Abdulaziz e da estrada King Fahd, que liga a Arábia Saudita ao Bahrein.

UMA BREVE HISTÓRIA DO PETRÓLEO ÁRABE

Para tornar esse necessário tópico conciso, veremos isso na forma de uma cronologia.

- 1776: A Companhia Britânica das Índias Orientais estabelece uma base no que hoje é o Kuwait.

- 1905: Durante o "ensaio" da revolução anti-czarista de 1905, os poços de petróleo de Baku (Império Russo) queimaram. Isso causou um aumento no preço do petróleo bruto.

- 1908: A Anglo-Persian Oil Company descobre petróleo na Pérsia.

- 1916: Acordo de Sykes-Picot. Com a queda vicinal do Império Otomano, franceses e britânicos dividem áreas de influência no Oriente Médio.

- 1917: Ibn Saud torna-se um cliente dos britânicos e obedece a seus planos de levantar as tribos árabes contra o poder otomano na região do Golfo. Os Rothschild recebem a Declaração Balfour e o apoio do Império Britânico para estabelecer um Lar Nacional Judeu na Palestina.

- 1918: A Anglo-Persian Oil Company expropria 25% da Turkish Petroleum Company que pertencia ao Deutsche Bank. Chegando a controlar 75% da companhia, muda seu nome para Iraqi Petroleum Company. O governo britânico, sob a influência do poder financeiro dos Rothschild, é o principal acionista da Anglo-Persian Oil Company.

- 1920: Durante o ataque bolchevique contra o Azerbaijão, os poços de petróleo de Baku voltam a queimar, o que novamente provoca um aumento nos preços do petróleo. As empresas Vacuum Oil (agora parte da ExxonMobil), Standard Oil (idem) e Occidental Petroleum (atual Oxy) de Armand Hammer, passaram a ser as que gerenciam o petróleo do Cáspio.

No acordo petroleiro de San Remo, o Império Britânico concede ao Império Francês mais de 20% dos lucros do petróleo de Mossul (esfera curda) em troca da ajuda dos franceses em canalizá-lo para o Mediterrâneo por terra. A Turkish Petroleum Company se divide entre a Compagnie Française des Pétroles (hoje Total S.A, 25%), a Anglo-Persian Oil Company (hoje BP, 47,5%), a Anglo-Saxon Petroleum (hoje parte da Shell, 22,5%) e Calouste Gulbenkian (5%), um poderoso homem de negócios britânico de origem armênia.

- 1931: Standard Oil of California (SoCal) encontra petróleo no Bahrein. É o primeiro poço de petróleo no lado árabe do Golfo Pérsico. O Bahrein era um dos maiores centros de exportação de pérolas do mundo, numa época em que estas eram mais importantes que os diamantes. Seus mergulhadores, famosos por sua resistência no mergulho livre, logo vão para o setor do petróleo e o mercado mundial de pérolas despencará.

- 1933: SoCal e Arábia Saudita assinam uma concessão de petróleo.

- 1935: Primeiro poço aberto pela SoCal em Dhahran.

- 1940: A aviação italiana bombardeia Bahrein e Dhahran, vitais para o Império Britânico. As aeronaves italianas estabeleceram um recorde ao decolar de Rodes, atacar os britânicos com sucesso e aterrissar em Eritreia.

- 1941: Operação Countenance. O Império Britânico e a União Soviética invadem simultaneamente o Irã. O objetivo é defender a segurança do petróleo soviético, abastecer o Exército Vermelho e manter aberto o Corredor Persa através do qual a URSS recebe apoio logístico dos anglo-americanos (um total de cinco milhões de toneladas de material). Os invasores fazem o xá do Irã, considerado um germanófilo, abdicar.

- 1944: California Arabian Oil muda seu nome para Arabian American Oil Company (ARAMCO). Os sauditas autorizam os EUA a construir uma base aérea em Dhahran.

- 1945: Roosevelt e Ibn Saud se encontram em um navio estadunidense no Canal de Suez para estabelecer seu "casamento de conveniência". A data do encontro (14 de fevereiro) é irônica. Roosevelt retira fundos do enorme orçamento de Defesa dos EUA para pagar os oleodutos rockefellerianos.

