quinta-feira, 26 de maio de 2016

Carlo Terracciano - Jean Thiriart: Profeta e Militante

por Carlo Terracciano



"Eu escrevo para uma espécie de homem que ainda não existe, para os Mestres da Terra..." (F. Nietzsche, a Vontade de Poder)

O desaparecimento súbito de Jean Thiriart foi para nós como um relâmpago em um céu sereno, para nós, militantes europeus que, no curso de muitas décadas sucessivas, aprendemos a apreciar este pensador da ação, especialmente desde seu retorno à política ativa, após um bom número de anos em "exílio interior" onde ele meditou e reformulou suas posições prévias. 

Ainda mais, sua morte nos surpreendeu, seus amigos italianos que ele conheceu pessoalmente em sua viagem a Moscou em agosto de 1992, onde formamos jntos uma delegação europeia ocidental próxima às personalidades mais representativas da Frente de Salvação Nacional. Essa frente, graças ao trabalho do infatigável Aleksandr Dugin, líder geopolítico e místico da revista Den (Dia), veio a conhecer e valorizar um bom número de aspectos do pensamento de Thiriart e os difundiu nos países da ex-URSS e da Europa Oriental. 

Pessoalmente, eu tenho a intenção, nas linhas seguintes, de honrar a memória de Jean Thiriart sublinhando a importância que seu pensamento teve e sempre tem em nosso país, a Itália, nos anos 60 e 70 no domínio da geopolítica. Na Itália, sua reputação se apoiava essencialmente em seu livro, o único que havia realmente dado uma coerência orgânica a seu pensamento no domínio da política internacional: "Europa: Um Império de 400 Milhões", editado por Giovanni Volpe em 1965, quase 30 anos atrás.

Apenas três anos haviam se passado desde o fim da experiência francesa na Argélia. Este evento dramático foi a última grande mobilização da direita nacionalista, não apenas em solo francês, mas em outros países da Europa, incluindo a Itália. As razões profundas da tragédia argelina não foram compreendidas pelos anti-gaullistas que lutaram pela Argélia francesa. Eles não entenderam o que estava em jogo geopoliticamente na questão e que as potências vitoriosas da Segunda Guerra Mundial pretendiam redesenhar os mapas para sua vantagem, acima de tudo os EUA. 

Quantos desses militantes da Argélia francesa entenderam, em sua época, qual era o inimigo principal da França e da Europa? Quantos desses homens entenderam intuitivamente que, no esquema histórico, a perda da Argélia, seguida pela perda da Indochina, como o colapso de todo o sistema europeu veterano-colonial, foram consequências diretas da derrota militar europeia em 1945? Foi, na verdade, uma derrota não só da Alemanha e da Itália, mas da Europa como um todo, incluindo Grã-Bretanha e França. Nem uma única colônia do velho sistema colonial, que por sua vez se tornaram sujeitas a uma nova forma, mais moderna e sutil, de imperialismo neocolonialista.

Ao ponderarem os eventos de Suez (1956) e da Argélia, os "nacional-revolucionários", como eles se chamam, concluíram formulando várias considerações e análises sobre as consequências dessas duas situações tráticas, considerações e análises que os diferenciam ainda mais da "direita clássica" do pós-guerra, animada por um anticomunismo visceral e pelo slogan de defesa do Ocidente, branco e cristão, contra o ataque simultâneo do comunismo soviético e dos movimentos de libertação nacional dos povos de cor do Terceiro Mundo. De certa forma, o choque político e cultural da Argélia pode ser comparado ao que foi, para a esquerda, a totalidade dos eventos na Indochina, antes e depois de 1975. A velha visão da política internacional perfeitamente integrada na estratégia econômica, global e geopolítica da talassocracia americana, os fascistas como pós-fascistas (ou pelo menos fingindo sê-lo), segundo seu projeto geoestratégico de dominação global. Tudo para chegarmos hoje à "Nova Ordem Mundial", similarmente já abortada e que parece ser a caricatura invertida e satânica da "Nova Ordem" eurocêntrica de criação hitleriana.

