A obra que apresentamos a seguir é um dos primeiros
escritos de Julius Evola, correspondente a sua etapa juvenil, quando apenas
contava com 30 anos de idade, em 1928, e no momento no qual se encontrava
transitando pela última trama de sua experiência mágica e iniciática através do
Grupo de Ur.
Mas além disso, o Imperialismo Pagão tem uma
significativa importância na trajetória do pensamento de nosso autor, pois
representa sua primeira tentativa séria de acessar um grupo mais vasto que em
vez lia as muito especializadas monografias elaboradas por tal grupo. E ele
estará motivado por um acontecimento significativo na sociedade de seu tempo, o
que trataremos brevemente de expor. No momento a Itália se encontrava
transitando desde há nove anos pela experiência fascista, movimento que
pretendia representar uma mudança radical com respeito ao sistema político
próprio da modernidade, quer dizer, o regime partidocrático até esse momento
vigente e herdeiro dos ideais do Ressurgimento e de sua antecedente, a Revolução
Francesa, a qual, em linhas gerais, apresentava nesse momento caráteres muito
semelhantes aos que com tanto dramatismo vivemos em nossos dias. Frente à
ineptidão e corrupção reinante entre a classe política que levava o país em
direção a uma incessante decadência e desintegração, o fascismo representava um
movimento de reação que apelava às reservas morais e espirituais existentes na
nação italiana tentando, no plano político e cultural, assumir uma atitude de
oposição às principais ideologias nas que se dividia a modernidade: o
capitalismo liberal e o socialismo marxistas. Mas o fascismo, segundo Evola, se
é que queria ter realmente êxito, devia aprofundar ainda mais em seu rechaço do
sistema vigente, chegando até as últimas consequências da modernidade ao atacar
seu fundamento quase-religioso acerca de cuja pureza justamente ambas
ideologias gêmeas disputavam entre si sua representação: o dogma da democracia.
E ante ele não era suficiente negar algumas das consequências desta, tais como
o parlamentarismo ou o clientelismo, senão que tinha-se de ir até a raiz última
de tal crença, sustentando princípios que foram realmente alternativos e que
invadiram na instância decisiva que a determinava, pois do contrário, se a
crítica não chegava até o final, se terminava favorecendo a continuidade do
sistema e com o tempo ia significar o fracasso de tal movimento, o qual foi
lamentavelmente o que aconteceria mais tarde.
Em sua crítica ao regime democrático, um grande mérito de
Mussolini havia sido o de ter reivindicado um princípio essencial incerto na
tradição italiana, que era a idéia do Imperio e de Roma como centro espiritual
do mesmo, doador de sentido e ordem à todo o Ocidente durante uma vasta etapa
de sua história. Mas ainda tal idéia, se não era levada até o final de seu
significado, quer dizer, até o conceito que da mesma primara na antiguidade, se
corria o perigo de convertê-la em uma mera consequência última de um valor
também moderno que é um nacionalismo irredentista e extremo, o que, se bem
buscava fundar um império, o fazia tão somente em função de satisfazer necessidades
econômicas baseadas em um mero aumento do poder material. Nos encontraríamos
então com a idéia moderna do imperialismo, o que não representa outra coisa que
uma extensão da economia, querendo demonstrar com isto ademais o outro
irrebatível dogma moderno de que os homens em última instância somente se
mobilizam na vida em função de satisfazer desejos materiais e que por isso a
política e o império não seriam nada além da consequência ou “superestrutura”
de tal disciplina. Sem embargo, assim como não é certo que o econômico é o
essencial no homem e o que em última instância determina todas suas atividades,
e ainda reconhecendo que atualmente a economia foi convertida no destino das
pessoas, não o é consequentemente a idéia de que sempre foi assim em todos os
tempos, em especial naqueles em que foi a classe burguesa a gestora da
história. Justamente a idéia romana de império representa uma corroboração do
aqui manifestado, ela era a expressão de um princípio espiritual e sacro, de
caráter metafísico, voltado à esfera política, sendo a economia pelo contrário
para a mesma uma disciplina auxiliar e meramente subsidiária. O romano buscava o
império, mais que para poder vender seus produtos e comercializar melhor, mais
que para enriquecer, tal como acontece com os atuais “imperialismos”, para
plasmar na existência uma idéia de justiça e de sacralidade; e era dentro de
tal contexto místico como Roma que se erguia a si mesma como o centro
espiritual do universo, no qual os distintos povos da terra encontravam uma
ordem superior a sua mera imediatez e a seus desejos materiais, consistentes em
um equilíbrio doador de sentido último a suas ações. Assim como a alma é o
centro ordenador de um corpo evitando por sua ação que suas partes se
desintegrem em uma luta incessante entre si e em um fluxo espontâneo em direção
ao nada, o Império é essa mesma ordem superior no seio dos povos e partes
diferentes em que se compõe uma civilização, ou ainda a humanidade em seu
conjunto, de ascender à idéia última de Império universal.
