sexta-feira, 21 de agosto de 2015

H. P. Lovecraft, Reflexões Contra o Mundo Moderno

(Artigo para o número 65 da Revista Rébellion)

Traduzido por Victor Cavalcanti



"A coisa mais misericordiosa no mundo, eu acho, é a inabilidade da mente humana em correlacionar todos os seus conteúdos. Nós vivemos em uma plácida ilha de ignorância no meio de um oceano negro infinito, e não era para que pudéssemos navegar para longe. As ciências, cada uma esticando a corda em sua própria direção, têm nos causado pouco mal até agora; mas algum dia esse mosaico de conhecimento dissociado nos legará um terrível panorama da realidade e de nossa amedrontadora posição neste lugar, tão terrível, que ou bem nós ficaremos loucos diante da revelação ou fugiremos covardemente da luz mortal para a paz e a segurança de uma nova Idade das Trevas".

Esta citação quase profética de "O Chamado de Cthulhu" é um aviso. Um aviso atual para um momento histórico em que a humanidade enfrenta uma corrida tecnológica precipitada que tende a empurrar seus próprios limites: a investigação sobre o genoma humano, a clonagem, organismos geneticamente modificados ou doutrinas transumantes (teoria da confusão de gênero) são ameaças que, ao contrário do "panteão oculto" criado pelo autor, são bem reais.

O panteão oculto

Este panteão oculto é um dos principais pilares, senão o principal pilar, da obra de Lovecraft. Refletindo uma civilização arcaica que permanece além do tempo, é uma caixa de Pandora que, quando aberta, irá gerar consequências fatais. Nyarlathotep, Yog-Sothoth, Azathoth, Cthulhu e Dagon, como muitas entidades, deuses adorados pelos cultos que remontam a tempos imemoriais, têm conseguido permanecer em segredo. Uma constante nas obras do autor é a quebra deste segredo; o protagonista da história será testemunha e vislumbrará acontecimentos bizarros, à beira do sobrenatural que irão, naturalmente, despertar sua curiosidade. E é fato que esse poder causará a ruína do herói principal, e até mesmo de toda a humanidade. "Existem horrores além das fronteiras da vida de que não suspeitamos e, de vez em quando, a malignidade humana os coloca dentro de nosso alcance". A curiosidade será um dos fatores determinantes da história, porque esta vai mudar o destino do horror, como aconteceu com Francis Weyland Thurton, herói de "O Chamado de Cthulhu" e antropólogo, que retomará a investigação iniciada por seu falecido tio-avô, depois de encontrar um baixo-relevo representando uma criatura hedionda acompanhada por hieróglifos desconhecidos.

Lovecraft é famoso por ter criado um mundo próprio: as criaturas e os deuses acima mencionados são os exemplos mais representativos. Mas também incluem lugares importantes, como a repugnante Innsmouth, uma cidade que esconde um terrível segredo, ou mesmo Arkham e a Universidade de Miskatonic. Há, também, no trabalho geral do autor, um corpo de livros amaldiçoados. "Cultos dos Ghouls", "Pnakotiques", "L’Unaussprechtlichen Kulten" ou o famoso "Necronomicon", com histórias únicas para cada um deles, e às vezes detalhes fornecidos sobre seus autores. De modo que realizaram-se debates sobre a existência destes livros! Este é o caso particular do "Necronomicon", um livro emblemático, parte do que alguns chamam de o "mito de Cthulhu", e é frequentemente mencionado na obra de Lovecraft, mas também além dela (por exemplo, no filme "Evil Dead"). As histórias de Lovecraft, assim, seguem um padrão específico que permanece praticamente inalterado, todos têm suas raízes em um verdadeiro paradigma que submerge o leitor no universo que tornou seu autor famoso. Tanto o conteúdo quanto a forma são inseparáveis, unidos em um horror, graças, em parte, ao mundo desenvolvido ao longo da história, uma verdadeira descida aos infernos que quase sempre resulta em morte ou loucura...

Uma humanidade ultrapassada

A imagem de Lovecraft é geralmente a de um homem que entrou em colapso sobre si mesmo. Certamente, ele é um escritor atormentado mas, no entanto, quando se olha um pouco mais de perto, percebe-se que o homem em questão é mais aberto ao mundo do que parece. Sabemos, hoje, que Lovecraft era interessado em ciências, especialmente Astronomia. Este aspecto de sua personalidade está presente ao longo de todo o seu trabalho, mas existe mais além disso. De fato, a sua obra reflete a realidade de uma época, ou seja, um dualismo entre a Ciência, que estava ficando mais forte através de muitos avanços (descoberta do Quantum de energia por Max Planck em 1900, a Teoria da Relatividade de Albert Einstein em 1905, ou a galáxia descoberta além da nossa própria, por Edwin Hubble, em 1924) e o outro pólo conservador, com forte influência religiosa.

