quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Os Homens Herbívoros do Japão: São realmente um problema?

por Otakismo



"Se no Século XIX os Samurais largaram as armas - forçados - os japoneses de hoje largaram o pênis: voluntariamente."

Essa genial frase de tom fálico inicialmente publicada no site reflexoesmasculinas é uma síntese inteligente - melhor do que eu seria capaz de elaborar - sobre um dos últimos fenômenos sociais que ganhou expressão na mídia japonesa e se espraiou nesse lado do mundo de modo distorcido, como não poderia deixar de ser, pelo sensacionalismo da mídia ocidental. Trata-se dos homens herbívoros. Quem não está antenado na trágica situação do Japão e assiste a uma matéria de cinco minutos no Jornal da Globo falando que japoneses não querem mais sexo, já conclui: "Ah, os japoneses são bizarros". Não satisfeito com o senso comum, fui pesquisar e descobrir que o comportamento dos herbívoros é sim bastante excêntrico, porém vou mostrar como ele é de certa forma justificável (fora da lógica de chegar sempre na conclusão de que japoneses são malucos, então pode se esperar de tudo) e indica caminhos até então inéditos para a ainda muito tradicional sociedade nipônica.

Os homens japoneses estão apresentando traços comportamentais que em qualquer outro tempo seria o suficiente para taxá-los como afeminados ou mesmo homossexuais. Justamente eles, que marcaram em pedra o arquétipo do macho rude e viril. Desde os tempos dos leais samurais, passando pelas atrocidades sanguinárias do Exército Imperial nas Guerras Mundiais, até chegar no executivo workaholic que agredia sexualmente as parceiras de trabalho quando as mulheres ainda engatinhavam com o movimento feminista no arquipélago. Esses caras foram sucedidos por homens impactados pela estagnação econômica que paira sobre o Japão desde o início dos anos 90, que reagem à crise com um comportamento diametralmente oposto em relação ao estereótipo do macho japonês.

Falo dos Soushoku Danshi (literalmente "garotos come-grama"), termo adaptado como homens herbívoros, cunhando em 2006 pela colunista Maki Fukasawa e popularizado pelo livro "The Herbivorous Ladylike Men Are Changing Japan" (Os homens herbívoros e afeminados que estão mudando o Japão) de Megumi Ushikubo, presidente da consultoria de marketing Infinity. Esses homens são assim chamados pela sua falta de interesse por sexo (não come carne, daí o herbívoro) e pela negação da vida estonteantemente competitiva e acelerada de tempos passados. Algumas de suas características principais seriam:

Não têm uma postura tão competitiva em relação ao trabalho como os homens de gerações anteriores; Têm consciência de moda e comem de modo balanceado para ficar magros e caber em roupas mais apertadas; Tem amigas mulheres, são ligados às mães e vão às compras junto com elas (se aproveitando do poderio econômico dos pais); Não se interessam em namoros, garotas ou mesmo fazer sexo (optando por um prazer solitário com brinquedos eróticos); São muito econômicos e adoram cupons de promoção, declarando que os que não poupam os centavos são estúpidos. Seus principais interesses passam a flutuar temas como fotografia, gastronomia, jardinagem, moda, desenho e coisas do gênero. Abrem mão de tudo o que possa custar um desgaste físico e/ou psicológico por essas pequenas particularidades inofensivas.

“Os homens japoneses na faixa dos vinte aos trinta e poucos anos parecem desinteressados em fazer carreira e apáticos com os rituais do encontro amoroso, sexo e casamento. Eles gastam a maior parte em roupas e cosméticos como as mulheres, vivem com suas mães e sentam na privada para urinar. Alguns estão até mesmo usando sutiã. O que está acontecendo com a masculinidade do país?” (Takuro Korinaga, economista)

Curiosamente a agitação crítica em cima da percepção inicial de uma anormalidade no comportamento masculino não surgiu das ciências sociais, mas sim do mercado. Nas palavras da marketeira Megumi Ushikubo:

“Nos anos 80 os rapazes tinham que comprar um carro, caso contrário as garotas não olhariam para eles. Nós éramos líderes em consumo. Recentemente as empresas estão perguntando, por que os garotos não estão mais interessados em carros? E por que as garotas estão nos dizendo que elas não estão interessadas em rapazes que gastam seu dinheiro com carros?”

