quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Eduardo Velasco - A Rota da Seda, o Colar de Pérolas e a competição pelo Índico

por Eduardo Velasco

"Quem controla o Oceano Índico, domina a Ásia. Este oceano é a chave para os sete mares no século XXI. O destino do mundo se decidirá nestas águas". - (Alfred Thayer Mahan, geoestrategista da Marinha dos EUA, 1840-1914).


ÍNDICE

PRIMEIRA PARTE
- A ROTA DA SEDA E A ROTA DAS ESPECIARIAS
- O PRIMEIRO COLAR DE PÉROLAS FOI DE PORTUGAL
- O IMPÉRIO BRITÂNICO
- ROTA DA SEDA: BLOQUEADA DE NOVO
- A IMPORTÂNCIA ATUAL DO ÍNDICO

SEGUNDA PARTE
- ÍNDIA
- PAQUISTÃO
- IRÃ — O ATAQUE GLOBALISTA CONTRA A SÍRIA E A IMPORTÂNCIA ABSOLUTA DA PENTALÁSIA NO GRANDE TABULEIRO
- IÊMEN
- SOMÁLIA

TERCEIRA PARTE
- CAMBOJA
- TAILÂNDIA E O PESCOÇO DO DIABO — O ISTMO DE KRA
- BIRMÂNIA (MIANMAR)
- BANGLADESH = O PESCOÇO DE FRANGO
- SRI LANKA — A PONTE DE RAMA
- ROTA DA SEDA VS. ROTA DAS ESPECIARIAS, OU EURÁSIA VS. OCEANIA


PRIMEIRA PARTE

Christopher J. Pehrson, tenente coronel da Força Aérea dos EUA, relata no texto "String of Pearls: Meeting the challenge of China’s rising power across the Asian littoral" (2006), encomendado pelo Strategic Studies Institute (SSI) do Exército estadunidense:

"Em 1405, o imperador Yongle da dinastia Ming despachou uma "frota tesouro" de 62 navios sob o comando do explorador Zheng He. Quatro de seus navios foram os maiores já construídos de madeira, medindo mais de 120 metros de comprimento e 50 de largura. Sua frota incluía barcos especializados no transporte de cavalos, navios projetados para transporte de água fresca, navios de abastecimento, de transporte de tropas e navios militares de defesa. A frota zarpou em direção ao mar aberto, com 27.800 homens e milhares de toneladas de mercadorias chinesas para comercializar durante a viagem. Em comparação, 87 anos mais tarde, em 1492, Colombo embarcou em profética viagem com apenas 3 barcos e 87 homens. Sua capitânia, Santa Maria, era apropriada para a navegação oceânica, com seus 22 metros de longitude".

Até então, os chineses tinham se contentado em relacionarem-se com a África e boa parte do Índico através de intermediários árabes. Depois de explorar orlas distantes durante 10 anos, a frota da China naufragou próxima da costa africana e os sobreviventes acabaram estabelecendo-se em Lamu, atual Quênia. Este vestígio da China na costa africana está confirmado por análises genéticas.

Ainda que as crônicas histórias sempre sirvam para algum interesse oficial do momento e geralmente exageradas, apesar disto podemos ver com clareza, desde que com prudência, que a China da época Ming já era uma importante potência marítima com presença na região indopacífica. Atualmente, retoma o caminho de voltar a sê-lo… através da estratégia do Colar de Pérolas. Devido a isso, a cidade queniana de Lamu voltou a ser um enclave chinês.

A expressão "colar de pérolas" foi utilizada pela primeira vez num documento interno do Departamento de Defesa dos EUA intitulado "Energy futures in Asia" (O futuro energético da Ásia). Por sua vez, o tenente-coronel Pehrson descreveu o Colar de Pérolas como "a manifestação da crescente influência geopolítica chinesa através de seus esforços para incrementar o acesso a portos e aeroportos, desenvolver relações diplomáticas especiais, e modernizar as forças militares que se estendem desde o Mar do Sul de China, através do estreito da Málaca e do Oceano Índico, em direção ao Golfo Pérsico".

Clique para aumentar. O Colar de Pérolas chinês e outras presenças no Oceano Índico. 

Em outras palavras, o Colar de Pérolas é um "cordão" de bases aéreas e navais, portos comerciais, "hubs" e corredores energéticos, centros de Inteligência etc., mantidas pela China ao longo de suas principais rotas petroleiras, do mar Vermelho e do Golfo Pérsico até o Mar do Sul da China. Esta série de enclaves tende a rodear e estrangular quatro importantes penínsulas: a Indochina, a Indostânica, a Arábica e o Chifre da África. Como se havia adivinhado, esta disposição das fichas chinesas neste tabuleiro está em direta oposição à Índia… e, é claro, com a superpotência anglo-americana.

Os EUA não ficaram de braços cruzados diante do crescimento dos tentáculos meridionais do novo khanato de Beijing ou Pequim. A doutrina do "Full Spectrum Dominance" (domínio de espectro completo) seguido pelo Pentágono exige controlar o espaço terrestre, o espaço marítimo, o espaço aéreo, o espaço exterior… e também o ciberespaço (sem mencionar o "espaço psicológico" e o espaço monetário e comercial). Por tal motivo, Washington não pode permitir que surjam protagonistas regionais que disputem com ele a hegemonia, e faz todo o possível para cortar os tentáculos chineses no Paquistão, Myanmar (ex-Birmânia), Índia, Somália e Sudeste Asiático. No entanto, antes de irmos mais a fundo na compreensão das respostas no presente, deve-se retroceder ao passado.

A ROTA DA SEDA E A ROTA DAS ESPECIARIAS

O continente eurasiático tem três grandes centros geográficos onde ocorre enorme concentração de força de trabalho, capacidade de gerenciamento, tecnologia, indústria, mercados, consumo e meios de produção. Antes da aparição das novas economias pulsantes no continente americano, os principais centros produtivos do mundo foram:

Europa Ocidental, concretamente a chamada Blaue Banane ou Banana Azul, tende a coincidir com o reino medieval de Lotaríngia. Este cinturão industrial e produtivo tem sido essencialmente o mesmo desde a Idade Media. As novas regiões econômicas norteamericanas são desdobramentos desta região europeia. Historicamente, só Bizâncio, Castela, Prússia e Áustria-Hungria chegaram a ofuscar esta região. Antes da IIa. Guerra Mundial, a Alemanha estava em processo de constituir uma região econômica alternativa, orientada para a Europa Oriental e composta a grosso modo pela Prússia, Alta Saxônia, os Sudetos, Áustria e o Noroeste da Itália.

Índia, especialmente as zonas costeiras urbanas do Mar Arábico e do Golfo de Bengala, assim como o arco superpovoado ao sul do Himalaia e alguns outros centros dispersos, como Bangalore ou Nova Déli.

"Lestásia", ou Ásia Oriental. Antigamente o Leste da China, atualmente há mais desdobramentos desta região, como Taiwan, Coreia do Sul e Japão.

Centros econômicos de maior importância na Eurásia. Desde os tempos antigos, foram se acrescentando outros novos centros: um na Ásia Oriental (Japão-Coreia do Sul) e outro na América do Norte (Costa Leste, também Costa Oeste e região dos Grandes Lagos), que desfrutam de laços privilegiados com a parte britânica do centro europeu (o centro europeu britânico), o que lhe permite manter um pé em nosso continente.

No mundo antigo, estes vértices dinamizaram as caravanas comerciais de todo o continente, como polos negativo e positivo de um circuito elétrico que favorece o fluxo de energia. Tiveram especial relevância aquelas rotas que conectaram o "Grande Oriente" com o "Grande Ocidente": a rede de transporte conhecida como Rota da Seda.

A Rota da Seda, que por sua vez foi algo como uma globalização embrionária, evoca cidades míticas como Turpan, Kashgar, Samarcanda, Bukhara, Báctria, Bagdá, Palmira, Antioquia, Tiro, Constantinopla… os povos como os tocários, citas, persas, armênios, hunos, tártaros, mongóis, turcomanos, varegos… O eixo principal da rota coincidia essencialmente com o caminho tomado pelas linhagens genéticas paternas R1a e R1b que entraram na Europa por muitos milênios. Através dela, circularam todo tipo de mercadorias: especiarias, tecidos (linho, lã e naturalmente seda), ouro, pedras preciosas, corantes, vidro, marfim, sal, perfumes, tintas, porcelana, ferro, medicamentos, ópio, madeira… Também circularam ideias, religiões, filosofias, escravos, imigrantes, refugiados, informações, genes, enfermidades, animais domésticos e sementes de cereais. Geralmente, estas mercadorias abriam caminho através da Ásia Central e Oriente Médio, até chegar às saídas mediterrâneas da "Banana Azul" europeia ― isto é, as repúblicas marítimas italianas: Genova e Veneza, onde floresceram os primeiros centros financeiros do mundo. Outra alternativa foi a Rota das Especiarias, que através do Índico conectava o Extremo Oriente com o Oriente Próximo (especificamente com o Egito). A figura do mercador veneziano Marco Polo é, sem dúvida, o exemplo mais emblemático da atividade comercial que teve lugar da Europa para a China.

Rota da Seda (amarelo) e Rota das Especiarias (azul). Isso mostra a importância do Oriente Próximo (Síria, Fenícia, Terra Santa, Egito), que era a "última parada" das mercadorias orientais antes de seu embarque final aos portos europeus. As cruzadas foram, em boa parte, uma manobra europeia para controlar o comercio dos portos orientais. As rotas começaram na Índia e China, e terminaram, principalmente, no Império Bizantino e nas repúblicas marítimas italianas. Também se compreende o desastre que representou para os europeus a conquista do Oriente Próximo pelos turcos. Como curiosidade, nota-se como as rotas desde a China até o Índico passam pelos atuais Paquistão e Bangladesh, dois países que os britânicos se preocuparam de separar do resto da Índia. Esta divisão territorial teve por objetivo enfrentar irreversivelmente a Índia assim como a China.

Graças ao Império Bizantino e as cruzadas, a Europa dominou durante muito tempo o Mediterrâneo Oriental, manteve um pé na Ásia e, no geral, teve grande protagonismo no Oriente. Isto mudou radicalmente com a chegada dos otomanos no século XV. Com a queda de Constantinopla e outras importantes praças (como Rodes e Alexandria) nas mãos dos turcos, a Europa perdeu sua conexão com a Ásia. O Império Otomano bloqueou a Rota da Seda e a Rota das Especiarias, tomando o controle das principais mercadorias do Oriente e enriquecendo-se a passos gigantescos enquanto a Europa se empobrecia. As relações com o Leste, uma vez fortes, foram frustradas. Com a cumplicidade da Inglaterra, Holanda, França e os poderes protestantes e judeus em geral, os otomanos estabeleceram bases escravistas em todo o Magrebe, semearam a desolação inclusive nas costas espanholas e converteram o Mediterrâneo em um inferno. Muitos consideraram aquela época que a queda de Roma estava próxima e que os dias do Cristianismo estavam contados. Este conjunto sucessivo de desastres foi o que forçou algumas potências europeias a se arriscar no Atlântico como última opção, com a intenção original de encontrar outra rota para chegar as "Índias Orientais".

O PRIMEIRO COLAR DE PÉROLAS FOI DE PORTUGAL

A Queda de Constantinopla, em 1453, gera uma ordem geopolítica totalmente nova: por um lado, o Mediterrâneo católico perde a maior parte de sua importância comercial em favor do norte protestante (onde o comércio da Liga Hanseática continuou imperturbável), e por outro lado, a Europa, em geral, fica sem acesso aos mercados orientais. A partir de então, os comerciantes europeus que pretendem enriquecer terão que encontrar outras maneiras de conectarem-se ao Extremo Oriente, sem depender dos odiados turcos. O mar era a resposta a suas necessidades, pelo Mediterrâneo — hostil, perigoso e cheio de galeões turcos e piratas berberes — não seria mais possível: só o Atlântico permitiria aos europeus contornar todo o continente africano, entrar no Índico e ter acesso às mercadorias asiáticas. Não é de estranhar que Portugal (com uma posição altamente dominante na faixa atlântica do sul da Europa, e possuidora de informações privilegiadas procedentes dos antigos templários) dominasse esta nova opção comercial, a ser conhecida como a Rota das Índias: uma nova variação da Rota das Especiarias.

Os portugueses estabeleceram uma cadeia de enclaves na África (Madeira, Cabo Verde, Senegal, São Jorge da Mina, São Tomé e Príncipe, Tristão da Cunha, Ilha de Moçambique, Zanzibar) e enriqueceram com o tráfico de escravos, ouro e especiarias. Finalmente, chegaram as cobiçadas Índias, onde estabeleceram colônias (Calicute, Goa, Ceilão — atual Sri Lanka) e foram os primeiros europeus a descobrir a sociedade hindu ("casta" é uma palavra portuguesa). Desde então, os portugueses também conquistaram, em 1515, o importante Estreito de Ormuz.

Portugal se tornaria a primeira potência europeia a dominar o Oceano Índico, que até então havia sido domínio exclusivo de persas, árabes, hindus e chineses, mas não satisfeito com isto, continuou empurrando os limites do império para o Oriente. Portugal conquistaria a super-estratégica Málaca, as ilhas indonésias do Timor e especiarias (Molucas), o enclave chinês de Macau (ao lado de Hong Kong), a ilha de Formosa (atual Taiwan) e, finalmente, chegariam ao Japão, onde fundaram a cidade de Nagasaki, em 1571. Enquanto isso, no antigo Mediterrâneo, milhares de europeus ainda estavam enfrentando os turcos na Batalha de Lepanto.

No Tratado de Tordesilhas (1494) e Zaragoza (1529), espanhóis e portugueses repartiram o mundo. Os espanhóis impulsionariam o Ocidente e ligariam Espanha com Filipinas através das Américas e do Pacífico, enquanto que os portugueses, inconscientemente, criaram o primeiro colar de pérolas, desde Portugal ao Japão. O objetivo era chegar ao Extremo Oriente, sem ter que passar pelo Mediterrâneo Oriental, controlado pelo Império Otomano.

O Império Português se estendeu territorialmente tanto que inclusive começou a perder seu caráter marítimo e adquiriu certa continentalidade. Os jesuítas, que na época eram o braço direito do Vaticano, estabeleceram um quartel-general na cidade hindu de Agra. A partir dai, o jesuíta português Antônio de Andrade, disfarçado de hindu, se propôs chegar a misteriosa terra que havia ao norte do Himalaia. Andrade prosseguiria até Deli, cruzaria a passagem montanhosa de Mana (5.608 m de altitude) e seria o primeiro europeu a cruzar para o Tibete da Índia, em 1624. O suposto objetivo de Andrade era encontrar seitas cristãs perdidas e aprender sobre a religião budista — embora o mais provável é que sua verdadeira intenção fosse simplesmente expandir a influência do Vaticano e de Portugal, e reunir informações sobre essa espécie de "imensa Suíça", ou como designada pelo franciscano italiano Odorico da Pordenone, no século XIV, de "a terra aonde mora o Papa dos idólatras". Na cidade de Tsaparang, o rei local acolheu Andrade, que, com comerciantes chineses que chegavam com chá, porcelana e outros bens, pôde aprender mais sobre a geografia ao norte do teto do mundo. Assim, em seguida, veio a saber que "o Reino Potente ou Tibete" era composto de numerosos reinos menores, e que estes reinos, junto com “o grande império do Sopo" (Mongólia), que compartilha fronteiras com a China ao Oriente e Moscóvia ao Ocidente, eram, por sua vez parte, de um conceito geográfico maior: a "Grande Tartária". Sem saber, Andrade havia sido a vanguarda de uma penetração oceânica para o Heartland da Eurásia — ou seja, o núcleo do continente, a civilização dos grandes espaços, o território mais distante de qualquer costa do planeta.

Graças ao trabalho diplomático de Andrade, em 1626, se construiu a primeira igreja católica em solo tibetano, e os jesuítas chegariam a ser conhecidos como "os lamas do Ocidente". Enquanto isso, se publicava em Lisboa o "Novo Descobrimento do gram Cathayo, ou Reinos de Tibet, pello Padre Antonio de Andrade da Companhia de Jesu, Portuguez, no anno de 1626". Andrade morreria em Goa, em 1634, provavelmente envenenado por um agente a serviço de um súdito português que estava sendo investigado pela Santa Inquisição. Era época da Reforma, da Contrarreforma, da polarização ideológica, dos radicalismos e das guerras religiosas na Europa… enquanto os turcos invadiam os Bálcãs à vontade.

O IMPÉRIO BRITÂNICO

O bloqueio do Oriente Próximo pelos turcos teve outro efeito: fazer com que a Espanha se arriscasse também ao Atlântico para encontrar uma rota alternativa "às Índias", chegando às Américas e desencadeando alguns processos que culminariam com o auge do poder protestante e, finalmente, com o estabelecimento de um novo coração econômico e comercial no Norte da América. No entanto, até 1898, os Estados Unidos da América seriam uma potência essencialmente continental à margem do velho mundo. Entretanto, a Grã-Bretanha iria desempenhar o papel típico de uma talassocracia (potência marítima e comercial).

Pela distância das arenas geoestratégicas mundiais, as potências marítimas e periféricas necessitam remexer nos assuntos internos do continente, promover balcanizações, colocar um Estado contra outro e evitar desesperadamente que surja qualquer superpotência continental na Eurásia que possa lhes fazer sombra: o velho e infalível "dividir para conquistar". Esta estratégia inclui frustrar as rotas continentais terrestres para forçar o uso das rotas marítimas controladas por eles.

Depois de ter superado a seus rivais Holanda (a quem arrebatou Nova Amsterdam, rebatizada Nova York) e França (durante a Guerra dos Sete Anos e as guerras napoleônicas), a estrela inglesa ascendeu velozmente e conquistou um enorme império, que incluía a maior parte dos passos estratégicos marítimos do mundo. Embora os portugueses ainda conservassem muitos postos, a Grã-Bretanha surge como potência índica, formando seu parópio colar de pérolas desde Londres até Hong Kong, e ganhando o domínio hegemônico do oceano por cima de outros pretendentes (holandeses, portugueses, alemães, italianos, franceses). Os ingleses, junto com outras potências, acabariam saqueando a China impunemente, e forçando-a a aceitar o destrutivo comércio do ópio, controlado pela família Sassoon e a British East India Company.

Bandeira da East India Company, uma multinacional que foi a ponta de lança do capitalismo e da "abertura de mercados" na Ásia. Na China, esta bandeira deixou lembranças humilhantes e chegou a ser vista com autêntico ódio.

Em 1774, quase trinta anos depois da expulsão dos últimos missionários cristãos (frades capuchinhos) do Tibete, o aristocrata inglês George Bogle chegou a Shigatse, a segunda cidade mais importante do reino, com a intenção de investigar vias de comércio para a British East India Company. Bogle também introduziu as primeiras culturas de batata no país. No entanto, no século XIX, a situação dos estrangeiros no Tibete piorou claramente. Tanto o Império Russo (desde a Ásia Central) quanto o Império Britânico (desde a Índia) desconfiavam das intenções do adversário no hermético reino budista. A China reivindicava o Tibete como um protetorado, e os mandarins, hábeis nas questões burocráticas e diplomáticas, excitaram os medos tibetanos quanto aos "demônios estrangeiros" que ameaçariam seu ouro e sua religião. Isto, junto com as profecias locais ― que asseguravam que o Tibete cairia no caos ao se abrir à influência estrangeira ―, fez com que as autoridades tibetanas proibissem a entrada de qualquer estrangeiro, salvo aqueles dos países vizinhos. A qualquer tibetano que prestasse assistência a um "bárbaro", lhe esperava terríveis penas de tortura, mutilação e morte.

A Inglaterra precisava monopolizar as rotas marítimas entre Oriente e Ocidente, mas havia um problema delineado no horizonte: a ascensão da Rússia czarista. O Império Russo, um vasto e compacto bloco de terra, estava estabilizando enormes espaços da Eurásia, e ameaçava de restabelecer rotas terrestres entre Europa e China, rotas que estavam totalmente à margem dos mares, bloqueios e colônias dominados por Londres, subtraindo-lhe importância comercial. Os problemas do Império Britânico começavam ali onde terminava seu caráter marítimo: seja Afeganistão (incluindo depois de três sangrentas guerras) ou Tibete, que jamais chegaram a estar sob claro domínio de Londres, sempre entre entre a influência russa e britânica (acrescentando a persa, no caso do Afeganistão, e a chinesa, no caso do Tibete). Naquele momento, essa corrida as portas de Ásia Central se chamou o Grande Jogo: a expressão moderna do eterno conflito entre uma potência "globalizadora" que domina o mar e o mercado (talassocracia) e outra potência "hermética" que domina a terra e o Estado (telurocracia).

Muitos clarividentes (como Julio Verne, Friedrich Nietzsche, o geoestrategista inglês Halford John Mackinder) viram as enormes possibilidades que se abriam ante ao Império Russo e o "land power" (em contraposição ao "sea power" de Londres), mas talvez o exemplo literário mais pitoresco do Grande Jogo se encontra no livro "Life’s Handicap" (1891), de Rudyard Kipling, no qual um tal de Dirkovitch, oficial cossaco do Czar, aparece na cidade de Peshawar, em plena Índia Britânica (atual Paquistão). O russo é acolhido com admiração, embora não sem certa suspeita, pelos perplexos Hússares Brancos da guarnição britânica, compartilhando com eles relatos de viagens, mas sem revelar qual rota terrestre havia tomado para chegar ali.

Possessões coloniais no Índico em 1885. Deve-se acrescentar também as esferas de influência, que no caso da Rússia incluem uma boa porção da Pérsia, toda a Mongólia (incluindo a Mongólia Interior na China), o Turquestão chinês (Xingjiang) e a Manchúria (onde começavam os problemas com o Japão). A Grã-Bretanha teve presença na zona persa do Baluchistão, no Tibete, e em boa parte do sul da China. O Afeganistão se converteu em um país-tampão, onde tanto os ingleses como os russos renunciaram a suas ambições expansionistas para evitar um conflito maior. Graças ao Afeganistão, as possessões britânicas e as russas não chegaram a compartilhar fronteira.

A inauguração da ferrovia transiberiana, em 1891, causou profunda preocupação em Londres. Nesse mesmo ano, um informe sobre uma incursão cossaca ao sul da cordilheira do Hindu Kush fez os ingleses suspeitarem que os russos tramavam acordos com "os governantes dos insignificantes Estados na fronteira norte da Caxemira e Jammu". Isto precipitou a campanha britânica pelos vales de Hunza-Nagar, do atual Paquistão.

Mas os russos tiveram uma infinidade de possíveis vias de infiltração à disposição. Em 1900 e 1901, dois exploradores russos conseguiram entrar na cidade proibida de Lhasa (capital do Tibete), oficialmente como peregrinos mongóis, contando com a ajuda de Agyan Dorzhiev, um associado do Dalai Lama nascido na Rússia e de etnia buriata (em 1909 contribuiria na construção de um templo budista em São Petersburgo). Em 1904, os britânicos tiveram sérias suspeitas de que o Czar havia firmado tratados secretos com as autoridades religiosas do Tibete (os czares eram considerados ali encarnações de "bodisatva" desde a época de Catarina II da Rússia), que poderiam ameaçar os interesses britânicos. O coronel Francis Younghusband liderou nesse ano uma expedição britânica a Lhasa, esmagando a resistência que encontrou. Depois de então, os ingleses impuseram aos tibetanos ― na ausência do 13º Dalai Lama que fugiu para a Mongólia, território sob influência russa ― a mais formidável arma que tiveram: um tratado de comércio.

Nos círculos de poder financeiro e comercial do mundo anglo-saxônico estava ficando cada vez mais claro que o czar deveria cair, caso contrário acabaria estabilizando a Ásia Central e estabelecendo pontes com China, Índia e Europa. O Império Russo e a antiga Rota da Seda prosperariam apesar das colônias e centros financeiros britânicos, e a Rússia acabaria conseguindo por terra o que os europeus estavam tentando pelo mar: penetrar nos vastos mercados da China e Índia. Mais além: a mera possibilidade de que os impérios absolutistas centrais (Alemanha, Áustria-Hungria, o Império Otomano e Pérsia) pudessem chegar a algum tipo de acordo, devia causar preocupação no Ocidente.

Porém, o perigo czarista não era tão ameaçador que não pudesse ser solucionado com algumas oportunas agitações e guerras, e mesmo uma revolução, que fizessem o que o protestantismo e o liberalismo não haviam alcançado nos reinos autocráticos durante séculos: derrubar a velha ordem e integrar seus restos em um novo sistema geopolítico menos perigoso para "os mercados"…

ROTA DA SEDA: BLOQUEADA DE NOVO

É uma realidade que a revolução bolchevique de 1917 foi financiada com capital procedente dos grandes magnatas da Wall Street, a City e outros centros financeiros [1]. Por que os capitalistas ajudariam revolucionários supostamente anticapitalistas? Pelo mesmo motivo pelo qual atualmente os serviços de Inteligencia atlantistas favorecem a expansão do radicalismo islâmico sunita: porque na realidade lhes ajuda a implementar sua agenda.

A revolução bolchevique frustrou qualquer possibilidade de reconstituir a Rota da Seda, já que a União Soviética se delineou como uma potência hostil ao Ocidente. A foice comunista substituiu a meia lua turca, e foi estabelecido uma espécie de novo Império Otomano que bloqueava o acesso ao Oriente e que forçava a Europa a comercializar com os EUA e a depender de seu astuto intermediário, o Reino Unido.

Embora o bolchevismo tenha inaugurado uma era de matanças, destruições e atrocidades que empalideceriam as piores perseguições czaristas, os tratados da URSS com o Reino Unido e os EUA nunca cessaram [2]. Durante a Segunda Guerra Mundial, as potências do Eixo se rebelaram contra esta ordem mundial, preferindo voltarem-se ao Leste ao invés do Oeste. O resultado foi a queda de todas as máscaras: uma aliança entre o capitalismo anglo-americano e o comunismo soviético, que arrasaria totalmente o centro da Europa, tirando sua iniciativa internacional e partindo o continente europeu em dois durante décadas de colonização direta por parte de Washington e Moscou.

A Europa perderia a maior parte de suas colônias depois da Segunda Guerra Mundial, e com isto, foi tocada de morte em seu protagonismo internacional. Em contrapartida, os países do mundo eram pressionados e amedrontados pela balança de poder entre EUA e URSS, forçados a aliarem-se a uma das duas superpotências. O estabelecimento do Estado de Israel (esta obra-prima da balcanização eurasiática) no ponto exato onde convergem Europa, Ásia e África, frustrou de antemão qualquer possibilidade de que o mundo árabe pudesse modernizar-se, unir-se em um bloco e jogar um papel intermediário entre o Leste e o Oeste. Assim como, proporcionou ao poder anglo-americano um eficiente aeródromo ao fundo do Mediterrâneo.

A queda da Cortina de Ferro em 1991 prenunciava uma nova mudança geopolítica. George Bush (pai) não se equivocava muito quando previa uma "nova ordem mundial": sob os auspícios do neoliberalismo, o cadáver do que havia sido a URSS foi saqueado impunemente por multinacionais estrangeiras e vorazes oligarcas mafiosos, muito bem relacionados com os círculos financeiros de Nova York e Londres. A colonização e arrasamento total da Rússia fez a festa do eixo atlantista, mas a inesperada reconstrução do poder russo a partir de 1999 exigiu uma nova estratégia: posto que a Rússia não podia ser balcanizada como a antiga Iugoslávia, teria-se que buscar outros modos de frustrar as rotas terrestres entre o Ocidente e Oriente, e fazer de tudo o possível para envenenar as relações diplomáticas na Eurásia.

Com este objetivo, o radicalismo islâmico cai nas graças do atlantismo, que já lhe teria servido no passado (por exemplo, no Afeganistão) para conter a influência soviética e também o pan-arabismo. Desde a queda do Império Otomano, o eixo anglo-americano teria cultivado conscientemente suas relações com a petro-ditadura da Arábia Saudita (nas palavras de Gaddafi, um país "criado pela Grã-Bretanha e protegido pelos EUA") e com os serviços de Inteligência do Paquistão, Estado que colocaram em seu bolso durante a Guerra Fria. Estes dois países foram a base perfeita para os planos atlantistas: a Arábia Saudita e seus fluxos quase ilimitados de petrodólares recém impressos, Paquistão com sua enorme população e áreas inacessíveis, e ambos tinham uma alta proporção de homens jovens, desculturados e facilmente arregimentáveis pela retórica religiosa. Esta base social seria presa fácil da CIA, do SIS (MI6), do ISI (Paquistão), do Mossad e outros serviços de Inteligência especializados em agitações, manipulações e operações psicológicas (psy-ops). Essa é a origem do "radicalismo islâmico" e do "terrorismo internacional" como atualmente é conhecido, um "movimento global" fortemente enraizado no ramo islâmico sunita (especialmente nas correntes salafistas), que serve para conter a influência xiita e cristã, para proporcionar casus belli ao atlantismo e balcanizar todo o espaço desde os Balcãs e o Mediterrâneo Oriental até Índia e China ― e também, cada vez mais, o norte da África e o sudeste asiático. Esta instabilidade faz com que as rotas continentais eurasiáticas, muito mais antigas, simples e "lógicas" geopoliticamente falando, sejam cada vez mais inviáveis.

Bloqueando a Rota da Seda, o atlantismo (ou seja, o bloco anglo-americano-israelita e a OTAN) assegura que os esforços comerciais da Europa, Índia e China se orientem para o mar, não para a terra. O mar não vem a ser mais que um imenso funil que leva para gargalos e passagens controladas pelo atlantismo. Também ocupando o Afeganistão, os anglo-americanos ter sido capaz de dominar o tráfico de heroína, que passa através do espaço turcófono da Ásia Central e chega às zonas albanesas do Kosovo (muitas vezes sob o abrigo de bases militares estadunidenses), para então ser distribuída por toda a Europa. A heroína também causou enormes estragos na Rússia e no Irã, onde as autoridades travam praticamente uma guerra civil de baixa intensidade contra os traficantes no leste do país.

O panorama atual. Os diversos centros econômicos eurasiáticos desejam comerciar entre eles e estabelecer rotas para tal fim. Contudo, os centros norte-americanos (com um pé no continente europeu graças à Grã-Bretanha) pretendem monopolizar todo o comércio e, logicamente, desejam, portanto, que o comércio europeu se oriente ao Atlântico e o asiático ao Pacífico. Qualquer tentativa de conectar os centros econômicos asiáticos com os europeus, são consideradas más notícias para o eixo anglo-americano. Assim, a política exterior deste eixo consiste em balcanizar a Eurásia, semeando instabilidades geopolíticas para inviabilizar as rotas terrestres (para que todo o comércio se oriente para a periferia e rotas marítimas controladas pelo eixo anglo-americano, ao invés de direcionado para o interior continental) e, sobretudo, evitar o surgimento de superpotências e grandes espaços comuns no continente, em posição de competir com o atlantismo. Não é necessário ser um gênio para perceber que enquanto persistir a balcanização na "região intermediária", a Rota da Seda não é viável.

A IMPORTÂNCIA ATUAL DO ÍNDICO

Os oceanos ocupam a maior parte da superfície do planeta e permitem transportar enormes quantidades de mercadorias a um custo relativamente baixo, de modo que logicamente se apresente como um vetor prioritário da globalização e que monopoliza 90% do comércio internacional —especialmente em vista das oportunas instabilidades territoriais terrestres. Nas seções acima tomamos claro que quando as rotas terrestres eurasiáticas não são viáveis, o Índico se converte na rota predileta, e portanto, quem domina o Índico, domina o fluxo comercial entre Oriente e Ocidente, atazanando a Eurásia. É muito oportuno, portanto, destacar o importante papel que desempenha o Índico no jogo estratégico atual.

Familiarizando com o Índico: principais rotas e passos estratégicos.

O Índico é o espaço marítimo que mais monopoliza o tráfico petroleiro. Absolutamente todo o petróleo saído do Golfo Pérsico por via marítima, passa necessariamente pelo Índico. Neste tráfico deve-se acrescentar o petróleo que atravessa o Mar Vermelho (especialmente sudanês), o Cabo da Boa Esperança (especialmente nigeriano e venezuelano) e o Mar do Sul da China (especialmente malásio e bruneano). Estes fatos não são triviais tendo-se em conta que o petróleo é o principal combustível da civilização moderna ― não só para impulsionar o transporte, mas também para obter plásticos, pesticidas, fertilizantes, fibras sintéticas, tintas, alcatrão, medicamentos, lubrificantes, óleos e uma infinidade de produtos químicos. Portanto, qualquer potência interessada no petróleo (EUA, União Europeia, Índia e a China, especialmente) deve prestar atenção ao Índico se pretende assegurar sua economia. As más notícias para os EUA são que este está muito pior situado geograficamente que a China para dominar o Índico. As boas notícias aos norte-americanos são que contam com um importante aliado regional interessado em frear a ascensão da China e disposto a defender sua posição: a Índia.

Este mapa mostra o volume do tráfico petroleiro marítimo em 2005. As tendências atuais já denunciam: tanto o Índico quanto o Mar do Sul da China, são as rotas marítimas mais transitadas. A importância capital dos países indostanos e indochineses e dos estreitos de Ormuz e Málaca é evidente. A boa localização das ilhas de Sri Lanka (antigo Ceilão português), Taiwan (antiga Formosa portuguesa) e Filipinas também merece destaque. É interessante também constatar outras rotas importantes no Mediterrâneo espanhol, no sul da África e no Caribe (a importância de Cuba), assim como a falta de importância petroleira do Pacífico propriamente dito.

O Índico abriga a linha vital da economia chinesa. A China depende desesperadamente de um cordão umbilical que se estende desde o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho até seus portos. Através deste cordão umbilical, chegam à China enormes quantidades de hidrocarbonetos árabes, persas, sudaneses, nigerianos e outros. O Colar de Pérolas segue fielmente estas rotas, a uma distância mais ou menos prudencial. Segue-se que quem controla o Índico, tem em suas mãos a chave da economia chinesa. Bastaria bloquear este cordão umbilical em algum de seus pontos mais vulneráveis (inevitável pensar no estreito de Málaca) para colocar o gigante asiático de joelhos por estrangulamento. A China é consciente dessa vulnerabilidade associada a sua linha vital, de modo que busca maneiras de diversificá-la e descongestioná-la, preferindo antes muitas rotas dispersas que uma única autoestrada marítima mega-concentrada.

Lifelines ou linhas vitais da economia chinesa. Com o objetivo de descongestionar estas rotas, a China tem estabelecido diversos "portos quentes" (por exemplo no Paquistão, Bangladesh ou Myanmar) que as conectam com o território chinês através de corredores estratégicos. Tais portos formam parte do Colar de Pérolas.

Sem embargo, como podemos ver nos mapas seguintes, o Índico é muito importante, não só para a China, mas para todos os grandes importadores de petróleo do mundo. É preciso considerar ainda a Índia (que goza de sua proximidade com o Oriente Médio e Ásia Central) e o Brasil (que depende fortemente do Sul da África e do Canal de Moçambique, mas está em processo de converter-se em potência produtora de petróleo).

Por mais que diversifique suas fontes de petróleo, a China depende quase que totalmente do Índico para transportá-lo. 

Das grandes economias mundiais, o Japão é a que mais desesperadamente depende do Oriente Médio e, portanto, do Índico. 

O fornecimento petroleiro da Europa está razoavelmente diversificado em termos de fontes e rotas. Ao mesmo tempo em que o Oriente Médio perde protagonismo em favor do espaço ex-soviético, ocorre uma aproximação entre a União Europeia e a Federação Russa. 

Apesar de seu interesse infame pelo Oriente Médio, os EUA tem uma oferta de óleo amplamente diversificada. Graças à Guerra da Líbia é de se esperar que suas importações de petróleo norte-africano subam, contribuindo ainda mais para esta diversificação.

O Índico abriga quatro "chokepoints" (gargalos ou passos estratégicos) marítimos importantíssimos para o comércio internacional. Tal como acontece com a maioria dos passos estratégicos marítimos do mundo (com as notáveis exceções de Suez, Panamá e Bósforo-Dardanelos), cada um destes estreitos está nas mãos dos mais distintos Estados. Estas balcanizações foram planejadas conscientemente no passado ― supostamente no interesse do comércio internacional, para que nenhuma potência monopolizasse exclusivamente um passo estratégico. Na hora da verdade, esta divisão territorial favorece a infiltração das potências marítimas que controlam o comércio internacional. Quem domina estes chokepoints pode lançar-se ao redor de todo o Índico ou obrigar a seus rivais a tomar rotas alternativas que incrementariam tanto os custos que não seriam rentáveis. Antes de continuar, e para situarmos no contexto das cifras petroleiras que lidaremos a seguir, tenhamos em mente que a produção mundial de petróleo em 2009 equivaleu à 84 milhões de barris diários.

