sábado, 12 de março de 2016

Eric Mader - Gnosticismo: Reconsiderando a Mãe de Todas as Heresias

por Eric Mader

Tradução por M. Oltramari



Se alguém procura uma rápida definição de gnosticismo antigo, é provável que encontre algo assim:

Gnosticismo:

Um movimento religioso que floresceu no Império Romano entre os Séculos II e VI D.C.

Identificados como hereges tanto pelos Cristãos como pelos Judeus, os gnósticos ensinavam que o mundo não foi criado pelo verdadeiro Deus, mas por um ser menor, deficiente, chamado de O Demiurgo, que rege sob sua criação, o nosso mundo, com a ajuda de poderes administrativos chamados de Arcanos. Enquanto o local do verdadeiro Deus (O Pleroma, ou “Plenitude”) se encontra além dessa criação defeituosa, sendo o objetivo do gnóstico escapar da armadilha que é esse mundo e retornar para aquele.

De acordo com os gnósticos, os seres humanos possuem uma centelha divina não pertencente a essa criação menor, mas que continuaria reencarnando aqui a não ser que fosse redimida através da gnose (o conhecimento libertador acerca das nossas verdadeiras origens). Seres humanos estavam divididos em três tipos: os espirituais (aqueles predestinados à salvação), os psíquicos (aqueles que poderiam alcançar uma forma de salvação através da gnose e várias práticas de purificação) e os materiais (aqueles que por sua natureza estavam permanentemente atados ao domínio material). Portanto, a religião gnóstica era caracterizada por um desprezo radical pelo mundo (entendido como uma prisão) e pelo corpo (a cela individual de cada um). Fontes antigas demonstram que em certos grupos esse desprezo levou a um rigoroso ascetismo, e em outros a uma rigorosa libertinagem (uma vez que as leis morais eram simplesmente parte da armadilha criada pelo Demiurgo, alguns gnósticos ensinavam que os espiritualmente liberados deviam demonstrar sua liberação quebrando tantas leis quanto fosse possível).

Gnósticos cristãos consideraram Jesus como um mensageiro do verdadeiro Deus, enviado de Pleroma para trazer os ensinamentos libertadores da gnose. Eles rejeitaram a doutrina ortodoxa de que Jesus morreu para expiar pelos pecados dos homens. De acordo com os gnósticos, o mal no mundo não resultava do pecado humano, mas da criação defeituosa do Demiurgo, ou seja, o mundo era mal porque seu criador era mal. Enquanto cristãos ortodoxos aceitavam o Antigo Testamento como parte de suas escrituras sagradas, os gnósticos viam no Antigo Testamento uma representação do Demiurgo. Somente Jesus era enviado do “Pai”, isto é, o verdadeiro Deus.

Devido ao seu rigoroso desprezo pelo mundo e sua concomitante rejeição das normas sociais, a maioria dos escolásticos entenderam que o gnosticismo foi uma religião de revolta radical. Os bogomilos na Europa oriental e os cátaros do medievo no sul da França são considerados como encarnações tardias da religião gnóstica. Uma coleção de antigas escrituras gnósticas enterrada foi descoberta perto da cidade egípcia de Nag Hammadi em 1945.

Em poucos parágrafos temos aqui um exemplo de como o gnosticismo é tipicamente definido em aulas universitárias e enciclopédias. É uma apresentação clássica sustentada em estudos modernos do gnosticismo tal como vemos em The Gnostic Religion de Hans Jonas. Pelo hábito da repetição ela se tornou mais ou menos padrão. Mas essa definição é realmente apta para descrever as crenças e práticas dos gnósticos antigos? Quão apropriada ela é em relação ao que encontramos nos textos de Nag Hammadi? Afinal de contas, a maioria dos elementos dessa definição foram construídos antes da descoberta desses escritos. Através dos escritos gnósticos existentes e disponíveis agora, os escolásticos devem ser capazes de chegar a um entendimento mais detalhado do que era possível anteriormente. As leituras que eles realizaram dos textos de Nag Hammadi mudaram o nosso entendimento acerca desse antigo movimento religioso?

Em seu livro Rethinking “Gnosticism”: An Argument for Dismantling a Dubious Category Michael Allen Williams avalia a legitimidade dessas definições usuais e as considera seriamente incompletas. Ler o seu estudo é perceber o quanto essa coisa chamada “gnosticismo” é uma amálgama de caricaturas acadêmicas modernas e aceitação desprovida de senso crítico dos escritos de heresiólogos como Santo Ireneu e Epifânio de Salamina. Talvez essa confiança fosse algo inevitável dada a falta de fontes originais de outrora. Mas agora, com a riqueza dos evangelhos e tratados gnósticos descobertos no Egito as coisas mudaram. O trabalho de Williams se propõe a revelar a dimensão das mudanças necessárias.

A metodologia geral de Williams é simples: toma as atuais apresentações acadêmicas da religião gnóstica e as compara ponto por ponto com o que nós realmente encontramos nos escritos gnósticos. E ainda: toma as apresentações que os heresiólogos antigos fazem dos gnósticos e realiza uma comparação similar. As apresentações que os gnósticos fazem deles mesmos em seus escritos corresponde às doutrinas atribuídas a eles por Ireneu? Eles correspondem ao que nós escutamos da comunidade de acadêmicos modernos? Se a resposta é não, porque?


Se Williams estiver certo, a nossa ideia de gnosticismo como uma religião antiga não estaria de acordo, em aspectos importantes, com a ideia dos próprios gnósticos antigos. A nossa compreensão das doutrinas e comportamentos gnósticos (em relação ao corpo, à sociedade, à ética) frequentemente colocou ênfase nos pontos errados. E nossa apresentação das práticas gnósticas ainda está embasada nos heresiólogos, ainda que suas descrições tenham sido desmentidas pelos escritos de Nag Hammadi.

