terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Eduardo Velasco - A bebida da memória, a força universal e o poder perdido: reflexões sobre o Graal

por Eduardo Velasco

"Supremo anelo do paraíso: 
isto era o Graal — sobre o qual nada é
O esplendor terrenal —, a pedra de luz".
(Wolfram von Eschenbach, minnesänger e templário alemão, século XIII).

"Há uma nova missão, dificilmente perceptível aos olhos humanos, que dificilmente pode ser claramente compreendida: a missão de assimilar o conhecimento e torná-lo instintivo".
(F. W. Nietzsche).

INTRODUÇÃO 

A evolução eterna não é a lei da Natureza. As leis do mundo material decretam vida e morte, plantar e colher, inspiração e expiração, ciclos temporais de nascimento, crescimento, cimeira, envelhecimento e morte. A reprodução, como uma roda eterna, renova os ciclos como sinal de esperança, mas a própria Natureza não pode chegar à formação da vida "divina", já que a roda dos ciclos e das encarnações não dá tempo a ela; dilui a memória e o sangue, tende a dar uma margem de desenvolvimento e, em seguida, destruir e começar de novo a partir do zero. A Natureza respira, se expande atraída pelo céu de fora e o fogo do espírito de dentro, e é contraída pelo efeito da terra, o gelo e a "sombra", em um círculo de tempo. Uma pessoa, uma civilização ou uma raça que sejam perfeitas, puras, fortes, jovens e acima de tudo, que sejam tudo isso eternamente, são coisas não antinaturais, mas sobrenaturais, porque pela sabedoria mundana se pode contornar a lei do tempo e da matéria, mas escapar dessas leis indefinidamente requer uma transmutação total que exceda as fronteiras e limites impostos pelo planeta e pela própria biologia humana — o espírito celestial, armado com a espada correta da vontade, irrompe na cena para empossar a sabedoria de outro mundo, mais sutil, mais elevado e mais puro do o que meramente material. 

Portanto, a imortalidade — o zênite eterno — é algo completamente a margem da matéria, pois prolonga eternamente algo que só em um momento fugaz reside nele (o solstício de verão, a juventude, o meio-dia, a era de ouro, o Kritta ou Satya Yuga, isto é, o ápice do desenvolvimento) e está fora dos ciclos do tempo e da roda das encarnações. Tal e como se entende a imortalidade sagrada, significa que o zênite da perfeição, extremamente fugaz na Natureza, "congela" no tempo como na matéria, para sempre.

Como as vidas humanas, as civilizações nascem, se desenvolvem, degeneram e morrem, sem nunca chegarem ao seu ideal. Nunca houve uma civilização que tenha se desenvolvido indefinidamente sem acabar caindo. Todas acabaram por sucumbir depois de subir o cume e cair, geralmente muito mais rápido do que levaram para subir. Nossa própria civilização está em declínio e está indo em direção a sua morte, que vai acontecer em breve e é necessário. Conceber uma civilização imortal que conhece apenas a elevação eterna é outra anomalia que está fora da Natureza, que pertence ao espírito e que também se refere à imortalidade. É por isso que, nos mitos que examinaremos, muitas vezes encontraremos referências a um "reino divino" ou a uma espécie de "eterno império sagrado": algo que só é concebível com participação sobrenatural. 

Encontramos pistas para esse pensamento nas mitologias indo-europeias (e em muitas não indo-europeias), onde sempre se fala de uma força misteriosa que se encontra em tudo e que também reside no ser humano. Nas palavras de Otto Rahn, "uma força que uniu homens dos mais diversos pontos cardeais, mas da mesma raça e da mesma origem. Aderindo aos mais antigos mitos arianos, chamamos-lhe «força ariana» [1]. É aludida nas tradições esotéricas à necessidade de encontrar, lembrar e despertar essa "energia" por meio da alquimia interior e do exercício da vontade e, simbolicamente falando, a representação mais comum dela é geralmente a libação de uma bebida sagrada que concede sabedoria, memória perdida e vida eterna, juntamente com a abertura de um poder que é descrito como um olho radiante ou um raio que estava latente desde os tempos antigos devido à queda do estado de graça original e o trauma que ele contraiu. 

Junto com isso, costuma-se dizer nas mitologias que para os heróis é preciso roubar, conquistar pela força, arrancar das forças sombrias e telúricas da rocha e do gelo um ideal luminoso que originalmente era patrimônio dos "deuses", ou seja, dos perfeitos seres imortais. Isso implica que as forças escuras se apoderaram dos deuses (ou talvez os deuses a sacrificaram voluntariamente para semear sua semente) uma força que permanece fechada na Natureza, e que é necessário liberá-la para restaurá-la à sua função original. Mas só os melhores, os puros, os fortes, os corajosos, em suma: os heróis são capazes de recuperar esse ideal. Vamos também assimilar esse conceito, identificá-lo e interpretá-lo nos diversos mitos que surgirão.

Para viver, o homem precisa extrair energia de várias fontes. Ele tem que respirar, tem que beber e tem que comer, além de que para sobreviver como espécie e imortalizar seu código genético, tem que se reproduzir através da sexualidade. Isso em termos dos impulsos que vêm da Terra e do corpo material. No entanto, nem tudo no mundo é a Terra, nem tudo no homem é material. Há outras forças movendo-se no universo; forças que não são materiais, que não podem ser medidas materialmente, que muitos não podem ver, assim como os cegos não veem as cores, mas, no entanto, agem claramente no mundo. De acordo com a mentalidade dos homens dos tempos antigos, se respirar, beber e comer da a vida (e não fazer essas coisas dá a morte) tinha que haver, em algum canto da criação, uma substância superior que dá o que é mais que a vida: imortalidade. Tinha que existir, portanto, algum tipo de essência superior, uma "força universal" que os conquistadores possam tornar sua. Uma vez que a reprodução é a coisa mais próxima da imortalidade material (neste caso, dos genes), a "força universal" terá nuances de natureza sexual. 

"Nem só de pão vive o homem": não basta comer, beber, dormir e respirar para sustentar-se. O homem também precisa alimentar seu espírito por meio de impulsos de luta, força, conquista, ambição, sabedoria, amor, raiva, ódio, vitória, poder e glória. Tampouco basta para ele reproduzir-se e deixar herdeiros carnais, mas que, também, deve deixar sobre o mundo tochas herdeiras de sua própria chama espiritual. O homem superior consumado derrama energia sobre o mundo ou o adquire da Terra, de Deus e de seu próprio interior, em uma estrada de dois sentidos. Na linguagem simbólica, o sacrifício e as grandes obras são o generoso derramamento de energias, como sucede na guerra, ou — no caso do homem — no ato sexual completo com uma mulher. E também na linguagem simbólica, a bebida é a ousada aquisição de energias, é o direito de saborear o néctar daqueles "outros" frutos — mais sutis, talvez intangíveis — conquistados e cultivados. É necessário dominar o baixo para poder transformá-lo em fonte de energia para cima. A luta e amor — violência e excitação, sofrimento e prazer — podem ser fontes de energia e não parasitas, se a atitude em relação a elas não é apenas a de desperdiçar força, mas também adquiri-la.

Em qualquer caso, o sofrimento vem em primeiro lugar, uma vez que qualquer processo de crescimento e construção é de baixo para cima e de dentro para fora. O bom custa. Quem quer ascender às verdadeiras alturas deve esforçar-se e sofrer nisto, experimentar em sua carne as cicatrizes cruéis do instinto, do abismo e do mundo. Aquele que anteriormente sofreu e lutou na luta contra si mesmo não será facilmente seduzido pela opulência posterior dos suntuosos palácios que ele alcançará, mas será firme, prudente e duro. Quem não tenha sido humilde, obediente e sacrificado, não poderá comandar, de exigir que os outros se sacrifiquem por ele ou agir com justiça e sabedoria quando tiver uma grande quantidade de poder em suas mãos. Quem não tenha passado mal, será incapaz de apreciar os confortos e belezas mais simples, e sempre terá uma visão parcial e incompleta do mundo ao seu redor — será caolho. Esse "outro" tipo de caolho, o deus escandinavo Odin, que sacrificou um olho para ver as coisas que os mortais são incapazes de ver, expressou muito bem quando disse: “As cabanas desci e aos palácios ascendi”.

Nenhum homem deve ter acesso ao luxo, ao conforto ou à reprodução de sua espécie sem ter conquistado esses direitos na luta física e espiritual contra si mesmo, seus semelhantes e seus inimigos, assim como nenhum "iniciado" deveria pensar em ativar seus centros corporais elevados antes de ter superado com sucesso os centros inferiores. É por isso que a civilização tecnoindustrial se baseia numa ordem antinatural: o homem moderno goza de direitos, posses e um estilo de vida que não conquistou e que não seria capaz de defender.

Escusado será dizer que o que se vai tratar aqui está relacionado, não só com o Graal, mas com a ideia do Graal que tiveram outros povos além dos celtas e dos germânicos.

Finalmente, gostaria de deixar claro que este é um assunto complexo para tratar e muito complicado. Espero, portanto, desculpar o leitor pela acumulação excessiva de ideias e um estilo desordenado e um tanto desarticulado.

EXPLICAÇÕES PRELIMINARES

Para começar, examinaremos algumas questões de interesse que nos ajudarão a entender o que explicaremos mais adiante, melhorando nossa compreensão e aumentando a força da sugestão contida nos mitos e nos símbolos.

Veremos que sempre que se fala nos mitos das bebidas sagradas, poderes divinos ou forças cósmicas, também aparecem símbolos como o olho, o Sol, o raio, a Lua, a coroa, a flor, o orvalho, o cálice, o eixo do mundo (seja na forma de uma montanha, árvore, castelo, rocha, ilha ou outros), o gelo, o caldeirão, a maçã, a águia, a serpente, o dragão, a amada mística, o amor sagrado entre o herói e a donzela, o “sexto sentido”, a sabedoria, o fogo, o ouro, a inspiração, a pedra sagrada, o jardim, a poesia, a juventude eterna, a imortalidade... e o número 3.

Continuemos com a inevitável menção de um fato fundamental na maioria das mitologias: a presença da raiz Man-Men-Min-Myn-Mon-Mun, nos mitos que aludem à imortalidade. Veremos, por exemplo, que a memória mística desempenhará um papel importante nesses mitos. Bem, a "memória" era memini para os latinos, munin para os vikings (o nome de um dos corvos de Odin, o outro é Hugin, "pensamento"), munni em gótico e minni em islandês, que é o idioma moderno mais semelhante ao antigo nórdico. A “seguridade interior devota” era minneskein para os helenos e man em sânscrito. Minerva, a deusa da sabedoria em Roma (Atena na Grécia), saiu da testa de Júpiter, como se representasse seu terceiro olho. A "fúria divina" era chamada Aesjma pelos iranianos, Ishmin pelos indo-iranianos e Menon pelos gregos. Da mesma forma, os hindus chamavam Mada a inspiração divina, e Manipura (joia) o plexo solar, associado com a vontade. O menadismo da Grécia, isto é, o culto a Dionísio, procurava conseguir o delírio da mania, um transe sob cujo domínio as ménades destruíam e comiam animais crus. O historiador grego Heródoto fala sobre o cabra macho de Mendes, ao qual as damas se uniam para gerar "filhos divinos". Os cátaros tinham uma cerimônia importante chamada Manisola, e os trovadores alemães (minnesängern) cantavam a minne (amor-memória), que era equivalente a anglo-saxã myne, cantada pelos menestreis, trovadores da Inglaterra. Mani era a divindade lunar para os antigos escandinavos, além do nome do profeta do maniqueísmo. Também na Pérsia, Mani era considerada uma pedra sagrada. "Om mani padme hum" (da lama nasce a flor de lótus) é o mais conhecido mantra do budismo tibetano, e comprovamos que a sílaba om está presente, que é o mantra associado ao sexto chacra, bem como uma partícula incluída em onfalo, pedra sagrada considerada "umbigo do mundo" no mundo grego. Manu, no hinduísmo, é o progenitor da humanidade "ariana" e o forjador das leis, enquanto que de acordo com Tácito ("Germânia"), os germanos adoravam um ser ancestral chamado Mannuz, que era o patriarca fundador do germanismo; os egípcios, por sua vez, tinham um herói distante chamado Menés, que teria fundado seu país por volta de 3000 AEC. Também do Egito vem o deus Ámon ou Amun, que com o tempo também se identificaria com o deus da fertilidade Min. Para os hindus e budistas, Mandala é um desenho circular que ajuda na concentração mística. O Irminsul era o eixo do mundo para os germânicos, assim como Jormungandr era a serpente do mundo. Novamente no hinduísmo, o domínio de manas ("raiz interna e transcendente dos cinco sentidos" de acordo com Julius Evola) era uma condição para a qual aspirava-se à honra real, enquanto que nas línguas iranianas, mana significava "grande"; essa mesma palavra, em tradições tântricas, significava "mente". Tanto manas em sânscrito como manan em persa, mens em latim, menos em grego ou mind em inglês, significam mente, enquanto que moon significa lua em inglês, um arquétipo intimamente relacionado, como veremos mais adiante. Os egípcios tinham a divindade Mentu ou Montu (dos quais nomes de faraós como Mentuhotep), enquanto que ainda hoje os montes e as montanhas são consideradas de natureza mística e transcendente. Os romanos chamavam Minerva sua versão de Manas, isto é, a deusa da mente, e o médico e alquimista alemão Paracelso chamava Munis Magnum a "força universal". Além disso, o Maná está no Antigo Testamento (Êxodo e Números, mas também no Corão, que compartilham sua origem semítica), o alimento divino com que Javé alimentou os judeus durante sua estada no deserto.

Essas palavras designam, em vários lugares, a força que adormece em toda matéria e que o homem pode despertar dentro dele através de intensa concentração, excitação, vontade, raiva, devoção, ascetismo ou ira. Podemos aventurar que tudo o que está relacionado mitologicamente com o "poder mental", com a memória mística e com a inspiração, também está relacionado com a lua, com a mente, com o "terceiro olho" e especialmente com o arquétipo da runa Man, cuja raiz básica deve seguir todos os termos que vimos. Esta ideia é superior ao corpo físico, mas inferior ao espírito, da essência solar, do "raio", que é aquele que concede a iluminação. Trata-se, portanto, de uma espécie de "alma", substância intermediária entre os dois elementos e ponte entre eles, que é necessário transitar para aceder à iluminação, e que está muito relacionada, como dissemos, com a lua, com o mercúrio alquímico e com equivalentes a isso nos mitos, como o orvalho ou "água da lua".

A runa Man, um símbolo de óbvia orientação celestial e viril — pois convida a alcançar o céu — e vagamente um lembrete da forma de uma copa, uma árvore ou um para-raios. Hoje essa runa é proibida na Alemanha, mas para os antigos germanos, simbolizava os ramos do Irminsul ou Yggdrasil, ou seja, as conexões celestes, solares e espirituais da árvore do mundo. Embora este conceito seja desenvolvido em outro artigo sobre o eixo do mundo, avançaremos que a runa Man (alma, renascimento, despertar, Albedo alquímico), como termo intermediário, está acima da runa Yr (a runa Man invertida ou o símbolo hippie: corpo, morte mística, Nigredo alquímico, matéria, raiz, fundação) e abaixo da runa Sig (espírito, iluminação, raio, Rubedo alquímico). Obtemos a combinação da runa de Man e da runa de Yr (isto é, uma runa Heil ou Hagal), a árvore do mundo, alcançada por um raio.

A Lua, durante a escuridão da noite, recolhe a luz do Sol, e de fato é na superfície lunar que a luta entre a sombra da Terra e a luz do Sol é resolvida: a Lua se torna um campo de batalha, ou uma copa que pode ser enchida e esvaziada da luz solar (espírito). A lua cheia evoca a nostalgia que faz os lobos uivarem, e antigamente se explicava que o orvalho, a "água da lua", caia desta, impregnando a Terra com sua energia. Para os druidas, o orvalho vibrava monólitos e dólmens, e para os taoístas chineses, carregava grandes quantidades de Chi e favorecia a meditação e o fluxo de energia. Por outro lado, no simbolismo do Graal e nas energias divinas, a forma da esfera, do disco, do recipiente, da roda ou da mesa é muito recorrente: o símbolo do Círculo. A taça, a chaleira ou o cálice são redondos, como o são o sol e a lua, a mesa do rei Arthur e seus doze cavaleiros e a planta do castelo do Graal de acordo com o "Titurel" do famoso trovador alemão Wolfram von Eschenbach. A lua simboliza a alma, a nostalgia da luz solar do espírito, a recuperação, entre a escuridão, da memória de uma luz maior.

A lua crescente, símbolo da alma que encontramos na base de muitas bandeiras romanas e nazistas. Também nas bandeiras do Islã e decorado nas cúspides de suas mesquitas. Está relacionado com as serpentes, a água, as asas, o mercúrio alquímico e os chifres. Observe sua forma de tigela ou recipiente, de modo que ela só precisa de um eixo para se tornar uma copa.

Representação do deus celta Cernuno, meditando rodeado por animais simbólicos. Em sua mão esquerda, ele segura uma serpente, símbolo de forças telúricas, e em sua mão direita, uma torque (em outros casos, uma ferradura) com as pontas para cima, símbolo lunar por excelência. Da mesma forma, os chifres do deus envolvem algum tipo de união com o céu, isto é, que sua alma está pronta para receber o raio do disco solar, como no caso da deusa egípcia Hator, mais abaixo.

O Sol está relacionado com o fogo, o ouro (dourado, resplandecente, brilhante, luminoso), enquanto a lua está relacionada com a água, o prata e o orvalho (prateada, pura, branca ou transparente) e a runa Sig (também chamada Sul, Sal, Son, San, Sun). O símbolo do segundo chakra no hinduísmo é uma lua crescente, e é especificado que seu elemento associado é a água. O segundo chacra, além disso, é o da sexualidade, que controla nos homens a fabricação do sêmen, associado com a essência vivificante "caída da lua" que fertiliza a Terra. A união dos dois olhos — Sol e Lua — produz o terceiro olho, assim como a união do herói com sua valquíria produz o filho sagrado, quando o herói impregna-a com sua essência, tornando-a depositária: a valquíria simboliza o cálice do Graal, por isso é muitas vezes uma dama que, mitologicamente, mantém a bebida sagrada. A mulher contém a essência, é ela própria um cálice que, após a união sagrada, contém a essência do homem. Isso está relacionado com a união e harmonização dos opostos que antes estavam separados pelo nada e pelo vazio. Está relacionado com um dualismo de aproximação, não de afastamento; de união, não de separação; de construção, não de destruição.

O sol, o espírito, símbolo de virilidade, glória, luz e poder. Seus sinais são universalmente recorrentes e conhecidos. A suástica e a roda solar são suas representações, bem como o raio e a águia.

A Lua é a copa e é a mulher. O Sol é o conteúdo e é o homem. Quando ambos os princípios se reúnem, surge o milagre sagrado, a união do lunar e do solar. Aqueles que afirmam que "o Graal é uma mulher" estão errados, porque a mulher simboliza o cálice e, portanto, metade do Graal. A busca do cálice realizado pelos cavaleiros medievais é, na verdade, a busca da amada perdida, o anseio de fidelidade. A busca do cálice vem a ser a busca de algo tão puro que seja digno de acolher a maior força solar. Portanto, todo o Graal não é apenas o cálice, mas também o conteúdo. Juntos, o par sagrado, Sol e Lua, herói e valquíria, céu e Terra, direita e esquerda, "bom" e "mau", luz e escuridão, soldado e monja, formam o Graal. Dele nascerá um filho superior.