1 - O estreito de Ormuz (Irã, Oman e Emirados Árabes Unidos) liga o Golfo Pérsico com o Índico, é o chokepoint crucial do comércio petroleiro mundial, e um dos pontos geopolíticos mais tensos e quentes do planeta. Desde 1507 até 1622, esteve controlado pelos portugueses. Aqui circulam diariamente uma média de 13 navios petroleiros, transportando 17 milhões de barris: 35% do tráfico petroleiro marítimo do mundo, e 20% do comércio petroleiro mundial. Mais de 75% deste petróleo vai para a Ásia (notavelmente a China, Japão, Índia e Coreia do Sul).

Ormuz se encontra em uma importante encruzilhada: a linha que divide o mundo persa (pró-russo e pró-chinês) do mundo árabe (pró-angloamericano). As relações do assediado Irã com a maior parte de seus vizinhos petro-árabes (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kuwait e Omã) são extremamente tensas e proporcionam uma justificativa perfeita para a presença militar anglo-americana na zona. O Irã tem pretensões expansionistas em todo o Golfo, entre outras coisas pelo fato da maior parte da população do litoral do Golfo ser xiita. A doutrina militar iraniana consiste em bloquear o estreito de Ormuz (implantando minas, estabelecendo navios e submarinos e semelhantes) no caso de que fosse atacado por alguma potência estrangeira. Se isto acontecer, o barril de petróleo poderia superar facilmente os 200 dólares (atualmente ronda os 100 dólares). Não é preciso dizer que isso encareceria todos os produtos derivados do petróleo ou que dependem do mesmo para ser transportados: gasolina, combustível diesel, plásticos, comida, fertilizantes, pesticidas, medicamentos etc.

O estreito de Ormuz. Observe que mesmo se o Irã bloquear o estreito, os Emirados Árabes continuaria proporcionando uma ponte terrestre entre o Golfo Pérsico e o Índico (Golfo de Omã), a menos que o Irã bloqueasse também a costa Leste deste país.

2 - O estreito de Málaca (Singapura, Malásia e Indonésia) liga o Índico com o Mar do Sul da China (o Mare Nostrum oriental). É um passo estratégico problemático para os navios por sua baixa profundidade e sua extrema estreitura, de modo que os navios muito grandes (que superam o chamado "Malaccamax") tem de tomar rotas alternativas, por exemplo, pelo estreito de Lombok. Outros problemas incluem a pirataria e os incêndios florestais na Sumatra, que reduzem a visibilidade dos navios. Apesar destes fatores, o tráfico marítimo é tão denso neste estreito que tem sido denominado "estrada de ferro". Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos e da Organização Marítima Internacional das Nações Unidas, por Málaca passam 30% das mercadorias do mundo. No que se refere ao petróleo, 20% do tráfico petroleiro marítimo do mundo (incluindo 80% do petróleo chinês) atravessa o estreito todos os dias. Quanto ao gás natural liquefeito (GNL), falamos sobre um colossal dois terços do fluxo mundial [3]. O estreito é absolutamente crítico para as economias asiáticas (portanto, para a economia mundial), e graças a sua descomunal importância, Singapura, ex-colônia britânica, tem sido um importante centro financeiro. A delicadeza deste passo tornou-se muito clara em Janeiro de 2012, quando a Marinha iraniana o bloqueou suas águas durante exercícios militares, como gesto de advertência às potências intervencionistas do mundo.

Estreito de Málaca. A enorme importância econômica da cidade-Estado de Singapura (um enclave de influência anglo-americana, bem relacionado a Londres desde a época colonial) depende diretamente de seu domínio do ponto mais crítico do estreito: o canal de Phillips, com 2,8 km de largura e somente 25 metros de profundidade. Os navios muito grandes (que excedem o chamado "Malaccamax") devem tomar uma rota alternativa pelo estreito indonésio de Lombok e subir até as Filipinas. Observe que a região indonésica de Achém — oportunamente para as potências atlantistas (dada sua importância estratégica) — está em processo de balcanização desde 2003, quando se impôs formalmente a Xaria, o código de leis muçulmano. No ano seguinte, Achém resultou na região mais afetada pelo maremoto do Índico.

3 - Bab el-Mandeb (Djibuti, Iêmen e Eritreia) liga o Mar Vermelho com o Índico. Junto com Suez, a "Porta das Lágrimas" (seu nome árabe) é chave-dobradiça para passar do Mediterrâneo ao Índico, e em tempos pré-históricos, possivelmente, foi uma das pontes do Out of Africa. O estreito havia sido uma das causas da rivalidade geopolítica entre Egito (que controla Suez) e Etiópia, que motivou o apoio do Egito à separatista Eritreia na guerra de 1998-2000. Este conflito havia sido, por sua vez, causador de boa parte das instabilidades do Chifre da África, já que a Eritreia experimentou impor sua moeda à Etiópia baseado em que era sua saída ao Mar Vermelho, e a Etiópia se negou, optando por sair ao mar através da região somali de Somalilândia, e causando uma grave crise econômica na Eritreia. A Somalilândia é independente de fato, e se não é um Estado reconhecido internacionalmente, é devido às manobras do Egito, que obviamente suspeita de que a Etiópia venha a controlar de vez as fontes do Nilo Azul e de uma boa parte de Bab el-Mandeb. Djibuti é uma base anglo-americana e francesa, e o Iêmen é praticamente um Estado falido em processo de balcanização, onde se enfrentam Arábia Saudita, Irã, diversas milícias fundamentalistas e grupos de operações especiais dos EUA. As águas territoriais estão atormentadas de piratas, algo compreensível tendo em conta que por elas circulam 3,2 milhões de barris de petróleo ao dia e uma boa parte do comércio internacional.

Estreito de Mandeb. Observe que em caso de bloqueio do estreito, o Iêmen poderia estabelecer uma ponte de terra entre o Mar Vermelho e o Índico (Golfo de Adén). A balcanização do Iêmen, promovida desde o estrangeiro, está muito avançada. Isto poderia entranhar a separação do Iêmen do Sul, como durante a Guerra Fria, ou configurar um Estado próprio para os iemenitas xiitas. Algo similar se passa na Somália, com as regiões separatistas da Somalilândia e Puntlândia, que são independentes de fato: quanto mais dividido politicamente está todo este espaço, mais fácil de manipular pelas potências marítimas.

4 - O Canal de Moçambique é o espaço marítimo que separa Moçambique da ilha de Madagascar. A maior parte do tráfico marítimo que passa pelo cabo sul africano da Boa Esperança, transita também por este canal, que de tão largo não chega nem perto dos outros estreitos que vimos. O autor do presente artigo não havia encontrado cifras do tráfico petroleiro pelo Canal de Moçambique. As fontes sul-africanas falam de 30% do fornecimento mundial de petróleo e 98% do tráfico marítimo sul-africano. Outras fontes falam de 2.500 petroleiros ao ano, e outras dizem que em 1999 passaram 5.000 petroleiros, dos quais 1.200 eram VLCC (Very Large Crude Carriers) de 200.000 toneladas de petróleo ou mais. Tendo em conta que por lá passam todos os super petroleiros que não cabem no Canal de Suez, o autor deste artigo havia optado pela prudência ao atribuir ao Canal de Moçambique um tráfico de 10 milhões de barris diários.

O Canal de Moçambique está destinado a converter-se em um pivô crucial do eixo IBAS (Índia-Brasil-África do Sul). A influência hindu vem representada por sua diáspora de emigrantes em todos os países do canal, a influência do Brasil passa pela lusofonia de Moçambique e sua dependência econômica, e a influência da África do Sul pelos fatores antes mencionados, assim como pelo planejado oleoduto Moçambique-África do Sul. Porém, não pode-se esquecer a França, que mantém no canal uma importante presença (ver aqui e aqui diversas posições francesas no Índico), e cujo idioma se fala no Madagascar, ex-colônia francesa.

Canal de Moçambique. A destacar sua influência francôfona e lusôfona, assim como sua enorme relevância para a África do Sul, Brasil e Índia.

Tráfico petroleiro pelos principais "chokepoints" marítimos do planeta, em milhões de barris ao dia. Como orientação, os EUA consomem uns 19 milhões de barris por dia, a União Europeia 14 milhões e a Espanha 1,4 milhões. Na China, o consumo petroleiro se aproxima dos 9 milhões e está incrementando a passos largos, pulverizando todas as previsões ano após ano. Se acredita que para 2015, a China estará consumindo 13,5 milhões de barris ao dia. A Índia leva um caminho similar. Este crescimento descontrolado do apetite petroleiro por parte do mundo em geral, e da Ásia Oriental em particular, entra em conflito com as reservas petrolíferas (que são limitadas) e com a produção de petróleo (que não poderá manter-se neste ritmo indefinidamente). À medida que a demanda de petróleo aumenta e a oferta diminui, se pode esperar que os preços do petróleo (portanto, da gasolina) se ponham nas nuvens, que as principais potências mundiais ― atemorizadas pelo colapso econômico ― comessem uma luta surda por recursos energéticos e que estes recursos se manchem com o sangue de milhões de pessoas. Tudo parece indicar que a luta começou ao final de 2001, com os atentados de 11 de Setembro e a invasão do Afeganistão. Os pontos mais fortes são o Golfo Pérsico, o Cáspio e o Mar do Sul da China. E o domínio do Oceano Índico é crucial para os três cenários.

O Índico é o oceano mais afastado do raio de ação de Washington. Os EUA estão muito bem situados para dominar tanto o Atlântico como o Pacífico (e em menor medida, o Mediterrâneo, sempre que Gibraltar estiver protegido), mas o domínio do Índico implica em muitos problemas.

Pela rota atlântica, a África exerce uma postura de geobloqueio, em que os EUA devem penetrar no Índico através do Mediterrâneo e o Mar Vermelho. Para este, deve, por sua vez, passar por três delicados gargalos: Gibraltar, Suez e Bab el-Mandeb. A outra opção é a rota do Cabo da Boa Esperança, que passa pela África do Sul, mas que está em processo de ser monopolizada pela Índia e Brasil. Se os EUA pretenderem dominar o Índico ocidental, é vital que o AFRICOM (comando africano do Pentágono) estabeleça uma ou várias bases no sul da Bacia do Nilo (por exemplo, no Sudão do Sul, Uganda, Etiópia ou Quênia) e que estabeleça um "cordão sanitário" no Chifre da África (isto é, a parte da África mais próxima ao Golfo Pérsico, Índia e China). O Estado de Djibuti, junto com a nova base de drones das ilhas Seychelles, a independência do Sudão do Sul e as intervenções militares no Iêmen, formam parte deste plano.

Pelo Pacífico, o Índico parece a primeira vista mais accessível à penetração marítima, mas a distância é maior, e um segundo olhar ao mapa revela muitos gargalos (Málaca, Sunda, Lombok, Torres, Makassar etc.), diversas ilhas de geobloqueios e, como veremos nas próximas partes, dos "cinturões defensivos" naturais da China, da qual o mais importante é o Cinturão de Fogo (Aleutas-Kurilas-Japão-Ryukyu-Taiwan-Filipinas-Malásia-Brunei-Singapura). A estratégia dos EUA neste espaço consiste em manter bases estratégicas em várias ilhas (Havaí, Guam, Midway, Okinawa, proximidade das Marianas etc.) e ganhar diplomaticamente os Estados que circundam as águas chinesas, com o objetivo de estrangular o espaço marítimo do gigante asiático.

O "Global traffic map" (2010) representa o tráfico de chamadas de voz, mas indica muito bem como o Índico é o espaço marítimo mais distante e inacessível para os EUA. Para poder dominar o Índico, o atlantismo deve manter uma rede de bases estratégicas que garantam o apoio logístico deste domínio. Esta cadeia depende de um fornecimento contínuo de dinheiro e do status do dólar como moeda de reserva internacional, e é mais frágil do que parece. Os EUA necessitam penetrar no Índico desde o Leste (por exemplo, Austrália, Japão e Indonésia) e desde o Oeste (por exemplo, desde a Bacia do Nilo, Iêmen, Seychelles, Djibuti e Chifre da África).

O Índico é a opção da China para se aproximar do Golfo Pérsico. A China necessita desesperadamente obter "portos quentes" para sair do Índico, diversificar suas rotas e não depender tão incondicionalmente do estreito da Málaca. Por suposto, qualquer potência que deseje aproximar-se do Golfo Pérsico pelo mar, deverá por força utilizar o Índico. A particularidade da China consiste em que poderia conectar-se ao Golfo também por terra se o entorno geopolítico das rotas estivesse tranquilo, mas com tantas instabilidades territoriais cultivadas conscientemente pelo atlantismo (Xinjiang, Tibete, Caxemira, Waziristão, Baluchistão, Afeganistão), a Rota da Seda não parece muito viável para a potência asiática. Desse modo, a China se vê forçada a comerciar pelo mar, se contentando em estabelecer bases no Índico e corredores comerciais que as conectem com o território chinês, para aliviar um pouco a enorme densidade de seu fluxo comercial por Málaca e diversificar seu fornecimento. Apostar tudo em uma só carta geralmente não é um bom negócio… especialmente se essa carta pertence ao rival.

O Índico banha as costas dos países com as maiores populações muçulmanas do mundo: Paquistão, Índia, Indonésia e a abarrotada e insalubre Bangladesh. Vale a pena lembrar que o radicalismo islâmico, embora esteja fortemente infiltrado e financiado pelo eixo anglo-americano e petro-árabe, havia sido designado como "inimigo da globalização", um pretexto internacional para a intervenção. Nada melhor que problemas globais e sem fronteiras ("terrorismo internacional") para impor soluções e instituições igualmente globais e sem fronteiras. De qualquer modo, a "ameaça terrorista" significa que o atlantismo tem muitas desculpas para estabelecer bases no Índico e militarizar suas águas, utilizando como pretexto a inevitável contrapartida marítima do "terrorismo internacional": a "pirataria internacional".

O Índico contem uma imensa força de trabalho. Se somássemos a população de todos os países da costa do Índico, seriam mais de 2 bilhões de habitantes (compare com os 2,8 bilhões do muito maior Pacífico). A particularidade da força de trabalho do Índico é que se trata de uma mão de obra muito mais dócil e indefesa que, por exemplo, os trabalhadores europeus ou norte-americanos brancos, mais acostumados aos diretos trabalhistas e a um nível de vida maior ― que são pouco "proletariáveis". Mas com a alegre colaboração dos governos locais, muitas multinacionais do Primeiro Mundo (entre elas Nike, Walt Disney, The Gap, Primark, Wal Mart, Topshop, Reebok e muitas outras) estão estabelecendo sweatshops ou sweat factories [4] nas Mecas índicas da globalização, como Índia, Paquistão, Sri Lanka, Bangladesh, Tailândia, Malásia, Indonésia e talvez, proximamente Myanmar (Birmânia). Nestes Estados, o "capitalismo sem fronteiras" se aproveita da superpopulação, da natalidade explosiva, da falta de escrúpulos e do egoísmo das castas dirigentes, e da miséria da maior parte de seus habitantes, assim como da covardia das leis locais quanto aos direitos trabalhistas e ambientais. Isso implica a existência de grandes capitais com enormes interesses financeiros nestes países e que estão dispostos a lutar para mantê-los. Estes governos e capitais sem escrúpulos são os responsáveis pela deslocalização empresarial e industrial, o desmantelamento do tecido produtivo, a epidemia de greves, o decréscimo econômico e o dumping social geral de muitos países do Primeiro Mundo.

O Índico abriga importantes centros financeiros que se enfrentam em grandes desafios futuros:

Singapura se beneficia de sua posição estratégica inigualável: dividida entre Índico e Pacífico, representa um dos bloqueios do Mar do Sul da China, um dos portos mais descomunais do mundo e um tráfico diário de mais de 15 milhões de barris de petróleo. Como muitos centros financeiros do mundo, Singapura tem melhores contatos com a London City que com os centros financeiros de seu entorno (Hong Kong, Xangai, Tóquio). Seu grande problema é que a China venha a diversificar suas rotas de fornecimento de petróleo, por exemplo, estabelecendo corredores energéticos no Paquistão e no Myanmar, um oleoduto direto desde o Golfo Pérsico até sua província de Xinjiang e/ou escavando um canal no istmo tailandês de Kra. Estes projetos lhe tirariam um enorme protagonismo às rotas marítimas do estreito de Málaca, portanto, à Singapura e ao atlantismo. O outro problema de Singapura é o fantasma de uma possível guerra naval no Mar do Sul da China.

Imagem que vale mais que mil palavras: a Armada de Singapura vigia o estreito de Málaca, enquanto passa um petroleiro. O tráfico marítimo, por si só complicado pela geografia do estreito, se vê ameaçado pela pirataria e, cada vez mais, pelo espectro de uma possível guerra no Mar do Sul da China.

Dubai (Emirados Árabes Unidos) se beneficia de ser a capital de um país que é dividido entre o Golfo Pérsico e o Índico, e por onde passa inclusive mais petróleo que pelo estreito de Málaca. O problema de Dubai (em geral de todo os petro-regimes árabes) é a importante influência iraniana e xiita em todo o Golfo, a não disponibilidade de mão de obra barata e em quantidade nas proximidades, a dependência econômica de suas exportações petroleiras (que passam em sua maior parte pelo estreito de Ormuz) e as fortes instabilidades na região. Recentemente, os Emirados haviam acolhido uma superlotação de efetivos militares estadunidenses, e abriga bases de drones, centros de Inteligência e um campo de treinamento de Xe Services, uma companhia militar privada (a antiga Blackwater). Estas medidas vão ser dirigidas essencialmente contra o Irã, embora também seja uma boa base para intervir no Iêmen, Paquistão e Síria.

Importantes movimentos auríferos. É inegável que o padrão-ouro, mesmo com suas falhas e mediocridades, colocará ordem no promiscuo cassino da finança moderna. Os bancos centrais e internacionais, e certos governos, estão acumulando grandes reservas de ouro, supostamente como refúgio ante a instabilidade "dos mercados" e a parasitária política monetária dos EUA. O ouro sempre provou ser um trunfo bastante confiável e "real" mesmo às flutuações da economia financeira "fictícia". Antes de ser derrubado e assassinado, Gaddafi estava em processo de estabelecer uma nova moeda para a África, respaldada precisamente pelo ouro. Também parece claro que a demissão de Dominique Strauss-Kahn do Fundo Monetário Internacional tinha muito a ver com seus flertes com a Líbia, com o padrão-ouro, com o Banco da China e com o projeto de uma nova divisa mundial (algo próximo da tese do "dinheiro sem fronteiras").

Tendo isto em conta, é preciso prestar atenção a alguns movimentos auríferos do Fundo Monetário Internacional. Em Novembro de 2009, quando suas reservas auríferas eram de 2.217 toneladas, o FMI anunciou a venda de um oitavo destas reservas. Dessas, 200 toneladas de ouro iriam para a Índia (país que tem uma importante tradição de fetichismo para com o "vil metal"), 10 toneladas à Sri Lanka, outras 10 toneladas ao Banco de Bangladesh (Setembro de 2010) e 2 toneladas ao Banco de Mauricio [5]. A alguns destes países podemos englobar na categoria de paraísos fiscais, e outros na de "paraísos escravistas", mas o que está claro é que se tratam de Mecas da globalização… e que se encontram todos no Índico.

SEGUNDA PARTE

"Quem quer que alcance a supremacia marítima no Oceano Índico, será um jogador proeminente no cenário internacional". - (Alfred Thayer Mahan, geoestrategista da Marinha americana, 1840-1914).

Na primeira parte deste artigo, vimos como as rotas comerciais tinham um papel destacado desde a Antiguidade, posto que, o comércio é a base das relações internacionais e, portanto, de toda a globalização — embrionária ou plenamente desenvolvida. Hoje em dia, as mercadorias mais importantes já não são seda ou especiarias, mas petróleo e gás natural, e por isso as rotas mais importantes são os oleodutos, gasodutos e vias marítimas por onde transitam petroleiros e transportadores de gás natural liquefeito (GNL). Portanto, sempre que nasce um conflito onde antes havia paz, é bom se perguntar imediatamente quais as "mercadorias" que possui a área, quais "rotas comerciais" transitam por essa, quais potências as disputam, quais potências se beneficiam da estabilidade destas rotas e quais se beneficiam de sua instabilidade.

Nós, os europeus, alimentamos com nosso suor e nosso sangue os primeiros estágios do capitalismo: as fases industrial e comercial. Agora, na época do capitalismo financeiro, a ideia é reduzir custos com a terceirização, o dumping social, e a derrubada de todas as fronteiras para acabar com qualquer particularismo territorial e alcançar um planeta homogêneo. E são justamente os europeus que tem se convertido no obstáculo para essa globalização total. Querendo derrubar o poder e o prestigio que conquistamos no passado, poderia parecer que os geoestrategistas da globalização estão decididos a acabar fisicamente com os europeus étnicos, utilizando medidas socioeconômicas e midiático-culturais tendentes à disgenesia, à esterilização de gerações inteiras, à miscigenação, à feminização social e à limpeza étnica. Ainda estamos acostumados a pensar que a Europa ou "Ocidente" é o centro do mundo, mas a realidade é que esse centro se deslocou agora para a macro-região do Indopacífico.

Durante muito tempo, os mapas mundis foram quase sempre concebidos no modelo eurocêntrico (os EUA têm elaborado mapas americanocêntricos). Esse modelo já não representa a realidade do mundo. Os mapas-múndi modernos deveriam ser do tipo pacífico-cêntricos como este acima, ou invertidos como o abaixo.


Para compreender, em grande medida, porquê o centro de gravidade do mundo se inclina desde o Atlântico ao Pacífico, e porquê as companhias multinacionais estão erguendo suas torres de marfim nas cidades como Xangai (que já em 2005 tinha 4.000 arranha-céus, o dobro de Nova York), Mumbai, Hong Kong ou Bangalore, só é preciso participar de um dos passatempos mais importantes e pseudo-rituais de nossa civilização: ir às compras. A maior parte dos produtos comprados em centros comerciais europeus e norte-americanos são fabricados nas sweatshops da China, Índia, Paquistão, Sri Lanka, Bangladesh, Tailândia, Camboja, Vietnã, Malásia, Indonésia etc. Desde os tênis Adidas made in Camboja até as roupas da multinacional espanhola Inditex (lojas Zara, Pull and Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius), fabricados por mão de obra semi-escrava, que inclusive superlotam navios situados fora de águas territoriais chinesas para evitar controles fiscais e aduaneiros. A maior parte desses manufaturados é produzida nos tigres asiáticos — eufemismo de "paraísos escravistas" — da Ásia-Pacífico.

Arte por David Dees. O auge da Lestásia (Ásia Oriental) e da China como superpotência é consequência direta da globalização e da religião consumista e materialista instaurada nas novas catedrais do Ocidente: os centros comerciais. Os responsáveis são as castas financeiras de Londres, Nova York e Frankfurt, e seus testas-de-ferro no resto do mundo.

Devido às políticas da globalização (intervenções militares em teatros bélicos isolados, estratégia de deslocalização empresarial e industrial, imigração massiva, fomento do consumismo, do individualismo, do niilismo e do hedonismo, a disgenesia, a miscigenação e a vulgarização dos povos), o mundo inteiro pode desestabilizar-se e terceiro-mundializar-se, onde a população se aglomera em vastas favelas e decaem no abismo do caos, enquanto seu suor e recursos são explorados pelas elites financeiras, fortificadas nos núcleos de luxo fortemente tecnológicos, criando milícias privadas e controlando o seus escravos com serviços de Inteligência de uma onisciência total. De momento, estes senhores se reúnem conferências internacionais, piscando os olhos uns aos outros e repetindo sorridentes "eu economizo, tu economizas, ele economiza", enquanto promovem carnificinas da pior estirpe para derrubar os governos que não lhes agradam (como estão fazendo na Síria neste exato momento). Os aristocratas do dinheiro esperam ser livres, prontos para construir, sem obstáculos e sem oposição por parte dos povos livres ou governos independentes, um único governo mundial, um banco mundial, uma moeda mundial, uma religião mundial e um rebanho mundial de mão de obra dócil. Concluído esse projeto, logicamente culminaria na tecnologização da sociedade (o denominado progresso da matéria inerte em oposição à matéria viva), completado o movimento iniciado na Revolução Neolítica.

Mas se o objetivo for evitar o advento do Globalistão, é preciso entender as tramas da globalização. Enquanto a economia das nações está baseada no comércio internacional, o eixo do mundo serão as rotas que conectam o Grande Ocidente ao Grande Oriente, tanto por terra (Rota da Seda) quanto por mar (Rota das Especiarias). Nesta segunda parte do artigo, repassaremos a situação de alguns dos Estados mais importantes do Oceano Índico, um espaço marítimo que se destaca por seu elevadíssimo tráfico petroleiro, e que as potências oceânicas utilizam para desconcentrar as rotas terrestres do comércio Oriente-Ocidente. Dedicar atenção para a realidade de cada um destes países nos permitirá compreender, em grande medida, os pormenores da nova rota das especiarias e os incríveis obstáculos da nova rota da seda.

Um olhar rápido para as ZEE (Zonas Econômicas Exclusivas) do Índico mostra algumas surpresas, como o protagonismo francês, australiano, britânico e sul-africano, e a importância relativamente desproporcional dos Estados-paraísos fiscais como as Ilhas Comores, Seychelles ou Mauricio. Não se vêem representadas reivindicações sobre plataformas continentais ou disputas marítimas — como a que existe entre Índia e Paquistão em torno da ZEE de Sir Creek, uma foz fluvial. Tampouco são representados os territórios índicos antárticos (pertencentes à Austrália, Noruega e França). Pode resultar bastante instrutivo comparar este mapa com o mapa sobre rotas e pontos estratégicos do Índico, que foi visto na primeira parte.

ÍNDIA

A Índia, com sua enorme população, vasto território em forma de cunha, é o Estado melhor situado para dominar o Índico. Porém, possui três vizinhos que exercem contra ela uma influência geobloqueadora: Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka. A independência destes três Estados foi uma diabólica obra mestra das intrigas britânicas, cuja ideia era cortar os laços tradicionais da Índia com o Oriente Médio e a Ásia Central, evitar que se convertesse num país claramente hegemônico no sul da Ásia, adquirindo o rio a quem o nomeia (o Indo), e poder se aliar com seus rivais regionais. Também tem por objetivo evitar que a costa norte do Índico se vertebrasse, não-necessitando da intervenção ou de alianças estrangeiras para manter-se por si mesmo. Outros Estados-tampões que aliviam um pouco a tensão na fronteira sino-indiana são Nepal e Butão, países com os quais a Índia mantem boas relações, em detrimento da China.

A Índia tem também uma situação privilegiada para receber os hidrocarbonetos tanto da Ásia Central como do Oriente Médio e África. Sua extraordinária situação geográfica, unida a sua extensão e enorme população, a converteu na "joia da coroa" do Império Britânico. Depois da II Guerra Mundial, o lema era a deseuropeização do mundo, e a Índia se tornou independente em 1947 no meio dos sanguinários conflitos entre hinduístas e muçulmanos. Durante a Guerra Fria, o país caiu sob a órbita soviética e se converteu num aliado da URSS contra China e Paquistão, que se encontravam sob a influência dos EUA. A Índia travou uma guerra contra a China em 1962, e teve conflitos com o Paquistão em 1947, 1965, 1971 e 1999.

Densidade da população na Ásia Central e Meridional. A tendência do arco hindu fortemente superpovoado é subir pelo norte, amontoar-se junto às bordas das cadeias montanhosas, conectar com os núcleos de população dispersa da Ásia Central e Ocidental e rodear a China. É a tendência do Cinturão de Gelo, que veremos num artigo futuro.

A Índia manteve uma economia bastante protecionista durante a Guerra Fria. Por exemplo, no final dos anos 70, a Coca-Cola e a IBM saíram do país, já que as condições eram inaceitáveis para elas. Porém, depois da queda da Cortina de Ferro, em 1991, Nova Déli liberalizou muitas de suas políticas econômicas em benefício de sua numericamente alta classe alta e média urbana. Atualmente, faz de tudo para "atrair investimentos", atraindo várias multinacionais estrangeiras (IBM, Microsoft, Nokia, PepsiCo, Ranbaxy Laboratories, Reebok, Sony, Vodafone etc.). À sombra desse crescimento, tem prosperado centros de alta tecnologia como Bangalore, incluindo a hinduísta Tata Motors que comprou a Jaguar e a Land Rover à americana Ford. Hoje, salvo exceções, a Índia é um paraíso do capitalismo selvagem e escravista. A chave do "sucesso" é cortar custos. O país sul-asiático também se converteu num importante centro de finanças e especulação (falando claramente: do roubo, do parasitismo etc.), graças ao National Exchange of India (Mumbai), fortemente relacionada com a City de Londres.

A política exterior hindu tem várias vertentes. Uma se dirige para a Ásia Central e está representada por Farkhor, uma base aérea hindu no Tadjiquistão, em pleno coração da Ásia Central. O objetivo inicial da base era proporcionar apoio logístico aos grupos anti-talibãs (e, portanto, anti-paquistaneses). Naturalmente, a verdadeira estratégia é projetar o poder hindu na Ásia Central e rodear o Paquistão. A Rússia é contrária a qualquer presença militar estrangeira na Ásia Central, exceto, claro, a sua própria. Existe outra base aérea tadjique de Ayni, que a Índia havia ajudado a desenvolver, mas não havia ocupado de imediato, provavelmente devido à essa inquietude de Moscou. A Índia também mantêm uma presença no Afeganistão, na forma de milhares de milhões de dólares em investimentos, e de tropas dedicadas ao treinamento do ANA (o Exército afegão). Esses movimentos podem ser considerados parte do Cinturão de Gelo (um anel geográfico que tende a conter a expansão da influência chinesa para o Ocidente).


Outra tendência da Índia é projetar-se para o Oriente Médio — já que por terra se encontra geobloqueada pelo Paquistão —, particularmente pelo Golfo Pérsico, de onde toma a maior parte de seu petróleo (seu maior fornecedor é a Arábia Saudita, seguido do Irã). Um novo enclave hindu representa esta tendência: o porto de Chabahar, situado na estratégica província iraniana do Sistão-Baluchistão, ao leste do país. Esse porto tem características interessantes, como sua localização fora do Golfo Pérsico e do Estreito de Ormuz. Apesar da pressão internacional, a Índia continua comprando petróleo iraniano e um dos maiores sócios comerciais de Teerã. Não pode esquecer que, quando triunfou a Revolução Islâmica no Irã de 1979, Teerã decidiu cortar laços com todos os países aliados dos EUA, o qual incluía o Paquistão. Isto, automaticamente, converteu o Irã em aliado da Índia. O porto de Chabahar também está aberto a comerciantes afegãos. Os projetos de gasodutos TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia) e IPI (Irã-Paquistão-Índia) são outras das manifestações da atração que exerce a Índia sobre o Oeste.

O gasoduto IPI (em vermelho) ajudaria muito a estabilizar a região e vertebrar relações saudáveis entre os países envolvidos. O primeiro interessado que essa estabilidade não se materialize é o atlantismo, que faz de tudo o possível para desestabilizar o Baluchistão e envenenar as relações diplomáticas regionais, especialmente abrindo mão do radicalismo islâmico enraizado no Paquistão. Ao atlantismo é conveniente um Baluchistão independente e fantoche, e o gasoduto TAPI (em verde) ajudaria a afastar o gás natural centroasiático das rotas controladas pela Rússia, além de passar por um país sob ocupação militar estadunidense (Afeganistão) e evitar o fluxo de gás natural iraniano para o Leste, portanto, forçando o afastamento do Irã e da Índia e acentuando a tendência da Índia a interferir na Ásia Central, tradicional esfera de influência russa. É revelador que o projeto do IPI (chamado "gasoduto da paz") seja apoiado por sócios como a NIOC (National Iranian Oil Corporation), o gigante gasífero estatal russo Gazprom e até a italiana Eni. O custo do IPI é estimado em 1,2 bilhões de dólares, enquanto que o custo do TAPI, promovido por Hillary Clinton e o Grupo Merhav de Israel (dirigido pelo agente do Mossad Yosef Maiman), está por volta dos 8 bilhões.

No Oeste, a influência hindu está cortada pelo Paquistão. Embora os recentes acordos de defesa entre EUA e Índia, CIA, Mossad e RAW (serviços de Inteligência hindu) de apoio aos diversos atos subversivos na província paquistanesa do Baluchistão, na província iraniana do Sistão-Baluchistão… e também no Tibete e Xingjiang. Realmente, tanto o Afeganistão quanto o Paquistão não são mais que tampões para evitar que a Índia se conecte com o Irã como seria o "lógico" (a influência persa em toda a região é imensa, e inclusive o famoso Taj Mahal foi construído por uma dinastia de origem iraniana).

A expansão da Índia para o Leste tem gerado muitas controvérsias. A China é a primeira interessada em que a Indochina não se incline mais para a primeira metade de seu nome, e durante muito tempo, Mianmar fez o papel de Estado-tampão contra a Índia, inclusive abrigando os movimentos insurgentes anti-hindus e guerrilhas naxalitas maoistas. Desde 1993, devido a interesses econômicos, as relações entre Índia e Mianmar têm melhorado. O Mianmar tem petróleo e gás natural, e a Índia tem mostrado muito interesse em construir vias de comunicação (oleodutos, gasodutos, rodovias, estradas, ferrovias). Em Fevereiro de 2007, a Índia anunciou um plano para desenvolver o porto de Sittwe, que proporcionariam às isoladas províncias do noroeste da China uma saída ao mar, através do rio Kaladan. Essa presença hindu está em contradição com a potência dominante no Mianmar, a China, que tem invertido enormes somas de dinheiro no país e que mantêm um porto em Kyaukpyu.

Não suficiente, de momento, 90% do comércio hindu e 100% de suas importações petrolíferas chegam pelo mar. Assim, a tendência mais importante da Índia é a marítima, para o oceano que leva seu nome. A Índia não se tem subtraído ao fato de que a imensa maior parte do tráfico mundial petroleiro e comercial passa diante de seu nariz, e tem tomado posições para reforçar seu controle sobre as rotas marítimas. A primeira medida tem sido iniciar um vasto projeto para implantação de radares e centros de Inteligência e monitoramento do tráfico marítimo de sua própria costa, estabelecendo uma rede de seguridade marítima. A segunda medida tem sido dar o salto mais além de suas costas.

As ilhas Maldivas são um importante sócio estratégico da Índia desde a Operação Cactus (1988), na qual os militares hindus repeliram os mercenários tamis. Atualmente, a Índia busca integrar as Maldivas a sua arquitetura de seguridade marítima, estabelecendo helicópteros, unidades da Guarda Costeira e radares nos 26 atóis do país insular, que se conectaram com o sistema costeiro hindu. Em troca, as autoridades de Maldivas têm o direito a observar como os hindus manuseiam a segurança nas ilhas Andamão e Nicobar, dos arquipélagos hindus críticos que se encontram abaixo de Mianmar, a somente 150 km da estratégica província indonésia de Assém, e numa situação altamente dominante do tráfico que se dirige ao Estreito de Málaca. Os hindus não são os únicos que cortejam as Maldivas: a China está levando a cabo explorações marinhas e tenta negociar a instalação de uma base militar.

Outro país ilha cortejado pela Índia é Mauricio, situado próximo a Madagascar. Ambos os países negociam a possibilidade de que a Índia permaneça com as duas ilhas gêmeas de Agalega, para que a Índia desenvolva ali o turismo. O turismo, claro, é uma desculpa para que preencha a zona de colonos, espiões, instalações logísticas e de monitoramento, aeroportos, infraestruturas de uso duplo (tanto civil como militar), empresas subsidiárias, oficinas e, provavelmente, projetos agrícolas. Em todo o mundo, tanto o turismo como os projetos ambientais, etnológicos, zoológicos, geológicos, empresariais etc., a princípio, não são mais que uma desculpa para projetar influência e "pôr os dedos" sobre uma região [6].

