quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Álvaro Hauschild - Dicotomia “Direita” e “Esquerda”: Indeterminação do Liberalismo

por Álvaro Hauschild

Ernesto Scheffel, Tríptico: O Culto da Natureza, Criação, O Conhecimento da Natureza.

O que hoje se divide em direita e esquerda, no século XVIII, representava um único grupo: o dos liberais, iluministas. É uma ilusão, portanto, acreditar que a política se reduz a este dualismo; primeiro porque exclui, de antemão, qualquer pensamento não-moderno e não-iluminista e, em segundo lugar, porque a completa indefinição desses conceitos relativiza todo debate político, criando confusões profundas e absurdas que não podem existir em um meio que busca uma resolução para os problemas políticos.

Não vamos expor aqui o que se entende por direita e esquerda, porque os absurdamente diversificados aspectos de cada um acabam por confundir ambos em uma coisa só. As múltiplas noções de liberdade podem ser encontradas tanto em um lado como em outro, o que dificulta uma análise genuína de ambos os lados. As noções de Estado mínimo e máximo, de igualdade e dignidade humana, que derivam do princípio de liberdade, são completamente relativizadas neste debate, de modo que encontramos de um mesmo lado opiniões completamente antagônicas e, de lados opostos, idênticas, fazendo com que seu enquadramento na “direita” ou na “esquerda” seja apenas uma questão de interpretação arbitrária dos conceitos debatidos. A própria identificação da direita com o capitalismo e da esquerda com o comunismo é absurda, pois temos, por exemplo, auto-intitulados direitistas que louvam um Estado protetor, criticando um desaparecimento do Estado na esquerda, e outros direitistas que louvam um Estado mínimo e meramente regulador, criticando o “Estado máximo” da esquerda, e assim por diante.

Na própria dicotomia capitalismo-comunismo, fugindo dos conceitos de direita-esquerda, encontramos o mesmo problema. Afinal, o capitalismo é um monstro padronizador e opressor ou é uma anarquia social-econômica? E o comunismo, um monstro padronizador e opressor ou é uma anarquia social-econômica? Ora, por que não aceitar ambas as hipóteses, tanto para o capitalismo como para o comunismo? Ambos anulam o valor, o caráter, a personalidade humana, atomizam o homem (ou seja, individualizam) ao mesmo tempo em que universalizam a sociedade, rumo a um coletivismo absoluto – em ambos, o homem é reduzido a um número, em ambos é “só mais um”, em ambos a igualdade, o que quer dizer indiferenciação e desvalorização dos talentos e caráteres. Ambos nivelam os homens e dão valor à soma de indivíduos, destruindo o direito de talentosos e os oprimindo com a algazarra da “maioria”. É o poder da maioria, a lei da selva, e não da inteligência e da dignidade humana. Para ambos, podemos fazer esta projeção, serve a democracia, que nada mais é que o poder das massas e “livres associações financeiras”; todos são massa e, se quiserem, também podem escalar a sociedade e fazer parte dessas “livres associações financeiras”, que não são outra coisa que oligopólios “possíveis para todos”. No fundo, a democracia não passa de ser a mais terrível hipocrisia, e capitalismo e comunismo apenas formatações incompletas dessa hipocrisia, que se complementam e colaboram mutuamente. O capitalismo é um liberalismo que carece da necessária comunhão com o comunismo, e o comunismo é um liberalismo que carece da necessária comunhão com o capitalismo. A democracia, a social-democracia, é o modelo ideal de sociedade liberal, moderna, que, depois da breve e instável cisão no início do século XX, se encontra de novo no final do mesmo século para a finalização do seu projeto no século XXI. E a finalização desse projeto abre um novo estágio no Ocidente: o globalismo, a pós-modernidade, a pós-história, o desumano mundo pós-humano.