Nesta imagem simbólica vemos como a lua crescente de prata contém o Sol de ouro em uma alegoria metafórica de como o cálice contém o ouro líquido — a bebida sagrada — ou como a Lua é quem, na noite escura, conserva a luz do Sol, refletindo-a na Terra e iluminando-a fracamente. Simbolicamente, a Lua é para o Sol o que o corpo é para o espírito, a mãe para a essência masculina (e para o filho) e a Terra para o céu. Este símbolo é equivalente de certa forma à cruz celta, pois representa o círculo (a lua) que contém a cruz (o sol). O símbolo da lua-sol decorou a coroa de muitos deuses egípcios, e os chifres ou asas que possuem nas cabeças de outros deuses representam esta mesma coisa: o "recipiente" que contém o disco dourado sobre a cabeça.

Os chifres (Cernuno, Ártemis, Lúcifer ou vários deuses egípcios) e as asas (Hermes-Mercúrio, Odin-Wotan), na cabeça das divindades, representam a Lua, o vaso lunar que contém o disco solar. O disco solar, a aura na cabeça das divindades, representa o Sol. Assim, os chifres e as asas contêm o Sol, como pode ser visto particularmente nas representações dos deuses egípcios. Os chifres e as asas são símbolos arquetípicos e dualistas. Os chifres representam uma espécie de ramos de árvore, antenas ou "para-raios" que conectam o indivíduo com o mundo celeste. Antigamente, os chifres eram um sinal de sabedoria (Michelangelo, em seu "Moisés", representou este suposto profeta judeu com dois chifres discretos, como se fosse uma espécie de legislador ancestral, de Manu). As asas, da mesma forma, representam a capacidade de "voar", para subir ao céu. A serpente, que é outra figuração deste mesmo, representa a Terra, mas também contém o disco solar, como uma representação do corpo que contém o espírito: o dragão (Fafnir) que vigia o ouro é mais um símbolo pertencente ao arquétipo do qual falamos. Tanto os chifres como as asas, assim como os olhos, e a serpente dupla, são símbolos dualistas, uma vez que representam o bom e o mal. Em várias ilustrações esotéricas, são representados homens com duas faces (Jano) ou águias de duas cabeças (como no rito escocês da Maçonaria). A glândula pituitária (sexto chacra ou terceiro olho) é dividida em duas metades (a adenoipófise e neuroipófise). O cérebro também é dividido em dois hemisférios, um relacionado à racionalidade material, e o outro às capacidades intuitivas. Ambas as partes são vitais. Entre os dois elementos encontra-se o que está "além do bem e do mal": o princípio supremo e luminoso, o raio e o Sol. Desta forma, já sabemos o que contemplamos quando vemos um disco solar flanqueado por duas asas, ou uma aura entre dois chifres, ou uma suástica rodeada por um círculo, nas patas de uma águia.

Acima, várias representações aladas ("alma") com inserções circulares (roda do tempo, mundo material), e solares ("espírito"): disco alado egípcio, representação hindu do sexto chacra, disco alado assírio, faravahar persa e Wehrmacht alemã. Outros símbolos também poderiam ser citados, como as asas do capacete de Odin, ou como nas sandálias de Hermes-Mercúrio, seu equivalente mediterrâneo.  Observe a presença da dupla serpente, a coroa com chifres e os dois laços. Estes símbolos representam a alma ("asas"), preenchida pelo espírito (essência solar, águia, cruz gamada) e dominando o mundo material (serpente, círculo em torno da cruz). São, de fato, outras maneiras de falar de uma copa cheia de bebida sagrada, e constituem fabulosos símbolos de triunfo e vitória. Que tantas civilizações tenham plasmado símbolos tão semelhantes não é casualidade, mas devido eles terem aderido à sabedoria total, que é sempre a mesma, embora cada povo expresse-a com variações.

Esquerda, representação do deus Rá do Egito. Observe a serpente que envolve o disco, no estilo de um Ouroboros ou Jormungandr, ou como o anel que forma a serpente branca na mão esquerda do homem-rei no desenho alquímico mais abaixo: a serpente (Kundalini do hinduísmo) ascendeu desde o mais baixo e ascendeu o mais alto: o "círculo" da alma é concluído, o recipiente que será confiável para receber e contender a força do sol do espírito. Direita, representação da deusa Hathor do Egito. Note-se que há uma pequena serpente em seus chifres, e que a aparência do conjunto sobre sua cabeça é como a de uma copa.

Tudo isso está relacionado ao símbolo da coroa e da aura. Nas lendas heréticas europeias, a coroa (lua, copa,) continha a pedra de Lúcifer (sol, conteúdo). E o objetivo dos heróis era, por meio da luta e da elevação, reintroduzir a pedra na coroa de Lúcifer, em uma união sagrada, um casamento ritual que unisse matéria e espírito, ciência e religião, soldados e monges, homem e mulher. Desta união nasce o produto supremo, o filho divino e sagrado, o superhomem.

Em linguagem simbólica: somente do cálice do bem e do mal, das duas serpentes, das duas asas e dos dois chifres, pode-se beber o que é capaz de abrigar — o que está além do bem e do mal. Esta força pura, que está presente em pequenas quantidades em toda a matéria, está muito relacionada com a noção de "eixo do mundo" e símbolos análogos (pilares, árvores, montanhas, copas), mas é uma questão que será tratada noutro artigo.

Os chifres e as asas, caduceus, copa, águia, serpente, coroa e Irminsul são símbolos relacionados. O próprio Irminsul é uma copa, mas também se assemelha a duas asas no topo de uma coluna. É o Graal, o eixo do mundo. Curiosamente, o Irminsul era conhecido como Yggdrasil na Escandinávia, ou seja, "árvore da vida", até mesmo "árvore dragão". Se compararmos o nome do Irminsul (três runas: Yr, Man e Sig) com o de Jormungandr (a "serpente do mundo" que circunda a Terra mordendo a sua cauda e, portanto, deve ser superada para emancipar-se da matéria), descobrimos que o simbolismo dos répteis (dragões ou serpentes), tão comum na mitologia escandinava ou nos dracars vikings, está intimamente ligado à noção do eixo do mundo dos germânicos, como em símbolos equivalentes como o caduceu, bastão de Asclépio (Esculápio), ou o bastão de Brahma, que vimos no artigo sobre os chakras.

Preste atenção à forma do Irminsul e compare com os símbolos acima: uma copa, ou uma coluna com asas ou chifres, ou com duas cobras. Nesse cálice falta o conteúdo, uma espécie de aura, um sol que brilha entre as duas "asas", como o néctar entre as pétalas de uma flor.

Todos os povos tradicionais, dos iranianos aos celtas, dos gregos aos germânicos, representavam tudo isso à sua maneira, sempre de formas muito belas e elegantes. Veremos como, em todas as mitologias, todos os elementos que descrevemos parecem estar ligados por paralelos belos e complementares, e quando examinamos todas as mitologias comparando-as entre si, começaremos a dar uma visão mais ampla do conceito que tinham nossos antepassados ​​do que significava a glória suprema, a mais elevada e, particularmente, a conquista da divindade e da imortalidade. E é que o conceito que um povo tem do mais alto (do Graal) diz muito de tal povo, e, portanto, pode ser esperado por este ser capaz de conhecer mais profundamente a consciência coletiva do mundo indo-europeu.

Resta explicar que toda a mitologia concernente à imortalidade está repleta de referências míticas a heróis e männerbundens, alianças de guerreiros que buscam a imortalidade, como os Argonautas, Os Cavaleiros da Távola Redonda ou os Cavaleiros do Graal.

Uma vez que as explicações preliminares tenham sido concluídas e assim preparadas, passaremos de povo em povo para examinar os conceitos relacionados com a busca da imortalidade, ou seja, o poder divino, a culminação do desenvolvimento pessoal e da perfeição corporal e espiritual.

EGITO

Entre os antigos egípcios, era aceite que o homem era feito de três tipos de essências não-materiais: o akh, o ba e o ka. No akh era dito que "o corpo pertence à Terra, o akh pertence ao céu". A princípio era proclamado que o akh era exclusivamente patrimônio dos deuses e dos faraós, pelo que poderia ser assimilado ao hvareno da Pérsia, que será discutido posteriormente. Os verbos egípcios "brilhar" e "ser eficaz" vieram dessa raiz, e por tudo isso podemos concluir que o akh era a manifestação da energia divina na Terra. O ba, por outro lado, era representado como um pássaro com uma cabeça humana, e pensava-se que deixava o corpo do falecido e podia visitar os lugares que este queria, pelo que era uma espécie de corpo astral ou projeção astral, menos do que o espírito, mas mais do que o corpo. O ka pode ser definido como o "duplo" do homem, o "outro eu", de modo que sua essência é feminina, é um ideal a ser reconstruído, um corpo que precisa dar um rosto e uma aparência, em suma, forma. No entanto, o ka necessitava de apoio material para sobreviver. Era como a interseção das forças que vinham do céu e as que ascendiam da Terra, e era concebida como uma essência universal, uma "centelha" de tudo o que existe, celeste ou terrestre. Desta forma, descobrimos que akh, ba e ka seriam as três partes de uma árvore simbólica: ka seriam raízes, afundadas na Terra e matéria, ba seria o tronco que une raízes e ramos, e akh seria as ramificações, conectado com o mesmo céu.

Os egípcios explicavam que a partir do ka (que pode ser facilmente relacionado com o Qi chinês ou o Ki japonês), que é aquele "primeiro passo", e através dos ritos, meditações, preparação ascética e presença consciente do akh no ba, é necessário formar o sahu (runa Sig + runa Heil), corpo incorruptível, feito com a espiritualização do corpo e a solidificação do espírito. Outras tradições o chamam de "corpo imortal" ou "corpo de glória", enquanto na Índia era conhecido como vajra. Essa noção de possível imortalidade corporal é o que levou os egípcios, como muitos outros povos, a mumificar seus mortos, especialmente aqueles de linhagem alta.

• O Olho de Hórus: também chamado de Wadjet (às vezes descrito como uma deusa), e era usado para neutralizar o poder do "olho maligno". O deus Hórus era descrito como de olhos azuis: o "Livro dos Mortos" o chama de "Hórus de olhos azuis", ademais de chamar seus olhos de "brilhantes" e "luminosos". O mesmo livro (capítulo 140) especifica que o amuleto do olho de Hórus deve sempre ser feito de lápis-lazúli, um mineral azul. Por outro lado, o nome Wadjet significa "azul-verdoso". O grego Plutarco, no capítulo 22 de "Os mistérios de Ísis e Osíris", diz que os egípcios acreditavam que Hórus era de pele muito clara. É muito interessante que o Wadjet tenha um aspecto muito semelhante ao centro do cérebro, onde as glândulas pituitária e pineal são alojadas, supostamente o "assento da alma" para muitas tradições.

O Wadjet.

A deusa Wadjet, representante do olho de Hórus, também estava associada precisamente com a serpente, e na Escandinávia costumava-se dizer que as pessoas com olhos azuis tinham "uma serpente nos olhos". Mais tarde veremos mais afinidades entre o olho e o resto dos símbolos arquetípicos mencionados neste texto.

• O Anshus: esta substância divina (com o nome muito semelhante a uma versão de certa runa germânica, chamada Ansuz, e igual ao nome de uma população norueguesa) é chamada de "leite de chama", com a qual os imortais se alimentam. Sua condição de "leite", isto é, branca, aproxima-a da Soma hindu, à medida que sua condição de poção divina a aproxima do "néctar" dos deuses gregos.

• O Uraeus ou Ureu: era uma força descrita como uma chama divina que podia conferir saúde ou destruição, por isso era uma energia dualista que poderia ser construtiva ou violenta, como o machado de dois gumes, que era um dos símbolos mais antigos da cultura nórdica. O Ureus supõe-se estar relacionado com o símbolo da serpente, personificava de certa forma a deusa Wadjet, e geralmente considerado atributo exclusivo dos faraós, que eles se vangloriam desta serpente em sua coroa. Entraria na categoria de forças "carismáticas" associadas apenas aos grandes soberanos, líderes, senhores da guerra ou profetas religiosos. O nome, como notado mais uma vez, contém uma partícula rúnica, a Ur. E é que o Egito, curiosamente, é repleto de runas.

CHINA

Lao Tsé (século VI AEC), revitalizador lendário do taoísmo (podemos dizer revitalizador e não fundador porque ele mesmo se referia com respeito aos "antigos mestres"), quando ele se cansou do mundo chinês, partiu montado em um búfalo branco, para o Ocidente e "o país dos bárbaros", de onde vieram os primeiros professores, seus predecessores. Desde então, o taoísmo é provavelmente o mais completo sistema de conhecimento corporal e espiritual que existe.

Tanto os taoístas como os budistas acreditavam que todos os seres vivos nascem com "uma pérola preciosa do espírito original" e que a "pérola" era o espelho de todo o Universo e o único vínculo imortal à perenidade do Cosmos. De acordo com os taoístas, aqueles que cultivavam essa "pérola" seriam redimidos de serem "reciclados" através dos ciclos de encarnações terrestres.

• O Chi (também escrito QiKi no Japão e Gi na Coréia) era concebido pelos taoístas como uma força universal que estava presente em todos os lugares, e está muito relacionado com a bioeletricidade e íons negativos. Essa força flui por toda a Natureza, e sua interrupção no corpo humano através de costumes antinaturais é o que leva a vários distúrbios psico-fisiológicos. O Chi é a força usada por vários fluxos tradicionais altamente eficazes do Oriente, como acupuntura, Chi kung e artes marciais. De acordo com o taoísmo, o Chi é mais comum em áreas montanhosas, onde os fluxos de energia ascendem em formações geológicas "da mesma forma que a nata sobe à superfície do leite". Além disso, era ensinado que o ideal para favorecer o fluxo de Chi, era meditar ou fazer exercícios especiais descalços em um campo coberto com orvalho matutino (daí o Tai chi chuan).

O taoísmo também descreve os licores divinos como "elixir da vida" (Ming-tan), "elixir imortal" (Hsien-tan), "elixir dourado" (Chin-tan, cuja condição de ouro é perfeitamente comparável ao haoma iraniano), "essência de jade "(Yü-sing), algumas das quais estavam relacionadas com essências corporais, que tratarei mais adiante em uma seção.

Há um exemplo curioso referenciado ao "elixir dourado" (jin dan), que se obtém preservando a energia sexual e cultivando a "energia cósmica", e que se acumula no que o taoísmo chama de "campo do elixir inferior". Correspondente aos chakras inferiores. O nível do "elixir dourado" em uma pessoa não pode ser medido, mas aqueles que dedicaram uma vida inteira a cultivá-lo nos níveis mais altos, deixam estranhas sequelas: em todo o Oriente, há casos registrados em que, após a incineração de um grande meditador, aparecem algumas (às vezes centenas ou mesmo milhares) de minúsculas sementes luminosas chamadas pelos chineses de ssu li dze ("sementes de relíquias") entre suas cinzas. Elas são indestrutíveis, não podem ser cortadas com uma faca ou esmagadas com um martelo, e brilham em cores diferentes. De acordo com budistas e taoístas, estas pepitas são o resultado das chamas da pira funerária agindo sobre o "elixir dourado" que as pessoas santas têm vindo a acumular no campo abdominal ao longo de uma vida dedicada à alquimia interior.

Um caso que parece comparável é o de Joana d'Arc. Esta jovem mulher — que atuava como condutora de forças superiores — foi queimada por "bruxaria". Entre suas cinzas, apareceu intacto o centro supremo de todo o seu ser, seu coração, indestrutível [2]. Estes casos são a referência mais direta a "pedras alquímicas" ou "pedras filosofais".

ÍNDIA

Índia, mais do que um país, um continente. Lá, entre lutas contra os autóctones dasyu, os invasores indo-europeus arrasaram as cidades da civilização do Indos e consolidaram uma civilização que, apesar de ter degenerado, ainda vislumbra sua antiga grandeza e sabedoria.

• No campo das bebidas míticas na Índia, primeiro temos a famosa soma. Isso não só foi concebido como uma bebida, mas também às vezes como uma divindade que a representa, bem como uma planta da qual veio. Soma como uma substância simbólica era uma água sagrada, contendo um poder místico e, desprendida da Lua em forma de orvalho sutil, impregnou a Terra com sua essência, dando vida às plantas e, graças a ela, também aos animais. A soma acumulada em criaturas machos foi sublimada materialmente na forma de sêmen, e nas fêmeas na forma de leite — e, portanto, a cor associada com a soma era sempre branco. De fato, na mitologia indo-iraniana, a Soma representava simbolicamente o sêmen do touro telúrico que fertilizava a Terra (daí o mito de Mitra no Irã), bem como o leite que emanava da vaca primordial e nutritiva — que é equivalente a vaca primordial Audumbla ("mar negro desolado", escuridão, vazio, o espaço exterior) da mitologia germânica. De acordo com o hinduísmo, na morte dos seres vivos, a essência "somática" depositada neles os deixa e sobe novamente para a Lua (a alma), a partir da qual ela prossegue. E o deus Soma pega essa essência enchendo-se como uma tigela, aumentando o volume e a luminosidade da Lua, passando de crescente a cheia, num paralelo semelhante ao do caldeirão celta. A relação da Lua com o movimento de libertação da energia divina foi incorporada ao maniqueísmo, uma interessante doutrina persa da qual haverá mais a ser dito em outro artigo.

Um mito relacionado à soma é o de Garuda, a águia dourada de Vishnu. Para conquistar o soma, Garuda teve que entrar por uma roda giratória de ferro brilhante e afiada "radiante como o Sol", e vencer duas serpentes que guardavam a Soma. Tendo assim conquistado a fermentação, Garuda apropriou-a para entregá-la aos deuses e homens, depositando-a no topo do Monte Meru, de modo que a soma às vezes recebia os apelidos de "crescido na montanha" e "morador da montanha", sendo tão branca e luminosa quanto a neve que a rodeia. A partir de então, a soma se tornaria relacionada com a rocha e a montanha. E vemos aqui vários símbolos típicos: a águia, a roda (o Sol), a serpente e a montanha. Poderíamos dizer que a neve é ​​para a soma o que a Lua ao Sol, porque a neve reflete a luz do Sol e é branca como a Lua. Simbolicamente, era ensinado que a melhor soma vinha do Monte Mujavat, o que podemos comparar com o mítico Montsalvat (provavelmente Montségur) das lendas do Graal.

Representação budista da águia Garuda atacando uma serpente. Observe que a águia tem chifres, e entre os dois chifres, uma lua crescente, uma esfera e, acima de ambos, a chama do espírito.

Havia também um objeto chamado Samudra, recipiente do soma equivalente ao cálice do Graal, e que "contém o sangue do deus vivo" (os cristãos europeus também pensavam que Cristo era um deus vivo e que seu sangue tinha sido coletado em um cálice, conhecido posteriormente como o Graal), ou seja, o deus Agni ("fogo", mais tarde assimilado a Brahma), simbolizando o fogo que ascende pela coluna vertebral do adepto e a chama que desce do céu para se juntar ele. No "Rigveda" fala-se da "taça de Asura" ou da "tigela do pai titã". A importância do copo é que, além de estar associado ao círculo, seu arranjo vertical evoca o eixo do mundo, a árvore da vida, a coluna do céu.

A soma, como visto, é algo versátil que pode ser encontrado em diferentes lugares: o nosso próprio corpo, a cimeira de uma montanha, e até mesmo em certas plantas. Mas há mais. O deus Indra (equivalente ao Zeus grego, Júpiter romano e Thor germânico), depois de conquistar Apala como esposa, bebe de seus lábios a soma. Neste caso, a soma é concedida pela mulher, assim como o Santo Graal europeu-medieval era guardado por uma senhora.