Em 1945, Roosevelt e Ibn Saud se encontram para ditar o futuro do mundo petroleiro. As "relações especiais" entre os EUA e a Arábia Saudita estão realmente limitadas a uma aliança entre as famílias Rockefeller e Saud. Os petrodólares resultantes serão administrados pelo Chase Manhattan Bank, da família Rockefeller, que pagarão um generoso "suborno" à família Saud.

- 1948: Durante a guerra árabe-israelense, a Arábia Saudita envia tropas para lutar contra Israel. Os países árabes cortam laços com Tel Aviv para isolar o país. O governo iraquiano fecha o oleoduto Mossul-Haifa, que transportava petróleo curdo para o importante porto israelense. Os proprietários da ARAMCO são a Standard Oil of Califórnia (atual Chevron), a Texaco, a Standard Oil of New Jersey (atual Exxon) e a Standard Oil of New York (atual Mobil).

- 1949: As empresas petrolíferas rockefellerianas já controlam 42% do petróleo do Oriente Médio e as anglo-holandesas rothschildianas (Royal Dutch Shell e Anglo-Iranian Oil Company) controlam 50%. O restante é compartilhado entre a Compagnie Française des Pétroles (francesa, atual Total S.A), Elf Aquitaine (francesa, atualmente parte da Total) e a Petrofina (belga, atualmente parte da Total), que também podem ser consideradas rothschildianas, e uma série de pequenas empresas de petróleo que tendem a desaparecer ou ser compradas pelas grandes.

- 1950: O rei Abdulaziz ameaça nacionalizar o petróleo e essa é a desculpa para a ARAMCO começar a compartilhar 50% de seus lucros com o governo saudita ― ou seja, com a família real Saud. É uma forma de aumentar o peso árabe na companhia (os xeiques são considerados fáceis de controlar e subornar) e diminuir o peso do elemento branco ocidental (mais inteligente e perigoso). Há uma tendência a considerar que um branco, para não ser um "colono imperialista", deve governar a partir de Nova York, Washington, Moscou, Londres ou Paris, sem pisar na colônia. Obviamente, esta forma de neocolonização a distância só é acessível aos mais poderosos, e os proprietários brancos no recinto devem cair.

- 1952: A sede da companhia petroleira muda de Nova York para Dhahran.

- 1953: Golpe de Estado no Irã, promovido pelos serviços secretos anglo-americanos. A CIA o chamou de Operação Ajax. O populista carismático Mossadeq é derrubado e substituído novamente pelo xá.

- 1954: É formada em Londres uma empresa-mãe a partir de empresas que participavam da exploração do petróleo iraniano: a Iranian Oil Participants. Os lucros são distribuídos da seguinte forma: 40% para a British Petroleum, 14% para a Shell, os quatro membros da ARAMCO (Standard Oil of Califórnia, Standard Oil of New Jersey, Standard Oil of New York e Texaco) ficam com 8% cada, Gulf Oil 8% e Total 6%. Essas empresas serão conhecidas como as Sete Irmãs e, até o embargo petroleiro de 73, passam a controlar 85% do petróleo mundial.

- 1959: Dois sauditas entram para o conselho de administração da ARAMCO.

- 1960: Se forma a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em Bagdá. A organização internacional, que estabelecerá os preços como um cartel, ficará em Viena, a capital da Europa Ocidental mais conectada com o Oriente Médio.

- 1961: O Reino Unido começa a conceder independência a seus protetorados do Golfo, sendo o Kuwait o primeiro e os Emirados o último dez anos depois.

- 1962: A guerra civil no Iêmen confronta a Arábia Saudita com o Egito, na época um Estado "nacionalista panarabista laico" próximo ao socialismo.

- 1973: Em vista do apoio dos EUA a Israel na Guerra do Yom Kippur, a Arábia Saudita e outros países árabes declaram um embargo contra os EUA.

Obviamente é uma tática para aumentar os preços do petróleo e desencadear mudanças geopolíticas. A Arábia Saudita começa a nacionalizar seu petróleo (assume o controle de 25% da Aramco), mas a ideia é varrer os acionistas ocidentais e manter os Rockefellers, principais responsáveis ​​pelo Chase Manhattan Bank, como os principais beneficiários.