Uma companhia de consultoria subsidiária da Dentsu (a maior companhia publicitária do país) chamada Media Shakers estimou dados alarmantes: 60% dos homens de 20 anos, e 42% dos homens entre 23 e 34 anos consideram-se herbívoros. Dados de diversas fontes afirmam o dito. A empresa de relacionamentos Partner Agent mostra uma pesquisa onde 61% dos homens solteiros na casa dos 30 anos se auto-intitulam herbívoros. Um empresa de apólices de seguro chamada Lifenet fez uma pesquisa online com uma amostragem de mil homens solteiros na faixa dos 20 e 30 anos, e aqui também, 75% da amostra se definiu como um homem herbívoro.

A reportagem feita pelo Jornal da Globo afirma:

"Entre os jovens de 16 a 19 anos, 36% dos rapazes se descreveram indiferentes ou com aversão a sexo. Mas eles também podem reclamar delas. Entre as japonesas da mesma faixa etária, o desinteresse ou aversão ao sexo chega a 59%. O percentual cresceu em relação a mesma pesquisa feita em 2008: aumentou 19% entre os homens e 12% entre as mulheres."


Homem herbívoro.
Em tempos de metrossexuais e David Beckham, por que tanto alarde com os comedores de grama? A resposta é simples. Esse comportamento não é apenas uma afronta às tradições do homem japonês, mas também um fato determinante que está ajudando a manter o Japão na crise, sem oferecer a mínima perspectiva de mudança, uma vez que ele sangra dois problemas cruciais para o futuro do Japão: A baixa natalidade e o esfriamento da demanda interna no mercado de consumo japonês. Os herbívoros seriam o resultado, o protesto (sempre silencioso dos jovens japoneses) contra os valores que alimentaram o crescimento japonês no pós-guerra, como a exacerbação do materialismo e a competitividade desumana. Como gatos escaldados, eles negam aquilo que os alçaram ao topo do mundo.

Essa apatia demonstrada por parte dos homens japoneses já está incomodando a ala feminina do país. Diante de homens que não tomam a iniciativa (por medo de sofrer a ferida narcísica da rejeição), não demonstram interesse por sexo e racham a conta do restaurante, parte das mulheres estão fazendo elas próprias esse papel. Tomam elas mesmas a iniciativa e, apelidadas de mulheres carnívoras, passam a praticar a arte do konkatsu, a busca por um parceiro (20% delas se consideram carnívoras, mas ainda sim essa voracidade não pode ser comparada com os tempos da bolha econômica). Apesar disso, as carnívoras costumam renegar os herbívoros, pois gostam do perfil do macho.

John Greenaway, professor canadense com muito contato com alunos asiáticos, estudante de inglês no país, afirma que as japonesas são muito mais sociáveis, práticas e ativas que os homens do país. Os homens japoneses, mesmo quando herbívoros, se aproveitam das condições no Japão que ainda favorecem o homem, e se mantém passivos, enquanto as mulheres que vão em busca de algo, o fazem de modo mais proativo. A diferença é que no exterior essa proatividade é facilmente igualada, quando não superada, por pessoas de diversas etnias e elas passam uma imagem até conservadora.

Shigeru Sakai do Media Shakers opina que esses homens não tomam a iniciativa por uma dificuldade de auto-expressão. Cercados de eletrônicos, geralmente sem nenhum irmão em casa, e falando com os amigos mais por mensagens de texto e redes sociais, suas habilidades sociais tendem a definhar. Mimados desde o berço, não toleram a frustração e não dão a cara ao tapa na arte da conquista.

“Eu não tomo a iniciativa com mulheres, eu não falo com elas. Eu adoraria se uma garota falasse comigo, mas eu nunca tomo o primeiro passo.” (Yukihiro Yoshida, estudante de Economia)

Men's Fudge, a revista dos herbívoros

É importante ouvir as opiniões dos próprios herbívoros, e o grupo olha para a questão através de outras lentes. Eles não enxergam a situação como um problema (ao contrário de empresas, governo e mulheres). Herbívoro seria um rótulo muito amplo, que abarca uma diversidade de homens e comportamentos diferentes. Seria a soma dos homens que não estão mais dispostos a bancar o preço de viver a imagem do homem feliz empregado numa grande empresa. São pessoas que ligam menos para as cobranças da sociedade, para os papéis sociais, para o arquétipo da masculinidade japonesa. Eles ditam os caminhos de suas próprias vidas.