A Índia tem instalações de radar e monitoramento de comunicações marítimas tanto no norte de Madagascar como nas ilhas Seychelles. O objetivo é supostamente interceptar atividades piratas e terroristas, mas também é um suporte para afastar a crescente influência da marinha chinesa na região. Se a isso adicionarmos os acordos marítimos com Moçambique (cujas costas são patrulhadas rotineiramente pela marinha hindu) e com Omã (que permite a Índia atracar navios em sua costa), vemos que a marinha hindu está assegurando a manutenção do eixo IBAS (Índia-Brasil-África do Sul) e suas rotas para o Golfo Pérsico. A Índia também está ativamente envolvida no Quênia, Somália, Etiópia, Uganda, Tanzânia, Malawi, Zâmbia, África do Sul e, possivelmente, o novo Estado do Sudão do Sul.

Clique pra aumentar. Este mapa ajuda a dar uma ideia da extensão do atual "império hindu", e até que ponto se encontra em contradição com a implantação das peças chinesas no tabuleiro marítimo indopacífico.

O auge do poder chinês e a virada do Paquistão — que tem inclinado claramente dos EUA para a China — tende a convergir a Índia ao bloqueio atlantista. Em Outubro de 2010, a Índia firmou com Washington um importantíssimo contrato armamentista, em detrimento da Rússia, a tradicional fornecedora de armas de Nova Déli. Pouco depois, Obama começaria a apoiar o ingresso da Índia no Conselho de Segurança da ONU (organismo monopolizado somente por EUA, Rússia, China, Reino Unido e França). Mais tarde, Washington ofereceria às Forças Armadas da Índia a possibilidade de levar à cabo manobras militares no Alaska, no terreno montanhoso e condições de frio extremo, presumivelmente como preparação para possíveis conflitos no Himalaia, Caracórum e Hindu Kush. Os supostos inimigos: China e Paquistão. O grande obstáculo às relações da Índia com os EUA e a União Europeia é que a Índia depende dos hidrocarbonetos iranianos e não está disposta a apoiar as sanções contra o Irã na ONU. Isto se traduz em que os EUA deva impedir a todo o custo que a Índia se conecte ao Irã mediante gasodutos, oleodutos e corredores comerciais. Daí a desestabilização do Paquistão e da província de Baluchistão. Como resultado das recentes investidas diplomáticas de Washington na Índia, Nova Déli apoiou o Conselho de Cooperação do Golfo, a Liga Árabe e a OTAN nas sanções contra a Síria.

A Rússia — cujas boas relações com Nova Déli remontam à Guerra Fria — continua colaborando ativamente com a Índia nos campos da tecnologia e da defesa, com diversos projetos (Sukhoi/HAL FGFA) em estágio muito avançados, e também apoia seu ingresso no Conselho de Segurança da ONU. Além disso, Moscou quer que a Índia entre na OCX (Organização de Cooperação de Xangai, SCO em sua sigla inglesa, concebida como uma contrapartida eurasiática da OTAN).

Geopoliticamente falando, a Rússia é aliada "lógica" tanto da Índia como do Irã. As antigas invasões indo-iranianas, que forjaram as civilizações védica e persa, procederam das estepes do sul da Rússia e foram canalizadas naturalmente para a Índia pela configuração geográfica do território. Incluso, se remontamos à genética, há uma importante presença de linhagens paternas R1a (relacionado com os povos eslavos e indo-iranianos) tanto na Índia como no Irã.

O inimigo geopolítico da Índia é o Paquistão. Ambos os países são potências nucleares e não assinaram o Tratado de Não-Proliferação (TNP). Como veremos em seguida, a Índia pode cortar ao Paquistão seu acesso à China, o qual seria uma catástrofe para esse país.

PAQUISTÃO

O Paquistão é um dos barris de pólvora mais voláteis do planeta. A importância do Paquistão é óbvia apenas olhando para o mapa: é a ponte entre o Golfo Pérsico e os enormes mercados da Índia e da China, e uma ligação entre o Oriente Médio, o Hindustão, a Ásia Central e o Índico. O Paquistão —em comum com o Egito — se trata de um país superlotado (200 milhões de pessoas, o país islâmico mais povoado depois da Indonésia), com favelas insalubres e imensas (Lahore e Karachi). Seus habitantes estão fortemente concentrados em torno de um rio (neste caso o Indos), sendo o resto do país comparável ao Afeganistão, e sua população é virulentamente anti-ocidental, fácil de excitar com retóricas religiosas e à beira de uma revolta social. Tanto que o Exército e os serviços de Inteligência, assim como os grupos radicais, tem fortes laços com Reino Unido, EUA, Arábia Saudita e correntes salafistas-wahabitas do "jihadismo internacional". Mas, diferente do Egito, o Paquistão é uma potência nuclear com instáveis fronteiras com outras duas potências nucleares: Índia e China. Também à diferença do Egito, o Paquistão tem vastas regiões montanhosas e um endiabrado labirinto de vales escondidos, que se prestam muito ao estabelecimento de campos de treinamento de insurgentes e à formação de autoridades locais (por exemplo, tribais, mafiosas, religiosas ou tudo junto) totalmente à margem do Governo.

O Paquistão foi sócio privilegiado dos EUA e da OTAN (também da China) durante a Guerra Fria, já que o país encerrava a expansão soviética para o sul. Utilizando o Paquistão como base, movendo as estratégias do ISI (serviço de Inteligência paquistanesa, dirigido pelo general Akhtar Abdur Rahman) e regando as madrassas e mesquitas com petrodólares sauditas impressos no FED americano, o célebre geoestrategista Zbigniew Brzezinski (conselheiro de segurança nacional da administração Carter), em colaboração com o general Zia Ul Haq (que dirigia o governo paquistanês na época, focalizando na tarefa de islamizar o país), formou o movimento talibã — destinado primeiro a conter a influência soviética no Afeganistão e, depois, a justificar a presença de tropas da OTAN. Também tiveram papel chave nesse processo as redes de informações e de agitação do MI6 britânico na época do Império, e a infraestrutura de madrassas, campos de treinamento e mesquitas fundamentalistas financiadas pela Arábia Saudita. Islamabad e Washington temiam que a URSS acabasse invadindo o Paquistão, em sua busca dos portos quentes (Mar Árabe), e se conectasse territorialmente com a Índia. Se isso acontecesse, o Rimland (a periferia do continente eurásiatico, que circunda o Heartland) se partiria em dois, rompendo o assedio oceânico ao núcleo duro de Eurásia.

Este artigo do jornal britânico "The Independent", de segunda-feira, 6 de Dezembro de 1993, estampa o título "Guerreiro anti-soviético põe seu exército no caminho da paz". No parágrafo superior pode ler-se "O homem dos negócios sauditas que recrutou mujahideens agora os emprega em projetos de construção em grande escala no Sudão". Bin Laden foi um dos contatos chave da Inteligência saudita para obter dinheiro para os talibãs que, refugiados no Paquistão onde obtinham apoio logístico e econômico, mantiveram uma larga resistência contra a invasão soviética. Ironicamente, a película "Rambo III" representa os talibãs como os "bons".

Em tempos recentes, o Paquistão sofreu uma deterioração espetacularmente rápida de suas relações com o eixo anglo-americano, inclinando-se para a China e, também, para o Irã e para a Rússia. Isto chegou a tal ponto que em 2010 Vladimir Putin apoiou Islamabad para entrar na OCX e se converteu no primeiro líder russo da história a visitar o Paquistão. Esse processo, por sua vez, deu lugar a um incremento do intervencionismo militar estadunidense em solo paquistanês (geralmente a cargo de drones e equipes de operações especiais), violando a soberania de Islamabad inumeráveis vezes [7] e deixando milhares de civis mortos.

Muitos destes ataques são claras manobras de provocação e tensionamento por parte de Washington. O show montado em torno à suposta eliminação de Bin Laden em 2 de Maio de 2011 em território paquistanês, assim como o incidente do míssil teleguiado em 26 de Novembro do mesmo ano — que custou a vida de 24 soldados paquistaneses — foram pretextos de Washington para justificar seu afastamento de Islamabad, assim como provavelmente para dar mais peso ao Uzbequistão e Tadjiquistão como vias de abastecimento para as tropas de ocupação no Afeganistão. Também supõe uma desculpa para mover suas bases de drones (aviões não-tripulados) às repúblicas ex-soviéticas da Ásia Central, mas de momento, estes países se negaram. As autoridades paquistanesas bloquearam o abastecimento da OTAN pelo passo de Khyber e desalojaram os estadunidenses de sua base de drones em Shamsi (Baluchistão). Reveladoramente, o general William Fraser, responsável do transporte militar, informou ao senado em 28 de Fevereiro de 2012 que as rotas bloqueadas pelo Paquistão eram essenciais para completar a suposta retirada de tropas estadunidenses do Afeganistão em 2014. Segundo ele, as rotas da chamada Northern Distribution Network (que passam pela Ásia Central e só permitem transportar abastecimento não-letais) são insuficientes para manejar o imenso tráfico de comboios necessário para evacuar as tropas do Afeganistão. Portanto, se o Paquistão fecha suas rotas, os EUA terá que adiar sua retirada ou então prolongar sua ocupação, segundo se observa. Esta última opção talvez era o que tinham em mente os estrategistas do Pentágono, já que apesar de haver assegurado dezenas de vezes que para 2014 já não teriam tropas no país, Washington havia se dedicado a construir novas bases, expandir e atualizar as já existentes e converter sua embaixada em Cabul e outras instalações nas autênticas fortalezas e centros de inteligência e tecnologia. O certo é que se os EUA se indisporem com os países do entorno afegão, pode encontrar-se numa situação em que não poderá retirar a maior parte do material militar que tem instalado no Afeganistão, e seus efetivos permaneceriam isolados e sob assédio contínuo. O Secretário de Defesa estadunidense, Leon Panetta, declarou que continuaria levando ataques de drones contra os refúgios "que o Paquistão oferece aos insurgentes afegãos". Islamabad já afirmou que condena a violação de seu espaço aéreo pelos drones estadunidenses.

Outra esfera com a qual o Paquistão está rompendo relações é a petro-árabe, representada pelo Conselho de Cooperação do Golfo (GCC em sua sigla inglesa), uma união dos Estados petroleiros de Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Omã e Bahrein. Isto se evidenciou em Novembro de 2011, quando as autoridades aduaneiras paquistanesas confiscaram 80 falcões pertencentes ao emir do Catar. Não deve-se esquecer também que o estratégico porto paquistanês de Gwadar, atualmente uma pérola do colar chinês, pertenceu no passado ao Omã, um país que cultiva boas relações com a Índia. Se olharmos o mapa das Zonas Exclusivas do Índico mais acima, veremos que Índia e Omã tendem a estrangular o espaço marítimo paquistanês e sua saída à águas internacionais.

A desestabilização do Paquistão significa que o país abriga cada vez mais movimentos insurgentes e fundamentalistas (essencialmente de simbolo salafista e talibanes), que operam não apenas no Afeganistão, mas também na Índia, no Nepal, nas ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central e na província chinesa de Xingjiang. Estes grupos, oportunamente, criam uma instabilidade regional que, junto com a diabólica orografia do terreno, torna inviável manter rotas comerciais.

Pode-se dizer que só as províncias de Punjab, Sindh e Islamabad são o Paquistão "propriamente dito", e que o resto forma a retaguarda do país. No entanto, há três províncias paquistanesas com uma tremenda importância no quebra-cabeça asiático:

Gilgit-Baltistão (Caxemira do Norte): tem a desgraça de ser a região onde convergem Afeganistão, China, Paquistão e Índia. O corredor afegão de Wakhan — uma das regiões — amortizadoras mais importantes do planeta desde que foi criada pelos britânicos no século XIX para evitar que o Império Britânico e o Império Russo compartilhassem fronteiras —, separa o Paquistão do espaço ex-soviético… por apenas 16 km. A Rússia quer acessar o corredor para construir uma estrada e uma via férrea que unirá o Tadjiquistão ao Paquistão, no caso de que Washington se retire do Afeganistão. A Caxemira é também uma região sensível porque, através dela, a Índia pode cortar do Paquistão sua comunicação com a China (a rodovia do Caracórum, pela qual a China sai ao Índico). Há uma região da Caxemira administrada pela Índia e reclamada pelo Paquistão, e uma região da Caxemira administrada pelo Paquistão e reclamada pela Índia. O que toda Caxemira tem em comum é que a religião majoritária é a muçulmana. Isto significa que sua paquistanização e talibanização é questão de se saber acionar os botões certos.

"Caxemira paquistanesa". Indicada no mapa pelo que os hindus chamam PoK (Pakistan occupied Kashmir), que corresponde às províncias paquistanesas de Gilgit-Baltistão (em vermelho escuro) e Azad Kashmir (em vermelho claro).

Baluchistão: é uma região estratégica do sul da Ásia que inclui a província paquistanesa de Baluchistão (que compõe a maior parte de seu território), a iraniana do Sistão e a franja mais meridional do Afeganistão. A região é montanhosa, árida, inóspita e de baixa densidade de população (apesar de sua enorme extensão, contem somente 4% da população do Paquistão), mas é rica em gás natural, petróleo, urânio, cobre e ouro. Também, em sua costa se encontra Gwadar, um porto que une o comércio chinês e centro-asiático com o Índico, e, portanto, com o resto do mundo, e onde a China recebe enormes quantidades de petróleo iraniano, sudanês, nigeriano etc. O comércio terrestre na macro-região do sul da Ásia é impossível sem um Baluchistão estável e forte… e isso é o que o atlantismo tenta impedir.


Depois da revolução islâmica no Irã, tanto os EUA como o Iraque forjaram grupos separatistas balúchis para lutar contra o Irã. Esses laços haviam sobrevivido ao longo do tempo, e hoje são vários os grupos que servem, direta ou indiretamente, aos interesses do atlantismo na região, destacando dois. Um é o BLA (Exército de Liberação Balúchi, pela sua sigla inglesa), um grupo terrorista que tem laços com o MI6 desde a época da independência do Paquistão. Islamabad conhece de sobra todos estes laços, e o próprio ex-presidente paquistanês Musharraf declarou que o BLA tinha apoio do estrangeiro [8]. Dentre outras coisas, o BLA atacou trabalhadores chineses na região e promoveu a limpeza étnica contra não-balúchis em geral. Outro grupo é o Jundallah ou Yundolá ("soldados de Alá"), cujas ações são especialmente dirigidas contra o Irã. Este grupo controla o narcotráfico da zona (o vício à heroína causou graves estragos no Irã), levou à sequestros e assassinatos de cientistas iranianos, atentados terroristas contra infraestruturas importantes e combate as autoridades de Teerã. O resultado foi uma guerra civil de baixa intensidade na fronteira do Irã-Paquistão, no qual o Irã perde muitos soldados e policiais. A revista Foreign Policy reconheceu abertamente que tanto a CIA como o Mossad competem para controlar o Jundallah, e recentemente, a embaixada estadunidense em Islamabad pediu a abertura de um consulado no Baluchistão.

A desestabilização da agredida província não só está a cargo de narcotraficantes, islamistas radicais, terroristas, espiões, confidentes, agitadores e infiltrados de serviços de Inteligência dos EUA, Israel, Reino Unido e Índia, mas também de iniciativas que partem do próprio Congresso dos Estados Unidos, como a liderada por Dana Rohrabacher, um político com antigos laços com mujahideens da Al Qaeda (uma simples fachada para as operações secretas da CIA) e que dirige o nebuloso House of Foreign Affairs Subcommittee on Oversight and Investigations. A ideia é vincular o Paquistão como um Estado terrorista que oferece "refúgio" a terroristas, permitindo que os EUA façam de tudo para intervir no Paquistão e "liberar" o Baluchistão. De novo, este tipo de retórica não é mais que uma farsa hipócrita para o temor de que a China obtenha uma saída ao Índico. A Índia também entrou no jogo, deixando-se convencer por Cabul para dar dinheiro a movimentos insurgentes do Baluchistão e utilizar a policia indo-tibetana para proporcionar segurança na Ring Road ou Rodoanel afegã. No caso de que o Baluchistão se torne independente sob as égides de Washington, os EUA obteria desde o Afeganistão uma saída marítima que lhe livraria de sua dependência das rotas de abastecimento da Northern Distribution Network, que passam pelo Paquistão e o espaço ex-soviético.

A China mantêm importantíssimo porto no enclave costeiro de Gwadar, e projeta estabelecer um gasoduto e um corredor comercial para unir-lo com o território chinês. O principal problema é que Baluchistão, FATA, Caxemira e Xingjiang, por onde passaria o corredor, são repletos de turbulências geopolíticas. O Paquistão deseja que Gwadar se converta em um porto comercial de primeira categoria, competindo com o iraniano de Chabahar (a apenas 160 km de distância), onde a presença estrangeira predominante é a hindu. Se diz que, no caso de que o Baluchistão se torne independente, os EUA desejam que Gwadar se converta na "nova Dubai": um centro financeiro e petroleiro, assim como importante hub logístico para alimentar sua influência geopolítica na Ásia Central e no Cáspio, e para salvar-los de sua excessiva dependência de passos estratégicos montanhosos como o de Khyber. Por sua vez, a independência do Baluchistão seria um desastre para a China, que se veria privada de sua saída ao Índico.

FATA (Áreas Tribais Administradas Federalmente, em inglês; incluem a região da Waziristão) e KPK (Khyber Pakhtunkwa, antes chamada Província da Fronteira do Noroeste, NWFP em inglês): são as províncias mais talibanizadas, pobres, desindustrializadas e ingovernáveis do Paquistão, fonte de problemas na fronteira AFPAK (Afeganistão-Paquistão) e berço do mesmo movimento talibã, assim como da Rede Haqqani (nutrida pela CIA e pelo ISI paquistanês durante a Guerra Fria), uma organização que — a diferença da Al Qaeda, que é supostamente "global" — tornou-se desde Washington vinculada especificamente ao Estado paquistanês e ao ISI. Se a Al Qaeda foi a desculpa para atacar o Afeganistão, a Rede Haqqani vem a ser a desculpa para atuar no Paquistão. Na FATA também há campos de treinamento do Movimento do Turquestão Oriental, um grupo radical islâmico que atua na província chinesa de Xingjiang (também chamada Turquestão Oriental ou Uiguristão) e que tem laços com a (não podia faltar) Al Qaeda. O Paquistão é, em geral, uma pedra no meio do caminho para os islamistas radicais e mercenários dispostos a atuar pelo salafismo (por exemplo, na Síria), sob o pano de fundo dos serviços de inteligência atlantistas. O mesmo pode-se dizer da Arábia Saudita, Líbia, Kosovo, Chechênia e dos bairros "multiculturais" de muitas cidades europeias, especialmente do Reino Unido e França.

O epicentro do caos é o distrito de Waziristão, cujos habitantes têm fama de magníficos guerreiros, aproveitando-se do seu complicado terreno e dando-lhe muitos problemas ao Império Britânico entre 1860 e 1945. Os nativos desta região são da etnia pachtuns, muito vinculada com o conservadorismo e o tribalismo. Devido ao montanhoso terreno e à existência de vales isolados, existem também etnias muito interessantes, como os kalash e os hunza. Através das porosas fronteiras da FATA com o Afeganistão, se infiltram insurgentes, contrabandeando ópio e armas. Os militares ocidentais sentem que os "terroristas" se aproveitam da segurança do Paquistão, que Islamabad não os vigia suficientemente e que até os promove, e que a única maneira de acabar com os ataques da insurgência talibã é levando a guerra ao território paquistanês, coisa que já se havia feito com os drones e equipes de Operações Especiais, mas de momento ainda não há uma presença permanente. Na realidade, o estado atual do Paquistão faz pensar que a ocupação do Afeganistão foi uma desculpa para desestabilizar o Paquistão (graças a Ásia Central e todo o sul da Ásia) com o objetivo de bloquear os tentáculos geopolíticos chineses na zona. Essa suspeita já foi levantada pela TV estatal russa em 2009.

Indicadas no mapa, as províncias paquistanesas da FATA e NWFP (também chamada KPK). No Waziristão há ouro, diamante, cobre e manganês.

Sir Creek: merece atenção a parte essa franja de água de 96 km disputada entre Índia e Paquistão no estuário costeiro, e muito representativa dos absurdos geopolíticos. É que a possessão desta franja pantanosa implica, por extensão, dominar uma Zona Econômica Exclusiva marítima de mais de 8.000 quilômetro quadrados. A disputa, aparentemente ridícula, encontra sentido na presença de importantes quantidades de petróleo e gás natural que se encontram sob o leito do oceano, e que incrementariam enormemente o potencial energético do país que a controle. Também está em jogo um importante potencial pesqueiro.

Linha verde: fronteira reclamada pelo Paquistão. Linha vermelha: fronteira reclamada pela Índia. Esta fronteira, prolongada 200 milhas mar adentro, decide a quem pertence uma ZEE de milhares de km2 e rica em gás natural, petróleo e bancos de pesca.

Outro problema do Paquistão que causa grande alarme internacional é que se trata do único Estado muçulmano armado com ogivas nucleares. Se o Estado paquistanês falhar, uma ou várias ogivas nucleares podem acabar "fortuitamente" em mãos de alguma facção muçulmana radical. Essas ogivas poderiam "desaparecer do registro" durante algum tempo, até que reaparecessem em momento mais oportuno em mãos de alguma organização terrorista, por exemplo, para lançar um ultimatum ou serem detonadas em atentados de falsa bandeira que poderiam dar a outro interessado um empurrão à geoestratégia das potências atlantistas. Por isso, as ogivas paquistanesas causam tamanha preocupação no mundo.

IRÃ — O ATAQUE GLOBALISTA CONTRA A SÍRIA E A IMPORTÂNCIA ABSOLUTA DA PENTALÁSIA NO GRANDE TABULEIRO

O Irã é uma potência regional que corre por conta própria e com recursos de potência internacional, ao estilo de outros países emergentes como Brasil e África do Sul, ao ponto de que o futuro do planeta está indissoluvelmente ligado ao que se passa no Irã. É o Estado melhor situado para dominar o Oriente Médio e, junto com a Rússia, o melhor situado para monopolizar as rotas entre o Grande Oriente e o Grande Ocidente. Na verdade, em muitos sentidos, o Irã é uma Rússia do Sul, e possui as linhagens genéticas paternas R1a (associadas ao mundo eslavo, aos citas, aos indo-arianos, à cultura de machados de combate do Volga e à cultura dos Kurganes). Durante a Antiguidade, o Império Persa — que corresponde à esfera de influência do Irã moderno — compartilhava fronteiras com o Império Romano a Oeste e com a Índia ao Leste, e dominava também as rotas ao redor da China. Estes fatos dizem muito quanto ao destino histórico e geopolítico de Teerã. O Irã é a única potência nuclear no Oriente Médio, juntamente com Israel, e o único país que, com Israel, tem textos e tradições que remontam à era dos metais.

A máxima extensão da influência persa. Seu papel como intermediária entre a Europa e "as Índias" (cobiçadas de longa data pelo Ocidente) é evidente. Esta esfera de influência, transplantada aos nossos dias, significaria automaticamente que o Irã se converteria no país número um nas reservas de petróleo e gás natural, e que dominaria de forma indiscutível a Pentalásia e os estreitos de Ormuz, Bab-el-Mandeb, Suez, Dardanelos e Bósforo — com tudo o que implica à eles.

Durante a época dos impérios coloniais, o Irã foi o único país na região, junto com a mutilada Turquia, a não cair em mãos estrangeiras, se bem que a influência tanto britânica (no Golfo Pérsico e Índico) como russa (pelo Cáucaso e Cáspio) era importante. Era a época da Anglo-Persian Oil Company (antepassada da atual British Petroleum), cuja influência se estendia pelo Golfo Pérsico. Em 1925, Reza Khan, primeiro ministro e antigo general da Brigada de Cossacos Persas, deu um golpe de Estado e se impôs como "Xá" (uma palavra iraniana relacionada com o "ksatriya" hindu e que significa algo como "senhor") da Pérsia. Devido a suas afinidades com a Alemanha (inclusive trocou o nome de Pérsia por Irã, "terra dos arianos", em um lampejo ideológico nazista), Xá Reza foi obrigado pelos britânicos e soviéticos a abdicar para seu filho, Mohammad Reza Pahlavi. Os aliados temiam que os alemães, penetrando através do Cáucaso, pudessem enlaçar- se com o Irã (na Índia e no Tibete a Alemanha tinha muitos simpatizantes) e causar sérios problemas nos territórios britânicos, soviéticos e franceses. Os britânicos também tinham interesse na ferrovia trans-iraniana como via de abastecimento da URSS. Através da Pérsia, Winston Churchill sustentou o esforço da guerra soviética com enormes envios de material militar e matérias-primas. A companhia estadunidense Ocidental Petroleum (atual Oxy), de Armand Hammer, também concordou em escoar o petróleo soviético do Cáspio através desta rota.

Em 1951, Dr. Mohammad Mossadegh foi eleito primeiro ministro do Irã e empreendeu um programa soberano de nacionalização da indústria petroleira iraniana e suas reservas de petróleo, aniquilando o monopólio de Londres. O governo britânico, com Winston Churchill à cabeça, respondeu com a primeira penhora naval de petróleo iraniana, empreendeu uma campanha de sanções econômicas para arruinar e isolar o país, congelou os ativos iranianos e conspirou com o presidente estadunidense Eisenhower para, em 1953, lançar a Operação Ajax (conhecida no Irã como "Golpe de 28 Mordad 1338"), basicamente um golpe de Estado patrocinado pelos serviços de Inteligência anglo-americano. Mossadegh, que era enormemente popular no Irã, foi detido, e seu governo reestruturado por mando do xá, totalmente dirigido de Londres e bem correspondido tanto por Israel quanto pelos EUA e Arábia Saudita.

O regime iraniano começou a reorganizar-se seguindo o exemplo das petro-ditaduras árabes do Golfo e da Líbia do rei Idris. Durante décadas, o serviço de inteligência do xá, o SAVAK, aterrorizaria parte da população e seria temido e odiado por suas táticas brutais ao reprimir toda a oposição ao regime (essencialmente formada por religiosos xiitas e ativistas comunistas). O descontentamento popular culminou com a Revolução Islâmica de 1979, encabeçada pelo ayatolá Komeini, que instaurou uma espécie de teocracia nacionalista xiita, voltou a implantar um programa político soberano, expulsou à British Petroleum, formou a Guarda Revolucionária — um corpo militar de elite que perseguiu e executou os chefes do SAVAK — e travou uma guerra muito longa e sangrenta contra o Iraque de Saddam Hussein, sustentado pelos anglo-americanos. Esta guerra, na qual o Iraque utilizou armas químicas com pleno conhecimento do Ocidente, colocou em evidência o enorme poder magnético que a religião xiita exercia sobre as massas no Irã, dando-lhes força para levar alegremente adiante os maiores sacrifícios e cometer ações kamikazes que naufragam a moral do inimigo.

O papel do Irã como nexo não se detêm em sua dobra Leste-Oeste. De todos os países com costa no Índico, o Irã é o que se encontra mais acerca do Mediterrâneo, do Cáspio, da Rússia, do Heartland, de Israel e do espaço ex-soviético. Sua posição única, em pleno Pentalaso ou Pentalásia (terra dos cinco mares), o converte em uma curva que conecta-o do Índico ao Golfo Pérsico, e uma delicada arquitetura geopolítica que chega ao Cáucaso, Turquia, Israel, Ásia Central, Rússia… e Europa.

A Pentalásia é a região-curva por excelência, já que une cinco espaços marítimos totalmente diferentes e de uma importância incomensurável. Além disso, a região está repleta de hidrocarbonetos. Não existe no mundo outro caso igual, e não é de estranhar que se trate do entorno mais delicado de todo o planeta. Se compreende, assim, o interesse do atlantismo em ocupar e desestabilizar a região (Israel, Iraque, Síria, Líbano, Curdistão): se este espaço se vertebrar e estabilizar sob um poder soberano (como esteve a ponto de acontecer com o pan-arabismo, ou como poderia se passar com o Irã e a Síria através do Iraque), seria de enorme importância como alternativa às rotas marítimas.

O Irã chega à história moderna como o único Estado do mundo banhado pelo Índico, Cáspio e Golfo Pérsico, e também dono de terras na Pentálasia e no Heartland eurasiático. Assim, se olharmos o mapa da Eurásisa balcanizada, veremos que o Irã se encontra também situado nos "Balcãs Eurasiáticos", na "Zona Central da Instabilidade" e como "Novo Pivô Global".

Todos os caminhos pelo mar e terra levam a Pentalásia. Durante milênios, nenhuma superpotência foi digna de tal nome se não tentasse dominar este pentágono ou alguma região, rota, porto ou recurso do mesmo. Neste crucial nó de rotas surgiram as primeiras sociedades civilizadas. Desde a mistura entre neandertais e "humanos modernos" até a aparição da raça armênida próximo-oriental, desde o surgimento da Cultura Natufiana à expansão da Revolução Neolítica até os nossos dias, passando por sumérios, acádios, assírios, egípcios, hititas, mitânios, fenícios, judeus, babilônios, caldeus, persas, macedônios, romanos, bizantinos, árabes, cruzados europeus, mongóis, otomanos, potências colonialistas, armênios étnicos (o genocídio armênio por parte da Turquia foi uma manobra para expulsar a Rússia da Pentalásia), pan-arabistas baasistas, israelitas, curdos, estadunidenses, multinacionais petroleiras, oleodutos como o BTC… A Pentalásia sempre foi uma região imperdível no destino da humanidade — uma janela para o nosso futuro. O geógrafo inglês Halford J. Mackinder, um dos pais da geopolítica moderna, antecipou a ideia da Pentalásia ao mencionar a "land of the Five Seas" em seu artigo "O pivô geográfico da história", assimilando o conceito ao "Próximo Oriente". De acordo com ele, a zona aproximada do mapa é "the most vital of modern highways".

O regime do Irã não só é nexo, mas também um potencial muro de contenção, já que se trata de um planalto elevado e amontoado de montanhas, uma sortuda fortaleza natural. É um espaço facilmente defensável, bem povoado (75 milhões dos habitantes, como a Turquia), com melhores meios materiais e econômicos e maior população que o Iraque de Saddam Hussein, mas com a complicada orografia do Afeganistão e com saídas marítimas excelentes. Expandindo sua influência para o Mediterrâneo, o Irã pode isolar o mundo petro-árabe do resto da Eurásia e também seria capaz de isolar a Turquia dos recursos do Golfo. Os desafios regionais do Irã são: o Estado de Israel, as petro-monarquias árabes e a presença desestabilizadora de EUA e Reino Unido na região.

Tanto a Turquia como Israel e as petro-ditaduras árabes, tem aspirações de domínio regional na Pentálasia. No entanto, a potência melhor situada para isso é o Irã, como demonstram exemplos históricos em seu passado (medos, persas, aquemênidas, partas, sassânidas etc.). Teerã, aliado da Síria, Iraque, Líbano e das comunidades xiitas, alauitas, cristãs, drusas, ismaelitas, sufis etc., poderia desempenhar um papel importantíssimo na estabilização deste espaço, e, portanto, na paz mundial. Para evitar-lo, o atlantismo financia o radicalismo sunita (especialmente de correntes salafistas- wahabitas relacionadas com Arábia Saudita) e faz o que pode (por exemplo, atentados com bomba em cidades santas xiitas do Iraque) para agitar o ódio sectário entre xiitas e sunitas, talvez com a esperança de causar uma macroguerra civil religiosa na região.

O Irã tem, junto com Emirados Árabes e Omã, além de costa no Golfo Pérsico, também no Índico. O atlantismo apoia decididamente as petro-ditaduras árabes (Arábia Saudita, Catar, Emirados, Bahrein), no entanto, o Irã está muito melhor situado que nenhum outro país do mundo para dominar o Golfo Pérsico, já que:

1. Domina o superestratégico Estreito de Ormuz, por onde transita 40% do tráfico petroleiro mundial (incluindo 40% do petróleo chinês). Se o Irã bloqueia este estreito (algo que seria considerado ato de guerra), as consequências internacionais seriam difíceis de calcular. Recentemente, os Emirados Árabes inauguram um oleoduto que conecta o Golfo Pérsico com o Mar Arábico (parte do Índico), saltando o controle iraniano de Ormuz.

O oleoduto Habshan-Fujairah, o ADCOP, tem uma capacidade de 1,5 milhões de barris de petróleo ao dia (três vezes mais que o tráfico petroleiro no Canal do Panamá) e seu esboço está desenhado para aliviar a dependência do Estreito de Ormuz, por onde transitam mais de 30 milhões de barris de petróleo ao dia. As ilhas indicadas (Tunb Maior e Menor, Abu Musa) são disputadas entre Irã e Emirados Árabes.

2. Tem mais costa no Golfo Pérsico que nenhum outro país. Com 2510 km (o próximo em importância é o Emirados Árabes Unidos, com 1358 km). Além de sua costa é pontilhada com baías, ilhas, enseadas e outros portos naturais, perfeito para esconder barcos suicidas que atacam petroleiros. O "normal", geopolíticamente falando, seria que as atividades comerciais e financeiras do Golfo Pérsico, que supõem um tráfico fabuloso de capital por dia, tivessem lugar no Irã, e que o principal centro financeiro do Golfo Pérsico não fosse Dubai, mas a ilha pérsica de Kish (destinada a converter-se na Dubai do Irã, em parte graças a arquitetos alemães), declarada "zona de livre comércio" por Teerã, ao estilo de similares zonas na China. Em Kish está localizado a bolsa petroleira-iraniana, um mercado de valores baseado em estoque petroleiro, e que utiliza divisas distintas ao dólar (euros, riales, rublos, renminbis e yens, principalmente), e que constitui quase uma declaração de guerra aos EUA, atacando-lhe onde mais lhe dói: seu monopólio sobre o petro-dólar criado do nada, como divisa de comércio internacional. Kish tende a competir pelo protagonismo com a pródiga cidade emiratense de Dubai, sede do Dubai Exchange — o trono supremo do petro-dólar, controlado ferreamente pelo NYMEX (New York Mercantile Exchange) novaiorquino (por sua vez, controlado por Morgan Stanley, Goldman Sachs e outras capitais de Nova York e Londres), o ICE Futures (Inter Continental Exchange), o London IPE (International Petroleum Exchange) e o London International Commodity Exchange. Todas estas entidades levam seus negócios em dólares. A bolsa de Kish foi aberta em Agosto de 2011 e em suas primeiras transações empenhou o euro e o dirham emiratense.

A estratégica ilha de Kish é a sede do comércio internacional iraniano e compete diretamente com a vizinha meridional Dubai, dos Emirados Árabes Unidos. A pequena ilha pérsica, de 20.000 habitantes, recebe 1,5 milhões de visitantes por ano (e crescendo) e é uma das causas do temor de Dubai. O simples nome "Golfo Pérsico" é algo que põe ouriça as petro-ditaduras árabes, que preferem chamá-lo "Golfo Árabe". O Googlemaps, por sua vez, causou polêmica ao negar-se a usar tal nome ao Golfo.

3. A maior parte da população da costa do Golfo Pérsico é de religião xiita. Afirma um ditado que "o Islã não conquistou a Pérsia, mas que a Pérsia conquistou o Islã", querendo dizer que no Irã se deu uma indo-europeização e des-semitização do Islã, que desembocou na religiosidade xiita, mais hierárquica que o sunnismo, com um clero plenamente organizado e com claras reminiscências mazdas, zoroastras e maniqueísta. Em todo o Oriente Médio, os xiitas são uma potência de quinta categoria do Irã: constituem 66% da população do Iraque e do Bahrein (um petro-Estado insular dominado por uma monarquia sunita que reprimiu duramente a maioria xiita sem que a "comunidade internacional" movesse um dedo), 33% do Kuwait, 20% da Arábia Saudita (concentrados nas províncias do Golfo Pérsico, as mais ricas em petróleo) e 10% dos Emirados e do Catar. Existem também importantes populações xiitas no Azerbaijão (65%), Iêmen (40%), Líbano (33%) e Síria (15%), também do Paquistão, Turquia, Índia, Afeganistão e outros. Estas comunidades são essenciais na vertebração do "novo império persa" — a esfera de influencia do Irã — e põem nervosos os regimes petro-árabes, que esperam conter a influência xiita financiando correntes religiosas radicais como o salafismo-wahhabismo.

O Irã tem ambições de converter-se em algo como um "Reich de todos os xiitas e persas".

Como foi visto, é impossível deixar de exagerar a importância estratégica do Irã. As chamadas "sanções da comunidade internacional" têm, em realidade, o efeito de jogar o Irã aos braços da China, Rússia, Turquia e Índia (que ignoram as sanções), e representam somente o medo do atlantismo de que o Irã consiga reconstruir sua antiga esfera de influência, se aproximar da Europa e estabilizar vastos espaços terrestres que abrigam rotas importantíssimas, capazes de tomar-lhe grande protagonismo às vias marítimas dominadas pelo atlantismo. As reações paranoicas de Washington contra o Irã têm por objetivo:

Proteger o Estado de Israel do rival econômico, energético e geopolítico do Irã. Nas palavras do presidente dos EUA e prêmio Nobel da paz Barak Hussein Obama, "a seguridade de Israel é sacrossanta". A causa da afirmação está no imenso poder que têm o lobby sionista nos EUA.

