terça-feira, 21 de junho de 2016

Andrew Korybko - Guerras Híbridas e Segurança Democrática

por Andrew Korybko



Guerras híbridas são, em realidade, algo completamente diferente daquilo que a maioria das pessoas pensa que elas são. Minha visão é que aquilo que todas as pessoas falam – guerra de informação, guerra econômica, guerra institucional- e que em realidade já foi praticado antes, hoje em dia está sendo integrado através de uma ação conjunta de guerra. Portanto, minha definição de guerra híbrida trata de sua implementação prática no processo de transformar uma revolução colorida em uma guerra não convencional com o intuito de alcançar uma mudança de regime ou federalismo sob o eixo de uma identidade em um estado alvo.

 “A lei da guerra híbrida”, como eu a denomino, é que “o grande objetivo por detrás de toda guerra híbrida é interromper os projetos multipolares de alianças transnacionais através de conflitos de identidade (étnica, religiosa, regional, política, etc.) provocados externamente no estado em transição alvo”, e nós podemos observá-la na prática pelos esforços dos EUA para obstruir os projetos de integração russa na Ucrânia e a sabotagem do chamado Friendship Pipeline iraniano através da Síria. E ainda, todos os corredores de infraestrutura que coletivamente compreendem a estrutura global do chamado One Belt One Road da China, outrora considerada “A Nova Rota da Seda”, são alvos óbvios também, especialmente a área de interesse compartilhado, foco estratégico tanto para Rússia quanto para a China, localizada nos Bálcãs e na Ásia Central.

Agora que eu lhe falei o que são as guerras híbridas, deixe-me contar como elas operam. Organizações não governamentais (ONG’s) e agências de inteligência trabalham para cultivar grupos de frente nos âmbitos políticos e sociais dentro dos estados alvo, construindo essas redes até o ponto em que elas se tornem suficientemente fortes para desafiar as autoridades legítimas.  Antes que quaisquer hostilidades comecem, ONG’s e agências de inteligência se ocupam da tarefa de estimular um sentimento de diferença profundamente enraizada em meio ao povo, que geralmente está centrada em alguma forma de identidade, seja real ou imaginada, ou exagerada, com o objetivo de gerar um ressentimento antigoverno mais intenso.

Uma vez que as pré-condições da infraestrutura social e informacional alcançaram o estágio em que os financiadores externos estão confiantes em seu potencial de interromper a situação política do estado alvo, uma provocação é organizada com o objetivo de criar um motivo plausível para trazer à frente o movimento antigoverno e aberta iniciar o projeto de desestabilização de maneira aberta. Se a revolução colorida, ou a pressão “suave” não for bem sucedida em colher os frutos desejados, então esse movimento é eventualmente transformado em uma guerra não convencional, ou pressão “forte”, através de uma série de ações organizadas.

Quando isso acontece, alguns dos revolucionários se transformam em terroristas insurgentes que então são apoiados por estados pró-americanos, que enviam mais soldados, armamentos, e assistência material para seus representantes. Nós vimos esse processo acontecer na Síria após o fracasso da “Primavera árabe”, quando a revolução colorida se transformou em uma guerra terrorista e na Ucrânia logo depois do golpe de fevereiro quando as regiões ocidentais estavam em revolta aberta contra Kiev. Atualmente, esse padrão de eventos está se repetindo na Macedônia e há uma grande possibilidade de estourar no vale de Fergana em um futuro próximo. Para lembrar a todos vocês, isso está acontecendo com o objetivo de interromper ou tomar o controle de projetos importantes para a infraestrutura de áreas de trânsito essenciais, utilizando os meios inter-relacionados de mudança de regime, federalismo de identidade e caos incontrolável.

Mesmo sendo perigosas e representando uma ameaça, isso não significa que as guerras híbridas sejam inevitáveis e não possam ser contidas. Os métodos de contenção a essa ameaça são o que eu chamo de segurança democrática, e eu acredito que esse é um campo novo e animador que necessita urgentemente de apoio governamental para desenvolver-se. Até então, eu identifiquei três formas primárias para derrotar as guerras híbridas, mas eu tenho certeza que pesquisas futuras irão revelar outras estratégias efetivas.