A Nova Direita francesa, só para dar um exemplo, começou seu caminho no momento dos eventos na Argélia, para embarcar em uma longa marcha de revisão política e ideológica, que resultou na viagem recente de Alain de Benoist a Moscou, um passo obrigatório para todos os revolucionários europeus dissidentes em relação ao sistema global. A aproximação, então, foi feita por Benoist, apesar de seus relapsos e negativas subsequentes, apoiadas por alguns de seus acólitos mais esquálidos, que ainda evidentemente não entenderam completamente a real importância desses encontros entre europeus ocidentais e russos a nível planetário e preferem se perder em disputas de quintal estéreis, que não tem motivações além das pessoas, revelando pequenos ódios e ressentimentos idiossincráticos. Nesse domínio tal como em outros, Thiriart já havia dado o exemplo, ao contrastar as diferenças naturais existentes entre os homens e as escolas de pensamento interessantes, o supremo interesse da luta contra o imperialismo americano e o sionismo.

Retornando à Itália, devemos relembrar a situação que reinava nesse distante ano de 1965, quando a obra de Thiriart foi publicada: as forças nacional-revolucionárias, então integradas no Movimento Social Italiano (MSI), foram então vítimas de um provincialismo antigo-fascista, provincialismo cinicamente utilizado pela hierarquia política do MSI, completamente subserviente à estratégia dos EUA e da OTAN (uma linha política que será subsequentemente seguida fielmente, até mesmo no curso do breve parêntese da liderança "rautista", supostamente inspirada pelas teses nacional-revolucionárias de Pino Rauti, liderança que apoiou a intervenção de tropas italianas no Iraque, ao lado do exército americano). 

Os líderes dessa direita colaboracionista usaram grupos revolucionários na base, essencialmente compostos de gente bem jovem, para criar militantes projetados destinados a, eventualmente, reunir os votos necessários para enviar deputados "entristas" ao parlamento, para servirem como apoio a governos reacionários de centro-direita. E tudo isso, certamente, não estava nos interesses da Itália ou da Europa, mas apenas no da potência ocupante, os EUA. E novamente, nós recebemos um micronacionalismo centralizador e chauvinista, utilizado para o benefício de interesses estrangeiros e cosmopolitas!

Também era a época em que a extrema direita ainda era capaz de mobilizar nas ruas italianas milhares de jovens que proclamavam que Trento e Trieste foram e permaneciam italianas, ou para comemorar a cada ano os eventos na Hungria em 1956! Maio de 1968 ainda estava longe, parecia a anos-luz de distância! A direita italiana, em seus prospectos, não via que essa revolução era prometida. Em tal contexto político e humano, antigo-nacionalista, provinciano e, na prática, filo-americano (que então se abriria na farsa pseudo-golpista de 1970, que levaria consequentemente, no curso de toda a década, os tristemente famosos "anos de chumbo", a seu cortejo de crimes estatais), a obra de Jean Thiriart teve, para um grande número de nacionalistas, o efeito de uma bomba; um choque elétrico salutar que fez com que o extremismo nacionalista encarasse problemas, que certamente não era novos, mas que foram esquecidos ou haviam caído em desuso. Hoje, nós não podemos nem tomar nota dos efeitos políticos práticos que se desdobraram do pensamento de Thiriart, mesmo se esses efeitos, primeiramente, fossem muito modestos. Nós dizemos que a partir da publicação do livro de Thiriart, o tema europeu se tornou aos poucos o patrimônio ideal de toda uma esfera que, nos anos seguintes, se desenvolveria nos temas antiglobalistas de hoje.

Sem exageros nós podemos afirmar que é nessa época que os temas da Europa-Nação, de uma luta anti-imperialista que não era da "esquerda", da aliança geoestratégica com os revolucionários do terceiro mundo, foram desenvolvidos. A adoção desse tema é ainda mais assombroso e significativo quando sabemos que a aventura da Jeune Europe começou com uma luta contra a FLN argelina. Thiriart havia, neste esquema, mudado completamente de campo, sem apesar de tudo modificar substancialmente sua cosmovisão, ele que, algumas décadas antes, havia deixando as fileiras da extrema-esquerda belga para se unir em colaboração com o Terceiro Reich germânico, sem perder de vistas o fator soviético. Essas acrobacias político-ideológicas lhe garantiram acusações de "agente duplo", sempre às ordens de Moscou!