Henry Kissinger, homem influente do grupo Rockefeller, se reúne com o rei Faisal em 1973.

- 1974: Arábia Saudita assume o controle de 60% da Aramco.


- 1978: Execução da princesa Misha'al. A coroa saudita gastou 500 milhões para suprimir o docudrama "Morte de uma princesa".


- 1979: Conferência de Guadalupe. Os Estados Unidos, o Reino Unido, a França e a Alemanha Ocidental concordam que uma revolução islâmica no Irã convém aos seus interesses.

- A revolução islâmica ocorre no Irã, totalmente antecipada pelas elites ocidentais, enquanto o aiatolá Khomeini é levado tranquilamente de avião de Paris para Teerã.

- Tomada da Grande Mesquita: conflito armado extraordinário na Arábia Saudita. Um grupo islâmico armado, que se opõe à família Saud, toma a Grande Mesquita de Meca. Os confrontos armados duram duas semanas e envolvem não apenas as forças sauditas, mas também os GIGN (força especial francesa) e as forças especiais paquistanesas. Depois de reprimir a revolta e decapitar os sobreviventes, o rei Khalid reforçará a Xaria em seu país e concederá maiores poderes a extremistas religiosos e policiais religiosos.

- A URSS invade o Afeganistão: o Heartland está perigosamente perto do Golfo Pérsico e do Oceano Índico. A Arábia Saudita, o Paquistão, o Reino Unido e os Estados Unidos apoiam o movimento mujahidin e muitos sauditas (incluindo Osama bin Laden, empresário de construção e agente da Inteligência saudita) passam o tempo no Afeganistão.

- 1980: O governo saudita assume o controle da ARAMCO, agora Saudi Aramco. Outro pretexto. O mesmo acontece no Bahrein com a Bahrain Petroleum Company.

- 1981: Criação do GCC (Conselho de Cooperação do Golfo) supostamente como uma reação à revolução islâmica no Irã. Isso dividiu o mundo árabe sunita entre petróleo-tenentes e não petróleo-tenentes e tendeu a reduzir a influência dos centros de poder árabes mais nacionalistas, laicos e bem dispostos em direção ao Ocidente ― como Beirute e Damasco. O Bahrein se formará como um centro financeiro extraterritorial e Dubai como um porto aberto liberalizado para favorecer um enorme fluxo de exportação. Ao longo dos anos, uma enorme maré de imigrantes de países como Bangladesh, Filipinas, Paquistão ou Nepal chegará aos países árabes do Golfo. Empresas americanas como Vinnell, SAIC, Booz Allen e TRW treinarão a Guarda Nacional Saudita. Pilotos paquistaneses e egípcios (não se confia em pilotos sauditas) serão treinados para pilotar aeronaves F-15.

- 1988: O nome é alterado para Saudi Aramco.

1990: O rei permite que meio milhão de soldados estrangeiros se estabeleçam em seu país, temendo uma invasão iraquiana. Durante a Guerra do Golfo, centenas de poços de petróleo iraquianos queimam e, novamente, o petróleo se torna mais caro.

- 1993: Por decreto real, a Saudi Aramco absorve a Samarec, a empresa estatal de refino de petróleo.

- 1996: Atendado terrorista contra as torres de Khobar da Força Aérea dos Estados Unidos em Dhahran. O Irã e o Hezbollah são acusados.

1998: O Príncipe Abdullah se reúne nos EUA com os presidentes das principais companhias de petróleo dos EUA.

- 2001: Atentados de 11 de setembro. Obviamente, bandeira falsa para promover as mudanças geopolíticas que os neocons em Washington queriam. Quinze dos dezenove sequestradores são cidadãos sauditas.

- 2003: Invasão do Iraque por uma coalizão da OTAN. Desta vez, os poços de petróleo não queimam.

2003: Arábia Saudita se opõe à invasão americana do Iraque. Ataques em Riade, inclusive contra a Vinnell.

- 2005: Arábia Saudita se torna a principal fonte de petróleo da China, superando a Angola.

- 2006: Arábia Saudita e China concordam em construir instalações de armazenamento de petróleo na Ilha de Hainan. A Arábia Saudita, portanto, entra no Colar de Pérolas chinês (sobre isso, ler o artigo da Rota da Seda). A China começa a se envolver na construção de infra-estrutura na Arábia Saudita, e vice-versa.