Alguns dirão, porém, que sequer o capitalismo nem/ou o comunismo são padronizadores, que são pluralizadores, diversificadores. Ora, a padronização é o modo em que se dão estas desordenadas diversidades e vice-versa: a atomização da sociedade causa os dois, ao mesmo tempo: todos se tornam, de repente, “iguais” e, por outro lado, cada um tem a “sua particularidade”, o “seu espaço”, a “sua forma individual”, desde que essa igualdade não é uma identidade metafísica, mas tão somente uma arbitrariedade, uma valoração que dá o mesmo valor artificial para objetos (entes) distintos no mundo (metafisicamente diverso). Toda essa confusão conceitual, já dissemos e reafirmamos, deve-se à falsa seriedade que se dá para a linguagem, metafisicamente limitada, esta uma “seriedade” de caráter plenamente moderna e iluminista, analítica, longe das verdades ontológicas do mundo grego e medieval (patrístico e neoplatônico). Podemos dizer o mesmo dos caráteres ilusoriamente duplos opressor-libertário e totalitário-anárquico de ambos os regimes: “liberam” o indivíduo ao passo que o aprisionam em um sistema de múltiplas e infinitas delimitações e obrigações; controlam tudo através do Estado ao passo que liberam cada qual em um meio onde um indivíduo intervém inevitavelmente na vida do outro. Cioran disse que os sistemas filosóficos geram sistemas totalitários e ditaduras opressoras, e é exatamente isto que vemos no resultado de todas as sistematizações da vida humana (na ética, na ciência, no direito), desencadeadas pela filosofia desde os princípios da modernidade. Jovem admirador de Hitler, entusiasta da Guarda de Ferro de Codreanu, ele percebeu que até mesmo os nacionalismos eram incapazes de escapar do destino sistemático, certamente porque a própria noção de “nação”, bem exposta por Alain de Benoist em seu Nação e Império, também é um conceito falso e padronizador, arbitrário, dado a um conjunto de tradições que pouco ou nada têm em comum. Todo o erro parte da tentativa satânica de sistematizar o insistematizável, que é a alma humana, e seu aspecto social: a comunidade humana. É inevitável que a crueldade, como todos os males que decorrem de um mal maior, apareça e domine como um câncer, tanto a sociedade como o homem particular. O homem quis ser livre das tradições, do substrato ontológico, e acabou preso por um desentendimento de origem meramente conceitual através da própria ferramenta com a qual traiu as tradições, a linguagem delimitadora, pela confusão das línguas – incapaz de transpor sua própria individualidade para um entendimento [1] social, essencialmente humano (simbólico e intuitivo), aqui o homem se perde no abismo de sua solidão plena; e quanto mais coletivo for o meio, mais solitário ele se sente, pois mais evidente se torna a distância que se causou entre o “eu” e o “tu”.

Voltando às dicotomias direita-esquerda, capitalismo-comunismo, etc., podemos perceber como estes dualismos insolúveis liberam uma energia interminável que põe toda a humanidade em cinética a resolver o insolúvel (a remediar no infinito), através de intermináveis remendos e pequenas reformas nos sistemas, que só agravam e aprofundam ainda mais a confusão geral, e alimentam cruelmente a solidão humana, cuja alma foi sequestrada de sua intuição do divino e, portanto, da sua íntima relação com Deus. Toda a emergência com que aumentam o consumismo, a multiplicidade de prazeres e produtos, as viagens, a tecnologia, as leis, se deve ao erro primordial – trata-se do desespero do homem, que em lugar algum se encontra a si mesmo, “sua morada”. E por quê? Porque nega voltar o olhar para outra direção, se nega a valorizar o belo, o sagrado, como se se tratasse de acessórios e não da própria essência humana, da razão do homem para ser (viver e morrer).

Assim, tanto os auto-declarados direita quanto os auto-declarados esquerda (mesmo os que se declaram de outras vias e opiniões, mas debatem a partir da Weltanschauung iluminista de modo geral) insistem em discutir a economia ou as leis como coisas em si, como se tivessem em si qualquer relevância para o ser-aí do homem. Por isso negam o que segundo eles são utopias: negam o orgulho patriótico, ridicularizam o país, cospem na bandeira, superestimam o exterior (“lá na França isso, enquanto no Brasil aquilo...”), e acabam com isso feificando ainda mais sua própria existência, por causa de orgulho mesquinho individualista. Mas não destroem só sua própria existência, também corroem e destroem a dos outros, são catalisadores de um processo de contínuo distanciamento com relação a Deus que é generalizado – sem efetivamente estuprar uma criança fisicamente, corrompem (o que equivale a estuprar) milhares, milhões delas, o que é coisa obviamente muito pior (mas é permitido por lei, não é? então está bem); a secularização, esta supervalorização da lei, desumaniza o homem, o arranca do centro de sua própria existência, e o permite agir contra si mesmo e contra todos os demais só porque um papel diz que pode. Falamos em termos tão miúdos e cotidianos porque hoje nem os adultos são capazes de ler Monteiro Lobato e entender, imaginamos então o que acontece quando precisam lidar com filosofia nua a crua (não nos referimos aqui apenas ao enciplopédico conhecimento dos autores, mas da filosofia pura, do pensar natural do homem), mesmo que seja sobre o que há de mais simples e fundamental.