Desestabilizar todas as fronteiras iranianas e evitar que o Irã se conecte territorialmente com o Paquistão, Iraque, Síria, Líbano, Índia, Rússia e China, especialmente mediante os projetos energéticos (oleodutos, gasodutos etc.). Desde tempos imemoráveis, como "o império intermédio" entre o romano e o chinês, os persas, para prosperar, necessitavam de portos no Mediterrâneo e rotas para a Ásia Oriental. O atlantismo deve frustrar esta possibilidade, evitando, por exemplo, a consolidação de projetos como o gasoduto IPI.

O projetado gasoduto IPI. A parte paquistanesa será inaugurada, "se tudo correr bem", em 2014. O projeto é apoiado pela China e Rússia entre outros. O hub iraniano de Asaluyeh também pretende ser o ponto de partida para um gasoduto que atravesse Irã, Iraque e Síria, fora o Mediterrâneo pelo porto de Banijas. Se consumados todos estes planos (algo difícil diante da estratégia atlantista da desestabilização e balcanização), seria uma "rota comercial" direta entre o Mediterrâneo e a Índia.

Rodear o Irã de um anel de bases militares atlantistas (Iraque, Emirados, Bahrein, Afeganistão) e Estados satélites do atlantismo (Geórgia, Azerbaijão [9], Arábia Saudita), assim como massificar a presença militar em seu entorno para pressioná-lo e talvez forçá-lo a defender-se, o qual serviria de pretexto para atacá-lo militarmente. Os Emirados Árabes parecem ser o país onde esta concentração de efetivos será mais forte, com várias instalações estadunidenses (base de drones, base naval, centro de Inteligência da CIA e complexo de treinamento da companhia militar privada Academi — antiga Blackwater/Xe Services). Também o Azerbaijão está servindo de sustentáculo de Israel na região. Junto com base talibã no Catar e outras instalações, está se formando no Golfo uma infraestrutura de recrutamento, treinamento e financiamento de mercenários jihadistas que fazem o trabalho sujo do atlantismo na Síria, Paquistão, Chechênia, Líbia, Somália, Magreb e onde seja necessário.

Evitar que o Irã se conecte com a China, especialmente através de um gasoduto pelo espaço ex-soviético da Ásia Central, ou simplesmente prolongando o IPI.

Cortar de imediato qualquer intento persa de se acercar ao Mediterrâneo — incluindo a Síria. Isto implica desestabilizar o Iraque como zona de passo, e a Síria e o Líbano como seus grandes aliados no Mediterrâneo. As insurreições promovidas na Síria pelo atlantismo, podem ser interpretadas, em grande parte, como o desejo de Israel e da Turquia de apropriarem-se do gás natural sírio (todo o Mediterrâneo Oriental está repleto de gás natural, se calculou recentemente que nas costas de Egito, Gaza, Israel, Líbano, Síria e Turquia pode haver 3,5 bilhões de metros cúbicos), do gasoduto árabe (notar as importantes ramificações em Homs, cidade onde havia gravíssimos enfrentamentos e atrocidades dos "rebeldes"), assim como evitar a construção dos oleodutos (acordados em Setembro de 2010) e de um gasoduto chamado Gasoduto Islâmico (Julho de 2011) que unia os campos petrolíferos iraquianos de Akkas e Kirkuk, e o massivo campo gasífero iraniano de Pars do Sul, com o porto sírio de Banijas (uma cidade mais próxima à base naval russa de Tartus, e onde também houve fortes conflitos financiados pelo estrangeiro) [10], com Damasco e até com o Líbano. Isso equivale, entre outras coisas, a restaurar a rota do destruído oleoduto Kirkuk-Banijas, que foi bombardeado pelos EUA quando invadiu o Iraque em 2003. O objetivo de todos estes "heréticos" dutos entre Irã-Iraque-Síria é de abastecer energeticamente a Europa sem passar por águas ou terras controladas pelo atlantismo, seguindo vias geográficas "lógicas" em plena harmonia com a antiga Rota da Seda. A pequena, mas influente petro-monarquia do Catar vê estes projetos como rivais de sua imaginada ligação "Catar-Arábia Saudita-Jordânia-Golfo de Aqaba-Golfo de Suez-Mediterrâneo", e que aumentaria também a influência israelita na Pentálasia.

Os projetos do eixo Líbano-Síria-Iraque-Irã (em verde) disputam com os projetos do eixo Turquia-Israel-Egito-Jordânia-Arábia Saudita-Catar (em vermelho escuro). Os EUA apoiam estes últimos, já que os projetos em cor verde no mapa conectariam com o gasoduto IPI (Irã-Paquistão-Índia), o qual implicaria uma rota comercial estável e vertebradora de boas relações, diretamente desde a Índia e China ao Mediterrâneo. É por isso que a OTAN e os países dos projetos em cor vermelho escuro no mapa tentam plantar instabilidade nas áreas por onde transitaram os projetos em cor verde. Este é, em grande medida, o segredo por detrás dos conflitos no Líbano, Síria, Curdistão, Iraque, Irã, Paquistão etc. O objetivo é o mesmo da época das Cruzadas: controlar as rotas que levam ao Mediterrâneo Oriental, estabelecer portos estratégicos e converter-se no controlador das torrentes de petróleo dirigidas à Europa. A Jordânia espera que seu enclave estratégico de Aqaba possa converter-se em uma espécie de Dubai do Mar Vermelho.

O estabelecimento na Síria de importantes hubs energéticos costeiros como Baniyas, patrocinados pela Rússia, seria uma competição direta ao porto turco de Ceyhan, construído pelos EUA. O Líbano, dominado de fato pelo Hezbollah (uma milícia xiita fundada por agentes da Guarda Revolucionária iraniana), se converteu num protetorado iraniano e materializa a vontade persa de chegar ao Mediterrâneo. Tanto a Síria como Líbano tem contenciosos territoriais pendentes com Israel, que em boa medida giram em torno do gás natural submarino, dos aquíferos e do domínio das montanhas.

A formação do eixo Irã-Iraque-Síria-Hezbollah (a chamada "Resistência") é patrocinada por Moscou. É oportuno recordar que, no início de 2010, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, convidou Damasco a "distanciar-se da Resistência". A provocativa resposta do presidente sírio Bashar al-Assad foi reunir-se em público com Ahmadinejad (presidente do Irã) e com Hassan Nasrallah (secretário geral de Hizbollah), firmar com eles um documento titulado humoristicamente "Tratado de Distância Reduzida" e declarar que entendeu mal a tradução das palavras de Clinton. O humor do presidente sírio não devia fazer muita graça em Washington: Obama respondeu prolongando em dois anos as sanções contra a Síria. [11]

O oleoduto Kirkuk-Baniyas, que conectava dois Estados árabes laicos, moderados e de tendência pan-arabista (Síria e Iraque), foi construído em 1952 e transportou petróleo iraquiano para o Mediterrâneo até que foi destruído pelos EUA em 2003. Em Setembro de 2010, concordou-se em reconstruir um projeto similar, e em Julho do ano seguinte, concordou-se com a construção do Gasoduto Islâmico, o maior projeto gasífero do Oriente Médio, que conectaria o Irã, Iraque e Síria. Nesse mesmo ano, a Síria foi oportunamente desestabilizada. Esse duto (vide mapa) compete claramente com Kirkuk-Ceyhan, que beneficiam a Turquia e a OTAN.

A causa do interesse da "comunidade internacional" (na realidade, países dominados pelos EUA) em eliminar o presidente sírio Bashar al-Assad é porque desde Maio de 2009 esteve promovendo sua chamada "estratégia dos quatro mares": converter a Síria em uma encruzilhada de rotas energéticas do Cáspio, do Mar Negro, do Mediterrâneo e do Golfo Pérsico. Na realidade, através do gasoduto árabe (AGP), a Síria tendia também a ter um pé no Mar Vermelho, exercendo melhor uma estratégia de cinco mares: a estratégia de domínio da Pentalásia. Assad afirmava:

"Quando o espaço econômico entre a Síria, Turquia, Irã e Iraque estiverem integrados, articulamos o Mediterrâneo, o Cáspio, o Mar Negro e o Golfo (…). Uma vez que relacionamos estes quatro mares, nos converteremos na interseção necessária do mundo inteiro para investimentos, transportes e mais (…). Estamos falando do centro do mundo".

A Síria, como o Irã, também se encontra rodeada de um cinturão de bases atlantistas.

Promover "rotas comerciais" (oleodutos e gasodutos) que evitem expressamente passar pelo Irã, Armênia, Rússia e Síria, promovendo outros atores geopolíticos como Azerbaijão, Geórgia, Turquia e Israel. Nestes espaços, Israel colabora ativamente brindando serviços de segurança e vigilância, na prática militarizando a região. Israel, que quer erigir-se controlador dos fluxos energéticos da Europa (ao qual dificilmente poderá fazer se não dominar toda a Pentalásia numa estratégia do Eretz Israel, pretende reconstruir um oleoduto (o velho Mosul-Haifa) e construir um novo gasoduto do Iraque até o porto de Haifa, algo que de momento, devido à forte influência iraniana na região, havia sido bloqueado. Se consumar-se este projeto (e a ocupação do Iraque teria muito a ver com ele), Israel lhe interessaria um Curdistão livre, que dependesse de Tel-Aviv para obter benefícios petroleiros e que desse a Israel uma influência decisiva na Pentalásia. Israel também pretende unir o importante hub energético turco de Ceyhan com o porto israelita de Ashkelon mediante um oleoduto submarino que evite expressamente passar pela Síria. A estratégia de Tel-Aviv é que todos os oleodutos e gasodutos procedentes do Cáspio, do Golfo Pérsico e do Sudão, passem por seu território.

Estes dois projetos são vitais para a segurança energética e os interesses estratégicos de Israel. Desde Ceyhan, Israel receberia petróleo do Cáspio, e desde Mosul e Kirkuk, petróleo e gás natural curdo. Este último projeto necessita expulsar, por fim, a influência iraniana no Iraque, neutralizar a rivalidade síria e assegurar definitivamente as Colinas de Golã, um território sírio ocupado pelo Exército israelista.

• Evitar que o Irã torpedeie o negócio do petrodólar com suas iniciativas financeiras tendentes a restaurar-lhe protagonismo no comércio internacional: o Irã aceita euros em troca de petróleo desde 2003. Em 2007, Teerã deixou de faturar petróleo em dólares, sentimento puxado pela vitória do Hezbollah (um movimento político-militar sustentado pelo Irã) na Guerra do Líbano de 2006. Em 2011, abriu a bolsa de Kish e, recentemente, a Índia começou a pagar o petróleo iraniano com ouro, e espera-se que a China possa seguir o mesmo exemplo. Vale a pena recordar que o dólar estadunidense (USD) é usado nos EUA, El Salvador, Equador e Panamá, e que as divisas do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Omã e Bahrein), Jordânia, Líbano, Eritreia, Djibuti, Belize e várias ilhas caribenhas, estão atados ao dólar. O EUR (euro), além de ser utilizado na eurozona, é empregado em Montenegro e na província sérvia do Kosovo, enquanto que as divisas da Bósnia, Bulgária, Dinamarca, Letônia, Lituânia, Cabo Verde, Ilhas Comores, Marrocos, São Tomé e Príncipe, as duas zonas africanas do franco-CFA (Colônias Francesas da África), a zona do franco-CFP (Colônias Francesas do Pacífico), Groenlândia e outras dependências insulares, tem um cambio fixo em relação ao euro. Estas zonas de influência financeira se sustentam, entre outras coisas, com o comércio de petróleo e gás natural em suas respectivas divisas. Os países que saem dos petrodólares ou dos petroeuros, estão sabotando toda esta arquitetura financeira global, e o Irã está tendendo a criar sua própria cesta de moedas.

• Evitar que o Irã se converta na segunda potência nuclear do Oriente Médio (depois de Israel, um país que se negou a firmar o Tratado de Não-Proliferação), para salvaguardar a hegemonia atlantista na zona e para evitar que a maior autarquia energética lhe permita destinar mais hidrocarbonetos à exportação. A sabotagem do programa nuclear iraniano também fornece o pretexto perfeito para realizar operações encobertas no território iraniano: sequestros e assassinatos de cientistas, políticos e altos cargos militares, geralmente com ajuda do Mossad. Em 28 de Setembro de 2012, Obama retirou da lista de organizações terroristas à MKO (Organização Mujahideen e-Khalq), uma milícia fundamentalista baseada no Iraque, que atua com apoio estadunidense contra os interesses iranianos desde os anos 80.

• Sabotar o Irã como via de passo necessário para a água da Ásia Central. Se planeja a construção de um aqueduto desde os aquíferos do Tadjiquistão (uma nação de etnia persa) até os sedentos países árabes. O aqueduto passará necessariamente pelo Irã e lhe daria um enorme poder sobre as desérticas petro-ditaduras do Golfo Pérsico.

• Evitar que Irã vertebre todas as etnias persas, por exemplo, mediante a Aliança dos Países de língua Persa, criada em Julho de 2006.

• Isolar o Irã da "comunidade internacional", estratégia que não está sendo coroado com êxito, em vista das relações do Irã com os BRICS (Brasil-Rússia-Índia-China-África do Sul), Turquia, Líbano, Síria, Iraque, Afeganistão, toda a Ásia Central, Armênia, Sérvia, Sudão, Nigéria, Eritreia, Costa de Marfim, Iêmen, Venezuela, Cazaquistão e muitos outros que se negaram a unir-se às sanções contra Teerã.

• Evitar que o Irã promova setores dissidentes no Ocidente do mesmo modo que os EUA fizeram no Oriente. Teerã potencia o revisionismo do holocausto judeu, divulga personalidades antissionistas como o estadunidense David Duke, que afirma que o 11 de Setembro foi um atentado de falsa bandeira, e ainda financiou ao falecido político austríaco Jörg Haider (do mesmo modo que Gaddafi financiava ao britânico Nick Griffin).

• Evitar que o Irã se converta na "torneira energética" da União Europeia (que antes das sanções, comprava 20% de seu petróleo) e tenha laços lucrativos com o continente, especialmente com a Alemanha (que antes da última ronda de sanções era o segundo sócio comercial do Irã, depois da China), Áustria (o presidente da Câmara Iraniana de Comércio disse que era "a porta de entrada do Irã à UE", em parte graças aos negócios da petroleira OMV), França (importantes negócios da petroleira Total antes da penúltima ronda de sanções), Espanha (Repsol mantinha importantes interesses no país). Com estes países, o Irã era o primeiro fornecedor de petróleo, antes da Líbia; mas a última ronda de sanções teve o efeito de encarecer o combustível vindo dos petro-regimes árabes, com seus altos investimentos no mundo do futebol e em publicidade. A Itália (quinto sócio comercial do Irã) e a Grécia, também deixaram-se chantagear por Washington e Londres, e todos os europeus, acrescentando também o Japão, Coreia do Sul e os países do GCC, demonstraram que carecem de soberania e que não são livres para defender seus verdadeiros interesses nacionais no seio de uma geoestrategia lógica e coerente. A UE, por sua submissão ao atlantismo, perdeu a oportunidade de dar-se bem com o Irã e firmar o petroeuro diante dos EUA.

Essas cifras são anteriores ao momento em que os bancos iranianos foram afetados pelas sanções da UE e desconectados da rede bancária SWIFT (o hub global das transações eletrônicas), em Março de 2012. O embargo petroleiro da UE sobre o Irã se tornou efetivo em Julho de 2012.

• Evitar que o Irã mova às petro-ditaduras do Conselho de Cooperação do Golfo e a Jordânia, sustentadas por Londres e Washington.

• Exacerbar o sectarismo e o radicalismo religioso onde for possível entre o Saara Ocidental e a Indonésia. Provocar conflitos entre xiitas e sunitas para desestabilizar a região e, talvez, provocar uma macroguerra civil. A fé e coesão dos xiitas devem ser contidas com o radicalismo sunita, financiado por Washington e Rijad. Para evitar a sectarização (e, portanto, a balcanização) do Oriente Médio, o modelo deveria ser do Hezbollah: um movimento nacionalista-libanês antes que sectário-religioso. O Irã deveria apoiar-se em etnias e grupos religiosos que supõem um nexo com o Ocidente, como os cristãos (ortodoxos, armênios, coptas, católicos, maronitas etc.), os alahuitas, ismaelitas, sufíes, drusos e outros. Washington, em troca, deseja a erradicação de muitas destas comunidades, já que tendem a evitar que o Ocidente e Oriente se divorciem, e são interlocutores perfeitamente válidos para relações pacíficas e ordenadas entre Europa e Oriente Médio. Isso explicaria em boa medida a recente visita do Papa ao Líbano (não esquecendo que o Vaticano segue sendo uma potência internacional).

• Atiçar o ódio étnico e o separatismo no Irã, utilizando especialmente as etnias baluche e azeri.

• Utilizar a ameaça persa-xiita para convencer o Conselho da Cooperação do Golfo da necessidade de una presença da OTAN e de uma aliança regional anti-iraniana do tipo mini-OTAN na região, que inclui uma defesa anti-misseis (eufemismo para "instalações missilísticas tanto ofensivas como defensivas") conjunta. Essas manobras complementam a integração das estruturas de inteligência e comando militar israelita-estadunidense no Oriente Médio, assim como o envio de milhares de soldados dos EUA à Israel.

IÊMEN

O Iêmen é um dos candidatos mais razoáveis à Estado falido, já que o governo de Sanaa controla apenas um terço do país. Existe um caos absoluto entre uma infinidade de facções, caos que é aproveitado por potências estrangeiras para avançar suas próprias agendas.

Trata-se do país que tem a maior costa no Estreito de Mandeb (a "porta das lágrimas"), portanto, o melhor situado para dominar um tráfico petroleiro que foi calculado pelo Departamento de Energia dos EUA em 3,3 milhões de barris por dia, além de um tráfico marítimo de 20.000 navios por ano e 10% do comércio mundial. O Iêmen também se encontra a meio caminho entre o Chifre da África e o Golfo Pérsico, e é o único que poderia estabelecer uma ligação terrestre entre o Índico e o Mar Vermelho, no caso de que Bab-el-Mandeb fosse bloqueado por uma potência marítima. Também é essencial para que o petróleo do Golfo chegue ao Canal de Suez e, portanto, à Europa. Se trata também, junto com Israel, da peça da Eurásia mais próxima da África. Isso significa que diversas organizações terroristas utilizam o país como cabeça de ponte para penetrar no continente africano através do Sahel, avançando para o Sudão, Nigéria, Mali e Mauritânia, e causando conflitos também no Chifre da África. A oportuna presença da AQMI (Al Qaeda no Magreb Islâmico), implica que os EUA podem projetar seu poder desde sua base militar no Tan Tan (sul do Marrocos) até o coração da África, especialmente Sudão e Nigéria (petróleo) e Congo-Kinshasa (uma das bacias minerais mais ricas do mundo).

Grande parte da responsabilidade pelo caos no Iêmen e em todo o Chifre da África se deve ao Camp Lemmonier, uma base estadunidense situada no Djibuti. A França também mantêm nesta base um destacamento da Legião Estrangeira. Desde esta base, saem drones, soldados de operações especiais e agentes da CIA que operam no Sudão, Iêmen, Chifre da África e Mar Vermelho. O objetivo é levar "a luta contra a Al Qaeda" (neste caso, contra a chamada AQAP ou Al Qaeda na Península Arábica) aonde se encontra a esquiva organização [12]. Alguns "informes" estadunidenses apontam que o Iêmen pode converter-se no novo refúgio da Al Qaeda, depois do Paquistão. Isso também serve de pretexto para levar ataques aéreos estadunidenses no território iemenita (como em Dezembro de 2009). A presença ali da Al Qaeda justifica o uso de mercenários para fazer o trabalho sujo de Washington onde mais falta fazer: Tariq al-Fadhli. Um suposto comandante da "internacional terrorista", chegou a um acordo com os EUA e Árabia Saudita para enviar 5.000 mercenários a Síria para tentar derrubar Bashar al-Assad. Através das porosas fronteiras do Iêmen passam jihadistas, imigrantes ilegais, refugiados, tráfico de armas e de drogas (especialmente de khat ou qat) e outras formas de contrabando.

Outros fatores jogam a favor do caos no Iêmen:

• A presença de comunidades xiitas, concretamente zaiditas, no noroeste do país, especialmente na província de Saada. O Irã, através do Exército do Mahdi (milícia xiita do Iraque que deu muitos problemas aos ocupantes estadunidenses), formou o Al Houthi Zayd (chamados hutíes ou houthistas) em 2004, e desde então, o grupo que opera no noroeste de Iêmen, onde os xiitas são maioria, luta numa guerra civil contra o governo e também contra a Arabia Saudita, à quem encantaria obter uma saída ao Índico e controlar o Estreito de Mandeb, e que também tem pânico à possibilidade de que possa instaurar-se um governo pró-iraniano no Iêmen. Os hutíes não haviam aceitado o novo governo iemenita, enraizando no Iêmen a "primavera árabe".

• Iêmen do Sul. Durante a Guerra Fria, o Iêmen estava dividido em duas partes. O Iêmen do Sul se encontrava sob influência soviética e, por possuir petróleo, havia um porto privilegiado (Adén, que dá nome ao golfo com a maior pirataria do mundo na atualidade) e uma ilha estratégica (Socotra), e era mais próspero que seu vizinho, o Iêmen do Norte. As potências oceânicas veriam com muito agrado que o Iêmen voltasse a ser balcanizado. Após a unificação em 1990, os iemenitas do sul acusavam o governo de Sanaa de discriminá-los e de explorar seus recursos de maneira pouco equitativa, com o qual surgiu uma insurgência separatista armada, o Movimento do Iêmen do Sul. Em 1994, houve uma guerra civil na qual os separatistas foram derrotados pelo governo de Saleh, que alistou, para a luta contra os salafistas jihadistas, mujahidins procedentes do Afeganistão e similares, incluindo o mencionado Al Fadhli. Em Abril de 2009, Al Fadhli abandonou o presidente iemenita Saleh (ditador de fato do Iêmen do Norte e, desde 1978, do Iêmen inteiro), unindo-se aos separatistas do sul. Com a costa iemenita quase totalmente desatendida, muitas comunidades do Iêmen do Sul dão abrigo à piratas somalis que operam no Golfo de Adén, e muitos líderes políticos iemenitas tem vínculos com líderes da Puntlândia (região somali) e do "governo" da Somália.

O Iêmen durante a Guerra Fria. Os interesses das potências oceânicas tendem a exigir que os passos marítimos estratégicos sejam divididos entre vários países, a fim de que possam obter facilmente um aliado na vizinhança caso um país possa lhes contestar. Durante a Guerra Fria, a função balcanizadora foi cumprida pelo Iêmen do Norte, enquanto que o Iêmen do Sul representava a velha ambição russa de dominar o Estreito de Mandeb e o Mar Vermelho. Depois da Guerra Fria, o Iêmen se uniu, mas as potências oceânicas seguem exigindo a balcanização de todo este espaço.

• O arquipélago de Socotra é um dos mais estratégicos do mundo, e um dos motivos pelo que tanto os EUA quanto a Rússia puseram os olhos no Iêmen. O português Tristão da Cunha conquistou as ilhas para Portugal nos princípios do século XVI, integrando-as no primeiro colar de pérolas da história do Índico: o português. Durante a Guerra Fria, Socotra, que pertencia à comunista Iêmen do Sul, abrigou uma base naval soviética que era chave para manter a presença da URSS no Índico e sua aliança com a Índia. Em 1999, Socotra foi escolhida por Washington como um lugar para construir "um sistema de sinais de inteligência". Segundo o periódico de oposição iemenita Al Haq, "a administração do Iêmen concordou em permitir às Forças Armadas dos EUA o acesso ao porto" e "um novo aeroporto civil em Socotra para promover o turismo havia sido construído convenientemente de acordo com especificações militares dos EUA".

Em Janeiro de 2010, o general David Petraeus (então chefe do USCENTCOM e, agora, chefe da CIA) se encontrou com o presidente Saleh, utilizando como desculpa a frustração de um ataque terrorista em Detroit, que supostamente havia sido ordenado pela "Al Qaeda do Iêmen". Segundo informações do Irã, o militar estadunidense tinha por objetivo negociar o estabelecimento de uma base aérea dos EUA na ilha de Socotra, e também uma base naval para lutar "contra a pirataria e a Al Qaeda". Ou seja, o objetivo é a militarização da via marítima estratégica. No dia anterior à reunião, Petraeus anunciou em Bagdá que a "assistência" dos EUA para a "segurança" do Iêmen se incrementaria de 70 para mais de 150 milhões de dólares — um aumento de 14 vezes desde 2006. Segundo a "Newsweek" (18 de Janeiro de 2010), os mandatários também concordaram com o uso de aeronaves estadunidenses, inclusive drones, em território iemenita, assim como com o emprego de mísseis, sempre que fosse aprovado pelas autoridades iemenitas. Reveladoramente, dias antes da visita de Petraeus, o gabinete iemenita havia aprovado um empréstimo de 14 milhões de dólares do Kuwait Fund for Arab Economic Development para o desenvolvimento do porto de Socotra. Na semana seguinte à visita do general estadunidense, a Rússia informou que "não havia abandonado seus planos de ter uma base para suas naves na ilha de Socotra". No entanto, os laços diplomáticos de Moscou no Iêmen haviam sido debilitados. O que Washington busca é integrar Socotra em sua arquitetura de segurança regional, junto com suas bases no Djibuti, Etiópia, Emirados Árabes, Bahrein, Árabia Saudita e ilha de Diego Garcia.

O arquipélago de Socotra se encontra a somente 80 km da costa somali e, por sua posição como passo obrigatório, domina o Golfo de Adén. Por suas águas territoriais, circula um tráfico marítimo extremadamente denso, incluindo manufaturas chinesas e petróleo com destino à Europa. A UNESCO declarou o arquipélago como zona de interesse ecológico, por sua particular flora e fauna, que evoluiu isoladamente durante milênios. Obviamente, outro motivo é evitar que a edificação de infraestruturas converta as superestratégicas ilhas em um dos complexos insulares mais influentes do mundo (como as Ilhas Seychelles). É útil comparar este mapa com aqueles das ZEE e das rotas do Índico.

• Petróleo e água. Cerca de 75% da economia do Iêmen está baseada no petróleo e o Banco Mundial estimam que suas reservas se esgotem em no máximo antes de uma década. O Iêmen é também um país muito seco e os aquíferos estão sendo explorados acima de suas possibilidades de recarga. No entanto, algumas petroleiras crêem que no Iêmen (do Sul) ainda existam depósitos significativos, o que incrementaria enormemente o peso geopolítico do país.

A principal prejudicada por estes conflitos é Moscou. A Rússia vem querendo dominar o Estreito de Bab-el-Mandeb desde o desperdiçado projeto de Sagallo (no atual Djibuti) e, em geral, o Mar Vermelho e o Chifre da África (desde a época em que apoiava a rebelião do Mahdi no Sudão e a luta do Negus etíopes contra os italianos). Com o estabelecimento do Iêmen do Sul, de uma base naval soviética na ultra-estratégica ilha iemenita de Socotra e outra base naval na Somália, Moscou se aproximou muito de seu objetivo. Porém, no momento, a presença militar estrangeira mais importante no Iêmen é dos EUA… graças, especialmente, a presença da Al Qaeda, aos líderes jihadistas a quem quer "caçar" e à pirataria.

A única ação que a Rússia pode tomar no Iêmen é a venda de armas: a maior parte das armas do regime de Saleh são compradas à Rússia e outros países do antigo bloco comunista. A Rússia, inclusive, vendeu caças MiG-29 Fulcrum tanto ao Sudão quanto ao Iêmen. Posto que é duvidoso que as forças aéreas destes países tenham pilotos qualificados para manejar estes aparatos, o mais provável é que a Rússia proporcione "pilotos mercenários", como fizera em muitas ocasiões (por exemplo, com a Etiópia na sua guerra contra a Eritreia).

SOMÁLIA

Do mesmo modo que o estranho status do Saara Ocidental se deve ao fato da localização na região da África continental mais cercada pelos EUA, também a situação no Chifre da África tem muito a ver com a localização dessa porção do continente negro mais próxima ao Golfo Pérsico, Índia e China. Somália, Paquistão ou Emirados Árabes tem entre si uma distância similar ao que em média se tem entre Espanha e Grécia. A Somália é também o país africano melhor situado para dominar o Índico, com sua forma de cunha e o Cabo Guardafui apontando para o Paquistão. A Somália domina também a orla sul do Golfo de Adén e, até certo ponto, o Estreito de Mandeb.

Por sua posição geográfica e sua natureza étnica, a Somália sofre instabilidades e se candidata como Estado falido por excelência, o exemplo perfeito do país "madmaxista" ou em condições de caos total, desde que Siyad Barre, chefe do último governo central minimamente digno de tal nome, foi derrotado em 1991 por uma combinação de militares golpistas, milícias apoiadas pela Etiópia, secessionistas e o Congresso Somali Unido de Mohamed Farrah Aidid. Desde então, a Somália colapsou em um caos de milícias, clãs e senhores da guerra locais. Quais são aparentemente os meandros de todo este caos?

Para entender a situação atual da Somália, é preciso remontar às intervenções militares dos EUA ao final do século passado. Em 1992, Washington mandou tropas ao país e, em 1993, os Rangers e as Forças Especiais dos EUA protagonizaram a extraordinária ação militar tratada no filme "Black Hawk Down". Pouco depois da operação "Liberdade Duradoura", Washington ordenava novas operações especiais na Somália. Em 2006, uma intervenção militar da Etiópia (pressionada por George Bush), combinada com a ação da milícia jihadista-salafista Al Shabaab, evitou que a União dos Tribunais Islâmicos (apoiada pelo Hezbollah e Irã) pusesse ordem no país. Em 2009, as tropas etíopes abandonaram a Somália deixando-a em pior estado que antes, com a Al Shabaab dominando uma ampla região, e no outono desse mesmo ano (segundo "informações" da Inteligência britânica, muitos militantes da Al Qaeda na fronteira AFPAK se transferiram ao Iêmen e Somália), Washington levou devastadores ataques de helicópteros no sul do país. A emergente Quênia invadiu a Somália em Outubro de 2011, mantendo a Etiópia num silêncio sepulcral. Se espera o acirramento da rivalidade entre Nairobi e Adis-Abeba pelo controle do Chifre da África. Os verdadeiros interesses do Quênia não tem a ver com a "luta contra o terror"; combater o Al Shabaab é um pretexto para se anexar boa parte da província meridional de Jubbalândia, conhecida historicamente como Azânia, e flertar tanto com os EUA quanto com a China pela melhor oferta. Como não podia ser de outra maneira, também estão envolvidas jazidas de petróleo (há informações sobre políticos quenianos firmando acordos com a petroleira francesa Total no sul da Somália) e recursos hídricos (que escasseiam no Quênia).

O antigo protetorado britânico da Somalilândia declarou independência unilateralmente em 1991, quando colapsou o governo de Mogadíscio. Habitada por aproximadamente 3 milhões de pessoas, se trata da região mais estável da Somália, em grande parte porque representa a única saída ao mar da Etiópia, um Estado-cliente dos EUA e Israel. A Somalilandia independente é bem vista pelo atlantismo devido à frouxidão de suas leis marítimas e sua relutância a intervir no tráfico naval. As guerrilhas somalis que se enfrentam pelo controle do governo central, na província etíope de Ogaden, tendem a dificultar essa saída marítima para a Etiópia. O único motivo pelo qual a Somalilândia não havia sido reconhecida como Estado independente é pela negativa do Egito, já que a Somalilândia é estratégica para que a Etiópia logre uma saída ao mar, um Estado considerado por Cairo como ameaça potencial devido a seu controle sobre as fontes do Nilo Azul, sem o qual o Egito não seria nada.



A Puntlândia declarou autonomia em 1998, alegando sua lealdade a Mogadíscio, mas também a necessidade de manter a governabilidade tendo em vista que o governo central tem problemas para controlar até as ruas da capital. A Puntlândia é vista como um refúgio de piratas, terroristas e tratados obscuros com políticos do Iêmen, Irã e da antiga Líbia gaddafista, assim como com multinacionais petroleiras. O principal problema da Puntlândia é a escassez de pastos e água, assim como a guerra fronteiriça que mantem com a Somalilândia pelo controle da região intermédia "SSC" (Sool, Sanaag e Ayn), possuidora de riquezas minerais (que a Puntlândia cedeu para interesses estrangeiros). O SSC declarou também autonomia em 2012, autodenominando-se Estado de Khaatumo. Devido a seus laços tribais com a Puntlândia, a Somalilândia invadiu a estranha entidade territorial, e suas tropas permanecem nela no momento.

As intervenções atlantistas na Somália são supostamente motivadas pelo papel da Somália na formação de células islâmicas fundamentalistas. Londres até declarou que a Somália é uma "ameaça direta" a sua seguridade nacional, e Jonathan Evans, chefe da MI5, advertiu que a Somália, depois do Paquistão, era o destino internacional número um de "treinamento terrorista". Em Fevereiro de 2012, a Al Shabaab anuncia que se "unia" à Al Qaeda, o que seguramente resulta da cascata de intervenções militares da AFRICOM no arruinado país, a fim de lutar contra a ameaça da "AQHOA" (Al Qaeda no Chifre da África), ou como for chamada essa nova trama teledirigida pelos serviços de Inteligência atlantistas. A Al Shabaab segue opondo-se ao governo central de transição (apoiado pelos EUA), mas também opõem-se à União de Tribunais Islâmicos (apoiada pelo Irã), e controla boa parte do país onde tem instaurado a Sharia nas zonas que domina.

Longe da "luta contra o terror", a estratégia do eixo Londres-Washington-Tel Aviv tem em realidade a ver com:

• Rodear o Chifre da África de um "cordão sanitário" de países viciados (Djibuti, Etiópia, Quênia, Uganda, Sudão do Sul) para evitar que a China se infiltre na bacia do Nilo, na região dos Grandes Lagos, e acesse os hidrocarbonetos sudaneses e as riquezas minerais do leste de Congo-Kinshasa.

• Infestar a zona de bases militares (como Camp Lemmonier no Djibuti, a nova base de Arbe Minch na Etiópia, e possivelmente Uganda e Sudão do Sul) para reforçar tal estratégia.

• Estabelecer outras bases militares (Ilhas Seychelles, Diego Garcia, possivelmente Socotra) que se interpõe entre a Somália e suas saídas marítimas naturais (Golfo Pérsico, Índia, China).

• Dominar os recursos da Somália (petróleo, gás natural, urânio, água e pastos) e, especialmente, evitar que a China se aproprie deles.

• Incorporar o Chifre da África e o Golfo de Adén à Lacuna Interhemisférica. Como veremos na terceira parte deste artigo, a Eurásia está dividida em dois hemisférios, o "Grande Oriente" e o "Grande Ocidente", e as potências oceânicas jogam de forma a polarizar e separar ambos os hemisférios. Os lugares onde se produz a ruptura Oriente-Ocidente formam uma vertical altamente estratégica composta, grosso modo, pelos campos petrolíferos de Nenets (Rússia), os Urais, o Cáspio-Cáucaso, a Pentalásia, o Golfo Pérsico, o Golfo de Adén e o Chifre da África.

A "Elipse estratégica": Algo como 71% das reservas de petróleo e 69% das reservas de gás natural do planeta se encontram aqui. É revelador que esta elipse separe simbolicamente os dois hemisférios eurasiáticos: Europa Ocidental e Ásia Oriental. O atlantismo busca utilizar esta elipse como cunha entre Oriente e Ocidente, e estendê-la ao Sul, cruzando o Iêmen, o Golfo de Adén e o Chifre da África.

• Militarizar uma via marítima estratégica, utilizando uma desculpa parecida à que utilizam por terra: a pirataria. Dito isso, passamos a nos ocupar do problema pelo qual a Somália é triste e internacionalmente famosa.

