sábado, 31 de outubro de 2015

Angel Millar - O Tradicionalismo é Revolucionário? Um Olhar para a Propaganda Contemporânea

por Angel Millar



O Tradicionalismo é uma ideologia revolucionária, como o pensador, ocultista e Tradicionalista Julius Evola afirmava? Ele é uma forma de conservadorismo ou de pensamento "reacionário"? Ele é ao menos político? E, se sim, quando?

Ainda que Evola fosse também crítico do fascismo - e tivesse inimigos no partido por causa disso - graças às atividades políticas de Evola, e mais especialmente por sua associação com elementos do partido fascista italiano durante a Segunda Guerra Mundial, alguns Tradicionalistas consideram Evola como uma "ovelha negra". Este é especialmente o caso com Tradicionalistas mais tendentes para a esquerda hoje, bem como com aderentes estritos aos escritos e caminho de René Guénon.

Se o Tradicionalismo é revolucionário, então Evola é um radical mesmo nesse meio.

Diferentemente de Guénon e de muitos daqueles que o seguiram (como Titus Burckhardt, que se converteu ao Islã, tomando o nome Ibrahim Izz al-Din) Evola era essencialmente "um Tradicionalista sem uma tradição". Ele não se converteu a, ou praticava, qualquer das grandes religiões.

Ao invés disso, ele estava interessado no Hermetismo, nas religiões europeias pré-cristãs, no ocultismo (em alguma medida), e outros campos esotéricos.

O que ocupava Evola, parcialmente em sua própria prática e parcialmente em seus escritos políticos, era a redescoberta e redespertar da autêntica Tradição Europeia, ainda que neste sentido ele também olhasse para o Budismo, para o Hinduísmo, para o Islã, e outras tradições orientais, tentando encontrar conexões nelas.

Em essência, Evola não tinha uma tradição porque a Europa estava sem uma tradição.

O catolicismo havia retido alguma vitalidade para Guénon, ainda que ele, como Evola, tivesse passado a considerá-lo como corrupto, decadente e distorcido por valores modernos e "liberais". Ele carecia, em sua opinião, da possibilidade de iniciação.

Guénon também se voltou para a Maçonaria e para a Teosofia. A primeira, fundada em Londres em 1717, havia sido originalmente uma fraternidade emergida da guilda de pedreiros daquele país. Ela tinha (e ainda tem) um ritual de iniciação em três graus, baseado no daqueles pedreidos, porém misturado com simbolismo bíblico, geometria sagrada e filosofia jusnaturalista.

Dentro de poucas décadas, porém, a fraternidade havia se espalhado pela Europa, se dividindo em várias facções. Muitas dessas absorveram aspectos do hermeticismo, da alquimia, do rosacrucianismo, do misticismo cristão, e por aí vai. Guénon esteve envolvido na manifestação mais esotérica da Maçonaria e escreveu um livro sobre o assunto.

Ainda que ele mantivesse um certo respeito pela Maçonaria, Guénon seguiu adiante, na direção do Islã. Para Evola a Maçonaria não era uma opção. Influenciado pelos Protocolos dos Sábios de Sião (um texto antissemita e antimaçônico, criado pela polícia secreta czarista no fim do século XIX), Evola acreditava que sionistas e maçons estavam por trás da revolução global e da derrubada da Tradição.

Os Protocolos foram um texto extremamente popular e influente na época, tanto na Europa como nos EUA, e, em certa medida, no Oriente Médio. Evola não o aceitava sem algumas críticas, e, de fato, sabia que ele era forjado. Mas, para o esotérico, o que importava não era sua validade histórica, mas que ele oferecia, em sua opinião, uma "premonição profética", e, enquanto tal, fornecia um vislumbre sobre a situação conflituosa do mundo. (De fato, Evola pensava que o sionismo e a maçonaria poderiam também algum dia vir a se tornarem vítimas das forças anti-Tradicionais).



Para Evola, o mundo moderno era um de ruínas, e ele se situava contra ele. É claro, ele havia visto as ruínas literais na Europa com a Primeira e Segunda Guerras Mundiais.

Mas as ruínas físicas eram menos ofensivas para o pensador italiano do que as espirituais. (Enquanto todos os outros procuravam abrigo, Evola gostava de caminhar durante ataques aéreos, para poder testar a si mesmo). O que havia realmente sido destruído era um caminho de vida integral.

