terça-feira, 18 de julho de 2017

Alain de Benoist - Terra do Leite e do Mel

por Alain de Benoist



Ninguém gosta de ser objeto de crítica, e os americanos não são exceção. E quando alguém é o alvo de críticas, não se deve esperar que ele sempre concorde com elas. É importante, porém, compreender essa crítica, levá-la a sério em seus próprios termos, e não simplesmente descartá-la como se fosse inspirada por malícia, inveja ou ignorância.

A crítica que a Nova Direita francesa lançou contra a América a fez receber um rótulo injustificado de ser inspirada por algum tipo de chauvinismo francês oculto ou por algum tipo de fobia "anti-americana". E vezes demais a crítica da Nova Direita não foi entendida bem o bastante. Alguns americanos (eles próprios críticos do que seu país se tornou agora e de como ele evoluiu) assumem que a crítica é dirigida primariamente à América de hoje. Isso não é verdade. A crítica que a ND dirige contra a América tem como alvo, na verdade, a própria base do que chamamos de "ideologia americana", uma ideologia que tem suas origens nos Pais Fundadores. Ou para falar de outro jeito, essa não é uma crítica da América multirracial (ou "multicultural") dos tempos modernos e pós-modernos, mas essencialmente uma crítica dirigida contra a América criada por brancos e cristãos anglo-saxões.

A Europa jamais declarou guerra contra os EUA. É evidente, porém, que desde seu início, os Estados Unidos da América tem tido contas a acertar com a Europa. A Europa nasceu de um desejo de ruptura com a Europa. O que as comunidades imigrantes no Novo Mundo desejavam em primeiro lugar era se livrar das regras e princípios políticos que dominavam na Europa. A nação americana nasceu de uma forma contratual durante a era da modernidade, evocando bastante a "cena primal" como imaginada por Sigmund Freud: os filhos se unem para matar seu pai e, depois, eles rascunham um contrato sancionando a relação entre iguais.

Evidentemente, o pai nesse esquema era a Europa. Foi necessário romper com o passado para criar uma nova humanidade. Assim, em O Federalista nós lemos:

"Se medidas importantes não tivessem sido tomadas pelos líderes da Revolução para as quais não era possível descobrir precedentes; nenhum governo estabelecido do qual um modelo exato não fosse apresentado, o povo dos Estados Unidos poderia, neste momento, ser contato entre as vítimas melancólicas de conselhos equivocados, estaria na melhor das hipóteses estar labutando sob o peso de algumas daquelas formas que esmagaram as liberdades do resto da humanidade. Felizmente, para a América e nós confiamos para toda a raça humana, eles buscaram um caminho novo e mais nobre. Eles realizaram uma revolução que não tem paralelo nos anais da sociedade humana. Eles criaram os tecidos de governos que não tem modelo sobre a face do mundo". (1)


Similarmente, foi contra a Europa que em dezembro de 1823 James Monroe afirmou a posição central de sua famosa "Doutrina", isto é, que nenhuma intervenção europeia deveria ser tolerada em qualquer ponto que seja do continente americnano. "Temos ouvido por tempo demais às musas cortesãs da Europa", exclamou por sua vez o poeta e filósofo Ralph Waldo Emerson no século XIX. "Em muitos sentidos" como Dominique Moisi e Jacques Rupnik afirmam, "América é a anti-Europa. Ela nasceu de um desejo de criar uma 'nova Jerusalém' na terra para superar os limites e erros da história europeia".



Dado que a cidadania americana está fundada em um contrato entre imigrantes de diversas origens, segue-se que todas idiossincrasias culturais devem ser relegadas à esfera privada, o que significa que elas devem ser temporariamente mantidas fora da noção de cidadania. Essa demanda se encaixa perfeitamente com a filosofia individualista dos Pais Fundadores. Foi na América, pela primeira vez, que uma sociedade construída composta exclusivamente de indivíduos e não de grupos, tal como o próprio capitalismo pressupunha um tipo de individualismo orientado em primeiro lugar para a possessão privada.


Às vezes a indiferença dos americanos pela história é explicada por uma duração relativamente curta da existência de seu país. Essa explicação não parece convincente. Afinal, dois séculos é um período de tempo longo. Na verdade, o problema não é tanto que os americanos "não tem história", mas que eles não querem ter uma. Eles não terem ter uma porque, para eles, o passado é reminiscente de suas raízes europeias, que eles outrora tentaram descartar. "Este é o único povo sem quaisquer raízes e genealogia", escreveu, afetuosamente, o autor liberal Guy Sorman. Thomas Jefferson expressou a mesma ideia ao dizer que cada geração forma uma "nação separada". "Os mortos", disse ele, "não possuem direitos". Daniel Boorstin, ex-diretor da Biblioteca do Congresso, escreveu que "a noção de americanos hifenados é anti-americana. Eu creio haver apenas americanos. Polaco-americanos, ítalo-americanos ou afro-americanos são uma ênfase infértil.... Os americanos preferem ser chamados por seus primeiros nomes e abandonam os nomes de sua herança. O mesmo se aplica a objetos, a tendência sendo na direção do insustentável e do descartável".

A mesma observação foi feita por Christopher Lasch, que escreveu que nos EUA "a remoção das raízes sempre foi vista como pré-requisito para liberdades ampliadas". Daí, a América pode ser descrita como uma civilização do espaço e não uma civilização do tempo. Seu mito fundador não é a origem, mas a fronteira, o que em 1893 Frederick Jackson Turner interpretou como a noção mais representativa do ideal americano, isto é, a aspiração à "conquista do espaço". "O que outras pessoas experimentam como história", observa Jean-Paul Dollé, "os americanos percebem como um sinal de subdesenvolvimento".

E os americanos não quiseram romper apenas com a Europa. Eles também quiseram criar uma nova sociedade que regenerasse a humanidade. Eles queriam criar uma nova "terra prometida" que se tornaria o modelo da República Universal. Esse tema de inspiração bíblica, baeado na ideia de uma América "escolhida", desde seus primórdios e por uma escolha supostamente divina, constituiu a fundação de uma "religião civil" e do "excepcionalismo" americano. Ele seguiu ressurgindo como leitmotif ao longo da história americana, desde os dias dos Peregrinos, como quando o teólogo da Baía de Massachusetts John Cotton sugeriu a adoção do hebraico como idioma oficial para as  ex-colônias britânicas. John Winthrop, o primeiro governador da Colônia da Baía de Massachusetts, que foi fundada em 1629, afirmou:

"Devemos sempre considerar que seremos como uma cidade sobre uma colina, os olhos de todos estão sobre nós. Hoje os olhos de todos estão verdadeiramente sobre nós, e nossos governos, em cada seção, em cada nível, estado nacional e local deve ser como uma cidade sobre uma colina". (2)

Declarações similares foram feitas por William Penn, o chefe da colônia quaker da futura Pensilvânia, apenas para ser ecoado pelos colonos da Virgínia. Tão cedo quanto 1668, William Stoughton exclamou: "Deus peneirou uma nação inteira para que ele pudesse enviar os melhores grãos para este ermo" (3). Para Daniel Webster, os Estados Unidos são uma "terra prometida":


"Se de fato ele designou pro Providência que a mais grandiosa exibição de caráter humano e acontecimentos humanos seria feita neste teatro do mundo ocidental". (4)


Thomas Jefferson define um único conjunto de direitos individuais e coletivos para todos os homens. Influenciado pela doutrina dos direitos naturais, esses direitos eram tidos com osendo universal e válidos em todos os tempos e lugares. Em 13 de novembro de 1813, John Adams exortou os americanos em prol de "nossa pura, virtuosa e pública república federativa que durará para sempre, governará o globo e introduzirá a perfeição do homem" (5). Mesmo em 1996, o senador "conservador" americano Jesse Helms exclamou, "Os Estados Unidos devem liderar o mundo com a tocha moral... e servir como um exemplo para todos os povos".

O objetivo não é apenas receber os pobres e refugiados, como proclamado na inscrição no pedestal da Estátua da Liberdade:


"'Mantenham antigas terras sua pompa histórica!', grita ela

Com lábios silenciosos 'Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado'" (6)


O objetivo também é permitir que os recém-chegados se vinguem contra o país de sua origem. E também continuar a proceder de uma maneira que eventualmente levaria todo o mundo a se impregnar com a ideia de que a sociedade americana é a sociedade perfeita e que os descendentes dos puritanos são os eleitos de Deus. Ademais, foi a teologia puritana do "Pacto" que inspirou a doutrina do Destino Manifesto, como apresentada por John L. O'Sullivan em 1839:


"Nosso nascimento nacional foi o comçeo de uma nova história de formação e progresso de um sistema político ainda não experimentado, que nos separa do passado e nos conecta apenas com o futuro; e no que concerne todo o desenvolvimento dos direitos naturais do homem, na vida nacional, política e moral, nós podemos confiantemente assumir que nosso país está destinado a ser a maior nação do futuro.... Quem, então, pode duvidar que nosso país esteja destinado a ser a maior nação do futuro?" (7)


Em outras palavras, se Deus escolheu favorecer os americanos, eles devem ter o direito a converter outros povos no que quer que eles achem melhor e mais prático.


Daí, por um lado estamos testemunhando isolacionismo; a América deve se separar do mundo exterior, que é visto como corrupto. Por outro lado, há uma necessidade por uma "cruzada", o mundo deve ser gradativamente penetrado pelos valores universais do sistema americano. Na economia, políticas de livre-comércio jamais proibiram o uso de protecionismo, quando quer que fosse necessário; similarmente, na política externa, o isolacionismo, associado ao espírito de "cruzada", podem marchar lado-a-lado. Estes são dois lados da mesma vocação messiânica e um exemplo típico de como o universalismo político é só uma máscara para o etnocentrismo, isto é, um modelo peculiar com ambições planetárias.

