terça-feira, 11 de agosto de 2015

Gustavo Aguiar - O Übermensch como Personificação Hipostática do Princípio Urânico-Solar

por Gustavo Aguiar



“Uma única coisa deve importar ao homem: permanecer de pé entre as ruínas” – Julius Evola

Muito se fala do super-homem nietzschiano como arquétipo de auto-superação transcendente, de rito de passagem de uma condição estritamente corpórea, passional e imperfeita para uma instância supra-corpórea, extramundana e ascética. Entretanto, essa interpretação filosófica prescinde dos componentes mítico-esotéricos dos quais Julius Evola se vale para arquitetar o princípio régio da urânica solaridade, que, vinculado à configuração hierárquico-aristocrática do Sacro Império Romano Germânico, irradia centralidade, virilidade, organicidade e indecomponibilidade como pressupostos fundamentais para a consolidação de um terceiro poder entre o céu e a terra, e da perpetuação do imperium como um agregado holístico-unitário. Segundo Evola, o princípio urânico-solar, manifestado sob diferentes formas nas diferentes tradições etno-culturais da pré-história, indica sempre uma posição mais elevada no bojo de uma hierarquia de castas e de valores. No contexto da Roma Antiga, os patrícios e os dinastas gozavam de maior proximidade com o deus-sol do que os plebeus, não em função de atributos materialistas ou economocentristas - que se tornaram a medida de todas as coisas com o advento da modernidade -, mas devido a predicados congênitos de índole espiritual e metafísica. É o que se verifica na seguinte passagem: “<<Solar>>  foi a última profissão romana de fé, na medida em que o último expoente da antiga tradição romana, o imperador Juliano, reconduziu precisamente à solaridade como força espiritual irradiante do <<supramundo>> a sua dinastia, o seu nascimento e dignidade real. Conserva-se um seu reflexo até aos imperadores gibelinos – pôde-se ainda falar em uma deitas solis em referência a Frederico II Hohenstaufen”. (EVOLA, Revolta Contra o Mundo Moderno, pgs. 29 e 30) 

Nesse sentido, Francis Yockey pontifica: “Dynasty is the affirmation of political continuity from Past to Future. The political history of the West from its origins is the history of dynasties”. (YOCKEY, The Philosophy of History and Polititics, p. 148)    

Os aryos e os çûdras pertencentes às estirpes indo-arianas, outrossim, se verticalizavam com base no mesmo critério de castas. Mas o que isso tem a ver com o übermensch de Nietzsche? 

O resgate da espiritualidade paleopagã como instrumento de superação da modernidade judaico-cristianizada e do caráter ginecocrático da civilização ocidental traria, como consectário gnoseológico, a ideia aristocrática de que apenas uma Elite guardiã estaria autorizada a transcender a si mesma, a participar ativa e diretamente da comunhão com o sagrado em seu divino ócio contemplativo, em sua excelsa magnanimidade cósmico-solar. As castas hierarquicamente inferiores, regidas pelo princípio lunar de resignada passividade, a outro giro, se imiscuiriam nessa experiência de maneira indireta, mediata e residual, enxergando em seus suseranos a vívida e resplandecente personificação numênica do ídolo solar. Em termos práticos, impera a constatação de que apenas à dinastia dos imperadores, investida de uma potestade nobiliárquica, seria lícito tocar a essência do sagrado, e essa transmigração semântico-hipostática da figura do divino para a figura do Líder carismático traduziria o thelos último do übermensch, consoante descrito por Nietzsche em seu “Assim Falava Zaratustra”. Todavia, isto não implica em absoluto que as castas inferiores não superariam sua condição naturalística originária. Elas o fariam dentro dos limites de suas respectivas potencialidades. 

