sábado, 25 de junho de 2016

Fernando José Vaquero Oroquieta - Carlismo: O Movimento de um Povo Católico por seu Rei

por Fernando José Vaquero Oroquieta



No último domingo 8 de maio, algumas dezenas de pessoas se reuniram, convocados pelo Partido Carlista, em memória e homenagem das duas vítimas mortais dos acontecimentos de Montejurra do ano de 1976: 40º aniversário, nada menos. Fatos, lembremos, ainda não esclarecidos em sua totalidade e dos quais atores políticos muito diversos obtiveram certos benefícios: desde a aparente superação definitiva de um pleito dinástico centenário, em benefício de Juan Carlos I, então, e Felipe VI hoje, até a captação de quadros e eleitorado por parte de alguns partidos.

Outra vez mais, a ladeira de Montejurra foi testemunha, neste domingo de maio, da presença de boinas vermelhas. Mas, que longe ficava aquele ano de 1974 em que 40 mil pessoas se concentraram ali ao redor de seu porta-bandeira, Carlos Hugo, e suas irmãs!

Apesar de cifras tão díspares, e seu enraizamento social correspondente, Montejurra vem sendo o reflexo débil de um movimento popular extraordinário; fundamental na História da Espanha.

Por isso quisemos refletir sobre o mesmo, assinalando algumas chaves que possam permitir compreender melhor uma História da qual todos os espanhois somos, em alguma medida, tributários.

Para a historiografia dominante (caso, entre outros, de Jordi Canal i Morell, Martin Blinkhorn, etc.) o carlismo foi um movimento contrarrevolucionário orientado para a guerra civil. Mas, com um olhar e conclusões contraditórias com a apresentação ideológica e apriorística anterior, um grupo de historiadores, os quais encontramos em grande medida ao redor da Revista de História Contemporânea Aportes, vem realizando diversas investigações de resultados muito diversos.

Este preconceito ideológico, que etiqueta negativamente o carlismo, também encontramos em outros meios; inclusive no seio da própria Igreja Católica espanhola. Desse modo, por exemplo, se ignora com silêncios ou omissões que foram carlistas muitos dos alunos entusiastas da, à época, nova Doutrina Social católica de Leão XIII; o que se concretizou em sindicatos, cooperativas, editoras, mutualidades e obras sociais de vários tipos e alcance. E tudo isso sem esquecer que um grupo significativo de "mártires" da guerra civil espanhola, beatificados no último ano, eram carlistas.

Dois Testemunhos sobre o Carlismo

Para enquadrar este estudo, reproduziremos dois testemunhos muito interessantes

O navarro Gregorio Monreal, histórico militante nacionalista basco hoje em Geroa Bai, que foi catedrático de História do Direito na Universidade Pública de Navarra e antigo reitor da do País Basco, em uma longa entrevista publicada na revista de extrema-esquerda Hika (número duplo 121/122, abril/maio de 2001, páginas 14 a 18), realizava a seguinte reflexão familiar sobre o carlismo: "...E vou dar-te um exemplo que tiro de meu próprio meio familiar, concretamente de minha mãe, procedente do vale de Yerri, sancta sanctorum do carlismo. Essa família, que não havia tido nunca relação com a cultura liberal, se dividiu quase meio a meio entre UPN e HB".