As águas territoriais somalis são uma zona pesqueira importante. Quando o governo de Mogadíscio caiu em 1991, uma infinidade de frotas navais de países desenvolvidos aproveitaram o vazio legal e a falta de regulação nas águas somalis para praticar a pesca ilegal e até realizar descargas de material radioativo e tóxico. Em vista da ausência de autoridade estatal, os pescadores locais e habitantes das costas se ergueram para garantir a soberania somali sobre suas águas e, desde logo, para saquear tanto quanto puderam, convertendo-se em piratas.

Em 2006 — quando a União de Tribunais Islâmicos estava a ponto de vencer o governo de transição federal, conquistando boa parte da Somália (aproximadamente na mesma época na qual o Hezbollah derrotava o Exército israelita) — a atividade pirata diminuiu em grande parte. No entanto, a intervenção das tropas etiopes (apoiadas por Washington) terminou com a estabilização da Somália, e a pirataria voltou a converter-se em uma praga. Ainda assim, os prejuízos da pirataria ao comércio e à pesca são muito menores que manter um Estado estável que submeta à regulação suas águas territoriais e a zona econômica exclusiva. Mais de 800 navios pescam no entorno marítimo somali e se calcula que a pesca ilegal produz 450 milhões de dólares por ano. Os países industrializados recorrem a bancos pesqueiros distantes porque em suas próprias águas já não tem nada para pescar. Além disso, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) alerta que 75% dos bancos pesqueiros tem desaparecido, que 80% da pesca estão sobreexplorados, que 30% das espécies marinhas estão a abaixo do limite biológico de seguridade e que, até 2048, já não permaneceriam recursos pesqueiros. Essa pressão sobre os recursos pesqueiros explica que 25% da pesca consiste em "capturas acessórias" como tartarugas, aves marinhas, cetáceos etc. ("danos colaterais"), que são novamente despejados ao mar. Outras vezes, se retira do mar apenas uma fração dos excedentes pesqueiros de certas espécies para que não suba demais a oferta e assim os preços se mantenham altos "nos mercados".

Em águas territoriais somalis se destaca a pesca do atum, com um ritmo absolutamente insustentável: meio milhão de atuns ao ano. A frota de atum na Somália é, em boa parte, espanhola (60% das capturas pesqueiras) e francesa (40%). Os barcos pesqueiros são particularmente vulneráveis à pirataria, já que com todos os cordames de pesca implantados, avançam com grande lentidão. São, portanto, presa fácil de embarcações ligeiras como as que usam os piratas. Para proteger navios comerciais e pesqueiros, os Estados geralmente recorrem as suas Forças Armadas e/ou a empresas de segurança e companhias militares privadas. Até agora, a Espanha se negou a utilizar unidades especiais de Infantaria da Marinha para defender sua frota pesqueira.

O rápido aumento da pirataria em torno do Chifre da África significa que a região passa a ingressar na "elipse estratégica" que vimos mais acima, com a finalidade de partir as rotas eurasiáticas em duas e justificar a militarização do mar.

A qualidade da pesca na costa somali degenerou enormemente devido à quantidade de despejos tóxicos em suas águas. Durante muito tempo o "governo" da Somália protestou na ONU pela quantidade de barcos que entram em suas águas territoriais, jogam barris misteriosos do mar e se vão. Com o tsunami de 2004, muitos destes barris foram jogados à costa, se partiram, e os habitantes locais começaram a manifestar problemas respiratórios, hemorragias intestinais, reações cutâneas, bebês deformes e centenas de mortes súbitas. Os barris continham urânio e outros resíduos radioativos, metais pesados (como cádmio e mercúrio, que acabam nos depósitos de pesca do topo da cadeia trófica marinha, como os atuns), lixo industrial e até resíduos biológicos de hospitais. O diplomático mauritâno e da ONU Ahmedou Ould Abdallah declarou na estação de TV do Catar Al Jazeera que as responsáveis eram multinacionais europeias e asiáticas. A ONU mandou representantes para investigar o assunto, e logo encerrou o caso.

Na Costa de Marfim, Benim, Congo e Nigéria acontece algo parecido. Se calcula que em 2001 se alcançaram 600.000 toneladas de resíduos tóxicos nas águas africanas. O Senegal, de grande importância marítima, deixou de renovar seus acordos pesqueiros com a UE em 2006, mas o fato de que os navios usam "bandeiras de conveniência" (especialmente da Libéria, cujas leis marítimas são as mais liberais do mundo) para burlar a legalidade, dificulta o controle. Devido a isto, agora os barcos de pesca senegaleses são usados para transportar milhares de imigrantes ilegais a Europa cada ano.

Deve se acrescentar ainda a enorme influência sobre a indústria de atum na quebra do cartel bancário Lehman Brothers em 2008. No paraíso tropical-fiscal das Ilhas Seychelles, o banco nova-iorquino havia adquirido no Outono de 2006 (coincide a grosso modo com a Guerra do Líbano e a intervenção etíope na Somália) a Indian Ocean Tuna Factory (Fábrica de Atum do Oceano Índico), da multinacional H. J. Heinz Company. Pouco depois de completar a aquisição, o sempre generoso banco nova-iorquino se dispôs a assistir ao governo seychelense com 200 milhões de dólares a mais de 9% de juros, sabendo perfeitamente que o Estado insular seria incapaz de pagar o empréstimo, entre outras coisas porque sua divida externa já estava na caso dos bilhões de dólares… tratando-se de um país de somente 83.000 habitantes. Em Outubro daquele ano, o líder da oposição foi espancado nas escada da Assembleia Nacional. Em julho de 2008, o governo de Victoria faliu ao pagar um título privado, e no mês seguinte, a agência de classificação Standard and Poor’s degradou duas vezes a divida do país insular. À medida que Seychelles recebia empreiteiros privados, pessoal de Inteligência, uma base de drones estadunidense e instalações militares hindus, cabe supor que tudo foi uma manobra financeira para amarrar o país, firmar acordos informais e obter um ponto no Índico em frente à costa do Chifre da África, em um arquipélago onde somente havia coqueiros.

Se compreende que muitos piratas sejam, na realidade, pescadores "bêbados", já que antes do caos pescavam o suficiente para comer e vender algum excedente, enquanto que agora não tem meios de subsistência. Embora seja óbvio que seus interesses não sejam altruístas, nem nacionalistas, nem ambientalistas, nem muito menos anti-globalistas, se fazem chamar "guarda costeira voluntária", dedicando-se a saquear aos saqueadores com pleno apoio da população local somali e também iemenita. Não falta que haja "pescadores" gananciosos que vejam na pirataria uma maneira de enriquecer e que queiram aproveitar-se da complacência de certos países como o nosso para promover extorsões, enquanto evitam aproximar-se dos navios de outros países como a Rússia, que sabe defender seus interesses marítimos apesar de não ser uma talassocracia histórica. Os piratas somalis tampouco evitam que muitos países se aproveitem da pirataria para impor seus interesses estratégicos ou desestabilizar espaços marítimos. Justamente, a militarização das águas foi conquistada com a Operação Atalanta e a criação da Combined Task Force 150.

As Zonas de atuação da CTF-150. Em vermelho: HOA (Chifre da África). Em verde: HOAEX (Chifre da África Extendido). Impossível deixar de perceber o triângulo Somália-Iêmen-Paquistão e o desejo de dominar os estreios de Ormuz e Mandeb e incorporar o HOAEX à Brecha Interhemisférica mencionada mais acima.

TERCEIRA PARTE

"Uma personalidade repelente exerce uma função social importante na hora de unir a seus inimigos, e foi sob a pressão do barbarismo exterior que a Europa alcançou sua civilização. Peço, portanto, durante um momento, que contemplem a Europa e a história europeia como subordinada à Ásia e à historia asiática, pois a civilização europeia é, num certo sentido muito real, o resultado da luta secular contra a invasão asiática". (Halford J. Mackinder, "O pivô geográfico da história").

As mitologias antigas falavam de um eixo do mundo ou "Axis Mundi", uma espécie de fio que conectava os distintos mundos e dimensões, o cimento que os mantinha unidos, aquilo que tinham em comum. Também existiam monstros mitológicos que atentavam contra ele, como a serpente marinha Jormungand na mitologia nórdica. Nas partes anteriores deste artigo, vimos que na geopolítica existe também um Axis Mundi: se trata da Rota da Seda, uma árvore em torno do qual floresceram ramos e raízes que cobriam boa parte do continente euroasiático, tendendo a vertebrar especialmente todo o mundo indo-europeu. Existia, inclusive, uma língua franca na Rota da Seda: o yaghnobi, dialeto persa que toma seu nome de um recôndito vale do atual Tadjiquistão. Os monstros marinhos de nossos dias são as potências periféricas do mundo que tem tocado desempenhar uma estratégia marítima. Estas potências, pela impossibilidade de dominarem a Rota da Seda por terra, devem sabotá-la por mar, especialmente semeando os espaços continentais de divisões e instabilidades territoriais (balcanização) e drenando suas mercadorias através do Índico (Rota das Especiarias). Nesta luta de rotas, a Rota da Seda tende a dar importância ao Heartland eurasiático, e a Rota das Especiarias ao Rimland e ao Índico.

Hoje, as violentas guerras de salvaguardar aos interesses econômicos de uma minoria de especuladores pode soar como conspiranoia ou exageração, mas só temos que pensar nos implacáveis conflitos que se produzem em muitos de nossos bairros pelo controle de uns poucos milhões de euros de droga. Se substituirmos as drogas pelos hidrocarbonetos e outros recursos, e os poucos milhões por dezenas de bilhões de euros, entenderemos que existe no mundo interesses bastante fortes para fazer que Estados e povos inteiros mergulhem na guerra, especialmente num mundo onde a escala de valores que domina é a do benefício material fácil, barato, imediato e a qualquer preço. Isto se vê agravado pelo fato de que, em muitos lugares, as fronteiras estatais parecem desenhadas pelo próprio Diabo com o objetivo de perpetuar a instabilidade e o conflito e evitar o êxito de blocos regionais organizadores e pacificadores.

Como os meios de comunicação oficiais são controlados pelos bancos e multinacionais a quem não interessa que certas coisas sejam do domínio público (ao contrário, sua propaganda está claramente dirigida a acalmar e emburrecer as massas), o indivíduo que queira estar consciente "do que realmente se passa no mundo" deve recorrer a fontes alternativas, e muitas vezes fazendo um grande esforço para discriminar a informação inútil num mar de desinformação. Na última e mais longa parte desta serie de artigos, seguimos sem perder de vista que temos saído de um século atlântico para entrar num século indopacífico. Toca, portanto, terminar de passar em vista aos Estados importantes no domínio do Índico e das antigas Rotas da Seda e das Especiarias. Examinaremos também os diversos projetos estabilizadores que, opondo-se à ameaça do Globalistão e da influência caótica das potências periféricas do mundo, buscam solidificar as conexões entre Oriente e Ocidente.

Muitas vezes é evidente que na Eurásia há um ator externo que faz tudo o que pode para promover a instabilidade e evitar a ascensão de blocos soberanos e regionalmente hegemônicos. Esta tarefa é facilitada porque a "Eurásia" não representa uma unidade absoluta; mas tem claras subdivisões. Uma delas, a Europa, é uma mera península da Ásia, um continente patéticamente balcanizado e dividido, semeado de nacionalismos, identidades, encargos culturais e velhas rivalidades absurdas que já esgotaram o valioso poço genético de povos outrora fortes e promissores. Trata-se de uma terra repleta de quebra-mares geográficos, barricadas e fronteiras naturais contra as vastas planícies, estepes e mesetas da Ásia — o continente do grande vazio, da terra pura, dos grandes espaços, e dos horizontes e poderes políticos. Historicamente, a Europa é a Grécia contra o Império Persa, os bosques e as montanhas contra a estepe e o deserto, o Yang contra o Yin.

Um dia nosso continente vai ter que escolher a "versão" da Ásia com que quer relacionar-se, já que, como declarava Mackinder na citação acima, a Europa não pode fugir para o Leste. E há vários interlocutores que gostariam de erigir-se em intermediários entre o Grande Oriente e o Grande Ocidente:

• O islamismo radical Jihadista da corrente sunita-wahhabita-salafista. Esta vigorosa corrente social pretende dominar o Oriente Médio, Norte da África, Mediterrâneo, Europa, partes da Índia e China e boa parte do Sudeste Asiático, é cultivada e mimada cuidadosamente pelos serviços de Inteligência do eixo atlantista, pelas petro-ditaduras árabes do Golfo Pérsico, pelas casas reais (incluindo a espanhola) e pelos serviços sociais dos países da União Europeia. Na Europa, os governos, multinacionais e instituições bancárias parecem estar muito interessados em que a alta natalidade muçulmana (assim como de todas as etnias não-europeias) não sofra restrições, gerando grande quantidade de lúmpen social e fazendo com que a influência do fundamentalismo islâmico se projete agressivamente pelo interior de nosso continente, enquanto que a demografia do substrato étnico europeu autóctone se deteriora num ritmo perigoso para nossa sobrevivência. Com o objetivo de financiar a substituição étnica das raças brancas pelas raças escuras, os governos da UE subsidiam (com os impostos dos trabalhadores europeus-étnicos, claramente discriminados no acesso às ajudas sociais) as famílias etnicamente não-europeias — especialmente magrebinas, mas também subsaarianas, ciganas e andinas. A expansão do islamismo radical no Oriente Médio significaria que aquela região se tornaria intratável, separando a Europa da Ásia Oriental e obrigando-a à aliar-se ao mundo atlântico como na época do Império Otomano.

• O Estado de Israel se anuncia como um oásis de civilização, democracia e liberdade, um muro de contenção diante da barbárie jihadista, uma frente aberta no mundo árabe, próximo do petróleo saudita e do gás natural qatariano, a única democracia e a única alternativa possível ao islamismo radical no Oriente Médio. Aqui podemos incluir os aliados regionais de Israel, como Jordânia, Turquia, Marrocos, Albânia ou a província sérvia de Kosovo, ocupada pelos terroristas da UÇK albano-kosovar, sustentada pela Turquia, Estados Unidos e Reino Unido. A estratégia israelense, apoiada geralmente pela Angloesfera (EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e diversos aliados circunstanciais) parece polarizar o Ocidente entre Islã e anti-Islã, para envenenar para sempre as relações entre o Grande Ocidente e o Grande Oriente, e para erguer-se no único interlocutor válido para o petróleo e gás natural necessário à Europa. Vale a pena recordar que "a primeira linha de defesa da Europa anti-islã" não é Israel, mas as Ilhas Canárias, Ceuta, Melilla, Kosovo, Chechênia, Trácia turca e zonas de non-droit (terceiro-mundistas e/ou islamizadas) da União Europeia.

• A Federação Russa é o único projeto que representa verdadeiramente a penetração da influência europeia no núcleo duro da Ásia. Podemos incluir nos aliados regionais da Rússia, a Síria, Líbano, Armênia, Irã, o xiísmo em geral, as correntes pan-árabes, baathistas e nacionalistas laicas do mundo árabe e as importantes minorias cristãs do Oriente Médio (coptas no Egito, caldeus no Iraque, maronitas e ortodoxos no Líbano e Síria, armênios no Irã e Síria etc.), que são mais antigas que as comunidades muçulmanas.

Como vimos anteriormente, as relações entre Europa e Ásia se condensam em torno da Rota da Seda, uma malha de vias naturais que coincide, a grosso modo, com os caminhos tomados pelas linhagens genéticas paternas R1a e R1b para entrar na Europa há muitos milênios — talvez se trate de um caminho que a Europa deva desandar simbolicamente para reencontrar-se a si mesma. Durante boa parte de sua história, a Rota da Seda esteve dominada por meios de transporte como camelo, cavalo, carroças e caravanas militarizadas. Essa forma de vida cristalizou-se na formação de hordas e tropas altamente móveis (persas, hunos, mongóis, turcomanos, tártaros etc.), que varriam toda a Eurásia repentina e periodicamente para horror dos países situados nas margens marítimas do continente.

Ao final do Século XIX e princípios do XX, as caravanas foram substituídas por trens; e o que horrorizava aos geoestrategistas britânicos era que toda a Eurásia pudesse se autovertebrar a partir de uma densa rede de ferrovias, fermentando um vasto espaço econômico que atrairia aos mercados chinês e hindu para um centro de gravidade totalmente inacessível ao poder marítimo, inutilizando a imensa frota comercial e militar da Grã-Bretanha e estabelecendo uma versão ferroviária da Rota da Seda. Tanto a ferrovia Trans-Siberiana como a pretendida via Berlim-Bagdá (especialmente a construção do trecho sírio deste percurso) foram motivo de peso no desencadeamento da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Bolchevique de 1917.

Para ilustrar a importância da linha Berlim-Bagdá (na verdade Hamburgo-Basra), vamos considerar o seguinte. Em 1914, se a Alemanha quisesse chegar à Índia, teria que passar pela rota do Canal de Suez (três semanas de viagem) ou, se fosse bloqueada, pelo Cabo da Boa Esperança (oito semanas de viagem). Ambas as rotas foram controladas pelo Império Britânico. Bem, a ferrovia projetada pelo Kaiser (imperador) permitiu fazer a mesma rota em apenas oito dias. No caso de um conflito armado com o Reino Unido, a Alemanha poderia colocar um exército nas fronteiras indianas em menos de duas semanas.

A Rússia estava a ponto de fermentar um espaço econômico de extraordinário potencial na Sibéria-Cazaquistão-Mongólia (com ambições na Manchúria, Mongólia Interior, Turquestão chinês, Tibete, Pérsia e Ásia Central em geral), e o mesmo estavam fazendo Alemanha e Áustria-Hungria na Europa do Leste e Oriente Médio. Confrontar a superpotência continental germana com a superpotência continental eslava foi uma obra-prima da diplomacia do verdadeiro inimigo do continente: o Reino Unido, ou melhor, a internacional financeira e plutocrática.

O presidente estadunidense Wilson descrevia a estrategia alemã como "lançar um amplo cinturão de poder militar alemão e controle político através do mesmo centro da Europa e mais além do Mediterrâneo, para o coração da Ásia". O traçado da via férrea Berlim-Bagdá rompia o Rimland, coincidia em boa parte com a rota tomada pelos príncipes europeus para chegar à Terra Santa durante a Primeira Cruzada e, de certo modo, desandava o caminho empreendido no Neolítico danubiano para entrar na Europa. O verdadeiro objetivo da via férrea Berlim-Bagdá era conectar o porto alemão de Hamburgo (Mar do Norte) ao porto iraquiano de Baçorá (depois parte do Império Otomano), no Golfo Pérsico, às portas das possessões britânicas e de outro país germanófilo perigoso: a Pérsia. Esta rota teria sido muito mais curta, rápida e segura que a britânica, e por isso, entrava no mortal conflito com o Reino Unido. A Rússia também buscava sair pelo Mediterrâneo, rodear a Turquia e conectar-se com a Sérvia, Grécia, Chipre e Síria. Os projetos alemão e russo entravam em conflito em Istambul e, em menor medida, no Chipre e Síria. Para evitar que Istambul caísse sob o controle de uma superpotência eurasiática (que poderia utilizar o Mar Negro para fermentar uma vasta frota e lançar campanhas de guerra submarina contra o Levante e o canal de Suez), o geoestrategista britânico Mackinder sugeria "internacionalizá-la" de alguma maneira após a Primeira Guerra Mundial. Podemos imaginar a bestial influência que teria tido sobre a história do mundo um controle alemão do Golfo Pérsico e seus recursos energéticos, ou uma guerra entre Alemanha e Grã-Bretanha nos atuais Kuwait, Iraque e Irã. Assim, Bagdá era chave para o Império Britânico e seus muitos agentes (como a família Sassoon), importantíssimos na expansão do poder britânico na Ásia Oriental.

Depois do fim da Guerra Fria, o Grande Oriente e o Grande Ocidente voltaram a interagir timidamente, apesar da desestabilização causada pela queda da URSS. As primeiras tentativas de interação (Iraque e Iugoslávia) são sufocados duramente por Londres e Washington, enquanto a Rússia, plenamente imersa no caos da era Iéltsin, estava demasiadamente fraca para reagir. Com a lenta reconstrução do poderio russo a partir de 1999, o fantasma da Rota da Seda voltou, desta vez sob a forma de oleodutos e gasodutos, que tendem a normalizar as relações entre os países, e que costumam anunciar a abertura de estradas, ferrovias, tratados comerciais, alianças militares e a constituição de espaços econômicos e blocos geopolíticos. Hoje, o pânico das potências marítimas tem a ver com estes corredores que canalizam os abundantes recursos energéticos de certas regiões através de vias frequentemente muito distantes do mar, e não somente na Rússia, mas também em torno da China. Tanto os EUA quanto o Reino Unido e Israel contrariam esta "ameaça" semeando instabilidade territorial e fomentando grupos terroristas (como fazem agora mesmo na Síria) para romper as ligações estratégicas da grande cadeia eurasiática, e criando seus próprios oleodutos e gasodutos, que fluem invariavelmente nos estados e/ou espaços marítimos controlados por eles, circundando expressamente a seus rivais geopolíticos.

Neste contexto, vale a pena nos atermos ao Gasoduto Islâmico, um herético projeto iraniano que o eixo Londres-Washington-Tel Aviv quer sabotar custe o que custar:

O Gasoduto Islâmico atuaria como aglutinador de um novo império persa que conectaria a Europa com a Índia e a China, o Golfo Pérsico com o Cáspio e o Mediterrâneo, o Heartland continental com os portos do Sul eurasiático e o espaço turcomano e ex-soviético com o mundo árabe. O fato de que o gasoduto desemboque na costa síria, ao lado das bases militares russas, e que esteja gerenciado pelo gigante estatal gaseiro russo Gazprom, significa que a Rússia dominaria todo este mercado e que o insipiente império persa-xiita, intermediário entre Ocidente e Oriente, seria "russificado", obtendo Moscou sua ansiada saída à mares quentes (Mediterrâneo, Golfo Pérsico e Índico) e, se adicionado o gasoduto South Stream, recriando a história dos impérios macedônio e bizantino. Concluído o Gasoduto Islâmico, os grandes perdedores regionais seriam Quatar, Arábia Saudita, Israel, Turquia e Jordânia. Em seu trecho desde o Golfo Pérsico até o Mediterrâneo, o gasoduto transportaria 110 milhões de metros cúbicos de gás, dos quais 25% seriam consumidos pelos países de trânsito e o resto pela Europa. Bandar Abbas, cidade costeira iraniana que ocupa uma estratégica posição no centro do gasoduto e presidindo o estreito de Ormuz, é um enclave com importante presença tanto russa como chinesa.

Antes que possamos concluir esta série de artigos, é necessário rever outros importantes Estados do Índico, a Rota das Especiarias e do Colar de Pérolas chinês, sem os quais não se pode entender o verdadeiro Grande Jogo em curso, atrás das costas dos povos, mas afetando-os muito diretamente.

CAMBOJA

As montanhas de crânios de reprimidos da era de Pol Pot e o khmer vermelho demostram que muitas coisas desagradáveis tiveram que ocorrer para que hoje o Camboja represente uma pérola do colar chinês ou para que possamos comprar um agasalho da Adidas made in Cambodia produzido por mão de obra semiescrava lotada em sweatshops (fábrica de suor ou fábrica insalubre).

O Camboja se encontra numa encruzilhada na qual nasceu um grande reino medieval, o Império Khmer, que desde o centro religioso do Angkor dominou a maior parte da Península Indochinesa, encruzilhada de três espaços marítimos distintos: o Mar de Andamão (parte do Golfo de Bengala, por sua vez, parte do Índico), o Golfo da Tailândia e o Mar do Sul da China. O antigo Estado cambojano era, portanto, uma alternativa terrestre à rota marítima do Estreito de Málaca (atual Singapura).

Durante a era colonial, o Sudeste Asiático foi a etapa na qual coincidiram várias superpotências: China, França e Reino Unido. Na Segunda Guerra Mundial, o Japão penetrou na região de maneira incrivelmente violenta. Os japoneses permitiram em 1941 que o governo colonial da França de Vichy (aliada da Alemanha) conservasse o controle da região, e os franceses inclusive permitiram que as tropas japonesas cruzassem a Indochina Francesa e esquartejassem 25.000 homens no Vietnã do Norte. Em Março de 1945, depois da derrota da França de Vichy, os japoneses tomaram brevemente o controle da Indochina, estabeleceram um estado fantoche no Camboja, desarmaram as forças francesas e puseram fim à romanização do idioma khmer, revertendo sua escritura aos caracteres tradicionais. A França já em mãos dos aliados, retomaria o controle em Outubro do mesmo ano, mas sua influência não seria a mesma e o idioma khmer não voltaria a ser escrito em caracteres romanos.

O Camboja pertenceu à França até que obteve, junto com o resto da Indochina Francesa, sua independência em 1954, em boa parte graças ao Viêt Minh — uma guerrilha comunista que, liderada por Ho Chi Minh, havia sido apoiada por Washington para lutar contra os japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Mais adiante, o Viêt Minh se converteria no Vietcong, em uma história que teria paralelo com o movimento mujahideen transmutado em movimento talibã.

Mesmo depois de 1954, a ex-Indochina Francesa continuou formando parte do quintal geopolítico da França até que em 1966 a escalada do intervencionismo estadunidense na região (estabelecimento do governo fantoche de Lon Nol no Vietnã, recrutamento de meio milhão de cambojanos para lutar contra o Vietnã do Norte) marcou o principio do fim do poder de Paris na zona. A intervenção de Washington no antigo império francês nunca foi do agrado do ditador De Gaulle, que nesse mesmo ano de 1966 saiu da OTAN, deixou de fazer testes atômicos no deserto da Argélia para fazê-los na Polinésia francesa, sem dúvida em parte como uma advertência à Washington: a República Francesa era uma força a ser contida na região da Ásia-Pacífico. Cada vez mais, os interesses da França coincidiam com os da URSS: lutar contra a influência estadunidense e chinesa na região. Franco, em virtude de sua afinidade pela França Gaullista, se negou a intervir militarmente no Vietnã.

Em 1969, o presidente Nixon e seu geoestrategista Henry Kissinger fizeram entrar a Força Aérea dos EUA no espaço aéreo da região… sem a aprovação do Congresso. Nos quatro anos seguintes, a USAF lançou 280.000 bombas sobre o Camboja — o equivalente a 25 Hiroshimas. No total, os EUA lançaram mais toneladas de explosivos sobre o Camboja que durante toda a Guerra da Coreia ou em todas as operações do Teatro do Pacífico (incluindo o Japão conflagrado por duas bombas atômicas) durante a Segunda Guerra Mundial. Oficialmente, o objetivo era atacar bases de fornecimento do Vietnã do Norte, mas em realidade os bombardeios tiveram o efeito de neutralizar o Camboja como Estado: morreram 750.000 cambojianos e 75% do gado do país, foram destruídas 40% das estradas e 30% das pontes (algo particularmente grave num país tão fluvial, onde a destruição de pontes o converteu num arquipélago de fato), e o insipiente setor industrial cambojiano foi estrangulado em seu berço. As culturas de arroz degeneraram e uma catastrófica fome, seguida de enfermidades, se apoderou do pequeno país.

Bombardeios estadunidenses no Camboja. No total, 113.716 lugares foram bombardeados pela USAF. As munições não-explodidas (UXOs) seguem sendo um perigo no Camboja atual. A franja bombardeada sugere que se pretendia criar uma "zona morta" estéril na fronteira Leste do país para evitar a expansão da influência vietnamita (assim, soviética) no Camboja e Tailândia. A ditadura de Pol Pot não foi mais que uma extensão política e econômica desta estratégia militar estadunidense, que seguramente poupou outros milhões de dólares em bombas. As mesmas fronteiras estatais da Indochina parecem minuciosamente traçadas para promover a balcanização territorial e especialmente dividir o curso do rio Mekong, que vem a ser uma saída natural da China.

Raramente nos é dada uma interpretação clara acerca dos acontecimentos que rodearam o ascenso ao poder de Saloth Sar (conhecido como Pol Pot) em Camboja. Quando os EUA se retiraram do Vietnã em 1975, o país começou a cair sob a influência da URSS. Saia da sombra no Camboja uma estranha guerrilha comunista, o Khmer Rouge (o Khmer Vermelho), que era virulentamente antivietnamita. Pol Pot, o obscuro chefe do movimento, era claramente um agente do exterior cujo interesse era neutralizar o Camboja como Estado forte, convertendo-o num buraco negro geopolítico e quintal da Tailândia — por sua vez, quintal dos EUA. Pol Pot parecia simplesmente ser o continuador da política seguida pelos bombardeios estadunidenses de 1973. Sob suas instruções, o Camboja desmantelou todo seu potencial industrial, suas cidades, vias de comunicação, rede elétrica, e aniquilou a Intelligentsia (especialmente francófona) do país (bastava ter óculos ou saber falar francês para ser detido e executado), realizou massacres de católicos, torturou e assassinou homens, mulheres e crianças sem distinção e exterminou, direta ou indiretamente, a um terço do povo cambojiano em apenas quatro anos de terrorismo de estado. O doentio governo de Pol Pot foi deposto em 1979 pelo exército vietnamita, cansado de lidar com incursões polpotistas em seu território, e os khmers vermelhos escaparam para as selvas do Oeste.

O resultado das execuções políticas, torturas, trabalho forçado, enfermidades, fanatismo e fome da era dos khmers vermelhos: entre 2 e 3 milhões de mortos em apenas quatro anos. Nota-se na foto acima o fuzil de assalto estadunidense M-16, procedente da época na qual Washington utilizava cambojanos conscritos para lutar contra o Vietnã do Norte. Muitos khmres vermelhos eram adolescentes, embrutecidos depois de uma vida inteira de guerra e facilmente manipulados pela cúpula polpotista. O genocídio cambojano nunca ecoará em Hollywood.

Contudo, o pesadelo khmer não acabou aqui. Em 1980, os EUA estavam financiando em segredo os khmers vermelhos na fronteira da Tailândia. A magnitude destas ajudas (no mínimo de 85 milhões de dólares entre 1980 e 1986) foi conhecido graças à correspondência entre Jonathan Winer, advogado do Congresso dos EUA, e o Vietnam Veterans of America Foundation, assim como ao jornalista australiano John Pilger. Washington também apoiou aos khmers vermelhos nas Nações Unidas: embora o governo de Pol Pot tivesse sido deposto em 1979, graças à ajuda estadunidense, seus representantes continuaram ocupando o assento da Camboja na ONU. Os EUA inclusive pressionaram para que a "comunidade internacional" reconhecesse os khmers (que dominavam 10% do território e da população do Camboja) como refugiados, contrariando uma convenção da ONU segundo a qual os suspeitos de crimes contra a humanidade não podem gozar de tal status. Washington mandou funcionários de alto cargo da CIA para apoiar a Pol Pot na selva, cedendo-lhes ao menos 5 milhões de dólares anuais. Outros países que apoiaram a presença dos khmers vermelhos na ONU foram China, Reino Unido (cujas forças especiais SAS, visivelmente enojadas, haviam treinado durante anos os khmers vermelhos em sabotagem, implantação de minas e sobrevivência na selva), Austrália e países da ASEAN (Singapura, Indonésia, Malásia, Filipinas e Tailândia — a partir de 1984, também o petro-sultanato de Brunei, colônia britânica até então) e a Comunidade Econômica Europeia, por sua vez, pressionada pela OTAN. O delegado britânico, Lord Peter Carrington [13], secretário de Estado de Thatcher, chegou a declarar que Londres apoiava o Pol Pot como governante legítimo do "povo khmer". Em Julho de 1985, George Shultz, Secretário de Estado de Washington, pediu apoio para os contínuos ataques dos khmres Vermelhos no Camboja.

Dois dos muitos responsáveis diretos do que se sucedeu no Camboja sob Pol Pot. À esquerda: George Shultz, Secretário de Estado do presidente Nixon. À direita: Lord Carrington, Secretário Geral da OTAN e ocupante de vários cargos políticos relacionados à política exterior do Reino Unido entre os anos 60 e 80.

Os EUA também criaram o KEG (Grupo de Emergência Kampuchea) na embaixada estadounidense de Bangkok para distribuir ajuda humanitária nos campos de refugiados da fronteira tailandesa, controlados ferreamente pelos khmers. O KEG, oficialmente uma organização humanitária, era na realidade uma cobertura para um projeto do Departamento de Estado dos EUA cujos diretores eram oficiais da CIA com anos de experiência no Sudeste Asiático. Através do World Food Program e do exército tailandês, os khmers receberam 12 milhões de dólares em comida, beneficiando entre 20.000 e 40.000 guerrilheiros segundo Richard Holbrooke, assessor do Secretário de Estado para a Ásia. Os trabalhadores humanitários Linda Mason e Roger Brown, escreveram depois que "O Governo dos EUA insistiu que os khmers vermelhos fossem alimentados".

Em 1981, o geoestrategista Zbigniew Brzezinski, assessor de Segurança Nacional do presidente Carter, declarou "Eu incentivei os chineses que apoiassem o Pol Pot. Pol Pot era uma abominação, nós nunca poderíamos apoiá-lo, mas os chineses sim". Os EUA acrescentaram, havia "piscado um olho publicamente" enquanto a China e Tailândia mandavam armas aos khmers vermelhos.

Reveladoramente, Pol Pot havia estudado na Universidade de Sorbonne, em Paris, onde era forte a infiltração de movimentos trotskistas e maoístas financiados desde Washington e que não tinham absolutamente nada a ver com o Kremlin. Esses movimentos, dirigidos contra a ditadura De Gaulle na França — hostil aos EUA —, desencadearam o Maio de 68, e a religião do progressismo, do multiculturalismo, do feminismo e da "correção política".

Depois da expulsão dos khmers em 79, Phnom Penh estava sob o controle de um regime pró-vietnamita. O exército vietnamita havia encurralado os terroristas na selva, impedindo o regresso do Pol Pot. Mas a ONU, reconhecendo hipocritamente aos khmers como únicos governantes legítimos e rejeitando ao novo regime pró-vietnamita (portanto pró-soviético), decretou sem precedentes um isolamento total do Camboja. O novo Camboja "deskhmerizado" foi excluído de todos os acordos de comércio internacional, bloqueio-se a ajuda humanitária, proibiu-se que a UNICEF e a Cruz Vermelha entrassem no país, e nos EUA chegarem a negar permissões para mandar brinquedos e livros ao Camboja. Nenhum Estado, mesmo a Coreia do Norte, foi tão claramente excluído das ajudas humanitárias da ONU em toda a história como foi o Camboja. O único país que protestou na ONU por este estado de coisas foi a URSS, que possuía duas importantes bases militares no Vietnã (Da Nang e Cam Ranh) e que mantinha as operações vietnamitas no Camboja. Hanói, por sua parte, estava disposto a retirar-se do Camboja… em troca de que China e OTAN deixassem de apoiar à Pol Pot e de que a Tailândia deixasse de proporcionar santuários aos khmers vermelhos [14]. O Vietnã foi condenado pela "comunidade internacional" e até sofreu uma invasão chinesa de castigo. Desde as selvas, os khmers seguiriam organizando incursões nas quais desestabilizavam o território e roubavam grandes quantidades de madeira para vendê-las ao estrangeiro. Segundo o presidente chinês Deng Xiaoping, a estratégia era "sangrar o Vietnã".

Sem dúvida, Washington queria cultivar o Camboja como uma especie de estéril Coreia do Norte no Sudeste Asiático, um buraco negro geopolítico cujo fim era interromper o fluxo natural de influências e mercadorias, evitar que o poder da URSS se expandisse além da conta, atazanando potencialmente tanto a China quanto Singapura, colidindo com a Tailândia (esfera de influência estadounidense) e controlando certos ramos secundários da Rota da Seda que seriam vitais para as exportações chinesas nas décadas posteriores. Os EUA não só não se incomodavam em absoluto com a ditadura de Pol Pot — que era anti-soviética, anti-vietnamita e pró-chinesa —, como esta em verdade lhe conveio.

O Camboja repetiu, portanto, o macabro espetáculo que já havia ocorrido com os bolcheviques na Russia, as milícias da Frente Popular e as "brigadas internacionais" na Espanha, os maoístas na China, os mujahideens no Afeganistão, os "contras" na Nicarágua, os tigres tâmeis no Sri Lanka, a UÇK em Kosovo ou com os grupos narcos latino-americanos de hoje, o movimento budista rakhine na Birmânia e a Al-Qaeda e outros grupos do "jihadismo salafista internacional" no mundo muçulmano: o financiamento, a lavagem cerebral e o apoio ativo a um reduzido, porém, violento e fanático grupo de criminosos para desestabilizar um Estado e fazer o trabalho sujo do eixo Londres-Washington-Tel Aviv — ou, o que dá no mesmo, o serviço da Banca Internacional. Pol Pot se converteu em mais de um longo rosário de ditadores sanguinários apoiados pelos EUA, desde Suharto na Indonésia até Mobutu no Zaire, junto com um rastro de tiranos latino-americanos… muitos deles graduados na Escola das Américas.