O simbolismo do Sol e da Lua como designação genérica dos princípios masculino e feminino também encontra respaldo na tradição alquímico-hermética: “A Mulher que desempenhou o papel de <<mãe>>, que forneceu ao ser dividido a <<Água da Vida>> e da ressurreição (o <<segundo nascimento>> próprio dos Mistérios Menores) é possuída por aquele que, de certo modo gerou e que é seu filho. Este simbolismo apresenta-se no hermetismo alquimista sob uma forma rigorosa, embora relacionado com as operações da Arte Real (que se considera, contudo, reproduzir nas suas fases a obra da criação). Aí se menciona uma primeira fase a que se chama regime da Mulher, das Águas ou da Lua, ou albedo em que a Mulher tem supremacia e reduz o homem à sua natureza (Mistérios Menores). Quando o homem se dissolveu no princípio oposto, sucede-se então o regime dito do Fogo, ou do Sol, ou rubedo, no qual o Homem volta a ter a supremacia para dominar a Mulher e a reduzir então à sua natureza”. (EVOLA, Metafísica do Sexo, p. 165)           

A releitura de Nietzsche empreendida pelo Barão Julius Evola absorve elementos escatológicos sob a perspectiva da solaridade nórdico-romana. Não por outro motivo, o mestre italiano considera Nietzsche como um filósofo incompreendido, e enfatiza sua contribuição para o campo do pensamento esotérico. Destarte, “liberando a doutrina de Nietzsche de sua parte naturalista, reconhecendo que o ‘super-homem’ e a ‘vontade de poder’ só são verdadeiros enquanto são compreendidas como valores suprabiológicos, e, queríamos dizer, sobrenaturais; então, esta doutrina para muitos pode ser uma via através da qual se pode elevar-se ao grande oceano, ao mundo da universalidade solar das grandes tradições nórdico-árias, desde cujo nome se impõe o sentido de toda a miséria, de toda a irrelevância e de toda a insignificância deste mundo de encadeados e de possuídos”. (EVOLA, Imperialismo Pagão, p. 92)  

A modernidade trouxe a absurda convicção antropocêntrica de que indivíduos isolados, atomizados, volatilizados e horizontalizados em um espaço-tempo secular destituído de uma matriz axiológico-tradicionalista e de um centro de poder ecumênico carregam em sua constituição órgano-psíquica o gérmen deste procedimento de auto-superação, como se tudo transcorresse na mais indisciplinada liberalidade e na mais ignóbil ausência de pré-requisitos objetivos e ritualísticos; como se a plebe profana e desnorteada pudesse se dar ao luxo de prescindir da existência de uma autoridade régia e dos símbolos que remetem à onipotência desta autoridade. A influência materialista do positivismo, do cientificismo e da historiografia contemporânea privam o ser nos entes do substrato animístico que propulsiona a identificação do “si-mesmo” com as externalidades supra-empíricas do devir. A incomunicabilidade do além-mundo com o mundo radicada em uma antítese diacrônica entre ambas as esferas, caracteriza o que de mais pérfido e anti-tradicional poderia haver na supressão do übermensch pelo ego, da sabedoria legítima pela erística sofística. Este contraponto entre as concepções antiga e moderna do super-homem pode ser visualizado nos diferentes significados que a guerra assume em cada contexto sociopolítico.  Para Evola, “one of the origins of the imperial apotheosis, that is to say, of the feeling  that an immortal numen was concealed in the Emperor, is undoubtedly the experience of the warrior: the imperator was originally the military leader, acclaimed on the battlefield in the moment of victory: in this moment, he seemed transfigured by a force from above, fearful and wonderful, wich imposed precisely the feeling of the numen. This view, we may add, is not peculiar to Rome, but is found throughout the whole of Classical Mediterranean antiquity, and it was not restricted to victors in war, but sometimes applied also the winners of the Olympic Games and of the bloody fights of the circus”. (EVOLA, Metaphysics of War, p. 31)

Enquanto na Roma Antiga e no Mediterrâneo Clássico os aspectos mais basilares da estrutura ontológica do imperium gravitavam em torno da apoteose mítico-guerreira evocada pela aura numênica do imperador, a modernidade, influenciada pelas correntes humanistas e iluministas dessacralizou e exauriu a carga metafísica da guerra como veículo de libertação do espírito por vias transcendentais. Aqui, a guerra denota barbaridade e selvageria, uma espécie de energia desagregadora e anti-civilizacional. Percebe-se, claramente, a extensão do impacto do esgotamento semântico de dois dos caracteres fundamentais do princípio nórdico-solar, quais sejam: virilidade e militaridade. Evola busca as raízes desta degeneração espiritual e tradicional da Europa na “judaicização do mundo greco-romano, e logo nórdico, o qual deve-se em grande medida creditar-se ao cristianismo”.  (EVOLA, Imperialismo Pagão, p. 11)