Essa certeza subjacente explica a estabilidade extraordinária do sistema americana. No curso de sua história, os EUA só conheceram um único modelo político importante, um modelo que permaneceu virtualmente imutável desde os dias dos Pais Fundadores. A Constituição, bastante inspirada por Locke, e falando de modo geral pela filosofia do Iluminismo, e peneirada por meio do puritanismo, se tornou um tipo de monumento sagrado que faz do americanismo uma religião genuína. Estejam eles à direita ou à esquerda, todos os americanos estão de acordo no fato de terem uma missão de espalhar "a palavra" para a humanidade. Mesmo os utopistas mais frenéticos não põem em questão a autoridade da Constituição ou a superioridade da iniciativa individual. O sistema pode ser razoavelmente melhorado ou reformado, mas ele deve permanecer fundamentalmente imutável, na medida em que ele se mistura com a própria existência do país. Enquanto na Europa ainda é possível fazer referência a alguns entre incontáveis modelos políticos que existiram no passado, o debate político na América se reduz a discussões sobre os méritos relativos de Hamilton, Jefferson, Washington, et al. Fascismo e comunismo nunca tiveram qualquer impacto real nos EUA, nem a ideia de contrarrevolução, nem o marxismo crítico, nem o sindicalismo revolucionário, nem o anarcossindicalismo, o situacionismo, etc. Nas universidades, os cursos de Ciência Política usualmente envolvem longas discussões sobre a obra dos Pais Fundadores, que são retratados como pessoas com um legado insuperável. Mesmo o eterno debate entre federalistas e anti-federalistas, entre hamiltonianos e jeffersonianos, é, na verdade, uma disputa familiar, que jamais questiona o consenso político subjacente.

A política doméstica americana é muitas vezes reduzida a uma competição entre os dois principais partidos, que aos olhos dos europeus dizem mais ou menos a mesma coisa. As competições eleitorais, com as suas convenções organizadas como espectáculos de circo, são inteiramente dependentes do dinheiro. A "democracia" na América equivale a oligarquia financeira. As eleições são efusões financeiras da classe bilionária. Para os americanos, é considerado natural que os políticos sejam ricos (na minha opinião, a sociedade deve ser extremamente cética de qualquer pessoa que seja rica e poderosa ao mesmo tempo) assim como é natural que os políticos exibam suas esposas e filhos em eventos públicos, enquanto multiplicam slogans religiosos em seus discursos. Na Europa continental, um Chefe de Estado dirigindo-se seus eleitores com um "Deus te abençoe" e convidando os parlamentares para um dia de oração e jejum seria visto por muitos como uma pessoa pronta para o hospício...

O outro lado dessa paralisia institucional é o formidável conformismo e a extraordinária monotonia de uma sociedade que, década após década, afirma, com a mesma convicção dócil, que a América é um "país livre", enquanto adere aos mesmos modos, cumprindo as mesmas convenções, repetindo os mesmos slogans e, claro, usando os mesmos uniformes (jeans e t-shirts com um logotipo de uma universidade jamais frequentada ou uma equipe de beisebol da qual não se é membro). Esta monotonia já foi descrita por Alexis de Tocqueville, que observou que a sequência de comoção e modas fugazes nunca augura nada novo na América. Aproximadamente ao mesmo tempo, a Condessa de Merlin também observou que a vida dos americanos é "um curso eterno de geometria".

A mesma certeza messiânica inspira a política externa americana, cujo princípio principal é que o que é bom para a América deve também ser bom para o resto do mundo, o que, por sua vez, deve permitir que a América espere de seus aliados contribuições financeiras e aplausos. Como um disfarce secularizado do ideal puritano, a política externa está baseada na ideia de queapenas a falta de informação ou o mal intrínseco de líderes estrangeiros explica a relutância de pessoas ao redor do mundo em abraçar o modo de vida americano. Como Jean Baudrillard escreveu, os Estados Unidos são uma sociedade "cuja ingenuidade pode ser descrita como insuportável e cuja ideia fixa é a de que a América é a completude perfeita de tudo com que os outros sonham". (8)


As "relações internacionais" não passam de uma difusão global do ideal americano a nível planetário. Como assumem que representam o modelo de perfeição, os americanos não se sentem obrigados a conhecer os outros. Resta para os outros adotar o jeito americano. "A troca é desigual", observa Thomas Molnar, "porque a América não tem nada a aprender, mas tudo a ensinar" (9). E, de fato, tudo o que acontece na América deve eventualmente acontecer em outro lugar do mundo. Em outras palavras, a política externa tem como objetivo a criação de uma humanidade unificada que não precise mais de nenhuma política externa. Nessas circunstâncias, não se deve surpreender que as derrotas enfrentadas pelos Estados Unidos na arena internacional sejam freqüentemente resultados da incapacidade dos EUA de compreender que outros povos pensam de forma diferente do que eles. Na verdade, para os americanos, o mundo externo ("o resto do mundo") simplesmente não existe, ou melhor, só existe na medida em que se torna americanizado - uma condição prévia necessária para tornar-se compreensível.


Muitos observadores notaram a importância da religião na sociedade americana. "Em Deus confiamos" está escrito em todas as notas bancárias, e desde 1956, tornou-se lema nacional. Nos EUA, quase todas as cerimônias oficiais são precedidas ou seguidas por uma oração. Já em 1923, o Reverendo B. Soames declarou em Washington, durante uma bênção solene do equipamento militar: "Se Jesus Cristo voltasse à Terra ele seria branco, americano e orgulhoso disso!". Tocqueville já havia notado:

"É a religião que pariu as sociedades anglo-americanas. Nunca se deve esquecer isso; nos EUA, a religião está, portanto, misturada com todos os hábitos nacionais e com todos os sentimentos aos quais um país nativo dá origem". (10)


A religião é normalmente redefinida em um sentido otimista, consistente com as demandas do materialismo prático e com as aspirações do povo que nunca deixou de crer nas virtudes da tecnologia e que espontaneamente assume, dado que o sentido do trágico é alheio a ele, que de alguma forma as coisas sempre se acertarão no fim. O conhecido professor americano Thomas L. Pangle, em seu estudo sobre Montesquieu e sua influência sobre os Pais Fundadores, sugere que a adoração do republicanismo liberal comercial e do espírito do comércio como o melhor regime "se opunha fundamentalmente, não apenas à insegurança, mas também à virtude cívica austera da antiguidade republicana e à autotranscendência religiosa ou sobrenatural". (11)



O ponto principal é a reconciliação da religião com o otimismo herdado do Iluminismo e arraigado na direção que aponta para o futuro e para a mística do progresso. De John Winthrop a George W. Bush e Barack Obama, os americanos jamais desistiram da crença no progresso, que usualmente os leva à conclusão de que desenvolvimentos materiais e tecnológicos também melhorarão a humanidade. Nesse nosso mundo, somente pelo acúmulo de bens materiais pode uma pessoa ser salva. Daí a ideia de "redenção" pela conversão ao modo de vida americano. O calvinismo já havia tentado resolver este problema da "predestinação" interpretando o sucesso material como sinal de escolha divina. A glorificação da performance individual, o espírito do capitalismo, as virtudes pacificadoras do comércio, tudo isso nutre esperança de que o acúmulo de riqueza eventualmente aniuilará todo mal. O mal se torna um "erro", um estado de imperfeição que deve ser eventualmente ultrapassado por mais comércio e "desenvolvimento" econômico. A partir de agora, não é mais a ética que justifica os interesses, mas o interesse que tenta justificar a ética. Em sua carta de 1814, dirigida a Thomas Law, Jefferson escreveu: "A resposta é que a natureza constituiu a utilidade para o homem como a maior das virtudes" (12). Cem anos depois, o juiz Oliver Wendell Holmes acrescentou:


"O melhor teste da verdade é o do pensamento de conseguir ser aceito na competição do mercado, e essa verdade é o único fundamento sobre o qual seus desejos podem ser realizados com segurança".(13)


Parece que na América a verdade se tornou uma questão comercial. Televangelistas pregam o "evangelho da prosperidade", ficar rico é sinal de ser salvo, antes de fazer seus constantes apelos por doações.


Os puritanos retiveram de Locke a ideia de que todos os outros direitos humanos derivam do "direito natural à propriedade". Para Madison, "o primeiro objetivo do governo" é garantir a aquisição de propriedade. Em 1792, ele disse: Em uma palavra, como é dito que o homem tem um direito à sua propriedade, pode-se dizer igualmente que ele tem uma propriedade em seus direitos" (14). Direitos são interpretados como atributos inerentes à natureza humana, algo que os indivíduos possuem por causa de sua pertença à espécie humana, e são estes direitos que os governos devem "garantir".

A Nova Direita rejeita totalmente essa noção de direitos subjetivos, que se opõe de forma absoluta à noção tradicional de lei objetiva. Nessa perspectiva, o direito é uma relação de equidade, que permite a todos conquistar o que lhe cabe. Similarmente, a Nova Direita rejeita a ideia de que a propriedade privada deva ser um absoluto.

Tal ideia do homem era inerente às bases de uma sociedade apropriadamente descrita por Ezra Pound como uma "civilização puramente comercial". Suas palavras ecoam as de Tocqueville:

"As paixões que agitam os americanos mais profundamente são paixões comerciais e não paixões políticas, ou melhor, eles levam os hábitos do comércio para a política". (15)


A América certamente não é a primeira república comercial na história, mas ela é a primeira a ter afirmado que absolutamente nada deve limitar as atividades econômicas, por elas serem os melhores meios para se atingir o melhoramento de toda a humanidade. Estando por conta própria, o indivíduo conta na medida em que sua atividade externa segue crescendo. Naturalmente, apenas sua performance econômica pode medir adequadamente o seu valor. "Na América", escreveu Hermann Keyserling, "as pessoas realmente creem que os ricos são superiores simplesmente por terem dinheiro; na América, ter dinheiro cria, de fato, direitos morais".


Max Horkheimer e Theodor W. Adorno observaram a partir de sua perspectiva:

"Aqui na América, não há diferença entre um homem e deu destino econômico. Um homem é feito de seus bens, renda, posição e prospectos. A mistura econômica coincide completamente com o caráter interior de um homem. Todo mundo vale o que ganha e ganha o que vale". (16)


A competição capitalista representa o mais ético tribunal: os ricos são os "vencedores", e os "vencedores" são os justos. Essa é a primazia da civilização do ter sobre a civilização do ser.


Tais traços não contribuem muito para o pensamento meditativo e para a reflexão interior. Quando o elo com outros é nutrido apenas pelo respeito por bens materiais e pelo Todo-Poderoso Dólar, o resultado é alienação sem fronteiras. Para os americanos, nota Anaïs Nin em seu diário, "é um pecado ter uma vida interior". Essas palavras podem soar excessivas, mas ainda assim elas refletem as mesmas conclusões do americano Christopher Lasch. Nos EUA há uma tendência consistente de crer que a inteligência deve ser reduzida a conhecimento técnico e que a fixação com questões econômicas deve ajudar a dispensar com o mundo das ideias puras. Quem quer que tente expressar uma ideia original e profunda corre o risco de se deparar com a resposta: "Não seja tão negativo. Seja prático! Pense positivo!".