A primeira coisa a ser feita é que as ameaças híbridas, no sentido que eu as defini, devem ser identificadas e expostas em seus estágios incipientes. Isso significa que todas as organizações não governamentais dentro de nosso país e de nossos aliados interessados devem ser registradas ou investigadas a respeito de financiamento estrangeiro, e que todas as organizações que representam uma ameaça à segurança nacional e estejam operando ilegalmente devem ser imediatamente banidas. Nós já alcançamos isso, então precisamos dar um passo adiante e criar uma base de dados internacional junto com nossos aliados com o objetivo de vigiar todas as ONG’s e suas atividades, sejam elas legais ou ilegais. E ainda, nós temos que demonstrar publicamente as conspirações dos EUA ao fomentar guerras híbridas encorajando os nossos profissionais da mídia, academia e segurança a trabalharem de maneira conjunta e informar coletivamente a nossa população a respeito das ameaças assimétricas que ela enfrenta, já que informação avançada e conhecimento são os meios de dissuadir e prevenir que cidadãos ingênuos e bem intencionados sejam levados a participar desses movimentos perigosos.

Em segundo lugar, nós precisamos ter certeza que os nossos representantes responsáveis pela segurança estejam treinados nos métodos apropriados para desmembrar as células que levam à frente as guerras híbridas, particularmente em dispersar revoluções coloridas e responder a atividades de guerras não convencionais. É muito importante que eles possam lidar com distúrbios de uma maneira delicada e evitem incitar de maneira inadvertida respostas violentas pelo uso de força desproporcional. Os instigadores frequentemente tentam enganar as autoridades fazendo-as cometerem erros e negligências que eles possam explorar através das mídias sociais gerando uma onda adicional de sentimento antigoverno e utilizando esse sentimento para canalizar mais atividades nas ruas. Seja através desses meios ou outros, a sua meta última é reunir o máximo de pessoas possível nas ruas para que elas possam funcionar como escudos humanos ao protegerem os agitadores mais violentos e evitar que eles sejam presos.

Finalmente, a última estratégia de segurança democrática que eu descobri é o encorajamento de movimentos patrióticos da sociedade civil que se manifestem em larga escala e apoio público ao próprio governo. Nós vimos isso de maneira mais clara na República da Macedônia, onde milhares de pessoas protestaram contra os colaboradores da revolução colorida e demonstraram ao mundo que eles não querem uma mudança de regime em seu país. É importante que governos ao redor do mundo ajudem a estimular esses movimentos como defesas pró-ativas em oposição às conspirações das revoluções coloridas, já que eles servem como primeira linha de defesa em resposta à essas ameaças.
Além disso, essas tecnologias de “reverter revoluções coloridas” também podem ser praticadas por cidadãos patriotas que exercem pressão para que seus governos reneguem acordos pró-ocidentes que sejam controversos. Por exemplo, os povos da Sérvia e Montenegro experimentaram através da disciplina e aplicação seletiva dessas táticas a tentativa de convencer os seus líderes a revogarem os seus compromissos com a OTAN, sendo cuidadosos ao não exigir uma mudança de regime ou utilizar meios violentos. O uso positivo da tecnologia das revoluções coloridas definitivamente merece maior atenção.


A última coisa que eu gostaria de dizer para todos vocês é que a Rússia possui o verdadeiro potencial para se tornar o centro global dos estudos e treinamentos em segurança democrática, e se os nossos especialistas podem dominar essas tecnologias e adquirir uma compreensão plena de como elas funcionam, nós podemos compartilhar esse conhecimento valioso com nossos aliados e aumentar a nossa importância estratégica no mundo. É possível que um dia venhamos a treinar os representantes dos nossos parceiros do âmbito militar, social e sua inteligência aqui em Moscou e portanto, fazer de nosso país a vanguarda que garantirá o futuro multipolar coletivo. No entanto, para que isso ocorra, nós necessitamos do apoio imediato das instituições para o financiamento de projetos de pesquisa relacionados e a mobilização em tempo integral de analistas qualificados nessa tarefa. Se nós formos bem-sucedidos em construir uma estrutura de segurança democrática integrada que seja mais forte que a estrutura das revoluções coloridas que os EUA já construíram, então a Rússia pode se tornar a líder indiscutível na resistência global frente às guerras híbridas. 

Um comentário:

  1. Ótimo e elucidativo artigo. Resta apenas saber como adaptar essas estratégias à realidade brasileira que não tem a menor chance de ter um governo nacionalista a curto ou médio prazo.

    Vimos aqui a ação intensa de movimentos liberais econômicos anti governo claramente financiados pelos EUA com nítida estratégia de desestabilização de curto prazo. Mas ao mesmo tempo o governo petista está mancomunado com outros movimentos liberais culturais também financiados pelos EUA com vista a uma desestabilização de médio a longo prazo de toda a sociedade brasileira, já com notável grau de sucesso.

    Haveria chance de ao menos tentarmos emplacar alguma legislação restritiva às ONGs? Há algum precedente ocidental?

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