segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Alexander Jacob - A Burguesia, o Protestantismo e os Protocolos

por Alexander Jacob



Dois livros publicados no início da década de 1950 por dois aristocratas europeus merecem um estudo cuidadoso por todos os conservadores europeus contemporâneos uma vez que expressam as reações autênticas de nobres autênticos perante as mudanças revolucionárias que a Europa por muito tempo tem sofrido sob o jugo da democracia e do totalitarismo. Estes são Liberdade ou Igualdade: O Desafio de Nosso Tempo de Erik Ritter von Kuehnelt-Leddihn (1952) e O Homem e as Ruínas do Barão Giulio Cesare Evola (1953). Ambos Evola e Kuehnelt-Leddihn se opunham à democracia por suas tendências de nivelamento que consideravam ser uma mera fase de transição para os sistemas totalitários comunista, bem como capitalista. No entanto, enquanto Kuehnelt-Leddihn focava na mania democrática da igualdade - que ele considerava incompatível com a liberdade ou a verdadeira liberdade - sem atribuir claramente esta mania às classes médias, Evola inequivocamente identificava a burguesia e sua natureza mercantil inata - que milita contra o ethos guerreiro das sociedades aristocráticas anteriores - como a fonte dos males da democracia.

Erik von Kuehnelt-Leddihn (1909-1999) foi, como um membro da aristocracia do Império Habsburgo, um monarquista e "arquiliberal" na tradição de Alexis de Tocqueville. Ele dedicou sua carreira principalmente a defender as liberdades que ele sentia serem ameaçadas por doutrinas democráticas e socialistas. Entre 1937 e 1947 ele viveu e ensinou na América, retornando para a América regularmente após esse tempo, a partir de sua Áustria natal, a fim de lecionar e continuar a sua missão de melhorar a compreensão americana da mente e da mentalidade dos europeus. Ele esteve associado com o Instituto Acton para o Estudo da Religião e Liberdade e, antes disso, com o Instituto Ludwig von Mises a partir do qual o Instituto Acton tinha se ramificado como um desdobramento cristão. Ele estava constantemente ciente da diferença entre a ordem monárquica católica a que pertencia e os vários sistemas democráticos e totalitários que brotavam ao redor dele na Europa pós-1914, e sua principal preocupação era combater o impulso de nivelamento da democracia que leva ao totalitarismo e a privação de liberdades.

Já em 1943, durante a guerra, ele tinha escrito um trabalho sobre a história política chamada A Ameaça do Rebanho, ou Procrustes Solto (Milwaukee, WI:. The Bruce Pub Co.) que discutiu os defeitos da democracia e do socialismo na Europa, bem como nos Estados Unidos e Rússia. Vou limitar as minhas observações, principalmente, para o segundo de seus estudos políticos, a Liberdade ou Igualdade: O Desafio de Nosso Tempo (Caldwell, ID: The Caxton Printers, 1952), e me referir ao primeiro apenas para comprovação contextual. A primeira parte de Liberdade ou Igualdade é dedicado a um exame da ligação indissolúvel entre a democracia e tirania. Em seu trabalho anterior, A Ameaça do Rebanho, ele destacou a conexão entre a burguesia da Europa e o desenvolvimento do capitalismo. Ele apontou especialmente para a Reforma Protestante como esse movimento que libertou o espírito capitalista através do reforço do prestígio dos judeus usurários na sociedade europeia. Os países protestantes do norte da Europa se desenvolveram particularmente com velocidade extraordinária em Estados capitalistas, enquanto o sul ficou para trás em sociedades mais tradicionais:

"A cidade-Estado teocrática de Genebra de João Calvino ainda tinha alguns traços aristocráticos, mas sua alma já era essencialmente oclocrática e burguesa. À época de sua morte nós encontramos uma civilização de classe média altamente desenvolvida e uma cultura de caráter capitalista e semirepublicano nos países do vale do Reno - na Suíça, no Palatinado, na Alsácia , na Holanda - mas um processo similar sob a mesma influência acelerada também pode ser observado em distritos longínquos: sul da França, Ilhas Britânicas, e na Hungria oriental (51)".

O problema desse novo governo do dinheiro e da tecnologia era que, diferentemente do sul católico, ele era culturalmente estéril:

"À parte uns poucos poetas nós vemos esses seguidores de Calvino contribuindo muito pouco às artes e letras. Eles careciam de pintores, músicos, arquitetos originais; a hilariedade era para eles suspeita e seu humor era limitado".

Também surgiu ali no norte o perigoso slogan do "progresso":

"..as antigas sociedades hierárquicas e pessoais foram marteladas em massas sem forma pelos dois grandes produtos do 'progresso' - a megalópole e a fábrica. 'Progresso' é (a) um ideal coletivista e (b) um ideal urbano..."

E logo no esteio dessa recém-forjada ideia de "progresso" veio a noção de "humanidade":

"'Humanidade' enquanto tal mal existia enquanto princípio vivo na Idade Média porque o homem não tinha em relação a eternidade qualquer existência coletiva. Indivíduos se sacrificavam por suas famílias, seus senhores feudais, reis, cidades, direitos, privilégios, religião, sua amada Igreja ou a mulher amada, na verdade, por tudo ou qualquer um com quem tivessem uma relação pessoal. Esse amontoado anônimo de areia chamado 'humanidade' era desconhecido ao homem medieval e até o conceito de 'nação' não era equivalente a uma massa cinza de cidadãos unilinguais sendo vista como uma hierarquia de estrutura complexa...O coletivo singular 'humanidade' só foi criado após a Reforma como uma unidade viva".

