terça-feira, 28 de julho de 2015

Álvaro Hauschild - O Homem Médio e o Nada

por Álvaro Hauschild

Pintura de Hieronymus Bosch.

Se existe um mal concentrado, no país e no mundo, que freia o progresso das faculdades humanas e escancara a porta aos infernos múltiplos, doenças que estiolam e abatem o homem contínua e ininterruptamente, no qual podemos descobrir até mesmo um bode expiatório necessário de ser sacrificado, este mal não é este ou aquele partido político, nem esta ou aquela posição social, mas a classe média em si. Compreende-se por classe média não só um grupo de pessoas em uma dada condição social, mas um ideal, uma maneira de pensar, um modo de vida; pois é justamente isto o que está por trás da classe média. Ela, diferentemente do que muitos pensam, não é um grupo de pessoas cuja renda está "acima do pobre e abaixo do rico" (modo economicista típico da classe média de classificar as pessoas) - não, ela é uma ideologia antropológica, um modo especial de pensar o homem e o mundo, e merece ser chamada de "média" tão somente porque não é uma coisa nem outra, assim como não é nem pobre nem rica também não é erudita, nem política, nem religiosa nem humanista. Ela é um termo médio, um nivelamento por baixo feito na humanidade; estamos de acordo com Dugin, a classe média é um zero, e é por isso culpada por refrear o espírito humano em todos os âmbitos e níveis, espirituais, sociológicos, antropológicos, e até mesmo científicos e morais.

O ideal da classe média é o bem-estar, mas não o bem-estar social, nacional, intelectual, é o bem-estar individual. Uma dada teoria concebe o indivíduo, o analisa, decide o que é bom e ruim para ele, e então, considerando (preconceitualmente) a sociedade como um coletivo de indivíduos desordenados, generaliza as conclusões tiradas da análise para toda a humanidade, impondo-as aos homens, comunidades, tradições, religiões, de todo o mundo, arbitrariamente. É por isso que a classe média é apátrida e globalista, e em sua miudez passa a julgar os povos do mundo todo a partir do seu ponto de vista.

Mas o que é o "bem-estar" da classe média? A conservação física do indivíduo e o prazer, a satisfação dos sentidos. Nisso se resume toda a "existência" da classe média: negando a metafísica, ela se torna escrava dessa necessidade ilimitada de satisfação individual, que ela jamais vai ser capaz de compreender e de curar. Por trás desse ideal há o nada metafísico, a renúncia dos caminhos que ultrapassam o sensitivo e o humanamente lógico - aqui, a negação de Deus e a supervalorização do "eu", do ego; até mesmo quando os "conservadores" se dizem protetores da religião, o fazem em vista tão somente de uma ferramenta de controle e manipulação social, um "ideal para as massas", e não em busca de um dogma a ser estudado, especulado e alcançado. Este espírito do homem médio se contrapõe não aos ideais e movimentos (sociais e ideológicos), mas à radicalidade deles: é a raiz, o centro, o ponto supremo, que o homem médio teme acima de tudo, pois é neste centro que seu ego se dissolve e se funde num todo superior e metafísico.

Assim, o homem médio apoia, por exemplo, o culto "religioso" - mas não a ortodoxia, porque aí é exagero. O homem médio apoia a pesquisa científica - mas não a especulação metafísica nem os extravasamentos das ciências naturais. Ele apoia o "exercício físico para a saúde" - mas não os desafios dos esportes mais radicais. Ele apoia as lutinhas de boxe, repletas de regras e intromissões - mas não o duelo. Apoia as forças armadas para "proteger o cidadão" - mas não um Estado guerreiro. Apoia os monumentos "bonitos" - mas não os grandes e sacros, que exigem e despertam um espírito ativo no homem, e assim por diante. Ou seja: o homem só apoia o que lhe traz vantagens certas e sem esforços; mais do que isso: ele oprime brutalmente todo espírito ativo, virtuoso, sedento de verdade e vitória metafísicas, que percorre caminhos suprahumanos e luta batalhas entre deuses e demônios. Assim, esta ausência de apoio para a metafísica, para o duelo, para a guerra, entre outras coisas, não é uma simples indiferença, é uma opressão, uma oposição, ódio virulento,, pois teme acima de tudo o radicalismo das realidades suprafísicas, suprasensitivas e supralógicas. Ou seja: o homem médio quer arrancar prazer em ver dois homens sangrando no "round", mas ataca e demoniza a inocência de um soldado "fanático" que se sacrifica pela pátria; ele quer que a ideia de Deus conforte sua vazia e abismal existência, quer usar este próprio Deus que o criou, e não quer fazer parte d'Ele, não quer se dissolver no seu Bem nem buscam sua Verdade.