Eis o motivo pelo qual a conjuração de valores pré-cristãos serviria ao intento de combater imperativos seculares tais como o humanismo, o niilismo e o racionalismo, cujos influxos draconianos pressagiam mefistofelicamente o desmantelamento de uma herança cultural milenar. Não se trata tanto de eleger o cristianismo como arqui-inimigo do super-homem quanto de detectar retrospectivamente a causa de um problema que foi – e continua - se disseminando pelo organismo biopolítico como um tumor em processo de metástase. O cristianismo não é intrinsecamente nocivo ao ponto de merecer ser extirpado da realidade ocidental, mas não podemos nos olvidar que seus aspectos negativos são precisamente as consignas do pathos secular e do plebeísmo anti-aristocrático de cariz iluminista. 

É nesse sentido que Evola aduz que “inorganicidade e exterioridade são os caracteres dominantes nas ‘organizações’ contemporâneas. Que o Alto tenha que ser determinado pelo baixo, que a lei e a ordem, em vez de justificarem-se numa Aristocracia, numa diferença de qualidade e numa hierarquia espiritual, tenham que se fundar sobre o contingente ponto de equilíbrio de interesses e desejos de uma multidão anônima, que se encontra já despojada de qualquer sensibilidade superior; tal é o erro fundamental que se acha na base destas organizações. A raiz desta degeneração remonta a tempos longínquos, justamente naquelas épocas nas quais se desenvolveram os primeiros processos de decadência da Tradição Nórdico-Solar. Encontra-se vinculada à separação dos dois poderes, ao rompimento do princípio régio com o sacral, ao dualismo através do qual por um lado delineia-se uma virilidade material – o estado laico, o soberano, como valores puramente temporais e, queríamos quase dizer, luciféricos – e, por outro lado, uma espiritualidade lunar, antinórdica e antiaristocrática, uma espiritualidade de tipo ‘sacerdotal’ e ‘religiosa’ que sem embargo se arroga  direito à soberania”. (EVOLA, Imperialismo Pagão, p. 17) 

Se na Era de Ouro da humanidade o deus-sol e os césares irradiavam o mesmo significado e o Império Romano possuía conotações e denotações sacrais, na Idade Moderna a desmistificação deste ordenamento simbólico cedeu espaço ao patógeno da vacuidade espiritual e da desnaturação do übermensch em um construto faustiano eivado de um romantismo iconoclástico e heterodoxo. O que antes constituía a expressão máxima do heliocentrismo apoteótico-imperial transubstanciou-se em desvarios quiméricos da matéria bruta. Nos dizeres de Oswald Spengler acerca da repercussão estética da degeneração espiritual, “com o começo da Civilização, extingue-se, finalmente, o autêntico ornamento, e com ele, a arte sublime em geral. Essa tradição patenteia-se pelo “Classicismo” e pelo “Romantismo”, que, de uma ou outra forma, surgem em todas as culturas. O Classicismo significa o entusiasmo por determinado gênero de ornamento – regras, leis, tipos – que, há muito tempo, tornou-se antiquado e inânime. O Romantismo, por sua vez, é a imitação fervorosa, não da vida, de outra imitação anterior. O estilo arquitetônico é substituído por uma preferência arquitetônica. Por fim, cria-se um patrimônio de formas plásticas e literárias que são manejadas com gosto apurado, mas sem nenhuma significação profunda”.  (SPENGLER, A Decadência do Ocidente, p. 130) 

Em corroboração a este teor, Julius Evola acrescenta que “a uma organização material, a qual eventualmente uma hierarquia religiosa se agregasse, esta, na verdade, não aportaria nada, apenas um vazio contorno de formas vazias, uma fantasia de fé e de sentimento, um embrutecimento por dogmas contraditórios e símbolos que não são seus, e dos quais já se perdeu o sentido; em suma, uma hierarquia religiosa não daria uma realidade superior, solar e testemunhada em potência, que nós pagãos compreendemos como espírito, daria em vez uma absoluta irrealidade, uma retórica antiariana e antirromana que se expressa no mesmo âmbito ético, favorecendo tudo aquilo que de feminino, de ‘romântico’ e de fuga do mundo se tem acrescentado à alma ocidental”. (EVOLA, Imperialismo Pagão, p. 76)