Mas que atributos essa preciosa soma tem? De acordo com o hinduísmo, ela concede invulnerabilidade, cura doenças, vivifica o corpo e alma, dá força e alegria, e oferece a iluminação espiritual e inspiração característica de poetas e sábios — como o Graal com trovadores. Além disso, concede uma espécie de embriaguez divina chamada mada (compare com o inglês moderno mad, "louco"). Mas, acima de tudo, a soma dá a imortalidade.

Mencionamos que no topo do Monte Meru, Shiva meditava. É uma metáfora do sétimo chakra, onde simbolicamente Shiva deve ser unida a Shákti, ou seja, é onde a união mística e sagrada ocorre entre a divindade masculina e a divindade feminina. A soma também tinha a qualidade de despertar o "terceiro olho de Shiva", o "olho de fogo da percepção transcendental", o olho que não é nem o Sol (olho direito, ouro líquido) nem a Lua (olho esquerdo, recipiente sólido, prata), mas a união de ambos os princípios (o ouro líquido dentro do recipiente de prata, o Sol na Lua), mas além de ambos. O terceiro olho é restaurar o poder das glândulas pituitária e pineal, o sexto e o sétimo chakras, que dava aos antigos deuses um ardente poder eletromagnético sobre a matéria, muitas vezes referido como "fogo divino" ou "raio divino". Podemos mencionar que Shiva é equivalente à Dionísio, e que os espartanos tinham seu próprio "Monte Dionísio", que era o Taigeto, do qual todos os recém-nascidos que não eram saudáveis ​​eram atirados.

• O Amrita: outra bebida hindu sagrada, muito menos conhecida do que o soma, é o amrita, o néctar celestial, conhecido tanto por hindus como por budistas. Seu nome deriva do Sânscrito a ("sem") e mrita ("morte"), isto é, "sem morte" — imortalidade. Dessa forma, é equivalente ao amrotos (ambrosia) grego ou ao a-mort (amor, isto é, sem morte, imortal) dos ensinamentos heréticos de trovadores, que usavam o amor cortês e idealizado (amor platônico) como catalisador do fogo ascético. "Amor" é também a palavra inversa para "Roma", um símbolo de poder entronizado no Vaticano, um inimigo do poder que era fermentado nas nobres cortes do Sul da França. Em todas as iniciações orientais do tipo Vajrayana (a escola budista predominante no Tibete), o símbolo amrita é de vital importância. O Vajrayana do Tantrismo é conhecido como "o caminho do diamante" e seu objetivo é endurecer o corpo e o espírito diante dos desconfortos a que estão sujeitos no mundo material, criando um corpo indestrutível através do extremo ascetismo e exercício, juntamente com o cultivo das energias, tornar-se vajra (indestrutível, diamante), matéria dura, pura, limpa, incorruptível e eterna de que os heróis imortais e deificados são revestidos.

Às vezes, o amrita é assimilado ao soma, mas em outras ocasiões é dada uma referência completamente diferente. Nos escritos dos Puranas, que são mais recentes e "profanos" do que os Vedas, são geralmente mais compreensíveis para nós, filhos do século XX ― se relaciona o amrita com o Sol e a Lua.

A explicação mítica da elaboração do amrita é muito sugestiva: Os devas (deuses) sob o comando de Vishnu, e os asuras (demônios) sob Rahu, inusualmente juntam seus esforços para remover o "oceano celeste de leite" (Ksheerasaagaram). Novamente nos é dito que a preponderância simbólica da cor branca, que deve ser referida aos mares gelados do Norte, de modo que a substância sagrada é extraída, como tantas vezes, do gelo ou neve próprias de latitudes altas ou níveis elevados. Dizem-nos também de uma união dualista do bem e do mal, luz e escuridão, representada pela aliança entre os devas e asuras. Lembre-se que Sveta-dvipa, a ilha sagrada e branca do norte da Índia, equivalente a Thule ou Avalon e estava "além do oceano de leite", que era, ao mesmo tempo, o Oceano Ártico. Os devas e os asuras procuravam, no oceano celeste de leite (isto é, entre o gelo, pois é sabido que "o gelo concede a imortalidade" e preserva os corpos) o néctar da vida e da imortalidade, e também pretendiam lutar contra Ananta, a cobra do mundo, equivalente ao Jormungandr germânico. Para realizar a imensa tarefa de remover o oceano, ele era usado como vara para o Monte Mandara, e como uma corda para a serpente Vasuki. Vemos aqui a união dos princípios terrestres (serpente) e celestiais (montanha), para executar uma grande tarefa, assim como asuras e devas se juntaram em outra piscadela dualista. Do oceano surgiu Lakshmi, a deusa da prosperidade, e também Chandra, o deus da lua. Mas então vieram os vapores mortais de um terrível veneno, Kalakuta. Devas e asuras pediram a Vishnu para salvar o mundo das emanações venenosas e, sem hesitação, o deus consumiu o veneno e segurou-o em sua garganta, que ficou azul. O quinto chakra, correspondente à área da garganta, está de fato associado com a cor azul-celeste.

O símbolo do quinto chakra de acordo com o hinduísmo, chamado Vishuda ("pureza") em sânscrito, associado com a cor azul e representante da área da garganta.

Uma vez superado o obstáculo, devas e asuras continuaram a agitar o mar, até que o médico divino Dhanvantari (mítico fundador da medicina ayurvédica) surgiu, segurando um frasco contendo o cobiçado elixir. Quando o encontraram, entretanto, uma forte discussão começou entre os devas e os asuras pelo reparte do amrita. Vishnu, mais uma vez, salvou a situação, encarnando um mago chamado Mohini, encantando os asuras, fazendo todo o amrita ser dado aos devas e assim salvando o mundo da catástrofe que significaria a imortalidade dos asuras. No entanto, Rahu, o chefe dos asuras, percebeu o árdil de Mohini, e em um momento de distração, conseguiu ingerir uma porção de amrita. O Sol e a Lua testemunharam tal profanação sacrílega e denunciaram-na aos devas, de modo que Vishnu imediatamente apareceu e cortou a cabeça de Rahu. Este, no entanto, já era imortal graças à dose de Amrita, de modo que Rahu, com a cabeça de um homem e o corpo de uma serpente, apareceu por um lado, e por outro Ketu, com a cabeça de uma cobra e o corpo de um homem. Desde então, ambos tentam se vingar do Sol e da Lua, tentando devorá-los, assim como os lobos Skol ("traição") e Hati ("ódio") da mitologia germânica perseguiam o Sol e a Lua através da abóbada celeste, devorando-os finalmente no Ragnarok.

O amrita é muito importante para o ioga, e alguns textos iogues chegam a dizer que uma gota é suficiente para "vencer a morte". Eles acrescentam que o sêmen sobe até o cérebro, e de lá cai na forma de amrita impregnando o corpo. Acrescentemos sobre o amrita que também tentou ser materializada e "sistematizada" pelos acadêmicos do sistema oficial: se o soma é equivalente para eles ao LSD, o asmrita é, de acordo com suas explicações, o famoso cogumelo Amanita Muscaria, ou melhor, uma mistura preparada com o mesmo.

• O Olho de Mitra e Varuna: nos Vedas hindus, o Sol é chamado "o olho de Mitra e Varuna". Esta figuração está relacionada com o poder do terceiro olho, o raio e o Sol, a arma de Zeus, Júpiter, Thor e Indra para manter as forças telúricas na baía. Na verdade, este olho é dualista, porque está associado tanto com Mitra como com Varuna, e portanto não pode ser exclusivamente assimilado ao Sol, mas a uma união Sol-Lua: um Graal que tem sido capaz de conciliar, em seu poder unificador, os pólos opostos, os dois lados da mesma moeda.

• O Prana é a versão hindu da "energia universal", e era considerada muito intimamente relacionada à respiração, tendo uma simbologia dualista de equilíbrio e fluxo produzida pela tensão de dois pólos opostos — inspirar (nascer, construir, curar) e expirar (morrer, destruir, danar). Altamente importante em certas disciplinas como Ayurveda ou Pranayama, os brâmanes ensinavam que o Prana circulava pelo corpo através de uma rede de canais, dos quais os mais importantes eram Ida, Nadi e Pingala, e que, através das mãos de homens exercitados em seu uso, serviam para curar e sanar. Falava-se também da existência de um "corpo prânico" que todo ser possuía, e que viria a ser equivalente ao corpo astral ou alma.

O prana nos canais de distribuição e nos sete centros importantes do corpo (chakras) de acordo com o hinduísmo.

• O Padme Hum (também mencionado pelo budismo), era considerado como uma esmeralda, a "pedra filosofal", "pedra da castidade" ou "joia no lótus" (lembre-se da oração posterior "om mani padme hum", ou seja, "da lama nasce a flor de lótus"). O verde (como Osíris) é a cor associada ao quarto chakra, o do sacrifício e o da união no amor sagrado, o lugar onde as forças da Terra e as forças do céu são reconciliadas. De fato, de acordo com a mitologia trovadoresca occitana, Lúcifer deixou na Terra sua essência (a esmeralda de sua coroa), quando se sacrificou em sua descida à Terra depois de lutar contra Jeová.

BUDISMO

Buda era um príncipe da casta xátria, isto é, da nobreza guerreira. De acordo com as fontes, Buda tinha "os olhos da cor da flor de lótus" (a variedade cultivada na Índia era azul, outras cores como rosa ou amarelo não se encaixam com as cores dos olhos humanos). De acordo com o "Pali: Lakkhana Mahapurisa 32", Buda tinha "abhi nila netto", isto é, "os olhos (netto) muito (abhi) azuis (nila, esta palavra era usada para descrever as safiras e as nuvens de chuva)".

Quando Buda vivia, o hinduísmo estava degenerando e, em muitos casos, o que antes era um sistema venerável e sólido de crenças, tinha evoluído para superstição e bruxaria. Buda era um profeta que queria restabelecer a pureza das tradições hindus, não fundar um novo credo. Desde a sua morte, os seus discípulos esperam o seu regresso no fim dos tempos, sob a forma de um avatar que será chamado Maitreya. Paradoxalmente, o budismo prevaleceu fora da Índia, principalmente no Tibete, Mongólia, Sudeste Asiático, Coréia e Japão.

A Urna (comparar com o Ureus faraônico, runa Ur) é o terceiro olho de Buda, o "olho divino", "olho da verdade", "olho do conhecimento", "pérola da sabedoria" ou "ponto brilhante". Dizia-se que aparecia através de uma porção de cabelo branco em suas sobrancelhas, mas em representações artísticas [3] costumava aparecer como uma joia circular côncava na testa do profeta.

JAPÃO

Os primeiros habitantes do Japão eram os jomon, que eram um povo caucasiano procedente provavelmente da Coréia ou do Noroeste da Sibéria, e que habitavam o arquipélago japonês há 12.000 anos. Posteriormente, chegaram ondas do grupo étnico yayoi, de tipo mongoloide-xanthodermo. Este grupo étnico submergiu o Japão em sangue amarelo, de tal forma que os japoneses modernos são realmente uma mistura de mongoloides e caucasoides. No entanto, subsiste um pequeno vestígio dos habitantes originais no norte do Japão: o grupo étnico do ainus.

Recentemente, o antropólogo americano C. Loring Brace, da Universidade de Michigan, estudou cerca de 1.100 esqueletos japoneses de todas as etnias e idades, concluindo que os antigos samurais eram de origem ainu e que o prestígio alcançado por esses homens na batalha foi o que favoreceu que as castas governantes do Japão se enchessem de sangue ainu e que, atualmente, a classe alta japonesa é caracterizada por ser geralmente mais branca, mais peluda, menos "mestiça" e de maior estatura do que a maior parte da população. Também, é claro, está muito relacionado com a mentalidade e filosofia japonesa, tão "solar" e tão reminiscente do seu militarismo e sua honra às tradições ocidentais medievais.

Por outro lado, assim como no Japão se mesclam ainus e yayois, há também uma mistura de credos. Temos o tradicional xintoísmo, a religião original do Japão, e uma variedade budista, o Zen, que era popular entre as classes mais altas do país, incluindo os samurais.

Agora, entrando na questão das energias:

• O Ki é simplesmente a versão japonesa da "energia universal" (Chi, Qi, Gi) já descrita, que certamente soará para aqueles que praticam karatê tradicional, onde buscam cultivar seu próprio ki e detectar o ki do oponente para antecipar suas ações. Os japoneses explicam que o Ki é o que diferencia um corpo vivo de um cadáver. A terapia Shiatsu, um tipo de massagem japonesa, tem precisamente o propósito de estimular as correntes de ki do corpo para acelerar a cicatrização. Além disso, o Reiki, o método japonês de dominar Ki para fins de cura, usa essa força primordial nas mãos de pessoas exercitadas no uso dessa "energia", cuja existência é extremamente óbvia para seus adeptos.

Dragon Ball Z: soará para qualquer um que cresceu na década de 1990. O mangaká japonês Akira Toriyama produziu uma série inovadora de desenhos lidando com uma raça humana poderosa com grande controle de Ki. Muitas vozes se levantaram para censurá-lo por sua violência explícita, mas aqueles que protestaram não se aperceberam que Toriyama havia baseado-se em ideias antigas e que a série estava repleta de elementos de origem hindu, budista e japonês antigo, com uma forte carga esotérica.

PÉRSIA

A Pérsia foi outro dos "rios" onde grandes quantidades de sangue indo-europeu foram acumulados, resultando em uma vasta civilização liderada por povos iranianos, como os medos, persas ou partas. Aqui ocorreu uma peculiaridade, dado que surgiu a primeira religião monoteísta da revelação: o Zoroastrismo, da mão do profeta Zaratustra. Também da Pérsia vêm correntes tão interessantes quanto o Mitraísmo e Maniqueísmo.

Se entre os hindus o líquido terrestre simbolizando a soma na mitologia era o leite branco, entre os iranianos a associação era com mel, líquido dourado e solar dando força e energia. O mel está relacionado ao âmbar (chamado elektron pelos gregos) e é a acumulação e processamento, pelas abelhas em seus favos sextavados ("eixo do mundo", runa Hagal), do néctar das flores. Qualquer pessoa familiarizada com as lendas folclóricas do folclore árabe notará, além de uma influência persa-egípcia-babilônica, a importância do "tesouro do mel". O mel era apreciado como um fluido místico, tornando-se associado com o haoma.

• O Haoma: aos adeptos mazdeístas de nível mais baixos sempre era lhes aconselhados a fazer o bem com a palavra e o trabalho (daí a unção simbólica com mel de língua e mãos), o que elevaria seu espírito lentamente e pouco a pouco. Aos iniciados de nível mais alto era lhes revelados a Gnosis (conhecimento) que lhes permitiria a elevação espiritual consciente. E os privilegiados iniciados tinham o privilégio de ascender ao superior pela libação do haoma, numa iniciação relâmpago que despertava, num momento de êxtase, a consciência superior do adepto. O haoma é uma porção dourado, relacionada ao mel e ao sol. Tanto o haoma como o soma têm uma origem comum, que a linguística moderna reconstruiu como *sauma, da linguagem proto-indo-ariana.

Quais eram as qualidades associadas ao haoma? De acordo com os sagrados escritos do Irã, dava "rapidez e força aos guerreiros, filhos excelentes e retos às mulheres que dão à luz, poder espiritual e conhecimento para aqueles que se aplicam no estudo das escrituras". No "Avesta" é especificado: "A oferta mais baixa de haoma, a menor libação de haoma, o menor gole de haoma, é suficiente para matar mil devas. Todo mal feito pelos demônios desaparece instantaneamente da casa em que o homem bebe o haoma, onde loa para o curador haoma".

De acordo com os ensinamentos avésticos, no final dos tempos, Saoshyant, o messias persa, devia mais uma vez sacrificar o grande touro do mundo. A gordura do touro, misturada com a seiva branca do haoma, constituirá uma nova bebida de imortalidade e inspiração para os heróis. Isso não deve ser interpretado em sentido literal, mas metafórico: a gordura simboliza a essência pura liberada da imolação da matéria, e de alguma maneira que a matéria aprisionou e que, com a morte da matéria, ascende.

Ao iniciado no grau de Leão do Mitraísmo, em vez de derramar água em suas mãos, o mel lhe era derramado, também untando a língua com ela. Assim, ele era convidado a permanecer puro em suas ações e em suas palavras. Isso era precedido por um juramento de manter-se afastado de todo mal. O mel tinha relevância simbólica no mundo mazda persa, furando a língua do recém-nascido com ele. O mel era considerado a "semente da Lua" (o romano Virgílio chamava-o de "dom celestial do orvalho"), que era a semente do touro imolado coletado e purificado pela Lua, e comparável à referida "água da lua" .

Como fato interessante, acrescentamos que alguns séculos antes da Era Comum, em torno da lagoa aralo-caspiana, vivia uma tribo cita (cidade iraniana que vivia em estado bárbaro) que se chamava haumavarga, ou seja, "lobos do haoma".

• O Hvareno: novamente temos de voltar nossa atenção para as "forças sagradas". Os persas tinham a noção (pouco conhecida) de hvareno, também chamada xvarenah, kvarenah ou farr, palavra semelhante ao fire inglês ou feuer alemão, ou seja, "fogo", o objeto de culto dos antigos iranianos, eslavos, helenos, romanos e indo-europeus em geral. O hvareno, como disse, é um conceito próximo ao da "energia sagrada" e desta vez tem o simbolismo da coroa, uma vez que está relacionado com o símbolo da soberania, do poder real, da glória real e da sabedoria divina, assim como o Uraeus egípcio. O hvareno era um dom, uma unção, um toque divino que permitia ao escolhido atrair outros para sua pessoa, e isso estava muito relacionado com o equilíbrio entre o fogo e a água. Relaciona-se com o carisma, direito, justiça e divindade do líder sagrado.

Este é um faravahar (ou farohar persa, e representa o hvarene, a graça divina, a luz da glória que rodeava como aura os antigos heróis, reis e santos persas.

O hvareno era a graça exclusiva dos deuses e dos antigos reis, e era representado como um anel ou disco solar com asas (como no caso de Amon-Rá no Egito; na Pérsia, muitas vezes Aúra-Masda estava dentro do disco ou anel, simbolizando que ele é o mestre do eterno retorno) ou um falcão, como o Olho de Hórus egípcio ou o Farohar iraniano. O disco solar com asas, símbolo sugestivo no extremo, também representava a Aúra-Masda.

Julius Evola, em "Doutrina ariana de luta e vitória", diz sobre o hvareno:

"A tradição ariana-iraniana já sabia, de fato, o fogo celestial entendido como glória (Hvareno), que descende sobre reis e verdadeiros chefes, os torna imortais e lhes permite dar o testemunho da vitória... A antiga coroa real dos raios simbolizava, exatamente, a glória como o fogo solar e celestial. Luz, esplendor solar, glória, vitória, realização divina, são aquelas imagens que estavam no seio do mundo ariano..."

Nesse fragmento voltamos a ver como a coroa, o raio e o Sol aparecem. Uma coroa é como a contraparte material da aura dourada que só os iniciados consumados possuem depois de terem subido sua particular escada interior passo a passo, então isso estava muito relacionado com a noção de vitória. Era como o florescimento de todas as qualidades interiores de tal homem, e seu portador deveria ser considerado como possuído por forças divinas, uma vez que representava, em resumo, a "materialização" da conquista do sétimo chakra.