Para os Pais Fundadores o propósito do governo era garantir os "direitos inalienáveis" dos indivíduos que foram "criados iguais". Assim, a vida política foi reduzida à moralidade e à lei. O dissidente americano H.L. Mencken brincou que o exato oposto era verdadeiro:

"O pior governo é o mais moral. Um governo composto de cínicos é não raro bastante tolerante e humanista. Mas quando fanáticos estão no topo não há limite para a opressão". (17)


Nos Estados Unidos, a ação política deve sempre começar com uma súbita onda de consciência moral ("Algo deve ser feito em relação a isso!"), o que invariavelmente leva a um exame "técnico" do assunto em questão. A própria lei é um modo de expressão que estabelece formas jurídicas de características morais inerentes à ideologia dos direitos humanos. Daí a extraordinária importância dos advogados na política americana, que Michel Crozier chama de "delírio dos procedimentos" e "loucura legal". Enquanto isso, a superioridade intrínseca da vida privada sobre a vida pública deve ser declarada em voz alta em todos os lugares; a "sociedade civil" sobre o mundo da política, os negócios e a competição econômica sobre o bem comum. "Um americano, seja ele um funcionário do governo ou homem na rua", escreve Thomas Molnar, "está convencido de que a política enquanto tal é uma coisa ruim e que as pessoas precisam encontrar outra coisa para se comunicar e estabelecer relações pacíficas". Como afirmei acima, os americanos estão inclinados a pensar que o mal poderia desaparecer e que é possível remover o traço trágico da existência humana. É por isso que eles querem abolir a política e, ao mesmo tempo, levar a história a um fim. "A América foi construída para que ela possa sair da história", escreveu Octavio Paz. O "neoconservador" americano Francis Fukuyama acreditava poder anunciar seu fim.


Travar guerras sempre significou para os americanos uma "cruzada" de moralidade. É por isso que não é suficiente para eles obter apenas a vitória militar. Eles também devem aniquilar o inimigo, que é invariavelmente retratado não como um líder ou um Estado que por acaso é adversário, mas como a encarnação do mal. Sob o disfarce de "intervenção humanitária" ou batalhas contra "terroristas", as guerras americanas são sempre "guerras justas", isto é, guerras de justa causa - e não guerras contra um justus hostis ("inimigo justo"). Por isso, o inimigo deve ser invariavelmente descrito não apenas como o inimigo do momento (que poderia eventualmente se tornar um aliado no futuro), mas como um criminoso que merece punição e reeducação.

As diferenças parecem ser profundas entre o pensamento político na Europa continental e a mentalidade americana, marcada por uma visão econômica, comercial e processual do mundo, pela onipresença dos valores bíblicos, bem como pelo otimismo tecnológico, pelo contratualismo, a linguagem de "direitos", e a crença no progresso.

Eu acho que conheço os Estados Unidos bem, como eu perambulei por lá em muitas ocasiões. Eu viajei em todas as direções, de Washington, DC, para Los Angeles, de Nova Orleans para Key Largo, de San Francisco para Atlanta, de Nova York para Chicago. Eu, obviamente, me deparei com uma série de coisas de que gostei muito. Os americanos são amigáveis ​​e acolhedores (mesmo que o relacionamento humano seja frequentemente superficial). Eles têm um senso tangível de comunidade. Suas maiores universidades oferecem condições de trabalho com as quais os europeus só poderiam sonhar. Não consigo esquecer a influência que os filmes americanos tinham sobre mim em um momento em que eles não estavam limitados a efeitos especiais ou besteirol de super heróis. Especialmente impressionante para mim, eram figuras da literatura americana como Mark Twain, Edgar Allan Poe, Herman Melville, John Steinbeck, Ernest Hemingway, John Dos Passos, William Faulkner e outros. Mas também detecto o lado reverso do "modo de vida americano": a cultura vista como mercadorias perecíveis ou como "entretenimento", uma concepção tecnomórfica da vida humana, destinada a transformar as pessoas em terminais remotamente controlados ou computadores, relações de gênero falsas, uma civilização automobilística e arquitetura comercial (há uma sociabilidade mais genuína em um mercado local africano do que em um supermercado americano - um símbolo privilegiado do niilismo ocidental), crianças obesas educadas pela televisão, glorificação dos "vencedores" e a obsessão pelo consumo, fast food, uma mistura de decretos puritanos e transgressões histéricas, corrupção hipócrita, etc. Sim, estou ciente do risco de ser acusado de parcialidade. Mas devo admitir que, para a América dos "meninos dourados", dos "rednecks", dos "fisioculturistas" e "bimbos", do "sonho americano" e das líderes de torcida, dos "fazedores de dinheiro" e "corretores" em Wall Street, não tenho a menor simpatia.

O globalismo é hoje sinônimo de americanismo? Somos tentados a responder afirmativamente. O fato é que os Estados Unidos nunca deixaram de exportar seus problemas para o resto do mundo, começando pela Europa. Nas pesquisas de opinião, a hostilidade em relação à globalização é muitas vezes acompanhada pela rejeição da hegemonia americana. Políticamente e culturalmente, a globalização significa, em grande parte, um processo de americanização, já que a superpotência dominante continua exportando suas mercadorias, seu capital, seus serviços, sua tecnologia, mas também sua "indústria do imaginário", sua cultura, sua linguagem, seus padrões de vida e sua própria cosmovisão.

Mas ao invés de americanização, não seria mais apropriado falar em "ocidentalização"? Muitos americanos se consideram "ocidentais", com alguns até mesmo usando o termo "O Ocidente" como sinônimo do "mundo branco" (politicamente uma expressão sem sentido).

Etimologicamente, "o Ocidente" é um lugar onde o sol se põe, um lugar onde as coisas perecem, e onde a história chega ao fim. No passado, este termo designava um dos dois impérios (pars occidentalis) nascidos do desmembramento do Império Romano. Subsequentemente, o termo se tornou sinônimo da "civilização ocidental". Hoje, como muitos outros termos, ele está em processo de assumir uma aura econômica, na medida em que os países ocidentais são primariamente designados como países "desenvolvidos". Este não é um termo, porém, que eu uso em sentido positivo. Em minha opinião, "o Ocidente" se tornou agora o veículo, em contraste com a Europa, de um modelo social que se tornou a imagem espelhada do niilismo. Durante minhas viagens ao redor do mundo, eu testemunhei o que acontece a culturas enraizadas quando elas são afetadas pelo "Ocidente": tradições rapidamente são transformadas em folclore para turistas, laços sociais são desfeitos, os mores se tornam utilitários, a linguagem e a música americana permeiam a mente, e a paixão pelo dinheiro se torna sobrepujante.

Muitas vezes, é entendido pela expressão "O Ocidente", o agregado composto pelos Estados Unidos da América e pela Europa. Mas este agregado, supondo que alguma vez tenha existido, já está desmoronando, como já foi observado há alguns anos por Immanuel Wallerstein.(18) A lacuna transatlântica se amplia cada dia mais e mais. A globalização, ao mesmo tempo que exacerba a concorrência, revela profundas divergências entre interesses europeus e interesses americanos. No nível geopolítico, as divergências são ainda mais flagrantes: os Estados Unidos são um poder marítimo, enquanto a Europa é um poder continental. Como foi demonstrado por Carl Schmitt, a lógica de Terra vs. Mar representa duas lógicas conflitantes.(19) A Terra se opõe ao Mar, assim como a política se opõe ao comércio, o limite à onda, o elemento telúrico ao elemento oceânico. Portanto, eu não me identifico como "ocidental". Eu sou europeu.

Visto do ângulo da economia, o capitalismo não nasceu em todo o Atlântico, embora tenha sido lá que ele foi incorporado à ideologia nacional: o primado do contrato, a redução do Estado, a crítica do "governo grande", a defesa da concorrência e do livre comércio, etc. É também nos Estados Unidos que nasceu o conceito de "governança" - primeiro aplicado aos negócios e depois à vida política e social. Não deve ser uma surpresa que, desde 1945, a economia dos EUA se tornou o palco central do sistema financeiro internacional. Foram os Estados Unidos que estabeleceram em 1947 o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), sucedido em 1995 pela Organização Mundial do Comércio (OMC). Essas foram as instituições que liberaram os movimentos de capital em 1974, a fim de financiar os déficits da América. No âmbito do capital financeiro, a América ainda mantém uma participação muito maior em relação ao seu setor industrial. Ela estabelece as regras para o comércio internacional, enquanto suas políticas monetárias continuam sendo o principal mecanismo de regulamentação da acumulação financeira em todo o mundo.

Assim como muitos europeus, eu fico impressionado com o fato de os conservadores americanos defenderem, quase sem exceção, um sistema capitalista cuja expansão destrua metodicamente tudo o que supostamente desejam conservar. Apesar da crise estrutural que o sistema capitalista experimentou nos últimos dois anos, os conservadores americanos continuam a celebrar o capitalismo como um sistema que supostamente respeita e garante a liberdade individual, a propriedade privada e o livre comércio. Eles acreditam nas virtudes intrínsecas do mercado, cujo mecanismo eles apreciam como um paradigma de todas as relações sociais. Eles acreditam que o capitalismo tem algo a ver com democracia e liberdade. Eles acreditam na necessidade metafísica, não apenas econômica, do "crescimento" perpétuo. Eles pensam que o consumo é igual à felicidade e que "mais" é sinônimo de "melhor".

O capitalismo, no entanto, não é "conservador". É o oposto disso. Karl Marx já observou que o desmantelamento do feudalismo e a erradicação das culturas e valores tradicionais são o resultado do capitalismo que, por sua vez, afoga tudo na "água gelada do cálculo egoísta". (20) Hoje, o sistema capitalista, mais do que nunca antes, está voltado para o excesso de acumulação de capital. Precisa de mais lojas de comércio, mais e mais mercados e mais e mais lucro. Bem, tal objetivo não pode ser alcançado a menos que tudo o que esteja no caminho seja desmantelado, começando pelas identidades coletivas. Uma economia de mercado de pleno direito não pode operar de forma sustentada, a menos que as pessoas internalizem uma cultura modista, o consumo e o crescimento ilimitado. O capitalismo não pode transformar o mundo em um mercado vasto - o que, com certeza, é seu principal objetivo - a menos que o planeta seja achatado e todas as pessoas renunciem à sua imaginação simbólica e continuem a indulgir em uma febre pela acumulação infinita de algo novo.