Na Itália, a seção italiana da Jeune Europe (Giovane Europa) foi rapidamente estabelecida. Apesar da origem política da maioria de seus militantes, Giovane Europa não tinha afiliação direta com a Giovane Italia, a organização estudantil do MSI (copiada, por sua vez, da Giovane Italia de Mazzini no século XIX); ao contrário, Giovane Europa era praticamente a antítese, a alternativa oposta. Uma vez que a experiência militante da Giovane Europa terminou, a maioria de seus molitantes se encontrou no Movimento Politico Ordine Nuovo (MPON), oposto à linha política que defendia a participação parlamentar, como os partidários de Pino Rauti queriam, que haviam retornado às fileiras do MSI de Almirante.

Se considerarmos o papel único que o pensamento de Julius Evola teve no esquema ideológico e cultural na Itália, nós não devemos esquecer que Jean Thiriart impulsionou, de sua parte, uma tentativa única de renovar as forças nacionais nesses anos e nos anos vindouros. Mesmo Giorgio Freda reconheceu suas dívidas, no esquema das ideias, para com o militante e pensador belga.

Outro aspecto particular e muito importante do livro "Europa: Um Império de 400 Milhões", é ter antecipado, em muitas décadas, um tema fundamental, recentemente chegado ao debate, notavelmente na Rússia, graças às iniciativas de Aleksandr Dugin e da revista Den, e na Itália, graças às revistas Orion e Aurora: geopolítica. 

A primeira frase do livro de Thiriart, na versão italiana, é exatamente dedicada a essa ciência essência que tem como seus objetos os povos e seus governos, uma ciência que esteve submetida, após o período da guerra, a um longo ostracismo, sob o pretexto de ter sido o instrumento da expansão nazista! Uma acusação, no mínimo, incongruente já que sabemos que em Yalta os vencedores repartiram os espólios da Europa e do resto do mundo com base em considerações geopolíticas e geoestratégicas. Thiriart estava perfeitamente consciente, ao escrever seu primeiro capítulo, significativamente chamado "De Brest a Bucareste. Apagar Yalta": "No contexto da geopolítica e da civilização comum, como será demonstrado depois, a Europa unitária e comunitária se estende de Brest a Bucareste". Ao escrever essa frase, Thiriart propôs os limites geográficos e ideais de sua Europa, mas depois ele ultrapassaria estes limites, para chegar a uma concepção unitária do grande espaço geopolítico, ou seja, Eurásia. 

Mais uma vez, Thiriart demonstrou que ele era um antecipador lúcido de temas políticos que só amadureceram lentamente entre seus leitores, pelo menos alguns deles...

Mas não é só isso! 

Conjuntamente ao grande ideal da Europa-Nação e à redescoberta da geopolítica, o leitor é obrigado a olhar de novo para os grandes espaços do planeta. Foi outro mérito de Thiriart ter ultrapassado o trauma europeu da era da descolonização e ter encontrado, para o nacionalismo europeu, uma aliança estratégica global com os governos do terceiro mundo, não subservientes ao imperialismo, em particular na zona islâmica árabe, no norte da África e no Oriente Médio. É verdade que aqueles que descobriram a geopolítica não poderiam fazer nada além de ver os eventos do mundo sob uma nova luz, uma nova perspectiva. E é neste contexto, por exemplo, que devemos compreender as numerosas viagens de Thiriart ao Egito, à Romênia, etc., bem como seus encontros com Zhou Enlai e Ceaucescu ou com os líderes palestinos. Em todo lugar em que fosse possível fazer algo, Thiriart buscou tecer uma rede de informação planetária e alianças em uma perspectiva anti-imperialista. Ademais, nós notamos ao mesmo tempo que a revolução cubana, com sua originalidade, exerceu de sua parte sua própria influência.

Com este estilo sintético, quase telescópico, Thiriart ele mesmo traçou em seus textos as linhas essenciais da política externa da Europa unida futura: "As linhas diretivas da Europa unitária: com a África: simbiose; com a América Latina: aliança; com o mundo árabe: amizade; com os EUA: relações baseadas na igualdade"

À parte da utopia que era sua esperança de relações iguais com os EUA, nós notaríamos que sua visão geopolítica era perfeitamente clara: ele queria grandes blocos continentais e esteve distante em toda sua visão de uma pequena Europa "atlântica e ocidental" que, como hoje, é apenas um apêndice oriental da talassocracia ianque, tendo o Oceano Atlântico como centro de gravidade, reduzida à função de "lago interno" dos EUA. 

