domingo, 12 de julho de 2015

Gwendolyn Taunton - Excelência Socrática & O Princípio Aristocrático

por Gwendolyn Taunton



Se a hybris causa a queda de heróis, então é pela areté que eles se erguem. O conceito de areté é crucial para compreender as ideias de Sócrates e Platão, e através delas, o princípio aristocrático. Na obra de Sócrates e Platão areté é uma parte universal, mas inessencial da natureza humana, e as pessoas diferem no grau de areté que possuem. Areté - o princípio aristocrático - em sua escrita passa por uma transição específica, assumindo um aspecto etéreo e se tornando uma virtude. Isso torna a tarefa de dar uma definição ainda mais difícil. O que exatamente é virtude? Pode a virtude ser ensinada, ou ela é parte da composição psicológica de um indivíduo e portanto um traço genético inato? Nem Sócrates, nem Platão tiveram que contemplar a perspectiva de virtude e qualidades morais geneticamente transmitidas como hoje com nossos avanços em ciências biológicas. Nem tiveram eles que responder sobre se a personalidade é produto da natureza ou da criação. Eles só podiam trabalhar com a lógica para procurar por uma resposta, e nenhum dos dois acreditava que a areté (enquanto virtude) pudesse ser ensinada. A virtude é explicada como,

"[...] o que torna alguém membro da comunidade. Todos tem alguma virtude, e ele a adquire pela educação que começa na infância e continua ao longo da vida. Perguntar quem são os professores é como perguntar quem o ensinou a falar em sua língua nativa".

Isso implica que a virtude é uma perícia social inata similar ao uso da communitas por Victor Turner. É um tipo de inteligência social derivada de laços sociais naturalmente existentes. Isso, porém, é uma teoria mais complexa. Ainda que a virtude seja aprendida, parece que a capacidade para ela é inata, e que a capacidade para a virtude de um indivíduo difere proporcionalmente em relação aos outros. Sócrates parece ser da opinião de que a virtude não poderia ser ensinada para além de sua capacidade natural e diz isso a Protágoras. Porém, quando Meno pergunta a Sócrates como a virtude é adquirida, se por instrução ou de alguma outra maneira, Sócrates responde que ele não pode responder, porque ele ainda não sabe o que ela é, dizendo que "O fato é que longe de saber se ela pode ser ensinada, eu não tenho ideia do que é a própria virtude". Conquanto a virtude seja uma característica, ela é obtusamente resistente a uma definição, residindo em um platô abstrato singular, mesmo para Sócrates. Protágoras aponta que mesmo grandes estadistas são às vezes incapazes de transmitir sua virtude a seus filhos, de modo que fica decidido que a virtude não pode ser completamente hereditária. A virtude, portanto, começa a tomar uma existência metafísica, com Sócrates concluindo que ela deve ser algum tipo de intuição ou um tipo de sabedoria, dizendo que ela simplesmente vem ao homem "por inspiração divina sem que se tome consciência". Sócrates, então, diz ainda mais:

"Se então a virtude é um atributo do espírito, e um que não pode deixar de ser benéfico, ele deve ser a sabedoria; pois todas as qualidades espirituais por si mesmas não são nem vantajosas, nem danosas, senão por sua presença junto à sabedoria ou à tolice. Se aceitarmos este argumento, então a virtude, para que seja algo vantajoso, deve ser um tipo de sabedoria".

Segundo Sócrates, areté é tanto uma virtude como uma forma de sabedoria. Pode-se, portanto, concluir que a forma de aristocracia que ele defendia se baseava na excelência em sabedoria e virtude, com a moralidade exemplar funcionando como a evidência observável do direito de governar. A aristocracia socrática é, assim, "política ética". A ideia apresentada é a de que a ciência política democrática pressupõe que não há qualificações formais para o governo. Para todas as outras ocupações se é treinado para conseguir o emprego - mas para o governo não há treinamento ou legitimação certificada - Sócrates conclui, assim, que subconscientemente é pensado que as habilidades necessárias para a política não podem ser formalmente ensinadas, como ele delineia abaixo.

"Agora quando nos encontramos na Assembléia, então se o estado se depara com algum projeto de construção, eu observo que os arquitetos são convocados e consultados sobre as estruturas propostas, e quando é uma questão de construção de navios, os construtores navais, e daí em diante com tudo que a Assembléia considera como tema de aprendizado e ensinamento. Se qualquer outra pessoa tentar dar conselho, que eles não considerem um especialista, não importa quão bela ou rica ou nobre ela possa ser, não faz diferença: os membros o rejeitam barulhentamente e com desprezo, ainda que ele seja ou silenciado e desista, ou arrastado para fora ou arremessado pela polícia por ordem dos magistrados. [...] Mas quando é algo relacionado com o país que está a ser debatido, o homem que se levanta para aconselhar pode ser um construtor ou igualmente bem um ferreiro ou sapateiro, comerciante ou dono de navio, pobre ou rico, de boa família ou sem. Ninguém levanta contra qualquer um desses, contra aqueles que eu acabei de mencionar, que eis um homem sem qualificações técnicas, incapaz de apontar a quem seja como seu professor, e que ainda assim está tentando dar conselhos. A razão deve ser que eles não consideram que este seja um tema que possa ser ensinado".