Esta é a razão pela qual o capitalismo, na tentativa de apagar as fronteiras, também é um sistema que se tornou muito mais efetivo e muito mais destrutivo do que o comunismo. A razão para isso é que a lógica econômica coloca lucro acima de tudo. Adam Smith escreveu que o comerciante não possui pátria além do território onde ele consegue o maior lucro. É a essa lógica da mercadoria, inspirada frequentemente pelos Estados Unidos da América, que a Nova Direita se opõe firmemente.

sábado, 15 de julho de 2017

Mark Hackard - Disney Manifesta

por Mark Hackard



Ao passo que nos aproximamos de outro dia da independência na América, vale a pena refletir sobre o significado do status excepcional tão anunciado de nosso país. Nossa terra é de fato bela e abençoada de muitas maneiras, lar de milhões de almas amáveis e generosas. Mas fingir que tudo está bem seria como assobiar ao passar por um cemitério. Os Estados Unidos, devemos lembrar, nunca foi concebido como uma nação orgânica, mas como um construto revolucionário, o arauto de uma Novus Ordo Seclorum em seu alvorecer. E então o seu progresso está sempre irrealizado, sua natureza não é o ser, mas o transformar-se, a sua vastidão um laboratório para alquimia social em escala continental. E ainda, de todas as tentativas para identificar o significado do sonho americano, nenhuma representou sua essência de maneira mais apta do que um humilde monge ortodoxo, o abençoado Fr. Seraphim Rose:

"Pode-se tomar, como símbolo de nossos tempos despreocupados, divertidos, de auto adoração, a Disneylândia americana; se assim o for, nós não devemos deixar de reconhecer por trás dela o símbolo mais sinistro que mostra para onde a “geração eu” está realmente indo: o Gulag soviético".

Fr. Seraphim escreveu essas palavras em 1982, o ano de seu repouso aos 48 anos, e o seu significado hoje só pode ser considerado profético. Nativo do sul da Califórnia, Fr. Seraphim viu a Disneylândia como a analogia mais apropriada para o Ocidente moderno e seu principal estado, a América. Nenhum lugar encerra melhor uma sociedade de falsidade, “diversão”, e narcisismo do que o reino mágico, ele próprio o centro de um império midiático cujos tentáculos governam incansavelmente segmentos de mercado da infância à maioridade, bombardeando populações em todo o mundo com “entretenimento” instrumentado, ou seja, guerra psicológica, subversão com um sorriso. E enquanto a América batalha pelo seu destino, realizando de maneira cada vez mais perfeita os princípios revolucionários de liberdade e igualdade, então nós testemunhamos a evolução da Civilização da Disneylândia em sua expressão máxima, o Gulag digital.

Nunca antes, dizemos a nós mesmos freneticamente, fomos tão livres, enquanto a NSA e transnacionais gigantes do ramo da tecnologia constroem uma rede de monitoramento outorgando aos nossos soberanos um controle sem precedentes sobre cada aspecto da vida. Nunca fomos tão liberados e “empoderados” como agora, nós declaramos em frenesi orgiástico, enquanto toda e qualquer ligação tradicional é sistematicamente reduzida a trilhas de risadas enlatadas. Nações, tribos, culturas, devem todas desaparecer para incorporar uma nova e melhorada classe de escravos consumidores para servir melhor aos desígnios de nossos mestres oligarcas. Cada distinção humana, até mesmo entre homem e mulher, deve ser eliminada à medida que o poder sobre a hereditariedade será domínio da elite tecnocrática governante, os incipientes deuses-máquinas. 

A distopia não está em um futuro remoto e obscuro; a distopia é agora. Bem-vindo à Terra do Amanhã. Nós descendemos mais em direção à fantasia ao invés de trilhar o caminho difícil do arrependimento, escravizados a telas brilhantes que jogam com nossos desejos mais ínferos. A América Disney, o fim da história, representa o triunfo do simulacro de apocalipse de Jean Baudrillard. Uma cópia sem o original, o simulacro chega como anunciante da nossa dissolução, com o absurdo cartunesco e irreal defendido como nobre e correto. Uma falsa religião no espírito do Grande Inquisidor de Dostoiévski ganha forma perante nossos olhos – o tour misterioso do milagre pós-moderno. Sacramentos são invertidos para celebração pública, e a própria humanidade desintegra-se no reino da quantidade. Eu me tornei Pateta, o destruidor de mundos.

“Não viva de mentiras”, Aleksandr Solzhenitsyn nos aconselhou. Se aproxima rapidamente o tempo em que desafiar a falsidade da ordem estabelecida irá trazer não só sanções legais e administrativas, mas violência organizada. As mentiras desmascaradas revelam a face de seu criador, que deseja apenas morte espiritual. O homem faustiano trocou sua alma pelo reino mágico de Mamon, um parque de diversões-e-campo de concentração de alta tecnologia. A civilização da Disneylândia e suas ilusões vai durar apenas por um curto período de tempo, assim como o mundo e toda a sua glória, embora nesse meio tempo ela irá tornar-se mais bestial em sua desumanização e perseguição da verdade. Que Deus nos conceda – tanto homens como todos os povos, especialmente os americanos nesse dia – a força férrea do arrependimento, que possamos suportar até o final.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Aleksandr Dugin - Pós-Antropologia

por Aleksandr Dugin



Sociedade Humana após a Crise: Inferno na Terra pela Lente da Sociologia Profunda


A Sociologia das Profundezas

Uma sociedade concreta (fenomênica) sempre consiste em duas partes, a superficial e a subterrânea. A parte superficial é a que normalmente chamamos "sociedade", significando uma esfera de atividade racional onde o logos (λόγος) prevalece. Este é o domínio do "diurno". A parte subterrânea é a ilha escura, subaquática, do inconsciente coletivo, a região da noite social (o "noturno"), onde o mito (μύθος) governa.

Por um algum tempo, a ciência progressivista acreditou que essas duas partes estavam situadas em uma ordem diacrônica. Em tempos antigos (e entre povos "primitivos", o infeliz "resíduo" de tempos antigos), o mito era predominante. Mas o progresso da civilização gradualmente suplantou a ordem mitológica e a substituiu com uma ordem baseada no logos. A comunidade, ou Gemeinschaft, é substituída pela sociedade, ou Gesellschaft (F. Tönnies). Mas essa exaltação otimista não durou muito. Conquanto a fé cega no progresso reinou quase de forma inquestionável na Europa Ocidental dos séculos XVIII e XIX, o inconsciente, onde as leis eternas e imutáveis do mito predominam, foi descoberto no início do século XX.

As obras de Jung desenvolveram a teoria freudiana e estabeleceram uma nova topologia da psicologia humana. Freud já havia mostrado que além do "Eu" (o "ego"), um "Isso" (em alemão "es", em latim "Id") invisível e reprimido opera ativamente dentro do homem. Jung demonstrou que a base desse "Isso" está enraizada em uma realidade especial comum a todas as pessoas. O inconsciente coletivo é um para todos.

O seguidor de Jung, o sociólogo francês G. Durand, se apoiando na teoria jungiana do inconsciente coletivo e seus arquétipos, complementou a topologia psicanalítica com uma sociológica, deitando assim as bases para uma "sociologia das profundezas", "sociologia profunda", ou "sociologia da imaginação". Assim, a segunda parte, subterrânea, da sociedade, em cujo coração jaz o mito, foi descoberta, estudada e descrita.

Sociólogos comuns como Weber, Sombart, Durkheim, Moss, Sorokin e outros, não raro descreviam a sociedade superficial, diurna, e suas propriedades, ou seja, o logos social. Sociólogos das profundezas, por outro lado, como G. Durand ou M. Maffessoli, empreenderam a exploração dos mitos sociais, elaborando um tipo de sociologia do mito.

O estudo da interconexão entre os dois níveis principais dessa topologia, ou seja, entre logos e mito, enterrou o conceito de racionalidade e a noção de "progresso" já na primeira fase. Segundo G. Durand, acontece que essa não é mais que uma racionalização do mito de Prometeu. O próximo passo foi a descoberta de que o próprio Logos, como destino axial da cultura europeia ocidental (de Platão ao positivismo, passando por Descartes) não era mais que uma edição especial do mito (um "mito ascendente" na teoria de G. Bachelard ou o "regime diurno" na teoria de Durand). Essa é a descoberta da sociologia profunda (a sociologia da imaginação) baseada no estruturalismo de C. Lévi-Strauss, na história da religião (H. Corbin, M. Eliade), na psicanálise (C.G. Jung), na reflexologia (M. Bekhterev), na física e matemática modernas (R. Tohm, V. Pauli). Isso abriu uma perspectiva completamente diferente da essência, conteúdo, significado, natureza e qualidade dos processos sociais. A sociologia clássica, que havia detectado inúmeras falhas do logos na sociedade (por exemplo, o princípio da "heterotelia", uma lei sociológica que afirma que os processos sociais quase sempre atingem objetivos outros do que os intencionados, invertendo assim a lógica causal na qual os pais fundadores da sociologia, os positivistas Kant e Durkheim, tão firmemente acreditavam) veio através da sociologia profunda para formar um sistema consistente e semanticamente completo. O enorme material metodológico e documental acumulado pelos sociólogos clássicos começou, assim, a ser interpretado de uma maneira inteiramente nova.

Assim, ao fim do século XX, uma "sociologia em dois níveis" foi estabelecida na qual a pesquisa sobre o logos social foi paralelada por estudos do "subterrâneo social" ("masmorra social") e do "mito social". Em outras palavras, o "inconsciente social" foi descoberto.

Logos Social

Por sua profissão, um sociólogo é chamado a olhar para além da "opinião pública", das "ideias comuns", e do "senso comum", ou seja, aquelas crenças e ideias que circulam entre as massas em sua "maioria" e constituem o esquema da "sabedoria convencional". A "opinião pública" jamais reflete a imagem completa. Seu lugar natural está situado no espaço entre a verdade científica e o que é uma quimera pura, ou nada. Mesmo Platão, em sua República, definiu "opinião" (δόξα) como nos mostrando algo ao mesmo tempo que nos oculta outra coisa, em todos os casos nos revelando não o que jaz na superfície da expressão, mas outra coisa, e assim sempre nos enganando. Especialistas americanos em especulação financeira e mercados de ações formularam a mesma lei em termos mais grosseiros: "a maioria está sempre errada".