Por outra parte, o escritor navarro Miguel Sánchez-Ortix, recebedor do prêmio Príncipe de Viana 2001 da Cultura, respondia em 1 de julho de 2001 da seguinte maneira à pergunta: "Por que resgata o carlismo?", ao jornalista do Diário de Navarra: "Fundamentalmente porque está na raiz de nosso presente. Me resulta muito enigmático que o movimento carlista, que sangrou nessas terras durante 150 anos, que está na origem da última Guerra Civil, que todas as sequelas que deixou em Navarra de rupturas familiares, ruínas econômicas, a emigração à América que provocou... Que tudo isso, em uma manhã, a de 9 de maio de 1976 em Montejurra, deixasse o carlismo ferido de morte, é um assunto muito enigmático. Para onde foi toda essa massa de gente que nos anos 60 acuda a Montejurra aos milhares? Há que ver que houve uma transferência, estimo, tanto para o socialismo, como para o Herri Batasuna". E, à seguinte pergunta do jornalista, "E essa transferência foi por medo?", responde: "Não. Não tem nada a ver com medo. Pode ser que fosse uma ideologia que tinha muito pouco futuro em um mundo que mudou tanto. O tecido social de Navarra mudou demais. Não sei se a ideologia carlista, por muito estimável que seja, pode seduzir às pessoas".

Não é nenhuma temeridade afirmar que o denominado "carlismo sociológico" desapareceu quase totalmente. Não obstante, encontramos antigos carlistas, ou filhos de carlistas, em todo o espectro político navarro, tanto em suas bases, como em seus níveis dirigentes. De fato, alguns dos mais qualificados representantes da política navarra nos anos 70 e 80 do século passado podiam ser incluídos nessa categoria. Recordemos, a título simplesmente de exemplo, Federico Tajadura, dirigente da esquerda do PSOE, Jaime Ignacio del Burgo (jurista, escritor e político de longa trajetória na centro-direita navarra), Florencio Aoiz Monreal (de família carlista de Tafalla e porta-voz de Batasuna em sua épocA), Juan Cruz Alli (líder do disolvido partido Convergencia de Democratas de Navarra, ex-presidente do governo de Navarra) e tantos outros.

Podemos nos perguntar, com que critério, desde que impulsos ideológicos ou existenciais, se adscreveram tantos, como antigos carlistas, a umas ou outras forças políticas percebidas como mais "atuais"? Por acaso se pode afirmar que aqueles de convicções navarristas e espanholistas mais acentuadas engrossaram as fileiras da União do Povo Navarro; não em vão, hoje em dia, em algumas zonas do norte de Navarra, a base desse partido é basicamente gente de antiga pertença carlista. Por outro lado, muitos jovens, da etapa final do carlismo "socialista", engrossaram as fileiras do Herri Batasuna e suas sucessivas "marcas". Por sua vez, alguns outros se integraram, o que se pode explicar pelo sentimento social do carlismo, nas fileiras do PSN-PSOE e outros partidos à esquerda.

O Movimento Carlista

Desde tamanha disparidade e dispersão, como podemos definir e caracterizar o carlismo? A resposta é importante, pois a mesma poderia nos proporcionar algumas pistas fundamentais para entender seu aparente e brusco desaparecimento e a complexa situação política e social pela qual passa Navarra.

Para isso, partiremos de uma declaração oficial do próprio carlismo, emitida em um momento especialmente delicado de sua história. Assim, mediante o Real Decreto de 23 de janeiro de 1936, Don Alfonso Carlos estabelecia a Regência com as seguintes precisões:

"Tanto o Regente em suas obrigações como as circunstâncias e aceitação de Meu sucessor, devem sujeitar-se respeitando como intangíveis aos fundamentos da legitimidade espanhola, a saber:

I - A Religião católica, apostólica, romana com a unidade e consequências jurídicas com que foi amada e servida tradicionalmente em Nossos Reinos.
II - A constituição natural e orgânica dos Estados e corpos da sociedade tradicional.
III- A federação histórica das distintas regiões e seus foros e liberdades, integrantes da unidade da Pátria espanhola.
IV - A autêntica monarquia tradicional, legítima de origem e exercício.
V - Os princípios e espírito e, na medida do praticamente possível, o próprio Estado de direito e legislativo anterior ao mal chamado Direito Novo".

Agora vejamos alguma resposta científica emitida a partir da abundante historiografia especializada.