“As pessoas que cresceram na era da bolha realmente sentiram que eles foram derrubados.Eles trabalharam tão duro e isso tudo não deu em nada. Então os homens que vieram depois deles mudaram.” - Megumi Ushikubo

Há uma crítica tanto ao padrão do homem japonês quanto à monetarização do amor ao modo ocidental (mencionado na explicação do fenômeno moe), que exigem um homem másculo que trabalha como um burro de carga para conquistar a fêmea com mimos caros. Os japoneses tiveram que se adaptar tantos às rígidas posturas sociais da sociedade nipônica quanto aos hábitos ocidentais importados pela ficção, como abrir a porta do carro ou puxar a cadeira para a mulher se sentar primeiro. A mistura dessas culturas, alimentada por uma rede comercial voraz, é insustentável para muitos dos japoneses que se resignam e vão buscar relacionamentos na internet, nos mangás, nos RPG's virtuais (ou em casos mais extremos, se casando com um travesseiro).

Existem uma série de fatores que são levantados por toda uma espécie de pensadores, mas o foco acaba sempre desaguando na situação econômica do país, resultando numa cultura que adoece pouco a pouco. Vou apresentar algumas visões para depois focar, de fato, na parte financeira que parece oferecer uma justificativa mais plausível.

Uma ala sempre presente no pensamento japonês é a defensora dos fenômenos sociais do país como consequência de suas próprias raízes, diminuindo a importância da ocidentalização em sua gênese, encontrando paralelos culturais no Japão pré-Restauração Meiji. É o caso do professor de Filosofia da Universidade de Osaka Masahiro Morioka ao afirmar que esse padrão andrógino também era comum durante os pacíficos anos da Era de domínio do clã Tokugawa (1603-1868), onde o Japão conheceu inéditos 260 anos de absoluta paz interna. Nesse período foi comum meninos serem criados como meninas, usando vestimentas femininas (acreditava-se que era um meio saudável de desenvolvimento); haviam os onnagata no teatro Kabuki (homens interpretando papéis femininos) e o shunga (pornografia do período Edo onde homens e mulheres só se distinguiam pelos genitais, pois os homens também vestiam roupas femininas, penteando os cabelos como elas). A erosão dos papéis sociais não seria, então, um fenômeno novo no Japão.

Morioka continua argumentando que esse novo ciclo herbívoro seria uma maior aceitação das fraquezas e limitações masculinas, uma vez que ser homem no Japão é uma árdua tarefa inimaginável no Brasil, essa terra do improviso, do jeitinho e do imediatismo. As pressões sociais em cima do homem japonês são demasiadamente pesadas. Ele prossegue com uma afirmação muito interessante: Não são os herbívoros que estão pervertendo o "espírito japonês", ao contrário, eles seriam os responsáveis pela regressão a um estado humano mais nipônico. Distorcidos foram os seus pais e avós que aceleraram as coisas no Pós-guerra - através de métodos absolutamente ocidentais - como um modo de afirmação perante os estrangeiros enquanto buscavam o mesmo padrão de vida dos americanos. Passado o limite do crescimento econômico do país, o retorno às raízes seria inevitável.

“Antigamente, os homens japoneses tinham que ser passionais e agressivos, mas agora essas característica são desagradáveis. Nossos membros tem uma personalidade muito branda. Eles simplesmente aproveitam do que gostam sem preconceitos, eles não são limitados por expectativas.” Yasuhito Sekine

Propaganda da Nivea com foco nos homens, em transporte japonês
Outro ponto que destaco é o excesso de paz. Com a submissão das forças armadas japonesas ao Exército Americano que limita as ações militares do país, e com as políticas de segurança interna, a afirmação da masculinidade se torna supérflua quando o assunto é segurança física. Não há mais a necessidade do macho agir como um soldado no campo de batalha, ainda nas palavras de Morioka. A quantidade de assassinatos per capita cometida por jovens adultos no Japão é a mais baixa do mundo! “Além disso, os valores da sociedade que fazia homens cometerem atos violentos estão desaparecendo. Os homens não precisam mais ser violentos, é por isso que podem ser herbívoros”. Se os EUA vive achando alguma guerrinha por aí e tem seu país recheado com veteranos de guerra de todas as idades; se na Coréia do Sul o alistamento militar é assunto estratégico pelo conflito com os norte coreanos; no Japão a afirmação da masculinidade - no que tange a sobrevivência literal - se torna cada dia mais inútil.