Ao analisar a "opinião", os sociólogos derivam de tal a verdade semi-manifesta e semi-oculta, e explicam assim o mecanismo e, por sua vez, a estrutura semântica das mentiras (silêncio, eufemismos, projeções, transposição, e outros artifícios retóricos). É assim a soma de verdades científicas extraídas, esclarecimentos, e etiologias de equívocos e mentiras, o conteúdo do logos social, que constitui o objeto da sociologia clássica.

O Pessimismo dos Sociólogos Clássicos: o Logos à Beira da Catástrofe

A maioria das maiores reconstruções ("grandes teorias") dos sociólogos clássicos estava marcada pela natureza perturbadora dos processos sociais do século XX. A própria ideia de "progresso", que se tornou algo tomado como dado na "opinião pública", foi em dado momento reconhecida como um eufemismo projetado para iluminar premonições de desastre iminente.

A maioria dos sociólogos, e Pitirim Sorokin em particular, enfatizou de forma unânime a natureza hedonista, material, sensual e sensata da civilização ocidental moderna, e essa qualidade afetou o "logos social" muito mais profundamente ao longo do século XX. Valores materiais, envolvendo uma "obsessão com a economia", a busca por uma liberdade material egoísta e por prazer, assuniram protagonismo e solaparam, erodiram a estrutura da organização racional da sociedade. Quase todos os sociólogos previram de uma maneira ou de outra que o logos social do Ocidente e toda a civilização mundial estando sob influência ocidental decisiva, está sob ameaça de colapso.

Esse sentimento se intensificou especialmente na era pós-moderna, quando muitos começaram a falar na "sociedade do espetáculo" (G. Debord), na "ordem dos simulacros" (J. Baudrillard), ou no "fim da história" (F. Fukuyama). De fato, Fukuyama falou em uma "sociedade de vácuos", ampliando a "fragmentação dos laços sociais", etc. O logos social havia se desintegrado diante de nossos olhos, se transformando em algo só verificado com grande dificuldade e demandando novos métodos sociológicos para entender e explicar.

Alguns, como Castells, sugeriram timidamente que o logos não morre, mas passa a uma nova forma de existência como rede. Mas isso não soa muito convincente. Em todo caso, começando no século XX, a sociedade clássica esteve no limiar, como dizem os otimistas, de uma metamorfose qualitativa fundamental ou, como suspeitavam os pessimistas (como Spengler), do colapso.

O momento social através dos olhos de sociólogos profundos: deslizando para a noite

Ainda mais alertados pelo esgotamento da modernidade estão os sociólogos profundos, que tem em por princípio acreditado que reavaliar o logos a partir do mito equivale a um desastre, o que por definição e de partida já está acometido por colapso e uma inflação colossal do logos. Não sendo opositores do logos, eles apenas apontam que o gigantesco esforço de reavaliar metade da sociedade (a metade diurna) está repleta de possibilidade de regressão rápida e de cair no extremo oposto, as regiões do inconsciente, sem alívio ou estágios intermediários. Eles consideraram corretamente que os totalitarismos europeus do século 20 eram uma queda tão rápida para o mito, por exemplo, o regime nazista (com seu "Mito do Século XX", que é, admitidamente, uma paródia pálida e pobre do mito em si) e a URSS com sua tentativa quiliástica de construir um "paraíso na terra" (o mito diacrônico-trinitário de Joachim de Flora, ignorado por Hegel, e especificamente o messianismo cúltico russo).

Mas a inflação do logos não cessou com a vitória sobre o fascismo ou após o fim do comunismo. Na década de 1990 surgiu a ilusão temporária de que o logos social finalmente havia encontrado sua encarnação final no paradigma americano liberal-democrático (daí o globalismo e o "fim da história") que duraria para sempre (como os neoconservadores americanos tentaram inaugurar com o "Projeto para um Novo Século Americano" e teorias de "hegemonia benevolente" e "império benevolente"). Nos anos 2000, tudo isso tornou-se cada vez mais duvidoso. Quando a crise financeira de 2008 eclodiu e o democrata negro Barack Obama chegou ao poder nos EUA, ficou claro que a rodada anterior não era o estabelecimento de uma "nova ordem mundial", mas a agonia final do logos ocidentocêntrico.

Do ponto de vista dos sociólogos profundos, o ponto em questão foi a colisão de dois mitos que atuaram durante três séculos nas "masmorras" das sociedades da Europa Ocidental (e daquelas que caíram sob sua influência).

A era moderna e o Iluminismo refletiram o surgimento do mito de Prometeu, que inspirou tanto os racionalistas como os românticos, o povo do dia e os poetas da noite. O titã, o trapaceiro, o enganador dos deuses (noite), Prometeu, atuando como Fausto e Lúcifer, traz às pessoas o fogo e o conhecimento (dia). Schelling, Hugo, Hegel, Marx e os liberais e os socialistas foram inspirados pelo mito de Prometeu. Mesmo no fascismo, através da lente nietzscheana do "Super-Homem" e do wagnerianismo, Prometeu encontrou expressão peculiar.

Mas, com o final do século XIX, Prometeu começou a dar lugar ao mito de Dionísio. Emanando de salões decadentes, ele penetrou a cultura e, posteriormente, tornou-se o principal mito das pessoas envolvidas na mídia (e, como regra geral, marginais, bêbados, pervertidos e viciados, como observou acertadamente Durand), no cinema e mais tarde na televisão, intelectuais e artistas - pessoas típicas da noite em praticamente todas as sociedades. Gradualmente imbuída do estilo individualista-hedonista de "jornalistas", dos céticos inveterados e dos adversários de toda organização racional (inimigos do logos social), a sociedade tornou-se uma sociedade de entretenimento e prazer, a "sociedade do espetáculo".

Dionísio deslocou Prometeu, de cujo mito o fim é descrito no livro esplêndido e irônico de Andre Gide, Prometeu Mal Acorrentado. Mas o próprio Dionísio, gradualmente, perdeu o apelo, o ímpeto e a energia na medida em que as perversões decadentes da elite, portando algo estilisticamente atraente, transformou-se na podridão nociva das massas em decomposição deslizando para a noite. Paradas gay plebeias transformaram a atmosfera refinada dos salões de Oscar Wilde, a insanidade solar de Arthur Rimbaud e o gesto poético do Apolo de Kuzmin em kitsch plebeu (mais um exemplo do significado da expressão "não jogue pérolas aos porcos"). O mito de Dionísio, por sua vez, atingiu o ponto de saturação e tornou-se uma das fontes de frescura do pântano estancado e estilifaliano.

O ciclo da cultura ocidental chegou ao fim. A pós-modernidade com seus epifenômenos é uma ilustração convincente disso.

De qualquer forma, os sociólogos das profundezas estão aguardando um novo mito (talvez esperem que este seja o mito equilibrado e integrador de Hermes -, como o grupo Eranos, que incluiu Jung, Eliade, Bachelard, Corbin, Dumezil, Scholem e Durand), Mas eles entendem claramente que o logos europeu está prestes a finalmente deslizar para a noite. Falando francamente, parece-me bastante duvidoso que essas pessoas maravilhosas, esses neo-hermetistas, consigam deter o que está caindo, muito menos mudar este outono...

Topologia Jungiana

As observações anteriores eram necessárias para chegar ao tema principal, isto é, nossa tentativa de conceber o que aguarda a humanidade uma vez que a pós-modernidade finalmente se torne manifesta e o logos social finalmente pereça na noite do mito. Em outras palavras, estamos interessados ​​em reconstruir a imagem da dimensão sociológica iminente, levando em consideração os significados estruturais e semânticos que nós (ou não) devemos sobreviver (ou não). Com base numa reconstrução sociológica das teorias clássicas e não-clássicas, podemos construir diferentes modelos do futuro, baseando-nos na topologia psicanalítica de Jung, que se preocupou com o destino do homem e tentou, com a maior imparcialidade possível, descrever a plenitude do fator humano em suas diversas dimensões em diferentes estágios. Antes de "pintar" a "sociologia do Apocalipse" com a "pintura de Jung", lembremos os principais parâmetros de sua topologia.

De acordo com Jung, um ser humano é um sistema complexo composto por vários pólos, os principais sendo "ego", "persona", "anima/animus", "sombra" e Selbst ("self"). Adicione o "superego" de Freud por uma questão de completude.

Meu "Eu" e minha Máscara

O homem é considerado um indivíduo racional que chama a si mesmo "eu". Na psicanálise, esta função é denotada pelo termo latino "ego", cujas propriedades são o intelecto, a capacidade para as operações mentais, a posse de estruturas lógicas (ou "proto-lógicas", como as chamadas tribos primitivas" e "selvagens"), a capacidade de auto-reflexão e separação clara de si mesmo ("ego") do mundo exterior, dos "outros" e "o outro".

O logos social generalizado é a projeção coletiva do "ego", o que Freud chamou de "superego" ou "super-Eu".O "ego" sempre se correlaciona com o "superego", que assim dá origem a um sistema de normas sociais e determina uma grande parte do ser do "Eu".

No que diz respeito a outros "Eu" sociais e ao logos social agregado (superego), o ego atua como persona, personalidade ou máscara. Existe uma lacuna entre o ego e a personalidade que consiste no "ego" possuir outra dimensão, invertida em si mesma, que a distingue da personalidade ou "persona" através de uma função sócio-lógica plenamente exaustiva. O ego tem uma psique, enquanto uma persona não (tal é cuidadosamente escondida e ignorada). A psique do ego se faz conhecer apenas quando uma persona começa a se comportar ou se sentir de forma inadequada na sociedade ou diante do superego dado como padrão na moralidade e nas regras do pensamento (uma desordem mental).

"Eu" geralmente parece estar sozinho como resultado do reflexo do logos sobre a separação física do corpo humano. Mas isso não é necessário, enfatiza Jung. A deformação das estruturas lógicas, um rebaixamento do nível mental (abaissement du niveau mental) ou simplesmente sonhar pode facilmente desfocar a singularidade do "Eu", sua identidade e dispersar em várias frações o "alter ego". Em alguns casos de psicose, isso se manifesta através de vozes, através da visão, ou mesmo através de visões de si mesmo. Em alguns casos, vários "egos" podem formar uma forma de identidade bastante estável (como no Dr. Jekyll e no Sr. Hyde de Stevenson).

O "Eu" de Jung não é uma constante de uma vez por todas, mas é plural. Às vezes, Jung fala do ego como uma parte de uma psique complexa ao lado de outros "complexos".