O desenho acima mostra o homem evoluindo em um guerreiro espartano, e então, ultrapassando seu ápice, se tornando um banqueiro ou empresário de algum tipo. Então ele se torna um escravo do computador ou da televisão - do entretenimento - e então subsiste como mera ovelha.

O pensar, o corpo e o espírito, estão em declínio radical, a imagem parece dizer. Desistimos de nossa independência porque abrimos mão de nosso poder, e vice-versa.



Para Evola, a era contemporânea era provável de se provar uma mera transição de um ciclo de tempo e ser para outro. A era moderna é o que Tradicionalistas - tomando um termo hindu - chamam de "Kali Yuga" (a Idade das Trevas). Desprovida de autêntica conexão espiritual, densa e material, ela pode, conjectura-se, desabar sob o próprio peso, abrindo caminho para uma nova era dourada.

É imperativo, então, que o homem da Tradição navegue na tempestade ou, como diz Evola, "cavalgue o tigre" da era turbulenta. Ele deve permanecer um homem que incorpore sabedoria primordial, mesmo enquanto os excessos e a preguiça do ciclo acenam para ele.

No gráfico abaixo, o Tradicionalista, nos é dito, assume responsabilidade enquanto no capitalismo e no socialismo, o indivíduo não o faz.



Socialismo é "onde você espera em filas de pão". Capitalismo é "onde filas de pão te esperam". Muitos, especialmente na direita republicana americana, diriam que é por isso que o capitalismo funciona, e por que deveria ser aplaudido. Você terá pão...à sua conveniência. Mais do que você pode comer.

O Tradicionalismo, assim, não é conservadorismo. Este busca apenas preservar o estado atual das coisas, ou voltar o relógio uns cinquenta ou cem anos em algumas áreas (tal como aborto ou sexualidade). Aquele quer retornar a um modo mais autêntico e primal de vida, e, assim, pode ter mais em comum, às vezes, com a esquerda que pratica yoga e meditação, acredita em alimentação orgânica, e por aí vai.

(O Tradicionalismo, enquanto tal, não é uma ideologia inerentemente política [e Guénon se opunha à mistura entre política e espiritualidade], mas em sua rejeição da massificação, do conformismo, da hierarquia baseada em graus de riqueza, ele se torna político - apesar de haver Tradicionalistas de Direita e de Esquerda).

Deixando o texto de lado, as imagens preenchem um vácuo: as filas de pão do capitalismo são ruins porque o que elas oferecem é impessoal e carente de sabor, tradição, natureza e mesmo nutrição. A comida não é comida. O pão na fila de pão capitalista está repleto de ingredientes que nos fazem mal.

"Tradição" aqui significa humanidade, uma elevação da pessoa. Receitas foram transmitidas ao longo de gerações. Mães ensinaram filhas a cozinhar, pais ensinaram filhos a pescar, caçar, se defenderem, defenderem sua família, e por aí vai. É comunidade. Você come o pão com aqueles que você ama. Com o pão feito em um fogão a lenha você sente o trigo, o solo e o fogo. Ele alimenta a alma, não apenas o estômago (que é a razão pela qual ele ainda é vendido nas padarias mais caras das cidades grandes, ainda que pão barato esteja disponível virtualmente em cada esquina).



"Comida" incapaz de nutrir é uma das manifestações do Kali Yuga. O declínio do espírito, do espartano à ovelha é outro. Mas Tradicionalistas dizem que nem tudo está perdido. Precisamos, na opinião deles, "cavalgar o tigre" nesta era, para resistir até uma nova era dourada que está por vir.

A crença em uma era melhor vindoura pode bem ser revolucionária (Marx acreditava que o capitalismo daria lugar ao socialismo, e então à era dourada do comunismo, na qual seríamos alegadamente livres), ainda que o Tradicionalismo não defenda geralmente qualquer "ação direta" para se chegar lá, como protestos, revoltas, etc.

Porém, para Evola "revolução" significa um retorno à origem, não uma transição radical ao "progresso". E este é indubitavelmente o caso para muitos Tradicionalistas (da esquerda ou da direita) hoje. Daí, Evola diz em Homens Entre as Ruínas:

"Joseph De Maistre ressaltou que o que é necessário, mais que uma contrarrevolução em sentido estrito e polêmico, é o 'oposto' de ma revolução, nomeadamente uma ação positiva inspirada pelas origens. É curioso como as palavras evoluem: afinal, revolução, segundo seu significado original latino (re-volvere), se referia a uma movimentação que levasse novamente ao ponto de partida, às origens".

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