Todas essas elucubrações apontam para uma única e mesma direção: a de que a espiritualidade e o significado cósmico-solar do super-homem, tanto em ato como em potência, devem ser resgatados de um passado pré-histórico, antes do sepultamento da Águia Romana pelo judaico-cristianismo, e, subsequentemente, pelo protestantismo. O super-homem, radicado na indefectibilidade apolínea do imperador, seja em tempos de guerra, seja em tempos de paz, reveste-se de importância fulcral pela razão mesma de conferir estabilidade e durabilidade espacio-temporal ao imperium. Não compete à multitude inflamada por entusiasmos pueris e ânimos passionais criar as normas das quais será destinatária, como sugerem os liberais e os social-democratas, haja vista que a fonte de legitimidade stricto sensu de um ordenamento social pautado em uma escatologia coesa deve ser a tradição solar. Qualquer coisa que escape às latitudes do princípio urânico e, por conseguinte, do arquétipo do übermensch, deve ser impugnada de plano como utopia pós-moderna ou simulacro de governabilidade anti-régia. René Guénon já nos alertava que “(...) cada coisa permanece na sua ordem, no lugar que lhe compete na hierarquia universal. Mas, no Mundo Moderno, onde se pode encontrar ainda a noção de uma verdadeira hierarquia? Já nada nem ninguém se encontra no lugar onde devia normalmente estar; os homens já não reconhecem nenhuma autoridade efetiva na ordem espiritual, nenhum poder legítimo na ordem temporal. Os ‘profanos’ permitem-se discutir as coisas sagradas, contestar-lhe esse caráter e até a própria existência; é o inferior que julga o superior, a ignorância que impõe limites à sabedoria, o erro que ultrapassa a verdade, o humano que toma o lugar do divino, a Terra que toma a dianteira do Céu, o indivíduo que se faz medida de todas as coisas e pretende ditar ao Universo leis tiradas inteiramente da sua própria razão relativa e falível”. (GUÉNON, A Crise do Mundo Moderno, p.64)      

No tocante aos aspectos negativos do judaico-cristianismo, Evola sentencia que “a fuga deste mundo e o perene desenvolvimento do outro – esta angústia a respeito do mundo, que é o segredo da vida moderna e que desesperadamente grita poder ser um valor para escapar da consciência de si – é, por sua vez, o segredo mais profundo do cristianismo logo do fracasso de sua escatologia; é a maldição imanente que leva consigo e que se estendeu aos povos que se converteram, traindo o ideal olímpico, clássico, ariano (...) O mundo judaico-cristão não só privou a “criatura” do divino, mas também acabou rebaixando Deus a uma figura humana. Voltando a dar luz a um demonismo de um substrato pelásgico, substituiu as puras regiões olímpicas, vertiginosas em sua radiante perfeição, com as perspectivas terrificantes de seus apocalipses, de seus gêneses, da predestinação e da perdição.Deus não foi mais o Deus aristocrático dos romanos, o Deus dos patrícios em que se reza em pé, ante o esplendor do fogo, com a frente alta e que se leva a frente das legiões vitoriosas; não foi mais Donnar-Thor, o aniquilador de Thym e Hymir, o ‘mais forte dentre os fortes’, o ‘irresistível’, o senhor da ‘ajuda contra o terror’, cuja arma terrível, o martelo Mjolnir, é uma representação correspondente ao vajra de Çiva, da mesma força fulminante que consagrava os reis divinos dos Arianos; não foi mais Odin-Wothan, aquele que leva a vitória, a Águia, o hóspede dos heróis que na morte sobre o campo de batalha celebram o mais alto culto de sacrifício e se transformam na falange dos imortais; mas sim, converteu-se, para dizer como León Rougier, no patrono dos miseráveis e dos desesperados, o holocausto, o consolador dos aflitos que imploram com as lágrimas do estase ante os pés do crucificado e na capitulação do próprio ser” (EVOLA, Imperialismo Pagão, p. 81 e 85)   