O homem médio vai cortando assim todos os "extremos" absolutos - vai cortando as profundas raízes ontológicas da existência humana, e vai se adonando do mundo, moldando a obra de Deus a seu bem prazer, tal qual o Príncipe do Mundo, Lúcifer.

A Religião do Homem Médio

Para começar, o homem médio é irreligioso, ele não participa de religião nenhuma. Ele não tem um espírito especulativo, a sede ontológica que leva ao aperfeiçoamento de si e ao aproximamento a Deus; ele precisa, carente como é com seu ego vazio, de uma fantasia, um ideal, e é por isso que lhe é o bastante o protestantismo, que não passa de uma justificação dos pecados. Pois é disso que o homem médio precisa: de algo que mascare, que crie pomposidades e formas "agradáveis", sentidos falsos para os seus pecados, ele quer acima de tudo que um "Deus" justifique cada um dos seus crimes existenciais. É por isso que os homossexuais e pedófilos se legitimam pelo "amor", por exemplo, o que não passa de pura blasfêmia, não contra Deus inatingível, mas contra a própria existência humana em si, que destrói seus próprios conceitos, pontes do auto-conhecimento e da cura universal.

O mesmo acontece com o catolicismo: passou a amar demasiado a vida, desprezou a morte, e assim isolou o homem da força dos anjos e da origem divina do homem, que está para além da vida, num futuro que é morte. O homem passou a temer a morte, a se isolar dela cada vez mais, a criar artefatos de segurança e preservação da vida - um árduo trabalho completamente inútil, totalmente verborrágico, jogado fora. Paradoxalmente, isso o tornou ainda mais frágil, inseguro, infeliz e, acima de tudo, vazio. Cansado do catolicismo, o homem, desesperado, busca um conforto no Oriente, mas incapaz de compreendê-lo, o distorce e, roubando e se apoderando dos símbolos orientais, cria um novo paraíso terrestre: os movimentos new-age, o psiquismo, que invade o meio intelectual e político. Podemos notar aqui claramente como o homem médio, ocidental e moderno, não está interessado em conhecer, humildemente, um modo diferente de ver o mundo, mas acima de tudo busca fantasiar, distrair-se e legitimar seu próprio modo de ver o mundo - em tudo, em todas as religiões, culturas e tradições, busca um meio de espelhar e refletir seu próprio modo de pensar, que julga ser, evidentemente, universal.

Mas, a despeito do seu instinto de destruição, distorção, camuflagem, perversão das religiões, podemos notar no homem médio um caráter que, tomando uma direção oposta às religiões, ainda assim a elas se assemelha. O homem religioso tem sede ontológica, ele não descansa em vida, é consciente da sua limitação existencial e busca um preenchimento próprio; assim, orienta sua vida a fim de enxergar na natureza, no mundo, símbolos, sinais do caminho metafísico a ser percorrido por sua alma. Ele sacrifica o mundo contingente por um outro, superior e eterno; é todo um modo de pensar que se reorienta, mas que acima de tudo é orientado: o caminho é descoberto, desvelado pelo homem, mas quem fornece o caminho e a força é Deus. Aqui, o homem religioso é um meio para que a força divina percorra seu próprio destino, o homem é a própria consciência divina conhecendo a si mesma, o próprio anseio divino amando, quer dizer, preenchendo, religando-se a si mesmo. Ele é vazio, mas tem sua morada, seu "cheio", seu telos, e é Deus. Já o homem médio, que não é outra coisa que o homem profano, também é existencialmente limitado, e talvez até saiba disso, mas não tem a consciência necessária para o vislumbre intuitivo e real desse vazio, capaz de lhe despertar a sede ontológica e religiosa. Ele se segura num ponto fixo o mais cômodo possível e se nega a olhar mais longe, e este ponto fixo é o mesmo do de Descartes: o "eu", o "ergo sum". Assim, ele se orienta em torno desse "eu", e toda a natureza (a relação homem-mundo ou, o que dá no mesmo, homem-homem) é simbolicamente e fisicamente esquartejada em vista disso; é toda uma existência que se orienta a partir de um dogma cômodo (o "eu"), sobre cuja existência ou modo existencial não se discute. Este, o homem médio, sacrifica a Criação tanto quanto possível por este "eu"; aqui podemos perceber que há um modo de pensar todo sistematizado e fechado, que interpreta a natureza e a existência não humildemente, como quem desvenda verdades, mas a partir de um dogma artificial. E, não obstante, ele continua não sendo o sujeito dos próprios atos, ele se entrega a um impulso que vem desse "eu", mas que não conhece nem deseja conhecer; metafisicamente, a existência antecede o "indivíduo", a pessoa no mundo; a substância e o espírito são dados na constituição do homem como o conhecemos onticamente. Quer dizer que todos os princípios pelos quais o homem age não pertencem a ele; até mesmo o ser, e acima de tudo o ser, não pertence a ele. Ele continua sendo guiado, orientado no mundo, mas por um descaminho: ele se nega a vislumbrar o caminho e ter de percorrê-lo, então é arrastado pelo tempo e subjugado à trágica circularidade que não encontra destino. Quer dizer: ele é guiado por um repuxo para longe de Deus, e sua "liberdade" e "livre-arbítrio" não significa outra coisa que a subjugação a uma lei fechada do sistema ôntico, à lei dos entes que sozinhos são como privações de um todo transcendente. O homem médio é um errante no mundo: embora tenha posses, bens materiais, não consegue jamais se sentir "em casa", e sempre anseia por mais.

