quinta-feira, 4 de maio de 2017

Daria Dugina - França: Globalismo vs Patriotismo

por Daria Dugina



O globalista Emmanuel Macron venceu o 1º turno das eleições presidenciais na França (23.75%). O líder da "Frente Nacional" Marine Le Pen tem 21.53%

O Segundo Turno: Globalismo vs Patriotismo

Os programas dos candidatos são diametralmente opostos um ao outro em todas as esferas: da política à economia. A líder da "Frente Nacional" desde o início de sua campanha declarou que fala "em nome do povo" (este é o slogan de sua campanha eleitoral). O principal procedimento para garantir a vontade do povo no curso político do país é o referendo. Seu objetivo é restaurar a grandeza da França, restaurar a soberania em quatro dimensões: legislativa, jurídica, econômica, monetária. Na política externa, ela defende as posições do realismo e considera a soberania do Estado (territorial, legislativa, econômica, política, etc.) como sendo o valor máximo.

O presidente, em sua opinião, é o garantidor da soberania. Seu euroceticismo e uma avaliação negativa da participação francesa na OTAN e na UE correspondem ao humor político do povo. Marine Le Pen hoje representa as forças do populismo, o povo francês.

Macron representa o modelo político oposto, o pólo político oposto. Sua doutrina é 100% antipopulismo (ou seja, programa antipovo). Ele representa as elites financeiras globais, que não estão interessadas na admissão do povo ao poder. Sua percepção e entendimento do povo pode ser derivada dos conceitos filosóficos de seus professores (Jacques Attali, por exemplo). Os portadores da iluminação liberal, da "verdade" são as pessoas do clube globalista (governo mundial), elas estão sempre um passo mais perto da verdade que os "não-iluminados" (as origens desse conceito estão na filosofia do Iluminismo).

O povo é o portador de um paradigma arcaico, "velho", "regressivo", "antiprogresso". Este é um tipo de fardo para avançar (o nome do movimento de Macron, "En Marche", o caracteriza como um progressista. Para a frente, não para trás? Para frente para onde? Para um novo futuro, para o progresso, para um único mundo unipolar, e não de volta à multipolaridade, ao sistema vestfaliano, aos Estados nacionais e tradições?). Em um de seus discursos, o globalista afirmou que "não existe cultura francesa, há cultura na França". Ademais, ele desdobra seu pensamento e acrescenta que "como não há cultura francesa, também não há identidade francesa". Para Macron não existe um povo francês, e não existe uma França como país soberano. Ele a vê apenas como uma entre muitas partes de um único mundo global de capital que avança rumo a um "futuro melhor". Na política externa, Macron é um apoiador consistente da integração europeia. Ele é apoiado por Merkel e os cabeças da UE são fortes apoiadores (Junker foi um dos primeiros a parabenizar Macron por sua vitória).

Se declarando como candidato que não é "nem de direita, nem de esquerda", Macron habilidosamente combina valores políticos esquerdistas (globalização, crença no progresso) com economia direitista (capitalismo) em seu programa.

O Fim da Era da "Esquerda" e da "Direita"

Após o anúncio dos resultados das eleições, observadores políticos da BFMTV notaram que existe um "quadripartidarismo" na França, que há quatro particos principais e quatro tipos de França: A França de Macron, a França de Le Pen, a França de Fillon e a França de Mélenchon.

Em nossa opinião tal análise está equivocada. Os resultados eleitorais mostram que há, na verdade, 2 blocos diferentes na França: os globalistas franceses (Macron, ao qual se uniu Fillon) e os patriotas franceses (Le Pen e talvez Mélenchon, que pelo menos ainda não falou contra Le Pen). As forças de esquerda e direita se fundiram completamente com o sistema, não há diferença entre elas. O socialista Hamon, que foi por um longo tempo opositor da Lei El-Khomri, pediu por um voto para a pessoa que fez lobby por essa lei, Macron.

O candidato republicano Fillon, crítico de Macron, se uniu a Macron. Tanto os candidatos de direita e esquerda se tornaram parte da equipe de Macron. A divisão (partidos de direita/partidos de esquerda) que existiu por séculos está legitimamente acabada.

Mélenchon, Você está com o Globalismo ou...?

Diferentemente de Fillon e Hamon, Mélenchon não pediu que seus apoiadores votassem por Macron ou Le Pen. Até agora, a situação permanece incerta. Mélenchon, que é usualmente chamado pela imprensa liberal de populista de esquerda, se situa perto da perigosa fronteira entre o sistema e o antissistema. Por um lado, ele está contra a UE e o globalismo.

Pelo outro lado, ele defende fronteiras abertas e imigração. Ao combinar economia esquerdista e política esquerdista em seu programa, Mélenchon pode 1) se aproximar ao sistema (pedir para votar contra Le Pen), 2) solidificar com Le Pen por conta do programa econômico esquerdista dela (desenvolvido em anos recentes por seu assessor Florian Philippot) ou 3) a opção de "votar em branco" no segundo turno, que teoricamente daria mais vantagem para Le Pen (aliás, os candidatos esquerdistas Poutou e Artaud já afirmaram que votarão em branco no próximo turno).

A Última Batalha de Le Pen contra o Sistema

O filósofo Alain de Benoist notou que Macron é um fenômeno de "consolidação das elites financeiras mundiais" face um povo despertando do sono político. Macron é um conceito. O conceito do antipopulismo. Quando o antipopulismo aparece e qual é seu propósito? O antipopulismo surge como reação das elites à emergência da consciência política entre o povo. O povo da França, sob a pressão da crise migratória, do desemprego e da situação política doméstica instável no país, percebeu que seus interesses não são levados em consideração nas decisões políticas.

As elites são guiadas por sua própria lógica, e entre elas e o povo há um abismo. O povo não concorda com essa situação e começa uma revolta. O líder dessa revolta é a Joana d'Arc da França moderna, Le Pen. Ela se tornou uma ameaça real ao sistema já em 2015, quando seu partido conquistou o primeiro lugar no primeiro turno das eleições regionais. Entre os dois turnos, tanto os partidos de esquerda como os de direita convocaram um voto contra Le Pen. O sistema viu em Le Pen um inimigo e competidor perigoso.

Macron foi desenvolvido pelo laboratório do globalismo. Ele foi especificamente esculpido para ser a oposição a Le Pen. Seus criadores perceberam que a população não mais acredita em forças políticas de "esquerda" ou "direita", e aguarda por algo novo. Sua imagem midiática é a seguinte: um banqueiro sorridente de 39 anos, um trabalhador diligente, e em geral uma "pessoa decente" e um "bom marido". Ele diz ser o candidato novo que quer mudança, e ele tem as sugestões para superar a crise. O sistema o criou. Ele foi criado como oposição a Le Pen.

Hoje, a mídia, o sistema judiciário e o sistema administrativo estão todos trabalhando contra Le Pen. Essa candidata é uma ameaça ao sistema. Sete grandes lojas maçônicas pediram voto contra Le Pen, no centro de Paris radicais antifas e representantes de movimentos financiados por Soros vão às praças para protestar contra a "extremista" Le Pen, nos jornais vemos as publicações com tais títulos: "Se Le Pen se tornar presidente, a França estará morta".

Hoje, todo o sistema está contra Le Pen. E Le Pen heroicamente está contra o sistema. Quem sabe, talvez a força do protesto popular, sua revolta contra a ditadura das elites e contra a tirania neoliberal acabe se mostrando um sucesso?


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