O original de Roma é que na mesma idéia de sacralidade
nunca esteve separada do destino político de tal cidade. Deus não era uma entidade
abstrata do “outro mundo”, ao que se havia buscar escapando deste, mas que
estava presente em forma viva, aqui e agora, através de pessoas que o
expressavam com suas ações e ritos e entre estas se destacava por cima de todas
e de maneira eminente o Imperador Romano, o qual era a manifestação vivente
mais plena da divindade sobre a Terra.
Mas sem embargo a idéia de Roma através de sua história
incluía também outro movimento religioso que se estabeleceu mais tarde em seu
seio e que, desde sua mesma sede e distanciando-se de suas origens de seu
espírito essencial, se ergueu também como um centro espiritual durante um longo
período que abarcou dois mil anos, até nossos dias. O mesmo derrubou o conceito
de espírito e de sacralidade, gerou um hiato entre este mundo e o outro mundo e
o homem de ser divino que era eminentemente representado como tal pelo
imperador e pelos deuses, o converteu em criatura pecadora e miserável à mercê
de uma graça fornecida por um Deus onipotente e caprichoso.
Ante tal dicotomia, o fascismo, se queria voltar
realmente ao espírito de Roma, devia efetuar em primeiro termo a necessária
discriminação entre estas duas tendências antagônicas coexistentes em si mesmo,
e logo, em forma decidida, elaborar em todos seus princípios o primeiro
espírito original, que era de caráter pagão e não cristão. Porque o grande
enigma e significado último de Roma é que desde seu mesmo seio e de maneira
tangível se gestaram os dois grandes procesoss antagônicos da história
universal: o que assenta seus valores no mundo da tradição, sendo o paganismo
uma representação do mesmo e que em vez disso, através do cristianismo,
precipitará o rumo moderno no que nos encontramos e que vivemos de forma
multiplicada hoje em dia. E esta é pois a idéia central que aparece na obra que
aqui apresentamos: o cristianismo não é o oposto à modernidade, mas a causa
distante e a origem desta última. O cristianismo representa em seu início a
fase acelerada do movimento de desvio da tradição do Ocidente e não sua
coroação como em vez disso pretende o guelfismo, o que falsamente tenta
considera-lo como a consequência natural do espírito romano.