O último assunto levantado pelo filósofo que eu sinto necessidade de citar é a distinção entre ser herbívoro e ser gay. Claro que há gays entre os herbívoros e eles se expressam desse modo. É verdade que a Wishroom já vendeu milhares de sutiãs masculinos, mas certamente uma ampla parcela dos compradores são homossexuais que também se definem como herbívoros, e também não quer dizer que eles saem por aí todos os dias usando sutiã, talvez em um ou outro caso. A mídia dá foco em peculiaridades sem importância, não mostra as origens da situação e ainda cria uma imagem fantasiosa e ridícula de uma nação (o mesmo para a mídia japonesa, que adora um sensacionalismo para dizer o quanto o país está perdido). Herbívoro não é gay, o buraco é mais embaixo, como Morioka diz, os herbívoros procuram o “amor hetero enquanto tornam-se unisex”.

Algumas explicações, de origens feministas, afirmam que a situação seria o desabrochar de uma nova masculinidade, que não precisa mais reprimir seu lado feminino para agradar às convenções sociais.

“Não é que os homens estão se tornando mais femininos, o conceito de masculinidade que está mudando.” Katuhiko Kokobun

Homem herbívoro.

Por outro lado, muitos defendem que esse florescimento do lado feminino dos homens ou retorno às origens é pura balela feminista ou ufanista, o problema seria de origem econômica mesmo, pois a geração mais bem instruída da história do Japão não está encontrando perspectivas de futuro nem segurança de emprego. Com muitos homens ganhando menos de dois mil dólares mensais na cidade com o mais alto custo de vida do planeta, tendo acesso à tecnologia e tendo que conviver com a ala feminina que no Japão é abertamente materialista e gananciosa, muitos homens passaram a dar a mínima para o que a sociedade espera deles, pois se resignaram em sua condição miserável.

A questão é que eles não são assexuados, apenas não estão mais dispostos a pagar o preço para ter acesso a uma mulher que valha a pena. Eles simplesmente não querem mais morrer de trabalhar para comer alguém. O interesse por sexo indubitavelmente continua, basta ver a saúde do mercado pornográfico japonês. A queda na venda de preservativos que persiste desde 1999, ano onde se deu o boom da internet no arquipélago, é sinal correlato de virtualização da sexualidade, não de sua extinção.

Candidatos japoneses

O problema é falta de segurança financeira. No período do crescimento, as empresas japonesas ofereciam polpudos salários e um plano de carreira para toda a vida, com reais chances de crescimento dentro da hierarquia corporativa. Era muito mais seguro alimentar o ímpeto consumista das mulheres sabendo que o pagamento seguramente cairá na conta todos os meses. E não venham me chamar de machista, porque o enjo kosaidos anos 90 está ai para provar que muitas japonesas estavam dispostas até a se prostituir por seus desejos materialistas quando a fonte secou. Nos tempos áureos da economia, o emprego funcionava na base do seishain (emprego permanente), mas agora com a crise, mesmo a mão de obra qualificada do país está sendo contratada na base do haken (contrato). A segurança financeira foi parar na mesma lama na qual a economia do país se atolou. Essa situação incomoda muitos os jovens trabalhadores japoneses, os quais, segundo pesquisa da Mitsubishi, 64% deles gostariam de permanecer no mesmo emprego de modo estável.

Não está sendo viável, para a maioria deles, sustentar a utopia da vida feliz, aquele modelo do American Way, do pai de família casado e empregado numa instituição de renome. Está cada vez mais difícil sustentar a condição de macho alfa, rico, bonito, com status e bom de cama, num país em crise onde todos os outros homens tem a mesma educação básica e origem étnica semelhante (dificuldade de achar um diferencial para se destacar). São pessoas que assumem sua incapacidade de competir. Os riscos de tantos esforços são grandes demais, sem oferecer garantias de retorno no futuro.


Menos de 10 mil dólares mensais? ha ha

As mulheres, com as mesmas oportunidades trabalhistas garantidas pela legislação, não se vêem mais na obrigação de casar para garantir seu sustento e saciar seus desejos de consumo, logo, ficam mais exigentes quando o assunto é casamento. Ao mesmo tempo em que os homens estão achando cada vez mais dificuldades para encontrar um bom salário num emprego estável. A pobreza no Japão está crescendo e o país já é dono do segundo pior índice de pobreza relativa, superado apenas pelos americanos (segundo relatório da Organisation for Economic Co-operation and Development). Sentiu o drama?