Continuando: o oposto da esquerda não é a direita, nem o do capitalismo é o comunismo – ambos se complementam, são filhos de uma só visão originária, a qual pode-se nomear liberalismo. Aliás, era este o nome utilizado por Dostoievsky, por exemplo, para se referir a todos os tipos modernos, racionalistas/empiristas, cientificistas, socialistas, capitalistas, que iam para a Rússia divulgar ideias modernas em geral da França, da Alemanha, da Inglaterra e dos EUA; isto pode-se notar não apenas em artigos e cartas do autor, mas também em seus livros, cujos temas sempre aludem a estes elementos bem explicitamente. Só para citar alguns: Luzhin, em Crime e Castigo, a sociedade secreta de Os Demônios, O Crocodilo, Notas de Inverno, etc. Mas o que são os “liberais”? São aqueles que pretendem se “libertar”, ou seja, derrubar impérios, queimar igrejas, apagar tradições e desfazer todos os vestígios que evidenciam a dignidade ontológica do homem; e com que objetivo? Podemos chamar o próprio Dostoievsky para responder esta pergunta: para permitir tudo [2], para que não haja motivo para se envergonhar de nada ou impedir nada e os prazeres humanos serem explorados, buscados e realizados como manda do famoso laissez faire hedonista. Em suma, o homem quer se libertar de suas obrigações religiosas perante Deus. Mas isso significa, mais do que isso, fazer-se Deus, como Prometeu, que roubou a luz [3] de Zeus, ou como Lúcifer, que tomou um trono para si e declarou-se o Rei do Mundo. Acontece que o homem é uma criatura, ele precisa de Deus, e não para a satisfação d'Ele, mas da Criação, o que inclui o homem acidentalmente, sendo ele, porém, o centro dela, o ser-para-o-mundo, o ser-aí-no-mundo [4]. Se o homem negá-lo, e isto significa não só dizer blasfêmias, mas agir, pensar, se orientar no mundo a partir de e para si mesmo, onticamente, negando ou negligenciando a realidade ontológica, imediatamente ele se auto-esvazia, porque não há nada nele que seja ultimamente substancial, quando, em verdade, todo seu ser subjaz num ser que o ultrapassa absolutamente, mas que lhe é eternamente presente, inerente, nunca no sentido de completa incognoscibilidade. Vazio, o homem é como o mundo pós-apocalíptico, esquecido num universo do qual não pode sair nem morrer; pois, se a existência humana não tem um motivo, se ela não é um caminho a se percorrer, rumo a uma meta, que diabos seria ela? Aliás, sem razão de ser, como pode algo existir? Por isso que, negando a realidade, a verdade (ἀλήθεια), o homem nega o óbvio, e se perde sozinho - uma confusão desnecessária e plenamente ilusória, como a da menina que se tortura supondo que uma certa pessoa não gosta dela, mesmo sabendo que é pura ilusão e coisa da sua cabecinha dramática.

Este é o ponto do liberalismo, do iluminismo, do gesto de Napoleão de coroar a si mesmo, da maçonaria e de muitos outros grupos derivados ou inclusos. Como Kant que negou Deus e instaurou seu princípio supremo da moralidade; como Hobbes que negou o mesmo instaurando o contrato social; como Copérnico que, negando o mesmo, pôs a verdade nos instrumentos, objetos, e sentidos fisiológicos; mas, também, como São Tomás, que O negou reduzindo-O a um ente, um conceito da sua razão. Não precisaríamos citar Descartes, um dos mais importantes elementos satânicos da filosofia, que negou a realidade pura, a intuição de Deus, substituindo-O por uma conclusão racional, pela conclusão de um cálculo que, segundo ele, é metafísico. Daí em diante a filosofia surtou, gerando explosões rebeldes e desordenadas, como Leibniz, Nietzsche, Schopenhauer, Kierkegaard, que nunca mais conseguiriam alcançar a harmonia da patrística em um Ocidente conturbado, capaz de confundir e separar até os melhores homens uns dos outros [5]