Foi justamente dentro do contexto de ordenamento das
instituições sociais que se havia levantado nesse momento o regime, que
Mussolini decidiu resolver um velho conflito existente desde várias décadas no
seio da sociedade entre o Estado e a Igreja. Em efeito, desde 1870, culminando,
depois da conquista de Roma, o processo unificador da nação italiana, o papa
derrotado se havia isolado no palácio do Vaticano considerando-se desde então
em condição de prisioneiro e desconhecendo assim os direitos do governo
peninsular à soberania sobre a cidade eterna. Mussolini, com a intenção de
sanar essa velha ferida e poder assim pacificar seu país, assinou um acordo com
a Igreja. Em vez do reconhecimento por parte desta do Estado italiano e de Roma
como capital do mesmo, lhe outorgava uma série de concessões históricas, tais
como o ensino religioso, a proibição do divórcio e principalmente a assunção do
catolicismo como a religião do Estado. Ante esta eventualidade, Evola e o grupo
tradicionalista romano que se nucleava a seu redor, percebeu o perigo de uma
acentuação da tendência em direção ao aburguesamento por parte do fascismo e
consequentemente uma acentuação das influências deletérias que se aninharam em
sei seio. Justamente ao ser o cristianismo a origem da modernidade e da
democracia, retornar a ele e aceita-lo como fundamento espiritual do Estado ia
significar um passo para trás e uma traição aos ideais da revolução que o
fascismo pretendia efetuar. Foi assim que surgiu a idéia desta obra, primeiro
na forma de um folheto adjunto com uma separata de uma publicação adicta ao
regime, “Crítica Fascista”, dirigida por um notório hierarca do mesmo, Giuseppe
Bottai, com a intenção de impedir a firma do Concordato com o Vaticano e
lograr com sua difusão o impulso em direção à constituição de um fascismo pagão
e guibelino, quer dizer, oposto ao guelfismo e consequentemente ao ingresso da
Igreja dentro do Estado.
A intenção principal de tal trabalho será então a de
mostrar que do cristianismo haviam emanado todas as heresias modernas, as
mesmas que em suas consequências o fascismo pretendia combater. Ao sustentar a
igualdade de todas as almas ante Deus e por isso a imortalidade universal de
todo ser com forma humana, o cristianismo havia sentado as bases para que se
instaura com o tempo o princípio da igualdade a nível político e social e sua
consequência será posteriormente a democracia. Em segundo lugar, como uma
expressão plebeia de rechaço por todo aqueel que de divino havia na existência,
foi a religião que com mais vigor havia instalado o dualismo e o espírito da
excisão entre todo o vivente, o que foi extendendo-se paulatinamente a todos os
planos. Primeiro começou com um dualismo entre o homem e Deus (vinculados ambos
entre si em uma relação entre criatura e Criador), pelo que o divino foi assim
mantido em outra esfera e dimensão diferente deste mundo, desprezando-o assim a
este, reduzindo o humano a uma dimensão pecaminosa e corrupta, da qual somente
seria possível sair mediante a graça omnímoda de um Deus, o que, através da
figura do sacerdote, solicita e exige a submissão e a obediência absoluta e
cega por parte do homem para outorgar a “salvação”. Desvalorizadas todas as
obras humanas, como consequência disso, a nível social se produzirá a
dessacralização do Estado, o que, quando não é assimilado à imagem do
Anticristo na figura do Imperador, no melhor dos casos se converterá tão
somente no dispensador do bem comum ou no auxiliador da Igreja em seu trabalho
de salvação das almas e logo, em um vasto processo de descenso que chega até
nossos dias, chegaremos à figura do Estado meramente econômico e administrador,
governado pelo ministro da economia ou pelos grandes amos das finanças do
planeta.
Em segundo lugar, teremos um dualismo entre o homem e a
natureza. Desprezada a natureza à mera condição de matéria, expulsados da mesma
seus deuses, e ao ser convertido o mundo
em um “vale de lágrimas” originalmente, em um trânsito provisório para a “outra
vida”, a eternidade, deixando de ser assim o lugar das teofanias, o âmbito no
que se manifesta o espírito, terminará, do mesmo modo que o Imperador
substituído pelo ministro da economia, convertendo-se em um território
explorável à vontade, mensurável e cotável à valores mercantis, profundamente
alheio a nós mesmos, e sobre o qual se poderão produzir as mil e uma
depredações tecnológicas de nossa era.
Em consequência, se o fascismo queria verdadeiramente ser
uma revolução a sério e adequar-se ao espírito romano, teria uma única solução
possível que era a de distanciar-se da subversão cristã, manter-se alheio a tal
religião, e tolerá-la simplesmente como poderia fazer com as outras, ainda sem
cair por isso no laicismo, mas constituir um princípio de sacralidade
intimamente associada ao Estado e à figura arquetípica do Imperador, tal como
se trasunta dos princípios do paganismo romano e que fora logo a essência do
guibelinismo na Idade Média.
Dito folheto, como era de esperar-se, causou um profundo
impacto no ambiente cultural da Itália fascista, gerando duras represálias por
parte do Vaticano, tomando desde então a pluma de contestação entre outros o
sacerdote Giuseppe Montini, mais tarde papa com o nome de Paulo VI, quem fora
fora o principal gestor do Concilio Vaticano II, o que revolucionaria a
história da mesma Igreja acentuando, em consonância com os tempos últimos de
socialismo e democracia, um retorno pleno às origens judaico-cristãs mais
autóctonos que a constituíram. Se recorda entre estes escritos condenatórios a
um deles que se titulava “Resposta a Satanás”, o qual nos dá uma mostra do
vigor em que se chegou em dito embate.
O escândalo que produziu esta sucessão de ataques, e
devido à influência que a Igreja e o guelfismo teriam na sociedade nesse
momento,, fez que Evola fosse desautorizado pela revista que publicara seu
artículo, o que obrigou então a elaborar uma resposta a partir de um livro que
se intitulou justamente Imperialismo Pagão, o que incluía a separata aparecida
originalmente na tal publicação, acompanhada das réplicas elaboradas por Evola
aos setores guelfo-católicos. A aparição de tal obra foi afogada com um manto
de silêncio na sociedade italiana desse tempo e não produziu de modo algum as trocas
de orientação que Evola desejava. Sem embargo, é de ressaltar-se aqui que,
depois da firma do Concordato, a influência da Igreja na sociedade italiana
iria, tal como Evola formulara em sua obra, incrementando-se notoriamente e
fomentando por sua vez a tendência ao aburguesamento que ele denunciara, tal
como se revelará plenamente logo com a chegada da “Liberação” em 1945 onde esta
participaria ativamente do poder influindo decisivamente na política de tal
país, inspirando de modo aberto e manifestado o partido que o governara durante
as primeiras décadas da pós-guerra até chegar a sua decadência final depois dos
escândalos mafiosos de Tangentópolis e do Banco Ambrosiano.
Sem embargo, um destino muito diferente haveria de ter
dita obra cinco anos mais tarde, em 1933, em vésperas do acesso ao poder da
Alemanha do Partido Nacionalsocialista de Adolf Hitler. Sempre de acordo com
seus princípios tradicionalistas e guibelinos, Evola, em uma tentativa de poder
influir no seio da nova reação antidemocrática que se gestava em tal país,
resolveu tentar sorte novamente com outra edição do Imperialismo Pagão. Para
tal efeito, e a fim de fazê-la acessível ao novo público leitor, tal obra foi
totalmente revisada e traduzida ao alemão. Esta vez o êxito foi muito grande
chegando até se esgotar. Se pensou, devido ao impacto escrito pelo principal
expoente de uma tendência existente no seio do regime fascista, o qual não era
assim de modo algum, porque o tradicionalismo evoliano carecia de iinfluência
efetiva no regime e a obra, tal como disséramos, havia sifo profundamente
ignorada pelos meios locais.
Mas essa nova versão, que é a que nós temos tomado para a
tradução ao castelhano, mais além do detalhe anedótico levantado, terá a nosso
entender uma grande vantagem sobre a italiana inicial. Aqui, ao não ser mais um
tema do concordato o que determina o escrito, se permite evitar uma série de
pontos polêmicos e urticantes, produto de um debate fogoso e exasperado, não
sempre ajustado a um clima de imparcialidade objetiva. Resulta indubitável a
nosso entender que Imperialismo na primeira edição não faz uma justiça adequada
com respeito a todas as tendências que habitaram no cristianismo ao longo de
sua história milenar. Não está marcada a diferença existente desde suas mesmas
origens entre o influxo judaico e o helênico ou clássico, o que aparecerá
inclusive nos mesmos evangelistas. Esta distinção em vez disso se aparece na
nova versão alemã, através da dicotomia que se estabelece entre o catolicismo e
o cristianismo, a qual logo em sua obra mais madura, Rebelión Contra el Mundo
Moderno, se instalará de maneira mais líquida e marcante. De acordo com esta
dicotomia que é, segundo o que reconhece nosso autor, a mesma que assumira anos
antes o autor tradicionalista francês Charles Maurras, o cristianismo
representa o lado negativo ao ter sido uma rebelião de escravos, convertendo-se
em fator permanente de subversão e caos com respeito aos valores tradicionais
clássicos que se manifestaram através do paganismo. Esse primeiro cristianismo
apocalíptico considerava a iminência do fim dos tempos e o juízo final e
concebia toda a realidade deste mundo como perversão e portanto a Roma pagã,
entanto personificação do Império tradicional, quer dizer a obra humana mais
elevada, como a grande prostituta da Babilônia. Tal cristianismo teria em comum
com o judaísmo a atitude messiânica de
sentir-se eleito entanto depositário de tal profecia em exclusividade. Mas com
o tempo, ao comprovar-se no cumprimento da mesma, se foram desenvolvendo com vigor
duas tendências antitéticas em seu seio.
Por um lado a de aqueles que continuaram desprezando este
mundo e fomentando nele todos os processos subversivos em uma luta inveterada
contra o Estado e este foi o judaico-cristianismo ou simplesmente cristianismo,
do qual a imagem mais plena foi a que tivemos com o Protestantismo e hoje em
dia com o Concilio Vaticano II; e por outro aqueles que, pelo contrário,
trataram de reinserirem-se no mundo buscando uma síntese ou sincretismo com o
saber pagão, e ele será propriamente o catolicismo. Tal postura se manifestará
em dois níveis. Por um lado com assunção
de doutrinas de filósofos pagãos tais como Platão, Aristóteles, ou Plotino,
como parte do patrimônio cultural da Igreja, e por outro quando o catolicismo
aceita a figura do Imperador e a instituição imperial incluso em uma relação de
subordinação e isto acontece na fase do Sacro Império Romano Germânico, o que,
de acordo com Evola, representa a última tentativa não consumada no Ocidente
por constituir uma ordem universal baseada na Tradição. Sem embargo a Igreja ao
longo de sua história nunca logrou liberar-se totalmente do espírito judaico
que se aninhou em seu seio. E isto de manifestaria na mesma Idade Média no
conflito pelas investiduras, na luta entre guelfos e guibelinos. O guelfismo,
entanto continuidade história do judaico-cristianismo, foi a tendência em
direção à depreciação do Estado, ao que o desconheceu funções espirituais,
exigindo-lhe sua subordinação ao clero, de acordo ao esquema judaico de
dependência do homem com respeito ao Criador, do qual na terra o sacerdócio
pretendia ser sua representação.
Agora bem, uma vez que foi formulado em tal modo o
problema e se considera que o desvio d Igreja com respeito ao catolicismo se
havia produzido inicialmente não com o Concilio Vaticano II, tal como sustentam
na atualidade os grupos integristas, senão através do guelfismo, qual é a
postura que deve sustentar-se com respeito a esta em relação aos princípios
tradicionais e iniciáticos? Vemos também aqui uma mudança sustancial em relação
á primeira edição da obra. Enquanto que ali se falava de uma simples tolerância
do cristianismo como uma religião mais, acá encontramos uma aceitação da Igreja
como uma instituição necessária para a sociedade, entanto tem que ser a
encarregada de agrupar “aos que creem”. Assim pois seu ponto de vista é com
respeito ao seguinte. Em primeiro lugar, em um mundo no qual os valores do
espírito foram sido expulsos por toda parte, “o catolicismo é ao menos algo”,
algo preferível antes que o laicismo e o cientificismo e a era atual. Em
segundo lugar, de acordo a que dizia o filósofo Averroes e a Tradição em geral,
entanto os homens não sejam iguais, existem portanto maneiras diferentes de
relacionar-se com a divindade. Estão primeiramente a dos que sabem e logo
aquela dos que creem. Os primeiros são aqueles que têm uma visão direta do
divino, porque, através de um processo ascético de elevação e maturidade de si
mesmos, hão chegado a ser quase como de sua mesma natureza, e a eles pois lhes
corresponde ser os guias do resto da comunidade. Este é o sentido último que
dava Platão quando dizia que os sábios deviam governar, não entendendo por tais
os meros “intelectuais” de hoje em dia, mas a seres superiores enquanto foram
capazes de modificar sua natureza meramente humana. Por debaixo deles se
encontrar aqueles que não podem ver, mas que sem embargo são capazes de crer no
que os que são mais lhes indicam e portanto os seguem, entanto fiéis. A Igreja
somente pode ser aceita na medida em que se convirta naquela instituição que
agrupe estes últimos e portanto renuncie a seu exclusivismo, a considerar-se
como a depositária exclusiva da espiritualidade e reconheça pois sua função
exotérica e a superioridade do Imperador, como representante máximo dos que
sabem. Desde modo cumpriria com uma função necessária e útil para o ordenamento
de uma sociedade normal.
Ante isso o guelfismo representa justamente a atitude
contrária. Desdenhando a capacidade do homem de se relacionar com Deus de maneira
direta, ergue a si mesmo,, entanto Igreja, como o intermediário obrigado e
necessário que permite alcança-lo e “salvar-se”, condenando como luciférica e
pecaminosa a pretensão de querer conhecer Deus de frente nesta vida, e exigindo
em troca que todos sejam iguais entanto que crentes, quer dizer, como na atual
democracia, nivela por baixo, e portanto exige que os que são realmente
superiores se resignem a ser subordinados como qualquer outro com respeito a
quem seria o depositário da fé, da mesma maneira que no atual sufrágio
universal todos valem por igual um voto.
Digamos ademais
da outra diferença entre as duas versões é a perspectiva desde a qual se
formulam os princípios imperiais do paganismo. Se na italiana o ponto a atacar
era o do guelfismo que confundia Roma com o acionar histórico da Igreja, quer
dizer, havia aqui um conflito entre duas formas de espiritualidade, uma solar e
outra lunar, aqui, com o nacional-socialismo, a problemática é muito diferente.
O choque é contra as tendências modernas que no seio de tal movimento e com um
caráter de notória influência, contrariamente ao guelfismo, pecam em vez por
cientificistas, laicistas, e, se bem se reivindicam pagãos o fazem no sentido
negativo de tal termo, quer dizer, o que a apologética cristã lhe atribuía
quando falava de paganismo, pelo que era reduzido a um fenômeno meramente
vitalista, e carente de qualquer espiritualidade. O caráter cientificistas do
nazismo se manifestará principalmente em seu racismo biológico, pelo qual
reduzirá o humano ao animal concebendo a restauração da raça ária germânica
como o produto de uma série de cruzamentos, similares aos que se operariam no
mundo animal. Tal cientificismo, além de sua conotação positivista, tem um fundo
moderno também em sua herança romântica e nacionalista. De acordo ao asserto de
Fichte de que não existem verdades universais, mas que o verdadeiro é o
relativo ao próprio povo, o que nos proporciona um padrão de medida e guia para
conduzir-se ante os fatos, a doutrina do principal teórico do nacional-socialismo,
Alfred Rosenberg, interpreta a história em código puramente germânico. Assim
pois fenômenos regressivos desde o ponto de vista tradicional, tais como a
Reforma Protestante, as rebeliões campesinas, etc., entanto foram feitos por
tal povo, se convertem em positivos e resgatáveis. Lutero é para tal autor o
libertador com respeito a Roma, quer dizer, valendo para ele mais o fato de ser
alemão que o de ter revertido o cristianismo até sua raiz última judaica e
bíblica, repudiando o “paganismo” e o sincretismo católico.
Da mesma maneira
é também rechaçado o Império e a dinastia dos Hohenstaufen, concebida como uma
dinastia traidora que impulsara em solo germânico os interesses do imperialismo
romano. Tal desvio se associa por sua vez com tendências socialistas de tal
movimento (daqui o suspeito segundo nome que levava em si). Não foi casual que
no mesmo certos setores extremos sustentaram que o nazismo devia se unir ao
comunismo soviético em uma luta atávica conjunta contra Roma que representava o
Ocidente contra o qual lutaram os povos bárbaros. E não era de se estranhar
esta apelação. Foi o mesmo Lênin, nos faz notar Evola, quem manifestou que o
grande inimigo do comunismo era o espírito greco-romano. Temos assim que desde
pontos de vista opostos, da mesma maneira que o guelfismo, se considerava aqui
também o cristianismo como uma continuidade histórica de Roma. Agreguemos por
último que não resulta para nada casual hoje em dia, ainda que felizmente em
escala menor e quase insignificante, encontrar-nos novamente com essa mesma
confluência nacional comunista, a qual felizmente não prosperou durante o
regime de Hitler.
Como alternativa
ao nacionalismo moderno presente em tal movimento, Evola proporia, já em 1933,
a união das Duas Águias, da Águia germânica e da Águia romana, resgatando nos
dois casos a tradição imperial tal como aconteceu na época dos Hohenstaufen,
dinastia germânica, mas ao mesmo tempo de caráter universal e romana. Para isso
sustentava a irreversível necessidade de que ambas as nações e ambos movimentos
fascistas, no poder ou a ponto de estar, renunciaram por igual a seus
nacionalismos extremos e que assumiram a idéia de nação entanto que nesta, em
sua história, se manifestasse a idéia de Império, isto é, entanto que em ambas
histórias se encontrassem pontos que permitissem a adesão política a um
conjunto de ideais tradicionais e antimodernos. Para isso era indispensável
remover uma série de prejuízos. No caso italiano, teria que superar a antiga
idéia, fundada na luta pela independência, de que os austro-germânicos eram o
inimigo, e que em vez disso se estava mais próximo dos povos latinos, como
França, por exemplo. Em verdade, se a problemática é vista desde o ponto de
vista da Roma imperial, que é a verdadeira e autêntica tradição que deve
reconhecer o movimento fascista, foram as nações germânicas durante a primeira
guerra, com o Império Austro-Húngaro a cabeça, as que estiveram mais próximo de
tal ideal, que França, Inglaterra, e Estados Unidos democráticos e liberais. Da
mesma maneira o nazismo deveria libertar-se do sentimento antiromoano, produto
de um nacionalismo sectário e míope, e remeter-se aos exemplos imperiais
encontrados em sua história, ainda em seu remoto passado das tribos bárbaras,
as que logo de um primeiro rechaço se assimilariam ao ideal romano superior e
ourotgariam força e vigor na defesa do ideal imperial. É de ressaltar aqui que
tal idéia foi em grande medida profética entanto que com muitos anos de
distância prognosticou a constituição do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial.
Mas sem embargo há que reconhecer também que em nenhum modo foram os princípios
tradicionais sustentados por Evola os que estiveram na base de tal
entendimento.
Também pode se
agregar um fato significativo em relação às simpatias que Evola pôde ter
despertado entre o público alemão e em especial no regime vigente nesse
momento. Se bem Imperialismo Pagão teve em seu momento uma acolhida muito boa,
não sucedeu o mesmo com suas obras posteriores como a que editara sobre o tema da
raça, tais como La Raza Del Espíritu. Ali é interessante ressaltar o rechaço
que a mesma produziu esta vez entre os setores oficiais (na qual por outro lado
se ampliavam certas posturas já manifestadas na anterior) entanto que era
crítica com respeito ao racismo biológico ressaltando em vez disso a dimensão
do espírito como um âmbito superior ao do mero corpo e em lugar onde se operava
o exercício da liberdade por cima dos determinismos biológicos. Em vários
informes separados se qualifica Evola como católico encoberto e figura
determinada em sua doutrina por sua origem romana. Temos assim como desde
perspectivas diferentes, o guelfismo por um lado e o nazismo biológico, entanto
expoente de um pensamento antimetafísico, cientificistas e moderno, por outro,
se rechaça o pensamento de Evola.
Expliquemos
finalmente um último ponto. Em sua obra retrospectiva “O Caminho do Cinábrio”,
nosso autor será singularmente crítico em relação ao livro que aqui
apresentamos, começando pelo título que em seu momento o escolheu. Atribui sua
publicação a um excesso de fervor juvenil e a uma carência de medida, produto
da idade. Inclusive em distintas ocasiões se negará a que o mesmo fosse
reeditado em vida. Isso acontecerá tão somente depois de sua morte e em vários
casos, seja a favor como contra, servirá para ressaltar o paganismo de Julius
Evola, ainda que obviando às vezes as especificações que o mesmo merece e que
de alguma maneira temos tentado efetuar aqui.
Em relação ao
título do mesmo ele se manifestará o pouco feliz que haveria sido eleger o nome
do Imperialismo, o qual é um termo que com frequência se confunde com os
fenômenos modernos, produtos dos nacionalismos exagerados, justamente como uma
consequência última da modernidade. E pagão por sua vez seria outra palavra
equívoca pois é o termo depreciativo e desqualificatório que o cristianismo em
sua apologética atribuiu a quem, vivendo no campo, nos pagos, continuavam
venerando os deuses de uma antiga religião, já esvaziada de todo significado
espiritual, e que portanto foram os últimos a converter-se por força de inércia
à nova que triunfava por todo lugar. Ele sugere antes como termos pertinentes
os de “Tradicionalismo ou Tradicionalidade romana”.
Mais além de que
ainda estes dois termos, a nosso entender, poderiam também produzir equívocos,
quiçá muito mais em nossa época onde a confusão semântica chegou a extremos
patológicos, hoje em dia provavelmente, logo da aparição de novas palavras
substitutas, tais como globalização, Mundo Uno, Nova Ordem Mundial, etc., haja
caído mais liberada a palavra imperialismo e império entanto sejam menos usadas
que antes em sentido equívoco. E com respeito à palavra “pagão”, se bem é certo
que possa conduzir também a confusões, em especial pelo mote depreciativo com
que é utilizada, pode sem embargo servir para reivindicar a existência de outro
tipo de espiritualidade na antiguidade que agrupe a todo aquele que não foi
cristão. E enquanto ao estilo, ás vezes violento assumido pelo autor, o
reputamos sem embargo eficaz para os tempos atuais. Quiçá as frases curtas,
categóricas e tachadoras, manifestadas ao longo de toda a obra permitam a alguns
uma mais rápida proximidade com o mundo da Tradição que a que podem produzir em
vez disso obras mais especializadas e de maior vôo intelectual. Reputamos não
obstante tudo que Imperialismo Pagão é uma qualificação impactante, quase provocativa
em tempos como os atuais nos quais não cabe apresentar-se já com atenuações, e
que da leitura atenta desta obra se evitará qualquer equívoco com respeito a
isso. Ainda que a palavra final a terá sempre o público leitor.

Ótimo Site. Muito obrigado por todo empenho em gerar esse ótimo conteúdo !
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