quinta-feira, 21 de abril de 2016

Imad Fawzi Shueibi - A Ordem Mundial Vacilante e seus Impactos

por Imad Fawzi Shueibi



No intervalo entre duas ordens mundiais, há uma guerra mundial e um período de transição seguido por um controle internacional cada vez mais rígido.

O Ocidente formou uma Ordem Mundial em 1648 após o Tratado de Vestfália e a Guerra de Trinta Anos. O Tratado de Vestfália estabeleceu quatro princípios fundamentais:

* 1. A soberania absoluta do Estado-Nação, e o direito fundamental à autodeterminação política.

* 2. A igualdade legal entre Estados-Nações. O menor Estado é, portanto, igual ao maior, independentemente de sua fraqueza ou força, riqueza ou pobreza.

* 3. A obediência internacional a tratados, e a emergência do "Direito Internacional Vinculante".

* 4. A não-intervenção nas questões internas de outros Estados.

Posteriormente, uma nova ordem mundial foi estabelecida. Ela foi chamada de "Paz dos Cem Anos" de 1813 a 1914, e moldou as Regras Internacionais do Jogo; Jogo da Guerra, Jogo da Paz e as Regras de Conflito.

O início da Primeira Guerra Mundial foi uma indicação do fim da Ordem Internacional prévia e o início de uma nova, e com o fim da Segunda Guerra Mundial e o fim da Liga das Nações, uma nova Ordem Mundial foi estabelecida.

Com o colapso da União Soviética, a Ordem do Pós-SGM findou e um período de transição se iniciou. Durante este período, os Estados Unidos da América considerava tudo relacionado ao Pós-SGM como parte do passado; i.e., o Princípio de Soberania de Vestfália. Assim, o Tratado de Vestfália foi abolido, bem como o direito de resistir, como o que conheceu a França em sua resistência à ocupação alemã. Tudo isso se transformou no sentido de que o princípio de soberania foi substituído pelo Direito de Intervenção Humanitária e a resistência foi substituída por negociações, e até mesmo considerada terrorismo.

Isso foi intensificado ainda mais com a derrubada das torres gêmeas em 11 de setembro de 2001, quando os neocons moldaram a teoria de seus mestres Leo Strauss e Alan Bloom para formar uma nova ordem mundial unipolar. Essa orientação precisava de uma arena de operações, que veio a ser o Oriente Médio. Eles começaram com o Iraque, e prosseguiram para o Líbano, e então o efeito dominó começou a rolar. Porém, sua principal preocupação era pôr as mãos na Síria.

Com essa mudança, a fase de não-polaridade se iniciou.

O século XX começou multipolar, mas logo se tornou bipolar, e com o fim da Guerra Fria a ordem mundial se tornou unipolar; i.e., uma ordem mundial na qual apenas uma única super-potência domina. O momento de unipolaridade que o mundo tem conhecido desde a queda do Muro de Berlim e o colapso da URSS foi bastante breve; foi apenas um "momento" na história. As coisas continuaram até que chegamos a um mundo de não-polaridade, no qual o poder está distribuído entre algumas potências.

Se a ordem for multipolar, ela pode ser cooperativa, e ela pode gerar harmonia entre as potências, que apesar de serem poucas, estarão trabalhando segundo regras estáveis, cujo violador estará sujeito a penalidades. Essa ordem pode ser também competitiva e girar ao redor de uma balança de poder. Ela pode estar mais predisposta ao conflito quando essa balança se abalar. Porém, o caso da não-polaridade não deixa espaço para cooperação; ao invés, ele leva ao caos.

Há mais potências hoje do que Estados, mas apenas alguns poucos pólos entre esses não são Estados nacionais. Em tal tipo de ordem, os Estados nacionais perdem seu monopólio de poder. Os Estados se deparam com o desafio vindo do topo e apresentado por organizações internacionais e regionais, além do desafio vindo de baixo e apresentado por milícias, corporações e ONGs.

O mundo de hoje não possui polaridade, como resultado inevitável da globalização. Esta aumento a quantidade, a velocidade e a relevância dos fluxos através das fronteiras em relação a quase tudo.

Com a presença de muitos partidos com poder óbvio tentando exercer sua influência, seria difícil adotar respostas massivas, porque o mundo estará flutuando em um caos onipresente.

Quanto mais não-polaridade existir, mais não-polaridade se gerará. Deixando o mundo hoje neste estado de não-polaridade por conta própria tornará até mesmo mais complicado com o tempo. A difusão de desordem fará com que os sistemas consistindo de mais de um partido sigam avançando mais arbitrariamente.