Essa mulheres, ainda querendo o nível de vida dos tempos de bonança e com iguais oportunidades de trabalho (ao menos na teoria) que as fazem fugir do matrimônio, estão ajudando a criar um sério problema. Uma geração inteira de solteironas que chegarão sozinhas na velhice (um sério problema social no Japão, onde alguns idosos morrem e ficam 15 anos em decomposição na casa sem que ninguém perceba) e um monte de homens de meia-idade que ainda não perderam a virgindade (25% dos japoneses na faixa dos 30 anos seguem virgens). Eles tampouco vão fazer esse serviço em inferninhos, alguns deles porque estão condenando justamente a monetarização dos relacionamentos, a maioria porque não tem dinheiro mesmo. Os prostíbulos japoneses são caros e frequentemente cobram mensalidade de seus frequentadores. Enquanto os que tem dinheiro para bancar a farra também não procuram o serviço, alegando estarem fisicamente exaustos demais, por causa do trabalho, para mesmo pensar no assunto.

Quer? Pague o preço,...
O economista Takashi Kadokura cruzou diversas informações e traçou conclusões perigosas. 30% das mulheres afirmaram se recusar a sair com homens que ganham menos de 10 mil reais mensais. Quase metade da totalidade delas se recusariam a casar com alguém com rendimentos anuais inferiores a 80 mil reais. O problema é que apenas 1,5 milhões de japoneses na faixa etária dos herbívoros possuem rendimentos nessas especificações, enquanto existe um volume três vezes maior de mulheres esperando, no mínimo, mais do que isso. Conclusão, pelo menos 2/3 delas continuarão sozinhas se não diminuírem suas expectativas e exigências, fortemente enraizadas por questões culturais e pela libertação proporcionada pelo movimento feminista. Além disso, a baixa natalidade do povo japonês cobra de toda mulher casada no mínimo um rebento, uma pressão inaceitável para muitas mulheres, até pelos prejuízos na construção de uma carreira sólida numa economia em frangalhos.

Os resultados já são estatisticamente verificáveis. Entre 1975 e 2005 o nível de homens solteiros na faixa dos 30 anos subiu de 14% para 47% enquanto nas mulheres de 8% para 32%. Se o comportamento não mudar, o governo precisará intervir para evitar um colapso. As soluções seriam tentar oferecer salários mais equitativos e diminuir a jornada de trabalho que, exasperante, prejudica a interação social. Mas, como propor diminuição da jornada de trabalho se o país já está economicamente em situação trágica?

As empresas japonesas estão preocupadas pois o padrão de consumo dessa geração não acompanha os desejos das gerações passadas. Caem as vendas, sobretudo dos produtos de luxo e status, como carros e bebidas. O Japão perde expressão mundial a cada dia, já que o mercado externo se torna cada dia mais hostil (crise na zona do euro e na economia americana, além da concorrência dos coreanos e chineses em ascensão) e o mercado interno se recusa a consumir (tanto por ter menos dinheiro para gastar como por recusa aos tempos de consumismo desenfreado). O governo, então, está desesperado porque isso alimenta um ciclo vicioso. Sem dinheiro as pessoas casam menos, se casam menos tem menos filhos, se nascem menos crianças, como sustentar a idosa população japonesa, a mais longeva do planeta? (isso só está sendo lindo para o setor de cosméticos, que dobrou seu mercado potencial com a adesão masculina em massa ao cuidado pessoal).

Além disso, As escolas japonesas que moldaram tantos funcionários competentes hoje são uma barreira para a criatividade, individualismo e empreendedorismo que poderiam ajudar o país nesse momento.

Quem vai pagar as contas? Ninguém sabe...

Esse cenário desesperador afetou a mentalidade dos jovens. Sem estabilidade financeira, sem conseguir mulher, vendo o Japão na beira do precipício, eles se resignaram. Os herbívoros são a expressão maior da desilusão. São homens menos ambiciosos, incapazes de devolver o Japão ao lugar que lhe coube no passado. Não querem trabalhar até a morte como seus pais (ao ver que o projeto fracassou e ao sentir a ausência deles em sua função paterna), nem sustentar mulheres que depois de casadas racionam sexo mas não param de gastar (Japão sempre liderando a lista mundial dos insatisfeitos sexuais e lanterna na lista de frequência do ato).