A burguesia responsável pelo capitalismo e pela democracia, porém, não era simpática em relção as classes baixas, que eram mais próximas da aristocracia:

"A burguesia capitalista do século XIX (principalmente, se considerarmos as classes média-alta) defendia um sistema eleitoral que excluísse as classes mais baixas até mesmo de uma influência indireta sobre o governo. O 'democrata' de classe média frequentemente teme o trabalhador manual, que não raro se aliava ao aristocrata, e ele usualmente odeia o camponês politicamente, parcialmente por conta da aversão arraigada dos elementos agrários contra a cidade, paricalmente por conta da estrutura e tendências conservadoras-patriarcais da população rural".

Assim, o fogo-fátuo da "humanidade" tornou os homens não mais "fraternais", mas menos:

"A cultura e civilização democratistas os rebaixou a um amontoado não-hierárquico de areia mas, paradoxalmente, isso não os aproximou. Só o pensamento de um criador comum e uma origem comum pode unir seres humanos". 

Esta é, de fato, a fonte da alienação das democracias modernas:

"No hierárquico Tirol, as pessoas estão muito mais próximas umas das outras do que na 'democrática' Nova Iorque, e mesmo o albanês praticando sua vendetta é um melhor vizinho do que o habitante de Berlim ou Estocolmo atuais".

Interessantemente Kuehnelt-Leddihn traça os primórdios da democracia popular ou "oclocracia" ao pensamento materialista de João Calvino e à negação do próximo mundo pelos pensadores iluministas que fomentaram a Revolução Francesa:

"Há pouca dúvida de que ateísmo, agnosticismo, e a negação do outro mundo são parcialmente responsáveis pelo rápido desenvolvimento técnico que nos proporcionou, à parte dos primorosos instrumentos para destruição em massa, vários meios de superar tempo e espaço".

Distribuição massificada de commodities através da tecnologia torna tudo disponível para todos porque "ninguém deve ter o direito de se orgulhar de ser o único possuidor de uma coisa específica" e o resultado sociológico é uma rápida coletivização:

"A 'democracia' em suas primeiras fases é intrinsecamente uma luta contra privilégios e depois o democratismo continua esta luta amarga e despersonalizante contra tudo e todos, com a ajuda da magia demoníaca da técnica".

A educação universal também é identificada por Kuehnelt-Leddihn como uma das características "coletivistas" da democracia:

"...ao invés de se ater ao princípio hierárquico no mais aristocrático de todos os domínios - a educação intelectual - todo um corolário de compromissos com o espírito de massa foi feito neste campo; a educação se tornou assim finalmente nada além de outro fator de nivelamento, tal como a industrialização".

Também é significativo que as classes médias eram especialmente opostas à Igreja Católica por conta de sua natureza hierárquica e sua preocupação com mistérios, que em uma democracia tem que ser racionalizados pelas massas semi-educadas. Como ele nota,

"Também é necessário ter em mente que a classe mais antagônica à Igreja tem sido durante os últimos séculos a classe média, ou burguesia. É a classe média na França, Áustria, Alemanha, Boêmia e Morávia que mostra a maior proporção de protestantes".

Diferentemente de Evola, Kuehnelt-Leddihn não considera o liberalismo como uma característica distintiva da democracia mas, pelo contrário, ele considera a obsessão característica da democracia como sendo o desejo por igualdade, que como mencionado acima contradiz o desejo natural por liberdade. A liberdade ele define em Liberdade ou Igualdade como a liberdade de desenvolver a própria personalidade:

"...a maior quantidade de autodeterminação que em uma dada situação é factível, razoável e possível. Como meio de salvaguardar a felicidade do homem e proteger sua personalidade é um fim intermediário, e assim forma parte do bem comum. É óbvio que sob estas circunstâncias ela não pode ser brutalmente sacrificada às demandas de eficiência absoluta, nem aos esforços de um máximo bem estar material".

Neste contexto, ele toma cuidado particular em distinguir a democracia anglo-saxã da continental, pois a primeira é dirigida desde cima e retém o caráter de uma "república aristocrática", enquanto a outra tende à democracia de massas, que leva ao totalitarismo. Ele também nos lembra que:

"...algumas das melhores mentes na Europa (e na América) foram assombradas pelo medo de que houvesse forças, princípios e tendências na democracia que eram, ou por sua própria natureza ou, pelo menos, em suas potencialidades dialéticas, inimiga de muitos ideais humanos básicos - a liberdade sendo um deles".

Os principais defeitos da democracia derivam de suas preocupações materialistas, assim sua produção em massa, militarismo, nacionalismo étnico, racialismo e todas as tendências "simplificadoras" que tendem a uma uniformidade ou igualdade, o que ele chama de "identitarismo". Ele cita a observação de Lorde Acton de que "Liberdade é a palavra de ordem da classe média, igualdade da baixa". Isso, porém, é diferente de sua própria observação em A Ameaça do Rebanho de que "Liberdade é o ideal da aristocracia, tal como igualdade é para a burguesia e fraternidade para o campesinato". De fato, se igualdade fosse a demanda primeira das classes baixas como Lorde Acton havia sugerido, o nivelamento que Kuehnelt-Leddihn aponta claramente não se deve a eles, mas sim às elites que as organiza como "massas e homens que são 'similares e iguais', atraídos por prazeres pequenos e vulgares". Sua citação de Alexis de Tocqueville em Liberdade ou Igualdade, de fato torna isso claro:

"...acima dessa raça de homens está um poder imenso e tutelar, que toma com osua atribuição garantir suas gratificações, e vigiar seu destino. Este poder é absoluto, minucioso, regular, previdente e manso. Seria como a autoridade de um parente, se, como essa autoridade, seu objeto fosse preparar os homens para a maturidade; mas ele busca, ao contrário, mantê-los em perpétua infância: ele está contente em que as pessoas se regozijem, desde que eles não pensem em nada além de gozo. Para sua felicidade tal governo voluntariamente trabalha, mas ele escolhe ser o único agente e árbitro dessa felicidade: ele provê sua segurança, prevê e abastece suas necessidades, facilita seus prazeres, administra suas principais preocupações, dirige sua indústria, regula a herança de propriedade, e subdivida suas heranças - o que resta além de poupá-los todos do cuidado de pensar e do trabalho de viver?".

Vemos a partir desta descrição do funcionamento da democracia que o esta é uma caricatura maternalista do ideal político paternalista que veremos é proposto por Evola. Mesmo que Kuehnelt-Leddihn não culpe, como Evola, a burguesia por este nivelamento forçado das classes mais baixas, ele faz notar que a produção em massa capitalista e o militarismo nacionalista são criações dos capitalistas burgueses, ao invés do proletariado.

Podemos notar também que ele considera o nacionalismo racial como uma forma de "proletarização", onde nações inteiras são elevadas a um status pseudo-aristocrático. No entanto, pode ser inferido a partir de sua própria discussão sobre as diferentes atitudes em relação ao nacionalismo e racismo entre católicos e protestantes (veja abaixo) que esse nacionalismo e racismo não são tanto as características das classes mais baixas como daqueles que exploram o sistema democrático, que devem ser principalmente as classes médias capitalistas.

Em geral, Kuehnelt-Leddihn não acentua as revoluções perigosas da burguesia em Estados monárquicos ou aristocráticas nem seu efeito pernicioso sobre as classes mais baixas, pelas quais ele tem pouca simpatia. Ele também não relaciona claramente os judeus na sociedade europeia com as transformações de monarquias para democracias e sociedades coletivistas pelas quais países europeus tem passado na história recente, ainda que ele apressadamente sugira as raízes do materialismo e no obscurantismo no Velho Testamento que marcam as democracias protestantes. Sua principal preocupação é a defesa da liberdade individual e social, ele estuda a transformação gradual de governos democráticos em tiranias. Se nos Estados democráticos ditadores reais não surgem em cena, o totalitarismo se manifesta, no entanto, no aparato burocrático do Estado, que atende às necessidades de bem-estar social das classes mais baixas. Aqui, novamente, ele é, na superfície, pelo menos, mais indulgente para com as classes médias já que ele não observa que uma burocracia estatal benevolente pode atender às verdadeiras necessidades das pessoas ao mesmo tempo em que ela também pode interferir nas ambições financeiras das classes médias.

No desenvolvimento da democracia em uma tirania totalitária Kuehnelt-Leddihn corretamente nota o papel crucial desempenhado pelo protestantismo. Diferente de Evola, que não discute a natureza ou perigos do protestantismo em sua crítica do catolicismo moderno, Kuehnelt-Leddihn coloca a culpa pela degeneração democrática no protestantismo. Ele nota que, ideologicamente, as democracias dependem de princípios relativistas que são eles próprios característicos de movimentos protestantes:

"...relativismo, que o pensador e lógico claros rejeitam, desempenha um enorme papel no reino político e espiritual da democracia. Nós deixamos para o psicólogo determinar as implicações femininas de tal relativismo. Mas o relativismo e a aptidão para se comprometer caminham juntos, e uma recusa absoluta de compromenter fundamentais (um traço católico, ao invés de protestante) logo traria a maquinaria democrática à paralisia".

Enquanto católicos são irredutíveis em relação a dogma, protestantes são mais subjetivos em sua abordagem de questões doutrinárias. Católicos são consequentemente mais convictos de seus princípios e não veem o latitudinarianismo com bons olhos. Como ele nota,

"...o dogma católico, exceto por um 'aumento em volume', permaneceu imutável, e os comentários em cima dele tem variado apenas dentro de certos limites. O protestantismo, por outro lado, está em constante processo de evolução. Enquanto a fé dos católicos pode ser exposta ao processo de 'diminuição da fé', a dos protestantes também está sujeita ao 'estreitamento da fé'."

Assim a chave para o real entendimento das culturas católicas do continente europeu e das Américas do Sul e Central é, para o protestante bem como para o católico das ilhas britânicas e da América do Norte, um entendimento e apreciação dos valores culturais, artísticos e intelectuais do humanismo, do renascimento e do barroco.

A insistência protestante de que a "religião é uma questão privada" está completamente oposta à preocupação da Igreja com a "totalidade da cultura humana", a própria cultura sendo distinguida da civilização, que cuida meramente dos confortos materiais da humanidade:

"Porém, enquanto a civilização é basicamente falta de fricção, suavidade, conforto e diversão material, nós temos que olhar para o Cristianismo tradicional - com sua oposição violenta à eutanásia, ao aborto, à contracepção, ao pacifismo, ao individualismo - com osendo algo 'desconfortável'."

Protestantismo e calvinismo também possuem uma tendência vetero-testamentária para tomar o sucesso terreno como sinal de favor divino, o que está ausente em nações católicas, "onde o pediente é um membro 'útil' da sociedade e o comercialismo não é muito apreciado".