Dugin não erra: percebe claramente onde está o liberalismo geopoliticamente; o que se poderia dizer, porém, é que ele identifica liberalismo com capitalismo, deixando elementos do socialismo e do nacionalismo de fora. Assim, o liberalismo deixaria de ser a ideologia moderna originária par excellence, sendo apenas uma das ideologias modernas. É aqui que pode surgir a confusão com a introdução das Escolas de Frankfurt e de Viena: onde estão eles, afinal? Possuem elementos tanto socialistas como capitalistas ou nacionalistas, e influenciam a pós-modernidade nos países do Ocidente através de todo um universo aberto pelos EUA no plano internacional. Assim, os EUA não podem ser meramente capitalistas, e não seria por isso que eles representam o núcleo da modernidade e da pós-modernidade que pretende tomar o mundo. Os EUA, pois, representam o liberalismo, sim, mas não só o capitalismo: para lá rumam também os socialistas e nacionalistas, muitos dos quais se intitulam de "direita". Os EUA são o polo, o centro da modernidade que tende a engolir e aceitar todas as ideologias modernas. Socialistas, nazistas, neopagãos, todos se opõem ao multipolarismo e à Rússia, na atual polarização do mundo; todos se entregam ao abraço do Leviatã que distribui direitos e democracia com bombardeiros. Todos os modernos, que se identificam passivamente com algum aspecto da modernidade, possam ser os aspectos os mais distintos e variados, imediatamente se colocam ao lado dos EUA.

Outra verdade: não há mais comunismo, não há mais União Soviética, assim como não há mais um Estado capitalista puro. O que aconteceu foi uma reunificação de todas as frentes dispersas da modernidade e um fortalecimento no núcleo da OTAN, principalmente nos EUA. É fato que os tentáculos desse Leviatã atingem o mundo inteiro, mas como alguém que luta contra o outro e busca engoli-lo - o resto do mundo é o diferente, aquele que não seria moderno ou liberal se não fossem os tentáculos. Em suma, são as social-democracias, repletas de ONGs internacionais, privatizações, preenchidas por uma volumosa e dominante classe média, o sujeito geopolítico do liberalismo pós-modernizante. Países como o Brasil, por motivos históricos e políticos, lenta e dolorosamente cedem ao poderio internacional unipolarista, com a moral popular cada vez mais baixa devido à ação interna de sociedades secretas e agentes financiados por empresas multinacionais, que incutem no povo o ódio à pátria, incitam a rebeldia sem-causa, os clamores por privatizações (que não são outra coisa que roubos, assaltos, ao poder popular) e assim por diante, ao mesmo tempo em que ordenam à classe média sair a passeatas com a camisa do Brasil, em um horrendo ato de gozação e blasfêmia contra os símbolos mais caros da pátria. As forças armadas, por sua vez, incapazes de perceber esta sutil gozação feita contra elas mesmas, que se entrega a poderes cuja lealdade está nos EUA, sucumbem à admiração dos símbolos estrategicamente manipulados, tal como acontece com o "patriotismo" ianque, que primeiro oferece a cerimônia ao soldado e ao povo e depois abandona o soldado no Oriente Médio e o próprio povo na pobreza extrema, nos pátios da Casa Branca.

Diferente do Brasil, a Rússia proíbe ONGs, passeatas gays e outras agendas liberais, alimentos transgênicos; fortalece o patriotismo, aproxima o governo do povo e a pátria da natureza, lidera à Igreja, e os sucessos na geopolítica só crescem e aumentam, assim como na economia,  por consequência. O povo brasileiro tem muita força, vitalidade, muita tradição e história, o potencial para a economia é gigante, para a exploração de fontes energéticas é a maior potência mundial; também, todos sabemos, é hospitaleiro, amoroso. Só restaria agir contra os sanguessugas internacionais em todas as frentes para se ver livre; mas aqui é fundamental dirigir o amor e a hospitalidade, acima de tudo, para si mesmo, em despeito aos estrangeiros e em favor dos brasileiros, amor de patriota como de um cristão que ama o outro, que vê a dificuldade do outro, e o ajuda. As belezas naturais pelo país todo são diversas e variadas, as nacionalidades são variadas, cada qual com suas tradições - todas, porém, cristãs e tradicionalmente medievais, descendentes de castelões, cavaleiros, agricultores, peregrinos e sacerdotes, a não ser as indígenas, que até hoje conservam e lutam por conservar suas tradições contra a moderna urbanização e nacionalização (padronização) do governo liberal e das iniciativas privadas - temos uma tradição viril de colonizadores e camponeses religiosos, temos belas mulheres, belos folclores (indígena, ibérico, africano, germânico), bela literatura (Lobato, Suassuna, Alencar), belas músicas (Villa Lobos, MPB). Isto tudo basta para que um grupo de políticos dê ao povo o que ele quer; a luta contra os internacionalistas evidentemente é difícil, mas um povo preenchido por sua beleza não se deita uma segunda vez, é desperto no ser, e passa a agir espontaneamente, participa na luta ativamente.