Riscos do Caos Internacional

A mensuração da eficiência e da eficácia de qualquer liderança internacional que se manifesta na habilidade de grandes países determinarem as regras da Ordem Internacional assume, primeiro, então o papel de regular os conflitos internacionais e controlar ou mesmo impedir seu acontecimento com o maior nível de eficiência e o menor custo. Porém, tomando a experiência de duas décadas e meia revela o verdadeiro fiasco na efetividade da liderança internacional, ou seja, a ausência de "ordem"; pelo contrário, uma situação internacional caótica. Assim, não há lugar para um único polo dominar realmente e não há nem mesmo um sistema que permita que o mundo seja dividido entre duas potências, nem a experiência ou possibilidade de se aceitar um mundo multipolar.

Essa situação internacional caótica significa a manutenção da severidade de conflitos nos lugares que costumavam ser áreas para testes de balões de influência, como o Oriente Médio, ou que tenham conflitos através de um terceiro, que transforma a região em uma arena de combate.

Esse conflito não terminará a não ser que as potências internacionais cheguem a um acordo. A emergência do ISIS (Daesh), porém, demanda uma emenda às regras de conflito, que atualmente não são claras.

A Dimensão Científica do Caos


A ideia começa com o termo "caos" em si, cuja estranheza não faz diferença, desde que ele seja o segredo por trás de todos os desastres e catástrofes que afetaram todo o mundo e os que ainda vem por aí.


Este conceito está relacionado ao conceito do "efeito borboleta" no qual um minúsculo evento pode mudar toda a história. É isso que o caos está fazendo; ele começou um processo de modificação da face da história e de criação de algo com que o mundo jamais esteve familiarizado desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Os teóricos dos Estados Unidos hoje não escolheram arbitrariamente a palavra "caos" para significar a anarquia onipresente e avassaladora. Eles até acrescentaram a palavra "criativo" a ele, para lhe dar uma conotação ainda maior, criando assim um novo efeito borboleta que pode ser a causa de um grande desastre que aflige toda a humanidade.

"Caos" não significa "desordem" desde que esta signifique algo que pode ser posto de novo em ordem. Com o "caos" não há qualquer possibilidade de se organizar ou colocar em ordem. É o "estado de existência primeva" mencionado na Bíblia a partir do qual todo o universo emergiu. Sem a mão de Deus, este mundo não teria sido ordenado, ou quase ordenado. Isso foi afirmado no Gênese como segue: "E a Terra era sem forma, e vazia; "E a Terra estava informe e vazia; e as trevas cobriam o abismo".

Era caos real antes da Mão do Criador ou Demiurgo colocar tudo em ordem.

Simplesmente, a questão toda se centra ao redor de transformar o mundo em algo caótico sem poder organizativo com exceção do dos Estados Unidos.

Uma teoria estranha, não é?

Ela de fato o é.

Alguns americanos querem que o mundo fique desordenado, com os EUA como o único organizador, sem levar em consideração as ameaças que esta situação representa para o mundo todo, incluindo os próprios EUA.

Eles dizem que essa é a natureza do mundo, e que a ideia vem do próprio cosmo e da própria existência.

Mas não se iniciou o mundo desde um ponto organizado que levou ao Big Bang, que levou à criação de galáxias até o tempo presente; i.e, uma nova galáxia nascendo a cada minuto? Na macrofísica, nós sabemos que ele é extremamente organizado, mas na microfísica nós o encontramos completamente disperso e em total caos. Este é um dos paradoxos científicos modernos, especialmente na física quântica.

Para colocar de forma diferente e falar de forma mais precisa, segundo os teóricos supramencionados, a existência é originalmente caótica porque ela começa desde um ponto considerado o pico da organização a partir de onde o Big Bang se inicial, e então ela se transforma em caos avassalador. Para se identificar com este universo, a Terra deve se tornar inteiramente desorganizada. Apenas os EUA estarão desfrutando de uma grande ordem, como o Big Bang, enquanto toda a existência terrena estará hierarquizada no caos; i.e, alguns lugares razoavelmente caóticos, outros menos caóticos e alguns muito caóticos.

Para alguns americanos, o aspecto biológico da Teoria do Caos está na própria vida.