Protestantes temerosos de fragmentação social naturalmente tendem ao menor denominador comum que marca sistemas coletivistas. Católicos, por outro lado, são mais pessoalmente desenvolvidos do que protestantes, que através de sua tendência de comprometer, solidariedade, cooperação, vizinhança, tendem a ser mais conformistas que católicos, e mesmo mais preconceituosos. De fato, uma das características distintivas da própria democracia - para Kuehnelt-Leddihn bem como para Evola - é que ela é "anti-personalista" e "coletivista" e sua tendência de exercer "pressão horizontal" resulta em sistemas totalitários.

Não é surpreendente, assim, que "Calvino estabeleceu em Genebra o primeiro Estado policial verdadeiramente totalitário na Europa". A Revolução Francesa também era de inspiração protestante:

"Também é óbvio que a substância ideológica da Revolução Francesa é quase em sua totalidade o produto da dialética protestante. Ainda que haja alguns elementos cartesianos e jansenistas menores na filosofia política de 89 e 92, os principais impulsos vieram da América, da Grã-Bretanha, da Holanda e da Suíça".

É por isso também que, como Kuehnelt-Leddihn nos lembra, "o Conde Keyserling chama a América de socialista em um sentido mais profundo e chega à conclusão de que 'a maioria dos americanos quer obedecer como nenhum soldado já o quis'."

Os católicos, por contraste, são antidemocráticos por natureza:

"é virtualmente certo que as nações católicas, com seu amor por liberdade pessoal, seu pessimismo terreno, seu orgulho e ceticismo, jamais em seus corações aceitem a democracia parlamentar".

Os países católicos privados da monarquia tendem ao burocratismo, à anarquia ou a ditaduras partidocráticas, mais do que à democracia:

"Nós devemos nos perguntar se nos casos mais extremos, quando temperamento violento é combinado com total incompatibilidade ideológica (Espanha, Portugal, Grécia, América do Sul), um governo de cima com base burocrática não é a única salvaguarda contra a alternativa da anarquia e da ditadura partidocrática".

O catolicismo é essencialmente paternalista e hierárquico, qualidades que Evola também prescreve para seu Estado conservador orgânico. Católicos favorecem patriarcas, mas não policiais, eles podem até mesmo ser frequentemente anarquistas e militar contra o Estado. Enquanto a uniformidade dos partidos políticos dominantes nos países protestantes facilita o nacionalismo, bem como o totalitarismo, os católicos não são nacionalistas populares nem favorecer a centralização, mas sim o federalismo. Kuehnelt-Leddihn dá o exemplo do federalista alemão Constantin Frantz (1817-1891) que se opunha a regimes totalitários centralizados e ele nos lembra que os prussianos também não eram pan-germanistas, mas sim dinásticos.

A solução política para os problemas inerentes do governo democrático que é proposta por Kuehnelt-Leddihn é uma monarquia hereditária com órgãos locais de autogoverno. Ao contrário de ditadores, monarcas são restritos pela lei cristã e aqui a doutrina da imperfeição humana, ou "pecado original" serve como uma influência moderadora nas monarquias, assim como em democracias. A monarquia, como o catolicismo, é paternalista e não "fraternal". A razão da superioridade de tal regime paternalista, típico também de ordens católicas, é que obriga o governante a ser mais responsável do que os líderes democraticamente eleitos são. Monarquias não são oligárquicas, plutocráticas ou propensas à corrupção já que o dinheiro não governa o Estado como nas democracias. Além disso, o monarca não só representa a responsabilidade política mas também promove "grandes" estadistas dentro de seu governo possuído de um compromisso comparável aos deveres de um Estado. A monarquia é também mais eficiente com sua burocracia do que uma democracia é e mais capaz de realizar grandes empreendimentos.

Monarcas são na maioria dos casos biologicamente superiores e e o governo hereditário constitui uma regra orgânica que é contrária ao governo partidário variável. Eles são treinados para governar desde a infância e tem uma educação moral e espiritual para o seu ofício. Ao mesmo tempo, eles têm um maior respeito pelos súditos e protegem as minorias, uma vez que não dependem de nenhum apoio da maioria. Monarquias também tendem a ser internacionalmente e etnicamente mistos servindo assim como uma força unificadora.


Como democracias dependem do que o historiador socialista judeu Harold Laski chamou de um "quadro comum de referência" ou consenso, há, de fato, menos a liberdade de expressão em democracias do que nos Estados monárquicos. Isto é particularmente verdadeiro de Estados católicos que são marcados por diferentes níveis de iluminismo e, assim, não caem na armadilha do utopismo protestante. O catolicismo não acredita que todos são capazes da mesma educação e compreensão, pois é constantemente consciente da noção de imperfeição humana ou "pecado original". A liberalidade da Igreja Católica em geral surge da generosidade e não do raciocínio relativista que forçosamente reconcilia os opostos.

Infelizmente as liberdades maiores desfrutadas em monarquias católicas tradicionais foram limitadas por em tempos recentes por regimes protestantes. Mas Kuehnelt-Leddihn nos lembra que apenas 13% da população do continente europeu é seguidora de credos protestantes. E deve-se ter em mente que "os países da Europa continental todos precisam de uma missão, uma finalidade última, um objetivo metafísico, que mesmo eleições, exportações ampliadas, mais calorias e melhor tratamento odontológico não vão tornar desnecessário".