Portanto a conclusão final de Sócrates é a de que os tipos de conhecimento especializado que não podem ser ensinados são a sabedoria e a virtude, e que estas são as duas qualidades mais importantes para um líder em potencial. O líder ideal, assim, é aquele que é perito em ambas: um filósofo. Sócrates ofereceu um terceiro caminho entre a política aristocrática e a democrática como sua audiência ateniense as entendiam. Essencialmente, essa é a dimensão prática dos filósofos-reis de Platão, ou o que Michael S. Kochin chamou de "política acadêmica". Segundo essa perspectiva, a política é um jogo de bajulação e propaganda, "não uma atividade adequada para pessoas 'belas', refinadas, ou para homens de verdade". Deve-se também entender que filosofia nesse contexto se relacionada a um grupo altamente educado, os maiores intelectuais de Atenas. O reino dos "filósofos-reis" não implica necessariamente na filosofia como a entendemos hoje, mas em todas as disciplinas acadêmicas - as ciências, bem como as artes e humanidades. Segundo Sócrates, os filósofos (e/ou intelectuais) devem ser compelidos a governar, e sua alternativa à democracia era uma aristocracia baseada na inteligência, na sabedoria e na educação, ao invés de na riqueza ou no direito de nascença. Isso é melhor descrito por Platão com a metáfora do navio:

"Imagine a seguinte situação em uma frota de navios, ou um único navio. O dono possui a vantagem sobre todos os outros a bordo por virtude de sua força, mas ele é um tanto surdo e míope, e seu conhecimento de questões navais é tão limitado quanto. Os marinheiros brigam entre si porque todos pensam poder ser o capitão, apesar do fato de que nenhum deles jamais aprendeu como. Eles estão sempre cercando o dono de perto, implorando para que ele lhes confie o leme. Eles pensam bem de qualquer um que contribua para a tomada de poder demonstrando perícia em conquistar ou subjugar o proprietário, e o descrevem como um marinheiro realizado, um verdadeiro capitão, um perito naval; mas criticam qualquer um que não seja assim como inútil. Eles são totalmente incapazes de compreender que qualquer capitão genuíno tem que estudar o ciclo anual, as estações, os céus, as estrelas e ventos, e tudo que é relevante para o trabalho, se ele quiser estar realmente equipado para ter uma posição de autoridade em um navio. Na verdade, eles consideram ser impossível estudar e adquirir conhecimento sobre como manejar um navio ou ser um bom capitão. Quando isso é o que acontece em navios, você não acha que os marinheiros de tais navios considerariam qualquer verdadeiro capitão como nada mais que um saco de vento com sua cabeça nas nuvens, sem qualquer utilidade para eles?".

Apenas um capitão adequadamente capaz possui habilidade para controlar o navio, mas impulsionado pela crença em igualdade absoluta, o proprietário é desafiado, não por aqueles que podem fazer um trabalho melhor, mas porque cada indivíduo acredita ter direito igual a fazer seu trabalho. A tripulação luta entre si por poder, mas nenhum deles busca adquirir o conhecimento que os tornaria aptos para controlar o navio. O narcisismo sobrepuja a sabedoria, ameaçando não apenas o proprietário, mas toda a tripulação. Desde essa perspectiva, políticos democráticos são representados como um grupo de incompetentes famintos por poder, ávidos por controle a qualquer costo, mas incapazes de preencherem o papel do líder educado e experiente.

Tão dolorosa quanto a ideia possa ser, democracia em excesso abre o caminho para o egoísmo, com todos acreditando serem merecedores de uma quantidade igual de poder simplesmente por virtude de sua existência. Para todas as outras posições importantes há requisitos formais - não para a política. As posições mais importantes no Estado tem a menor quantidade de requisitos formais. Esse é o centro do argumento apresentado contra a democracia - deixando a arena da política aberta para todos e o voto aberto para pessoas que não possuem a informação correta disponível para selecionar o melhor candidato, são apontados políticos que são incompetentes e possivelmente até prejudiciais à pólis. A seguinte regra lógica se aplica: homens medíocres produzem Estados medíocres, homens ruins produzem Estados ruins, mas o líder socrático indicado por sua excelência pessoal produzirá um Estado excelente. O Estado e o governo são o espelho do homem que os lidera.

O ideal é, portanto, uma aristocracia composta por especialistas qualificados e virtuosos e o que é chamado de "aristokratia" por Sócrates é realmente uma meritocracia de mente e espírito. A alternativa de Sócrates à democracia é uma elite inteligente e educada que supera a ideia de "classe" Para Sócrates a busca bem-sucedida de qualquer ocupação demandava o domínio de um conhecimento, perícia ou técnica particular; e isso era acima de tudo verdadeiro no que concerne a direção das questões da cidade, das quais a felicidade dos cidadãos necessariamente dependia. O princípio e raison d'etre de um Estado há de ser buscado não na mediocridade, mas na excelência, e não é por sua média que uma nação é medida mas por seu gênio. Platão também amarra essa ideia com o mito de Hesíodo dos metais para atribuir papeis sociais dentro do Estado. Todos os homens nascem da terra, mas com diferentes misturas de ouro, prata, cobre e ferro. Em uma óbvia analogia a isso, Platão também divide os possíveis sistemas de governo em cinco grupos distintos, "o primeiro é um monarca, tipicamente acompanhado por uma aristocracia, o segundo uma timocracia, ou uma aristocracia do talento, o terceiro uma oligarquia, o quarto uma democracia, e, finalmente, uma tirania". Conforme a qualidade das eras declina, também o faz a qualidade do governo e os méritos individuais dos governantes.

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