terça-feira, 15 de setembro de 2015

Alain de Benoist - Georges Sorel

por Alain de Benoist



Ainda que a violência esteja sempre na ordem do dia, o quinquagésimo aniversário da morte de Georges Sorel teria passado desapercebido se as Éditions Marcel Rivière não tivessem tido a ideia de republicar Réflexions sur la violence [Reflexões sobre a Violência] (Paris: Éditions Marcel Rivière, 1973).

"«Sorel, enigma do séc. XX é uma transplanção de Proudhon, enigma do séc. XIX», escrevia Daniel Halévy no seu prefácio do livro de Pierre Andreu, Notre Maitre, M. Sorel (Grasset, 1953). Enigma, de fato: um ideólogo constituído como gigante, orelhas coladas sobre as têmperas, nariz forte, olho s claros, a barba branca. Enigma: este socialista obstinado, indisposto perante a Revolução Russa, simpatizante da "Action Française", admirador de Renan, Hegel, Bergson, Maurras, Marx e Mussolini.

George Sorel nasceu em Cherbourg a 2 de Novembro de 1847. É duplamente normando: pela Mancha e por Calvados. O seu primo germano, Albert Sorel, far-se-á historiador do Império e da Revolução.

Graduado da École polytechnique, engenheiro de pontes e de estradas, Sorel só se consagra aos problemas sociais a partir de 1892. Seus livros, que raramente são lidos atualmente, não obstante mantiveram seu valor - notavelmente Les illusions du progrès [As Ilusões do Progresso], Réflexions sur la violence [Reflexões sobre a Violência], De l'Église et de l'État [Sobre Igreja e Estado], De l'utilité du pragmatisme [A Utilidade do Pragmatismo], La décomposition du marxisme [A Decomposição do Marxismo], D'Aristote à Marx [De Aristóteles a Marx], La ruine du monde antique [A Ruína do Mundo Antigo], Le procès de Socrate [O Julgamento de Sócrates], etc.

Publicado pela primeira vez em 1908, Réflexions sur la Violence reapareceu em 1973 na coleção «Études sur le Devenir Social», cujo diretor é Julien Freund, professor na Universidade de Strasbourg.

O livro apareceu de improviso como a obra base do sindicalismo revolucionário.

Hostil ao socialismo parlamentar e a Jean Jaurès, que acusa de se ter alimentado de ideologia burguesa, George Sorel opõe-lhe aquilo a que chama a «Nouvelle École». Ele via na greve a forma essencial de reivindicação social. É por meio da greve geral que a sociedade será dividida em facções inimigas e o Estado burguês destruído. A greve é a «manifestação mais brilhante da força individualista nas massas sublevadas».

A greve implica a violência. Ao contrário dos socialistas do seu tempo (excepção feita a Proudhon), Sorel não opõe o trabalho à violência. Recusa-se a glosar o «desejo de paz dos trabalhadores». A violência é para ele um ato de guerra: «Um ato de pura luta, semelhante à de um exército em campanha», escreve ele.

«Esta assimilação entre a greve e a guerra é decisiva», indica Claude Polin no prefácio da nova edição de Réflexions«pois tudo que a guerra toca se produz sem ódio e espírito de vingança: na guerra não se matam os vencidos; não se sujeita não-combatentes às consequências dos dissabores que os exércitos podem ter experimentado no campo de batalha.» O que explica a razão porque Sorel reprova a «violência-vingança» dos revolucionários de 1793: «Não se deve confundir a violência com as brutalidades sanguinárias que não levam a nada».

No Início era a Ação

Retomando a distinção, já hoje clássica, entre guerra «justa» e guerra «injusta», opõe a violência burguesa à violência proletária. Esta última possui, a seus olhos, uma dupla virtude. Não só deve assegurar a revolução futura mas é ainda o único meio de que dispõem as nações europeias, «estupidificadas pelo humanitarismo», para reencontrar a sua antiga energia.

A luta de classes é portanto um afrontamento de vontades firmes, mas não cegas. A violência torna-se na manifestação de uma vontade. Ao mesmo tempo, exerce uma espécie de função moral: produz um estado mental «épico»

«A violência», declara Sorel ao seu amigo Jean Variot, «é uma doutrina intelectual: a vontade de cérebros poderosos que sabem o que querem. A verdadeira violência é o que é necessário para se ir até ao fim das ideias» (Propos de George Sorel, Gallimard, 1935).

Sorel teria aprovado estas palavras de Goethe: «No começo era a ação». Para ele, o homem que age, o que quer que ele faça, é sempre superior ao homem que se submete: «A verdadeira violência demonstra, no primeiro plano, o orgulho do homem livre».

Para que o mundo atual readquira a sua energia é preciso um «mito», isto é, um tema que não seja nem verdadeiro nem falso, mas que aja poderosamente nos espíritos, mobilize e incite à ação.

George Sorel via na Prússia do último século a herdeira da antiga Roma.

Para cantar as «virtudes prussianas», encontra um tom que não deixa de evocar Moeller Van der Bruck (Der preussische Stil). «Sorel, o artesão, tem o culto do trabalho bem feito», nota Claude Polin, «e o trabalho bem feito deve constituir um fim em si, independentemente dos benefícios que dele se retiram. Este desinteresse é próprio da violência: no fundo do pensamento de Sorel há a intuição de que todo o trabalho é uma luta, em especial o trabalho bem feito e até, de que o trabalho só é bem feito quando é uma luta. Esta ideia retoma a intuição do carácter essencialmente prometeico do trabalho. Todo o verdadeiro trabalho é uma transformação das coisas que comporta a necessidade de se transformar a si próprio e aos outros consigo».