Nesse diapasão, Alain de Benoist assevera: “Em efecto, lo, que és ‘mágico’ para Spengler, em el judeocristianismo, es precisamente o dualismo. Esto ultimo no és una dualidad inmanente al mundo, al modo del mazdeismo iranio que opone um Dios bueno a um Dios malvado, um Dios de luz a um Dios de las tinieblas. Resulta al contrario, nace de uma separación, de uma distinción radical entre este mundo y Dios. Toda a teología judeocristiana descansa, podríamos decir, sobre la separación del ser creado (el mundo) y del ser íncreado (Dios). Lo absoluto no es el mundo. La fuente originaria es completamente distinta de la Naturaleza. El mundo no és divino, no es el cuerpo de Dios. No es eterno, ni increado, ni ontológicamente suficiente. No és una emanación directa, ni una modalidad de la substancia divina, no hay naturaleza ni esencia divina (...) Entre Dios y el mundo no hay más que la nada – abismo que Dios es el único que puede colmar -. Completamente estraño al mundo, Dios es la antíteses de toda realidade sensible”. (DE BENOIST, Como se Puede ser Pagano, p. 12).  

Se nos sistemas nórdico-pagãos inexistia dualidade entre as esferas terrena e supra-terrena – sendo que ambas encetavam um perpétuo diálogo e se interpenetravam reciprocamente por intermédio do rito de celebração - , as ramificações cristãs, d’outro modo, não só incorporaram como também “encaixaram” essa dicotomia no cerne de seus ensinamentos. A noção primitiva de ‘ação purificadora’ dentro de uma hierarquia patriarcal foi dissolvida pelo ideal protestante da ecclesia, que “surgiu a partir da rebelião cristã-plebeia contra o ideal romano”, e no qual se manifesta “essencialmente o espírito da Reforma, o mesmo espírito do qual deriva a organização moderna anti-imperial, antiaristocrática, antirreligiosa (pois reduz a religião à sociabilidade), antiqualitativa, elementos próprios das sociedades dos anglo-saxões e dos ianques”. (EVOLA, Julius, Imperialismo Pagão, pgs. 46 e 47)                        

Compreender Nietzsche, e, mais especificamente, o super-homem, sob uma abordagem esotérica e tradicional, significa acatar o rechancelamento de vetores axiológicos há muito esquecidos nos recônditos da pós-modernidade. Esse reencontro com o logos metafísico do übermensch não sinaliza nenhuma espécie de anacronismo, como alegam sub-repticiamente os luminares do senso comum pós-moderno. A contrario sensu, preconiza uma ruptura com paradigmas afeitos à estrutura do capitalismo industrial e com a topografia de uma (i)realidade fetichizada, pautada quase que exclusivamente em dinamismos tecnocráticos e na multiplicação de transações financeiras no âmbito do mercado global. O super-homem na pós-modernidade equivaleria a nada mais do que um simulacro de super-homem, a um autômato procurando, sem êxito, imitar o comportamento humano. E é aqui, onde o acessório se apresenta como essencial e o contingente como absolutamente necessário, onde quaisquer vestígios de discernimento são substituídos por uma resignação complacente desviante em que se localiza a raiz patogênica do mundo moderno. Nos dizeres de Julius Evola em artigo intitulado “Nietzsche para Hoje”, “as palavras do Zaratustra de Nietzsche são atuais e pertinentes, nesse sentido, quando ele pergunta que busca se livrar de todo grilhão: "Você chama a si mesmo de livre, mas isso não me interessa - Eu te pergunto: livre para quê?", lembrando que há casos em que o único valor que se possui são lançados longe junto com o grilhão. Esse é o claro alerta para aqueles hoje que só sabem falar de "repressões" e que se alimentam de uma intolerância histérica por todo tipo de autoridade - e eles alimentam tal intolerância - só por essa razão: porque eles não possuem em si mesmos um princípio superior que comanda. Agora o tipo nietzscheano, que colocou o "niilismo atrás de si", que, de fato, "sabe como obter um remédio saudável para tal veneno", é o único que possui este princípio, e que portanto também sabe como dar uma lei a si mesmo. Reininger, nesse sentido, está correto ao ver em Nietzsche o afirmador de uma moralidade "absoluta" como a de Kant, e certas conexões poderiam até mesmo ser estabelecidas com a ética estoica antiga, que similarmente defendia uma soberania interior”. (EVOLA, Nietzsche para Hoje)