Não é verdade que uma criança nasce fisicamente e fisiologicamente bem, e com o passar do tempo ela cresce, e os sinais de senilidade começam a se manifesta? Então, o seu corpo desenvolve câncer, que é um tipo de caos interno controlado pelo cérebro, mas quando o cérebro perde o controle, essas células cancerígenas se tornam destrutivas. Elas destroem o cérebro ou invadem todo o corpo, que acaba na more ou por uma doença que não tinha efeito no passado ou por um ataque do coração que não teria ocorrido se o corpo estivessem em perfeita ordem. Este é o caos letal. A AIDS, por exemplo, é uma doença fatal que indica falta de imunidade. É uma indicação flagrante de que a imunidade pode entrar em colapso e não pode ser tomada como dada, tal como a ordem.

Entropia


Os criadores da Teoria do Caos e os que defendem a sua difusão por todo o mundo veem um aspecto físico da teoria, que é a entropia.


A ideia vem da segunda lei da Teoria de Termodinâmica, que afirma que qualquer mudança que ocorra em um sistema físico automaticamente estará acompanhada de uma elevação em sua entropia; i.e., um aumento nos níveis e caos que ocorrem nele. Assim, modificar significa sofrer com falta de ordem, ou com o acontecimento de caos.

A pergunta que se deve fazer aqui é: e quanto aos humanos, e a humanidade?

Teóricos americanos dizem que eles não dão atenção a isso desde que as pessoas não sejam mais que ferramentas, e que é assim que as coisas naturalmente acontecem.

Se você disser que pessoas morrerão, eles responderão que elas morrem mais cedo ou mais tarde, então por que não caoticamente?! Não morreram já milhões de pessoas desde o início da existência? Não morreram elas por doenças, pelo que se diz que foi a natureza o instrmento de sua morte?

Não houve uma terrível carnificina durante a Segunda Guerra Mundial que resultou na morte de 80 milhões de pessoas e em 128 milhões de feridos e aleijados? Por que vocês estão surpresos com o caos?

O que é estranho em relação a isso é o estabelecimento das Nações Unidas, que tenta colocar o mundo em ordem e reduzir sua natureza caótica.

Se você, assustado, perguntar sobre essa indeterminação, dirão que ninguém conta quantos morrem em guerras. A mortalidade é só uma estimativa. Morre-se na guerra porque se está destinado a isso, tal como se morre naturalmente. É a física quem diz.

Isso não é só sangue frio, mas frieza mental.

Os americanos diriam que a física diz que o caos é a norma, enquanto a estabilidade e a ordem são a exceção, e eles forneceriam evidência da termodinâmica.

Qualquer sistema fechado tende a mudar ou se transformar automaticamente com a elevação de sua entropia ou caos até que ele atinge o estado de igual distribuição de caos em todos os seus pontos, tal como a temperatura, densidade e outros aspectos iguais que a água tem quando água fria e quente são misturadas. Alcançar um equilíbrio na difusão do caso, provavelmente, levará tempo.

Assim, os americanos criam caos e outros o adotam e aplicam. Os outros o recebem apenas para refleti-lo, colocando o mundo em um círculo vicioso para o qual nenhum início ou fim é reconhecido, e não se sabe quem começou.

Não-Polaridade

A não-polaridade é a exceção que bem pode se tornar a norma. Mas ela tem perigos reais:

Ela pode levar a conflitos armados regionais que estarão longe de serem controlados; duráveis, viáveis e se espalhando rapidamente de um lugar para o outro sem regras. Assim, eles poderiam ser governados pelas regras das realidades inesperadas, pelo efeito borboleta, pelo efeito dominó e pelo caos.

A não-polaridade poderia ser um estímulo para empurrar uma super-potência a assumir um risco militar em um lugar geograficamente diferente do seu com a esperança de decisivamente transformar o estado de não-polaridade em um estado de multipolaridade ou unipolaridade "mesmo que por um tempo". Ela também poderia empurrar na direção de uma guerra mundial ou uma coexistência com o terrorismo como uma realidade inevitável. O exemplo disso é a coexistência com o Talibã e abrir embaixadas para ele. Assim como pode vir a haver coexistência com o Daesh.

Na não-polaridade, há um tipo de fluidez internacional que pode abrir o caminho para a coexistência com o que costumava ser terrorismo para considerá-lo status quo.

O estado de incerteza é máximo agora em nossas expectativas do que ainda está por vir.

Fragmentação ao invés de desintegração

O que acontece agora no Oriente Médio é fragmentação, não desintegração, levando em consideração a grande diferença entre os dois conceitos. O que ocorre na região é "fragmentação" na medida em que não há unidade coesiva entre os constituentes de alguns países graças ao conflito. Não há nem mesmo entendimento internacional ou uma vontade de impedir isso. Ainda assim, há algumas superpotências que se recusam a modificar a geopolítica e não concordaram com uma nova Yalta. Portanto, nenhuma nova divisão ou países aparecerão a curto prazo a não ser que o cenário internacional mude. Essas novas entidades podem aparecer na ausência de uma vontade local ou regional de impedi-las, o se houver um estado de fluidez internacional que seja incapaz de impôr uma decisão ou alcançar m entendimento básico sobre uma nova geopolítica.