O Reino do Inconsciente Coletivo e o Selbst

Dentro do "ego" começa o espaço da psique contendo diferentes camadas, algumas próximas do "ego" (como memória, avaliação subjetiva de ações e "invasão" de baixo) e as mais afastadas dele, como o inconsciente .

Freud chamou o inconsciente de "es" ou "id". Ele próprio restringiu o inconsciente aos sentimentos e instintos individuais formados como regra durante a infância e até mesmo no período pré-natal. No famoso sonho de Jung de 1909, no qual ele percorreu o Atlântico por navio com seu professor, viu que, no inconsciente, há um nível ainda mais profundo que deixa de ser individual e torna-se coletivo. O domínio do inconsciente coletivo é o centro da topologia conceitualizada de Jung.

O inconsciente coletivo, de acordo com Jung, é o mesmo para todos e é habitado por mitos e arquétipos eternos. Este inconsciente coletivo é explicado por parcelas estáveis ​​de certos sonhos (grandes sonhos), mitos, histórias, contos de fadas, visões religiosas e obras artísticas. O inconsciente coletivo percebido, integrado, aceito e sacralmente exaltado, dirigido acima para a luz na superfície é o que Jung denomina Selbst ou "self".

Animus/Anima e o Duplo Obscuro

Além disso, entre o ego e o inconsciente coletivo existem duas das principais instâncias intermediárias: o animus/anima (a alma que Jung divide por gênero) e a "sombra" (umbra, die Schatten).

Animus/anima (como os Seraphitus e Seraphita de Balzac) é uma imagem do inconsciente coletivo, pois aparece em forma pura no ego masculino ou feminino. No decorrer de sua pesquisa (incluindo estudos clínicos), Jung observou que os homens imaginam constantemente o "inconsciente" ("es" e "id") como feminino (daí "anima", a alma feminina), enquanto as mulheres o imaginam como masculino (daí "animus", a alma masculina). Em russo, seria tentador usar os cognatos dusha ("alma") e dukh ("espírito"), mas eles têm um significado constantemente diferente (embora se poderia perguntar: algum deles tem algum significado hoje em dia? ).

Há também a "sombra" que representa o gêmeo escuro do ego, que consiste nos produtos negativos do diálogo entre o ego e o inconsciente coletivo. Tudo o que a mente diurna reprime, exclui, expulsa, censura e não reconhece nos impulsos que se elevam das profundidades inconscientes, compõe a "sombra", moldando sua estrutura e uma espécie de "anti-persona" (simetricamente oposta a uma persona). O diabo é a forma generalizada da sombra.

Individuação como a Realização do Selbst

De grande importância nas obras de Jung é o sujeito da "individuação". A individuação é a transferência harmoniosa, equilibrada, incremental e mensurada das estruturas inconscientes coletivas ao nível do logos. Uma vida humana corretamente orientada é a realização do Selbst, isto é, a individuação. Somente neste caso, o ego serve o propósito de deixar o que está no nível do mito adentrar no reino do logos.

Jung esclareceu a relação entre instâncias dadas em sua topologia, forneceu nuances, explicou detalhes e resolveu os enigmas de suas relações dialéticas. Ele delineou a dialética desta estrutura em seus pacientes e em obras de arte, doutrinas religiosas, teorias filosóficas, biografias famosas e nos preconceitos dos cidadãos comuns. Praticamente todo o seu trabalho criativo foi dedicado a esse fim.

Sociologia da Imaginação

Aplicar a topologia de Jung à sociedade (com certos ajustes) produz a sociologia profunda ou a sociologia da imaginação como desenvolvida principalmente por R. Bastide e G. Durand. O logos social ("consciência pública" de Durkheim) é o ego generalizado (superego). No outro extremo está o inconsciente coletivo (ou inconsciente social). Entre eles está o ego humano que enfrenta a sociedade através da sua personalidade (persona) e enfrentando o inconsciente coletivo (o reino noturno dos mitos) através da sua psique e suas figuras (a anima, o animus e a sombra).

Entre a consciência coletiva e o inconsciente coletivo existe uma dinâmica na medida em que ressoam em certas questões e são homólogas, enquanto em alguns casos entram em discórdia e conflito. Isto é devido à cinética social (incluindo a mobilidade) e ao conteúdo profundo dos processos sociais. O indivíduo ou o humano é um ponto nesta dialética complexa de dois estágios de noite e dia, ou diurno e noturno.

O modelo tripartite de topologia social de Pitirim Sorokin, que distingue três tipos de sociedades e estruturas sociais (ideacionais, idealistas e sensuais) com base em uma abordagem puramente heurística, recebe bons alicerces nas três estruturas arquetípicas de Durand - a "heróica", a "cíclica" e a "mística", que são um homólogo mitológico direto para os construtos sociológicos de Sorokin. A escola de Durand, o Centro de Pesquisa sobre o Imaginário, tem nos 50 anos de sua existência produzido uma enorme quantidade de trabalho hermenêutico sobre a "mito-análise" de sistemas sociológicos e a "mito-crítica" de obras literárias ou registros históricos.

Sonhando o Mundo

Agora a crise econômica. Acima, dissemos que é altamente provável que a crise financeira atual seja uma expressão de um processo muito mais profundo, ou seja, o declínio do logos social borrado ou saturado de momentos sensuais (à la Sorokin) ou do mito dionisíaco tomado pelas massas osculadoras (à la Durand). No sistema de Jung, esse processo pode ser visto como o "rebaixamento do nível mental" (abaissement du niveau mental). Suponhamos que as estruturas lógicas do ego e do superego se desmoronem em um limite crítico - e isso é muito provável se considerarmos as observações sobre a sociedade russa, que se degradou rapidamente no sentido intelectual e moral, bem como nos processos ocorrendo na cultura e na política ocidentais. Neste caso, devemos esperar que a humanidade mergulhe de cabeça no regime noturno.

Na topologia junguiana, isso significa que descemos para o inconsciente coletivo. Isso não é simplesmente niilismo. O próprio conceito de nada, ou nihil, pertence à ordem das estruturas lógicas capazes de representar abstratamente a negatividade pura em contraste com a presença pura. Mas, na medida em que a lógica é corroída, o nada cristalino do niilismo lógico não nos parece tão vazio, mas cheio de significados indescritíveis, imagens inconsistentes e sons cacofônicos arranjados desarmoniosamente. O niilismo da noite é cheio de sons, cores e formas, mas apenas do ponto de vista do dia. Isso é nada.

Começaremos a ver os pontos críticos enumerados abaixo na escuridão. Afinal, sempre há objetos mais escuros do que outros. É neste ponto que chegamos à versão junguiana da futurologia pós-crise.

O logos social caiu. Apesar de ter derrotado exitosamente todos os seus concorrentes lógicos e ideológicos (teocracia, monarquia, fascismo e comunismo), o liberalismo não lidou com o fardo do logos social, ou seja, é incapaz de defender a ordem do dia sozinho contra a noite se aproximando de todos os lados e de dentro. A última tentativa desse tipo foi a aventura imperial dos neoconservadores americanos. Enquanto isso, os logoi anteriores são deixados irremediavelmente repudiados e perturbados.

O caráter diurno do liberalismo é relativo. Talvez ele tenha vencido precisamente porque ofereceu o mais suave de todas as ordens, o logos mais discreto, o instrumento mais comprometedor e tolerante da repressão diurna do inconsciente noturno. Mas agora tem sido deixado um a um em face do caos - o mesmo caos em que se baseou anteriormente.

Se a atual crise econômica (para a civilização liberal, a economia é um substituto da ordem e do logos) acaba por ser a última, então ocorrerá um "rebaixamento do nível mental da humanidade" fundamental. O mundo será mergulhado em um sonho.

Que tipo de sonho será esse?

Os Novos Atores da Pós-Antropologia

O desmantelamento do "ego" e do "superego", seu retorno à neblina escura da psicose, leva ao surgimento de novos atores na vanguarda. Esses atores não serão nem as classes (como no comunismo), nem raças (como no nacional-socialismo), nem mesmo o indivíduo (como no liberalismo) - todas essas ideologias sociais foram fundadas em sistemas lógicos específicos e, paralelamente a isso, em mitos razoavelmente distinguíveis noturnamente estruturados. Esses atores serão as formas do inconsciente que sobraram a partir da época da dominação luminosa do logos. Esta será uma ordem pós-logos que levará à introdução da pós-antropologia.

As principais figuras da relação entre o ego e o inconsciente adquirirão autonomia e se tornarão o substituto do ego. A humanidade vai ouvir "vozes".

O fato de que o ego do homem moderno se tornará dinâmico, plural, lúdico e aleatório já pode ser visto em todos os lugares - na constante mudança de profissões, mudanças de residência (o novo nomadismo), mudança de gênero, apelidos, o aparecimento de duplos e clones (primeiro na literatura, filmes e jogos de computador, mas amanhã na prática). Isso se tornará comum, pois a vida adquire mais uma natureza irônica e lúdica. O ciclo encolherá quando famílias, parceiros, amigos, países e ocupações forem alterados com velocidade caleidoscópica. As pessoas mudarão seu gênero com maior freqüência, e as operações de mudança de sexo virão a ser mais do que um caso único - alguém é uma mulher, fica farta disso, torna-se um homem, depois uma mulher de novo, e assim por diante. Mas depois de um certo ponto - dificilmente perceberemos - a noção de identidade individual se dissolverá e o princípio da liberdade corroerá os "grilhões totalitários" da individualidade. No átomo humano, os componentes separados serão "descobertos" - elétrons, prótons, quarks que exigirão para si mesmas "novas liberdades" (como o escritor belga Jean Ray antecipou em seu A Mão de Götz von Berlichingen).

E é neste momento que enfrentaremos uma série de fenômenos e adventos muito interessantes que definirão o panorama da paisagem pós-antropológica.