Esse “princípio superior que comanda” é, indubitavelmente, o princípio tradicional da urânica solaridade, responsável por guiar uma pluralidade de povos e impérios da pré-história ao apogeu de seu esplendor eônico, transformando os ensinamentos do Zaratustra nietzschiano em diretrizes acroamáticas redivivas. Daí a importância da reconfiguração ôntico-ontológica da estrutura da realidade sob uma perspectiva eminentemente metafísica e esotérica, tendo em vista a desmistificação da imposição monoteísta em detrimento de uma espiritualidade paleopagã de natureza aristocrático-feudal em conformidade com modulações mítico-telúricas. As vantagens da implementação sociopolítica de uma hierarquia disciplinar alicerçada por uma religiosidade politeísta remonta a uma época em que a memória construída pelo historicismo não alcança, da mesma forma que o humano em sua imperfeição não acessa mais que vislumbres do além-mundo que, segundo a anamnese platônica, ele divisara antes de “descer” à Terra.  Assim como o Sumo-Bem em Platão, o super-homem de Nietzsche não pode ser alcançado em sua plenitude, uma vez que a mundanidade, com todas as suas imperfeições e limitações cognoscitivas, não comporta o eterno como substractum apriorístico. Contudo, nada impede ao esoterismo de buscar, mediante um processo de auto-aperfeiçoamento, se aproximar cada vez mais deste ideário metafísico.  

Impende, por oportuno, examinar a superioridade do aspecto sacrificial dos ritos solares em relação aos dogmas das religiões “modernas”. Para Evola, “nas formas mais elevadas da luminosa espiritualidade ariana, na Grécia, na Roma antiga e também no Extremo Oriente a doutrina era inexistente ou quase inexistente: só os ritos eram obrigatórios e imprescindíveis. Era com eles que se definia a ortodoxia, e não com dogmas; mais por práticas que por ideias. Não era o não <<crer>>, mas sim o descurar os ritos que era sacrilegium e impiedade. Tudo isto não se trata de um <<formalismo>> - como pretendia a incompreensão dos historiadores modernos mais ou menos influenciados pela mentalidade protestante – mas pelo contrário da nua lei da acção espiritual”. (EVOLA, Revolta Contra o Mundo Moderno, p. 80)     

Impossível deixar de notar o que talvez seja a característica mais marcante dos sistemas indo-ariano e greco-romano em contraste com o sistema judaico-cristão: a noção do rito como praxeologia. A essência do sagrado é abstraída mediante a prática dos ritos sacrificiais. As divindades cósmico-solares que legitimam a aristocracia orgânica se revelam no desdobramento da performance ritualística, e não através de conceitos especulares ou ideias abstratas e dogmáticas, como ocorre em seitas dualistas, segundo as quais o divino e o humano constituem dimensões separadas por um abismo intransponível. Para os pré-cristãos, a sacralidade do rito subjaz na atividade ordenada, e tanto mais perfeita será a manifestação terrena do deus-sol quanto mais sincrônica for a práxis cerimonial.  A persecução do ideal de perfeição é o que separa o super-homem do homem médio, e é impossível compreender a auto-transcendentalidade no contexto do esoterismo evoliano sem a práxis ritualística, que, a seu turno, se erige em verdadeiro ponto de conexão do humano ao sagrado e vice-versa. Mas em que, exatamente, consistiria essa atividade de acordo com o princípio solar? 