O caldeirão básico que faz eclodir o caos contemporâneo é o Oriente Médio. Comparar o que acontece na região agora com o que aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial ou a Guerra Fria não é exato, porque a situação se assemelha à Guerra dos Trinta Anos quando aquele conflito resultou na destruição de grandes partes da Europa na primeira metade do século XVII.

Se considerarmos a situação na Europa à época, saberemos que nos anos vindouros, provavelmente haverá vários Estados fracos incapazes de controlar vastas áreas de seus territórios, e também haverá várias milícias e grupos terroristas trabalhando em ampliar sua influência, sem mencionar guerras civis e guerras entre países. Identidades sectárias e sociais encontrarão lugar e até ultrapassarão as identidades nacionais. Jogadores locais continuarão a interferir nas questões internas de seus países vizinhos, impulsionados por imensas reservas de recrsos naturais. Jogadores estrangeiros, porém, serão incapazes ou desinteressados em permitir que a região se estabilize.

Assim, o ruim pode facilmente ficar pior caso os EUA sejam relutantes ou incapazes de serem mais sábios ou de recorrerem a opções mais frutíferas. Não há nem mesmo uma única solução para os problemas porque a natureza dos desafios diferem de uma região para a outra e de uma questão para a outra.

Na verdade, soluções de qualquer tipo podem, na melhor das hipóteses, ser gerenciadas, mas não alcançadas.

O Oriente Médio ruma para a desintegração e fragmentação, e o Califado pode se tornar realidade, assim, negociações e reconhecimentos podem seguir. Isso pode também resultar em outros Califados Islâmicos invocando o Arquétipo, e você poderá descobrir que os Estados ricos são o ponto de foco e o desejo há muito perseguido desse califado que se multiplica cada vez mais.

Arquétipo

O arquétipo são todas as representações inconscientes nos seres humanos; i.e., é tudo que indivíduos ou grupos recebem inconscientemente, sejam símbolos míticos ou semi-míticos de indivíduos ou comunidades antigos. Tudo isso é caracterizado como sendo moral e prazeroso, longe de ser danoso ou materialista. Essa concepção do arquétipo é o que se busca restaurar hoje, ainda que ele pertença ao passado e não haja como testar sua validade.

Aqueles que representam o arquétipo inconscientemente e buscam invocá-lo e refleti-lo em sua realidade presente não leem a história. Se eles a leem, eles só leem o que fortalece as imagens arquetípicas para revivê-las, mas não para destrui-las. Essas pessoas vivem o passado em se dia presente e apenas concebem suas imagens mais encantadoras.

Com o arquétipo, prazer e equilibrio psicológico são atingidos no inconsciente. Com ele, indivíduos ou grupos atingem equilíbrio no mundo terreno e o transformam em um mundo angélico. Assim, há uma fuga do que é real para o que é desejado, "por meio de sua representação mítica".

O arquétipo constitui o substrato ao qual se unem todos os humanos e sobre o qual os indivíduos "dentro e sob esta construção" podem construir suas experiências futuras. É a paixão que transforma a ideia em realidade. É por isso que há insistência em aplicá-la para ligá-la ao mundo físico.

Neste sentido, o Estado Islâmico se torna o arquétipo a partir do qual a anarquia cega e ilimitada inventada pelos EUA entra em erupção. O jogo de procurar por um lugar para o Estado Islâmico custará à região longos anos de sofrimento, caos e insurreição, e afetará muitas partes do mundo. Ele será acompanhado por uma reputação cada vez pior para o Islã e os árabes, e as consequências serão terríveis.

Este mundo é realmente perigoso, na medida em que ele representa uma ameaça às nações. Suas consequências atingirão cada lugar no planeta a não ser que essa insanidade pare. Isso demanda o estabelecimento de uma ordem internacional que possa controlar os impactos da não-polaridade e detê-la nas fronteiras da teoria niilista que considera o caos como ordem. 

Um comentário:

  1. Nunca tinha lido nada à respeito, embora já suspeitasse. Talvez isto também faça parte deste caos planejado:

    http://informacaoincorrecta.blogspot.com.br/2016/04/derivativos-tudo-sob-controle-ou-nem.html

    Não vejo como poderemos alterar todo o cenário descrito.

    Gostaria de parabenizar aos responsáveis pelo belo trabalho.

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