A Vinda da Sombra

A "sombra" será um dos atores principais do "Apocalipse Jungiano". As fantasias de sombras vivas (nas obras de Anderson e no folclore popular) são um relato famoso que aparece repetidamente na literatura, no teatro e na ópera. "Sombra" é um sinônimo para o diabo, e podemos dizer que essa imagem coincide com as amplas e variadas descrições do anticristo ou da "vinda de Satanás". A perspectiva de Jung difere das opiniões religiosas e teológicas sobre esse assunto, na medida em que examina a figura do diabo - no espírito da "Apocatastasis" de Orígenes Adamantius - como relativamente negativa. De acordo com Jung, no "diabo-sombra" acumula-se tudo o que foi descartado pelo ego ao longo de uma individuação mal sucedida, isto é, ao longo da tradução do inconsciente coletivo e seus arquétipos na esfera do logos. Assim, o diabo não é independente ou primordial, mas meramente simboliza a totalidade das falhas humanas e os resultados da fricção com o "superego", que por sua vez não está associado tanto a erros individuais como com a dissonância e o conflito do logos social (incluindo os aspectos religiosos e morais) com o complexo mitológico situado sob os alicerces da sociedade. A sombra é o Selbst que falhou. Afinal, o diabo foi uma vez um anjo de luz que caiu...

A sombra que se revelará no futuro próximo não deve ser necessariamente considerada como o "diabo" da religião cristã. Em termos sociais e psicanalíticos, isso simplesmente será um "resíduo", algum tipo de substituto de um "eu" desaparecido e diante do inconsciente coletivo indiferenciado, essa figura parecerá como "palha salvacional" que, no que concerne sua identificação, será maior do que o caos mitológico nadando abaixo. Portanto, para a pós-humanidade, a "sombra", como uma imagem preservada do "ego" perdido, se apresentará como uma espécie de tentação. A sombra não agirá como um inimigo da humanidade (especialmente porque o homem, nesse momento, dará lugar ao pós-homem). Em vez disso, ele atuará como um inimigo do abismo indiferenciado dos sonhos indistinguíveis.

O que esta "sombra" será em sua vinda? Isso é difícil de imaginar, uma vez que a paisagem social mudará significativamente. O colapso do logos não irá cancelar a ciência, ou mais precisamente a tecnologia, daí a dissolução do indivíduo pode muito bem ser combinada com a continuação do progresso tecnológico pela inércia. Portanto, a sombra virá na comitiva de máquinas e dispositivos. Mas não será um ser humano singular ou grupo de seres. Será algo parecido com uma nuvem, névoa, uma nebulosa de pensamento que pode assumir várias identidades, nomes e tipos. Essas imagens serão um pouco vagas, como se estivessem cobertas de neblina. A sombra quase não aparecerá na forma de monstros, mas sim na forma de memórias e sonhos lânguidos e densos.

Este é um pólo.

Operação Alraune

Outra figura do Apocalipse Jungiano será a anima feminina desencarnada. Esta não será uma fêmea humana, mas a feminilidade em seu aspecto coletivo e aparicional.

Aqui vale a pena abordar a idéia da anima nas obras de Jung com mais detalhes. A anima de Jung não é uma imagem de uma mulher baseada no instinto animal ou na observação luxuriosa do sexo feminino, nem mesmo na memória genética, como o freudismo e a psicologia materialista apresentam. É a criação de um ego puramente masculino que, através da anima, estrutura tanto a si mesmo como as relações com o outro interno (o que é o mesmo), procedendo a projetar essa relação para o exterior sobre o outro e si mesmo agora dentro da estrutura da forma - isto é uma mulher no sentido de gênero social.

O ego masculino não sabe nada sobre o ego feminino, e não quer nem pode saber nada sobre isso. Ele meramente projeta uma imagem viva, na qual ele é apelado pelo inconsciente coletivo ("es"), na matéria sócio-biológica circundante. A anima interna e a mulher externa são para o ego masculino (logos) estritamente um e o mesmo. A anima é primária e aquilo que não coincide com a anima em uma mulher não é notado, é rejeitado, é censurado ou odiado pelo ego masculino. Tudo isso foi rastreado pelos psicanalistas em milhões de exemplos.

Se a anima masculina é atraída para a figura da Melusina (a mulher-peixe feérica com uma cauda e sem órgãos genitais que habita a água), então uma falta de correspondência em mulheres externas em relação a este padrão será apresentada como sua culpa e não como culpa da imagem (na qual, de fato, não há nada de patológico - afinal, ela está harmoniosa e firmemente tecida no léxico sagrado dos grandes sonhos).

Pesquisas paralelas foram conduzidas por Levi-Strauss no estudo da estrutura de parentesco. Nos mitos de muitas tribos americanas, bem como de outros povos da África e da Melanésia ou, mais amplamente, do mundo inteiro, o tema de uma "escala adequada do casamento" é recorrente. Para mostrar o que é correto, um mito mostra o que é incorreto. Existem inúmeros motivos estáveis ​​sobre o casamento com animais (Masha e o urso etc.), espíritos, demônios e anjos (o Livro de Enoque), objetos, monstros e assim por diante. Estes são muito distantes de relacionamentos, o que significa que o ego se moveu muito longe nos horizontes do inconsciente e, como regra, as lendas alertam que nada de bom pode vir disso.

Parentesco próximo demais é algo representado pelo incesto, um tabu que reside no coração de todas as estruturas sociais conhecidas com apenas as exceções mais raras (como o zoroastrismo que legalizou e até prescreveu o incesto e na prática das seitas sabáticas judaicas na Turquia - veja M. Maffesoli). Em relação à anima, isso significa que o ego chegou muito perto do inconsciente coletivo, que está repleto de dissolução ou poderia em seu lugar apresentar suas próprias projeções "egoístas" levando à esterilidade ou à geração de monstros, ou seja, a fluir para o reino da sombra. A sombra é a totalidade desses tabus que o homem tem sido tentado a violar.

Aqui surge uma pergunta: de onde vem o ego masculino? Diferentes sociólogos, filósofos e psicólogos ofereceram diferentes respostas. O sociólogo marxista Bourdieu, por exemplo, acredita que o gênero é um fenômeno puramente social, ou seja, o ego é dotado de uma qualidade masculina exclusivamente pela sociedade - a ditadura do "superego" - e, na prática, através da educação e da estruturação das relações familiares. De acordo com Bourdieu, se um menino é criado e tratado como uma menina, ele será uma menina, e seu ego e personalidade serão totalmente femininos em personalidade. Nisso está baseada a "tolerância de gênero" contemporânea e a interpretação ocidental dos direitos humanos, em que o homem (como o clássico do liberalismo, Locke, afirmou) é uma tabula rasa sobre a qual a sociedade escreve o que agrada. Marx também pensou assim.

Em qualquer caso, pode-se supor que não é o gênero de uma alma (anima-animus) que depende em se o ego é masculino ou feminino, mas pelo contrário - o gênero de uma alma através de uma lógica inversa determina a identidade de gênero do ego. A anima leva a que o ego seja masculino, a fim de tornar o processo de individuação harmonioso, ou seja, sua emergência à luz do logos. Por outro lado, o animus extrapola-se na região do lógico através do ego feminino para exercer a mesma individuação. Notemos que todas essas considerações se aplicam apenas à teoria de Jung, segundo a qual uma alma tem um gênero.

De qualquer forma, compreender a autonomia particular da alma imbuída de gênero nos permite visualizar a figura da Anima que provavelmente nos encontrará ao longo da crise financeira global. Esta feminilidade "sem mulheres" ou "além das mulheres" pode muito bem aparecer através de uma série de arquétipos que se manifestarão diacronicamente ou de modo sincrônico sob a forma de figuras femininas gigantes, mulheres escuras, feias e velhas, fadas, ondinas, ninfas, e salamandras, ou na forma de elementos femininos diretamente, como água e terra. A fantasia plástica do logos social decadente produz formas técnicas ou virtuais. No entanto, não é importante se essas figuras da Anima aparecerão por meio de um mau funcionamento no processo de clonagem ou como resultado do desenvolvimento das ilusões visuais da tela totalitária. O mais importante nisso não é a tecnologia do fenômeno da Anima, mas seu significado filosófico. O logos social tem sido, no último milênio, predominantemente masculino. Ao se decompor, ele derramará a fantasia feminina final, assim como, de acordo com a lenda, a semente largada pelo enforcado produz a mandragora ou Alraune (vejam o maravilhoso romance de Hanns Heinz Ewers, Alraune).

Quando pensamos na feminilidade sem as mulheres, queremos enfatizar apenas como a anima está associada ao ego masculino, e isso significa que o pólo pós-antropológico da anima provavelmente estará vinculado aos homens desaparecidos e seu "Eu" naufragante, em vez das mulheres as quais, do ponto de vista lógico, serão relegadas a um nicho existencial específico. Vamos agora considerar exatamente qual tipo de nicho este será.

Animus

Se a anima é o produto do ego masculino puro, então o animus é o produto do puramente feminino. O homem que constitui o sonho da mulher, ou seja, a forma masculina de "es", nunca existiu e não existe. Este não é o ego masculino, mas algo completamente diferente. Príncipe encantado, o cavaleiro nobre, o herói - a mulher dá à luz e povoa a cultura com eles. A mulher criou o homem. No sentido literal, ela o deu à luz. Figurativamente, ela o inventou. O homem foi pensado pela mulher em três formas - como o bebê, o herói e o professor sábio. Estas são as três instâncias do inconsciente. Puer ludens, homúnculo, lilliputiano, a criança que brinca e ri - são sugestões do inconsciente que o ego feminino é capaz de abraçar, compreender e englobar. O marido heróico é o inconsciente na forma com a qual a batalha existencial pode ser travada para apostar sua existência (já que os homens reais que mereceriam isso simplesmente não existem). Finalmente, o professor idoso é o inconsciente na forma de morte que captura a dinâmica do ego feminino e congela-a no gelo da eternidade. Tais homens vivem apenas na psique da mulher e, a partir daí, aparecem nas obras de arte. Os talentosos artistas feminizados leem as delgadas dobras dos sonhos das mulheres e as levam à cultura. E, a partir daí, como padrões, eles assumem o ego masculino, inteiramente diferente em estrutura e estilo, conforme as normas sociais, a ditadura do "superego" e mantêm o status de persona.

O enfraquecimento da pressão da cultura leva os homens a se transformarem no que vemos ao nosso redor hoje, do que o ego feminino recua em desgosto. Estes são os bebês chorões e de nariz escorrendo de hoje, os homens porcos, imundos (na melhor das hipóteses), covardes e gananciosos homens, os velhos e rudes que acumularam durante toda a vida apenas conflitos e maus hábitos. As projeções sociais do espírito feminino mais cedo juntaram imagens de homens heróicos e as impuseram como o padrão. Quando este trabalho foi enfraquecido em um segmento do logos social pelo qual as personalidades femininas eram responsáveis ​​na era do patriarcado, então tudo colapsou. Somente seres estranhos e desordenados de orientações não-tradicionais permanecem - aberrações e esquisitões. O patriarcado era um produto da extrapolação da fantasia feminina.