Julius Evola busca a resposta para essa indagação em um postulado da metafísica aristotélica, resposta esta que merece ser transcrita de modo a captar o máximo do seu lirismo e de sua grandiloquência. Nos dizeres de Evola, o conceito de atividade para a tradição hindu “é rigorosamente idêntico ao que Aristóteles expressou para falar do ‘motor imóvel’, que é causa e senhor efetivo do movimento, sem se mover a si mesmo. Ele desperta, manda e dirige o movimento, faz atuar, mas não atua, quer dizer, não é transportado, não é pego pela ação, não é a ação, é uma superioridade impassível, calmíssima, da qual procede e depende a ação. Este é o motivo pelo qual seu mando, poderoso e invisível, pode ser definido, junto a Lao-tze, como um ‘atuar sem atuar’ (wei-wu-wei). Frente a isso, o que atua é já um atuado, o que é preso pela ação, o que se encontra ébrio de ação, de ‘vontade’, de ‘força’ no impulso, na paixão, no entusiasmo, e já um instrumento, não atua, mas padece de ação; e, portando, aparece - para tais doutrinas – como um princípio feminino e de negação com respeito ao modo superior, transcendente, imóvel e olímpico dos Senhores do Movimento (...). A ação é algo elemental. É algo simples, terrível, irresistível. Não há lugar nela para a paixão, para a antítese, nem para o ‘esforço’, e muito menos ainda para a ‘humanidade’ e o ‘sentimento’. Ela parte de centros absolutos, sem ódio, sem berros e sem piedade, de uma calma que aterroriza e imobiliza, de um nível de ‘indiferença criadora’ superior a qualquer oposição. É o mando. É a potência temível dos Césares. É a ação silenciosa e oculta dos Imperadores do Extremo Oriente, fatal como as forças da natureza, de cuja pureza participam. É aquilo que se sente libertar-se da imobilidade mágica de algumas figuras egípcias, da lentidão alucinante de alguns gestos rituais. É o maquiavelismo desnudo, verde, em toda sua aspereza e inumanidade. É aquilo que se desencadeia quando – tal como sucedia na alta Idade Média feudal – o homem retorna só, homem próximo de homem ou homem contra homem, vestido apenas de sua força e sua debilidade, sem evasão e sem lei. É aquilo que resplandece quando - no heroísmo, no sacrifício ou no grande sacrilégio – surge de pé no homem uma força mais forte que o bem e o mal, que a piedade, que o medo e a felicidade, uma força ante a qual o olho não pode fixar-se e na qual se desperta a potência primordial das coisas e dos elementos”. (EVOLA, Imperialismo Pagão, pgs. 83 e 84)     

O motor-imóvel aristotélico seria o correspondente filosófico da gnoseologia urânico-solar com seus consectários régios – virilidade, centralidade, imobilidade, etc -, que se amoldam perfeitamente à composição anatômica do übermensch. Esse móbil primordial não deriva de um encadeamento causal-naturalístico em acepção darwiniana, e sim da potência metafísica que formou a espinha dorsal da religiosidade pré-histórica. A ressemantização do super-homem ocidental só poderá efetivar-se verdadeira e genuinamente em um ambiente que torne possível a reaproximação do homem médio com suas raízes primitivas e, por conseguinte, com a tradição purificada, livre de todas e quaisquer conspurcações modernas da pseudo-religiosidade ocidental. Diante de todas as considerações anteriormente expendidas, pode-se afirmar, inequivocamente, que a transcendência da condição humana, encarada como uma tarefa hercúlea de auto-superação, em realidade não passa de um reencontro do homem consigo mesmo, da recuperação de sua própria identidade, que, por sua vez, só poderá ser detectada retrospectivamente na estrutura de uma hierarquia aristocrática similar à da “(...) Águia sobre a Cruz, os símbolo solar do direito dos pais (Império) sobre o lunar do direito das mães (Mãe Igreja). Somente assim se poderia falar num tradicionalismo integral e voltar a uma ordem de justiça e normalidade”. (EVOLA, Julius, Imperialismo Pagão, p. 115)  

Referências 
EVOLA, Julius. Revolta Contra o Mundo Moderno. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989.
EVOLA, Julius. Metaphysics of War: Battle, Victory & Death in the World of Tradition. United Kingdom: Arktos Media Ltd., 2011.
EVOLA, Julius. Metafísica do Sexo. Lisboa: Edições Afrodite, 1976.
EVOLA, Julius. Imperialismo Pagão. 
YOCKEY, Francis. Imperium: The Philosophy of History and Politics. 
DE BENOIST, Alain. Como se Puede ser Pagano. La Biblioteca de Los Tiempos Dificiles.
GUÉNON, René. A Crise do Mundo Moderno. São Paulo: Clube do Tarô, 2007.
SPENGLER, Oswald. A Decadência do Ocidente. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.
http://legio-victrix.blogspot.com.br/2013/01/nietzsche-para-hoje.html

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