Certamente, hoje, após a aventura política de Thiriart, algumas dessas opiniões geopolíticas, no milieu "nacional", poderiam parecer evidentes, banais, para alguns, simplistas e integráveis para outros. Mas tirando o fato de que tudo isso dificilmente era claro para o conjunto de "nacionalistas" (é suficiente pensar em certas ressurgências racistas/biologicistas e anti-islâmicas de pseudo-nazismo, utilizadas e instrumentalizadas pela propaganda americana e sionista para um fim anti-europeu), nós não cansamos de repetir que com trinta anos, essa opinião puramente geopolítica de Thiriart, incólume de quaisquer conotações racistas, se apresentam muito originais e corajosas, em um mundo bipolar, aparentemente opondo dois blocos ideológicos e militares antagônicos, em uma perspectiva "horizontal" de conflito entre Oriente e Ocidente e sob a ameaça de aniquilação militar mútua, acima de tudo para os "aliados" das duas maiores potências na Europa.

Podemos afirmar hoje que se muitos entre nós, na Itália, progressivamente passaram a superar essa falsa visão dicotômica de conflito planetário, e bem antes do colapso da URSS e do bloco soviético, é graças principalmente ao fascínio que as teses propagandas por Thiriart exerceram na época, com suas intuições brilhantes. 

Efetivamente, nós podemos falar em "brilhantismo", na política como em todos os outros domínios do conhecimento humano, quando se prevê e expõe (do latim exponere, pôr para fora, colocar em evidência) os fatos ou eventos que ainda estavam ocultos, desconhecidos, confusos para outros e apenas gradativamente emergiam de seu estado oculto para acontecer claramente para o mundo em um futuro mais ou menos distante. Neste capítulo, nós queremos simplesmente relembrar as afirmações de Thiriart sobre as dimensões geopolíticas do futuro Estado europeu, contidas no capítulo (10, §1) chamado "As Dimensões do Estado europeu. A Europa de Brest a Vladivostok" (pp.28 a 31 da edição francesa):

"A Europa desfruta de uma grande maturidade histórica, ela a partir de então conhece a vaidade de Cruzadas e guerras de conquista na direção do Oriente. Após Carlos XII, Bonaparte e Hitler, ela pode medir os riscos de empreendimentos similares e seu preço. Se a URSS quer manter a Sibéria, ela deve fazer paz com a Europa, com a Europa de Brest a Bucareste, eu repito. A URSS não tem e terá cada vez menos força para manter tanto Varsóvia e Budapeste de um lado, e Tchita e Khabarovsk do outro. Ela deve escolher ou se arriscar a perder tudo".

Ainda:

"Nossa política diferia da do general De Gaulle porque ele cometou ou cometê três erros: Colocar a fronteira da Europa em Marselha e não na Argélia; Colocar a fronteira do bloco soviético/Eropa nos Urais e não na Sibéria; Finalmente, querer lidar com Moscou antes da libertação de Bucareste" (pg. 31)

À leitura desses dois breves extratos, não podemos dizer que Jean Thiriart carecia de perspicácia e previsão. Mas essas frases foram escritas, repetimos, em uma época em que militantes europeus sinceros, mesmo os mais audaciosos, mal conseguiram conceber uma unidade europeia de Brest a Bucareste, isto é uma Europa limitada à península ocidental da Eurásia; para Thiriart, isso já representava tão somente um passo, uma plataforma para lançar um projeto muito mais vasto, o de unidade continental imperial. Não falemos, portanto, de direitos nacionalistas, incluindo os de hoje, que apenas repetem infinitamente seu provincialismo, sob o olhar vigilante de seu patrão americano.

Já se passaram trinta anos, Thiriart vai mais longe: ele denunciou todo o absurdismo geopolítico do projeto gaullista (De Gaulle foi mais um responsável direto pela derrota da Europa, em nome do chauvinismo antigo-nacionalista do Hexágono) de uma Europa se estendendo do Atlântico aos Urais, endossando essa visão continental absurda, própria de professores de geografia, que traça em mapas de papel uma fronteira imaginária até os picos dos Urais, que jamais detiveram ninguém, nem os hunos, nem os mongois, nem os russos.