Então quem o Animus será sem os homens?

Esta será a figura da liberação final da energia feminina, o herói solar, o "super-homem" - inocente como uma criança, cruel como um homem e sábio como um ancião. O diálogo feminino com o inconsciente produzirá a última emissão de energia erótica em uma figura voadora e dourada. Será efêmera e se dissolverá rapidamente, uma vez que, dada a ausência de ordem social (na superfície da qual o resíduo restante irá nadar em algo similar da política rodoviária, que sobreviverá facilmente ao desaparecimento do sentido e da lógica nas coisas), o Animus terá nada através do que garantir sua vontade de poder. Este será o raio de luz do amanhecer absoluto do "fascismo" metafísico, que se mostrará no horizonte apenas para se fundir na iminente noite em um instante.

No entanto, quem sabe, talvez até a contemplação momentânea do nascimento e do desaparecimento de Animus seja um espetáculo que, de forma ilusória, satisfará as grandes expectativas femininas.

O Sujeito Radical

Ainda outra figura terá seu lugar na (anti) utopia pós-crise. Dessa vez, essa personagem não é do arsenal da topologia junguiana, mas das intuições pós-filosóficas da "nova metafísica". Este é o Sujeito Radical descrito esquematicamente em meus livros A Filosofia do Tradicionalismo, A Pós Filosofia e O Sujeito Radical e o seu Duplo. Embora não seja uma figura junguiana, ela pode, no entanto, ser descrita nos termos do "Apocalipse Jungiano".

O Sujeito Radical é a realização da explosão dos arquétipos do inconsciente coletivo à luz do dia junto a um modelo diferente do logos social e cultural que dominou no ciclo da civilização humana conhecida. O Sujeito Radical é o logos alternativo (ou, mais precisamente, o logos em potencialidade portando um número de logoi) que partilha com o logos conhecido até então a sua natureza diurna, mas que pertence ao fundamento inconsciente e mitológico coletivos da sociedade (cultura, civilização) de uma maneira diferente. Em comparação com isso, a gênese do logos anterior (velho) a partir do mythos era questionável em seu próprio início, se não fatalmente equivocada.

Do ponto de vista filosófico, a teoria mais próxima deste modelo é a "Ereignis" de Heidegger, que ele desenvolveu de 1936 a 1944.

O Sujeito Radical é capaz de individuação sob qualquer circunstância na medida em que opere com o logos não como atualidade, mas com o logos como potencialidade, isto é, na esfera que se situa entre o inconsciente coletivo (mito) e sua concentração na atualidade do logos - antes que essa concentração se torne irreversível.

Este é o logos dissolvido, o proto-logos. O Sujeito Radical é a realização do Selbst na sua forma incondicional livre de todas as circunstâncias, e a psique não participa dessa realização, pois estamos lidando (de acordo com Jung e Otto) com os horizontes numinosos do espírito em pura forma além das águas psíquicas, uma espécie de "caminho seco".

A Composição Final 

O escritor Mamleev escreveu uma vez no título de uma de suas histórias: "Estamos prontos para a Segunda Vinda". Isso é certo.

Qual será a combinação dos pólos da pós-antropologia?

Teoricamente, e seguindo simetrias formais, haverá quatro pós-identidades dinâmicas que são relativamente autônomas - a sombra, o anima, o animus e o Sujeito Radical. Pode-se supor que o "diabo-sombra" tentará expandir seu campo para a extensão máxima disponível, ou seja, contra o anima, o animus e o Sujeito Radical.

Como a reduplicação do Sujeito Radical acontecerá, ou seja, o estabelecimento de seu simulacro diabólico - tentei descrever isso no meu livro O Sujeito Radical e seu Duplo no qual com "duplo" temos em mente estritamente isso que Jung se refere como a "sombra", apenas na perspectiva apocalíptica e sociológica que estamos examinando - a sombra do macrocosmo, e não a micropsicologia. Para resumir este livro em uma única frase: distinguir o Sujeito Radical do seu duplo será difícil, e nisso reside o nervo metafísico de todo o drama do mundo (o mundo foi criado à luz do telos desse discernimento final) .

A valência da relação entre a sombra e o Sujeito Radical, entre outras coisas, dará à sombra um valor metafísico, e desse resíduo inercial do logos em dispersão o transformará em uma figura "socialmente" significativa. Aqui, aliás, é bastante pertinente o modelo teológico da compreensão do diabo que, ao contrário do pragmatismo psicológico de Jung (e sua dependência dos gnósticos) forma em relação a esse personagem as proporções adequadas de reação, luta e fuga (se em tal ponto alguém ainda está "tentando decidir", e agora a mente não é simplesmente "não sua", mas desaparece completamente como fumaça).

O Animus dourado, partindo da periferia do horizonte feminino sob o brilho do fascismo absoluto (jamais do histórico) provavelmente não terá relação com Anima ou com a sombra. Para a sombra ela é inacessível, pois nela o ego feminino é liberado de si mesmo, de seu próprio pecado, de sua própria sombra. O ego feminino é a sombra. Mas o que, então, é o ego masculino? Talvez apenas um mal-entendido? Como o Sujeito Radical se relaciona com o Animus desencarnado ainda não está claro. E terá isso algum significado para ele? ...

Agora, a sombra definitivamente tenta aproveitar o Anima líquido, incluí-lo em sua estrutura, talvez pela inércia da memória. Como a física moderna sabe, mesmo as substâncias materiais têm memória. A sombra verá a simetria pós-antropológica com seu ego feminino desaparecendo no nada.

Um outro, quinto, elemento será o pano de fundo, que só pode ser descrito como o "retorno dos deuses antigos" (a fórmula de Heidegger), o surgimento do inconsciente coletivo ou do inferno em sua forma etimológica, à medida que o invisível (Hades) se torna visível (idéia, forma). Na ausência de um logos repressivo, todos os mitos se elevarão sem qualquer controle diacronico ou qualquer ordem (Ordnung). A consciência cristã também consegue compreender isso, como demanda a religião. Em um sentido moral, estritamente religioso, a tentação não deve ter poder ou força sobre o homem salvo, se o mal não assume, em algum momento, características ambíguas que formam uma escolha espiritual e moral - porque o discernimento dos espíritos é um desafio verdadeiramente heróico e um grande feito - e não se dar por garantido como uma banalidade sociocultural. Quando o mal vem sob o disfarce do mal, não é tão difícil rejeitá-lo. Quando ele vem como algo incompreensível e avassalador, de uma só vez, então tomar uma posição estrita é muito mais difícil. Tudo gira e sai do lugar, e é impossível distinguir uma coisa da outra. Este é o mal vigoroso e eficaz.

Isso acontecerá?

Necessariamente acontecerá, uma vez que, por um lado, esse cenário, em termos gerais, tem estado escrito nos textos sagrados da humanidade, enquanto, por outro lado, a sociologia moderna, os estudos culturais, a filosofia e a psicologia analítica têm em suas próprias línguas e terminologias chegado a uma visão mais ou menos parecida. Certamente acontecerá, e precisamente como foi descrito. A questão é quando exatamente?

Todo fracasso na história da civilização, todas as grandes guerras, desastres naturais, revoluções sangrentas e ciclos insanos de desenvolvimento cultural, político, social, econômico e tecnológico pode significar potencialmente o colapso do logos social, que tem claramente e já há muito alcançado a sua saturação e passou pelas principais etapas de sua jornada. O logos social já "nasceu, casou-se e morreu". Isso se tornou óbvio na época de Nietzsche. Heidegger, Spengler, e em um sentido mais amplo, a maioria dos conservadores revolucionários da Alemanha nos anos 20 e 30 viviam exclusivamente com a sensação desse fim.

A Revolução Russa cavalgou essa mesma onda, pelo menos como os poetas, os filósofos e os artistas da Idade da Prata o entendiam (e eles eram os únicos a entender isso corretamente). A proposta de que o proletariado se reconhecesse como uma identidade de classe (especialmente na década de 1920), a literatura de A. Planatov e as poesias de Klyuev, Blok e Mayakovsky já haviam antecipado o movimento pós-antropológico das energias desencarnadas e desumanizadas. A Rus-Sofia de Blok é Anima. Klyuev descreveu em detalhes a geografia do inconsciente coletivo com a minuciosidade de um zoologista ou inspetor alemão. Mayakovsky criou uma ontologia poética dos seres de classe. Platonov explicou como viver e trabalhar através das comunas luminosas, como seus heróis comem a terra (como o personagem Chevengur que chama a si mesmo "Deus"), se transformam em Dostoiévski e prejudicam violentamente e voluptueiramente a realidade de Rosa Luxemburg e da revolução mundial.

Se analisarmos mais profundamente a história, o que a Rus viveu na era do cisma e a Europa durante a Reforma pode muito bem ser atribuído à mesma categoria. O mundo terminou, o logos social se quebrou e desabou, e, por debaixo dos escombros, rastejaram as figuras gigantes do subconsciente indomado.

Não houve poucas repetições da crise atual, e a humanidade está culturalmente pronta para tal. O escárnio que chamamos de "modernidade" com suas quimeras e vazio acabará mais cedo ou mais tarde. Assim, tudo acontecerá, acontecerá em breve e acontecerá exatamente assim. Claro, não descrevemos como, porque vemos tudo como aberto e estamos nos preparando para participar.

E ainda assim existe a probabilidade de que essa bolha explosiva não seja a última (ou a quase última). Heidegger ponderou metafisicamente: "Vivemos perto do ponto da meia-noite - não, parece que ainda não - sempre o eterno 'ainda não'"...

Mas não importa quão frustradas as expectativas de um resultado rápido possam ser, isso não significa que nunca haverá um fim. Pode demorar, mas olhem ao redor. Tudo porta sinais disso. Talvez ele seja adiado mais uma vez, ele vai se dissolver, e a escória vai mais uma vez se alegrará, sentindo que desta vez é "ainda não..." Poderíamos permitir isso, mas, novamente, talvez não ele seja adiado. Mesmo que fosse, é preciso viver - já hoje - como se não fosse ser adiado. E quando viveremos verdadeiramente, fixos no resultado pós-antropológico, vivendo dentro dele mesmo e talvez antecipando seus eventos, então tudo acontecerá.


Acontecerá, ele necessariamente acontecerá.