A historiadora Aurora Villanueva, em seu livro O Carlismo Navarro durante o Primeiro Franquismo (Actas, Madri, 1998), o caracteriza da seguinte maneira: "Configurado politicamente ao redor de fidelidades pessoais, ao pretendente e sua dinastia, o carlismo constituiria o sinal de identificação daqueles que, no universo individualista característico do sistema político e cultural liberal, participavam de uma visão tradicionalista da vida e do mundo. Uma 'comunhão' de pessoas aglomerada ao longo da história sobre o eixo da lealdade a certas ideias e uma dinastia" (pg. 531). Fidelidade, antes de tudo, à legitimidade dinástica e a um ideário muito preciso; ambos elementos em simbiose perfeita.

De sua parte, o prolífico historiador Josep Carles Clemente considera, em sua abundante bibliografia, que o carlismo se caracterizava, ademais dos anteriores elementos, por se tratar de um movimento popular e de protesto. Originado no seio do legitimismo espanhol do século XIX, integraria em seu ideário indubitáveis conceitos ideológicos modernos (desde nosso ponto de vista, herança expressa do cristianismo): federalismo, profundas aspirações sociais, sentido de protesto. As relações desse povo com seus líderes, assegura Clemente, quase nunca teriam sido exemplares, ainda que em geral, os defensores máximos do carlismo teriam sim respondido aos anseios de seu povo. Tradicionalismo, integrismo, franco-juanismo, teriam sido, opina o citado historiador, tendências ideológicas inseridas posteriormente no carlismo, mas com uma intencionalidade instrumentalizadora de tão generoso movimento; mas que não responderiam ao sentimento geral da base.

Clemente conclui sua elaboração afirmando que foi com o já falecido Carlos Hugo que o povo carlista teria alcançado o mais alto grau de fusão com seus líderes naturais, já despojados dos elementos dissonantes; o que não impediu sua debandada geral por ocasião do fracasso eleitoral do partido em 1979. Em consequência, para este autor, os carlistas concentrados no último 8 de maio seriam os últimos e diretos representantes desse "povo em marcha" que percorreu boa parte dos séculos XIX e XX.

Os autores tradicionalistas, de sua parte, proporcionam uma perspectiva bastante distinta. Consideram, em seu conjunto, que a rápida evolução ideológica, da Comunhão ao "socialismo autogestionário e federalista" do Partido Carlista, teria sido forçada e "contra natura". Dita transformação, impulsionada por um pequeno grupo de líderes e quadros, que utilizaram o instrumento dos "cursinhos" dos anos 60 e 70 empenhados em uma "modernização" a todo custo, os teria levado à trincheira contrária; o que teria provocado, ou acelerado, a desarticulação desse povo e inclusive do chamado "carlismo sociológico".

Para alguns desses autores, e para a atual Comunhão Tradicionalista Carlista, esta. refundada já há 30 anos no Congresso de El Escorial, seria o agrupamento herdeiro desse carlismo extraordinário que assombrou aos próprios e a estranhos.

Em todo caso, retomemos a pergunta inicial, como é possível que um movimento político popular, centenário, vigoroso, que atravessou provas tremendas, desapareça quase de um só golpe?

Já mencionamis que a historiadora Aurora Villanueva descreve o carlismo como um fenômeno político, sociológico e ideológico completo. Paradoxalmente, foi nos períodos liberais da história recente da Espanha que o carlismo pode se expressar e desenvolver ideologica, orgânica e sociologicamente. Villanueva descreve em seu texto, documentadamente, o processo agônico de desintegração que sofreu, em Navarra, esse carlismo que não conseguiu se adaptar à semiclandestinidade em que o regime de Franco o colocou; depois de terminada totalmente a guerra civil. Por outra parte, as convicções religiosas e semitradicionalistas do regime puderam contribuir para a desmobilização de setores importantes do carlismo; os quais se sentiriam acomodados no mesmo.