Em suas histórias, não é incomum que os protagonistas adotem uma abordagem científica para elucidar os mistérios que enfrentam, mesmo que nem sempre eles entendam o como ou o porquê (como em "A Cor que Caiu do Céu"). Além das considerações sociais desse dualismo, a Ciência tem outro impacto na obra de H. P. Lovecraft, não como um aspecto direto, mas sim como um ponto de partida da ideia principal na mente do autor: o homem - e seus avanços técnicos e científicos, em particular no campo da astronomia e do universo -, não é nada. Assim, H. P. Lovecraft rejeita o etnocentrismo absolutista herdado, em grande parte, da filosofia Iluminista, ao impor não um deus conhecido dos homens (com exceção de alguns iniciados) ou um deus benfeitor, mas este "panteão oculto", que parece ser uma ameaça para a humanidade.

Que somos nós, seres humanos, ao sermos confrontados com estas criaturas, deuses que existem além do abismo do tempo? Apesar do progresso técnico e científico, ao que parece, de acordo com Lovecraft, a resposta é "nada". Este pessimismo quanto ao nosso futuro, o autor deve, talvez, à influência da Revolução Conservadora Alemã, ao conhecer Oswald Spengler.

Como evidenciado pela correspondência com Clark Ashton Smith, em 1927: "É minha convicção, e já o era muito antes de Spengler afixar com selo de evidência acadêmica, que a nossa era mecânica e industrial é uma era de completa decadência". Decadência, segundo Lovecraft, também se aplica ao indivíduo através do prisma da degeneração étnica e racial. O autor é realmente conhecido por seu racismo e antissemitismo, e é inegável que este aspecto literalmente escorre através da sua obra: "[...] os prisioneiros todos provaram-se homens modestos, miscigenados, e de mentalidade aberrante. A maioria era de marinheiros, mas havia alguns gatos pingados que eram negros e mulatos, um grande número de índios ou portugueses criolos das Ilhas Cabo Verde, que davam um colorido de voduísmo ao culto. Mas antes que muitas perguntas fossem feitas, ficou claro que algo mais profundo e arcaico que fetichismo negro estava envolvido. Degradados e ignorantes como eram, as criaturas mantiveram com surpreendente consistência a idéia central de sua abominável fé" (retirado de O Chamado de Cthulhu). Hoje em dia, mesmo essa descrição sendo parte de um contexto completamente ficcional, o autor teria uma visita da 17ª Seção do Tribunal da Suprema Corte de Paris! Este desgosto pela miscigenação vai cada vez mais longe, indo em direção a um atavismo sobrenatural e assustador, como em "A Sombra de Innsmouth" ou "O Medo à Espreita".

Por fim, um dos aspectos mais interessantes de Lovecraft encontra-se em um confronto global entre os adeptos do mundo civilizado e moderno dos métodos científicos e racionalistas, e um inimigo falsamente arcaico. Desenvolvimento de armas avançadas, tais como armas a laser para aniquilar a espécie humana (o que não imediatamente põe a obra do autor no domínio da ficção científica), a própria existência destas criaturas, o quão desconhecidas elas são para o homem e seu poder perturbador (mágico? científico?) são suficientes para dominar a humanidade ultrapassada...

O horror que está além

Em vista das várias características fundamentais da obra de Lovecraft, ela deixa em aberto a questão sobre o autor ser ou não, em última análise, um reacionário típico de seu tempo. A rejeição dos princípios do Iluminismo, seu desagrado com a miscigenação e sua postura ambígua em relação à modernidade nos deixa pensar que sim. No entanto, é preciso levar em conta o pessimismo, misantropia e a vida do autor, de classe baixa em uma América em plena mudança. Sua relação com a Ciência continua a ser uma das chaves para a compreensão de sua obra, uma verdadeira relação de amor e ódio, uma tensão que age como um ponto-chave. O que ele pensaria da América hoje, o quartel-general das finanças no mundo, uma sociedade dividida entre os piores dos libertários liberais (veja Miley Cyrus) e o fanatismo fanático de alguns? Assim como Deus foi morto pelo homem, de acordo com o célebre filósofo do martelo, H. P. Lovecraft podia querer que o horror que se situa além do tempo, no fundo de R'lyeh, permanecesse afundado; deste modo, seu estado de dormência chega ao fim ao começo desta era das trevas demasiada humana...

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