Verdugos do Camboja apoiados tanto pelos EUA quanto pela China. À esquerda: Pol Pot. À direita: Kang Kek, diretor de várias prisões, incluindo a famosa S-21, onde se interrogava e executava os inimigos do regime.

A ajuda do atlantismo à Pol Pot não se limitou a alimentar e treinar suas tropas ou proporcionar imunidade diplomática a seus delegados ao longo dos anos 80. Em 1991 — enquanto a URSS se desintegrava, os EUA atacavam o Iraque de Saddam Hussein — Washington e a Subcomissão de Direitos Humanos da ONU, como parte do "esforço de paz" no Camboja, garantiram aos khmeres vermelhos que não seriam julgados por seus crimes. Objetivo: favorecer uma "transição" pacífica. Os diplomatas da ONU, EUA e Austrália se escudavam na suposta força do Khmer para incluí-lo nos planos do futuro Camboja: não podemos deixar de fora dos acordos um grupo armado de 40.000 homens ou o conflito se prolongará, afirmavam. Com o acordo de paz de Paris de 1991, as tropas vietnamitas se retiraram do país, e aos khmeres se permitiu voltar à Phnom Phenh e até se lhes concedeu de um quarto a um terço da extensão rural do Camboja.

A União Soviética, em pleno processo de dissolução, não estava em condições de intervir. Em troca destas concessões, os khmeres aceitaram não participar das eleições: agora, de repente, para a imprensa internacional e para os diplomáticos atlantistas, os khmers estavam "acabados". Entretanto, se converteram em um dos grupos terroristas mais ricos do mundo, vendendo grandes extensões das selvas e depósitos de pedras preciosas do Camboja ao governo tailandês, assim como estabelecendo quatro grandes bases na Tailândia… protegidas por soldados tailandeses. O Camboja se abriu aos "investidores internacionais" como plataforma de mão de obra barata e o dinheiro estrangeiro começou a fluir e a esparramar-se pelo país, embora só uma reduzida oligarquia local, frequentemente ex-khmer, tenha se beneficiado dele.

A sempre difusa "comunidade internacional" pôs à frente do país Hun Sen, um antigo comandante khmer renegado, acusado pela Anistia Internacional de assassinar e torturar milhares de prisioneiros com descargas elétricas, ferros quentes e sacos de plástico. Sob a liderança de Hun Sen, ditador de fato, o Camboja está sendo efetivamente convertido em uma província do Globalistão. Aproximadamente a metade do país (incluindo as terras ao redor do antigo complexo arqueológico de Angkor Wat, as costas arenosas, os edifícios coloniais de Phnom Phenh e as ilhas do sudoeste) havia sido vendida aos investidores estrangeiros, deslocando 700.000 pessoas de suas casas e obrigando-as a converterem-se em proletários neo-escravos das multinacionais globalistas. O neoliberalismo extremista do Partido do Povo Cambojiano (CPP por sua sigla inglesa) permite que se formem companhias 100% estrangeiras para a aquisição de terras cambojanas sem maiores exigências, algo que não sucede nem mesmo em paraísos escravistas como Tailândia ou Vietnã, onde os estrangeiros só podem ser acionistas minoritários na especulação de terras. As terras haviam passado das mãos de pequenos agricultores aos grandes agronegociantes tailandeses, estadounidenses e britânicos. O Camboja inteiro está sendo privatizado sob a supervisão do Banco Mundial, e aqueles que se opuseram foram encarcerados, assassinados e/ou tiveram suas casas queimadas. Esta campanha de saqueio não foi condenada nem pelos EUA, nem pela China, nem pelos países da ASEAN.

No final, EUA e China têm no Camboja um quintal ao qual podem roubar impunemente. Obama e Hu Jintao apertam as mãos do ditador cambojano Hun Sen.

A China, antiga inimiga do Camboja, também havia entrado fortemente no país. Além de construir infraestruturas de transporte, obviamente orientadas a melhorar o fluxo do comércio chinês, Pequim havia incorporado o Camboja a seu Colar de Pérolas. As localidades escolhidas foram as ilhas Kampong Som e o parque nacional de Ream, na província de Sihanoukville. Nestes lugares, a China inverteu grandes quantidades de capital para melhorar o acesso a portos e empregar o atrativo da biodiversidade para empreender a construção de infraestruturas turísticas. Provavelmente, Pequim abriga a esperança de que Sihanoukville se converta em uma estação intermediária entre o Mar do Sul da China e o estratégico istmo de Kra e/ou o projeto birmano de Dawei, que veremos mais abaixo.

Pol Pot foi detido em 1997 e morreu no ano seguinte em sua frouxa punição de prisão domiciliar. Hoje, os média tem o prazer em apresentar-nos o tirano como um monstro — o qual é certo, mas também incompleto, já que Pol Pot era um agente. Ao nos obcecarmos com ele, esquecemos dos verdadeiros monstros: seus promotores em Washington, Londres, Hong Kong, Pequim, Singapura, Camberra, Brunei, Bangkok, Bona, Estocolmo e outros centros do poder globalista de então.

TAILÂNDIA E O PESCOÇO DO DIABO — O ISTMO DE KRA

Costuma-se dizer que no Globalistão definido pouco a pouco por golpes, guerras, atentados terroristas e engenharia social, há macro-regiões especializadas por setores econômicos. O Ocidente representaria o mundo consumidor, o Terceiro Mundo a fonte de matérias primas, a Ásia Oriental (ou Lestásia) o setor industrial etc. Se é assim, então sem dúvida o antigo reino budista de Siam corresponde ser o bordel do mundo e o paraíso de todas as tendências sexuais bordeando a legalidade.

Durante a época colonial, a Tailândia ("Sião") foi, junto da Etiópia e Pérsia, um dos poucos países não ocidentais que conservaram sua soberania sob uma monarquia tradicional. Provavelmente, tanto os ingleses (desde a Birmânia) quanto os franceses (desde a Indochina) consideraram oportuno não anexar a Tailândia a seus respectivos domínios para usá-la de Estado-amortecedor (Estado-tampão) que aliviasse a tensão entre Reino Unido e França na região, impedindo um conflito armado.

Em 1941, o primeiro ministro da Tailândia Plaek Pibulsonggram (formado militarmente na França e mais conhecido como Phibun) permitiu que os japoneses transitassem por seu território para alcançar os domínios britânicos na Birmânia e Malásia, chegando ao Índico e aproximando-se perigosamente de Singapura e do Estreito de Málaca. A Tailândia firmou um tratado militar por meio de protocolo secreto, em virtude do qual o Japão ajudaria a recuperar territórios perdidos aos franceses (no Camboja) e aos ingleses (na Malásia e Birmânia). Em 1942, a Tailândia entrou na Segunda Guerra Mundial do lado japonês e nesse mesmo ano Singapura foi tomada pelo Império Japonês. Winston Churchill qualificou o evento como "o pior desastre e a maior capitulação na história britânica". Em 1945, depois da derrota do Japão, entraram na Tailândia soldados britânicos e hindus para assegurar o controle da região.

Durante a época da Guerra do Vietnã, o capital e a influência estadounidenses entraram na Tailândia produzindo uma modernização do país e dissolvendo pouco a pouco seu modo de vida tradicional. Em poucas décadas, se consumou o que na Europa havia tardado séculos e milênios. O mundo urbano cresceu exponencialmente as custas da dissolução do mundo rural e a capital Bangkok multiplicou sua população várias vezes. Desde então, a Tailândia passou por uma vertigonosa sucessão de distúrbios, golpes de Estado e mudanças políticas patrocinadas pelo estrangeiro, incluindo a repressão por parte do exército de um movimento estudantil em 1973 e uma "revolução espontânea" (dos "camisas vermelhas") em 2010 — infiltrada por franco-atiradores como agents provocateurs —, em plena sintonia com as espontâneas "revoluções de cores" orquestradas por Washington em toda a Eurásia.

A tendência de Bangkok nos últimos anos era inclinar-se lentamente para a China, algo lógico tendo em conta a proximidade geográfica e que a Tailândia pertence à órbita da Lestásia — embora suas relações com Índia e Irã também sejam fortes. Em Janeiro de 2012, a Tailândia reconheceu a Palestina como Estado independente. Ainda, Bangkok segue sendo vitima da relação amor e ódio entre Washington e Pequim, segue oferecendo sua população como mão de obra barata para as multinacionais ocidentais e, quanto à China, seu principal interesse no país é "cortar o Pescoço do Diabo".

O "Pescoço do Diabo" é o nome local do istmo de Kra, que separa a Península Malásia (incluindo Singapura) do resto da Indochina, bem como o Oceano Índico do ultra-estratégico e geopoliticamente tenso Mar do Sul da China, denominado pelos estrategistas do Pentágono como uma das "caixas de batalha" (battle-boxes) da China.

Como vimos anteriormente, a China (e também Japão, Coreia do Sul e Taiwan) depende desesperadamente do Estreito de Málaca, especialmente no que diz respeito a suas importações petroleiras (ver aqui, aqui e aqui). O estreito é, desde a época da Rota das Especiarias, um chokepoint (ponto de passo obrigatório) para o tráfego comercial marítimo, pelo qual a princípios do século XIX caiu em mãos da Companhia Britânica das Índias Orientais. Singapura se conectou rapidamente com outros enclaves comerciais britânicos no Sul da África, Egito, Golfo Pérsico, Iêmen, Índia, Hong Kong e Xangai. Organizado pela família Sassoon, o ópio fluiu as toneladas para os portos chineses causando instabilidade social e sangrentas guerras. Em 1897, o Império Britânico e a monarquia siamesa chegaram a um acordo para não construir um canal na Tailândia, a fim de proteger a posição dominante de Singapura. Hoje, Singapura segue sendo um enclave comercial britânico de fato, um centro de Inteligência e um dos mais importantes centros financeiros do mundo, mas seu status depende da intensidade do tráfego comercial chinês que passa pelo estreito de Málaca.

Imagens do porto de Singapura nos fornecem uma ideia da importância deste estranho enclave. A cidade-estado de Singapura é um dos elos da antiga cadeia de influência do Império Britânico na Ásia. Exercendo contato entre o Índico e o Pacífico em um estreito funil que canalizava todo o tráfico comercial, Singapura caiu nas mãos dos ingleses e, em 1845, se estabeleceu ali a primeira loja maçônica. Desde Singapura, se estreitaram laços com Hong Kong e Xangai. Os Sassoon, uma família de judeus baghdadies, inundaram a China de ópio através de Singapura, com a ajuda da Companhia Britânica das Índias Orientais. O edifício do centro da foto é do banco britânico HSBC (Hong Kong-Shanghai Banking Corporation). O HSBC fundou-se com capital procedente do tráfico de ópio [15] e teve um peso decisivo em muitos acontecimentos da Lestásia (Ásia Oriental) desde a época colonial. Depois das Guerras do Ópio, o Império Britânico estreitou laços com várias sociedades secretas chinesas de séculos e até milênios de antiguidade — as tríades ou máfia chinesa, assim como outros muitos grupos, nasceram desta interação. A China capitalista-mercantil moderna é o resultado direto da influência do comércio britânico na China depois das Guerras do Ópio.

O Estreito de Málaca é a lifeline ou linha vital das economias asiáticas (China, Japão, Coreia do Sul, Taiwan etc.). Em sua zona mais crítica (o Estreito de Singapura), o estreito não é muito profundo (25 m) e o tamanho máximo para que um navio possa transitar é da chamada classe Malaccamax. Alguns navios (particularmente alguns petroleiros e transportes de contêineres) excedem o Malaccamax, e devem se dirigir a outros estreitos. Como o próximo estreito é o indonésio de Sunda (onde está situada a capital indonésia de Jacarta), ainda mais raso (20 m), os barcos mais mastodônticos devem procurar outros estreitos indonésios, como Lombok. Isso adiciona quilômetros à rota, aumentando os custos de transporte e, portanto, o preço final de produto transportado.

A China estabeleceu seu Colar de Pérolas para dar segurança a seu tráfego marítimo, mas também intenta desesperadamente aliviar um pouco sua enorme dependência do Estreito de Málaca para que suas mercadorias e fontes de energia não transitem por uma torneira controlada pelo atlantismo. Tentou sacar rotas terrestres (especialmente através do Paquistão e de Mianmar), mas parece que todas suas tentativas de sair ao Oceano Índico são rapidamente frustradas pelo atlantismo na forma de desestabilizações territoriais ou tratados diplomáticos. Isso deixa à China a opção de criar um novo Estreito de Málaca, sob seu controle: escavando um canal no Istmo de Kra. A outra opção seria estabelecer portos, refinarias, terminais de gás natural etc., de ambos os lados do istmo, e conectando estas instalações mediante um corredor comercial que incluiria um gasoduto, um oleoduto, uma via férrea e uma rodovia. O projeto do corredor teria 44 km, uma largura de 500 m e dotado de rodovias, uma para cada sentido. De tal modo, as mercadorias poderiam saltar desde o Mar de Andamão (Índico) ao Golfo de Tailândia (Pacífico). O projeto de corredor comercial se encontra atualmente estagnado devido as… preocupações ambientais.

Projetos para um canal e/ou corredor comercial no Istmo de Kra. Os grandes prejudicados regionais são Malásia, Indonésia e, especialmente, Singapura, e portanto, indiretamente Reino Unido e EUA. A ideia de um canal na Tailândia é tão antiga quanto o rei siamês Narai, o Grande, que no século XVII já mantinha relações diplomáticas com a França e pediu ao engenheiro francês Lamar que investigasse a possibilidade de iniciar a obra. Em 1897, o Império Britânico e a monarquia siamesa concordaram em não construir o canal para proteger a posição dominante de Singapura.

Este projeto diminuiria a importância a Singapura de modo similar ao ocorrido com a Cidade do Cabo quando da construção de Suez, ou com o estreito de Magalhães quando da abertura do canal do Panamá, ou ainda com a Dinamarca quando do canal de Kiel. Em suas diversas versões, o canal/corredor tailandês diminuiria, em relação a Málaca, entre 960-1300 km (de um a três dias) da rota entre o Índico e o Pacífico. E dependendo da profundidade, diminuiria entre 2.500-3.000 km (quatro a cinco dias) em relação ao Estreito de Sunda, e de 3.000-3.500 km (cinco a sete dias) em relação ao Estreito de Lombok. Os proponentes afirmam que um oleoduto cortaria os custos de transporte petroleiro na Ásia em 0.50 dólares por barril, e o gasoduto em 3 dólares por metro cúbico de gás. Assim, se converteria sem dúvida na pérola mais importante do colar chinês e numa "zona econômica especial" de importância global. Seria uma revolução importante na Rota das Especiarias e provocaria uma nova ordem regional.

A construção do canal levaria de cinco a sete anos, teria um custo de 20 a 25 bilhões de dólares (em comparação, a arrecadação do tesouro público espanhol em um ano é de 100 bilhões de euros) e empregaria 30.000 operários. Segundo um informe interno preparado para o então Secretário de Defesa Donald Rumsfeld e publicado no "Washington Times" em 2005, a China — especialista em infraestruturas hídricas e similares desde milênios atrás — se oferecera para custear o valor da obra, incluindo refinarias e instalações portuárias completas, uma pista de aterrissagem e uma base naval, como parte de sua estratégia do "colar de pérolas", bases avançadas e segurança energética. A China já havia contribuído para melhorar as infraestruturas portuárias de Laem Chabang na Tailândia. Se os governantes da Tailândia ainda não se decidiram pela construção do canal é porque estão comprados pelos governos da ASEAN e pelos interesses de Londres e Washington. Alegam impacto ambiental, custos enormes ou que o canal fragmentaria a Tailândia em duas, separando as minorias muçulmanas da malaia do Sudeste [16] e convertendo a Península de Malásia numa ilha de fato. Segundo as "teorias da conspiração", os políticos tailandeses são regularmente subordinados por Singapura e Malásia para votarem no parlamento contra a construção do canal. Estas teorias não são desprezíveis dada a enorme dependência econômica de ambos os países (a Malásia possui seu próprio hub comercial em Málaca: Port Klang ou Port Swettenham) do tráfico comercial pelo estreito.

É indiscutível que um canal tailandês reduziria drasticamente a distância das rotas marítimas, o tempo de transporte e, portanto, os custos finais, mas se o projeto se concretizar na Tailândia, tanto Malásia como Singapura e Indonésia sofreriam um enorme impacto econômico, onde os arranha-céus de Singapura só serviriam como ninhos de gaviotas, a indústria naval singapurense falharia, e EUA e Reino Unido sofreriam um golpe tremendo, inclusive com potencial de gerar um conflito armado naval na região. Além do mais, a Armada e a frota mercante chinesa obteriam acesso a uma vasta continuidade marítima que vai desde o Mar do Sul de China até o Cabo da Boa Esperança e os estreitos de Ormuz e Mandeb.

O canal de Kra é exemplo de como os interesses do eixo angloamericano atlantista colidem com os interesses do lucro, do capital e da globalização sem pátria e sem fronteiras. Para um capitalista da era da globalização, o dinheiro é cego e não tem pátria. O canal de Kra daria mais benefícios às multinacionais, mas não convém à política exterior da anglosfera. Sabotando os esforços chineses no Paquistão, Índia, Mianmar e Tailândia, o atlantismo mantem o status quo, forçando toda a Lestásia a depender de Singapura e seu império regional: a ASEAN.

BIRMÂNIA (MIANMAR)

Mianmar é a rota mais curta desde a dinâmica costa Leste da China até o Oceano Índico, pelo qual esse apartado é dos mais importantes desta serie de artigos. Durante décadas, a Birmânia compunha a lista negra das potências atlantistas. Em 2005, a então Secretária de Estado Condoleeza Rice incluiu na lista de "postos avançados de tirania", o exército birmano, também descrito como o lado mau no último filme de "Rambo". O país até sofreu uma revolução colorida espontânea, chamada "revolução do açafrão", promovida pelos EUA, em 2007 — principalmente porque nesse mesmo ano, a PetroChina e a Birmânia haviam firmado um memorando de entendimento segundo o qual a Birmânia forneceria gás natural à China. A revolução do açafrão também coincidiu casualmente com o Malabar 07, manobra naval da Marinha dos EUA com as armadas de Índia, Japão, Singapura e Austrália.

Contudo, numa brusca mudança política, a Secretária de Estado Hillary Clinton (a primeira do cargo a viajar à Birmânia desde 1955), manifestamente morta de sono, visitou o país em Novembro de 2012, junto com Obama, que se converteu no primeiro presidente estadounidense a visitar o país, falando de um tal "processo de reforma democrática e econômica" que abriria oportunidades de "desenvolvimento" para o país. Clinton até recomendou literalmente às multinacionais estadounidenses que invertessem na Birmânia: o clima havia mudado, agora havia "abertura ao exterior" e ansiedade de deixar-se estuprar pela globalização. O que representa realmente essa guinada geopolítica verdadeiramente orwelliana, os inimigos passaram a ser amigos ou ao menos não-inimigos? O que esconde o vicioso dialeto diplomático do presidente estadounidense e o jet lag da dignatária? A resposta a ambas as perguntas é a crescente influência de Beijing na região e sua relação de amor e ódio com Washington.

Acima, Rambo confraterniza com um talibã afegão (então chamado mujahideen) no filme "Rambo III"… hoje, os EUA combatem os talibãs. Abaixo, "John Rambo" se encarrega de um militar birmanês como somente ele sabe fazer… hoje, os EUA estreitam relações diplomáticas com a Birmânia.

Mianmar era um antigo Estado budista que todavia no século XVII adquire força suficiente tanto para infligir derrotas tanto aos portugueses quanto ao reino de Sião. Durante a era colonial, os britânicos foram adquirindo rapidamente influência na região, estabelecendo a petroleira Rangoon Oil Company (posterior Burmah Oil Co) em 1871, e anexando a Birmânia em 1886, que passa a formar parte de uma vasta continuidade territorial limitada só por duas antigas monarquias tradicionais que retiveram sua independência: Pérsia (Irã), a oeste, e Sião (Tailândia), ao leste. O domínio britânico chocou-se em seguida com as populações locais, firmemente apegadas a suas tradições budistas, que motivaram grandes revoltas até a década de 1930. Como havia se passado com o Islã no Egito, os britânicos se deram conta da enorme vantagem estratégica de cooptar as autoridades religiosas-sociais, neste caso os budistas (assim como na atualidade, com o Dalai Lama formando claramente parte da esfera de influência do atlantismo). A Birmânia, rica em ópio, passou a integrar a rede de narcotráfico de todo o Sudeste Asiático.

Se a cocaína é uma das grandes protagonistas secretas da geopolítica da Iberoamérica, o ópio é na Asia. As duas narco-zonas assinaladas (Crescente Dourada e Triângulo Dourado) têm muito em comum: ambas compartilham fronteira tanto com China quanto com Índia, ambas haviam sido ocupadas pelos EUA de uma forma ou outra (Vietnã, Afeganistão) e ambas se encontraram no passado sob a influência do Império Britânico e do narcotraficante David Sassoon. Nota-se como o Camboja caia fora do chamado "Triângulo Dorado".

Em Março de 1942, as tropas japonesas entraram na Birmânia e a administração britânica colapsou. Os britânicos organizaram unidades de elite conhecidas como Chindits, que, assoladas pela malária e disenteria, operavam muito atrás das linhas japonesas, sendo em muitos sentidos precursores das modernas unidades de operações especiais. Uma unidade estadunidense comparável, os Marauders de Merrill, se uniu a ela em 1943. Enquanto, o antigo tráfico de ópio na zona, tradicionalmente em mãos britânicas, serviu para nutrir a resistência anti-japonesa na China, financiando as primeiras repúblicas soviéticas do país: Jiangxi e Yan’an. [17]

Os japoneses perderam 150.000 homens na Birmânia, dos quais só 1.700 prisioneiros. Isto sugere que os militares japoneses, com seu imaginário coletivo fortemente influenciado pelo arcaico arquétipo samurai, costumavam preferir a morte no combate que a rendição. Em 1948, a Birmânia obteve a independência do Reino Unido, seguindo o processo de deseuropeização do mundo que se desencadeou no após a Segunda Guerra Mundial. Mas diferentemente de outras ex-colônias, a Birmânia não passou a formar parte da Commonwealth.

Em 1962, um golpe de Estado colocou a Birmânia sob o controle de uma junta militar que nacionalizou a indústria, pôs o grosso da economia sob controle estatal e governou o país desde então. Durante toda a Guerra Fria, a Birmânia foi um país instável e violento dominado por uma larga sucessão de siglas insurgentes que, como as guerrilhas na Colômbia, controlavam e controlam o cultivo e tráfico de ópio nas frondosas regiões interiores e fronteiriças do país. Em 1996, ano que "supostamente" devia marcar um golpe mortal ao narcotráfico e iniciar a derrota da narco-guerrilha, a embaixada dos EUA em Rangum publicou um documento intitulado "Country commercial guide" na qual afirmou que as exportações ilegais de ópio birmano produzem tantos ingressos quanto as exportações legais do país (incluindo petróleo e gás natural). Afirma ainda que as inversões em hotéis e na infraestrutura da Birmânia procedem de organizações criminosas dedicadas ao cultivo e tráfico de ópio.

Densidade de cultivo de papoula na Birmânia, em em hectares por quilometro quadrado. A Birmânia foi o país líder em produção de ópio até que foi superado pelo Afeganistão depois da invasão da Aliança em 2001. A Birmânia (e a Tailândia como estação intermediária) é também um macrolaboratório de importância global na fabricação de drogas sintéticas em geral e metanfetaminas em particular. Na volátil e montanhosa fronteira birmano-tailandesa, existe toda uma rede de refinarias nas quais o ópio se transforma em heroína. Aqui trabalham ativamente diversas narcomilícias, as tríades e outras máfias chinesas, tanto muçulmanas quanto não-muçulmanas. Durante décadas, os bancos de Singapura e Hong Kong (incluindo o HSBC) se encarregaram dos ingressos procedentes destas atividades.

Outro problema da Birmânia, este bastante recente, tem a ver com o ataque da minoria étnica rohingya por parte da maioria rakhine, que ocorre no estado birmanês de Rakhine (conhecido também como Rohang ou Arakan) desde 2012, embora o conflito tenha raízes mais antigas. Os rohingya são de origem e idioma indo-ariano, mais aparentados dos povos da Índia e Bangladesh do que com as etnias da Birmânia, e são muçulmanos. Os rakhine, por sua vez, são sino-tibetanos e budistas.

O estado de Rakhine no marco birmano, uma costa que domina o Golfo de Bengala e na qual se entrecruzam as esferas de influência da Índia e China. Nota-se que neste estado se encontram Sittwe (Akyab) e Kyaukpyu — duas das importantes pérolas do colar chinês. Sittwe se encontra em frente a Calcutá, a maior cidade e porto da Índia.

A desestabilização do estado de Rakhine é necessária para o atlantismo por vários motivos:

1. Gasoduto, colar de pérolas chinês e outras inversões estrangeiras. A rota desde a costa birmana até a cidade de Kunming, na província chinesa de Yunnan, pode ser considerada como uma antiga "rota do ópio" e agora parece que os chineses querem cometer a heresia geopolítica de transportar gás natural no lugar do ópio.

Na ilha de Ramree, onde ingleses e japoneses travaram uma crucial batalha durante a Segunda Guerra Mundial (se diz que nos pântanos ao redor da ilha, os crocodilos devoraram 400 soldados japoneses), os chineses estão construindo diversas instalações e dutos para receber petróleo e gás natural da África, do Golfo Pérsico e do Golfo de Bengala, e transportar estas mercadorias através do coração da Birmãnia até a cidade chinesa de Kunming. Também se planeja para 2015 uma estrada e via férrea de alta velocidade. Obviamente, o projeto é comparável ao de Gwadar (Paquistão) e ao Kra (Tailândia), em sua intenção de evitar o traiçoeiro estreito de Málaca.

Na vizinha cidade costeira de Kyaukphyu, os chineses estão construindo um porto de águas profundas e um terminal petroleiro, enquanto que, mais ao norte, na também costeira Sittwe os chineses mantêm um centro de Inteligência e espionagem eletrônica (orientado especialmente, se supõe, ao tráfico marítimo) desde 1994, e também desenvolvem um porto e base naval. Preocupantemente, em Sittwe os hindus estão construindo um terminal energético pensado para alimentar o crescimento de Bangladesh e do estado hindu de Bengala Ocidental, de 90 milhões de habitantes. Abrindo o fluxo energético na Birmânia, Nova Deli pode também dinamizar a isolada e subdesenvolvida região do nordeste da Índia, proporcionando-lhe uma saída marítima e, talvez, aplacando a enorme quantidade de guerrilhas e insurgências (incluindo uma "cristã-maoísta") que infestam a zona.

Como sempre, os oleodutos e gasodutos levantam paixões na Eurásia e especialmente fora dela — EUA e Reino Unido vêem esses projetos terrestres como uma ameaça a seu controle sobre as rotas marítimas. A China National Petroleum Corporation começou a construir o gasoduto sino-birmano em 2009, e espera-se que quando estiver completo transporte 12 milhões de toneladas bruto ao ano — algo como 10% das importações petroleiras chinesas. Se estes projetos se realizarem, Kunming se converterá no principal hub comercial do Sudeste Asiático, onde convergirão todas as ferrovias, estradas, gasodutos e oleodutos da Birmânia, Tailândia, Laos e Vietnã. O perdedor regional seria, de novo, Singapura. A China tem sido pressionada para cancelar o projeto.

2. Romper a continuidade territorial do mundo muçulmano no Sudeste Asiático. O mundo muçulmano é um bloco que vai desde o Saara Ocidental até a Indonésia, mas sua continuidade se vê desafiada em certos pontos. O mais óbvio destes pontos é o corte geopolítico conhecido como Estado de Israel, mas existe outro corte em andamento no Sudeste Asiático: o estado birmano de Rakhine, uma delicada franja costeira onde os muçulmanos são minoria e tem sido atacado por radicais budistas com a intenção de limpeza étnica.

Em verde: importante população muçulmana. Em vermelho: fronteiras do mundo muçulmano. Em preto: pontos de ruptura do mundo muçulmano. O estado birmano de Rakhine representa a fronteira entre o Islã propriamente eurasiático e o Islã "indopacífico". O atlantismo parece interessado em erradicar a minoria muçulmana de Rakhine (os chamados rohingya, com uma população de um milhão) e cultivar este estado como uma cunha geopolítica.

3. Pirataria e militarização do estreito de Málaca. O narcotráfico, graças a seus contatos com a pirataria regional, serve a outro fim: proporcionar uma desculpa para militarizar o Estreito de Málaca e águas circundantes.

Sittwe, o centro dos conflitos étnicos em Rakhine e berço dos "monges políticos" rebeldes desde a época do domínio britânico, é o epicentro de várias inversões chinesas e hindus, incluindo um porto e uma possível base naval sendo construída pela China e um importante centro de espionagem eletrônica chinês. Sittwe pode ser uma ponte ou uma brecha entre China e Índia, dependendo da manipulação. Tendo isto em conta, resulta muito interessante prestar atenção à reação da "comunidade internacional" e de seus agentes, ante a violência étnica contra a minoria muçulmana rohingya por parte dos fundamentalistas budistas. A "comunidade internacional" (leia-se ONU, EUA, Reino Unido e outros poderes globalistas) havia mantido um silêncio sepulcral sobre esses distúrbios, chamando a atenção apenas sobre as violações dos direitos humanos cometidas pela junta militar birmana. Mas a projeção do poder atlantista na Birmânia não só vem na forma de condenações diplomáticas, mas também em apoio a insurgentes ou grupos radicais. A penetração atlantista também vem pela ação das ONGs e dos agentes que operam dentro da Birmânia com fundos estadounidenses. Um destes grupos é a NED (National Endowment for Democracy), uma fachada legal da CIA que atua sob as ordens do Departamento de Estado dos EUA, a qual vimos no Egito apoiando a Irmandade Muçulmana e no Baluchistão aos separatistas fundamentalistas. A NED geralmente utiliza palavras de ordem inócuas e cínicas como "liberdade de informação", "transparência", "democracia", "luta não-violenta", "abertura" e "fortalecimento de ONGs" para encobrir as atividades claramente subversivas em que está envolvida.

Se o leitor nunca concebeu a existência de grupos budistas radicais e violentos com a aprovação do Dalai Lama, talvez deveria pensar de novo. Na Birmânia, estes grupos têm linchado centenas de muçulmanos rohingya, expulsando-os de suas casas e até comparecendo aos campos de refugiados para bloquear a entrega de ajuda humanitária. Estes monges se encontram apoiados pela Open Society Institute do especulador nova iorquino George Soros, pelo National Democratic Institute for International Affairs e, especialmente, pela National Endowment for Democracy (NED), uma organização sustentada pelo US State Department ao que podemos ver apoiando a Irmandade Muçulmana no Egito. Ao que parece, as radicalizações sectárias na Ilha Mundial não fazem mais que beneficiar o eixo atlantista, que é amigo só das etnias e/ou religiões que lhe convém num contexto regional e temporal determinado. Estes monges fundamentalistas formam a base da Liga Nacional pela Democracia (NLD), liderada por Aung San Suu Kyi [18].

Graças às manobras destes grupos de poder sustentados por Washington, a "opositora" birmana Aung San Suu Kyi (as vezes, abreviada como ASSK) saltou à fama internacional e obteve o prêmio Nobel da paz em 1991, compartilhando a duvidosa honra com personalidades tão sombrias como Henry Kissinger, Obama, Elie Wiesel, Nelson Mandela, Gorbachov e a UE. Desde então, Suu Kyi é uma santa laica da globalização ao lado dos já mencionados, além de Gandhi, Martin Luther King, Rigoberta Menchú, Dalai Lama (um fantoche do atlantismo que tem muita influência na budista Birmânia), Desmond Tutu, Liu Xiaobo, Ai Weiwei e outros. Todos eles são/eram basicamente mafiosos apoiados por fortes poderes globalistas com implacáveis propósitos geoeconômicos e comerciais, além de seres humanos vaidosos e imprestáveis moralmente. Isto resultará em muitas vítimas em nome da nova religião universalista, igualitária e homogeneizadora, patrocinada pela UNESCO.

Estas "fundações privadas" não só operam em países estrangeiros para forçar mudanças geopolíticas (por exemplo, a "primavera árabe" de 2011 ou as "revoluções de cores" na Eurásia), mas que se envolvem em operações de engenharia social cujo objetivo é mudar o comportamento de povos inteiros, geralmente com finalidades de dominação por parte da Alta Finança. Assim, a Ford Foundation foi um dos motores do que seria chamado de "libertação da mulher", junto com a CIA.

No caso de Aung San Suu Kyi, podemos destacar vários fatos obscuros que vem a roubar-lhe essa aura de altruísmo e santidade que Washington colocou sobre sua cabeça por meio de photoshop propagandístico:

• Suu Kyi, uma antiga agente da ONU com amplos e poderosos contatos internacionais, nunca havia protestado pela violência étnica contra os muçulmanos rohingya (700 mortos, 1.200 desaparecidos, 90.000 deslocados e milhares de casas destruídas), aos quais eles fazem a vida impossível no intento de expulsar-los do estado de Rakhine. Numa entrevista ao periódico britânico "The Guardian" em Junho de 2012, declarou que "não sabia" se os rohingya podiam ser sequer considerados cidadãos birmanos.

• Somente protestou pelas repressões da junta militar quando esta reprimiu protestos anti-chineses —por exemplo, durante uma manifestação em mina de cobre chinesa em Monya em Novembro de 2012, na qual foram feridos vários monges budistas. A Liga Nacional pela Democracia se revela aqui como um ramo do Departamento de Estado dos EUA, cujo objetivo é acabar com o nacionalismo birmano e com os líderes que miram pelo interesse nacional da Birmânia, para instalar um regime cliente de Londres e Washington. O material propagandístico financiado pelo Departamento de Estado sugere que a junta militar birmana é vista como uma armadilha para a integração da Birmânia como mais uma província do Globalistão. Assim, a Associated Press descreveu esta imagem como uma manifestação de monges budistas contra a violência étnica, quando em realidade buscam é a expulsão dos refugiados da Birmânia, e só protestam contra o uso da força por parte do exército birmano para evitar que os refugiados sejam atacados.

• Suu Kyi mostrou sua vasalagem ao império atlantista tentando remover os investidores das firmas chinesas e desestabilizando os projetos chineses (como a mencionada mina de cobre e a represa de Myitsone), criticando a MOGE (Empresa de Petróleo e Gás do Myanmar, nacional), enquanto fala maravilhas de petroleiras ocidentais como Chevron, Total, Shell e ConocoPhillips.

Depois de sua fama de "lutadora não violenta" e "ativista dos direitos humanos", Suu Kyi em realidade esconde uma mulher criada desde pequena ao amparo da diplomacia internacional, a qual jamais se havia posto a mão sobre — diferente de dezenas de milhares de birmanos — e que havia elogiado sua "prisão" confortavelmente em sua própria e luxuosa casa. O rosto de Suu Kyi é, em realidade, o da interferência do atlantismo nos assuntos internos do continente eurasiático, numa projeção de "poder brando" em consonância com uma opinião pública ocidental decadente, pacifista e afeminada, e na perseguição das etnias que discordam da globalização no Sudeste Asiático, como os muçulmanos rohingya, aos quais Suu Kyi não considera sequer cidadãos birmanos, expostos ao saque e ao abuso por parte de grupos radicais budistas. A revista "Time" é propriedade do mega-consórcio midiático Time Warner Inc. de Manhattan, o segundo gigante mundial dos meios de comunicação depois da Disney.

A queda do Império Britânico foi compensada pela manutenção do sútil império plutocrático da City de Londres. A Birmânia pertenceu ao Reino Unido durante a era colonial, o pai de Suu Kyi "negociou" a independência da Birmânia com os britânicos, e ela mesma não podia deixar de prestar homenagem a seus verdadeiros mestres. Aqui pode ser vista com a família real britânica.

Existem outros pontos sensíveis e frentes de desestabilização na Birmânia:

• As Ilhas Cocos pertencem a Birmânia e, junto com as Ilhas Andamão e Ilhas Nicobar (Índia), das quais estão separadas por apenas 18 km, separam o chamado Mar de Andamão do resto do Golfo de Bengala. As Ilhas Coco pertencem de fato a China, que havia construído importantes infraestruturas de reconhecimento e Inteligência eletrônica, dando a Pequim não só a possibilidade de monitorar todo o tráfego marítimo do entorno, mas também de espionar as atividades militares da Índia, incluindo testes de mísseis.

O arco de Andamão. Se a China possui instalações militares e de espionagem nas Ilhas Cocos, a Índia possui instalações comparáveis nas Ilhas Andamão, a somente 18 km. As ilhas Coco, Andamão e Nicobar (Chowara) formam um cinturão insular que tende a fazer uma ponte entre a Birmânia e a província autonoma indonésia de Achém, castigada tanto pelo tsunami de 2004 como pelo terrorismo e a Sharia islâmica. Achém também abriga uma base militar estadounidense, a Sultan Iskandar Muda Air Force Base. O arco de Andamão preside a entrada ao estreito de Málaca desde o Ocidente. O estado de Rakhine pode ser considerado como uma prolongação do arco. Tal como o Cinturão de Fogo do Pacífico, o Arco de Andamão coincide com uma falha geológica.

• Os projetos hídricos chineses são outro vetor de penetração da influência de Pequim na Birmânia que o atlantismo tenta frustrar a todo custo. Há ao menos 45 multinacionais chinesas envolvidas em 63 projetos hidroelétricos na Birmânia. A China reúne capacidade no controle das águas desde milênios, e não só na construção de barragens, mas também no controle de inundações, escavações de canais e condicionamento de rios para a navegação. A interferência do atlantismo nos "assuntos hídricos" da China tem sido particularmente evidente no caso da barragem de Myitsone, no rio Irrawaddy, no instável estado de Kachin, ao norte do país. A barragem, destinada a ser o décima quinta maior do mundo, e poderia produzir de 3.600 a 6.000 megawatts de eletricidade (compara-se com a central térmica de Las Puntes na Espanha, com 2.200 MW, a maior chaminé da Europa e com poluição sendo despejada continuamente), principalmente para o uso chinês (pagando impostos ao governo birmano) na província de Yunnan. A China havia previsto o custo da obra em mais de 4 bilhões de dólares.

O projeto pronto se converteu num pivô diplomático para os EUA e a "comunidade internacional". Várias ONGs estadounidenses, junto com Suu Kyi, conspiraram para deter o desenvolvimento dos rios birmanos por parte da China, especialmente a barragem de Myitsone: a Kachin Development Networking Group e a Burma River Network, esta apoiada pela International Rivers, por sua vez financiada pelas "fundações" como a Ford Foundation, Sigrid Rausing Trust, Tides Foundation e a Open Society Institute (agora chamada Open Society Foundations ou OSF) de George Soros. Os motivos que alegaram foram "sociais" e "ambientais". É inegável que a civilização moderna está carregando o planeta com a falácia do "crescimento econômico" e com seus projetos heréticos de domínio da Natureza sem submeter-se a ela, mas o que chama a atenção aqui é a contradição destes organismos: enquanto que os EUA mantem 75.000 barragens, parece que a Birmânia não pode construir mais de 40 sem deixar nervosos Wall Street e a City.

Localização do rio Irrawaddy e da represa de Myitsone, no estado de Kachin.

Diz um revelador artigo intitulado "The fruits of globalization: regression, destitution, domination" de Tony Cartalucci, analista geopolítico baseado em Bangkok:

"Naturalmente, a razão primária pelo quais os globalistas financiam as ONGs da 'sociedade civil' é para subverter e substituir totalmente o governo soberano funcional de uma nação designada. Então entrelaçam sua 'sociedade civils com uma rede de administração global homogênea que, por sua vez, responde a 'instituições internacionais' artificiais, como o Tribunal Criminal Internacional ou a ONU. Quando se estabelece plenamente o financiamento estrangeiro, este Estado assume a agenda de seus patrocinadores estrangeiros, geralmente sob a cobertura de inquietudes sobre direitos humanos ou meio ambiente, ou no caso da barragem de Myitsone, de ambos".

Suu Kyi não podia faltar a este evento tão crucial e fez o que pode para agitar contra a construção da obra. Em Abril de 2011, dez bombas explodiram perto da barragem, e em Setembro, a britânica BBC pôde anunciar orgulhosamente colocar em "standby" o projeto hídrico, agradecendo a vários atores regionais, incluindo a Kachin Independence Organization (milícia separatista de Kachin), empenhados, graças ao dinheiro da Foreign Social Development Aid e similares quimeras, na balcanização da Birmânia. Meses depois, o "Wall Street Journal" (17/11/2011) denominaria a Birmânia de "o último grande mercado da fronteira da Ásia", descrevendo seu "potencial" como "muito grande para que os investidores a ignorem".

A detenção do projeto hidroelétrico foi claramente o pedágio que teve que pagar a diplomacia birmana para congraciar-se com o Ocidente. Quando Naypyidaw (a capital birmana) levou a sério a medida, seguramente intimidada já pela fulminante destruição da Líbia, os EUA optaram por aprovar os "esforços em democratizar" da Junta militar birmana, removendo o país de sua lista de inimigos mortais, pondo um embaixador pela primeira vez em 22 anos e mandando a Secretária de Estado Hillary Clinton em soporífera visita oficial. Clinton inclusive chegou a declarar: "Hoje dizemos ao negócio americano: invistam na Birmânia!" (NYT, 17/5/2012), sugerindo que "finalmente" o país havia se "aberto" ao comércio internacional. Pouco depois, o britânico William Hague fez outro tour diplomático, sendo o primeiro ministro de assuntos exteriores de seu país a visitar Birmania em 56 anos.

Desde o acontecimento crucial em 2011, as autoridades birmanas haviam começado a vender edifícios governamentais, instalações portuárias, suas linhas aéreas nacionais, minas, terras de cultivo, a rede de distribuição de combustível e as fábricas de refrescos, cigarros e bicicletas. Inclusive se abriram aos poucos as portas da saúde e da educação aos investidores privados. Também se aprovou uma lei de investimento estrangeiro para permitir a entrada de bancos e companhias de telecomunicações. A Birmânia inclusive tem sido eleita para acolher a cúpula da ASEAN em 2014 e sua integração na organização começará em 2015.

Apesar destes gestos, os EUA renovaram em 2012 as sanções econômicas contra a Birmânia, possivelmente em parte devido as boas relações do país com o proscrito da globalização, a Coreia do Norte, e definitivamente também porque a China segue adiante com o gasoduto.

Kachin é um dos estados birmanos fronteiriços com a China. Este estado em particular é cruzado por vários rios de origem tibetana, nos quais a Asia World Company, a China Power Investment Corporation e o Ministério de Energia Elétrica da Birmânia estão ativamente implicados em diversos projetos hídricos. Por Kachin também transitariam todos os projetos energéticos e comerciais sino-birmanos que temos visto (gasoduto, oleoduto, estradas, ferrovias, corredor comercial). É suficiente dizer que, num esforço por romper o elo natural formado pelos rios sino-birmanos, Kachin está sendo desestabilizada pela chamada Kachin Independence Organization (KIO), uma guerrilha separatista.

O projeto de Dawei. A construção pelos japoneses de uma ponte sobre o rio Kwai em 1942-43 — utilizando como mão de obra escrava os prisioneiros aliados para completar a chamada ferrovia da morte — é um dramático testemunho histórico sobre as dificuldades geográficas na fronteira birmano-siamesa. Sete décadas depois daqueles eventos, o Japão voltou à região, desta vez como patrocinador de um novo corredor comercial no qual a cidade costeira birmana de Dawei (antiga Tavoy) será uma importante chave. Dawei se encontra em uma região isolada e pouco desenvolvida da Birmânia, que só recentemente se relacionou com o resto do país com uma ferrovia e uma estrada. Contudo, num futuro próximo, Dawei pode converter-se em um dos extremos de uma ponte terrestre que viria a ser uma versão mais setentrional do canal de Kra, para conectar-se, entre outros, com um porto tailandês desenvolvido pela China, o Laem Chabang, mencionado acima. De momento, um navio leva 10 dias de Laem Chabang aos portos orientais da Índia. O projeto de Dawei poderia encurtar a viagem em três dias. E se falamos de mercadorias chinesas e japonesas, o recorte é ainda maior graças aos prolongamentos do corredor no Camboja e Vietnã.

Quando Henry Kissinger convenceu Nixon para empreender sua campanha de bombardeios secretos no Camboja, provavelmente teria em mente evitar que se chegasse a consolidar, especialmente sob influência soviética, um espaço econômico similar ao que vemos na imagem. Esse corredor comercial evita o fatal, pirateado e congestionado Estreito de Málaca e seu guardião regional, Singapura, ofertando ao comércio internacional uma rota muito mais curta e rápida entre o Mar do Sul da China e o Índico. O Arco de Andamão adquirirá enorme importância se este projeto levar-se ao término com êxito. Se prevê promulgar leis para converter Dawei em uma Zona Econômica Especial — a primeira da Birmânia. Nota-se também o projeto tailandês de construir uma ferrovia desde Pak Bara até Kunming, que pode ser interpretado como outra estratégia da China para saltar ao estreito de Málaca, diversificar suas rotas e isolar Singapura. Nota-se como Bangkok se encontra na encruzilhada das rotas. 

Como parte de um projeto de dez anos, um total de 80 bilhões de dólares e que dará trabalho a 30.000 trabalhadores, prosseguem as escavações de vinte túneis nas montanhas da complicada fronteira birmano-siamesa, esvaziando-se 40 mil hectares de terreno em Dawei (incluindo 250 quilômetros quadrados para indústrias) que serão preenchidos com refinarias, complexos petroquímicos, usinas, rodovias, ferrovias, oleodutos, gasodutos e um porto de águas profundas. O principal promotor do projeto é a Ital-Thai Industrial Co., uma multinacional sediada na Tailândia e com participação italiana, mas também tem a participação do veterano Japão, que já se faz presente na Birmânia através de multinacionais como Hitachi, Marubeni e Sojitz, e que também está hereticamente interessado em diversificar suas rotas comerciais, bastante dependentes de Málaca. Esta tendência de Tóquio a envolver-se na Lestásia (Ásia Oriental) nunca havia sido do agrado do atlantismo.

É de se prever que o atlantismo alimentará insurgências locais em pleno corredor comercial, especialmente a guerrilha separatista de Karen na Birmânia, que controla parte da região por onde passará a estrada. O atlantismo seguramente assustará os investidores questionando a confiança do Estado birmano, apresentará dúvidas ambientais e trará a questão dos direitos humanos da população local deslocada pelas obras. Se o projeto de Dawei e o corredor comercial ao Mar do Sul da China chegar a se completar, toda a paisagem do comércio internacional mudará drasticamente e as fichas do Sudeste Asiático serão reorganizadas de forma radical. [19]

Como temos visto, a Birmânia é simplesmente a rota mais curta desde os grandes centros econômicos chineses até o Índico. Tem quase 15.000 km de costa no Índico, quase tanto como os 17.000 km da vizinha Índia. Como tal, é inegável que ao eixo atlantista convém a desestabilização e/ou bloqueio e/ou conquista diplomático-comercial do país, assim como convém a desestabilização do Paquistão. Os motivos são idênticos: evitar que a China obtenha a saída pelo Índico sobrepassando o estreito de Málaca e seu parasita financeiro Singapura, e frustrar a construção de um bloco regional econômico controlado por Pequim — um império chinês bi-oceânico (indopacífico). O atlantismo manipula todos os elementos possíveis na zona (diferenças étnicas e religiosas, grupos terroristas, fundamentalismo, atentados, milícias narcoguerrilheiras, sabotagem de projetos hídricos chineses etc.) e nada satisfaria mais Washington se a Birmania se instabilizar-se ao ponto de que tivesse que estabelecer uma base militar estadunidense no país — quanto mais perto das plantações de ópio na fronteira com a China, melhor. E, como ocorre na Colômbia ou no Afeganistão, essa presença militar não reduziria totalmente o narcotráfico, mas o impulsionaria. Se a isto somarmos que a Birmânia é rica em petróleo, gás natural, carbono, zinco, cobre, níquel, pedras preciosas, lenha e potencial hidroelétrico (quase 40.000 megawatts), assim como depósitos de urânio, o panorama se complica mais.

As intenções do atlantismo no Sul da Ásia provavelmente caminham na direção de roubar o gás da Ásia Central e do Cáspio e mandá-lo ao Índico e Sudeste Asiático, para unir a Índia com a ASEAN, criando um bloco regional que detenha o avanço da China pelo Sul. Contudo, seria necessário que mudasse muito o clima geopolítico na região para que isto ocorra. A principal multinacional interessada neste projeto seria a Unocal (atualmente parte da Chevron, uma das muitas filhas da antiga Standard Oil dos Rockefeller), que possui ações na maioria dos gasodutos e que tem estado muito envolvida no Afeganistão.

BANGLADESH = O PESCOÇO DE FRANGO

O que melhor descreve a importância de Bangladesh não é tanto sua extensão, mas sua população: o país tem 150 milhões de habitantes (a maioria muçulmanos), mais que a vasta Rússia. Tem, portanto, a duvidosa honra de ser dos Estados mais densamente povoados do mundo, algo representativo da reprodução irresponsável e desmensurada do Terceiro Mundo. Esta praga de crescimento demográfico e reprodução da pobreza está em plena sintonia social com sua contrapartida econômica: crescimento indefinido, mão de obra barata e dumping social, com o objetivo de que as multinacionais escravistas (incluindo a espanhola Inditex) possam vender às massas consumistas e zumbis do Ocidente um produto, geralmente têxtil, made in Bangladesh. O sistema capitalista neoliberal e globalista baseado no Ocidente é muito sensível ao que se sucede nos países como este. Acrescente a isso que Bangladesh é totalmente dependente do rio Ganges, cujas fontes são controladas pela Índia, e temos uma receita interessante para o conflito e as más vibrações geopolíticas.

As cenas acima são da capital Dhaka, mas poderiam perfeitamente ser de Calcutá ou qualquer outra cidade superpopulosa do sul da Ásia. A multiplicação humana e massificação insana que tem lugar nesta região é muito representativa de uma civilização que só pode sustentar-se artificialmente a base de cereais, hidrocarbonetos, dívidas, consumismo, contaminação, condições de vida miseráveis, escravidão, vulgarização racial e outros becos sem saída da evolução humana, agrupados sobre a eufemística etiqueta do "desenvolvimento sustentável". Este quadro social convém a Alta Finança: quando uma maioria se faz muito pobre, inevitavelmente uma minoria se faz muito rica. Equiparar 150 milhões de pessoas ao nível de vida da classe média do Ocidente não seria sustável em um país como Bangladesh [20].

Bangladesh, a rota mais curta do Tibete ao Índico, tem uma história muito entrelaçada a antiga tradição hindu (mencionada no "Ramayana" e "Mahabharata"), aos sultãos islâmicos medievais de Bengala, a Companhia Britânica das Índias Orientais (conquistada em 1757) e as três potências nucleares modernas: China, Índia e Paquistão. O país se constituiu com o nome de "Paquistão Oriental" em 1947, sob a mesma autoridade estatal do "Paquistão Ocidental", até que uma cruel guerra os separou definitivamente em 1971.

Junto com Paquistão e Sri Lanka, Bangladesh ou "País de Bengala", é resultado da intriga britânica. Atormentando a Índia com os países muçulmanos e promovendo as lutas sectárias dentro da própria Índia, Londres evitava a aparição de um Estado hindu claramente hegemônico no Índico e sul da Ásia. No caso de Bangladesh, seu papel consiste em arrebatar à Índia uma terra plana, fértil e de costa muito acessível, que poderia unir facilmente a Índia propriamente dita com suas problemáticas e isoladas províncias orientais. Devido à Bangladesh, estas províncias só são unidas a Índia por uma faixa de 30 km de largura: o Corredor de Siliguri, também chamado de "pescoço de frango".

As províncias do noroeste da Índia, chamadas as "Sete Irmãs", formam uma região problemática (insurgências guerrilheiras, conflitos territoriais com a China, microclima, isolada) de 40 milhões de habitantes, se encontra separada do resto do país pelo corredor de Siliguri ou "Pescoço de Frango" (circulo vermelho), um estreito corredor estreitado entre Nepal e Bangladesh, cujo domínio deve de ser uma enorme tentação para Dhaka e, através dela, para Pequim. Por "culpa" da Índia, a fronteira bangladeshiana se encontra a 22 km de Nepal, 30 km do Butão e 100 km da China. Compartilhar fronteiras com estes países faria de Bangladesh uma rota privilegiada de trânsito da China até o Índico, e de fato, nos tempos da Rota da Seda, por Bangladesh transitava uma importante ramificação terrestre que a conectava à Rota das Especiarias. Tecnicamente, Bangladesh é a saída marítima natural das sete províncias hindus.

Outro aspecto da interação entre Bangladesh e Paquistão é a tendência a utilizar as populações muçulmanas da Índia (com cerca de 180 milhões de muçulmanos, a Índia é o terceiro país islâmico do mundo, depois de Indonésia e Paquistão) — especialmente as do arco superpopuloso em torno da cordilheira do Himalaia — como ponte entre ambos os países, tendendo a separar a Índia da China (no Cinturão de Gelo) e a criar uma ponte terrestre entre o Mar Arábico e o Golfo de Bengala. Este conceito geopolítico havia recebido o nome de Mogulistão ou Mugalstão. Não é de estranhar, portanto, que o wahhabismo-salafismo (a mesma marca do Islã da Al-Qaeda) havia sido exportado tanto para Bangladesh quanto ao Nepal e Caxemira, estabelecendo numerosas madrassas e mesquitas irrigadas abundantemente com petrodólares sauditas. Possível meta: a paquistanização da Índia.

Populações muçulmanas da Índia. Estas populações tendem a criar uma ponte entre Bangladesh e Paquistão, isolando catastroficamente a Índia do resto da Eurásia. Esta ponte se prolonga pelo Rakhine, estratégico estado birmano, e através do Arco de Andamão, salta para a Indonésia.

Tanto o Corredor de Siliguri como Sikkim, Nepal, Butão, Arunachal Pradesh, planície do Ganges, Caxemira, diversos territórios contestados e vários parques naturais, formam parte do Cinturão de Gelo, uma faixa geográfica que tende a conter a China no Sul e no Oeste. O Mogulistão também poderia chegar a ser uma jogada mestra da China para isolar a sua rival hindu, mas em razão da manipulação do fundamentalismo islâmico pelo atlantismo é de se prever que estas populações muçulmanas sejam utilizadas como pivô para as manobras geopolíticas do eixo atlantista. O Mugalistão seria um Estado que ofereceria ao comércio internacional a passagem do Mar Arábio ao Golfo de Bengala evitando expressamente a Índia e o Sri Lanka, assim como do Índico à China sem passar por Málaca. O Mogulistão tenderia a conectar com Rakhine, as Ilhas Andamão, as Ilhas Nicobar e Achém na Indonésia, para erigir uma definitiva barreira em torno do estreito de Málaca.

Por estes motivos, não é de estranhar que a universidade bangladeshiana de Jahangir Nagar tenha criado um tal de Mughalistan Research Institute (MRI), patrocinado tanto pelos serviços de Inteligência do Paquistão (ISI) quanto de Bangladesh (DGFI e NSI). Isto pode se inserir nos planos da antiga Operação Tupac (1988), do antigo presidente paquistanês Zia ul-Haq, para balcanizar a Índia. Nesta mesma linha, o Movimento dos Estudantes Muçulmanos da Índia (SIMI) e os mujahideens da Índia trabalham com as mencionadas organizações para levar a Jihad contra os hindus em toda a Índia. Grupos fundamentalistas da Índia como Jamaat e-Islami, Lashkar e-Tayyaba, Jaish e-Mohammad e Hizbul Mujahideen haviam prestado seu apoio a estes esforços, declarando abertamente que os hindus são inimigos do Islã aos que tem que converter/matar, e que seu objetivo é a destruição da República hindu e a aniquilação do hinduísmo. Estes grupos haviam detonado numerosas bombas na Índia e seu ódio ao hinduísmo é maior que o que possam ter aos cristãos, judeus ou muçulmanos xiitas, já que os hindus não são "gente do livro" (Bíblia) e veneram a vaca, algo incompatível com o ritual Halal.

Tudo isto forma parte de uma guerra etno-religiosa que há décadas escala todo o Indostão. Uma rápida busca da frase "Hindu Muslim atrocities" no Google Imagens nos brindará de testemunhos gráficos dos quais nunca se fala nos meios de comunicação do Ocidente — entre outras coisas, porque a Europa já se encontra em uma situação precursora a da Índia. É muito difícil que este preocupante quadro cultivado por serviços de Inteligência e poderosos interesses econômicos termine bem.

A situação geobloqueante da Índia em relação a Bangladesh reside no fato de que a última está rodeada pela Índia em toda sua fronteira, salvo um pequeno segmento fronteiriço que compartilha com o mencionado estado birmano de Rakhine. Também, como nação-delta fluvial que é, depende da Índia pelo trânsito de 54 rios compartilhados. O fato de depender de vários rios, mas não controlar suas fontes é sempre motivo de tensões, como no caso do Egito com a Etiópia ou Israel com a Síria. Bastaria que Nova Deli fizesse algo em um dos vários rios (por exemplo, uma barragem ou desvio, ou contaminá-los) para que Bangladesh mergulhe na fome. Estar cruzada por tantos rios converte Bangladesh em arquipélago em potência, bastando a um inimigo arrasar suas pontes ("objetivos de uso dual"), como fez Henry Kissinger no Camboja. Outra extraordinária fraqueza natural de Bangladesh é o baixo nível de seu território: qualquer flutuação do nível marinho, qualquer inundação ou maremoto, tem no país efeitos devastadores e poderá algum dia desencadear uma avalanche de dezenas de milhões de refugiados. Além do mais, sua topografía excessivamente plana carece de barreiras naturais que a protejam em caso de enfrentamento militar.

A nação bengaliana segundo os nacionalistas. Em verde: Bangladesh atual. Em vermelho: territórios reivindicados (Bengala Ocidental, incluindo Calcutá, a maior cidade e o porto mais importante da Índia). Nota-se que, ao norte, os territórios reivindicados separariam as Sete Irmãs do resto da Índia — colocando estas províncias hindus sob a influência de Dhaka e Pequim — e conectariam Bangladesh com Nepal, Butão e China, dando-lhe mais projeção internacional. Isto supõe, sem dúvida, uma grande tentação para Dhaka e seguramente para Pequim. Juntas, Bangladesh (a antiga Bengala Oriental do Paquistão) e o estado hindu da Bengala Ocidental, somam 240 milhões de habitantes.

Existem dois exemplos que resumem as tendências dos dois vizinhos de Bangladesh. A primeira, típica de uma estrategia marítima, é que o porto hindu de Calcutá se dedique a travar laços com o porto birmano de Sittwe, negando diretamente à Bangladesh, que pode se ver tentada a considerar o estado de Rakhine como um prolongamento natural de seu território e aos muçulmanos rohingya como bangladeshianos oprimidos por uma nação estrangeira. A segunda tendência, mais lógica sob o ponto de vista eurasiático-continentalista, é que Bangladesh se converta em zona de passagem entre o Indostão e a Lestásia. Três mapas ilustram essas diversas possibilidades.

Projeto de gasoduto MBI (Mianmar-Bangladesh-Índia), o plano para transportar gás natural desde o campo gasífero birmano de Shwe (situado em frente à Sittwe) até Calcutá (maior cidade e mais importante porto da Índia), passando por Bangladesh. A Índia teria que pagar um imposto a Bangladesh por ser a rota de trânsito, mas isto resultaria mais barato que contornar Bangladesh pelas problemáticas províncias do Noroeste e pelo estreito corredor de Siliguri. O gasoduto, que acalmaria a paranoia de Dhaka de ser cercada pela Índia, ajudaria em boa medida a melhorar as relações regionais, razão pela qual é de esperar que encontre oposição no atlantismo e que todo o estado birmano de Rakhine sofra de desestabilização artificial ou até que tente se separar da Birmânia.

Sua situação no Golfo de Bengala faz com que Bangladesh seja facilmente torturado pela Índia e Birmânia, por exemplo, devido aos laços portuários e de tráfico marítimo entre Calcutá e Sittwe. A resposta bangladeshina para não ficar marginalizada é fortalecer o porto de Chittagong como pérola chinesa e converter-se em zona de trânsito terrestre entre a Birmânia e a Índia (ver abaixo). Tanto Chittagong como Sonadia são pérolas do colar chinês.

Depois de ver um pouco o panorama geopolítico do Índico e do Colar de Pérolas na primeira e segunda partes desta série de artigos, podemos entender que Bangladesh seja também um prolongamento natural dos possíveis gasodutos TAPI e IPI (este último, por sua vez, prolongamento do ambicioso Gasoduto Islâmico). O IPI, um projeto detestado pelos EUA, já que vertebra o sul da Ásia com gás natural iraniano, havia sido aceito pelo Paquistão, que o levará adiante com ou sem a Índia (que se retirou do projeto em 2009 diante das pressões de Washington). O TAPI, favorito dos EUA ao drenar a Ásia Central (antigo feudo russo) de recursos energéticos e cortar as saídas orientais do Irã roubando-lhe mercado, havia sido aceito por Bangladesh.

A China não havia ignorado a importância estratégica de Bangladesh e se apressara em incorporar-la ao seu Colar de Pérolas. Existem em Bangladesh duas pérolas do colar chinês. A primeira é o porto de Chittagong, ao sudeste do país. Chittagong é uma das cidades de crescimento mais rápido do mundo, além de porto de trânsito para 90% das importações-exportações bangladeshianas (principalmente de produtos têxteis para o Ocidente) e a saída natural para todo o sul da Ásia privada do acesso ao mar: Tibete, Butão, o Turquestão chinês, as Sete Províncias hindus, Nepal e algumas regiões da Birmânia ocidental. A China Harbour Company, em colaboração com as autoridades bangladeshianas, haviam investido em torno de 9 bilhões de dólares para transformar toda a costa sudeste do país e para desenvolver em Chittagong um porto de águas profundas, vários terminais comerciais para contêineres, uma ponte de 950 metros, um túnel subfluvial, um parque industrial e até uma estrada que conecta Chittagong a Kunming através da Birmânia. Vale a pena destacar que muitas destas infraestruturas são de uso dual (tanto civil quanto militar) e podem abrigar as armadas tanto de China quanto de Bangladesh. A natureza estratégica destes projetos permaneceu abundantemente clara quando o tenente coronel Moazzem Hossain, chefe de segurança da autoridade portuária de Chittagong, que havia estudado os portos de Le Havre (França) e Hamburgo (Alemanha), declarou sem mais nem menos que "Nossa intenção é substituir o porto de Singapura". Isto não será recebido muito bem nas oficinas da mafiosa da Port of Singapore Authority International (PSA), que muito recentemente havia perdido posições no porto paquistanês de Gwadar, em benefício da China Overseas Port Holding Authority (COPH).

Projeto para unir a cidade chinesa de Kunming (destinada a converter-se em um dos hubs comerciais mais importantes da China) com o porto bangladeshiano de Chittagong, uma das pérolas do colar chinês.

A outra pérola chinesa em Bangladesh é Sonadia, uma ilha perto da cidade de Cox's Bazar, na qual a China havia investido 5 bilhões de dólares para construir um espetacular porto de águas profundas. Sonadia se conectará com Chittagong e Kunming, previsivelmente através da Birmânia, para converter-se em outra cabeça de ponte alternativa a Singapura.

Existe outro atrativo estratégico, menos conhecido, de Bangladesh: o país se encontra repleto de reservas de gás natural, estimadas em 90-225 bilhões de metros cúbicos. Em comparação, o recentemente descoberto mastodôntico campo gasífero israelita de Leviatã tem 400 bilhões de metros cúbicos de gás. É certo que Bangladesh não pode comparar-se em termos energéticos com Rússia, Irã ou Qatar, mas segue sendo um baluarte bastante chamativo, especialmente tendo em conta que Bangladesh não tem meios de produção adequados para a exploração de seu gás e que é previsível que convide multinacionais estrangeiras.

Neste mapa vemos os distintos portos que a China deseja controlar para estreitar corredores comerciais que reduzam custos e tempo e a liberem de depender de Singapura. Além do mais, tenderiam a deslocar o núcleo econômico chinês da costa (por exemplo, Xangai e Hong Kong) para o interior continental (por exemplo, Chongqing e Kunming), onde a influência das potências oceânicas sempre será mais deficiente. Com vistas a isso, a China está investindo muito no estratégico setor de transportes no Paquistão, Bangladesh, Birmânia, Nepal e Butão. Todos estes países contornam… a Índia, que se encontra justamente no meio das rotas energéticas chinesas.

SRI LANKA  — A PONTE DE RAMA

A antiga Ceilão portuguesa é, como o Paquistão e Bangladesh, outro Estado geobloqueante para a Índia, separada do Indostão pelo delicado estreito de Palk. Sri Lanka separa também a costa ocidental hindu da oriental, já que o estreito de Palk não é transitável por embarcações de grande porte, que devem contornar Sri Lanka pelo sul. A antiga epopeia hindu do Ramáiana já menciona a "ilha de Lanka" e a luta entre o rei Rama, do norte da Índia, contra Ravana, o monarca local. Rama haveria ganho a guerra ao construir uma ponte de pedra entre a Índia continental e a ilha de Lanka. No Ocidente, os navegantes gregos conheciam a ilha como Taprobane. Hoje, Sri Lanka é, segundo o US Economist Intelligence Unit, a segunda economia asiática de maior crescimento depois da China. Cerca de 36.000 navios passam a cada ano através de Hambantota, incluindo 4.500 petroleiros. E 85% das importações energéticas chinesas do Oriente Médio e grandes riquezas minerais da África passam pelo Sri Lanka.

Depois de formar parte do colar de pérolas português, o Ceilão passou, mediante guerra, às mãos da Companhia Holandesa das Índias Orientais, em 1656. Durante breves períodos, a França ocupou militarmente alguns fortes ou portos. Em 1796, os ingleses tomaram a ilha temendo que, depois da invasão francesa da Holanda, esta pudesse passar ao controle de Paris. Desde então até a época colonial, Sri Lanka esteve sujeito à influência britânica, que se beneficiou das riquezas naturais da ilha, como o chá, a borracha, as especiarias, as pedras preciosas e as argilas. O Ceilão também possuía (e possui) alguns dos maiores jardins de ervas do planeta e uma vasta seleção de plantas medicinais. Durante a Segunda Guerra Mundial, depois da queda de Singapura em mãos do Império Japonês, Trincomalee — possivelmente o melhor porto natural do Índico — se converteu na principal base da Frota Leste da Marinha Real Britânica (Royal Navy), assim como de submarinos holandeses. O porto e o aeródromo chegaram a ser atacados pelos japoneses em 1942.

Em 1948, Sri Lanka se tornou independente, mas o Estado segue chamando-se oficialmente Royal British Ceylon Goverment e os britânicos continuariam possuindo seu valioso porto de Trincomalee até 1956. Ao longo dos anos 60, o país foi caindo sob a órbita da União Soviética e do Movimento Não Alinhado. Em 1971, uma estranha insurreição juvenil foi esmagada pelo governo de Colombo. A rebelião era dirigida por Rohana Wijeweera, uma espécie de Che Guevara cingalês (Sri Lanka foi o primeiro país da Ásia que reconheceu o triunfo da revolução cubana) que havia estudado em Moscou, mas, ao qual a União Soviética, devido a suas simpatias abertamente maoístas (portanto, mais alinhado da China), negou futuros vistos para viajar ao país. No Sri Lanka, Rohana Wijeweera se havia alinhado com a facção pró-chinesa do Partido Comunista, sendo acusado pela facção pró-soviética de ser um agente da CIA. No ano seguinte do falido golpe de Estado de Wijeweera, Sri Lanka se dotou de uma constituição, declarando-se república e denominando-se com seu nome atual.

Em seguida, as potências estrangeiras usaram das divisões étnicas de Sri Lanka para desestabilizar a desafortunada ilha e criar uma brecha geopolítica. O país tem uma minoria tâmil (relacionada, portanto, etnicamente com os hindus do outro lado do estreito de Palk) que com 2 milhões de membros conforma aproximadamente 9% da população do Sri Lanka. Os tâmis falam uma língua dravídica (pré-ariana). O resto da população cingalês ressalvada uma minoria árabe de 7,7%, é de etnia cingalesa (também chamada singalesa) e fala um dialeto indo-ariano. Os cingaleses são budistas em sua maior parte, enquanto que os tâmis são majoritariamente hinduístas.

Para sua desgraça, os tâmis são o que se poderia chamar de etnia estratégica. Dominando ambos os lados do estreito de Palk, influenciam decisivamente no tráfego marítimo desta região. No mapa vem representada a zona que durante décadas foi reivindicada pelos tigres tâmis como pátria tâmil, independente do governo de Colombo. O antigo porto britânico de Trincomalee se encontra nesta zona. Os tigres tâmis receberam apoio logístico, armamentístico e de outros tipos, por parte dos EUA, Reino Unido, Noruega e o atlantismo em geral. O império chola, de origem tâmil, dá uma ideia acerca da projeção estratégica desta etnia. Interessantemente, a região reivindicada pelos tigres tâmis coincide essencialmente com a bacia de Kaveri, onde existem importantes depósitos de petróleo e gás natural.

A desestabilização da etnia tâmil vem das mãos dos Tigres de Liberação do Tamil Eelam (LTTE), mais conhecidos como tigres tâmis. A organização não só era uma frente guerrilheira e um exército, mas tinha também um braço terrorista que causou numerosos atentados tanto na Índia quanto no Sri Lanka, um ramo naval ("tigres do mar") que destruiu de 35 a 50% das embarcações costeiras cingalesas e até a pouco era o único grupo insurgente do mundo que mantinha uma força aérea ("tigres do céu"). Muitos governos e agências de segurança consideram os tigres tâmis como um dos grupos terroristas mais implacáveis e melhor organizados do mundo. O LTTE utilizou sem escrúpulos escudos humanos, atentados a bomba em lugares públicos, limpeza étnica, pirataria e são acusados de assassinar 8.000 compatriotas tâmis considerados traidores de sua causa.

Tanto a Rússia quanto o Irã, China e Cuba apoiaram o governo de Colombo em sua luta contra o LTTE. Os EUA, Reino Unido, Índia, Japão, Austrália e a União Europeia em geral, haviam apoiado a LTTE, já de forma aberta ou de forma encoberta. A Noruega havia proporcionado asilo político a numerosos quadros diretivos da organização terrorista.

A insurgência do LTTE supôs um sanguinário e longo conflito intermitente, a Guerra Civil de Eelam (1983-2009), que desestabilizou gravemente o estreito de Palk. 2007 foi um ano chave: Pequim firmou um acordo naval com Colombo para desenvolver o porto de Hambantota e Moscou mandou como assessor militar o coronel-general Moltenskoy, que já havia lutado contra um movimento similar ao LTTE na Chechênia. Além do mais, os EUA firmaram um acordo parecido, havendo posto os LTTE em sua lista de organizações terroristas, provavelmente com a esperança de ganhar influência no governo cingalês, mandar assessores de antiterrorismo e conectar-se a Trincomalee como estação de abastecimento e apoio logístico para sua Sétima Frota, localizada na ilha Diego Garcia. Em 2009, com ajuda militar chinesa e russa, Velupillai Prabhakaran, o líder do LTTE, foi abatido pelo exército do Sri Lanka e o país entrou na Organização para Cooperação de Xangai (OCX), que inclui Rússia, China, Bielorrússia, Mongólia e Irã, entre outros.

A relação de Sri Lanka com o Colar de Pérolas chinês se concentra na cidade costeira de Hambantota, ao sul da ilha, um dos portos naturais mais privilegiados do Índico, onde a China havia investido somas astronômicas de dinheiro para desenvolver um porto de águas profundas. A China é também a força motora de uma usina de carbono de 1,3 mil milhão de dólares em Putalão, outro estratégico porto natural que anima os cidadãos tâmis e/ou muçulmanos a irem para a Austrália de barco. A Torre do Loto em Colombo é outro chamativo projeto chinês no Sri Lanka.

