quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Aleksandr Dugin - A Quarta Teoria Política: Ser ou Não Ser

por Aleksandr Dugin

Tradução por Breno Costa



Hoje o mundo é dominado pela impressão de que a política terminou - ao menos a que nós conhecemos. O liberalismo emplacou um combate tenaz contra seus inimigos políticos que propunham receitas alternativas - o conservadorismo, a monarquia, o tradicionalismo, o fascismo, o socialismo e o comunismo - para finalmente vencer todos no final do século XX. Parecia lógico supor que a política se converteria em liberal e que todos os adversários do liberalismo na periferia começariam a repensar suas estratégias e a construir uma nova frente: a periferia contra o centro, segundo a teoria de Alain de Benoist. Porém, no começo do século XXI, tudo seguiu um caminho diferente.

O liberalismo, que sempre tem buscado a minimização da política, decidiu, depois de sua vitória, eliminar por completo a política. Provavelmente para não permitir a formação de uma alternativa política e eternizar o seu reino ou, simplesmente, devido ao esgotamento da agenda política em razão da ausência de inimigos, que, segundo Carl Schmitt, são necessários para a formação de uma posição política. Em qualquer caso, o liberalismo tem conduzido a um recuo na política. Assim, o liberalismo se transforma, passando desde o nível das ideias, dos programas políticos e das declarações, passando ao nível das coisas e ingressando no miolo da realidade social, convertida em liberal, não a partir de um ponto de vista político, mas de uma maneira cotidiana, normal. 

A partir desse ponto de inflexão na história, todas as ideologias políticas que haviam se combatido ferozmente entre si através dos séculos perderam sua atualidade. O conservadorismo, o fascismo e o comunismo, assim como suas variedade marginais, fracassaram, enquanto que o liberalismo, triunfante, converteu-se na vida vida cotidiana, no consumismo, no individualismo, no estilo pós-modernista de ser sub-político e fragmentado. A política converteu-se em biopolítica e passou do nível individual ao nível sub-individual. Portanto, parece haver deixado a cena não somente as ideologias derrotadas, mas, também, a política como tal, incluindo a política liberal. Precisamente por essa razão é tão difícil a formação de uma alternativa. Os oponentes do liberalismo encontram-se em uma situação difícil: o inimigo triunfante evaporou, desapareceu; lutam contra o vácuo. Como fazer política quando não existe Política? 

Só há uma solução: Rechaçar as teorias políticas clássicas, tanto as derrotadas como as triunfantes, demonstrar imaginação, compreender as realidades do novo mundo global, decifrar corretamente os desafios do mundo pós-moderno e criar algo novo, além das batalhas políticas do século XIX e XX. Este enfoque é um convite para desenvolver uma Quarta Teoria Política além do comunismo, do fascismo e do liberalismo.

Para avançar no desenvolvimento desta Quarta Teoria Política, é necessário:

- Modificar a interpretação da história política dos últimos séculos, adotando novos pontos de vista, além do quadro dos clichês ideológicos habituais das velhas ideologias;

- Dar-se conta da estrutura profunda da sociedade global que aparece diante de nossos olhos;
- Decifrar corretamente o paradigma da era pós-moderna;

- Aprender a não opor-se a uma ideia política, a um programa ou a uma estratégia, mas ao estado das coisas "objetivo", ao tecido social apolítico da (pós) sociedade fraturada;

- Por último, construir um modelo político independente propondo um caminho e um projeto em um mundo de becos sem saída e de infinita reciclagem das mesmas coisas (pós-história segundo J. Baudrillard).

O presente trabalho se dedica a isso e ao desenvolvimento de uma Quarta Teoria Política mediante o exame das três primeiras teorias políticas, assim como das ideologias próximas a elas, o nacional-bolchevismo e o eurasianismo. Não se trata de um dogma ou de um sistema pronto de um projeto acabado. É um convite à criação política, à exposição de intuições e de hipóteses, à análise das novas condições. Por fim, é um intento de reinterpretação do passado. 

Nós não concebemos a Quarta Teoria Política como um trabalho de um só autor, mas como uma tendência de um amplo espectro de ideias, estudos, análises, previsões e projetos. Todas as pessoas que pensam segundo essa perspectiva podem contribuir com algumas de suas ideias. E um número crescente de novos intelectuais, filósofos, historiadores, cientistas e pensadores estão respondendo a esta convocação.

É sintomático que o livro do grande intelectual francês Alain de Benoist, Contra o Liberalismo, publicado em russo pelas edições Amphora, tem o subtítulo de Rumo a uma Quarta Teoria Política. É provável que os defensores da velha direita, assim como os defensores da velha esquerda e, provavelmente, os liberais, tendo em conta a mudança qualitativa em sua plataforma política, onde a política se evapora, tenham muito o que dizer sobre este tema. 

Para o meu país, a Rússia, a Quarta Teoria Política tem, entre outras coisas, uma importância prática considerável. A integração com a comunidade mundial é experimentada pela maioria dos russos como um drama, como uma perda de sua identidade. Na década de 1990, a ideologia liberal se vê quase totalmente rechaçada pela população russa. No entanto, por outro lado, a intuição sugere que o retorno às ideologias políticas não-liberais do século XX - o comunismo e o fascismo - é pouco provável em nossa sociedade, sendo que estas ideologias historicamente demonstraram serem incapazes de resistir ao liberalismo, sem mencionar o custo moral do totalitarismo.

Portanto, para preencher o vácuo, a Rússia necessita de uma nova ideia política. O liberalismo não é adequado, enquanto que o comunismo e o fascismo são inaceitáveis. E se, para alguns, é uma questão de livre eleição, de realização da vontade política, que sempre se pode dirigir tanto à afirmação como à negação, para a Rússia é uma questão de vida ou morte, a questão eterna de Hamlet.

Se a Rússia decidir "ser", significaria automaticamente criar uma Quarta Teoria Política. Do contrário, só permaneceria "não ser" e sairia lentamente da arena histórica, para dissolver-se em um mundo que não é criado e gestionado por nós.

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