Mas beleza não é algazarra, não é festividade, não é a confusão massificada de múltiplas e desencontradas opiniões sem-sentido; beleza é um aspecto divino e, consequentemente, do próprio ser do homem - o silenciosamente sutil e sublime, aquilo que é grande, maior que os céus, no entanto tão íntimo, tão próximo! Beleza é a harmonia da multiplicidade em um todo uno, as múltiplas tradições, preservadas, cada qual em um espacinho do nosso Brasil, cada qual próxima de suas florestas, vales e montanhas, cada qual com sua etnia própria, sua família, suas cores, sabores, seus próprios cânticos e lendas populares. Isto é o belo. Isto é o homem, isto somos nós, e é disto que precisamos, aqui está contido o mistério da nossa verdadeira liberdade e felicidade, nossa criatividade que surge da auto-compreensão através do orgânico e natural, em oposição ao artificial, econômico, cosmopolita, mecânico...

Comumente, os conceitos fragmentários, como de "direita", "esquerda", "socialismo", "nacionalismo", vistos a priori de um ponto de vista burguês, urbano, tecnicista, secular, individualista, essencialmente moderno, são fomentados conscientemente nas disputas populares, com fim unicamente de dividir o povo e obrigá-lo a gastar energias a disputar por aspectos de uma mesma realidade, de lados de um mesmo polígono, tomado como pressuposto pelas elites modernas - é um modo de fazer o povo atingir unicamente a si mesmo na violência, e esquecer que a oposição real está além destes conceitos, assim como a salvação também está além deles. Toda luta que se fecha no social e no econômico é uma luta míope, que não vê para além das sombras e fantasias do mundo moderno.

E sem sermos necessariamente integralistas, deixemos que Plínio Salgado conclua este artigo:

Em vos falando da verdade, pergunto-vos: existe uma verdade da "direita" e outra da "esquerda"? Onde está a verdade? Como atingirmos a verdade?

Respondo-vos, dizendo que não existe uma verdade da "direita" ou da "esquerda, porque no sistema do mundo, na essência do cosmos, não existe nem "esquerda" e nem "direita", e sim condições de movimentos e processos de expressão de forças eternas, de um modo imutável.

A verdade está no Absoluto das coisas. [6]

NOTAS

[1] Entender: intendere, tender em/para, tensionar para, jogar-se em, ligar-se com, conectar-se; também no sentido de saber ou conhecer a razão de algo, compreender o outro. Entender: estar com o outro (e só por isso entender, saber, conhecer, este outro). Do mesmo modo, conhecer: o homem conhece a mulher, ou seja, o homem se conecta com a essência dela, ou seja, sabe sua beleza, ou seja, vê a si mesmo nesta beleza. Na Bíblia, conhecer significa: união, unidade, casamento: Noé conheceu sua mulher, e ela gerou filhos tais e tais. Logo, não pode haver conhecimento nem entendimento em um modo objetivante de ver as coisas (através da Weltanschauung iluminista), que separa sujeito (cognoscente) e objeto (conhecido). ἐντελέχεια ([ἐν] τέλος ἔχειν): no fim, para o fim, uno no Absoluto.

[2] Tema presente em várias obras do autor e filósofo russo: se Deus não existe, tudo é permitido. Atenção especial para Братья Карамазовы (Os Irmãos Karamázov) e Бобок (Bobok).

[3] Daí o iluminismo, a "luz" do homem, contra Deus.

[4] Ler Sein und Zeit, Heidegger, M.

[5] É com a fenomenologia, especialmente em Heidegger, que muitas das ideias e conceitos vazios e confusos da tradição voltam a se encontrar em um debate todo novo, orientado e dirigido a Platão. Se esse projeto dará frutos significativos, ainda não se pode dizer.

[6] aquartahumanidade.blogspot.com.br "Verdades da "direita" e da "esquerda" (1933)"

Publicado originalmente aqui

Um comentário:

  1. Bravo! Gostei do texto. Apesar de discordar de alguns pontos, como considerar bandeiras símbolos sagrados. O respeito é necessário, mas não deve ir além disso.

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