Pouco a pouco, Sorel acaba por denunciar a democracia (verdadeira ditadura da incapacidade) conjugando os acentos de um Maurras, um Bakunin e um Secrétan. 

A ditadura do proletariado surge-lhe mais ou menos como um engodo: «É preciso ser-se ingénuo para supor que todas as pessoas que retiram proveito da ditadura demagógica abandonariam facilmente as suas vantagens». De passagem, recusa o papel de vanguarda que o bolchevismo intelectual pretende para si: «Todo o futuro do socialismo reside no desenvolvimento autônomo dos sindicatos operários» (Matériaux pour une Théorie du Prolétariat). «Marx nem sempre foi bem inspirado», prossegue ele. «Nos seus escritos, acontece-lhe introduzir quantidades de velharias provenientes dos utopistas.»

Esta concepção da ação está em completa oposição com as teorias «vanguardistas» (o trotskismo, por exemplo). Mas encontramo-la nas propostas do sindicalismo revolucionário e do anarco-sindicalismo.

Finalmente, se Sorel defende o proletariado com um tal encarniçamento, não é por sentimentalismo, como Zola, nem pelo gosto pequeno-burguês da culpabilidade, nem mesmo porque o aflige uma «consciência de classe». É por que está convencido que, no seio da sociedade burguesa, só no povo se poderá encontrar a energia que as classes dirigentes perderam. Consciente das «ilusões do progresso», constata que as sociedades, como os homens, são mortais. A esta fatalidade, opõe uma vontade de viver de que a violência é uma das manifestações.

Hoje em dia, Sorel denunciaria tanto a sociedade mercantil como os mestres pensadores da contestação. «Marcuse representaria a seus olhos», escreve Polin, «o exemplo típico do homem degenerado pela crença beatífica do progresso, iludido por um progresso de que nada compreendeu e tudo esperava, incapaz de pôr a sua esperança para além de um progresso exacerbado, radicalizado, nesse sonho de uma abundância, de tal modo automática, que traria em primeiro lugar a felicidade tornando possível a saciedade desordenada das paixões mais loucas, numa palavra, incapaz de compreender que a fonte do mal está no homem, desvirilizado pela fé econômica».

O nome da velha Antioquia

A partir de 1907 George Sorel faz-se artesão de uma aproximação entra anti-democratas de esquerda e de direita. O órgão desta aproximação é a Reuve Critique des Idées et des Livres, onde o nacionalista George Valois publica os resultados do seu inquérito sobre a monarquia e a classe trabalhadora.

Em 1910 surge a revista La Cité Française. Depois, de 1911 a 1913, L'Indépendence. Aí se encontram as assinaturas de George Sorel, Jean Variot, Edouard Berth, Daniel Halévy, mas também dos irmãos Tharaud, de René Benjamin, Maurice Barrès e de Paul Bourget.

Em 1913, o jornalista Edouard Berth, autor de Méfaits des Intellectuels, saúda, em Maurras e em Sorel, «os mestres da regeneração francesa e europeia». Mas, em Setembro de 1914, Sorel escreve-lhe: «Entramos numa era que bem poderia ser caracterizada pelo nome de Velha Antioquia. Renan descreveu muito bem esta metrópole de cortesãos, charlatães e mercadores. Em breve teremos o prazer de ver Maurras condenado pelo Vaticano, o que será a justa punição das suas afrontas. Aliás a que poderia realmente corresponder um partido realista numa França unicamente ocupada em desfrutar a vida fácil de Antioquia?».

«A Maurras», explica o sociólogo Gaëtham Pirou, «Sorel reprovava o ser demasiado democrático, censura que, à primeira vista, pode parecer paradoxal. Na realidade o que Sorel queria dizer é que Maurras, positivista e intelectualista, não tinha repudiado a democracia senão sob o seu aspecto político e não no seu fundamento filosófico» (George, Sorel, Marcel Rivière, 1927).

Nacional-Revolucionários

Sorel terá influenciado Barrès e Péguy tanto como Lenine. Este último, no Matérialisme et Empiriocriticisme, denunciá-lo-á, no entanto, como um «espírito trapalhão»

.«Depois da França», observou Alexandre Croix na Révolution Prolétarienne, «a Itália terá sido a 'terra prometida do sorelismo'». Sorel exerceu ali, aliás, uma grande influência na escola sindicalista dirigida pelo futuro ministro italiano do Trabalho (1920-1921), Arturo Labriola. Este, desde 1903, traduzia L'Avenir Socialiste des Syndicats no Avanguardia de Milão. Um dos seus lugares-tenentes, Enrico Leone, foi quem prefaciou a primeira aparição de Réflexions que surgiu em Itália sob o título Lo Sciopero Generale e la Violenza («A Greve Geral e a Violência»).

A seguir, Sorel teve igualmente influência sobre Vilfredo Pareto, Benedetto Croce, Giovanni Gentile e (através de Hubert Lagardelle), sobre Benito Mussolini.

Na Alemanha, o sorelismo encontra uma espécie de prolongamento nas correntes nacional-revolucionárias e nacional-comunistas que se manifestaram nos meados dos anos vinte durante a Weimar. (Cf. Michel Freund, George Sorel: Der Revolutionäre Konservatismus, Vittorio Klostermann, Frankfurt/M., 1932 e 1972.)

Logo que Sorel morreu, em 1922, o monárquico George Valois, em L'Action Française, e o socialista Robert Louzon, em La Vie Ouvrière, renderam-lhe uma homenagem plena da mesma admiração. Algumas semanas mais tarde Mussolini, ao fazer a sua entrada em Roma, declarava a um jornalista espanhol: «É a Sorel que devo quase tudo».

O governo soviético e o Estado fascista propuseram, no mesmo dia, assumir o encargo do seu túmulo.

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