Nesse estado de coisas, e nas décadas seguintes, o carlismo sofreu novas fraturas: falcondismo, carlosoctavismo, juanismo... Analisando os fatos descritos em seu livro, concluímos que a sorte do carlismo foi jogada por umas poucas dezenas de protagonistas, no que concerne Navarra, a "Israel do carlismo"; permanecendo em boa medida alheia a tudo isso sua massa popular, acomodada a um regime que afirmava, ao menos no papel, boa parte de seus princípios.

Enquanto isso, a sociedade espanhola se transformava aceleradamente: se consumava o êxodo do campo à cidade, diminuindo assim a influência do clero rual (muito implicado, como no caso de Navarra, no sustento do carlismo); a família tradicional iniciava uma lenta, mas inexorável transformação; novos ares sopravam no seio da Igreja; etc.

Uma Hipótese

A estas alturas de nosso estudo, como caracterizar, sinteticamente, o carlismo?

Resumindo os diferentes elementos comuns assinalados anteriormente, a nosso juízo o carlismo seria um "movimento de um povo católico por seu rei". O povo tradicional espanhol, mobilizado durante mais de um século a serviço de seus ideais e da "Dinastia Legítima". E, no que se refere a sua crise, assinalemos que tal não pode se separar da que sofre a Espanha e a própria Igreja Católica.

Desde essa perspectiva, o tradicionalismo e, posteriormente, o socialismo autogestionário carlista dos anos 70, não teriam sido senão tentativas de ideologização de um movimento em crise e certa indefinição doutrinária desde seus primórdios.

Esfumaçada a liderança e atrativo do "rei legítimo", questionada em seus fundamentos a "unidade católica" sustentadora da Espanha à raiz de novas correntes impulsionadas a partir do Vaticano II, atomizado e disperso em consequência seu povo, persistem, mesmo hoje, famílias e pessoas e profundas convicções ideológicas. Pelo contrário, boa parte do antigo povo carlista se diluiu, com maior ou menor convicção, nas fileiras de outras forças políticas que consideraram mais afins a sua sensibilidade; tudo isso em consonância com o movimento geral da sociedade.

Avançando nessa hipótese, deve se destacar, antes de tudo, a profunda religiosidade do movimento carlista; enquanto que outros componentes doutrinários, à parte a dinâmica dessa relação povo-rei, seriam ingredientes ideológicos mais acidentais.

Francisco Javier Caspistegui Gorasurreta em seu livro O Naufrágio das Ortodoxias, o Carlismo, 1962-1977 (EUNSA, Pamplona, 1997) explica como o impacto das novas correntes teológicas derivadas do Vaticano II foram determinantes na rápida evolução ideológica experimentada pelo carlismo nas décadas de 60 e 70. A transformação de alguns movimentos eclesiásticos rumo a posturas de extrema-esquerda afetou também mutos dos homens e mulheres do carlismo. Exemplifica tal hipótese na trajetória de duas pessoas: Antonio Izal Montero (carlista navarro que assumiu com paixão as novas correntes da Igreja) e Alfonso Carlos Comín (figura paradigmática do progressismo católico catalão dos anos 60 e de grande influência em determinados ambientes intelectuais "comprometidos"; filho de um dirigente carlista aragonês).

Desse modo, na página 46 do texto citado, se recolhe um parágrafo esclarecedor: "O carlismo não ia ser uma exceção neste ambiente de mudança, ainda mais em se tratando de um movimento cuja estrutura social marcadamente diferenciada entre dirigentes e dirigidos, faria com que sua ampla e pouco ideologizada base aceitasse com rapidez as transformações que iam introduzindo-se na variável sociedade espanhola do momento. Ademais, a debilidade de estruturas ideológicas fazia com que o que houvesse de político em sentido doutrinário se diluísse no muito mais pujante carlismo sociológico, mais apto às mudanças ante influxos diversos, pouco condicionado pelos escassos esquemas doutrinários existentes no carlismo, ainda que sem deixar de lado as possibilidades que uma doutrina como a carlista, apesar de suas limitações, oferecia para a renovação, insistindo em um rechaço ao imobilismo enquanto tal...".