É de vital importância, portanto, que deve-se "buscar ajudar o continente europeu a encontrar sua própria alma". Após a discussão de Kuehnelt-Leddihn sobre monarquismo e catolicismo e sua oposição natural ao republicanismo e ao protestantismo, devemos assumir que o que é necessário é uma restauração, na medida do possível, do sistema monárquico católico. "Só assim pode o continente esperar se tornar de novo o que costumava ser, uma terra livre e real".

***

As posições políticas do aristocrata siciliano Julius Evola (1898-1974) tem sido razoavelmente obscurecidas por seus interesses em sistemas esotéricos como o hermetismo, o budismo zen e o yoga. As pessoas tem uma noção geral de que ele era um simpatizante tanto do movimento fascista italiano quanto do nacional-socialista alemão, mas uma leitura mais atenta de suas obras tardias, especialmente sua principal obra política O Homem e As Ruínas revelará que ele era mais próximo da ideologia fascista, especialmente como representada pelo filósofo Giovanni Gentile do que dos pensadores racialistas do Reich nacional-socialista como Alfred Rosenberg ou Walther Darré.

Mais forçosamente do que Kuehnelt-Leddihn, Evola identifica a burguesia como a fonte dos problemas do mundo moderno, já que eles são os principais representantes das doutrinas do liberalismo baseadas na primazia do indivíduo. O liberalismo é uma filosofia materialista e utilitarista na medida em que toma em consideração apenas as necessidades materiais dos indivíduos que constituem a sociedade. Suas falsas campanhas de liberdade são desmentidas pelo fato de que o capitalismo explorador é um resultado natural do materialismo burguês:

"O ponto de virada foi o advento de uma visão da vida que, ao invés de manter as necessidades humanas dentro de limites naturais em vistas do que realmente vale a pena buscar, adotou como seu mais elevado ideal uma elevação artificial e multiplicação das necessidades humanas e dos meios necessários de satisfazê-las, em total desconsideração pela crescente escravidão que isso constituiria inexoravelmente para o indivíduo e para a coletividade".

O individualismo fomentado pelo liberalismo resulta em um atomismo e fragmentação da sociedade que é então combatido por formas de totalitarismo que são igualmente inadequadas em suas preocupações meramente quantitativas e econômicas. O totalitarismo é, segundo Evola, ordem imposta de cima sobre um povo sem forma. Marx estava realmente certo ao atacar as burguesias, mas errou seriamente ao forçar o proletariado a servir como pedra de fundação de uma sociedade utópica caracterizada por uniformidade estéril:

"O totalitarismo, para poder se afirmar, impõe uniformidade. Em última análise, o totalitarismo se apoia e depende do mundo inorgânico da quantidade ao qual a desintegração individualista levou, e não do mundo da qualidade e da personalidade".

Assim, o totalitarismo destroi todos os vestígios de desenvolvimento orgânico que os Estados burgueses anteriores possam ter mantido de seu passado aristocrático:

"O totalitarismo, apesar de reagir contra o individualismo e o atomismo social, traz um fim definitivo à devastação do que pode ainda sobreviver em uma sociedade da fase 'orgânica' anterior: qualidade, formas articuladas, castas e classes, valores de personalidade, liberdade autência, ousadia e iniciativa responsável, e feitos heroicos".

A exaltação do "trabalhador" em sistemas socialistas, bem como coletivistas, é também uma universalização da natureza essencialmente servil do pensamento econômico liberalista. A solução para os problemas inerentes em qualquer ordenamento burguês da sociedade consiste no desenvolvimento da personalidade, ao invés do individualismo entre o povo. Entre nações, também, autarquia deveria ser encorajada, ao invés do internacionalismo do comércio global:

"É melhor renunciar à atração de melhorar as condições econômicas e sociais gerais e adotar um regime de austeridade do que se tornar escravo de interesses estrangeiros ou ser capturado em processos mundiais de hegemonia econômica e produtividade inconsequentes que estão destinados a varrer aqueles que os iniciaram".

O controle necessário da economia só pode ser realizado pelo Estado. Os conflitos de classe nos quais Marx focou deveriam ser corrigidos por um sistema corporativo ou um sistema de estamentos como na Idade Média:

"O espírito fundamental do corporativismo era o de uma comunidade de trabalho e solidariedade produtiva, baseada nos princípios da competência, qualificação e hierarquia natural, com o sistema em geral caracterizado por um estilo de impessoalidade ativa, desprendimento e dignidade".

De importância primeira no sistema corporativo da história europeia é o fato de que "a usura de 'bens líquidos', o equivalente do que hoje é o emprego bancário e financeiro de capital, era considerada um negócio judaico, longe de afetar todo o sistema".

Em outras palavras, a usura judaica foi, se utilizada por Estados, sempre considerada como um elemento de párias da sociedade europeia. A solução da Evola à injustiça social do capitalismo focava na eliminação dos capitalistas parasitas e na desproletarianização dos trabalhadores:

"as condições básicas para o restabelecimento das condições normais são, por um lado, a desproletarianização do trabalhador e, por outro lado, a eliminação do pior tipo de capitalista, que é um receptor parasitário de lucros e dividendos e que permanece alheio ao processo produtivo".

Ao contrário de Marx, que procurou transformar o proletariado em proprietários e diretores de empresas, Evola afirma que a erradicação adequada dos males do capitalismo deve começar com a redução da motivação desenfreada por lucro das empresas e seus diretores por parte do Estado. Todas as empresas, portanto, devem, em geral, ser responsáveis perante o Estado. Todas as questões econômicas nacionais devem ser tratadas na Câmara Baixa dos parlamentos enquanto a Câmara Alta deve ser o único representante da vida política da nação. O último corpo não pode ser um eleito, mas deve ser nomeado - e para a vida. Na verdade, esta Câmara Alta deve agir como o que Evola chama de elite governante ou "Ordem" de uma nação.