A Europa se defende nas margens dos rios Amur e Ussuri; a Eurásia, isto é, Europa mais Rússia, tem um destino claramente traçado pela história e geopolítica do Oriente, na Sibéria, no extremo oriente da cultura europeia, e este destino se opõe ao Ocidente da civilização americana da Bíblia e do Business. Quanto a história de encontros e confrontos entre povos, não é nada além da geopolítica em ato, tal como a geopolítica não é nada além dos destinos históricos dos povos, nações, etnias e imperios, mesmo religiões, em potência. De passagem, nós devemos acrescentar que a concepção de Jean Thiriart, dado que ela estava ainda ligada a modelos "nacionalistas" influenciados pela França revolucionária, era finalmente mais "imperial" do que imperialista. Ele sempre recusou, até o fim, a hegemonia definitiva de um povo sobre todos os outros. 

A Eurásia de amanhã não será mais russa do que mongol, turca, francesa ou germânica: já que quando todos esses povos exerceram hegemonia singular, eles falharam. As falhas devem servir como lições.

Quem poderia, trinta anos atrás, ter previsto com tamanha precisão a fraqueza intrínseca desse colosso militar-industrial que era a URSS, que parecia à época sempre lançada na conquista de novos espaços, em todos os continentes, em competição dura com os EUA, que depois a ultrapassaria? 

Com o tempo, finalmente, tudo foi revelado como um imenso blefe, uma miragem histórica provavelmente fabricada a partir do zero por forças globalistas no Ocidente para manter povos na servidão com, sua chave, constantes chantagens por terror. Tudo isso para manipular os povos e nações da Terra para o benefício do interesses estratégico supremo, apresentado como única "verdade": o da superpotência planetária que são os EUA, base armada territorial do projeto globalista. Finalmente, falando na língua da geopolítica, foi a "política da anaconda" que prevaleceu, como definida no passado, com as mesmas palavras, pelo geopolítico alemão Haushofer, e definida hoje pelos geopolíticos russos, à cuja cabeça está o coronel Morozov; os americanos e globalistas sempre buscam remover o pivô territorial da Eurásia de saídas potenciais para mares quentes, antes de abocanhar pedaço por pedaço o território da "telurocracia" soviética. O ponto de partida para essa estratégia de abocanhar: Afeganistão.

Jean Thiriart já havia trazido à luz, em seu livro em 1965, as razões brutas e cruas que animam a política internacional. Não é por acaso, de qualquer maneira, que um de seus modelos foi Maquiavel, autor do Príncipe. Certamente, pessimistas nos dirão, se o Thiriart analista político havia sabido antecipar e prever, o Thiriart militante, organizador e líder político do primeiro modelo de uma organização europeia transnacional, falhou nisso. Ou porque a situação internacional à época não estivesse suficientemente madura (ou podre), como afirmamos hoje, ou porque não houve "santuário" de partida, como Thiriart havia julgado indispensável. Na verdade, ele carecia na Jeune Europe de um território livre, um Estado completamente estrangeiro às condições impostas pelas superpotências, que pudesse servir de base, de refúgio, de fonte de provisão para os militantes europeus do futuro. Um pouco como Piemonte foi para a Itália. 

Todos os encontros de Thiriart a nível internacional objetivava isso. Todos falharam. De forma realista, Thiriart renunciou à participação política, retomando seu discurso e aguardando que a ocasião se apresentasse, e mesmo uma melhor ocasião, de ter um grande país a partir do qual ele pudesse propôr sua estratégia: a Rússia. O destino desse cidadão belga de nascimento, mas europeu por vocação, foi estranho: ele foi sempre "atemporal", surpreso por eventos. Ele sempre os previu, mas foi sempre ultrapassado por eles.

Sua concepção de geopolítica eurasiana, sua visão que designava globalmente os EUA como o inimigo objetivo absoluto, pôde ser percebida como indicações de um "visionarismo" iluminado, freado somente por um espírito racional cartesiano, e racionalizante em última instância.