Em "Notas sobre a divindade da montanha", Evola acrescenta que o hvareno:

"...não era um conceito abstrato, pelo contrário, era concebido como uma força real e quase física, embora invisível e de origem 'não-humana', geralmente carregada pela luminosa raça ariana, mas, principalmente, pelos reis, sacerdotes e caudilhos desta raça. Um sinal testemunha a presença da 'glória': a vitória. A 'glória' era atribuída a uma origem solar, porque o Sol é o símbolo de um ser luminoso, triunfante sobre a escuridão todas as manhãs. Transpondo a subespécie interioritatis esses conceitos, 'glória' ― Hvareno ― expressa, portanto, a propriedade conquistada pelas raças ou naturezas dominantes, em que a superioridade é poder ('vitória') e o poder é superioridade, 'triunfalmente', como nos seres solares e imortais do céu". 

Hvareno, como "glória" e "vitória", equivale a sieg ("vitória" em alemão) e, portanto, está relacionado com o raio dos deuses e a chama divina, além do Sol (Sun em inglês significa Sol, e ambas as palavras são nomes da runa Sig, que representa o raio e o Sol, e cuja cor associada é o dourado). Esta não é uma relação banal ou superficial: todos os antigos indo-europeus acreditavam na vitória e na glória como um dom solar. Especifica-se que o hvareno é encontrado no "poderoso Monte Ushi-Darena", o que faz com que se suspeite que o simbolismo do raio esteja presente: o monte sagrado, como um sinal do eixo do mundo, é uma runa Hagal, uma árvore da vida que, metaforicamente alcançada por um raio divino e transmutador (a runa Sig, o Hvareno), é transmutada em algo superior. De modo geral, o raio de Deus, a chama solar e celestial (runa Sig) desce sobre o homem superior (runa Heil), atravessando todo o seu ser de cima para baixo (contraparte celestial da serpente telúrica, ascendendo de baixo para cima, de modo que o raio é realmente a "serpente do céu", a águia).

Este sinal é digno representante daquilo que realmente é a ideia de hvareno — a divinização do homem superior através da vontade divina: depois que a serpente que ascendeu através do eixo do herói abrindo amplamente seus centros de poder interior, o seco e contundente raio dos deuses (runa Sig), que destrói os outros, atinge o homem superior (runa Heil) e transmuta-o através de todo o seu ser e eletrizando até a última célula do seu corpo.

• O Fravashi era a essência divina encontrada nos homens, árvores, animais, estrelas etc., e que tornou possível que eles evoluíssem para o mais alto. Concebido na ocasião como deusas, Aúra-Masda, o deus supremo dos persas, os criou antes de criar as formas materiais de cada ser vivo. Não admira que o Fravashi persa tenha sido comparado com as valquírias germânicas e colocado em relação ao espírito e ao sol.

• O Olho de Mitra: já foi descrito na seção sobre hinduísmo. No Irã, Mitra também tinha um caráter solar. Este deus se considerava, igual o Sol, como o olho de Aúra-Masda. A coroa do império persa (de que "descendem" todas as coroa posteriores) estava projetada especificamente para representar o disco solar consagrado a Mitra, e era consequentemente um sinal da "aura regia" e da iluminação iniciática.

• O fogo era, para os iranianos, uma entidade sagrada, como para todos os indo-europeus (fogo das vestais em Roma ou das vaidilutes lituanas, o fogo de Prometeu ou o olímpico na Grécia). Nossos ancestrais indo-europeus celebravam o solstício de verão ("São João") com uma imensa fogueira, tentando repetir na Terra a plenitude do Sol no céu. Do ponto de vista do simbolismo, o fogo representa uma peça solar, qualquer força que, de baixo, tente subir para cima. Além disso, o fogo tem um significado alquímico e transmutador no nível espiritual, já que nas palavras de Nietzsche: "Insaciável como a chama, ardo para me consumir. O que conservo se torna luz, o que descarto, carvão: pois certamente sou chama". [4]

O fogo, luz nascida do calor, que sobe para o céu, era objeto de culto para todos os povos indo-europeus, mas especialmente para os iranianos.

• A Mani era concebida como uma pedra sagrada, mencionada no "Cântico das pérolas", que se diz ter sido composta pelo próprio Mani, um profeta do maniqueísmo. A "pérola mística" passou a ser conhecida como Ghraal, e essa ideia seria herdada por correntes islâmicas heréticas posteriores.

Faz, pois, sua aparição o símbolo da pedra, e terá de ser analisado com mais cuidado. Por que essa consideração mística de uma determinada pedra? Simplesmente, a pedra sagrada é um pedaço de matéria como as "pedras profanas" que a cercam no mundo. No entanto, algo a diferencia das outras, porque esta pedra assume depositário de uma essência espiritual única, e é atribuída grandes poderes. Na China, a pérola representava a alma "mercúrea", enquanto que na Índia, uma pérola poderia representar uma solidificação do soma, e na Pérsia ou em alguns países europeus, tal consideração correspondia ao âmbar dourado, acúmulo do sangue das árvores e, portanto, condensação da própria luz do Sol. Uma pedra preciosa pode significar muitas coisas de acordo com seu tipo, já que cada mineral, como é sabido, "vibra" com uma frequência particular, que determinadas pessoas sensíveis são capazes de perceber. A noção de que uma certa "pedra" (isto é, uma "matéria" particular) pode possuir uma grande força, é confirmada nos mitos dos grandes heróis (o Sohrab persa, o Teseu grego ou o rei Arthur celta) que são capazes de tirar uma espada de uma pedra. Entende-se que tais pedras ou rochas, por serem repositórias de uma certa força, são capazes de reconhecer como "semelhantes" aos grandes chefes que são portadores de uma força semelhante, compartilhando sua "energia" com eles.

• A luz do maniqueísmo é um conceito muito polivalente. De acordo com o maniqueísmo, o Universo estava, em uma origem, claramente dividido em Luz e Escuridão (isso equivaleria à explicação de gelo e fogo da cosmogonia germânica e hörbigeriana, ou o yang-yin do taoísmo). Quando ambos os elementos lutaram, grandes quantidades de "luz" permaneceram - muitas vezes voluntariamente para transformar o mundo de dentro — presas na escuridão: o mundo material nasceu assim, com suas misturas de luz e escuridão em proporções variáveis, e que transforma este plano em um tabuleiro de xadrez capaz de ser conquistado e reconquistado pela luz e escuridão. De acordo com o maniqueísmo, havia pessoas, alimentos, materiais etc., que continham mais luz, e aquela que continha mais luz era considerada "pura", enquanto aquela que não continha luz era considerada "impura". Com base nesse sistema foi delineado o pensamento gnóstico-pagão-racista que tanto influenciou no nazismo quando afirmou que a "raça ariana", por seu aspecto e potencial, era depositária de grandes quantidades de luz, pelo que deveria ser considerada como uma raça santa acima de todas as outras raças.

Quando, além disso, Lúcifer era concebido pelos herdeiros europeus do maniqueísmo (principalmente os cátaros) como um herói chamado "portador da luz", enquanto o deus judeu Jeová era referido como Satã, o criador obscuro da matéria como ilusão (a Maya hindu, isto é, uma espécie de "Mátrix"), a teoria adquiriu esse tinte "ariosófico" tão característico.

GRÉCIA

Grécia, a partir do ano 2000 AEC até o declínio do Império Macedônio no séculos III-II AEC, tornou-se um rio onde grandes quantidades de sangue indo-europeu se acumularam. Nas infinitas ilhas, montanhas e costas da geografia grega, floresceu toda uma civilização, lançando as bases do que hoje é considerado "clássico" no Ocidente. Na Grécia, havia instituições esotéricas e, como qualquer outra mitologia indo-europeia, a helênica se refere diretamente a substâncias superiores.

• A Ambrosia era o alimento dos deuses. Seu nome grego era amrotos ou ambrosios. A ambrosia era transportada para o Olimpo por um bando de pombas, de acordo com o que a feiticeira Circe diz na "Odisseia". Parece claro que a palavra ambrosia procede de a ("não") e mbrotos ("mortal") — isto é, sem morte, não-mortal, imortal. Imediatamente temos que colocar a ambrosia, em relação ao amrita hindu, que tinha exatamente o mesmo significado, como vimos. Podemos também relacionar isso com o conceito cavalheiresco e trovador medieval-europeu de amor (A-Mort, sem morte), que era concebido como algo altamente espiritual e ritualizado. Quando Aquiles era criança, sua mãe, a deusa Tétis, banhou-o nas águas do escuro rio Estige e "o ungiu" com ambrosia, depois do qual passou pelo fogo para queimar suas partes mortais e torná-lo indestrutível (menos o calcanhar).

• Se a ambrosia era o alimento dos deuses, o néctar era sua bebida. Obviamente, o néctar está relacionado ao mel, então também podemos colocá-lo em relação ao haoma iraniano. Hebe (a versão helênica da Ostara germânica, Eostre anglo-saxônica ou Iduna escandinava), era responsável por dar bebida aos deuses. Ela era uma deusa da juventude, do vigor varonil, da força, capaz de rejuvenescer os anciãos, e como Ares ela era a filha de Zeus e Hera. Ele descreveu-a como um ajudante dos deuses, banhou e vestiu seu irmão Ares, o deus da guerra, e enganchou os cavalos da carruagem de Hera, sua mãe, até que se casou com o deificado Hércules, com quem teria dois filhos. Seu equivalente em Roma era a deusa Juventas.

Era dito na Grécia que tanto o néctar quanto a ambrósia afiavam os sentidos e concedia juventude, saúde e imortalidade àqueles que as provasse. O próprio Zeus dependia dessas substâncias, e durante sua infância, quando teve que criar-se escondido de seu pai Cronos (Saturno), obtinha o néctar de sua águia e a ambrosia de uma pomba, que agia secretamente de Cronos.

O fogo dos deuses: Prometeu era um titã (irmão de Atlas, o titã sustentador do mundo) que ascendeu ao Olimpo e que pegou uma chama do fogo dos deuses (obtida da carruagem de Hélio, o deus do Sol) para entregar aos homens mortais. Indignado, Zeus encadeou Prometeu no Cáucaso, onde uma águia devorava seu fígado todos os dias. O infeliz Prometeu foi finalmente liberto por Hércules, e revelou o paradeiro das maçãs Hespérides.

Prometeu traz o fogo para a humanidade. Arte por Heinrich F. Füger. 

• As Maçãs das Hespérides: as Hespérides eram três irmãs que guardavam um fantástico jardim-pomar dedicado a Hera (esposa de Zeus, deusa do lar e da família) no extremo Oeste do mundo (tem sido relacionado com Atlântida). Este jardim, além das três irmãs, era guardado por um dragão de cem cabeças que nunca dormia, por isso é compreensível que apenas um herói do naipe de Hércules pudesse entrar no lugar. No centro do jardim havia uma macieira cujos frutos conferiam imortalidade a quem os comesse: eram as famosas maçãs douradas ou pomos dourados, uma das quais causava a discórdia entre deusas que desembocou na Guerra de Troia. A simbologia das maçãs da imortalidade também é encontrada na mitologia germânica com as maçãs de Ostara, e é que as maçãs, como qualquer fruto, são a condensação da luz solar e da água lunar das precipitações, canalizada através do tronco da árvore, sacos onde se concentra a essência da seiva: o sangue das árvores, ou seja, a substância do eixo do mundo.

Fugazmente, e apenas para compará-lo ao Mitra iraniano, poderíamos mencionar Apolo, o deus que tudo vê, capaz de penetrar no futuro, e comparável ao Baldur germânico, Abelio celta, Byelobog eslavo, Luzbel dos hereges medievais e provavelmente até mesmo "Belzebu". Isso, juntamente com Hélio, o deus do Sol, é a coisa mais próxima na mitologia helênica para um "olho que tudo vê".

• O velo de ouro era um objeto divino que era o objetivo da missão de Jasão e os Argonautas. Estes eram uma männerbund, no que se encontravam personagens como Orfeu, Hércules, Castor e Pólux e Atalanta. É possível que alguns se perguntem o que está relacionado a pele dourada de um carneiro divino com símbolos como o cálice ou o caldeirão. É simples. Por um lado, a pele era o carneiro vazio, ou seja, queria preencher novamente, queria envolver algum herói (lembre-se como os antigos heróis cobertos com as partes de uma besta, como os bersekers, Hércules ou Siegfried). Por outro lado, o carneiro, despojo de uma passada era de ouro (Áries, o carneiro, é o primeiro signo zodiacal) imbuía seu possuidor com uma aura de "direito divino" para reinar, dado que foi feito para aparecer como herdeiro da mesma era de ouro.

O velo pendia de uma árvore (azinheira ou carvalho, mas em qualquer caso, "eixo do mundo") em uma floresta sagrada, consagrada a Ares (o deus da guerra, muito relacionado com Áries) e guardada por um dragão ardente. De acordo com a mitologia helênica, os argonautas "veem uma copa flutuar na montanha do mundo com a árvore das luzes", do qual está começando a soar mais como o Graal e o eixo do mundo, assim como nos lembra a antiga tradição pagã germânica dos abetos decorados. Jasão, com a ajuda da maga-sacerdotisa Medeia, consegue agarrar o velo, após o que se torna a constelação de Áries.

No campo das pedras, temos dois exemplos na Grécia:

- O âmbar (nome, como vemos, semelhante a ambrósia) era chamado de elektron. O âmbar era importante nos tempos antigos como uma essência solar, condensação da seiva das árvores, que eram regadas pela água e pelo sol. No Leste era muito apreciado, especialmente entre os povos bálticos, cujas terras exportaram âmbar para outros lugares através da Rota do Âmbar. O âmbar era o sangue das árvores, o fluido místico que lhes dava vida. Era como o suco do eixo do mundo, como o suco do nosso próprio eixo interno, de modo que era inevitável que ele estava relacionado com as bebidas sagradas.

- O Omphalos ou Onfalo era a pedra amada no santuário de Delfos como "umbigo do mundo". Esta pedra, em forma de meio ovo e decorada com joias ("luz condensada"), formas demoníacas ("escuridão") e relevos de duas águias (forças celestiais) era considerada o "centro do universo" estivesse onde estivesse quer que estivesse, uma vez que santificou qualquer lugar em que foi encontrado, tornando-se um importante centro místico. O significado simbólico dado a este ídolo é que ele carregava o status ritual de "primeira matéria" jamais criado, e, portanto, o "eixo" em torno do qual toda a outra matéria foi cristalizada e ordenada. Era, portanto, uma dessas "raízes" ou "conexões" (como as fontes, chifres ou poços da mitologia nórdica, caldeirões celtas, cornucópia romana etc.) que o eixo do universo tinha nos vários mundos para se comunicar com a vida após a morte e para obter sabedoria a partir daí.

 Também cabe mencionar a coroa de vitória dada por Nice (a deusa da vitória) a Hércules para confirmar sua ascensão à imortalidade e sua entrada no Monte Olimpo.

ROMA

Sobre o assunto da cornucópia ou "chifre da abundância", tratarei o simbolismo do chifre, que é interessante, além dos chifres divinos, cuja simbologia já vimos acima.

A primeira coisa a observar aqui é que há dois tipos de chifres no que diz respeito ao simbolismo: temos chifres que chamam a essência divina para seu centro (ou seja, seu ponto mais baixo e estreito) e há aqueles que a expulsam. Isso poderia ser comparado aos buracos negros do Universo, que têm um lado através do qual a matéria penetra, que é infinitamente comprimida em algum ponto ultra-estreito, para ser necessariamente expelida para alguma outra dimensão espaço-tempo.

Representação artística de um buraco negro (e digo artística porque os buracos negros são invisíveis, já que absorvem até a luz). É uma roda, uma espiral que transmite luz e matéria a um funil cada vez mais fino, no fundo do qual a matéria é infinitamente comprimida num espaço minúsculo, talvez desaparecendo ou mais provavelmente passando para outra dimensão.

Portanto, o símbolo do chifre pode representar um dos dois lados que tem um "buraco negro": um onde a substância entra e outro onde sai; um lado que atrai matéria e energia, e outro que a expulsa: o arquétipo da ampulheta, um símbolo maçônico comum.

Por um lado, um buraco negro que engole a matéria; por outro, um gerador de matéria primordial. A ampulheta, um símbolo dualista um pouco equivalente ao yin-yang do taoísmo (um é transformado em outro e, quando virado, outro em um) é um sinal poderoso, comum na tradição maçônica.

Em seu aspecto de poupador de material, o chifre é uma parte de um animal onde muitas de suas qualidades e essências são sublimadas, como seus hormônios (o chifre de cervo jovem era considerado um afrodisíaco importante na China). O corno como uma runa Man (arquétipo do para-raios ou da copa) é um objeto vivo, que foi esvaziado e que crescia na direção de sua ponta (que era o que "exigia" a matéria), por essa razão ele deseja ser preenchido novamente em sua vontade de "buraco negro", funil. Daí a simbologia do chifre como um recipiente no qual os guerreiros caídos bebem a divina hidromel no Valhalla germânico, ou também a sua importância como um amuleto ou objeto de adoração, uma vez que o chifre era considerado que "atraia" forças vivas.

O chifre que atrai luz e força, colocado sobre o tronco de uma árvore caída ("eixo do mundo") é cheio até a borda com a essência celestial ("suco de sol", talvez hidromel ou cerveja) caída da luz solar atravessa uma clareira das nuvens, enquanto no coto surgem novos brotos e cogumelos, com um onfalo (pedra-eixo, rocha sagrada) presidindo uma cena de um campo abundante de colheita de ouro. Que tipo de homem desconfiaria do conteúdo daquele chifre e resistiria a dissolvê-lo em um gole?

• Em seu aspecto oposto, gerador de matéria e abundância, o chifre é uma cornucópia, fonte de matéria (não absorvedora como antes). Na origem desta fábula está a criação de Júpiter. Este deus foi criado pela deusa Amalteia, com o leite de uma cabra. Este animal é um símbolo de fertilidade como o touro (Irã) ou vaca primordial (Escandinávia), e seu leite simboliza a essência primordial acumulada pelo animal. Para agradecer à deusa por seus cuidados, Zeus mais tarde concedeu um dos chifres da cabra, que tinha o poder de dar a seu possuidor tudo o que ela queria. Muitas vezes, o símbolo da cornucópia estava associado à primavera, isto é, era equivalente a deusas como a Ostara germânica ou a Siwa eslava, responsáveis ​​pela imortalidade dos deuses.

A saída do funil: esta é uma cornucópia, sinal romano que foi herdado pela maçonaria. A fonte inesgotável de frutas, vegetais, flores, grãos e folhas é um sinal generatriz de fertilidade, abundância e essência de yin. Considerava-se que o estreito extremo do chifre, um "buraco de minhoca" ou um funil de buraco negro invertido, estava conectado com outra dimensão, a partir da qual procedia a regeneração do mundo.

Em ambos os casos, o lado estreito do chifre implica, em linguagem simbólica, que a matéria se comprime tornando-se infinita (a teoria astronômica do buraco negro para o "Big Crunch" e que se há lugares onde a matéria é destruída, também tem por lógica pura, harmonia e equilíbrio, lugares onde ela é gerada, sendo estes lugares "pontes" entre duas dimensões). Também é significativo que a simbologia do chifre tenha dois aspectos (generatriz ou absorvente), uma vez que nossos ancestrais adoravam uma força divina que poderia ser criadora e curadora como destrutiva, e cujo símbolo mais antigo era, nos tempos antigos, um machado de dois gumes, ou um clube com duas extremidades.

É por isso que o chifre servia para "comunicar" com outros mundos (o olho divino ou objetos de clarividência desempenham um papel semelhante) e, portanto, o significado do chifre como um objeto de chamada à guerra. Na mitologia nórdica, esta função comunicativa era bem representada por Gjallarhorn, o chifre de Heimdallr. Heimdallr era um deus com sentidos superdesenvolvidos, sentinela de Asgard e guardião da ponte Bifrost, um arco-íris (runa Yr + runa Is) ligando Asgard (o reino dos deuses) com Midgard (Terra Média, o mundo mortal). De acordo com a profecia, quando Heimdallr vê as hordas demoníacas aproximarem-se de Asgard, ele ecoará Gjallarhorn, fazendo uma chamada que reverberará com pavor, como uma trombeta do Apocalipse, nos nove mundos (três em cada plano), reunindo os heróis (432.000 homens, saindo 800 para cada uma das 540 portas do imenso Valhalla) e os deuses para a batalha final na planície de Vigrid.

Na verdade, a conexão do chifre com a ideia de "passo de dimensões" ou compressor e canalizador de matéria aparece no mito onde Thor participa de um concurso de bebida com os gigantes. Desmaiado, Thor observa que, embora esteja dando alguns goles monstruosos, o líquido da trompa quase não reduziu seu nível, mas uma fração. Mais tarde, os gigantes revelam a Thor que o fim daquele chifre estava em verdade comunicado com as águas do mar, e que seus goles eram realmente tão imensos que produziam o fluxo e refluxo das marés oceânicas (atração lunar). Assim, o chifre continuou a gerar mais e mais líquido, não importa o quanto Thor bebesse e bebesse.

O outro lado do funil: outra roda-espiral que projeta matéria para fora: uma galáxia, uma fonte de luz, neste caso a famosa Andrômeda.

Em conclusão, assim como o machado duplo tem duas arestas (uma representando o poder destrutivo e a outra o criador), o chifre pode representar um ponto de "entrada" ou "saída" da matéria.

CELTAS


Os celtas foram a primeira grande onda indo-europeia, destinada a inundar a França, as Ilhas Britânicas, a Espanha, Portugal, grande parte dos Alpes, algumas áreas da Europa Oriental e até mesmo alguns redutos orientais como os gálatas da Turquia ou os tocários da China. Parece muito claro que os itálicos, invasores da Itália e ancestrais dos latinos e sabinos (daí os fundadores de Roma), estavam intimamente relacionados com os celtas, e que as origens do povo celta podem ser rastreadas a Europa central, culturas chamadas pela arqueologia moderna como Cultura dos Túmulos e Cultura dos Campos de Urnas, diretamente associadas com a expansão indo-europeia, o patriarcado e as raças nórdicas.

Nas densas florestas da antiga Europa Ocidental, os sábios eram conhecidos como druidas. Sua educação e treinamento durava vinte e um anos (em três fases de sete anos cada). Crentes da reencarnação, conhecedores dos segredos da Natureza, do homem e da morte, vestidos de branco e considerados da mais alta sabedoria pelos gregos e romanos, além dos próprios celtas, formavam uma casta que tinha grande influência sobre a vida celta e sobre a filosofia de combate transmitido aos jovens guerreiros.

De acordo com a mentalidade celta, o orvalho matutino era a "água da lua", que fazia os megálitos vibrarem e favorecerem os rituais. É interessante comparar isto com o ensino taoísta de que o orvalho matutino favorece o fluxo do Chi.

O caldeirão de Dagda era propriedade do deus celta do mesmo nome, chefe dos misteriosos e divinos Tuatha Dé Danann. Este caldeirão era uma fonte inesgotável de matéria, nominalmente alimento — ou seja, era uma fonte de vida. Esta condição o coloca automaticamente no campo das forças do símbolo yin de acordo com o taoísmo. É curioso como, no folclore celta cristianizado posteriormente, subsistiram referências a potes fantásticos cujo conteúdo jamais esgotava. Representava, simplesmente, uma das conexões materiais ao pilar do universo (a versão celta de uma das raízes de Yggdrasil em um poço ou fonte). Dagda, o dono do caldeirão, era o típico deus indo-europeu golpeador, tal como Perkunas, Perunú, Indra, Thor, Zeus ou Júpiter. No caso do celta, seu nome significava "o deus bom", e sua arma era um enorme malho. Com uma extremidade do convés, matava seus inimigos, e com a outra, poderia ressuscitar os mortos. O contraste destruição-criação é combinado com o machado duplo, que era um símbolo favorito da cultura nórdica originária. É também comparável ao martelo de Thor, com o qual ele matava gigantes, mas poderia ser usado para reviver os mortos (como o próprio Thor). 

O machado duplo invertido (significa que é manejado pelas forças do céu), um dos sinais distintivos da antiga cultura nórdica, e que com o tempo tornou-se assimilável à malha e ao martelo.

Como uma curiosidade para se relacionar com as maçãs das Hespérides da mitologia grega, podemos mencionar Avalon ou Ynis Afallach (ilha das maçãs). Uma ilha de fama mística e divina, onde viviam fadas, heróis e magos. Segundo a lenda, o rei Artur foi transportado para esta ilha após a sua morte, onde se encontra no cuidado de rainhas-fadas até que possa renascer. Em outra versão, Artur dorme dentro de uma colina oca, esperando seu momento para acordar e reinar sobre a Inglaterra. Além do jardim das Hespérides, podemos comparar esta misteriosa ilha com a Thule germânica.

A stone of destiny (pedra do destino) era uma antiga rocha da Irlanda, na qual eram consagrados os reis irlandeses, escoceses e até ingleses (estes últimos, nem mesmo celtas, mas germânicos). Em símbolo de triunfo no eixo do mundo, os novos reis tinham de se sentar no topo desta pedra. Argumentava-se que tal rocha era capaz de "reconhecer" um verdadeiro rei, e que, portanto, todos os reis foram compelidos a provar seu valor ("tu serás apenas rei se estiver de acordo com as leis divinas") por meio deste estranho "tributo" simbolizando que o rei deve confiar nas forças do mundo para governar com verdadeiro direito e com verdadeira justiça. Neste tipo de simbologia, é possível enquadrar o episódio de quando o futuro rei Artur extrai a espada Excalibur da rocha, porque esta "reconhece" um autêntico rei, dando-lhe a força ("espada") de que ele é depositário .

A deusa celta Ceridwen possuía o chamado caldeirão de inspiração e sabedoria. A deusa tinha três filhos: Crearwy era a jovem mais bonita da Terra, Morvan era feio, mas também um valente guerreiro. No entanto, seu terceiro filho, Afagdu, era tão extremamente feio que nunca poderia ser ninguém. Para compensar a maldição de seu terceiro filho, a deusa decidiu preparar uma poção especial que conferiria infinita sabedoria ao passado, ao presente e ao futuro. Esta poção tinha que ser elaborada com seis (hexagrama, runa Hagal, eixo do mundo, matéria) ervas mágicas e cozinhar por um ano e um dia, após o que apenas as três primeiras gotas seriam benéficas, transformando o resto em um veneno letal. Para preparar a poção, a deusa tinha dois servos, Morda (um ancião cego) e Gwyn (um jovem). Quando a poção estava pronta, com Gwyn mexendo na chaleira, três (compare as três partes da cerimônia da soma de três dias, ou o mesmo número presente no mito escandinavo do sangue de Kvasir, o que veremos mais adiante) ardentes gotas pularam em sua mão (providência, vontade divina arquetípica). Buscando aplacar a queimadura, Gwyn automaticamente levou a mão à boca, absorvendo as três gotas e tornando-se o repositório das virtudes destinadas ao patético filho da deusa. Ceridwen, enfurecida depois de perder um ano de preparação meticulosa, perseguiu Gwin para matá-lo, mas este, fazendo uso dos novos poderes adquiridos, tornou-se lebre, tornando a deusa em cão para perseguir-lo melhor (terra). Quando Gwin se tornou um peixe, Cerridwen tornou-se lontra (água), e quando o jovem se tornou um pardal, a deusa fez em águia (ar). Finalmente, Gwin tornou-se um grão de trigo, que a deusa, na forma de uma galinha, engoliu. No entanto, Cerridwen ficou grávida depois de ingerir o grão, e o filho que nasceu nove meses depois era tão bonito que a deusa não tinha coragem de matá-lo. Em vez disso, jogou-o num saco de pele de foca e deixou-o no mar. Mas a criança foi apanhada pelo príncipe Elphin, que o adotaria com o nome de Taliesin, que com o tempo, com seus dons de sabedoria e inspiração, acabaria na corte do próprio rei Artur como conselheiro e harpista, considerado o patrono de todos os druidas.

Para os antigos celtas, a misteriosa chaleira, que devia ser removida em um sentido particular, formando uma espiral, era um sinal lunar de poder gerador e simbolicamente considerada em contato com outra dimensão. O caldeirão celta, comparável em função simbólica à copa, o touro primordial, a vaca originária ou a cabra da fertilidade, tornou-se associado com feitiçaria, bruxaria e heresia após o triunfo do Vaticano.

GERMÂNICOS

Poços de criação e sabedoria de Odin: Yggdrasil, a Árvore do Mundo, tinha três raízes, uma para cada um dos três níveis da Criação. Estas raízes uniam os três mundos a Yggdrasil, desempenhando um papel de "pontes" entre dimensões, assim como o arco-íris Bifrost. Cada uma dessas raízes fundiu em um "nó", "redemoinho", "fonte" ou "roda" de energia (os chakras do mundo) que poderíamos comparar aos caldeirões celtas e, pela sua natureza "inesgotável" que alimenta a imensa árvore, poderiam ser assimilados ao Yin do taoísmo e à Lua, que é "esvaziada" e "reabastecida" indefinidamente.

A runa Yr (a runa Man invertida, o símbolo hippie) simboliza as três raízes da árvore do mundo, isto é, as "conexões" que o eixo do Universo ou a "essência universal" tem nos três níveis da criação segundo os germanos.

- A raiz do primeiro nível era a mais recente, entrou em Asgard (a terra dos deuses) e se chamava  poço de Urd: era o "poço do destino" em torno de que os deuses se usavam para celebrar conselho. Além disso, perto do poço, numa sala, viviam as Nornas, três divinas anciãs chamadas Urd (o passado ou destino, isto é, uma espécie de karma), Verdandi (presente) e Skuld (futuro), que registravam no tronco da árvore os destinos dos homens, e regavam e cuidavam deles com as mesmas águas do poço. A palavra "Urd" está relacionada com a palavra Wyrd, que para os germânicos simbolizava o vazio primordial, a escuridão morta e sem vida, assim como o "destino", isto é, coisas inexoráveis ​​e que não podem ser mudadas. Essa palavra evoluiu para o inglês moderno para se tornar em weird, isto é, "estranho", até mesmo "sinistro". Embora seu significado tenha degenerado, é inegável que mantém esse ar em relação ao "lado negro", a mão esquerda e uma forma de sabedoria com a qual há que andar com os pés de chumbo. No entanto, qualquer um que bebesse do poço de Urd se rejuvenesceria, e dentro dele vivem dois cisnes (um símbolo hiperbóreo, Apolo e Lohengrin), que são os progenitores divinos de todos os cisnes no mundo. À mão esquerda e a uma forma de sabedoria com que se tem que andar com cuidado. No entanto, qualquer um que bebesse do poço de Urd se rejuvenesceria, e dentro dele vivem dois cisnes (um símbolo hiperbóreo), que são os progenitores divinos de todos os cisnes no mundo. À mão esquerda e a uma forma de sabedoria com que se tem que andar com os pés de chumbo. No entanto, quem bebeu do poço de Urd se rejuvenescer, e em seu interior vivem dois cisnes (um símbolo hiperbóreo), que são os progenitores divinos de todos os cisnes do mundo.

- A raiz que entrou no terceiro nível estava em Nifelhl (também chamada Niflheim, a terra dos mortos e o gelo originário), e era conhecida como a chaleira de Hvergelmir ("caldeirão rujir"), a fonte da matéria primordial. Esta era a raiz mais antiga do Yggdrasil, e estava protegida pelo dragão Nidhogg, o ser mais baixo da criação, que roía os ramos da árvore, devorava os cadáveres dos mortos e bebia seu sangue. Nidhogg estava sempre em conflito com uma águia do ramo mais alto da árvore (águia-serpente), e um esquilo chamado Ratatosk trocava ameaças, insultos, fofocas e notícias entre os dois seres, subindo e descendo o tronco e tentando provocar guerra. Dizia-se que Hvergelmir era a origem de todo ser, e o lugar para o qual tudo acabaria voltando. O elivagar ("ondas desconhecidas" ou "rios venenosos") eram doze riachos escuros que enchiam o Ginnungagap ou Wyrd, congelando toda Nifelhl. Nesse conjunto, o dragão Nidhogg representa a o baixo, a matéria densa e pesada, as paixões telúricas, em conflito com a águia, isto é, a serenidade solar do espírito. O esquilo, como intermediário entre os dois elementos, representa a alma e a mente, destinados a um dia amadurecer, despertar, deixar de jogos, tornar-se um mensageiro de concórdia, não de discórdia, e promover um entendimento entre os dois seres, que já cumprem sua função como são.

- E a que se fundia em Jotunheim ou Utgard (terra rochosa, gelada e montanhosa, morada dos gigantes, seres primordiais equivalentes aos titãs gregos) era o poço de Mímir (às vezes descrito como born ou "fonte da mais alta sabedoria"). Este último poço será interessante, uma vez que está situado no fundo da criação, literalmente, no abismo mais profundo. O poço de Mímir tinha a reputação de branquear as fibras, por isso sua água sagrada deveria ser branca, como a soma hindu. Esta água ocasionalmente produzia, ao redor da área, uma névoa sublime da qual se podia obter o "mel da imortalidade". O guardião da fonte era o deus gigante Mímir (memória), e se dizia que era o ser o mais sábio de toda a criação.

Usando essas "conexões" na forma de diversas raízes e poços, os deuses e espíritos altamente evoluídos podiam "saltar" de mundo para mundo. Pode-se dizer que esses centros eram os pontos sagrados onde os três mundos coincidiam, assim como os chakras do corpo humano são lugares onde corpo, alma e espírito se encontram.

Odin, no fim, aproximou-se do poço da memória para pedir uma bebida a Mímir. O último, num tom sombrio, disse-lhe que o preço a pagar era um olho. Odin, sem dúvida, arrancou seu olho esquerdo e deu a Mímir, e assim ganhou a bebida sagrada. Desde então, o olho de Odin encontra-se no fundo do poço da sabedoria, para ser recuperado um dia por um herói que levanta-se desde baixo, retornando o espírito à fonte originária. Como interpretamos a simbologia do olho, que aparece novamente aqui? O olho direito de Odin é o Sol, e seu olho esquerdo é a Lua. Ao sacrificar seu olho esquerdo e beber da fonte da memória, ele consegue aproveitar o poder do terceiro olho. Ao sacrificar um olho material, Odin consegue ter acesso à visão desse olho espiritual mais importante. A explicação que realmente nos preocupa é que o olho esquerdo, isto é, a mente racional, incluso o ego, é um obstáculo — com suas perguntas, dúvidas e hesitações — para a visão do outro olho, o espiritual. Renunciando esse olho, a revelação da "outra visão" e o retorno à inocência dos sentidos são alcançados. Desde o dia de seu sacrifício, Odin é descrito como caolho, mas sendo seu olho esquerdo a Lua e o recipiente, e sendo seu olho direito o Sol e o líquido, Odin usou seu olho esquerdo para beber da fonte da memória, o que não é exatamente literal, mas arquetípico: a Lua (particularmente a crescente) simboliza o cálice que recolhe a luz do Sol (como dissemos, a Lua é aquela que recolhe e reflete a luz solar e tem forma de taça quando é crescente). Assim, antigamente, quando havia uma lua cheia, diziam os antigos: "Odin não está caolho esta noite". Por outro lado, encontramos similaridade com o mito luciferino, que descreve como Lúcifer, em sua descida à Terra e depois de uma terrível luta contra as forças das trevas, perdeu a joia da sua coroa (uma esmeralda) deixando-a na Terra. Isso simboliza a essência do herói deixado no lugar onde ele lutou a batalha: o abismo mais escuro e mais profundo.

Houve um tempo em que Odin, jovem, antes de alcançar a suprema sabedoria, tinha dois olhos. Arte por Konstantin Vasiliev .

O preço a pagar não era um capricho de Mímir: o deus Heimdal (chamado "deus branco"), progenitor dos homens, teve que sacrificar um lóbulo da orelha para obter um gole da mesma fonte.

Aqui vemos que a metáfora da memória sagrada, a nostalgia mística, não se encontra apenas na cerimônia trovadoresca medieval do Minnetrinken (bebida memória) e minnesängern (cantores da memória), mas também no paganismo germânico, de onde deve ter procedido. Observamos também o novo simbolismo do número três (3), em que cada poço representa uma dessas "divisões" de energia primordial, talvez equivalente ao akh, ba, e ka dos egípcios, ou para divisões semelhantes feitas pelos hindus, e que vimos .

O hidromel da poesia é outra referência, menos conhecida do que a anterior (mas igualmente reveladora), a uma bebida sagrada na mitologia escandinava. O paganismo germânico colhia a memória de uma antiga guerra entre dois grupos de deuses, os Ases ou Aesir (guerra, honra, força, justiça, ordem, valor) e Vanes ou Vanir (saúde, juventude, fertilidade, magia, sabedoria, amor), comparável aos Ahuras e Daevas dos iranianos, ou os Asuras e Devas dos hindus, ou talvez à guerra de Kurukshetra no "Mahabharata" entre Kauravas e Pandavas.

No entanto, a guerra estava igualada, nenhum lado poderia ganhar uma vitória definitiva e os dois grupos decidiram terminar a sua luta por um pacto, lançando as bases para a paz e colaboração no futuro. Para selar a aliança, cada um dos deuses e deusas cuspiram em uma grande jarra. Primitivo, antihigiênico? Para uma mente moderna, sim. Podemos também chamar de simbólico, porque não devemos esquecer que estamos nos movendo no campo do mito e que na mitologia, como nos sonhos, todos são símbolos a decifrar. Eles eram deuses, nada impuro procedia deles. Se suas lágrimas fossem de ouro, sua saliva também deve ser algo semelhantemente sagrado. A saliva é um dos fluidos corporais que contém muita "energia primordial", e na verdade há uma alta presença de DNA. O taoísmo afirma que na saliva há altas concentrações de Chi, e consequentemente recomendam sempre engolir isto durante a prática de exercícios especiais; cuspir simbolicamente constituiria um sacrifício semelhante à ejaculação. No caso que nos interessa, a saliva em si não foi aludida, mas para a essência divina contida naquela saliva.

Do líquido do frasco, que continha a saliva (e DNA) de cada um dos deuses, e através da fermentação mágica, os deuses criaram um homem para que esta aliança entre Ases e Vanes nunca fosse esquecido. Este homem chamava-se Kvasir, e imediatamente se tornou evidente que sua qualidade mais notável era sua imensa sabedoria e seu conhecimento de todos os mistérios dos nove mundos. Em todos os lugares ele se tornou conhecido, e nem o mais sábio deles desdenhava pedir-lhe conselho ou fazer-lhe perguntas. Com o passar do tempo, a fama de Kvasir chegou aos ouvidos de dois anões malignos, os irmãos Fjalar e Galar, que se tornaram invejosos e planejaram apropriar-se da sabedoria de Kvasir. O convidaram para uma festa em uma grande congregação de anões, um convite que Kvasir, sendo cordial e inocente por natureza, aceitou. A festa ocorreu em uma caverna subterrânea, e a conversação dos anões tratava apenas de benefícios, perdas, riquezas, posses, ressentimentos e vingança. Depois do jantar, os irmãos Fjalar e Galar quiseram conversar em particular com Kvasir, pedindo-lhe para entrar com eles em uma câmara escura. Kvasir, sem suspeitar de nada, entrou com eles na câmara, e quando estava dentro, os anões sacaram facas e mataram o pobre sábio, fazendo seu sangue jorrar. Os malvados anões drenaram todo seu sangue e o coletaram em dois recipientes chamados Son ("sangue") e Boden ("recipiente", também "solo" em alemão) e em um caldeirão chamado Odrorir. Compare Son e Odrorir com Sam-udra, o recipiente da Soma hindu. Derramaram o mel nos três recipientes, e a mistura entre o mel e o sangue de Kvasir fermentou no escuro e formou eventualmente uma bebida sublime que chamaram de hidromel da poesia. Qualquer um que provasse se tornaria um sábio ou um poeta, ganhando conhecimento mágico que provinha da memória do sangue de Kvasir [5]. Este hidromel da poesia, no entanto, não dava nem a imortalidade nem a juventude eterna atribuída a outras substâncias sagradas de outras mitologias indo-europeias.

Por enquanto, verificamos que a morte de Kvasir tem o claro simbolismo de um assassinato ritual, porque seu sangue é drenado para tomar posse da preciosa essência divina que a contém. Além disso, o símbolo do caldeirão reaparece. E vamos estudar o nome dos recipientes: "Odrorir" contém a runa Od e a runa Ir, que simbolizam a herança de sangue e da morte mística, respectivamente. "Kvasir" é uma palavra relacionada com kvas russo e quash inglês, e refere-se a uma variante forte de cerveja, que, novamente, não deve ser entendido literalmente. Na Dinamarca, kvase e na Inglaterra quash, eles significam "espremer", "extrair o suco" — que é um atributo doutras bebidas sagradas, como a soma hindu, que tinha de ser obtida como um azeite, espremido com o máximo esforço. Mais uma vez, temos a adição da runa Ir em seu nome. "Son" está relacionado com a runa Sig, o raio, o fogo, o Sol, a glória e vitória.

Quando a ausência de Kvasir se prolongou, os deuses ficaram impacientes e enviaram um mensageiro à caverna dos anões para inquirirem por ele. Os anões responderam insolentemente que Kvasir havia se engasgado com sua própria sabedoria, pois nos nove mundos ninguém podia competir com ele. Quanto ao hidromel da poesia, os anões o guardaram secretamente. Eles não provaram ou compartilharam com ninguém, eles simplesmente mantiveram-no secretamente, entregando-se à sua própria ganância, sem ser capaz de tirar proveito.

Mais tarde, os anões foram visitados pelo gigante Gilling e sua esposa. Depois de uma pequena discussão com eles, os anões enganaram Giling e o assassinaram à traição, e o mesmo aconteceu com sua esposa. No entanto, o filho do par de gigantes, Sutung, preocupado com a ausência de seus pais, entrou na caverna dos anões. Ouvindo suas desculpas descompostas, ficou furioso, agarrou-os pelo pescoço, levantou-os no ar e os ameaçou de morte.

Os anões, morrendo de medo, contaram-lhe sobre o hidromel da poesia e suas qualidades, e ofereceram dar-lhe se o gigante poupasse suas vidas, a que concordou. Sutung carregou os recipientes Son e Bodn e o caldeirão Odrorir ao monte Hnitbiorg, onde vivia. O gigante fez uma gruta profunda na base da montanha, onde começavam suas raízes, e ali depositou os três recipientes que continham o licor cobiçado. Prestemos atenção, porque novamente aparece o arquétipo da montanha e da caverna, na raiz do mesmo. Sutung ordenou que sua filha, Gunnlod, vigiasse o hidromel dia e noite.

Um arquétipo imortal indo-europeu: o triunfo do amor heterossexual sagrado. Como a Natureza pretendia, a guardiã ultra-feminina do divino compartilha com o herói ultra-masculino a substância sagrada que só os dois juntos são capazes de beber e compreender.

Ao contrário dos anões, o gigante Sutung se vangloriou muito de possuir o hidromel da poesia, de tal forma que os próprios deuses souberam disso, e Odin decidiu disfarçar-se como um gigante e viajar para Jotunheim (Utgard) para recuperar a mistura divina. Depois de ter matado os nove camponeses que guardavam um campo, ele ganhou a confiança do gigante Baugi, irmão de Sutung, oferecendo-lhe compensação pela perda de seus nove servos através de seu trabalho camponês, em troca de ajudá-lo apreender o licor. Baugi não acreditava que ele fosse capaz de fazer o trabalho de nove homens, e aceitou a oferta. Odin trabalhou um verão inteiro e cumpriu surpreendentemente sua parte do negócio (não em vão era um deus), de modo que Baugi teve que aceitar sua parte. Odin entregou-lhe uma broca chamada Rati, pedindo-lhe para fazer um buraco que iria chegar à câmara onde Gunnlod mantinha o licor. Baugi relutantemente o fez, e informou Odin que o buraco estava pronto. Ele, suspeitando, aproximou-se do buraco e soprou por dentro. Quando uma nuvem de poeira e lascas voaram em seu rosto, ele sabia que o buraco estava incompleto e, em tom severo, ordenou a Baugi que o terminasse. Quando terminou, Odin repetiu a operação, e desta vez não havia nenhuma nuvem de poeira ou lascas, então ele sabia que o buraco já havia atingindo a câmara interior onde estava a mistura divina.

Então Odin se transformou em serpente e entrou no buraco, deixando o gigante Baugui boquiaberto, que tentou sem sucesso matá-lo com a broca. Quando chegou à câmera, voltou a transformar-se, desta vez em gigante, com o objetivo de se apresentar a Gunnlod. Ela estava sentada, entediada, em um banquete de ouro, e ficou cativada pela presença do jovem gigante diante dela. Durante três (3) dias e três (3) noites, Odin e Gunnlod conversaram, riram e fizeram amor. Todas as noites, Gunnlod permitia Odin beber o licor. Mas Odin era esperto e drenou os três recipientes em um único gole cada. Depois de ter bebido dos três (primeiro Odrorir, depois Bodn e finalmente Son), Odin tornou-se uma águia e voou para Asgard, mantendo a "bebida sagrada" em seu pico. Sutung o viu e saiu em sua perseguição também se tornando uma águia, o perseguiu até chegar a Asgard. Uma vez lá, Odin cuspiu o hidromel da poesia em vários recipientes, e de lá em diante seria propriedade dos deuses. Sutung teve que fugir para não ser ferido por ataques.

Desde então, Odin concede ocasionalmente um gole moderado da bebida aos deuses ou em homens escolhidos, mas, como é evidente a partir de versões tradicionais pagãs (ao contrário de Snorri, um poeta medieval islandês que descreva o episódio como se Odin chuleado ao gigante), o rei de Asgard está em dívida com Gunnlod:

"Gunnlod me sentou em um assento de ouro,
Verteu a mim seu precioso hidromel:
Dolorosa recompensa ela teve de mim por isto
De seu coração orgulhoso e apaixonado,
Seu pressagiador espírito reflexivo

O que eu ganhei dela tenho usado bem:
Tenho aumentado minha sabedoria desde que eu voltei
Trazendo a Asgard o Odrorir
A bebida sagrada

Dificilmente voltaria vivo pra casa
Das garras do troll macabro
Se Gunnlod não tivesse me ajudado, a boa mulher
Quem envolveu seus braços em volta de mim"

(Hávamál, Edda poética).

A gigante Gunnlod na mente de um artista. De acordo com o mito original, ela não era particularmente graciosa, mas cantava como os anjos e dominava a linguagem poética, além de ser vidente. Essa mulher representava as qualidades atrofiadas da mente humana.

Observe que o consumo do hidromel da poesia é feito em três partes e dura três dias (o tempo que leva os heróis a morrer e renascer novamente), como quando Indra, antes de matar a serpente Vritra ("inverno") "tomou a soma para si mesmo e bebeu o extrato das três taças na cerimônia da soma de três dias" (Rigveda).

• As maçãs de Iduna: como mencionado, o hidromel da poesia não dava imortalidade aos deuses. Essa função (árvore da vida) era cumprida pelas maçãs de Iduna (Ostara na Germânia), deusa da juventude, primavera, alegria e inocência. Iduna era esposa de Bragi, deus da poesia. Ele era guardião de um cesto contendo algumas maçãs douradas, com as quais os deuses se alimentavam para não envelhecer e manter sua juventude eterna. As maçãs nunca acabavam, pois a sua cesta era uma fonte inesgotável, uma cornucópia, uma "porta" entre mundos, um "buraco de minhoca", um funil divino através do qual, em outra dimensão, não tinha forma, passa em nosso mundo em uma forma material.

Em certa ocasião, Loki, o deus das mentiras, das bagunças e dos truques, foi chantageado e ameaçado pelo gigante Thiazi, que, na forma de uma enorme águia escura, o arrastou até o chão para fazê-lo sangrar e quase devorá-lo vivo.Thiazi libertou-o apenas sob a condição de jurar tomar Iduna e suas maçãs de Asgard. Loki, no meio de dores atrozes, concordou. Dizendo à inocente Iduna que ela tinha encontrado uma árvore que dava maçãs douradas idênticas às de sua cesta, Loki conseguiu fazer a deusa confiável deixar Asgard e atravessar a ponte Bifrost, que liga Asgard com Midgard, a Terra Média, mundo dos homens mortais. Assim que se encontrou em Midgard, Thiazi, novamente sob a forma de uma águia escura, arrebatou Iduna com suas maçãs, levando-a para Trymheim ("país da tempestade"), localizado no topo de grandes montanhas, entre a rocha, vento e granizo. O objetivo de Thiazi era que os deuses, sem as suas maçãs, foram envelhecendo e acabaram por morrer, enquanto ele permaneceria sempre jovem.

Com suas maçãs, seus frescor, sua benevolência e sua juventude, a deusa Iduna (equivalente escandinavo da Ostara germânica, Easter anglo-saxã ou Siwa eslava, deusas da primavera), que viviam nas florestas e decoravam a vegetação verde com flores e brotos depois de cada inverno, era sem dúvida a fonte e a guardiã da imortalidade dos deuses germânicos.

Os deuses logo se tornaram conscientes do desaparecimento de Iduna. O tempo começou a deixar sua marca neles, fazendo com que envelheçam gradualmente. Odin convocou uma reunião e notou que os únicos deuses restantes eram Iduna e Loki. Loki sendo o deus dos assuntos obscuros por excelência, supuseram que havia tramado algo. Loki, que estava se escondendo, foi capturado em tentativas desesperadas de escapar e atirado aos pés do enfurecido Odin, a quem tinha de explicar, balbuciando, o que acontecera. Entre as ameaças terríveis, o rei de Asgard ordenou-lhe imediatamente resgatar Iduna e suas maçãs a qualquer custo, se ele apreciasse sua integridade física. Para ajudar Loki, Freia (a deusa do amor, equivalente a Afrodite grega ou Vênus romana) emprestou sua pele de falcão. Convertido como um falcão, Loki voou para Trymheim, onde encontrou a triste Iduna e suas maçãs, confinadas em uma sala. Estendendo as asas e murmurando algumas runas, o falcão-Loki converteu Iduna e suas maçãs em uma noz, que pegou em suas garras e saiu voando dali. O gigante Thiazi tomou consciência disso, transformou-se numa águia novamente e perseguiu Loki. Os deuses, sabendo o que podiam esperar, empilharam madeira nas paredes de Asgard e encharcaram-na com óleos inflamáveis. Assim que o falcão-Loki passou, eles atearam fogo, e uma parede de fogo se levantou, fazendo com que a águia-Thiazi queimasse e caindo ao chão de Asgard, onde os deuses o mataram. Loki murmurou novamente as runas, e novamente Iduna apareceu, radiante e sorridente como se nada tivesse acontecido, saudando seu povo, oferecendo suas maçãs e salvando os deuses da morte do tempo.

Aqui vemos novamente que um pássaro de rapina (um falcão neste caso) recupera o alimento solar do topo de uma montanha, voando de volta com ele para a casa dos deuses, com as forças escuras o perseguindo.

• A hidromel, mesmo acima de uma potente variedade da cerveja, era a bebida favorita dos antigos germanos, especialmente os vikings e, como o nome indica, era obtida misturando água com mel e deixando fermentar. Segundo a arqueologia, é "o antepassado de todas as bebidas alcoólicas". O inglese chamam mead (anglo-saxão ou inglês antigo medu, proto-germânico *meduz), os eslavos miod, os antigos irlandeses  mid, os bálticos midus, os  hindus madhu e os gregos melikrato. Era anteriormente uma tradição para entreter recém-casados ​​com um suprimento de hidromel suficiente para um ciclo lunar (28 dias), pois acreditava que aumentava a fertilidade e as chances de engendrar um filho do sexo masculino. Alguns veem nessa prática a origem da "lua de mel".

Doce, aromático, com um odor que alimenta, embriagante, de atrativa cor âmbar e parece o sangue do próprio Sol, a hidromel gozava de grande apreço entre os antigos indo-europeus, especialmente os germânicos, bálticos e eslavos, que viviam em áreas onde a videira poderia ser cultivadas com sucesso.

No entanto, aqui não vou me referir ao hidromel dos mortais, mas ao "outro" hidromel que os caídos em Valhalla bebiam (valhall em alemão, fallhall em inglês, ou seja, "salão dos caídos" ou dos eleitos). Este hidromel, que era servido em chifres pelas valquírias ("a que escolhe os mortos"), vinha das mamas de uma cabra, Heidrun. Esta cabra viviano telhado do Valhalla e, comia as folhas da árvore Laerad, que alguns assimilam à Yggdrasil. Todos os dias, a cabra enchia de hidromel um caldeirão tão grande que todos os guerreiros que haviam sido mortos na história por causa dos deuses poderiam saciar sua sede depois de terem passado um dia inteiro lutando entre eles. Heidrun, a mascote de Valhalla, era considerado um animal bastante promíscuo com cabras machos (símbolo de fertilidade masculina), por isso se podia dizer que as fontes de energia desse curioso animal simbólico eram as folhas de uma árvore divina e as forças da virilidade.

Aqui, comparo o simbolismo do hidromel com o da força Yin, que incessantemente flui, com o "orvalho de mel" como alimento para os mortos, como condensação da essência de Luna (hidro) e Sol (mel). Tenha em mente que este "hidromel" é também o líquido com o qual as nornas irrigam Yggdrasil. Com tudo isso, estou inclinado a considerar as maçãs de Iduna como a versão germânica da ambrosia grega, e o "hidromel" de Asgard como sua versão do néctar dos deuses.

• O martelo de Thor, chamado Mjolnir ("demolidor") pode ser enquadrado nas "forças divinas", já que é o meio pelo qual as forças elementares dos gigantes são controladas. Relacionado com relâmpagos, trovões e tempestades, Mjolnir era a principal arma dos deuses, força infalível na qual todos confiavam. Como confirmação adicional do caráter polivalente desta força (cura ou destruição), descobrimos que Mjolnir servia para derrubar gigantes, mas também para curar ou santificar. Por exemplo, quando Thor está na estrada e não tem comida na mão, ele mata com o martelo as cabras que puxam seu carro de guerra para comê-las. No entanto, depois disso, ele arredonda o martelo na montanha de ossos, e elas revivem.

Cavalgando furiosamente em sua carruagem puxada por cabras machos, o ruivo Thor golpeia fortemente os gigantes com seu martelo eletrificado Mjolnir, o respeitado e temido raio dos deuses. Arte por Mårten Eskil Winge.

• O sangue do dragão Fafnir pode ser perfeitamente comparado com as substâncias divinas mencionadas aqui. Fafnir era um anão que, convertido em um dragão para proteger avidamente um grande tesouro, foi morto por Siegfried (também chamado Sigurd: runa Sig + runa Ur, ou seja, a vitória do primordial), o herói da germanidade, com uma espada herdada de seu pai Sigmund (runa Sig + runa Man, homem vitorioso), que a tirou de uma árvore depois que Odin a deixou ali pregada, tudo isso está escrito no antigo Nibelungenlied (canção dos Nibelungos) e na saga dos Volsungos, bem como nas versões wagnerianas desses mitos. Sigmund representa, portanto, o homem de vida heroica e morte arquetípica, que favorece com seus atos a aparição do herói divino (Siegfried) e a redenção do próprio mundo e sua raça, recuperando a origem perdida (runa Ur) através da vitória runa Sig).

Por que, então, o sangue de Fafnir é especial, sendo que trata-se simplesmente de um anão ganancioso transformado em um dragão monstruoso? Fafnir era simplesmente guardião de um tesouro, o ouro do Reno, que outro anão, Alberich, tinha roubado das ninfas numa tentativa de compensar a frustração de não ser capaz de possuí-las. Entende-se que o tesouro de Fafnir não é apenas o ouro externo, mas também que se apropriou dele fazendo que corra por suas veias, mas sem ser capaz de dar uma saída criativa de qualquer tipo: Fafnir é um acumulador estéril de energia e luz divina, uma espécie de cão imenso do jardineiro, que nem come nem deixa comer.

Seu irmão Regin estava interessado em usar Siegfried para matar o dragão, e então planejava matar Siegfried e guardar o tesouro. O que significa a obsessão do dragão do mal com acumular o tesouro? Inevitavelmente, ele nos lembra a civilização atual: o homem moderno, ridículo, fraco e corrompido em todos os níveis, tem à sua disposição infinitos tesouros (tecnologia, conforto, luxos, possibilidade de acesso à cultura e vastas fontes de informação) mas por causa de sua incapacidade é impotente de produzir algo espiritualmente superior aos homens do passado, que tinham um "tesouro" muito menor, mas que sabiam fazer melhor uso do pouco que tinham. O dragão não é nada mais do que regozijar-se e nadar em ouro, nunca sendo digno dele, nem tendo qualquer direito de acumular-lhe na sombra estéril. Muitas outras pessoas têm em suas mãos grandes tesouros (vários conhecimentos, cultura, recursos etc.), mas não sabem usá-los bem, ou seja, não passam da fase de brincar infantilmente com eles, maravilhando-se morbidamente com seu brilho e deleitando-se com sua "ganância" intelectual.

Quando Siegfried está preparando seu ataque, Odin, disfarçado de ancião, aconselha o jovem herói que após sua ação banha-se no sangue do dragão, o que conferirá invulnerabilidade em todas as partes do seu corpo que estão submersas no sangue (lembremo-nos da cerimônia do mitraísmo, que consistia em banhar-se no sangue de um touro sacrificado em uma cerimônia de altíssimo poder sugestivo). Após a morte da besta, Siegfried segue o conselho do ancião, mas por causa de uma lâmina empoleirada em suas costas, uma pequena parte dela permanece sem "blindar". O significado disso é que Siegfried, o típico herói germânico valente mas inocente, era invencível no combate corpo-a-corpo (frente-a-frente), mas era vulnerável às ciladas, às conspirações sombrias e às "apunhaladas pelas costas".

Arte por Konstantin Vasiliev.

Regin, o anão, no entanto, pede a Siegfried que lhe dê o coração do dragão, mas eis que o herói tinha provado os dedos manchados com o sangue do dragão, e percebeu outra vantagem que vinha dele: agora ele é capaz de entender a língua dos pássaros. E os pássaros — representantes da sabedoria simples, leve, musical, volátil e intuitiva da Natureza — alertam Siegfried que o anão traiçoeiro, ganancioso e mesquinho planeja matá-lo para aproveitar sua vitória sobre o dragão.

Siegfried se levanta contra Regin e lhe dá a morte sem piedade. Então, curioso pela inquietação de sua vítima pelo coração da besta, rasga o coração ao dragão, agarra-o e come-o. Depois disso, ele obtém o dom da sabedoria e da profecia, pois este coração é equivalente às "pedras sagradas" que vimos; era como a alma do dragão, seu centro supremo, e também, por lógica, dirigia a mesma circulação de sangue precioso através do corpo da besta.

Neste mito, o terrível dragão de fogo é a serpente Kundalini, a besta escura que deve ser despertada para acessar a criatura luminosa, Brunild, a valquíria de Siegfried predestinada a ele, caída e cercada... por um anel de fogo. Aqueles que elaboraram o mito de Siegfried separaram o dragão e a donzela em duas partes, mas em outros mitos folclóricos medievais, a ação era inseparável: o nobre cavaleiro, depois de matar o dragão, liberta a princesa que caiu nas garras do seu sonho e que havia sido acumulada até esse ponto. Sem embargo, é claro que a partir de ambos os mitos o acesso à divindade espiritual só é possível com a morte do dragão.

Arte por Konstantin Vasiliev.

ESLAVOS

É lamentável que guardemos tão poucos mitos escritos dos antigos eslavos pagãos, mas acho que o caso do "orvalho das vacas celestiais" pode ser destacado. Esses animais divinos, consagrados a Dodola ou Perperuna (esposa de Perunú, o típico deus ariano da tempestade), lançavam sobre a terra um leite celestial etéreo quando a deusa as ordenhava. Este leite era sublimado na forma de orvalho matutino. As vacas podem sem dúvida ser comparadas com a cabra Heidrun, símbolo de fertilidade e energia inesgotável (yin), bem como o touro primordial da mitologia iraniana (do qual o touro de Mitra é uma reminiscência mais moderna), ou a vaca primordial Audumbla da mitologia germânica.

Numa parte da Europa Oriental, num campo estrategicamente repleto de pedras consagradas ao Sol, à Lua e ao firmamento, diante dos veteranos sábios e irmãos de sua tribo, um novo guerreiro eslavo coloca sua espada ao serviço dos deuses de seu povo. Arte por Boris Olshansky.

CRISTIANISMO

Como vimos em outro artigo, o Cristianismo tornou-se muito "europeizado" quando entrou em contato com grandes quantidades de sangue europeu. Em certos momentos da Idade Média, parece acontecer uma simples repetição da antiga mentalidade pagã sob diferentes formas, mas sempre repletas de folclore europeu e por símbolos esotéricos que não estão relacionados com as origens do Cristianismo numa província terceiromundista do Império Romano, onde um judeu revoltado foi crucificado.

Embora o Cristianismo como tal seja uma ideia desértica de origem judaica — e portanto estranha à Europa — é inegável que, quando chegou a terras de florestas, névoas e neves habitadas por guerreiros de sangue nórdico, sofreu uma transformação: surge a mágica idade média dos castelos, reis, cavaleiros, princesas, trovadores e magos que viviam de costas para a Igreja e a influência que tinha sobre o povo.

Durante este tempo, dois princípios políticos foram enfrentados na Europa:

- Por um lado, os gibelinos, ou seja, os partidários da ideia do Sacro Império Romano-Germânico como eixo da vida geopolítica europeia. Esses indivíduos se consideravam anteriormente fiéis ao Imperador do que o Papa e ao serviço do Império que a Igreja. Foi sob este guarda-chuva gibelino que a tradição de minnesängern ou trovadores desenvolveu-se na Alemanha em cortes principescas que viviam completamente fora dos slogans eclesiásticos e criaram uma obra repleta de conotações esotéricas e alquímicas. As tradições destes bardos medievais são bem capturadas no "Tannhäuser" de Wagner, onde um torneio de trovadores é narrado na corte de um castelo real. É curioso como, na Occitânia e nos reinos ibéricos, a Minne tornou-se "Amor", isto é, A-Mort ou Amort, que é A ("sem") e Mort ("morte") = sem morte, imortalidade, como o Amirta indo-iraniano, o Ambrotos (ambrosia) grego ou a anfitriã trazida pela pomba celestial branca. Por outro lado, AMOR representava a insurreição contra ROMA, que se tornou o local de invasão anti-europeia e da "luz do sul" durante a Alta Idade Média.

- Por outro lado, os guelfos , que estavam ligados ao papado, ao Vaticano e à Igreja, e que detestavam cordialmente os clãs gibelinos.

Esta divisão de Palácio versus Templo, que foi particularmente notável no Norte da Itália, foi o que motivou até mesmo algumas guerras entre o Império e o Papado, ou a proclamação como anticristos de importantes imperadores germânicos, como Frederico Barbarossa ou seu neto Federico II, muitos dos quais foram educados desde a infância por ordens de cavalaria.

E é que as ordens de cavalaria ganharam especial importância neste tempo de cruzadas e misticismo. No Oriente, uma ordem particular, os Cavaleiros Templários, alcançou alturas elevadas de sabedoria e influência, precisamente da mão da herança persa. Os templários chegaram a um grande poder e, aliados de grupos opostos à Igreja, como os cátaros e o próprio Sacro Império, fizeram o Vaticano vacilar, colocando-o extremamente próximo da sua destruição. Dentro deste mundo, havia muitos mitos, muito mais relacionados com os celtas e germânicos do que com a Bíblia. Daí a forte influência celta, persa (procedente das cruzadas) e germânica no espírito da cavalaria medieval, que não passava de uma repetição das tradições dos mänerbunden europeus, isto é, sociedades secretas de caráter místico-militar.

Um interessante repertório de cavaleiros europeus de importantes ordens religioso-militares. Da esquerda para a direita: Santo Sepulcro, Hospitalário (posteriormente de Rodes e de Malta), Templário, Santiago e Teutônico. Os membros destas ordens costumavam vir de famílias da nobreza germânica dos reinos da Europa Ocidental e deviam ter uma excelente constituição física. Infelizmente, eles foram forçados a fazer um voto de celibato, condenando seus preciosos genes à extinção.

Os cátaros e os templários foram exterminados pelo poder oriental instalado em Roma e, após a Guerra dos Trinta Anos (1618-1638), o Sacro Império foi aniquilado como potência depois de ter tornado-se em um campo de batalha entre católicos e protestantes, que não tinham nada melhor fazer do que matar uns aos outros, enquanto os turcos arrasavam os Balcãs e escravizavam seu povo.

Tiago de Molay — um nobre de origem franca — o último grão mestre dos Cavaleiros Templários. Flagelo do sultão do Egito, tomou Jerusalém em 1298 e realizou importantes operações militares no Egito como na Síria. Em 1307, juntamente com um grande número de templários, foi preso pela Igreja (ingrato pelas vitórias que os templários lhes deram na Terra Santa), assustada pelo imenso poder que estava acumulando a ordem na Europa e no Oriente. Acusado de sacrilégio contra a cruz, idolatria e heresia, o templário reconheceu suas acusações sob tortura cruel, para se retratar depois, proclamando que os templários eram inocentes e que a perseguição era injusta. Em 1314, depois do "golpe de Estado" anti-templário da Igreja, foi queimado vivo numa fogueira em frente à catedral de Notre-Dame de Paris. Ali lançou uma maldição, condenando todos os culpados da queda dos templários "até a décima terceira geração", e convocando a "corte de Deus" ao Papa Clemente V e ao rei Filipe IV da França, culpando-os de sua perseguição, que morreram pouco depois.

Após esta breve introdução podemos ver a Idade Média doutra forma. Vamos analisar os "mitos" que proliferaram aqui.

Na própria Bíblia (Gênesis), há referência a árvore da vida e a árvore da ciência. Estes elementos, que os judeus adquiriram de um dos numerosos povos com que cruzaram, representam, além das "colunas gêmeas", os dois elixires tão frequentemente descritos nas mitologias indo-europeias. Nesta visão, a árvore da vida concede a imortalidade, e seu "fruto" pode ser comparado com a ambrosia grega, as maçãs de Iduna ou o "elixir da juventude eterna". Por outro lado, o fruto da árvore da ciência concede inspiração divina e conhecimento do bem e do mal, isto é, "ser como Deus". Este último produto pode ser equiparado a outras substâncias descritas, como o néctar helênico, o sangue de Kvasir ou algum outro "elixir de sabedoria". Significativamente, no mito do Gênesis, este último fruto, representado como uma maçã, que é oferecida a Eva por uma serpente, e Adão por Eva, precipita a queda da humanidade.

• As lendas do Graal coincidem com a ascensão das ordens de cavalaria e do Sacro Império do século XII por autores como Chrétien de Troyes, Robert de Boron ou o trovador templário alemão Wolfram Von Eschenbach (obras que séculos posteriores inspirariam a Wagner) e o ciclo artístico em geral. Esses autores, que eram todos cavaleiros curtidos em combate, eram também iniciados que deviam estar cientes de repetir arquétipos pertencentes ao passado europeu pré-cristão, especialmente celtas, germânicos, romanos, gregos e até mesmo persas

Simbolismo pagão em plena Idade Média cristã: o aparecimento do Graal, considerado o objetivo final dos cavaleiros da virtude e da guerra. Sua orientação celestial, solar e "olímpica" é óbvia.

Sem parar em cada caso particular, vou tentar analisar acima alguns traços característicos das fábulas do Graal.

De acordo com a mentalidade medieval, o cálice do Graal era onde José de Arimateia tinha recolhido o sangue ("essência") de Cristo ("Deus vivo", "Deus feito carne") no monte Calvário (eixo do mundo onde toma lugar o  sacrifício ou "crucificação", neste caso equivalente à "árvore da vida"). Aqui o sangue de Cristo é uma metáfora para se referir aos frutos e resultados do sacrifício do herói divino. Da mesma forma, é comparável ao caso do touro mitraísta ou do dragão germânico: o touro divino contém a energia primordial, que tem de ser liberada em seu sangue para impregnar o mundo e outros seres, enquanto o sangue do dragão morto por Siegfried contém propriedades divinas que estão relacionadas com a invulnerabilidade quando alguém se banha nele (imortalidade, árvore da vida) e a inspiração divina quando se bebe (sabedoria, árvore da ciência). Uma teoria que sempre corrobora este fato é que o termo "Graal" vem de San Gréal, do qual Sang Réal = sangue real, o sangue de Deus.

Curiosamente, assim como os indo-arianos disseram que a Soma se encontrava nas montanhas (particularmente no "monte Mujavat"), no mito medieval o sangue de Cristo também é coletado no monte Calvário, preservado e guardado por cavaleiros templários virgens no castelo de Montsalvache ou Monsalvat, o "monte da salvação", o Mon-Sal, portanto, Lua + Sol: runa Man + runa Sig. Ultimamente muito é especulado sobre se esse monte é o Montserrat (Espanha) ou Montségur (França, runa Man, runa Sig, runa Ur). A verdade é que em ambos os lados os nazistas fizeram pesquisas. É curioso como Montségur estava associado com o símbolo da pomba (a nobre cátara Esclarmonde de Foix se transforou em uma de acordo com o mito folclórico), assim como as pombas eram as portadoras da ambrosia grega para os deuses do Olimpo.

Nos mitos medievais, supunha-se que o Graal, como a "outra terra", se tornou invisível aos olhos dos profanos, de modo que só os puros, os leais e os corajosos podem alcançá-lo depois de uma série de testes. O Graal não está relacionado com mero estudo ou acumulação de dados, mas com um processo de ação tanto interno como externo, que transforma o homem de dentro. Como uma confirmação, o trovador templário Wolfram von Eschenbach abomina o conhecimento do mundo que vem de absorver dados excessivos através da leitura, e em vez disso admira a sabedoria vital, esse conhecimento total, completo e instintivo, adquirido através da experiência direta, da intuição e da formação da alma. O mesmo von Eschenbach, considerado um dos maiores expoentes da literatura medieval, não sabia ler nem escrever, mas fazia que lessem as fábulas e escrevessem suas palavras. Este homem era, como dizem, um bardo, um escaldo, assim como um superdotado.

A Ordem Teutônica — onde só homens germânicos do melhor sangue eram admitidos — em ação.

No "Titurel" (runa Tyr + runa Ur, que alguns têm assimilado a Teodorico, o rei godo) de Von Eschenbach, o Graal flutua em um baú no monte Onyx, onde a simbologia do eixo do mundo também está mais presente do que nunca. No trabalho do mesmo autor, o eremita Trevizent, tio de Parsifal e seu professor, fala com seu sobrinho e discípulo sobre o castelo do Graal:

"Eu sei bem que muitos valentes cavaleiros vivem em Munsalvaeche, junto ao Graal. Sempre que cavalgam pelo mundo, como frequentemente o fazem, é para procurar aventuras. Eles o fazem por causa do seu destino, esses templários, seja seu prêmio a vitória ou a derrota. Há ali uma tropa bem treinada na luta. Vou dizer-lhes do quê vivem: eles se alimentam de uma pedra, cuja essência é totalmente pura. Se você não a conhece, vou lhe dizer o nome: lapis exilis, [lapis ex coelis, isto é, "pedra caída do céu", ou talvez lapis elixir, ou seja, a pedra filosofal dos alquimistas]. A força mágica da pedra faz que a Fênix queime até cinzas, mas as cinzas lhe devolvem a vida. Assim, a Fênix muda sua plumagem e depois brilha em sua elegância, sendo tão luminosa e bela como antes. E em aparência ele não fenecerá. Sua aparência permanecerá a mesma, seja ele homem ou donzela, como no dia em que viu a pedra, a mesma de quando os melhores anos de sua vida começaram, e embora ele veja a pedra por duzentos anos, ele nunca mudará, exceto por seus cabelos que poderão embranquecer. A pedra fornece aos seres humanos uma força tão vital que sua carne e ossos rejuvenescem instantaneamente. Esta pedra também é chamada de Graal. Neste exato dia recai sobre ele uma mensagem na qual reside seu maior poder. Hoje é a Sexta-Feira Santa e você verá como uma pomba desce do céu e coloca na pedra um pequeno e branco hospedeiro ["pão de Deus", ou seja, a versão europeia medieval da ambrosia helênica]. A pomba, que resplandece em sua brancura, retorna ao céu. Como disse, toda Sexta-Feira Santa põe-na sobre a pedra, dando lhe tudo que na terra tem um bom aroma, alimento e bebidas, tudo o que cresce na terra, com uma abundância paradisíaca. A pedra também fornece a carne de todos os animais que voam, correm ou nadam [arquétipo da cornucópia ou caldeirão celta, sinal de abundância inesgotável]. O maravilhoso poder do Graal garante a existência da comunidade de cavaleiros. Ouça agora como aqueles chamados ao Graal se tornam conhecidos. Na borda da pedra, uma inscrição com letras celestiais indica o nome e a origem, seja um menino ou menina, a partir do qual está destinada a fazer este caminho de salvação. Não é necessário retirar a inscrição, porque, logo que foi lida, desaparece por vontade própria. Todos os que hoje atingiram a maioridade chegaram lá como crianças. Abençoada é a mãe que gera uma criança destinada a lá prestar serviço! Os pobres e os ricos são igualmente felizes quando solicitados a enviar seus filhos para a comunidade. São exigidos por muitos países. Eles permanecem lá sempre protegidos contra a ignomínia do pecado e recebem sua magnífica recompensa no céu".

Aqui se vê que é um elemento de imortalidade e abundância, mas não de inspiração divina, de modo que esta pedra pertence ao arquétipo da "árvore da vida". A "pedra celeste" de Eschenbach é a esmeralda (como a Padme Hum hindu) destacado da coroa de Lúcifer quando ele caiu para a Terra derrotado após o seu combate astral contra Jeová.

Na Terra, de acordo com René Guénon, a esmeralda foi esculpida e transformada em uma copa fabulosa, com a qual Cristo brindou na última ceia, e com a qual seu próprio sangue seria colhido no Monte Calvário após seu "sacrifício": O Kristo helenístico é realmente a repetição do arquétipo de Lúcifer, só que desta vez ele não deixa uma pedra como herança, mas um cálice cheio do seu próprio sangue. Esta pedra, em suma, tem o poder, Não apenas para apontar para aqueles que estão predestinados a servir o Graal (os cavaleiros templários do castelo de Montsalvat de acordo com von Eschenbach), mas para os verdadeiros reis, porque semelhante reconhece semelhante, e se a pedra estava imbuída com poderes divinos, sentiria afinidade com os grandes líderes, possuídos por forças semelhantes. Por outro lado, a cor verde associada ao Graal ("esmeralda") está muito relacionada o sacrifício de outro deus similar, que era verde: Osíris (runa Os + runa Yr + runa Is), que foi coletado por Ísis (runa Is + runa Is, ou seja, o gelo, a preservação da imortalidade estática), bem como com o arquétipo do coração indestrutível, o chakra anahata (o quarto), que foi repetido, como vimos, no mito de Siegfried.

A coroa de Lúcifer e sua esmeralda é outro arquétipo de inserção entre o vidro e a substância, a Lua e o Sol. A coroa é a lua crescente, os chifres, as asas, o cálice. E a pedra é o Sol, o raio, a aura, o conteúdo do cálice. A coroa é literalmente a glória de Lúcifer, sua graça divina, sua vitória, seu triunfo, seu hvareno, e no futuro ele vai abrigar novamente a grande esmeralda que Jeová precipitou na Terra.

Como vimos, o Graal não tem absolutamente nada de cristão; não aparece na Bíblia, e responde a arquétipos celtas, germânicos, e talvez persas, mas não bíblicos. E o que é o Graal "cristão"? É muitas coisas ao mesmo tempo. É amor, glória, vitória. Mas acima de tudo é o sangue do Deus caído e é inconcebível sem a presença de uma mulher: o cálice é a mulher perfeita, capaz de receber o divino "sangue real" (o tributo do herói, incluso seu equivalente carnal, a ejaculação) e assim dando origem ao filho perfeito e, eventualmente, a uma humanidade perfeita: o segredo do Graal cristão é, acima de tudo, um segredo genético, sem o qual não pode haver uma predisposição para alcançar a sabedoria.

É curioso como a atenção às sagas medievais do Graal, e grupos heréticos como cátaros e templários, veio da mão do nazismo nos anos 1930. Foi o coronel SS Otto Rahn, investigador destes assuntos e autor de "A corte de Lúcifer" (1937), que disse que na cerimônia de Minnetrinken ("bebida da memória" ou amor nostálgico), os cavaleiros e trovadores iniciados alçavam uma copa de pedra e recitavam: "A copa me diz que eu estarei novamente. Fala ao ouvido em um silêncio inefável".

Um mito eterno e onipresente em todas as nações indo-europeias: o herói, armado com a espada de sua vontade e montado nas forças naturais domadas por ele, enfrenta o dragão terrível, que deve superar para acessar o "próximo nível", mais divino e mais sutil. Durante a Idade Média cristã, São Jorge tomou o lugar de Siegfried: paganismo disfarçado de cristianismo. Arte por Konstantin Vasiliev.

Finalmente, é curioso como um dos prêmios concedidos aos atletas (outro é uma coroa ou uma medalha) é precisamente uma copa, como um sinal de vitória e triunfo.

ISLÃO

O Islão do primeiro estágio não era como o Islão moderno (lembre-se que para o Islão, tudo exposto aqui é uma heresia e uma idolatria a ser erradicada). Gozando de grandes quantidades de sangue indo-europeu, o mundo islâmico herdou um importante conhecimento das civilizações do Egito, Babilônia, Mesopotâmia, Pérsia etc., bem como a preservação do conhecimento grego, que penetrara Oriente atrás das lanças das falanges macedônias, quase um milênio antes do aparecimento do Islão. Além da civilização de Al-Andalus, dentro do Islão, o ramo xiita (Pérsia principalmente) se erigiu como a versão mais "tradicional" do Islão, e dentro dele as variedades ismaelita e sufi foram praticamente constituídas como seitas esotéricas. O caso mais famoso é o da ordem dos assassinos, considerado "herético" pelas autoridades islâmicas principais. 

• Indubitavelmente, a coisa mais próxima da noção de Graal é a Caaba ("cubo", comparar com a runa Heil, ou asterisco, embutida dentro de um hexágono) da Meca. 

Mesmo antes do tempo de Maomé, esta pedra era considerada como um conjunto do eixo do mundo materializado, como o onfalo grego de Delfos que santificava e convertia em umbigo do mundo o lugar em que era instalado. Diz-se que esta pedra caiu sobre a Terra (um meteorito?) semelhante à esmeralda da coroa de Lúcifer e que no início era branca, mas estava escurecendo por causa dos pecados da humanidade, até tornar-se negra, que é a cor que atualmente possui.

Como curiosidade, Ghral significa "pedra sagrada" em árabe-persa, e o Islão herdou essa afinidade persa pelo mel como um elemento divino, como é evidente nas histórias folclóricas do mundo árabe.

ALQUIMIA

Embora se tente localizar a origem da alquimia, é absurdo, já que a encontramos na base de muitas sociedades, como talvez outras que desapareceram. Portanto, não se pode dizer que a alquimia tenha uma origem localizada. O que nos interessa neste caso é a alquimia europeia, que foi forçada a realizar, à sombra da Igreja, funções que considerava heréticas e dignas da fogueira. E que melhor maneira de disfarçar alusões espirituais e esotéricas do que em palavras confusas que se referem a metais e reações químicas?

Os professores alquimistas, para mostrar aos discípulos — uma repetição de processos a serem realizados dentro de si mesmos — no caminho da perfeição, ensinaram-lhes como os metais e os químicos reagiam entre si, para que se mentalizassem e "tivessem uma ideia" do que os aguardava. Assim, o chumbo realmente simbolizava a matéria pesada que impede a alma, representada pelo prata e fascinante mercúrio, de aspecto "lunar". 

Ao separar os metais nobres dos metais menos nobres, favorecendo reações químicas espetacularmente inspiradoras entre enxofre, sais e materiais inflamáveis, os alquimistas escondiam os ensinamentos que transmitiam aos seus iniciados sob um guarda-chuva pseudocientífico ou extravagante. O objetivo era isolar o "elixir da juventude", o aurum potabile (ouro potável), um arquétipo relacionado à árvore da vida.

Outro objetivo era conseguir o fabricar a pedra filosofal, que era um objeto através do qual o chumbo podia ser convertido em ouro. Isso provavelmente simbolizava encontrar comunicação com outro mundo para "espiritualizar a matéria", infundindo leveza celestial ao corpo. A pedra filosofal, então, pertence ao arquétipo da árvore da ciência (sabedoria, inspiração).

Na Idade Média e no Renascimento, representações assim eram consideradas ultraheréticas; a simbologia cristã de qualquer tipo está totalmente ausente. Apoiando-se na Lua (alma, símbolo da água, mercúrio, barco no oceano), o herói e sua valquíria, coroados, que superaram a divisão luz-escuridão, corpo-espírito bem-mal, despertando o "outro lado" adormecido, celebrando um casamento entre os seus "dois lados", segurando na sua mão direita um copo com três (3) serpentes (preta, branca e vermelha, ou seja, as fases alquímicas de nigredo, albedo e rubedo) e na sua mão esquerda uma serpente branca que forma um anel como o ouroboros: esse anel é o eterno retorno (e nos lembra o Cernuno que vimos antes com as torques) e Jormungandr (a serpente do mundo), e o fato de que é realizada triunfantemente pelo casamento herói-valquíria implica que este ser tornou-se o senhor do seu destino, que está acima da roda das encarnações (do Samsara) e é capaz de contornar e atravessar a fronteira que separa o mundo mortal do espiritual. Do mesmo modo, o fato de ter duas asas implica que este espírito transmutado não está mais sujeito às leis materiais da Terra (pois está na Lua, que é como seu barco, como as suas "outras" asas) ou o tempo (pois domina a serpente das eternas regras de retorno). No fundo, há uma árvore que consiste em sete níveis, isto é, representa a ascensão iniciática pelo eixo dos sete plexos nervosos da coluna vertebral.

MAÇONARIA

O papel que a Maçonaria moderna desempenhou como uma ferramenta subversiva nas mãos do sionismo e seus interesses político-financeiros é bem conhecido. No entanto, a Maçonaria não foi sempre assim, e mesmo quando já havia tornado-se em uma célula de conspiração, acolheu entre suas fileiras muitos homens de valor, ou simplesmente grandes personalidades que a Maçonaria estava interessada em ter perto para aumentar seu prestígio como "elite", mesmo se eles não compartilhassem seus ideais [6]. Certamente algumas lojas operacionais maçônicas, apesar de seu perversamente e detestável trabalho "especulativo" subversivo em outras áreas, foram uma fonte de poder interior e conhecimento para muitos homens desde seus primórdios até, pelo menos, no início do século XX.

Em suas origens, os maçons foram os que dirigiram a construção das catedrais, com as quais estavam familiarizados com diversas artes e disciplinas como a arquitetura, a matemática, a física, a astronomia, a escultura, a pintura, a fabricação de vidro etc. Essas disciplinas, se foram capazes de sobreviver até o momento, são porque sobreviveram às perseguições da Igreja, pelas quais eram herdeiras de cerimônias rituais que tiveram sua origem na Grécia, Roma, os celtas e os germânicos. Durante a Idade Média, os maçons — que tinham laços com a Vehme Sagrada, cátaros, templários, várias guildas menores, alquimistas e rosacruzes — podiam ser considerados os sábios da época. A disciplina a que se submeteram os construtores das catedrais e o fato de construir uma grande obra começando com um início áspero, forjou-os na missão comunitária de construir o mundo perfeito e equilibrado, das catacumbas aos sinos da torre mais alta, identificando-se com o espírito criativo. É significativo que muitos "operários" se identificavam precisamente com uma determinada runa de acordo com sua função e importância. Mesmo hoje, quando estamos em uma catedral antes da imagem de um guerreiro armado com uma espada, podemos ver que lá a ideia judaica do cristianismo primitivo não tinha chegado, e quando contemplamos as rosetas, estamos realmente perante uma mandala europeia. 

Foi só muito mais tarde que a Maçonaria acabou importando elementos simbólicos egípcios, persas (apesar de grande parte do Oriente ter chegado a eles através dos cavaleiros cruzados), babilônios e, mais assustadoramente, hebreus, reivindicando uma origem oriental. Ou seja, foi quando a Maçonaria passou de operativa a especulativa que começou a perder a memória.

Festa dos símbolos maçônicos. Destacam os quadrados (elemento terrestre, feminino, vale) e bússola (elemento celeste, masculino, montanha), os pilares gêmeos (colunas de Hércules), um segurando o globo terráqueo e outro a esfera do firmamento, o Sol, a Lua, e entre os dois, o que está acima de ambos, "além do bem e do mal": o olho que tudo vê, o "terceiro olho" que corresponde ao "Grande Arquiteto do Universo", cuja abertura e visão só os iniciados selecionados podem alcançar. Entre a Terra e o firmamento estão sete (7) estrelas, cada uma das quais representa os chakras ou "passos" intermediários entre o inferno infravermelho e o céu ultravioleta. Como vemos, o conjunto é dualista para a maioria, mostrando elementos femininos, lunares, terrestres e materiais, ao lado de elementos masculinos, solares, celestes e espirituais. A presença do piso de xadrez contribui para reforçar esta ideia, porque o chão axadrezado é o mesmo mundo material, onde elementos luminosos são intercalados com elementos escuros, e onde ambos os grupos, para avançar, devem seguir as regras impostas pelo "jogo ".

AS ORDENS GERMÂNICAS

É um fato bem conhecido que o Nazismo não era mais do que a afloração de uma tarefa anterior de agrupamento e iniciação realizada por seitas germânicas e que muitos líderes nazistas, incluindo Hitler, Hess, Rosenberg, Feder, Streicher, Ludendorff e outros, pertenciam a estas ordens, que eram realmente a versão "ariana" da maçonaria, de que o mais conhecido é o ramo bávaro da Germanenorden (ordem germânica), isto é, a Thule-Gesellschaft — Sociedade Thule. Estes grupos foram considerados herdeiros diretos de outros grupos semelhantes da Idade Média, nominalmente os templários, os rosacruzes e a verdadeira Maçonaria, que ficaram em um estado "adormecido" após as várias perseguições cristãs e a Guerra dos Trinta Anos.

Durante o século XIX, a alma do Ocidente começou a despertar em muitos aspectos. A Europa estava descobrindo a sabedoria oriental e desenterrando as ruínas da Grécia. A massificação social urbana da Revolução Industrial provocou uma rejeição instintiva do inconsciente coletivo europeu, especialmente no Império Alemão e o Império Austro-Húngaro, onde os judeus eram vistos como representantes do desalmado mundo moderno e economista.

Dietrich Eckart (ele próprio um membro da Sociedade Thule), no leito de morte, supostamente se gabou de ter sido mestre iniciador de Hitler, de ter influenciado a História mais do que qualquer outro alemão, e acrescentou enigmaticamente que "Hitler vai dançar, mas eu tenho composto a melodia." Isso pode dar uma ideia da influência que certos grupos tiveram na ascensão do nazismo.

• O elektron dos deuses era um modo de Lanz von Liebenfels — um antigo frade cisterciense — para se referir a esse "poder perdido" que foi outrora a herança dos "arianos". Segundo ele, os antigos arianos eram deuses (teozoa) que tinham tal poder — uma força elétrica e telecinética que emana das glândulas pituitária e pineal. Estes deuses ou teozoa degeneraram quando cruzaram com os antropozoa ou "macacos sodomita", seres involuídos com uma movimentação sexual poderosa, que foram corroídos em sua luxúria por ter relações sexuais com os deuses. Assim, a raça dos deuses perdeu o poder do "elektron" e deu origem à humanidade presente, que Lanz dividiu em castas de acordo com a proporção de sangue dos deuses que percorriam as veias de cada raça. Nesse caminho, a raça nórdica era a menos "contaminada" pelos macacos, enquanto raças negras mal tinham sangue divino, e os judeus tinham-no misturado e atormentado por dentro. Von Liebenfels editou um complicado livro, "Teozoologia", e revista "Ostara", com o subtítulo "Livraria de quem é loiro e defende os direitos do homem", que aparentemente foi adquirido pelo próprio Hitler durante seus anos de juventude em Viena. Foi von Liebenfels que cunhou o termo "ariosofia" e usou a suástica depois de estabelecer a Ordem do Novo Templo e adquirir uma série de castelos. Este homem falou muitas verdades, estava muito familiarizado com muitas línguas arcaicas (aramaico, hebraico, grego, latim, e acredito que incluso egípcio e árabe) E com os últimos avanços científicos de seu tempo, mas era muito extravagante e fortemente influenciado pela teosofia e pelo cristianismo.

• O Vril era a "energia universal" (equivalente ao Ka, Chi, Ki, Prana e muitos outros que vimos), batizada com esse nome pelo político inglês Lord Bulwer-Lytton (também autor de "Os últimos dias de Pompeia"), que pertencia à Golden Dawn (aurora dourada), uma ordem britânica que sofreu várias divisões, e da qual alguns membros (George Bernard Shaw, Duque de Hamilton, Howard P. Lovecraft, William B. Yeats, o próprio rei George VIII e talvez Robert W. Little) foram indubitavelmente, ao menos, filo-nazis. Em seu romance "The coming race", Bulwer-Lytton descreve uma raça, os Vril-ya, que habita o interior da Terra e é mestra do Vril, um poder que flui de seus corpos e pode ser usado tanto para curar e destruir. De acordo com o narrador, esta raça, mais evoluída, de grande sabedoria e controle de poderes terríveis com enorme capacidade destrutiva, estava destinada a emergir à superfície e a suplantar ao resto das raças humanas, consideradas inferiores por eles. Com o tempo, pela mão do general Haushofer (que havia estudado algumas correntes esotéricas e iniciáticas no Japão), foi estabelecida uma ordem em Viena (1917), que ele chamou Vril Gesellschaft (sociedade Vril).

• Embora seja simplesmente por causa de sua relação com o arquétipo da pedra, menciono uma ordem chamada Herren vom Schwarzen Stein (cavalheiros da pedra escura), da qual pouco se sabe, e que existiu durante esta fase de fermentação pré-III Reich .

CONCLUSÃO

Vimos muitas "coincidências" interessantes entre muitos mitos indo-europeus. Isso mostra que onde quer que vá o sangue indo-europeu, será sempre o portador de certos arquétipos, que reaparecem mesmo que tentem desenraizá-los, pois na pior das hipóteses, eles sempre subjazem dormentes.

A pedra sagrada, a energia divina, a bebida da memória, o amor, a guerra e o terceiro olho estão entre esses arquétipos. Muitas dessas coincidências começaram a ser descobertas já no século XIX, quando houve um renascimento da espiritualidade indo-europeia. Com a tradução dos textos orientais, e com o renascimento das nações do Ocidente, a consciência indo-europeia começou a ser reforçada. O francês Georges Dumézil, por exemplo, foi um grande erudito das semelhanças nas mitologias indo-europeias, apontando, entre muitas coisas, a divisão tripartida das funções na sociedade: os sacerdotes (espírito), os guerreiros (corpo) e os trabalhadores (abundância, prosperidade, fertilidade, reprodução, renovação).

Neste caso, o que podemos deixar claro de tais curiosas coincidências, que indubitavelmente não são casuais? Que nossos antepassados ​​sempre acreditaram na existência de uma qualidade perdida, um poder esquecido que uma vez tivemos, que agora dorme em nós e que no futuro devemos estimular e cultivar, portanto, sempre falamos mitologicamente de "memória", pois implica que não é algo novo, mas era nosso nos tempos antigos, e que temos de nos lembrar disso.

Esse poder está associado com o símbolo do arquétipo do eixo do mundo e nosso próprio eixo interno. E que só os corajosos, sinceros e puros conseguem finalmente apropriar-se desta energia, no topo da montanha, na ponta da pirâmide, na última cimeira, na última estrela ou na coroa craniana. Em nosso imaginário ancestral, nem todos tinham o direito de beber do cálice da imortalidade, pois era um privilégio muito difícil de vencer, que só os guerreiros, homens com destino, heróis, verdadeiros sábios, lutadores incansáveis e a sagrada donzela, conquistam pelo combate e o sacrifício momento por momento.

Recuperar aquela energia, beber do cálice, ser alcançado pelo raio de Deus, significa despertar, em uma "iniciação rápida", numa repentina e inspiradora blitzkrieg espiritual, aquela qualidade perdida que é representada como um olho que é equivalente ao atrofiado sexto sentido, as glândulas da imaginação criadora e da intuição, cuja ativação eleva o véu sagrado que cobre o mundo puramente material, derrubando finalmente as paredes que escondem a visão dos mundos sobrepostos: o mais além se torna visível e se torna o "Reino dos Céus" na Terra.

Até que chega esse momento e seja possível alcançar ao sagrado cume nesta vida ou em outra, cada homem tem que cultivar em si mesmo as virtudes que lhe recordam que ele pode se tornar um deus novamente; sentimentos de honra, coragem, amor, sabedoria, domínio, força, saúde, raiva, sacrifício, heroísmo, camaradagem, destruição, criação, fraternidade, amizade e solenidade. Ele deve cultivar e purificar aquela bebida sagrada que existe em nossas próprias essências corporais, através de treinamento corporal e espiritual, e uma vida de honra e justiça. Deve mergulhar cegamente no abismo perigoso do Nigredo, pois é aí que a essência divina foi depositada depois de uma grande luta que um antigo e audacioso deus perdeu.

E subindo de lá como uma catedral das fundações ou como a fumaça sinuosa de uma fogueira, purificando-se, esforçando-se, ou talvez se sacrificando com generosidade desinteressada, um dia, depois de sofrer, lutar, queimar dentro e andar por muito tempo, sempre em perigo de cair, sempre com a respiração da serpente no rosto, sempre com armas na mão, sempre fazendo o lema PLVS VLTRA nos momentos de desfalecimento, o homem livre e superior virá, sem dúvida, finalmente, para algum tipo de topo sagrado cristalino e puro; um castelo luminoso, onde a jovem branca luminosa, pura, bela, jovem e fiel, que guardou todo o seu equilíbrio e serenidade em combate, o reconheceria como preparado e solenemente entregaria o fruto de seu sacrifício, o resultado de sua conquista, a recompensa legítima e merecida de sua busca e ascensão: a copa que transborda com imortalidade, amor sagrado, nostalgia perdida e memória gloriosamente recuperada, trovão líquido, mistura com a capacidade de engendrar vida nova e tornar-se seres supremos e perfeitos depois de ser bebido... em três partes.


O QUE É O GRAAL?

O problema é que alguns vão esperar para lhes dizer algo concreto, material e facilmente explicável: "o Graal é X, Y ou Z" . Não é assim. O Graal é muito difícil de explicar, e não pertence à prosa fazer, mas à intuição, coragem, instinto, anelo, raiva, ascetismo, amor, ódio, ritual, meditação, lealdade, poesia, sacrifício e arte. O Graal é muitas coisas ao mesmo tempo. É uma fonte de energia e uma força que une e sustenta todos os mundos, todos os seres e todos os níveis da criação. É também uma espada de dois gumes porque pode ser usada tanto para curar, construir e sanar, como para destruir, arrasar e danar. Ser digno do Graal é, portanto, o verdadeiro objetivo de uma vida consagrada à Divindade. O Graal é Deus.

NOTAS

[1] "A corte de Lúcifer".

[2] Curiosamente, o nome sânscrito do quarto chakra, associado ao coração, era precisamente Anahata, que significa "invicto". Tanto o coração como o hexagrama são símbolos esotéricos importantes.

[3] Os primeiros foram feitos no Afeganistão por artistas de ascendência greco-macedônia. Lembre-se de que as maiores estátuas budistas do mundo, medindo cinquenta metros, estavam no Afeganistão central e tinham quase dois mil anos antes que o Talibã as demolisse em Março de 2001.

[4] "A gaia ciência".

[5] Deve ficar claro aqui que o que os pagãos chamados de "poeta" não corresponde ao que hoje é entendido por tais. Para os homens antigos, um poeta era um ser que era bem versado na linguagem dos símbolos, daí na palavra dos deuses, e somente os iniciados nesta arte poderiam realmente compreender tudo o que a poesia antiga, repleta de elementos esotéricos, poderia oferecer a alma humana

[6] Como os revolucionários americanos e algumas iluministas franceses que não podem ser acusados precisamente de filo-judeus, Mozart, Goethe, todos os fundadores do Ku Klux Klan, Napoleão, Henry Ford, Disney e aqueles que romperam com a Maçonaria para fundar, na Alemanha, vários alojamentos de ordens germânicas. Na obra de outro maçom, Victor Hugo, apesar de conter tiques de pseudo-humanismo iluminista, observa-se uma visão muito particular da Natureza e uma descrição de catedrais suspeitosamente detalhadas em seus aspectos simbólicos, como corresponde a um "iniciado" em tal arte.