quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Alain de Benoist - O Reino de Narciso

por Alain de Benoist



"A sociedade adotou integralmente, sem o menor limite e sem o menor contrapeso, os valores femininos"; com estes termos expressou recentemente seu parecer o pediatra Aldo Naouri. Dessa feminização temos já testemunhos: a primazia da economia sobre a política, do consumo sobre a produção, da discussão sobre a decisão, o declínio da autoridade em proveito do "diálogo", também a obsessão com a proteção das crianças (ademais da sobrevaloração da palavra da criança), a exibição em praça pública da vida privada e as confissões íntimas nos "reality shows" da TV, a moda do "humanitarismo" e da caridade midiática, pôr ênfase constante sobre os problemas da sexualidade, da procriação e da saúde, a obsessão com as aparências, do querer agradar e do cuidado de si mesmo (também a assimilação da sedução masculina à manipulação e a "doença"), a feminização das profissões (docência, magistratura, psicologia, operadores sociais), a importância das tarefas da comunicação e dos serviços, a difusão das formas redondas na indústria, a sacralização do matrimônio por amor (um oxímoro). 

A moda da ideologia vitimística, a multiplicação das "células de contenção psicológica", o desenvolvimento do mercado da emotividade e da compaixão, a nova concepção da justiça que faz dela um meio não para julgar com absoluta equidade, mas para fazer pesar a dor da vítima (para lhe consentir "elaborar o luto" e "se reconstruir"), a moda da ecologia e dos "remédios doces", generalizar os valores de mercado, a sacralização do "casal" e dos "problemas de casal", a predileção pela transparência e pela mistura de conceitos, sem esquecer o telefone celular como substituto do cordão umbilical, o progressivo desaparecimento do imperativo na linguagem corrente e finalmente a globalização, que tende a instaurar um mundo de fluxos e refluxos, sem fronteiras nem pontos de referência estáveis, um mundo líquido e amitótico (a lógica do Mar e também a da Mãe).

Depois da ríguda cultura dos anos 30, nem tudo foi negativo nessa feminização, claro; mas se precipitou excessivamente no sentido inverso.

Para além de ser sinônimo de desvirilização, desembocou no cancelamento simbólico do papel do Pai, confundindo os papeis sociais masculino e feminino. 

A generalização da condição salarial e a evolução da sociedade industrial provocaram que hoje os homens não contem com tempo para dedicar a seus filhos, o Pai, progressivamente, foi reduzido a um papel econômico e administrativo.

Transformado em "papai", tende a se converter em um simples sustentáculo afetivo e sentimental, provedor de bens de consumo e executor da vontade materna, e ao mesmo tempo um assistente social familiar, um enfeito de cozinha, destinado a trocar panos e promover passeios.

Não obstante, o Pai simboliza a lei, referente objetivo que se alça por cima da subjetividade familiar. Enquanto a mãe expressa, antes de mais nada, o mundo dos afetos e das necessidades, o pai tem a função de cortar o vínculo de união entre a criança e a mãe. Fazendo funcionar a terceira instância que impulsiona a criança a sair da onipotência narcisista, consentindo-lhe o encontro com seu contexto sócio-histórico e o ajuda a se colocar dentro de um mundo em transformação. Assegura "a transmissão da origem, do nome, da identidade, da herança cultural, da tarefa a desenvolver", como escreveu Philippe Forget. Servindo de ponte entre a esfera familiar privada e a pública, limitando o desejo por intermédio da Lei, ele se revela indispensável na construção da identidade. Em nosso tempo os pais tendem a se converter em "mães como as outras". Para usar as palavras de Eric Zemmour "também eles querem ser portadores do Amor e não mais apenas da Lei".

Pois bem, a criança sem pai deve realizar um enorme esforço para acessar o mundo simbólico. Na busca de um bem-estar imediato sem obrigá-lo a afrontar a Lei, a dependência dos bens torna-se naturalmente seu modo de ser. 

Outra característica da modernidade tardia é a confusão entre as funções masculinas e femininas, que faz dos progenitores sujeitos perdidos na confusão dos papeis não distinguindo na névoa os pontos de referência. 

Os sexos são complementares-antagônicos, o que quer dizer que se atraem e se combatem simultaneamente. A indiferença sexual, buscada na esperança de pacificar as relações entre os sexos acaba fazendo desaparecer aquelas relações. Confundindo identidades sexuais (não há mais que duas) com orientações sexuais (pode haver uma multidão), a reivindicação da homoparentalidade (que retira à criança os meios de identificar sua parentela e nega a importância da filiação em sua construção psíquica) se reduz a solicitar ao Estado a fabricação de leis, para convalidar costumes adquiridos, legalizar uma pulsão ou dar uma garantia institucional a um desejo, todas funções que não lhe competem.

Paradoxalmente, a privatização da família se produz paralelamente com a invasão de parte do "aparato terapêutico" de técnicos, especialistas, conselheiros e psicólogos. Essa "colonização do mundo vivido" efetuada com o pretexto de racionalizar a vida quotidiana, reforçou simultaneamente a medicalização da existência, retirando responsabilidade dos progenitores e a capacidade de supervisão e controle disciplinar ao Estado. Em uma sociedade em dívida perpétua em relação com os indivíduos, em uma república oscilante entre comemoração e compaixão, o Estado assistencial, aprisionado na gestão lacrimejante das misérias sociais pelo trâmite de sua caricatura sanitária e de assistência social, se transformou em um Estado maternal, protetor, higienista, distribuidor de mensagens de "ajuda" a uma sociedade reclusa em um curral.

Essa sociedade dominada pelo matriarcado mercantil se indigna hoje com o "machismo" da periferia metropolitana e se surpeende ao se ver desprezada.

Tudo isso não é mais que a forma exterior de um fato social, por trás do qual se dissimula a desigualdade salarial e as mulheres violentadas.

A dureza, apagada do discurso público, retorna com mais força, a violência social se desencadeia sob o horizonte do Império do Bem.

A feminização das "elites" e o papel adquirido pelas mulheres no mundo do trabalho não o converteram em mais afetuoso, tolerante, amante do próximo, só mais hipócrita. A esfera do trabalho assalariado obedece, sempre, somente às leis do mercado, cujo objetivo é acumular retornos lucrativos, ao infinito, sobre os investimentos efetuados. O capitalismo, se sabe, constantemente impulsionou as mulheres a trabalharem com o fim de exercer uma pressão para rebaixar o salário masculino.

Cada sociedade tende a manifestar dinâmicas psicológicas que se podem observar, também, a nível pessoal. Ao fim do século XIX se advertia com frequência a histeria, ao início do século XX, a paranoia. Nos países ocidentais, a patologia mais corrente hoje parece ser um narcisismo de civilização, que se expressa em particular na infantilização dos cidadãos, em uma existência imatura, em uma ansiedade que leva muitas vezes à depressão. Cada indivíduo toma como objetivo e como finalidade de tudo, a busca de si mesmo aproveita a vantagem sobre o sentido da diferença sexual, sua relação com o tempo se limita ao imediato.

O narcisismo produz uma obsessão de autogeração, em um mundo sem lembranças nem promessas, no qual passado e futuro se encontram igualmente desdobrados sobre um eterno presente no qual cada um se assume assim mesmo como objeto do próprio desejo, pretendendo escapar às consequências de seus atos. 

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