No que concerne o veículo da transformação ideológica operada, em suas páginas 52 e 53 o concretiza assim: "Através dele (o religioso) faria ato de presença um elemento que, aos poucos, de forma real ou imaginária, como mito do dissolvente ou como efeito de uma realidade mutante, se apossou das obsessões e ilusões de boa parte do carlismo, contribuindo de maneira importante para a aceleração das mudanças nele. O mito do progressismo ia se introduzir no carlismo, utilizado como desculpa para a crítica ou como via para a reforma. Este progressismo de raiz religiosa ia muito unido ao processo de atualização que afrontava a Igreja desde o começo do pontificado de João XXIII".

Aqueles anos de regência foram muito críticos para o carlismo, ao que se somou a semiclandestinidade da Comunhão e a despolitização do regime franquista; segundo víamos antes. Apesar disso, a figura de Xavier de Borbón-Parma seguiu agregando boa parte das adesões das "primeiras figuras" do carlismo, ainda que se produzissem algumas defecções políticas importantes; caso do que foi Chefe Regional de Catalunha e impulsionador, posteriormente, da denominada Regência de Estella, Mauricio de Sivatte. Mas essa adesão mingua progressivamente, ao longo dos anos 60, com a saída de diversas figuras significativas da Comunhão por motivações diversas.

Um dado concreto avaliza essa religiosidade fundamental do movimento carlista: ainda hoje, boa parte das vocações ao sacerdócio surgidas nos últimos anos em Navarra, assim como à vida contemplativa, o foram no seio de famílias carlistas. Famílias que souberam transmitir o legado carlista; parelho a sua profunda e indubitável experiência católica.

Voltemos a nossa tese. Conforme essa concepção do carlismo seria necessário diferenciar três elementos hmanos, estruturais consubstanciais, que o integrariam: o povo, os líderes, o rei.

A sintonia povo-rei teria sido, em geral, magnífica. Mas a continuidade dinástica se interrompe em 1936 por causa da morte de Dom Alfonso Carlos de Borbón Austria-Este, estabelecendo-se uma regência. Este novo período histórico do carlismo, iniciado em plena guerra civil, coincidindo com o esforço militar que absorveu todas as suas energias durante anos tão transcendentais, se prolonga até o chamado "Ato de Barcelona" (31 de março de 1952). Dessa forma, e em pleno franquismo, se produziu a assunção do caudilhismo monárquico da Comunhão, ante seu Conselho Nacional, pelo até então regente Dom Xavier de Borbón-Parma, pai de Dom Hugo Carlos (mais tarde Carlos Hugo); após muitas dúvidas e vacilações.

Essa interrupção na continuidade da "dinastia legítima" coincidiu, na época, com a desmobilização de boa parte das massas carlistas posterior ao término da guerra civil; com uma Comunhão Tradicionalista ilegal. Neste sentido, Aurora Villanueva proporciona algumas novas chaves de máximo interesse. Assim, na página 536 de seu livro: "E é que ambos, carlismo e franquismo, procediam do mesmo universo mental: o tradicionalismo cultural do fim do século XIX e início do XX. Daí que o esforço dos líderes carlistas por manter o carlismo organicamente diferenciado alcançasse tão somente os setores de militantes mais politizados, enquanto que as bases, do carlismo sociológico, encontravam fácil acomodação no regime de Franco. Quiçá aqui resida a razão última da perda de sinal de identidade carlista durante o regime franquista".

A reativação do carlismo com um novo pretendente à cabeça (Dom Xavier) e, anos depois, com m projeto político diferenciado já em oposição aberta ao franquismo, após certa reconciliação prévia, coincide com o processo de transformação social operado na Espanha e com as mudanças da Igreja Católica. Tudo isso impulsionou a rápida evolução ideológica do carlismo (retificação ou definição, segundo seus impulsionadores), que acarretou o distanciamento progressivo de seus elementos inequivocamente tradicionalistas; perante o desconcerto de boa parte da base desse povo em desintegração. 

O papel dos líderes teria que ser questionado em maior medida; a história nos desenha múltiplos dissensos, cisões, mudanças de estrategia, expulsões, mudança de partido, etc., protagonizados por muitos deles. Todos esses movimentos fracassaram, entendendo-os como projetos coletivos, sendo, ao contrário, polo de atração do povo carlista a pessoa concreta do porta-estandartes que encarnava a continuidade da dinastia legítima e a mesmíssima autopercepção das Espanhas.

Resumamos, pois. A sintonia povo-rei, base do movimento histórico carlista, se rompe por um conjunto de causas:

1 - Por fatores estruturais internos da própria realidade carlista (a interrupção dinástica, as relações flutuantes com o franquismo, e a renovação de suas elites).

2 - Pelas novidades doutrinárias externas que afetaram, de forma determinante, ao "corpus" ideológico carlista (novas correntes teológicas desenvolvidas na Igreja a partir do Vaticano II; que questionaram o princípio básico carlista da "unidade católica" da Espanha).

3 - Por fatores externos derivados da dinâmica social histórica em que se desenvolve este povo concreto (as mudanças profundas que transformaram a Espanha, passando de uma sociedade rural a outra industrial, com o desaparecimento consequente do até então influente clero rural carlista; a progressiva desarticulação da família tradicional em prol de um modelo familiar nuclear muito mais individualista, conforme padrões sociais procedentes das chamadas sociedades "avançadas"; o impacto quotidiano das ideologias de "68"; finalmente, a incidência brutal individual e social do consumismo e do individualismo próprios da sociedade pós-moderna e pós-industrial.

Fatores tão complexos e rápidos pressionaram simultaneamente e sem freio algum, sobre o povo carlista, determinando que a família tradicional, principal custódia do carlismo durante várias gerações não fosse capaz de transmitir, salvo exceções contadas, seu legado; como tampouco foi capaz de comunicar uma experiência religiosa atraente em tantos casos.

Algumas Conclusões

Hoje em dia, fica algo vivo do carlismo? De forma organizada, sobrevivem três pequenos grupos: o Partido Carlista (último e minúsculo representante do carlismo socialista, federalista e autogestionário); a refundada Comunhão Tradicionalista Carlista; e o núcleo agrupado ao redor da chamada Secretaria Política de S.A.R. Dom Sixto Henrique de Borbón, a quem reconhece como Porta-Estandarte da Tradição.

Sociologicamente, por acaso, poderíamos aventurar que alguns tiques da mentalidade navarra em particular, se encontram intimamente entrelaçados com o carlismo sociológico: sentido de grupo, gosto pelo próprio, generosidade e entrega pessoal, certas imagens e lugares comuns do léxico, apego às tradições, espontaneidade, substrato religioso...

Não obstante, as novas gerações navarras, salvo exceções contadas, mostram um assombroso desconhecimento da história e saga carlistas de seus pais e avós.

Na dinâmica das relações humanas, a presença e companhia gerada por pessoas excepcionais pode chegar a materializar, pelo atrativo que são capazes de transmitir entre os homens e ao longo do tempo, um movimento que atravesse um período histórico. Essa dinâmica elemental determinou a operatividade concreta na transformação do catolicismo, e também o esteve, na história do carlismo.

Refletindo sobre a saga popular do carlismo, e analisando seu peso na história de Espanha e Navarra, não podemos menos que nos sentir tributários de todos esses carlistas, antepassados diretos nossos, que lutaram de forma consequente com seus ideais. Inclusive podemos chegar a afirmar que, em boa medida, graças eles, nossa tradição histórica concreta (a espanhola) e religiosa (o catolicismo) nos chegaram até nossos dias de uma forma viva, reconhecível e tangível. Trata-se, definitivamente, de um precioso legado para os navarros de hoje e todos os outros espanhois.


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