A Índia tem seus próprios interesses no Sri Lanka, especialmente no Trincomalee e no projeto do canal de Sethusamudram. As águas do estreito de Palk são pouco profundas e estão completas de recifes, de modo que as embarcações pequenas, especialmente pesqueiras, não têm problemas na hora de atravessá-lo, mas é uma via impossível para as grandes embarcações (especialmente petroleiras e de transporte de gás natural liquefeito e similares). A Índia, durante muito tempo, havia ressentido o fato de que o tráfego marítimo passasse principalmente à costa sul do Sri Lanka, e espera que construindo um canal, os barcos se aproximem mais de suas costas. Espera também poder unir suas costas leste e oeste com uma rota marítima navegável e sem sair de suas águas territoriais. O projeto havia encontrado oposição de tipo ambientalista (em teoria porque geraria uma nova corrente marinha, que faria da Índia mais vulnerável a "tsunamis e outras catástrofes naturais" e destruiria formações de coral) e até religioso (romper a ponte de Rama seria uma espécie de sacrilégio para muitos hinduístas devotos). Não se pode negar que esta tendência humana de reorganizar a Natureza com fins econômicos seja perniciosa tanto para o planeta quanto para a humanidade, mas não é menos certo que estas objeções nunca foram de peso na hora de construir o canal de Suez ou do Panamá.

Projeto do canal de Sethusamudram. Escavar um canal no estreito de Palk, rompendo a ponte de Rama, economizaria uns 650 quilômetros de trajeto aos navios de grande porte, atrairia o tráfego marítimo para as costas hindus e daria um grande impulso à região tâmil que, recordamos, se encontra a ambos os lados do estreito. As águas territoriais hindus deixariam de estar partidas em duas e a Índia poderia passar do Mar Árabe ao Golfo de Bengala sem sair de suas águas territoriais (até agora deve dar uma volta pelo Sri Lanka, ver aqui). O final da guerra civil do Sri Lanka, em 2009, e a derrota dos tigres tâmis fazem com que este projeto seja atualmente mais viável. 

O Sri Lanka chega a 2013 como um país que não se submete gratuitamente aos ditames do FMI, que rejeita a interferência estrangeira em seus assuntos internos, assim como a privatização de empresas estatais (especialmente bancos estatais, aeroportos e infraestruturas elétricas), que experimenta um boom nos setores de agricultura e pesca e que mantêm boas relações com China, Rússia, Cuba, Brasil, Irã, Paquistão, Venezuela e o Movimento Não Alinhado em geral.

Colombo é também a peça central de uma arquitetura insular de segurança que abrange todo o Índico e que preside um denso tráfico marítimo. É particularmente chave para sua proximidade com as Maldivas (onde a China está estreitando importantes laços e deseja construir uma base naval) e com a ilha Diego García (base militar britânica concedida aos EUA). Durante a guerra indo-paquistanesa, em 1971, os EUA despacharam um porta-aviões para o Golfo de Bengala, em uma mostra de apoio a seu aliado paquistanês e na tentativa de intimidação a Nova Déli, até então aliada da União Soviética.

O porto cingalês de Hambantota se encontra em uma posição central entre os estreitos de Ormuz, Málaca e Mandeb e as penínsulas Árabe, Indochina, Indostão e Chifre da África, tendendo a partir o Índico em dois. Nota-se a relativa proximidade de Hambantota das Maldivas, da ilha Diego García (território britânico do Índico onde há uma base naval estadunidense) e das Ilhas Cocos e Ilha do Natal (pertencentes à Austrália). Pode ser ilustrativo comparar este mapa com o mapa das rotas que vimos na primeira parte desta série de artigos. Um rápido olhar às zonas econômicas exclusivas do Índico volta a mostrar até que ponto, para passar de Ormuz e Mandeb a Málaca, tem que se atravessar uma cadeia de ilhas da qual o Sri Lanka faz parte. A ilha tem também uma posição adequada para se tornar um centro de telecomunicações.

ROTA DA SEDA VS. ROTA DAS ESPECIARIAS, OU EURÁSIA VS. OCEANIA

A pior e mais antiga divisão de todas, a mãe de todas as balcanizações, a oposição entre o Yin e o Yang, entre o material e o espiritual, o instinto e a vontade, o inconsciente e o consciente, a intuição e a razão, o dionisíaco e o apolíneo, o feminino e o masculino. O continente eurasiático também reflete esta divisão, já que pode comparar-se aos hemisférios de um imenso cérebro. A Europa representa o hemisfério esquerdo, racional, lógico, científico e tecnológico, que havia herdado o pensamento linear e reto e que conserva a herança genética mais ativa e evoluída do planeta. A Ásia representa o hemisfério direito do cérebro, instintivo, intuitivo, que havia herdado o pensamento curvo, circular e cíclico, assim como as tradições, os mistérios e os rituais dos tempos antigos. Historicamente, a instintiva Ásia engoliu ao sangue e aos genes, enquanto que a racional Europa devorou ao espirito. Esta complementariedade pode ajudar aos povos do mundo, em particular os de origem europeia, a reencontrarem a si mesmos. O Ocidente pode fecundar terras asiáticas (especialmente a Sibéria, Cazaquistão e Mongólia) física, demográfica e economicamente, enquanto que a Ásia pode aportar suas heranças tradicionais para reacender a chama espiritual e moral no Ocidente — algo para o qual também há de contar com o Vaticano e a Igreja Ortodoxa, ou ao menos, com alguns setores destas instituições.

Lacuna Interhemisférica (elipse vermelha) e principais centros econômicos da Eurásia (elipses azuis). Este mapa representa o que Mackinder chamava de "Heartland" ou "Ilha Mundial": a continuidade terrestre da Eurásia-África. Um gigantesco passo na balcanização deste espaço foi o estabelecimento do Canal de Suez primeiro (onde a rota marítima corta a rota terrestre) e do Estado de Israel depois, que separarão ambas as unidades convertendo-as de fato em ilhas separadas e permitindo que o poder marítimo envolva ambas. De um ponto de vista telurocrático (continentalista e terrestre), o Sinai deveria ser uma ponte entre Eurásia e África, não um canal entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho. O segundo passo teria sido alimentar a Lacuna Interhemisférica, um eixo que separa o Grande Oriente do Grande Ocidente, e que inclui os campos petrolíferos russos de Nenets, os Urais, o território do antigo reino cazare (khazar), o Cáspio-Cáucaso, a Pentalásia (incluindo o Estado de Israel), o Golfo Pérsico, o Golfo de Adém e o Chifre da África. A Rússia e o Irã são os dois países-chave que neutralizam a lacuna interhemisférica, a Rússia por seu vasto território e o Irã por tender a obter uma saída ao Mediterrâneo, partindo a coluna em duas. Também a Grécia e as populações cristãs e xiitas do Oriente Médio tendem a neutralizar a coluna. Além do mais, se a Rússia e o Irã conseguirem conectar-se territorialmente através de espaços balcanizados (Cáucaso e Ásia Central) ou através do Cáspio, se formaria um eixo interhemisférico e o Rimland seria quebrado, o qual seria um desastre para as potências oceânicas do mundo.

Como se vê, em muitos sentidos, ambos os subcontinentes são antitéticos, mas em outros, se complementam em perfeição, especialmente quando concebemos a Rota da Seda como a coluna vertebral de um corpo, que "verticaliza" a Eurásia. Sobre este ponto de vista, a Ásia é o corpo principal, a Europa a cabeça e a Lacuna Interhemisférica o pescoço. A coroa da Eurásia se encontraria no espaço marítimo atlântico da Península Ibérica, de Ferrol à Cádis.

Os únicos países que podemos considerar propiamente eurasiáticos são Rússia, Grécia, Cazaquistão, Turquia e Azerbaijão. Mas basta uma rápida visualização num mapa para se dar conta de que todo o espaço entre a Europa e a China está minuciosamente balcanizado… exceto um. A Federação Russa é o único espaço comum eurasiático que proporciona continuidade territorial direta e estável entre ambos os polos da Eurásia. Portanto, em qualquer tipo de relação entre o Grande Ocidente e o Grande Oriente, é necessário contar com a Rússia. Particularmente delicada é a zona onde a Rússia se transforma em Oriente Médio e onde se entrecruzam o cristianismo ortodoxo, o Islã e o budismo, quer dizer, o espaço correspondente às repúblicas ex-soviéticas da Ásia Central e Cáucaso — ou como denominou Zbigniew Brzezinski, os Balcãs Eurasiáticos. Aqui a Rússia tem o grande trunfo, já que conhece os povos e dialetos desta região, que no passado havia administrado diretamente, e nela se fala russo e existem populações russas.

A Rússia também abrange a maior parte do Heartland da Eurásia, a chave do mundo material, o lugar onde domina o horizontal e a terra; onde o tempo, devorado pelo espaço, passa mais lentamente e onde a modernidade não acaba de penetrar de todo: no coração da Eurásia, as mudanças não se haviam produzido no mesmo ritmo que na Europa Ocidental ou na América do Norte. Não seria de estranhar, portanto, que a Rússia acabe suplantando, como enorme ponte terrestre que é, as rotas marítimas controladas pelo comércio internacional e pelas potências atlantistas do mundo.

Não seria a primeira vez que a Rússia joga este papel integrador de rotas entre Ocidente e Oriente. Na Alta Idade Média, os vikings fundaram os primeiros Estados russos, abrindo rotas comerciais desde a Escandinávia, o Báltico e o Mar do Norte até o Império Bizantino e o Grande Oriente, através dos grandes rios russos, as estepes e os territórios do conquistado reino cázaro. Em várias campanhas militares, os escandinavos derrotaram aos cázares tomando sua capital, Sarkel — agora submergida pelo pântano de Tsimlyansk, cerca de Volgogrado (ex-Stalingrado). Os vikings mantiveram uma rede de rotas que ia desde a América do Norte até a estepe asiática, constituindo um espaço plenamente em sintonia com o que Guillaume Faye chamou "Setentrião". Só a invasão de Genghis Khan no Século XIII rompeu esta prometedora rede, estabelecendo um khanato como geobloqueio que frustrou as conexões entre o Ocidente e o Oriente e se enriqueceu com os impostos e o controle das rotas a tal ponto que chegou a ser conhecido como Horda Dourada — é o período conhecido na história russa como o "jugo mongol". Este antecipou o que poucos séculos depois se passaria mais ao sul com o Império Otomano.

A Primeira Guerra Mundial e a revolução bolchevique foram uma manobra estratégica atlantista para frustrar a conexão terrestre entre o Ocidente e Oriente, separando e enfrentando as principais superpotências continentais e especialmente tentando introduzir, mediante o terror, a escravidão e a morte, a "modernidade" no Império Russo, produzindo uma aceleração do tempo para tentar devorar o grande espaço. Também a Alemanha quis devorar o grande espaço, mas beliscou mais do que podia engolir. Resulta numa pena que, devido a interesses e tabus do pós-guerra, o pensamento geopolítico alemão, a Geopolitik, cujo grau de desenvolvimento era comparável ao britânico, tenha caído no esquecimento deixando de ser estudado. Já em 1924, na revista "Weltkampf" (Luta Mundial) de 1 de Julho, o intelectual nazista Alfred Rosenberg, que havia estudado em Riga e Moscou, que era "eurasianista" e que chegaria a ser ministro do Reich para os territórios ocupados do Leste, analisa de uma forma um tanto judaicocêntrica os motivos que teve a finança internacional para desestabilizar a Rússia e subverter seu governo através do bolchevismo, mas identificou perfeitamente a natureza soberana, tradicional e autárquica do império eurasiático por excelência.

"A Rússia era o único país do mundo no qual a classe dirigente era contrária a organização do judaísmo mundial. À frente do Estado havia um autocrata que era imune a pressão parlamentar, e os dirigentes eram independentes, ricos, e de tal modo estavam impregnados das tradições religiosas e políticas, que o capital judaico, com raríssimas exceções, não tinha sobre eles nenhuma influência. Os judeus não eram admitidos nem nos cargos do Estado, nem nas funções judiciárias, nem no Exército.

A classe dirigente era independente do capital judaico porque possui grandes riquezas territoriais e florestais. A Rússia possuía trigo em superabundância, e completava sempre suas reservas de ouro com as minas do Ural e Sibéria. A prestação de metal do estado compreendia quatro bilhões de marcos, sem contar as riquezas acumuladas pela família imperial, dos monastérios e das propriedades particulares. Apesar de sua indústria proporcionalmente pouco desenvolvida, a Rússia podia viver por si mesma sem nada importar.

Todas estas condições econômicas tornaram quase impossível a escravidão da Rússia pelo capital judaico internacional, segundo os procedimentos que se dão hoje na Europa ocidental.

Se agregarmos, além disso, que a Rússia era a repositora dos princípios religiosos e conservadores do mundo, aos quais com a ajuda de seu exército haviam esmagado todos os movimentos revolucionários sérios, e os quais não admitiam em seu território nenhuma sociedade secreta, se compreenderá porquê o judaísmo mundial devia dirigir seus ataques contra o Império Russo".

Na Rússia pré-bolchevique e antes da Primeira Guerra Mundial, a dívida nacional estava entre as mais baixas do mundo, 80% das terras aráveis estava nas mãos dos próprios agricultores. A Rússia produzia 42%o de cevada, 30% de aveia, 67% de centeio e 31% de trigo no planeta, de modo que sua produção agrícola ultrapassou em muito a combinação dos EUA, Argentina e Canadá. A inflação quase não existia, o banco central emitia dinheiro quase sem juros e os impostos estavam entre os mais baixos do mundo. Suas reservas de ouro eram as maiores do planeta. A presença do parasitismo usururocrático no aparelho econômico russo era praticamente inexistente.

Do lado britânico, o geógrafo inglês Halford J. Mackinder, um dos fundadores da Geopolítica moderna, tinha uma fixação pelo land power (poder terrestre ou telurocracia), apesar de haver formado seus ideais num país que devia seu imenso império ao emprego do sea power (poder marítimo ou talassocracia). Obcecado especialmente com a Prússia, Áustria e o Império Russo, Mackinder afirmou que "Quem governa a Europa do Leste controla o Heartland; quem governa o Heartland controla a Ilha Mundial; quem governa a Ilha Mundial controla o mundo". Sua mensagem tinha a ideia de criar um "cordão sanitário" de Estados-tampões entre Alemanha e Rússia com o propósito de evitar a aparição de uma potência hegemônica na Europa do Leste. É que tanto a Rússia quanto a Alemanha são as potências melhor situadas para dominar a Europa Oriental — e, portanto, segundo Mackinder, o mundo.

Obtendo uma continuidade territorial direta "desde O Cairo até o Cabo", e criando um "cordão sanitário" de estados-tampões entre a Alemanha e Rússia, a diplomacia do Império Britânico mantem una lacuna interhemisférica que separa a Eurásia da África e a Europa da Ásia, partindo a Ilha Mundial em duas. De suas principais adversárias geopolíticas, a Rússia havia sido consumida por uma guerra e arrasada por uma revolução destrutiva, e a Alemanha se encontrava imersa em lutas sociais e civis, sob uma enorme dívida de guerra, castrada militarmente e mutilada territorialmente. O cordão sanitário europeu abarcava uma enorme população judia (coincide, em boa parte, com a antiga comunidade Polaco-Lituana, o Império Austro-Húngaro e a Zona de Assentamento decretada por Catarina II da Rússia numa tentativa de expulsar os judeus de seu império), como hoje a tem outro Estado importantíssimo da atual Lacuna Interhemisférica: Israel. Em 1939, a Alemanha estava à frente da URSS, rompendo o cerco onde quer que fosse mais estreito e frágil: em Dantzig-Prússia Oriental. Na África, o Eixo também tentou romper a barreira britânica à altura do Egito e, da parte italiana, tentando unir a Líbia com a Abissínia. Ao norte, a Noruega foi invadida pela Alemanha e a Finlândia pela União Soviética.

A Alemanha decidiu romper o cordão sanitário da Europa do Leste em setembro de 1939, invadindo a Polônia apesar de pressionada ferozmente pela diplomacia britânica e francesa. A URSS também invadiu a Polônia (pela segunda vez, posto que já o houvesse tentado em 1919-1921), mas os aliados ocidentais só declararam guerra a Alemanha, evidenciando que o ator regional que mais os inquietava era Berlim, com sua promoção do "mito do sangue", seu comércio internacional de troca ao largo das moedas de reserva do comércio internacional da época e sua subversão total das finanças e da política monetária (abolição do padrão-ouro e do interesse do dinheiro, instauração do padrão-trabalho ou riqueza). O resto da história já conhecemos: a Segunda Guerra Mundial supôs a aniquilação da nação mais poderosa da Europa, o fim do prussianismo e o estabelecimento de um novo cordão sanitário em solo europeu, desta vez chamado de "Cortina de Ferro". Ao longo da Guerra Fria, a União Soviética transformando-se em uma potência de caráter cada vez mais nacional e continental — em parte por sua geografia e em parte graças à natureza patriótica e religiosa de seu sacrifício na Segunda Guerra Mundial —, até converter-se em um obstáculo no caminho da globalização planejada pela Alta Finança.

Quando a URSS se desintegrou em 1991, o império soviético perdeu a metade de sua população, um quarto de sua massa terrestre e a maior parte de sua influência global. Na mesma Rússia, foi uma onda de liberações e privatizações, a corrupção tomou conta do vasto país e surgiu uma poderosa casta de multimilionários bem relacionados com Wall Street e a City de Londres: os chamados oligarcas se ergueram como senhores feudais, abrindo a Rússia ao comércio internacional para que seus recursos pudessem ser saqueados pelas multinacionais estrangeiras. Alguns oligarcas inclusive criaram ONGs, partidos políticos, grupos de pesquisa e redes clientelistas a imagem e semelhança das "fundações" privadas que tanta influência haviam tido na engenharia social e econômica do Ocidente capitalista. Um destes oligarcas russos foi o magnata petroleiro Mijaíl Khodorkovsky, chefe da petroleira Yukos. Khodorkovsky criou a Open Russian Foundation, claramente inspirada na Open Society de George Soros. A Open Russian Foundation tinha em seu conselho diretivo personalidades do tamanho de Henry Kissinger e Jacob Rothschild, o qual nos oferece a chave de sua natureza. O objetivo deste consórcio, bem financiado pelo petróleo russo e pelas ajudas da finança internacional, era desmantelar a soberania russa, comprando a preço de barganha seu tecido econômico da época soviética e transformando o país em algo mais digerível ao neoliberalismo globalista, algo assim como a Alemanha moderna: um "acionista responsável" e gestor regional obsequioso de um sistema global unipolar dominado pelo establishment (e não pelo povo) angloamericano, por sua vez, fortemente obediente aos interesses judaicos. George Bush pai, que também tinha interesses petroleiros no assunto Khodorkovsky, havia predito uma "nova ordem", talvez esperando que os recursos e rotas comerciais da Rússia se fariam a serviço dos usuários globalistas, se Khodorkovsky tivesse êxito em seu plano de vertebrar oleodutos privados para favorecer a China e EUA, e que o mundo inteiro seria tomado pela nova convergência globalista: neomarxista no cultural e capitalista-neoliberal no econômico.

Foto à esquerda: George Soros, especulador financeiro. Foto à direita: Mikhail Khodorkovsky, petro-oligarca aspirante à presidência da Rússia. Quando indivíduos como estes pronunciam sua palavra favorita "global", é bom começar a tremer.
A história mais recente demostra que as teorias de Mackinder sobre o Heartland e a necessidade de um "cordão sanitário" na Europa do Leste seguem mais vigentes que nunca. Um ano depois da invasão do Iraque — na qual se contrariou perigosamente tanto a Alemanha quanto a França —, o atlantismo já havia recrutado uma série de Estados da Europa do Leste: Polônia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Romênia e Bulgária, além de Estônia, Letônia e Lituânia. Esse quadro se completa com o "escudo antimíssil" e com os velhos membros otaneiros Turquia e Noruega. Além disso, prossegue na desestabilização de toda a Pentalásia e na "atlantização" do Conselho de Cooperação do Golfo (os Estados árabes em vermelho no mapa, ao sul do Iraque). O novo cordão sanitário se estende desde a Noruega até Omã, desde o Oceano Ártico até o Índico, partindo a Eurásia em duas. Contudo, os muros de contenção que o atlantismo erige militarmente, são facilmente derrubados pela Rússia energética e comercialmente, com sua estratégia do controle do fornecimento de gás natural pelos "russodutos" (Nord Stream e South Stream). A outra tentativa de romper este cordão sanitário vem pelo Gasoduto Islâmico, que pretende unir o Golfo Pérsico (Irã) com o Mediterrâneo (Síria e Líbano), através do Iraque. De fato, no mapa se aprecia como Iraque-Síria-Líbano são, junto com Constantinopla, a parte mais vulnerável do cordão sanitário — a importância do Curdistão, em particular, é muito visível. O Gasoduto Islâmico pretende prolongar-se também para o Leste para transitar pelo Paquistão, Índia (projeto IPI) e, talvez com o tempo, Bangladesh, China e Sudeste Asiático.

Em 2003, Vladimir Putin arrebatou de Khodorkovski o controle da petroleira Yukos, nacionalizando-a justo quando o oligarca estava a ponto de entregá-la ao Lord Rothschild e a ExxonMobil ou Chevron (descendentes da Standard Oil de John D. Rockefeller). Dois anos depois, Khodorkovski foi mandado a uma prisão siberiana. Esse caso pode comparar-se com a perseguição e processo de muitos outros oligarcas (Oleg Deripaska, Vladimir Gusinsky, Boris Berezovsky) durante a era Putin. Em vista das graves instabilidades causadas pelas fundações e ONGs estadounidenses em outros países, em Setembro de 2012 Moscou expulsou de seu território a turva organização USAID, uma fachada legal da CIA e do Departamento de Estado dos EUA estabelecida no país desde 1992.

Estes atos simbolizam que a Rússia volta a se considerar como um poder soberano e independente, com uma vontade própria e com interesses própios, que não tem motivo de obedecer aos ditados da globalização promovida pela Alta Finança, e cujo exemplo pode inspirar a outras potências como Brasil ou Irã. Pode-se dizer mais alto, mas não mais claro: acima dos problemas do Estado russo, o potencial geopolítico da Federação é extraordinário. O país proporciona uma continuidade não-balcanizada desde a Europa até a Lestásia, se encontra ao lado da Pentalásia (só tem que cruzar o Cáucaso), mantem um pé no Levante pela Síria, no Báltico devido a Kaliningrado e outro nos Balcãs através da Sérvia. É também o país número um em reservas de gás natural, o primeiro produtor de petróleo do mundo, possui um terço das reservas de água doce do mundo (o segundo país em importância depois do Brasil), terras aráveis, pastos, metais e pedras preciosas e outras riquezas minerais, vastos espaços virgens, biodiversidade humana, animal e vegetal, mais superfície florestal que nenhuma outra nação, o maior arsenal nuclear do mundo, um imponente complexo militar-industrial e uma tradição imperial no qual respeita a diplomacia, a geoestratégia (a Rússia tem um pensamento e uma escola geopolítica plenamente desenvolvida) e a Inteligência, além do tamanho esmagador e uma magnífica posição geográfica — a melhor e mais dominante do mundo. Tem também enormes potenciais desconhecidos e/ou ainda à explorar, como a rota marítima do Ártico (a Rússia é o país com mais terras no Círculo Polar e mais costa no Mar Ártico, encontrando-se, portanto, na melhor posição para dominar o Polo Norte) e as riquezas encerradas em seu permafrost siberiano. Se ainda existe no mundo algo parecido a uma "terra prometida", deve encontrar-se em algum lugar da Sibéria-Cazaquistão-Mongólia.

Mas este quadro tão privilegiado e promissor necessita igualmente de uma férrea autoridade. Quem quer que organize os recursos e potenciais (incluindo humanos) da Federação Russa para se tornar a principal superpotência do mundo, terá que cultivar sua maior riqueza: o povo russo, reconhecendo que os eslavos são a etnia vertebradora da nação e a base do Estado. O Kremlin tem tomado medidas sérias para povoar a Sibéria e para aumentar a natalidade dos russos. Outro passo que a Rússia necessitaria dar é promover um espaço econômico comum eurasiático e uma aliança militar que possa exercer o papel de eixo de integração eurasiática, de contrapeso ao poder da plutocracia angloamericana encarnada na OTAN, que faz com que a Europa, especialmente a Alemanha, volte a mirar ao Leste, e que organize os recursos do Heartland como se fosse um "novo Novo Mundo". Seguindo o exemplo dos antigos vikings e cossacos, se povoaria o coração da terra com europeus promissores e valentes, para criar os verdadeiros Estados Unidos da Eurásia e assentar as bases do tipo humano que herdará o planeta. O desenvolvimento do "selvagem Leste" pode supor uma verdadeira revolução geopolítica, cultural e humana.

Por estes motivos, resulta muito interessante prestar atenção aos diversos projetos eurasiáticos de poder continental promovidos pelo Kremlin, como a União Aduaneira, a Comunidade de Estados Independentes (CEI), a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO), a Organização de Cooperação de Xangai (SCO) e, especialmente, a União Eurasiática, proposta, mas todavia não constituída. Também é indispensável monitorar de perto a estratégia dos "russodutos", especialmente o projeto South Stream, e a ponte terrestre China-Turquia, um conjunto de vias ferroviárias que basicamente recriaram a Rota da Seda. [21]

Mas apesar destes passos, se está muito longe de romper o cordão sanitário mais importante que resultou da Segunda Guerra Mundial: o bloqueio psicológico coletivo, a Cortina de Ferro cultural levantada pela ONU, escola de Frankfurt e a Alta Finança em torno dos novos tabus de nosso tempo, que minam as raças humanas, o nacionalismo, o patriarcado, a genética, a tradição, a eugenia, a identidade, a desigualdade natural, as diferenças entre sexos, a agressividade, o direito a legítima defesa, a disciplina, a autoridade, a hierarquia e o instinto territorial — assim, geopolítico — de povos inteiros, incluindo de alguns que "em teoria" haviam ganho a Segunda Guerra Mundial. Enquanto esta repressora cortina de ferro persiste no imaginário coletivo dos povos europeus-étnicos (não só na Europa, mas também na América Norte, América Ibérica, Austrália e África do Sul), nossos povos retrocederam e perderam poder, enquanto que todos os demais povos do mundo avançaram simplesmente ocupando o vazio criado. Uma Eurásia forte nunca será possível se a primeira metade de seu nome, que representa a cabeça do continente, está sequestrada por uma cultura debilitante, enferma e autodestrutiva. A Europa tem que se deixar despertar ao fato de que o mundo é um lugar cada vez mais turbulento, e defender como qualquer potência digna de tal nome, seus malditos interesses, tanto econômicos e estratégicos como étnicos, reprodutivos, demográficos, culturais e militares. E isso não é possível com a atual Europa dos lojistas, mercadores e usurários, que nos tem convertido num continente de consumistas e escravos de escritórios dispostos a aceitar sem resmungar a estratégia globalista criminal dos parasitas covardes entrincheirados nas torres de marfim da Alta Finança.

No pensamento politicamente correto prevalecente atualmente, as fronteiras existem só no papel, a velha Europa representa uma cultura de vencidos abatidos, de perdedores, de tristes burocratas e burgueses sem substância, e os europeus, cada vez mais idosos e esterilizados, não só devem deixar-se colonizar pelo resto das raças do planeta, mas que além disso devem pagar sua estadia e subsidiar com seu trabalho a multiplicação indefinida destas raças, mesmo à custa de extinguirmos a nós mesmos e de desgastar os recursos do planeta. O resultado final será uma África africana, uma Ásia asiática… e uma Europa, América do Norte, América Ibérica e Oceania habitadas por uma raça híbrida, maleável, desorganizada, sem consciência coletiva e de manutenção barata, que proporcionará a base social da Nova Ordem Mundial planejada durante séculos pela Alta Finança. Goste ou não, a dissolução da raça branca gerará — e já está gerando — uma enorme instabilidade global, depois do que se produziria o definitivo advento de Globalistão.

Para alcançar este fim, o instinto natural de sobrevivência e de autopreservação, consubstancial a qualquer animal, está sendo retirado meticulosamente da humanidade europeia. Se segundo Mackinder, a "virilidade" de um povo era (junto com o "equipamento" e a "organização") o fator mais importante na hora de julgar seu potencial, está claro que os povos europeus estão sendo castrados de sua masculinidade natural — que em outros tempos era muito forte — e despojados de sua herança patriarcal. Isto se traduz imediatamente em uma suavidade na luta contra o crime, especialmente organizado, e na efeminação da política tanto interior como exterior de nossos Estados.

Qualquer intenção de romper esta nova cortina de ferro psico-cultural, este novo cordão sanitário de balcanização mental, será imediatamente tachada pela "comunidade internacional" e pelos agentes tanto voluntários quanto involuntários da globalização capitalista-financeira neoliberal, como intolerância, nacionalismo, militarismo, racismo, fascismo, nazismo, obscurantismo medieval, conspiranoia e outras duzias de substitutos modernos do temido rótulo de "herege" de outros tempos, criados na realidade para remover qualquer debate. Mas o eixo permanece no qual os europeus étnicos estão sendo submetidos, com nosso próprio trabalho, a um plano global de disgenesia e limpeza étnica branda que dizima nosso manpower enquanto que nos hipnotiza a base de consumismo e entretenimento. Isto sugere, por sua vez, que os europeus étnicos são um obstáculo para os geoestrategistas da globalização que não se consideram atados a um solo nem a um sangue, mas ao dinheiro e ao poder, e que atuam através de lobbies, ONGs, seitas, fundações privadas, serviços de Inteligência, think-tanks e agentes destas organizações em universidades, empresas, exércitos, municípios, meios de comunicação e outros organismos tanto privados quanto públicos — incluindo uma infinidade de governos. Quem romperá esta cortina de ferro, muito mais sutil e insidiosa?




NOTAS

[1] Familia Schiff (Jacob H. y Mortimer L.), irmãos Warburg (Max, Felix y Paul), Armand Hammer, Kuhn Loeb & Co., Otto H. Kahn, JPMorgan Chase, Max Breitung, Jerome H. Hanauer, Isaac Seligman, Solomon e Daniel Gugenheim, Samuel MacRoberts (National City Bank), Lazard Frères (Paris), Gunzbourg (Paris, São Petersburgo, Tóquio), Speyer & Co. (Frankfurt, Londres, Nova Iorque), etc. Olaf Aschberg, do banco Svensk Ekonomiebolaget (Estocolmo) teve um importante papel de intermediário, estando a frente do Ruskombank (o Banco Internacional soviético, posteriormente Vneshtorgbank) e atuando como agente do novaiorquino Guaranty Trust Company da família Morgan. O Gosbank (Banco Central soviético, supostamente estatal) tinha sócios privados: o mais importante era Armand Hammer, da Occidental Petroleum (Atual Oxy, representada pelo Al Gore).

[2] Por exemplo, a companhia Standard Oil (alma mater das posteriores Exxon-Esso, Texaco-Chevvron, ConocoPhillips, Amoco, Marathon etc.) de John D. Rockefeller, Jr. manteve importantes explorações petrolíferas em Baku. Ao longo dos anos 20, numerosas companhias estadunidenses (International Harvester, Guaranty Trust Company e New York Life) manteriam importantes relações com a URSS. O estadunidense Averell Harriman ajudou a desenvolver os ferrovias soviéticas, e o alemão Rathenau colocou em marcha sua indústria química. Vacuum Oil (posteriormente Mobil) firmaria um acordo com o sindicato soviético Naphta e lhe deu 75 milhões de dólares à URSS. Graças a estes movimentos, à URSS, a diferença da Alemanha, nunca lhe faltaria petróleo durante a II Guerra Mundial, durante a qual também receberia ajudas massivas por parte dos Estados Unidos e Reino Unido. Posteriormente a Occidental Petroleum de Armand Hammer firmou um contrato com a URSS. E em 1973, em plena Guerra Fria e crises energética, o diplomático estadunidense Henry Kissinger negociaria importantes envios de fertilizantes e grãos de cereais à URSS, a preço-pechincha (a diferença de custos a pago o contribuinte estadunidense). Mike Friburg, o "imperador dos cereais", que também era amigo de Kissinger, foi o principal beneficiado desta operação.

[3] "Violence at sea: piracy in the age of global terrorism" (Peter Lehr).

[4] "Fábricas do suor": fábricas insalubres e massificadas com mão de obra pseudo-escrava, frequentemente com menores de idade.

[5] A China, justo antes da Guerra de Líbia, tinha a intenção de comprar 191,3 toneladas.

[6] A respeito, ver aqui uma hilária notícia sobre o Nepal — um satélite hindu que forma parte da estratégia do Cinturão de Gelo, e onde já tem madrassas e mesquitas salafistas relacionadas com redes de origem paquistanesas e sauditas, assim como grupos tibetanos que agitam contra a China. Outra notícia que evidencia até que ponto os governos consideram a opinião pública desinformada pode ser visto aqui e aqui: ao que parece, a oportuna presença de uma espécie de macaco na ultra-rica bacia mineradora do leste de Congo-Kinshasa precisa da proteção de desinteressados e altruístas organismos internacionais, que aspiram pôr suas mãos sobre dezenas de milhares de quilômetros quadrados de terreno e até cruzar a fronteira com Ruanda. Em todo o mundo, centenas de espécies desaparecem cada dia, mas à globalização somente importam as que se encontram nos lugares estratégicos. Estas notícias seriam muito divertidas se não fosse pela gravidade de suas implicações: que os assuntos ambientais (incluindo parques naturais, que têm enormes implicações geopolíticas), também são susceptíveis de ser privatizados, globalizados e/ou pessoal como desculpa para a globalização e o controle da finança internacional.

[7] Mais informações: (1) e (2)

[8] Veja aqui.

[9] País que fornece 25% das necessidades energéticas de Israel (oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan) e cujo Exército está equipado com material israelita.

[10] Veja aqui.

[11]
Aqui há abundante informação e ligações sobre a desestabilização Teerã-Damasco, incluindo a financiação do movimento "rebelde" na Síria.

[12] A Al-Qaeda apenas está fazendo o trabalho sujo do atlantismo e onde mais convier ao atlantismo, por exemplo assassinando engenheiros russos na Argélia.

[13] Lord Carrington também se destacou apoiando, financiando e armando o movimento mujahideen (antepassado dos talibãs) que, baseado no Paquistão, lutava contra a influência soviética no Afeganistão. Os mujahideens, comparáveis aos khmers vermelhos de Pol Pot, atacaram objetivos civis no Afeganistão, destruindo 1.800 escolas, 40 hospitais e 110 centros de primeiros auxílios, pondo fim a influência modernizante que exercia a URSS sobre o país.

[14] "British Foreign Policy Since 1870", Will Podmore, 2008.

[15] Mais informações aqui e aqui.

[16] Ver aqui.

[17] O financiamento dos maoístas com dinheiro ilegal procedente do narcotráfico do ópio é um eixo pouco mencionado na história oficial. Na garganta de Nanniwan, província de Shaanxi, os comunistas chineses montaram em 1941 um comitê de produção de ópio a mando de Ren Bishi, em resposta ao bloqueio econômico por parte do exército japonês e pelo Kuomintang. O ópio financiou as primeiras repúblicas soviéticas na China: Jiangxi e Yan’an. Mais informações sobre o tráfico de ópio e o movimento comunista-maoísta em:

- "New Perspectives on the Chinese Communist Revolution", The Blooming Poppy Under the Red Sun (Tony Saich, Hans J. Van de Ven).

- "The Blooming Poppy under the Red Sun: The Yan’an Way and the Opium Trade", (Chen Yongfa, 1995).

- "Diario de Yan’an", Peter Vladimirov. Ler aqui e aqui.

[18] Mais informações aqui.

[19] Mais sobre o projeto de Dawei aqui e aqui

[20] Especialmente no princípio dos anos 90, revistas como a National Geographic e outros meios de prestígio internacional nos apresentaram como é a vida nos subúrbios das favelas hindus, das favelas brasileiras, das favelas nigerianas e similares, descrevendo estas sociedades como "vibrantes", "vitais", "coloridas", "autênticas", "espontâneas", "alegres", "festivas", "dinâmicas" etc. Parece que o que interessa à globalização é estender esse modo de vida austero de felicidade na miséria, naturalizando o fatalismo conformista de rebanho e a escravatura moderna. O impacto ecológico que produz o estilo de vida das classes brancas do Ocidente não é sustentável em comparação com os hábitos de "reutilização dos recursos" (buscar no lixo, construir favelas a partir da folha, madeira e carros abandonados, ter filhos mesmo bebendo água contaminada, viver de sobras) das sociedades urbanas do Terceiro Mundo. Pode ser que a globalização queira que Londres, Paris, São Paulo, Madrid, Roma, Berlim, Amsterdam, Estocolmo ou Nova York, se pareçam cada vez mais a um subúrbio proletário massificado de Calcutá, Lagos, Karachi, Cairo, Manila, Jacarta ou Cidade do México: afinal, mais mão de obra barata, o sonho das multinacionais escravistas.

[21] Ver aqui.