Evola imagina esta Ordem em termos guerreiros e a subordinação da classe mercantil para a guerreira é uma característica essencial de sua doutrina política. Naturalmente, os guerreiros não são os mesmos que os soldados, que são apenas funcionários militares pagos. Guerreiros são governados por conceitos de honra e lealdade para com a nação, tais como foram encontrados recentemente nos escalões militares prussianos. O Estado é de fato um fenômeno essencialmente político-social masculino, em contraste com a sociedade, que é principalmente feminina. O núcleo do Estado será formado por Männerbunde ou elites dominantes do sexo masculino:

"A razão para a posição exclusiva de homens governantes em um Estado é que toda verdadeira unidade política aparece como a encarnação de uma idéia e um poder, distinguindo-se, portanto, de toda forma de associação naturalista ou 'direito natural', e também de toda a agregação social determinada por meros fatores sociais, econômicos, biológicos, utilitários, ou eudemonísticos".

Este poder é em suas origens sagrado, como foi por exemplo no conceito de imperium no Império Romano pois ele expressa uma ordem transcendente, um conceito que será familiar para os alunos do filósofo fascista, Giovanni Gentile.

Democracia e socialismo sinalizam uma mudança perigosa do governo do Estado masculino para o da sociedade feminina e do demos. Um Estado não é uma "nação" tampouco, já que uma nação é tipicamente uma mátria (motherland), mesmo que ocasionalmente seja chamada de pátria (fatherland) em alguns países. Os romanos, francos, bem como os árabes que espalharam o Islã foram todos constituídos de Männerbunde em primeiro lugar, e só quando eles degeneraram em democracias eles se tornam "nações".


Uma vez que qualquer revolução conservadora precisa restaurar a primazia do ethos guerreiro ela deve começar por se opor ao mercantil da burguesia:

"a idéia 'conservadora' a ser defendida deve não só não ter ligação com a classe que substituiu a aristocracia caída e exclusivamente tem o caráter de uma mera classe econômica (isto é, a burguesia capitalista), mas ele também deve ser resolutamente oposta a ela. O que precisa ser "preservado" e defendido de uma "forma revolucionária" é a visão geral da vida e do Estado que, baseando-se em valores e interesses superiores, definitivamente transcende o plano econômico e, portanto, tudo o que pode ser definido em termos das classes econômicas".

Isso também demandaria a formação de uma nova elite ou Ordem:

"A tarefa essencial que temos pela frente requer formular uma doutrina adequada, a defesa de princípios que têm sido exaustivamente estudados, e, a partir destes, dar nascimento a uma Ordem. Essa elite, diferenciando-se em um plano que é definido em termos de virilidade espiritual, determinação, e impessoalidade, e onde toda obrigação naturalista perde seu poder e valor, vai ser a portadora de um novo princípio de uma autoridade superior e soberania; ele será capaz de denunciar a subversão e a demagogia em qualquer forma que elas aparecem e reverter a espiral descendente dos quadros de nível superior e a ascensão irresistível do poder das massas. A partir desta elite, como se de uma semente, um organismo político e uma nação integrada vão surgir, apreciando a mesma dignidade que as nações criadas pela grande tradição política europeia. Qualquer coisa menos do que isso representa apenas um atoleiro, diletantismo, irrealismo, e obliquidade".

Desconsiderando as normas de um Estado socialista o Estado conservador orgânico deve ser um "heróico" que não é baseado no núcleo familiar, mas nas Männerbunde que produzem os líderes do Estado. Estes homens, que até mesmo renunciariam a uma vida familiar para uma dedicação à tarefa de governar:

"Na medida em que um movimento conservador-revolucionário está em causa, existe uma necessidade para os homens de estarem livres  destes sentimentos burgueses. Estes homens, através da adoção de uma atitude de compromisso militante e absoluto, devem estar pronto para qualquer coisa e quase sentir que a criação de uma família é uma 'traição'; esses homens deveriam viver livres de impedimentos, sem quaisquer laços ou limites à sua liberdade. No passado, havia ordens seculares onde o celibato era a regra...o ideal de uma 'sociedade guerreira', obviamente, não pode ser o o ideal pequeno-burguês e paroquial de "casa e crianças"; pelo contrário, eu acredito que, no domínio pessoal o direito a um amplo grau de liberdade sexual para estes homens deve ser reconhecido, contra o moralismo, o conformismo social e 'heroísmo de chinelos'."

Não há perigo de extinção da linha de governantes ainda que eles sigam uma vida celibatária já que "o exemplo daquelas ordens religiosas de vários séculos que abraçavam o celibato sugere que uma continuidade pode ser garantida com meios outros que a procriação física. Além daqueles que devem estar disponíveis como tropas-de-choque, seria certamente auspicioso formar um segundo grupo que garantiria a continuidade hereditária de uma elite escolhida e protegida, como a contraparte da transmissão de uma tradição político-espiritual e cosmovisão: a antiga nobreza era um exemplo disso".