Em suma, o gnosticismo é normalmente apresentado como uma religião de revolta e negação do mundo: uma religião adotada por estrangeiros em um estado de rebelião contra as normas sociais. Acreditava-se que os gnósticos haviam construído uma barreira entre eles mesmos e o mundo que os cercava revertendo mecanicamente os valores sociais dominantes. Essa noção dos gnósticos empreendendo um tipo de negação sistemática de tudo que a sociedade sustentava como sagrado originou-se principalmente de observações selecionadas a partir das leituras que os gnósticos faziam das escrituras hebraicas (por exemplo, eles frequentemente entendiam a serpente no Jardim do Éden de uma maneira positiva, enquanto Yahweh, entendido como o Demiurgo, era visto negativamente). Porém, como Williams aponta, esses exemplos de interpretações das escrituras gnósticas não indicam necessariamente uma atitude rebelde em relação à sociedade como um todo. Utilizando modelos desenvolvidos em estudos sociológicos de movimentos  religiosos, Williams argumenta que em muitos casos o mais provável era o oposto: os gnósticos estavam interpretando as ideias judaico-cristãs do divino de maneiras mais harmônicas com as sociedades predominantemente pagãs nas quais eles viviam. O argumento de Williams aqui é convincente.  A nossa interpretação do comportamento gnóstico como uma postura de revolta contra a sociedade nos foi empurrada pelos heresiólogos, quem, por motivos óbvios, procuravam retratar os gnósticos como rebeldes contra a ortodoxia. Portanto, é anacrônico afirmar que os gnósticos eram pervertidos sociais.

Williams considera da mesma forma a questão do “determinismo gnóstico”: a afirmação moderna, repetida frequentemente, de que os gnósticos acreditavam que a humanidade estava dividida em tipos diferentes (os espirituais, os psíquicos, os materiais) ou raças diferentes (a raça de Seth, a raça de Cain), e o desfecho doutrinal dessas divisões de que o potencial de cada indivíduo para a salvação já estaria determinado pelo nascimento. Williams demonstra que essa noção moderna do determinismo gnóstico não é sustentada pelos textos originais. Uma leitura cuidadosa dessas fontes demonstra que um indivíduo não “nasce incluído” na raça de Seth: em realidade é um status que se pode alcançar ou receber. A raça de Seth é mais uma comunidade espiritual do que uma “raça” biológica no sentido moderno. O mesmo aplica-se à divisão em três tipos: o status de espiritual de um indivíduo é considerado tendo em vista seu comportamento: é possível perder esse status ao abandonar a verdade, portanto nascer como um espiritual não é garantia de salvação. A afirmação de que os gnósticos eram elitistas no sentido de acreditarem-se predestinados à salvação (salvos em essência) é errônea. Williams demonstra que havia no mínimo tanta flexibilidade nessas noções gnósticas quanto há em doutrinas protestantes recentes acerca do eleito.

Com essas observações eu apenas arranhei a superfície desse estudo extenso e detalhado. Williams oferece uma discussão importante acerca da hermenêutica gnóstica (a sua prática de interpretação bíblica) e reconsidera as noções gnósticas do corpo e como elas estão relacionadas a diferentes doutrinas de salvação. Uma preocupação constante do seu livro -e talvez eu tenha sido irresponsável ignorando-a até agora- é a validade do próprio termo “gnosticismo”. Com base nas inúmeras desvantagens que Williams vê nesse termo -a sua ambiguidade e a bagagem que carrega- ele sugere que os escolásticos refiram-se a “tradições bíblicas demiúrgicas” quando discutem muito do que tipicamente se chama de “gnosticismo”. Ele procura demonstrar que: 1º) os povos antigos que chamamos de “gnósticos” não utilizam esse termo, e 2º) escolásticos modernos tiveram dificuldade para estabelecer um conjunto estável de características para o gnosticismo: isto é, nós ainda não conseguimos definir com clareza o que é o gnosticismo. O argumento que Williams coloca ao final é que esse termo impediu a nossa compreensão dos antigos movimentos religiosos em questão. Ele fez com que gerações de acadêmicos se agarrassem a falsos problemas e construíssem argumentos com base em pressupostos não examinados. Essa é uma acusação muito séria. Se Williams está certo ou não nessas afirmações -algo que não estou em posição de julgar- parece óbvio que seu livro trouxe muitas novidades no campo de estudos “gnósticos”. É evidente que muitas de suas novas perspectivas à respeito dos “gnósticos” se originaram diretamente da tentativa de pensar além (no âmbito acadêmico e heresiológico) do “gnosticismo” enquanto categoria.

No entanto, o livro de Williams não é apenas para escolásticos. Até mesmo um leitor ligeiramente familiar com os escritos de Nag Hammadi pode ganhar muito com a leitura dessa obra. De maneira elucidativa, ele inicia o livro com um capítulo resumindo os mitos ou doutrinas de quatro importantes tradições gnósticas: o mito do Apócrifo de João; a doutrina do professor valentiniano Ptolomeu; o mito ensinado por Justino, o Gnóstico; e os ensinamentos de Marcião. Esses quatro exemplos diferentes são tratados repetidamente em todo o estudo com o objetivo de elucidar vários aspectos. Williams estruturou Rethinking Gnosticism de uma maneira que o permitiu escrever tanto para seus colegas escolásticos como para os leitores em geral. É uma estratégia de sucesso em todos as partes, que faz com que a leitura do livro seja fascinante para qualquer um interessado em “gnosticismo”, nos textos de Nag Hammadi ou na história do Cristianismo.

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