- 2010: As exportações petroleiras da Arábia Saudita para a China excedem as dos EUA. Derramamento de petróleo da empresa BP no Golfo do México. Onze mortos e catástrofe e ecológica. O petróleo torna-se mais caro e aumenta a desconfiança em relação à autarquia petroleira norte-americana. Obama anuncia uma moratória de perfuração para plataformas petrolíferas marinhas. A exploração de petróleo no Golfo do México pára. Em resposta, vinte e quatro operadores de plataformas de petróleo no Golfo do México se reúnem para formar o consórcio HWCG LLC, que estabelece contra-medidas no caso de acidentes submarinos. [Incluindo a espanhola Repsol, a italiana Eni e a LLOG Exploration Company (envolvida no vazamento de 2017). Das vinte e quatro empresas envolvidas, apenas uma é de uma matriz rockefelleriana: a Marathon Oil].

Derramamento de petróleo da BP no Golfo do México. Os mais conspiracionistas acreditam numa ação das petro-monarquias árabes para afastar os EUA da autossuficiência do petróleo e torná-lo dependente do Golfo Pérsico em vez do Golfo do México.

- 2011: "Primavera Árabe", totalmente orquestrada pelas elites dos EUA, Reino Unido, França, Israel e outros. Mubarak (um aliado da Arábia Saudita) é deposto no Egito em favor de um candidato da Irmandade Muçulmana (Qatar), mas eventualmente a influência saudita será consolidada.

- 2012: Arábia Saudita e China assinam um acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos. As más-línguas começam a rumorar de que a Arábia Saudita possui armas nucleares de origem paquistanesa.

- 2013: Os EUA passam a Arábia Saudita como o maior exportador mundial de petróleo.

- 2015: A Saudi Aramco cria um Conselho, chefiado por Mohammed bin Salman.

- 2016: Acontece a maior execução coletiva da Arábia Saudita desde a execução dos insurgentes da Grande Mesquita em 1980. Quase cinquenta pessoas condenadas por terrorismo são baleadas ou decapitadas, incluindo um importante xeique xiita. Pode ser interpretado como um ato de afirmação por parte do estabelecimento religioso.

- 2017: Em janeiro, Trump dá sinal verde a dois oleodutos que conectarão os EUA ao Canadá. Os principais interessados em que oleodutos como esses não se consolidem, são as petro-capitais árabes do Golfo.

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Novamente, lendo nas entrelinhas:

- Os principais executivos da Saudi Aramco preferem arabizar a companhia, especialmente em cargos administrativos e políticos que se prestam ao tráfico de informação privilegiada. Os americanos e outros ocidentais são limitados, tanto quanto possível, a cargos técnicos. Sem contar a elite dominante.

- O governo saudita compra toda a Saudi Aramco (com a bênção do Chase Manhattan Bank rockefelleriano). Tradução: encheram os cofres com petróleo caro, depois a família Rockefeller usou a família Saud para se livrar dos acionistas ocidentais que poderiam ter respondido ao domínio rockefelleriano da companhia ou assumir o controle de seu leme e mudar seu curso. O padrão é o mesmo que a descolonização.

- A aliança Rockefeller-Saud foi feita para varrer:

a) Os acionistas ocidentais. No início, a presença desses acionistas era necessária, mas quando os lucros aumentaram e a tecnologia avançou, a presença dos acionistas ocidentais tornou-se desnecessária e pesada na hora de distribuir os dividendos do petróleo. Rockefeller queria menos acionistas, mas mais ricos e poderosos. Para esse fim, "liquidou" os parceiros ocidentais com a nacionalização da Saudi Aramco e preferiu dividir os dividendos com a família Saud porque era mais barato do que dividi-los com uma grande assembléia de acionistas.

b) O próprio povo árabe. Novamente, repartir os dividendos petroleiros com a família Saud e todos os xeiques do Golfo, apesar de caro, era mais barato que compartilhá-los com todos os habitantes de um país, elevando seu padrão de vida como aconteceu com a Líbia de Gaddafi, tal como vimos em outro artigo, no qual cada cidadão líbio era acionista da companhia estatal de petróleo NOC.