O Estado conservador orgânico estará baseado não em indivíduos, mas em pessoas, cuja razão de ser é sua personalidade e seu desenvolvimento superior. Essa realização da personalidade de um indivíduo é equivalente a sua liberdade. A pessoa "livre" é de fato livre dos clamores de sua natureza inferior e demanda um autodomínio completo. A pessoa mais altamente desenvolvida ou diferenciada é a pessoa ou líder absoluto:

"A 'pessoa absoluta' é obviamente o oposto do indivíduo. A unidade atômica, desqualificada, socializada ou padronizada a qual o indivíduo corresponde é oposta na pessoa absoluta pela síntese atual das possibilidades fundamentais e pelo controle pleno dos poderes inerentes na ideia de homem (no caso limitador), ou de um homem de uma dada raça (em um domínio mais relativo, especializado e histórico): isto é, por uma extrema individuação que corresponde a uma desindividualização e a certa universalização dos tipos correspondentes a ele. Assim, esta é a disposição necessária para incorporar a autoridade pura, assumir o símbolo e o poder da soberania, oua forma de cima, nomeadamente o imperium".

Assim, diferentemente de Kuehnelt-Leddihn que defendia a monarquia hereditária, Evola parece favorecer um ditador esclarecido ou alguém que pertença a uma nova ordem aristocrática de homens. O Estado formado por esta elite não será apenas orgânico, mas também hierárquico e firmemente baseado no princípio de autoridade. De fato, este princípio é o núcleo de qualquer Estado orgânico, que deve necessariamente crescer a partir de um centro definido:

"Um Estado é orgânico quando possui um centro, e este centro é uma ideia que molda os vários domínios da vida de maneira eficaz; é orgânico quando ignora a divisão e autonomização do particular e quando, por virtude de um sistema de participação hierárquica, cada parte dentro de sua relativa autonomia realiza sua própria função e desfruta de uma conexão íntima com o todo. Em um Estado orgânico podemos falar de um 'todo', nomeadamente algo integral e espiritualmente unitário que articula e se desdobra, mais do que de uma soma de elementos dentro de um agregado, caracterizado por um conflito desordeiro de interesses. Os Estados que se desenvolveram nas áreas geográficas das grandes civilizações (fossem eles impérios, monarquias, repúblicas aristocráticas, ou cidades-Estado) em seu ápice eram quase sem exceção desse tipo. Uma ideia central, um símbolo de soberania com um princípio de autoridade positivo correspondente era sua fundação e força animadora".

A base de toda autoridade é ela própria uma qualidade "transcendente", como Gentile também insistiu:

"Inversamente, a visão orgânica pressupõe algo 'transcendente' ou 'de cima' como base de autoridade e comando, sem o que automaticamente não haveria conexões imateriais e substanciais das partes com o centro; nenhuma ordem interior de liberdades singulares; nenhuma imanência de uma lei geral que guia e sustenta pessoas sem coerção; e nenhuma disposição supraindividual do particular, sem o que cada descentralização e articulação eventualmente representaria um perigo para a unidade de todo o sistema".

Apenas um Estado orgânico pode absorver todas as múltiplas diferenças e conflitos que podem existir dentro de um Estado:

"Mesmo contrastes e antíteses tiveram sua parte na economia do todo; como eles não tinham o caráter de peças desordenadas, eles não questionam a unidade supra-ordenada do organismo, mas agia como um fator dinâmico e vivificante. Mesmo a 'oposição' do sistema parlamentar britânico dos primórdios foi capaz de refletir um significado semelhante (ela foi chamado de 'oposição mais leal de Sua Majestade'), embora ela tenha desaparecido mais tarde no regime parlamentar partidarista". 

O nacionalismo também deve ser evitado, se for do tipo populista, em vez de um baseado no conceito de uma nação espiritual:

"No primeiro caso, o nacionalismo tem uma função niveladora e anti-aristocrática; é como o prelúdio de um nivelamento mais amplo, cujo denominador comum não é mais a nação, mas sim o Internacional. No segundo caso, a idéia da nação pode servir como base para uma nova recuperação e uma importante primeira reação contra a dissolução internacionalista; ela defende um princípio de diferenciação que ainda precisa ser mais bem realizado em direção a uma articulação e hierarquia dentro de cada pessoas". 

Sua visão de uma Europa regenerada é uma de um império sagrado orgânico, ou imperium, centrado não "nos conceitos de pátria e nação (ou grupo étnico)", que "pertencem a um plano essencialmente naturalista ou 'física'", mas sobre "uma sensação de ordem superior, qualitativamente muito diferente do sentimento nacionalista enraizado em outros estratos do ser humano":

"O esquema de um império em um sentido verdadeiro e orgânico (que deve ser claramente distinguido de cada imperialismo, um fenômeno que deve ser considerado como uma extensão deplorável do nacionalismo) foi exibido anteriormente no mundo medieval europeu, que salvaguardava os princípios tanto de unidade como de multiplicidade. Neste mundo, os Estados individuais têm o caráter de unidades orgânicas parciais, gravitando em torno de um unum quod non est pars (um que não faz parte, para usar a expressão de Dante) - ou seja, um princípio de unidade, autoridade e soberania de um natureza diferente daquela que é própria de cada Estado em particular. Mas o princípio do Império pode ter uma tal dignidade única, transcendendo a esfera política, no sentido estrito, fundador e legitimando-se com uma idéia, uma tradição, e um poder que é também espiritual". 

Os principais obstáculos para a formação de uma nova Europa são a hegemonia americana cultural, o jugo de um governo democrático, e "a profunda crise do princípio da autoridade e da idéia do Estado". Mas mesmo que a tarefa de unificar a Europa possa ser formidável ela deve ser tentada, com o planejamento e organização realizada de cima para baixo, pelas novas "Ordens" de elite das várias nações que a constituem.

