terça-feira, 5 de julho de 2016

Kerry Bolton - Brexit e a Falácia da "Independência" Britânica

por Kerry Bolton




Nigel Farage do Partido da Independência do Reino Unido se referiu ao referendo que, por pouco, viu os britânicos votando pelo abandono da União Europeia como marcando o "Dia de Independência" da Grã-Bretanha. O Brexit foi promovido em boa medida em cima da premissa de que a União Europeia é responsável pelo multiculturalismo britânico, e que a imigração ameaça o modo de vida britânico. Há uma certa euforia resultante da crença de que isso significa o início do renascimento britânico. Há algumas falhas sérias nesses argumentos.

Primeiramente, os problemas britânicos com a imigração e o multiculturalismo não se originam primariamente da participação na União Europeia. Segundo o Departamento Nacional Britânico de Estatísticas: "624.000 pessoas imigraram para o Reino Unido até setembro de 2014, um aumento estatístico significativo em relação aos 530.000 dos 12 meses anteriores. Há aumentos estatísticos significativos na imigração de cidadãos de fora da UE (de 49.000 para 292.000) e cidadãos (não-britânicos) da UE (de 43.000 para 251.000)". A maior parte dos imigrantes britânicos nunca veio da UE. Enquanto a Grã-Bretanha verá uma redução na imigração vinda da Espanha, Polônia, Itália, etc., eles não verão essa redução de países africanos e resultados como resultado do Brexit.

O Brexit foi promovido com base em um retorno à independência britânica. O que "independência" significa realmente? Independência de quem e para quem? Talvez seja possível dizer que a Grã-Bretanha não tem sido independente, isto é que a Grã-Bretanha não tem tido soberania para fazer política com base apenas em interesses britânicos, desde a criação do Banco da Inglaterra em 1964. Nigel Farage mencionou que o Brexit era um voto contra os grandes bancos mercancis e contra as corporações. É verdade que esses interesses queriam que a Grã-Bretanha permanecesse na União Europeia. Mas como o poder das instituições financeiras sobre o Reino Unido vai diminuir um pouquinho que seja ao se abandonar a UE? A Grã-Bretanha ainda vai estar pegando dinheiro emprestado com bancos internacionais. A Grã-Bretanha ainda vai estar fazendo comércio através do sistema comercial global facilitado pelos bancos. Brexit não significa que a Grã-Bretanha passará a emitir seu próprio crédito estatal, ou que ela começará a fazer comércio por escambo, fora do sistema financeiro internacional. Nem o próprio Partido da Independência do Reino Unido possui uma política financeira que inclua uma reforma bancária: ela se baseia em reforma tributária e reduzir ajuda a outros países. O sr. Farage até mesmo disse em seu discurso de vitória em relação ao Brexit que a Grã-Bretanha será "global". Como este tipo de sentimento se encaixa com a palavra "independência" de seu próprio partido? A mesma situação se aplica aos outros partidos "eurocéticos" que agora demandam que suas nações realizem um referendo sobre a participação na UE. Geralmente, esses partidos, ditos "de direita", acreditam em economia de mercado e comércio global.

Talvez haja visões da Grã-Bretanha retornando às velhas preferências comerciais da Commonwealth? Esse era o ideal do National Front durante seu ápice na Grã-Bretanha nos anos 70; construir um bloco de Domínios Brancos que resistiria ao financismo internacional. A oportunidade para isso se foi há muito tempo. Nova Zelândia, Austrália e Canadá já sucumbiram aos arranjos comerciais globalistas como o TTPA, e ao livre-comércio com a China e outras economias asiáticas em expansão, que são em si parte do sistema financeiro internacional. 

E quanto a outras áreas importantes da "independência", como a política externa? A Grã-Bretanha continua na ONU, uma versão internacional da burocracia da UE. A Grã-Bretanha é o quinto maior contribuinte financeiro da ONU, fornecendo 5% do orçamento anual da ONU e 6.7% de seu orçamento "pacificador" para 2015.

A Grã-Bretanha é o quarto maior contribuinte para o orçamento da OTAN, com 10.5%. A Grã-Bretanha é parte dessa organização militar global, junto a outros países da UE e muitos outros, para o propósito de manter uma "nova ordem mundial" baseada na hegemonia americana. Porém, de maior importância do que as contribuições financeiras para a OTAN é a subserviência a interesses globalistas.

Em conclusão, o Brexit não fez nada para estabelecer a Grã-Bretanha como um Estado soberano, resgatar a Grã-Bretanha do impasse multiculturalista ou avançar políticas soberanas na economia, finanças e política externa. Ela estará buscando mercados dentro do mesmo sistema globalista, pagando dívidas para os mesmos bancos internacionais e enviando tropas segundo as necessidades globalistas. Há ainda o prospecto da saída da Escócia do Reino Unido para continuar ligada à UE. O Sinn Fein também comentou que eles demandarão que a Irlanda do Norte se una à Irlanda para permanecerem na UE. Neste evento, o povo de Ulster reagirá, com o prospecto de uma guerra civil bastante sangrenta. O prospecto agora é que não haverá Reino Unido, para o bem ou para o mal.

Em prol de algumas economias em relação ao orçamento da UE limitando a recepção de imigrantes europeus, a Grã-Bretanha não ganhou nada em prol de sua independência ou por sua integridade cultural. O que foi alcançado por dar aos britânicos a ilusão de liberdade e renascimento. 


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