sábado, 2 de janeiro de 2016

Isaque Santos - Mao Tsé-Tung: Realpolitik e Revolução

por Isaque Santos



«Na posição concreta de Mao reúnem-se diversos tipos de hostilidade, que se elevam até atingir a hostilidade absoluta. O racismo contra o explorador branco colonial; a luta de classes contra a burguesia capitalista; a hostilidade nacional contra o invasor japonês da mesma raça; a hostilidade há muito resultante das guerras civis encarniçadas e crescentes contra o próprio irmão de nacionalidade – tudo isto não se paralisava ou se relacionava reciprocamente, como seria de imaginar, mas, pelo contrário, confirmava-se e intensificava-se numa posição concreta. Estaline conseguiu, durante a II Guerra Mundial, aliar a guerrilha telúrica nacional à luta de classes do comunismo internacional. Mao precedeu-o em muitos anos. Também prosseguiu, na sua consciência teórica, a fórmula de Lenine da guerra como consequência da política» - Carl Schmitt, Theorie des Partisanen.

Mao Tse-tung foi uma figura singular dentro do movimento comunista. Tendo frequentado, em sua juventude, os círculos tradicionalistas da Escola de Estudos de Wang Fu Qi, em 1917, publicou um enigmático artigo intitulado A Study of Physical Education – texto repleto de citações de Confúcio, onde se encontram considerações sobre a importância dos exercícios e do aprimoramento físico na formação guerreiro-militar e na saúde da nação.  

Seus escritos políticos e, em especial, sua Teoria das Contradições, refletem aquilo que se poderia denominar de realpolitik marxista: existem contradições inerentes não só aos fatos políticos e sociais, mas também a toda estruturação ontológica da realidade. Em seu Sobre a Contradição, Mao afirma:

«A universalidade ou caráter absoluto da contradição tem um duplo significado: primeiro, que as contradições existem no processo de desenvolvimento de todos os fenômenos; segundo, que no processo de desenvolvimento de cada fenômeno, o movimento contraditório existe desde o princípio até ao fim».

No entanto, partindo do pressuposto básico a cerca da universalidade e da imanência da contradição, não se pode simplesmente concluir que toda contradição seja inerentemente idêntica e equivalente em seus respectivos planos; assim, Mao afirma: 

«No problema da luta dos contrários está incluída a questão de saber o que é o antagonismo. A nossa resposta é que o antagonismo constitui uma das formas, e não a única forma, da luta dos contrários.
Na história da humanidade o antagonismo entre classes existe como expressão particular da luta dos contrários. (...) Certas contradições revestem o caráter dum antagonismo aberto, outras não. Segundo o desenvolvimento concreto dos fenômenos, certas contradições, primitivamente não antagônicas, desenvolvem-se em contradições antagônicas, enquanto outras, primitivamente antagônicas, desenvolvem-se em contradições não antagônicas».

Ora, uma vez assumido que nem toda contradição é política e ontologicamente antagônica e sendo o antagonismo apenas uma das modalidades da contradição absoluta, Mao desloca a dialética das classes sociais e a insere nas categorias analíticas das Contradições Antagônicas e da Contradição Não-Antagônicas e, assim, formula um modo específico de interpretar o marxismo em termos mais amplos, formal e realisticamente estruturados a partir de circunstâncias históricas e políticas particulares e que admitem antagonismos, inimizades e hostilidades mais amplas – ora entre o campesinato e o latifúndio; ora entre a nação e o invasor nipônico; ora entre o indígena sino-mongol e o colono branco-europeu; ora entre a civilização chinesa e a civilização ocidental. A inimizade política, para nos expressarmos de modo schmittiano, cinge-se, no pensamento político de Mao Tse-tung, a partir de diversas tonalidades que podem se manifestar em contradições de classe, em lutas raciais, em antagonismos intra e extra nacionais e em embates civilizacionais e geopolíticos na arena das relações internacionais. E assim como na perspectiva de Carl Schmitt – onde o hostis é definido nos termos formais de uma inimizade pública –, a categoria maoísta das Contradições Antagônicas não pressupõe, em absoluto, quais serão as substâncias políticas constitutivas destas mesmas contradições – antes, tais substâncias devem ser delineadas em termos realistas, na situação concreta da inimizade: a hostilidade pública contra o imperialismo japonês, para mencionarmos um exemplo histórico, aglutinou os comunistas chineses e os nacionalistas do Kuomintang – a despeito de suas ideologias de base e a despeito da arrastada guerra civil travada por e entre ambos – em uma batalha comum, em um núcleo politicamente condicionado de amizade pública contra um inimigo igualmente público.

Foi a partir desta compreensão básica, ainda, que a Revolução Chinesa, com Mao, promoveu e introduziu o modo de produção conhecido como Fanshen – o contar com as próprias forças: tratou-se de um modelo produtivo que, recapitulando as antigas tradições comunitárias chinesas e fundado sobre o princípio da reforma agrária e da cooperação nacional orgânico-produtiva, implicou na destruição do latifúndio, na redistribuição de terras e na formação de comunidades produtivas autônomas de pequenos e médios camponeses (que passaram a ocupar 90% das terras aptas ao cultivo) com o objetivo de garantir a subsistência destes grupos e de aumentar as receitas produtivas do Estado: neste sentido, admitia-se que agremiações econômico-produtivas diversas, das mais ricas as mais pobres, a despeito das contradições de classe inerentes entre elas, cooperassem em prol do bem comum da nação: eis aí o cerne daquilo que se poderia chamar de cooperativismo maoísta – cooptar diferentes classes; alocá-las em um mesmo processo revolucionário geral; desaburguesar o pequeno proprietário e retirar a mera condição de proletário do camponês pobre, criando uma gestalt dialeticamente perene, no genuíno espírito do ethos confuciano, mediada e plasmada politicamente em torno do Estado socialista e da propriedade socialista dos meios de produção.