Seu materialismo histórico e biológico, seu nacionalismo europeu centralizador e totalitário, seu fechamento para temas ecológicos e animais, suas posições pessoais em relação a especificidades etnoculturais, sua hostilidade principiológica a todo pathos religioso, sua ignorância de dimensões metapolíticas, sua admiração pelo jacobinismo da Revolução Francesa, tudo isso são pedras de tropeço para um bom número dos antiglobalistas francófonos: tudo isso constituía os limites de seu pensamento e os resíduos de concepções antigo-materialistas, progressistas e darwinistas, cada vez mais distantes das escolhas políticas, religiosas e culturais contemporâneas, entre os homens e povos engajados, por toda a Eurásia e mundo, na luta contra o globalismo. As ideias "racionalistas" que Thiriart endossava foram, ao contrário, o solo político e cultural sobre o qual o globalismo germinou no curso de séculos passados. Estes aspectos do pensamento de Thiriart revelavam seus limites, durante os últimos meses de sua existência, notavelmente nos colóquios e conversas em Moscou em agosto de 1992. Seu desenvolvimento intelectual parece ter sido definitivamente preso na época do historicismo linear e progressivo, com sua mitologia de um "futuro radiante para a humanidade".

Tal visão racionalista não lhe permitiu compreender fenômenos tão importantes quanto o renascimento islâmico ou o novo "misticismo" russo eurasiano, bem como suas projeções políticas de teor altamente revolucionário e antiglobalista. E nem falemos no impacto das visões tradicionalistas de um Evola ou um Guénon. Thiriart, assim, transmitia sua deficiência "cultural", o que não nos impediu de nos encontrarmos em Moscou em agosto de 1992, onde colhemos suas inúmeras intuições políticas. 

Algumas de suas intuições foram feitas junto a jovens militantes europeus que foram encontrar os protagonistas da vanguarda "eurasiana" da Frente de Salvação Nacional Russa, reunidos ao redor da revista Den e do movimento de mesmo nome. Nós descobrimos, assim,na capital do antigo império soviético que ele foi perfeitamente reconhecido como pensador de vanguarda pelos russos. Os ensinamentos geopolíticos de Thiriart haviam germinado na Rússia, é indubitável, enquanto no Ocidente eles sempre foram ignorados, ou mesmo desprezados. Thiriart teve um impacto profundo nas distâncias glaciais da Rússia siberiana, no coração do Velho Mundo, perto ao pivô central da telurocracia eurasiana.

É uma ironia na história das doutrinas políticas, que se ergue no momento de sua atualização prática ou é a enésima confirmação desse velho adágio, "ninguém é profeta de seu próprio século?" O longo "exílio interior" de Thiriart parecia, assim, terminado, ele havia se retirado da política ativa definitivamente e havia superado essa aposentadoria que, desde o início, foi uma grande farsa. Ele nos inundou com documentos escritos, gravações de depoimentos orais. A inundação nos pareceu intermináve! Como se ele buscasse compensar pelo tempo perdido em silêncio desdenhoso. 

Movido por um entusiasmo juvenil, às vezes excessivo e cansativo, Thiriart se comprometeu a dar lições de história e geopolítica, ciências exatas e ciência política, e quaisquer outras disciplinas imagináveis, para o público geral e jornalistas, para parlamentares e escritores, para políticos da ex-URSS e militantes islâmicos da CEI, e também, certamente, para os italianos presentes, que haviam, ao mesmo tempo que ele, conhecido mudanças de opinião, aparentemente inesperadas. E tudo isso aconteceu na Rússia de hoje, onde tudo, a partir de então, é possível e nada é garantido (e que pode ser, quem sabe, a Rússia de amanhã quando este artigo aparecer); nós lidamos realmente com uma Rússia suspensa entre um passado glorioso e um futuro sombrio, mas plena de possibilidades inimagináveis. Foi lá que Jean Thiriart encontrou uma nova juventude.

Em uma Moscou que sobrevive dia após dia entre apatia e febrilidade, parecendo aguardar por "algo" cujo nome ou rosto não conhecemos; uma cidade onde tudo acontece, onde tudo pode acontecer em uma dimensão especial, entre o céu e a terra. Em solo russo tudo e seu oposto pode emergir: salvação e perdição, renascimento ou o fim, um novo poder ou a desintegração total de um povo que foi imperial e foram transformados hoje em plebeus miseráveis. Ao fim, é este, e apenas este, que é o destino de todos os povos europeus e, finalmente, do planeta Terra. A alternativa é muito clara: nós teremos um novo império eurasiano que nos guiará na luta pela libertação de todos os povos do planeta ou assistiremos ao triunfo do globalismo e da hegemonia americana pelo próximo milênio. Foi ali que o escritor e político Jean Thiriart encontrou a esperança de pôr em prática suas intuições passadas, dessa vez em escala muito mais vasta. 