No que respeita às fundações religiosas de um Estado ou Império, Evola é notavelmente pessimista em sua estimativa do poder do catolicismo de fornecê-las já que ele a considera excessivamente comprometida hoje com um caminho democrático liberal que privou-a da sua força política tradicional. Na verdade, ele considera o movimento anti-guibelino ou guelfo da Idade Média como a própria fonte da secularização do Estado moderno. Assim seria melhor "viajar de forma autônoma, abandonando a Igreja a seu destino, considerando sua incapacidade real para conceder uma consagração oficial a uma verdadeira, grande, tradicional e super-tradicional direita".

Apesar de seu tratamento insensível da Igreja Católica e seu potencial como uma base religiosa para um Estado conservador, Evola examina em maior detalhe os efeitos subversivos de outra seita internacional, o Judaísmo, cujas ambições políticas foram expostas nos chamados Protocolos de Sábios de Sião (1903), que, mesmo que não sejam baseados em fatos, representariam uma representação literária dos objetivos totalitários dos judeus. Como Evola explica:

"O único ponto importante e essencial é o seguinte: este texto é parte de um grupo de textos que, de várias maneiras (mais ou menos fantástica e às vezes até mesmo fictícia) expressaram a sensação de que o transtorno dos últimos tempos não é acidental, uma vez que corresponde a um plano, as fases e instrumentos fundamentais dos quais são descritos com precisão nos protocolos".

O principal mal do projeto dos judeus internacionais é a sua completa economização da vida moderna:

"A economização da vida, especialmente no contexto de uma indústria que se desenvolve em detrimento da agricultura, e uma riqueza que é concentrada sobre o capital líquido e finanças, procede de um projeto secreto. A falange dos modernos 'economistas' seguiu este projeto, assim como aqueles que espalham uma literatura desmoralizante atacam valores espirituais e éticos e desprezam todo princípio de autoridade". 

Não só foi o marxismo uma ferramenta útil dos judeus, mas também as doutrinas filosóficas e biológicas que promoveram o ateísmo como a biologia evolucionista de Darwin e o niilismo de Nietzsche. Os judeus empregam diversas táticas de subversão, recorrendo a falsificar doutrinas do chamado "tradicionalismo" e "neo-espiritualismo":

"O conteúdo deste 'tradicionalismo' consiste de hábitos, rotinas, resíduos sobreviventes e vestígios do que já foi, sem uma compreensão real do mundo espiritual e do que neles não é meramente factual, mas tem um caráter de valor perene".

O efeito sobre o indivíduo destes vários movimentos subversivos é para "remover o suporte de valores espirituais e tradicionais da personalidade humana, sabendo que quando isso é feito, não é difícil transformar o homem num instrumento passivo das forças e influências diretas da frente secreta".

A maneira mais eficaz de combater a subversão do judaísmo internacional ou do sionismo é para os novos guerreiros aprender a operar no plano metafísico, mantendo uma "lealdade incondicional a uma idéia", uma vez que é "a única protecção possível da guerra oculta; onde essa lealdade é insuficiente e onde os objetivos contingentes de 'política real' são obedecidos, a frente de resistência já está comprometida". Como ele adverte aqueles que desejam empreender uma revolução conservadora ou contra-revolução, "nenhum lutador ou líder na frente de contra-subversão e da Tradição pode ser considerado maduro e apto para suas tarefas antes de desenvolver a faculdade de perceber este mundo de causas subterrâneas, para que ele possa enfrentar o inimigo na base adequada. Devemos lembrar o mito dos Sábios dos Protocolos: em comparação com eles, homens que vêem apenas 'fatos' são como animais irracionais. Há pouca esperança de que algo pode ser salvo quando entre os líderes de um novo movimento não há homens capazes de integrar a luta material com um conhecimento secreto e inexorável, que não está a serviço de forças obscuras, mas fica em vez do lado do princípio luminoso da espiritualidade tradicional".

Vemos, portanto, que, ao contrário Kuehnelt-Leddihn, Evola centra-se na burguesia como a principal fonte da degeneração democrática da Europa moderna, assim como sua discussão sobre as dimensões "ocultas" da subversão continuada ajuda a concentrar-se no judaísmo internacional como os principais agentes da subversão que devem ser combatidos em uma contra-revolução. Infelizmente Evola não coloca muita esperança em uma monarquia hereditária ou no catolicismo como as bases gêmeas de sociedade europeia tradicional, mas sim procura construir uma nova ordem de cavaleiros que trará fortes líderes esclarecidos para os Estados europeus.


A falta de entusiasmo para o catolicismo na discussão de Evola do Estado é, contudo, corrigida pela análise perceptiva de Kuehnelt-Leddihn da diferença entre catolicismo e protestantismo. Em forte contraste com a atitude negativa de Evola à Igreja moderna, o relato de Kuehnelt-Leddihn da história política coloca uma ênfase acentuada na religião estabelecida, e, especialmente, sobre o catolicismo, em sua formulação do Estado conservador. Qualquer tentativa contemporânea de voltar a Europa à sua singular vitalidade pré-democrática pode, portanto, ter que começar não apenas das advertências de Evola sobre os perigos da burguesia mercantil e da guerra clandestina dos judeus contra as tradições aristocráticas europeias, mas também a partir das revelações de Kuehnelt-Leddihn dos efeitos deletérios que o relativista e materialista temperamento do protestantismo teve na sociedade europeia moderna.

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