Cabe ainda ressaltar que Mao, além de marcadamente anticapitalista e antiburguês, foi também uma figura antiliberal, comprometida com o combate ao liberalismo em suas formas espirituais mais sutis. Em seu texto Contra o Liberalismo, Mao enumera cerca de onze comportamentos e atitudes típicas do liberalismo, dentre as quais estão o individualismo, o egoísmo pequeno-burguês, a falta de disciplina, a insubmissão hierárquica, além da tolerância burguesa e do caráter excessivamente passivo do liberalismo – contra o qual Mao contrapõe a atividade revolucionária.

«O liberalismo rejeita a luta ideológica e preconiza uma harmonia sem princípios, o que dá lugar a um estilo de vida decadente, filisteu, e provoca a degenerescência política de certas entidades e indivíduos (...). O liberalismo é a passividade. Objetivamente, serve o inimigo (...)». 

Assim considerado, o pensamento de Mao Tse-tung – o maoísmo – pode bem ser identificado como a menos moderna das teorias marxistas. Se é possível estabelecer graus de distanciamento e de aproximação em relação aos paradigmas da modernidade no que diz respeito às três teorias políticas modernas (liberalismo, socialismo e fascismo), também é possível fazer semelhante consideração sobre as diversas subdivisões internas a tais teorias. É deste modo que se pode considerar o liberalismo clássico (Terceiro Estado) como sendo menos moderno que o neoliberalismo ou que o pós-liberalismo (Quinto Estado). Ou o nacionalismo místico-ortodoxo da Guarda de Ferro romena como menos moderno que o populismo mussoliniano – que chegou a pôr organizações esotéricas na clandestinidade. Do mesmo modo, o maoísmo, pelo seu manuseio realista das contradições como atualização da psicologia confuciana e, acima de tudo, pelo seu caráter telúrico, camponês e guerreiro – a guerrilha telúrica como elite vermelha concreta, na expressão de Carl Schmitt – pode ser considerado menos moderno em relação ao trotskismo ou até mesmo ao leninismo e ao stalinismo. 

É certo que a prática política de Mao contou com erros e pode ser criticada desde uma perspectiva política identitária, por exemplo, quando reprimiu as formas tradicionais de religiosidade chinesa durante a Revolução Cultural. No entanto, também houveram aspectos notadamente positivos em sua prática. Mao, com sua linha de massas, conseguiu, junto ao Partido Comunista, erradicar o vício nas drogas em poucos anos, a partir de uma política de execução de grandes traficantes e da repressão ao consumo, algo muito distinto das propostas legalizacionistas e filo-oligárquicas das esquerdas liberal-libertárias ocidentais. 

Mao também preservou – talvez inconscientemente – certos aspectos do simbolismo solar e imperial chinês na estrutura estético-doutrinária da Revolução Cultural. Em seu artigo Para aprofundar a grande revolução cultural proletária, Mao sustenta, recapitulando a noção sino-tradicional da simetria entre o Imperador e o Sol, que «O desenvolvimento de todas as coisas depende do Sol e o fazer a revolução depende do pensamento de Mao». Além do mais, sua Teoria das Contradições, além do que já assinalamos, pode bem ser considerada, com as devidas ressalvas, como uma versão moderna e uma atualização da dialética dos contrários Taoísta, assim sua noção de heroísmo revolucionário, exposta em seu Livro Vermelho, pode ser considerada como uma atualização marxista do ethos guerreiro tradicional. 

Em suma, o maoísmo configura-se de um modo de encarar o político repleto de idiossincrasias locais e de formas narrativas e compreensivas embebidas em um complexo psico-cultural de fundo e de natureza tradicional. A China contemporânea pós-maoísta, mesmo que internamente dominada por elites liberais, assume hoje um papel importante na correlação de forças e nas contradições da ordem internacional – ao lado de países como a Rússia e o Irã. Pode-se dizer seu lugar na história está hoje em aberto: ela pode tanto sucumbir a uma forma aberta de liberalismo e de capitalismo predatório e parasitário, como pode, a sua maneira, alcançar suas pretensões socialistas. Seja como for, poucos discordarão que o futuro da política internacional se não depende, ao menos passa, para o bem ou para o mal, do Império do Meio. E se tivermos sorte, o que hoje se chama de República Popular da China alcançará, junto às demais nações antiimperialistas, os meios para levar o mundo a uma verdadeira Lex Pluriversalis, a uma configuração global multipolar, tal como décadas atrás enunciara Mao poeticamente:

«Se o céu fosse o meu poiso, puxaria  
da espada  
E cortar-te-ia em três pedaços:  
Ofereceria um à Europa,  
Outro à América,  
Guardando, porém, um para a China,  
E a Paz dominaria o Mundo».
 
Bibliografia:

Schmitt, Carl. Teoria da Guerrilha: observações para esclarecimento político. Lisboa: Arcádia, 1975.
Pomar, W. O Enigma Chinês: capitalismo ou socialismo. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1987.
Tse-tung, Mao. Política. FERNANDES, F. (org.). Rio de Janeiro: Ática, 1982.
___________. Selected works of Mao Tse-tung: Vol. I e II. Oxford: Pergamon Press, 1965.
Quaderni del Veltro, 1973. Maoismo e Tradizione. Disponível em (em português): <> 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.