São jovens que simplesmente abrem mão voluntariamente da riqueza para não precisar se prender à burocracia e ao sofrimento silencioso dentro de uma empresa. São jovens que já não enxergam mais nexo em ficar exibindo aos demais o quanto eles se esforçam, o quão samurais corporativos eles são, bastando fazer as coisas direito. Há uma negação da veneração dos padrões tradicionais do sucesso. Os herbívoros se recusam a colocar o trabalho na frente de suas próprias vidas, ignorando, por exemplo, as saídas para beber após o expediente, ato essencial para fazer seu nome no mundo corporativo japonês. Eles preferem pagar o preço de não lamber as bolas do chefe. São eles os primeiros responsáveis por mesclar cultura ocidental com os preceitos confucionistas. Essa situação foi permitida pelos pais dos herbívoros que, sabendo da vida dura que levavam, encorajaram os filhos a escolher sua própria profissão, permitindo aos jovens deliberar sobre suas próprias existências. O resultado foi esse.

“Tudo o que queremos sentir é que nosso trabalho tenha um propósito. (...) Fazer um grande esforço para ser algo que eu não sou apenas não é para mim. Eu quero ser natural, apenas ser eu mesmo.” Takeuchi


Quero deixar claro que as reivindicações dos herbívoros não são apenas fruto de mimos em demasia, algumas são bem legítimas. Um exemplo tolo. Gostar de comer sobremesa. Sobremesa era coisa de mulher no Japão. Se um homem comprar um pedaço de bolo, o atendente fornece dois garfos pois infere que ele só está comprando para comer junto com a namorada, pois homem não compra bolo. O homem japonês tinha que gostar de bebidas e comidas apimentadas. Hoje eles comem bolo. São fracos por isso?!? Por assumir que gostam de doces? Estão afirmando-se assertivamente do jeito que a sociedade rígida permite. É uma revolução interna e silenciosa que estava sendo esperada no Japão há tempos. O conservadorismo está sendo minado pouco a pouco em suas estruturas. O Partido Liberal Democrata em 2009 teve sua soberania política abalada após mais de 5 décadas de poder ininterrupto, cedendo espaço para um partido de centro-esquerda.

Igualmente o interesse pela moda não tem tanto a ver com frescura, mas como resultado da desilusão com o mundo, com a política, com a economia e com os rumos do país. Na desesperança com o macro, os herbívoros se refugiam no micro, naquilo que conseguem alterar com pequenas ações, sua própria existência. A postura, ao contrário do que aparenta, não é simplesmente hedonista, ela é revestida por uma casca traumatizada.

Enxergo um paralelo entre a realidade japonesa e aquilo que o antropólogo americano Cristopher Lasch enxergou na sociedade ocidental (da qual o Japão faz parte, no caso) ao definir o conceito de Cultura do Narcisismo. Quando as ilusões levantadas pela contracultura nos anos 60 morreram (de transformar o mundo com ações e engajamento político), e o mundo percebeu que os valores modernos não deram conta de resolver os problemas globais, as pessoas experimentaram um enorme sabor de impotência e desencanaram, cuidando de suas próprias vidas, afinal, era a única coisa que lhes restavam (daí os anos 70 e 80 como expressão do supérfluo). Acompanhe o raciocínio e veja se não encaixa perfeitamente:

“Após a ebulição política dos anos sessenta, os americanos recuaram para preocupações puramente pessoais. Desesperançados de incrementar suas vidas com o que interessa, as pessoas convenceram-se de que o importante é o auto-crescimento psíquico: entrar em contato com seus sentimentos, comer alimentos saudáveis (...) aprender a se “relacionar”, superar o “medo do prazer”.

"A inflação corrói os investimentos e as poupanças. À medida que o futuro se torna ameaçador e incerto, só os tolos deixam para o dia seguinte o prazer que podem ter hoje (...) A auto-preservação substituiu o auto-crescimento como o objetivo da existência (...) Esperam não tanto prosperar, mas simplesmente sobreviver, embora a própria sobrevivência necessitada vez mais de ganhos maiores.”

Outros pensadores da modernidade, podem contribuir ainda na mesma linha de pensamento, como Jurandir Freire Costa (válido ressaltar que eles não são pensadores do Japão, o país apresenta suas particularidades): 

"O indivíduo moderno é um indivíduo violentado, antes de ser narcisista.”

Portanto, os herbívoros seriam mesmo um problema? Esse comportamento, a alegação de não ligar para o que os outros pensam, seria uma evasiva para justificar a incapacidade de competir pelos melhores postos ou seria uma reação saudável aos excessos do Japão? É natural que o Yamato trate o problema como uma doença social, pois isso afeta a economia e o futuro do país, mas, até que ponto a economia deve guiar cegamente os rumos da nação? Devemos condenar pessoas que buscam seu modo próprio de viver a vida, uma vez que a manutenção da condição de potência mundial do Japão é notoriamente insustentável? Se a reação é excessiva no sentido oposto, não seria um sinal de que a exposição ao trauma foi forte demais, deixando claro que um retorno ao antigo caminho não é a resposta para essas questões? Isso só os japoneses nos responderão no decorrer da História.

Me questiono se, no longo prazo, a situação é realmente tão ruim para as mulheres. Isso pode variar de acordo com o que elas esperam do relacionamento. Antes o homem japonês era o provedor carnívoro, ele trazia muito dinheiro para a casa, mas ficava o tempo todo fora de casa, fazendo hora-extra ou bebendo com os companheiros de trabalho. A família era afetivamente negligenciada (e os herbívoros são filhos desses pais nada presentes). Os herbívoros tem menos dinheiro, mas procuram tratar esposa e família de modo mais humano e presente. Se ela espera um pai de família que banque seus prazeres ao mesmo tempo que a deixe livre para dar seus pulos por aí, é um desastre. Se elas esperam uma adesão do homem ao papel moderno do pai (que progressivamente perde a expressão no ocidente), no longo prazo os resultados poderão ser positivos.

“Os homens japoneses eram machos e sexistas. E negligenciavam suas esposas, então é bom que eles estejam descobrindo seu lado feminino e aprendendo a colaborar.” (Yuko Kawanishi, sociólogo)

Homem herbívoro

Apenas para situar os navegantes, os herbívoros nada tem a ver com os otaku, apesar de serem ambos faces do mesmo dado (nem falo moeda porque há outros aspectos problemáticos). Ao contrário do otaku que foge da sociedade, mas permanece fazendo parte dela com sua voracidade consumista, o come-planta permanece ligado à sociedade mas privilegia o espiritual em relação ao material, uma postura budista, que faz parte da amálgama cultural japonesa (argumento que joga ao lado do filósofo Morioka).

O medo dos países vizinhos é que o Japão exporte esse comportamento através do gigantismo de sua cultura pop. Obras sobre o assunto já foram traduzidas no leste e sudoeste asiático, inclusive em regiões com o mesmo problema de natalidade, como Taiwan, onde a taxa fica abaixo de 1 (Japão tem 1,3 e já é muito baixo), um dos menores índices da história da humanidade. O mangá Otomen (trocadilho entre otome - menina sonhadora - e men, para simbolizar o personagem herbívoro) já foi licenciado até no Brasil pela Panini. 

Apenas quero deixar claro que o tom do post pode ter soado machista em alguns pontos. Seria natural, pois eu estou falando sobre a visão de mundo desses homens, correspondendo ela com a verdade ou não. Finalizo o post com a citação que eu li hoje por acaso na Folha, numa coluna sobre os pontos positivos do ócio, que cabe muito bem aqui, pois não me espantaria se saísse da boca de um herbívoro. Com a palavra, Karl Kraus:

"Se o lugar aonde quero chegar só puder ser alcançado subindo uma escada, eu me recusarei a fazê-lo. Porque lá aonde eu quero realmente ir, na realidade já devo estar nele. Aquilo que devo alcançar servindo-me de uma escada não me interessa"

3 comentários:

  1. Texto excelente! Só gostaria que tivesse postados alguns links e referências, pois é um material valioso que merece ser partilhado, mas que certamente será questionado.

    Eu também gostaria de saber quem é o autor, e se é um texto original ou uma tradução.

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  2. Realmente, muito interessante o texto. Também gostaria de saber mais sobre o autor.

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  3. Obrigado por essa postagem, gostaria de fazer um pedido,colocar as fontes que vocês citam no texto no final do texto, acredito que dará mais credibilidade ao texto.
    Mas a respeito dos herbívoros, processo semelhante se da aqui no Brasil,os homens modernos, descontruidos e niilistas também se dão a falta de presença paterna l,tendo em vista o alcoolismo e desemprego que sempre foi problema do trabalhador brasileiro. Obrigado pelo texto

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