Neste solo russo, onde o exército messiânico dos povos da Eurásia, novo avatar de um ciclo de civilização ou o Anticristo da profecia de João pode surgir, nós teremos um espaço para toda alquimia e experiência política, inconcebível se olharmos com os olhos de um ocidental. A Rússia hoje é um imenso laboratório, um território político virgem que pode fertilizar os enxertos que vem de longe, um território virgem onde liberdade e poder buscam se unir e tentar uma nova síntese: "O caminho da liberdade passa pelo do poder", Thiriart sublinhou em seu livro fundamental:

"Assim, não deve ser esquecido, ou é necessário ensinar aos que são ignorantes. A liberdade do fraco é um nobre mito, uma engenhosidade para uso demagógico ou eleitoral. Os fracos nunca foram livres e nunca serão. Só a liberdade do forte existe. Quem quer ser livre deve querer ser poderoso. Aquele que quer ser livre deve ser capaz de deter outros homens livres, porque a liberdade é invasiva e tende a se expandir sobre a de vizinhos fracos".

Ou ainda:

"É criminoso, do ponto de vista da educação política, tolerar que as massas possam ser intoxicadas por mentiras debilitantes como aquelas que consistem em 'declarar paz' aos seus vizinhos, imaginando que eles possam manter sua liberdade. Cada uma de nossas liberdades foi adquirida após lutas repetidas e sangrentas e cada uma delas só poderá ser preservada se demonstrarmos a força capaz de desencorajar aqueles que nos querem tomá-las. Mais do que os outros, nós desfrutamos de muitas liberdades e rejeitamos inúmeras limitações. Mas nós sabemos o quanto essas liberdades são perpetuamente ameaçadas. Seja como indivído, ou como nação, nós conhecemos a fonte da liberdade e que ela é o poder. Se quisermos preservar a primeira, devemos cultivar a segunda. Eles são inseparáveis". (p. 301-302)

Eis uma página que, por si mesma, poderia garantir a seu autor um posto acadêmico em história das ciências políticas. Quando tudo parece possível novamente e quando o jogo das grandes estratégias políticas retorna à vanguarda, em um tabuleiro de xadrez tão grande quanto o mundo, quando Thiriart mal havia vislumbrado a possibilidade de dar vida a sua grande ideia de unidade, ali surgiu o último golpe do destino: morte. Apesar de sua inevitabilidade, é um evento que sempre nos surpreende, que nos deixa com uma sensação de pesar e incompletude. No caso de Thiriart, o fato da morte fez o espírito vagar e imaginamos tudo que este homem de elite poderia ter ainda trazido para nossos combates, tudo que ele poderia ter ainda ensinado àqueles que partilhavam de nossa causa, mesmo que em simples trocas de opinião, mesmo que apenas fazendo proposições em questões políticas e culturais. No fim das contas, cabe a nós sublinhar a completude da obra de Thiriart. Mais do que qualquer outro, ele havia sistematizado completamente seu pensamento político, ao mesmo tempo sempre permanecendo plenamente coerente com suas próprias premisas e permanecendo fiel ao estilo que ele deu a sua vida. 

Para ele não podemos dizer qualquer coisa post mortem que ele já não houvesse dito, nem adaptando seus textos e suas teses às demandas políticas do momento. O fato permanece, indubitavelmente, que sem Jean Thiriart, nós não seríamos o que nos tornamos. Em efeito, nós somos todos herdeiros no esquema de suas ideias, que conhecemos pessoalmente ou através de seus escritos. Nós temos sido, de um momento ou outro de nossa vida política ou missão ideológica, os devedores de suas análises e intuições meteóricas. Hoje, nos sentimos todos como órfãos.

Neste instante, queremos recordar um escritor político, um homem que era simplesmente apaixonado, ríspido, com vitalidade transbordante, um rosto sempre iluminado com um sorriso juvenil e uma alma animada por uma paixão flamejante, a mesma que queima em nós, sem vacilar, sem a menor incerteza ou dobra. 

O caso de Jean Thiriart? É a encarnação viva, vital, de um homem de elite que levou seu olhar à distância, que viu mais além, para além das contingências do presente, onde as massas permanecem prisioneiras. Eu quis pintar o retrato de um profeta militante. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário