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| José Hernández |
Não gosto de caju. Nem de goiaba. Muito menos de Coca-Cola. Pepsi,
ni pensar. Pensando bem, não gosto de refrigerante nenhum. Vinho rosé,
muito menos. Até hoje, pelo menos, nunca ninguém acusou-me de
preconceito em relação a caju, goiaba, Pepsi ou vinho rosé. Mas basta
dizer que não gosto de Machado de Assis, lá vem a acusação: preconceito.
Ora,
preconceito seria se eu jamais tivesse lido o Machado e afirmasse não
gostar de sua leitura. Não é o caso. Li os principais romances de
Machado e muitas de suas crônicas. Não vou afirmar que seja um escritor
medíocre. Mas não consigo gostar. Trata-se de um pós-conceito: digo que
não gosto após tê-lo lido. É curioso observar que quando elegemos um
vinho, damos preferência a vinhos estrangeiros. Uísque, idem. Carro,
também. Por que raios, na hora da literatura, tenho de preferir a
nacional?
Nasci no Brasil, mas me criei embalado pelas
coplas de Fierro. Quando ainda vivia no campo, antes mesmo de buscar as
vacas para a mangueira, em torno ao fogo no galpão, meu pai me
recitava os versos de Hernández. Eu não sabia quem era Hernández,
provavelmente meu pai também não. Imaginávamos que Fierro era um gaúcho
daqueles pagos, talvez até mesmo de nossa época. E nisto reside a
importância de uma obra, quando o personagem mata o autor. Quando
Hernández morreu, um jornal argentino noticiou:
Se murió el senador Martín Fierro
Lá
pelos dez anos, conheci cidade. Não que tenha esquecido Fierro, suas
coplas ficaram guardadas num desvão da memória. Mas havia uma biblioteca
na prefeitura de Dom Pedrito e naquela pequena biblioteca estava o
suficiente para nutrir o espírito de um jovem. Nela, li Platão e
Cervantes, Balzac e Montesquieu, Voltaire, Flaubert e Maupassant. Quando
fui ler Machado, já estava enamorado pela grande literatura.
Mais
tarde, em Porto Alegre, mergulhei em Swift e Dostoievski. Foi
certamente nos bares, e não na universidade, que descobri a melhor
literatura. Li ainda Koestler e Orwell, Somerset Maugham, Papini e
Pitigrilli. Descobri Nietzsche, leitura que mudou meus rumos. Machado
foi ficando cada vez mais distante, com sua preocupação ridícula, mesmo
para o século XIX, sobre se Capitu traiu ou não traiu Bentinho.
Cervantes ironizava a humana loucura, Dostoievski estava discutindo
religiões e o assassinato, Swift vituperava o gênero humano, Nietzsche
decretava a morte de Deus, Marx planejava uma revolução. Enquanto isso, o
Machadinho estava preocupado com um reles caso de infidelidade
conjugal.
Nunca consegui gostar de Machado. Admito que
escrevia bem, mas era muito raso como escritor. Em algum momento da
história, tomou força a idéia que a literatura define uma
nacionalidade. Criou-se então um afonsocelsismo na literatura nacional.
É preciso louvar autores nacionais. E se entre eles não houver um que
preste, elege-se um. Ora, quando leio, não estou preocupado com
reflexões sobre ser brasileiro. Prefiro autores que me falem do ser
humano.
A Veja desta semana, na esteira
do centenário da morte de Machado, o saúda como “gênio da virada do
século XIX para o XX”, como “um escritor atual, de uma vitalidade
artística única no panorama brasileiro e mundial”. Brasileiro, vá lá!
Afinal Machado é empurrado goela abaixo de adolescentes, como leitura
obrigatória na escola e nos vestibulares. Daí a considerar Machado
importante no panorama mundial, vai uma grande distância.
As
traduções do escritor carioca no Exterior são obras de embaixadas que
precisam vender algum produto tupiniquim. Também são produto de
intercâmbios universitários. Sempre rendem bolsas, tanto no Brasil como
lá fora. Machado é boa mercadoria, não fere convicções. Afinal, jamais
tomou partido em relação a filosofia nenhuma. Neste centenário de sua
morte, cita-se muito a inclusão de seu nome no cânone da literatura
ocidental de Harold Bloom. Ora, Bloom já admitiu que seu cânone
dependeu de encomenda de editoras. Se não pusesse Machado no cânone, é
claro que não seria publicado no Brasil. Além disso, sequer menciona
Hernández, o poeta maior do continente latino-americano. Trecheei seu
ensaio numa livraria. Quando vi que não mencionava Hernández, deixei-o
de lado.
Na universidade, o carioquinha impulsiona muitas
carreiras. Se você escreve sobre Machado, entra automaticamente em
bibliografias nacionais e internacionais, é chamado para deitar falação
em simpósios e colóquios, ganha viagens, bons hotéis e excelente
restauração. Machado é aposta certa, não há como perder. Acadêmico
algum ousa atacar Machado. Viraria leproso na academia.
“Sê
como o Machado, que perfuma o vândalo que o fere”, disse um PhDeus
uspiano pretendendo criar um calembour engraçadinho. Talvez se referisse
ao Millôr Fernandes, que o considera um escritor de segunda categoria.
Ou talvez a Paulo Francis: “aquele mulatinho jamais devia ter aberto a
boca”. Eu não chegaria a tanto. Mas, a partir da reação de leitores,
concluí que não gostar de Machado é crime de lesa-pátria.
Não
sou acadêmico, não disputo bibliografias, viajo, bebo e como com meu
dinheiro. Não preciso louvar Machado para passar bem. Mesmo que
precisasse, não louvaria. Não gosto e me reservo o direito de não
gostar. Antes dele, há centenas de autores mais importantes na
literatura universal.
A machadianos e machadistas, lanço
um desafio. Não obriguem mais escolas e universidades a ler Machado.
Joguem-no no mercado livre, ao sabor da oferta e da procura. E quero
então ver se algum editor ousará editar o carioquinha.

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