É aqui que aparecem as cidades de Deus e do Diabo, as pátrias do homem religioso e do homem médio e profano. São os dois modos polares de existir do homem, um que busca a união e a ligação amorosa, harmonia do mundo, e o outro que divide e mutila, interpreta o "mundo" como um coletivo de "egos" independentes e fechados em si mesmos.

Enquanto o homem religioso é meio para uma força que vê o destino e para ele se dirige, o homem profano (médio) é meio para uma força cega, ou no mínimo míope, que age, atua, mas sem direção - por isso o homem médio é barulhento, volúvel, e tão distraído pela multiplicidade do mundo que não percebe e não conhece seu próprio caráter, suas próprias faltas e, acima de tudo, o quê do qual sofre carência e ausência. O religioso é orientado pelo e para o ser, o profano e médio pelo e para o nada (a confusão ôntica que tem o mais ínfimo de realidade ontológica); não há problema em dizer que o primeiro age por Deus e o segundo pelo Diabo, já que o Diabo, se opondo a Deus, se joga para o nada, sem perceber que ele próprio e este "nada" são ambos uma realidade ínfima pertencente e dependente de Deus. O sujeito do homem religioso é Deus, e o do médio é o Diabo, a mentira, a divisão e a confusão.

A Vida do Homem Médio

A pequeno-burguesia é hoje o tipo mais genuíno de classe média, tendo dinheiro ou não, desde que é sedentária e vive da malandragem de agradar o freguês, alimenta-se rotineiramente com o que há de mais superficial da informação televisionada e dos jornais; julga-se grande ao falar de economia, mas desconhece o básico, e tudo o que fala é puro falatório e algazarra. Embora seja pobre algumas vezes, almeja uma posição destacada (mas sem esforço), vontade que lhe faz copiar os ricos no que eles têm ou aparentam ter de orgulho e amor-próprio; por isso que, embora muitas vezes pobre, a pequeno-burguesia é mais cruel que as outras classes sociais - seu espírito é covarde e sua ambição, enorme, o que lhe dá um instinto de vingança e um impulso para o mais terrível individualismo. Enquanto o rico ainda tem alguma intuição do belo e do sublime, o pequeno-burguês não tem nada disso, para este tudo se reduz à "utilidade", à realidade doméstica, e o valor de uma coisa está em sua "eficiência" e capacidade produtiva, o famigerado "custo/benefício". A pessoa, para o pequeno-burguês, não tem valor algum, a não ser que dê lucro para alguém - se der despesa, então, é um peso do qual deve-se livrar, pois o pequeno-burguês precisa dar um jeito de viajar para a Europa, embriagar-se no final de semana, e andar de carro de luxo, para imitar o rico e manter a "posição social".

A pequeno-burguesia não estuda, a não ser o mínimo para obter algum dinheiro ou destaque social (aí, então, ela se agarra aos estudos com a fome e ambição de ostentar um "destaque", um diploma ou certificado qualquer), porque o negócio dela é o falatório, o entretenimento e a ostentação: gasta todo seu tempo falando dos outros, passeando em shoppings, embriagando-se e fuçando a vida dos outros em vista de "encontrar algum podre" e um alvo; brigas e discussões completamente sem-sentido, inúteis, paradoxalmente, fazem parte da sua vida, como um meio inconsciente de se distrair do tédio existencial que a imbecilidade e o distanciamento com relação a Deus provocaram.

Aquilo que os pobres chamam de "ricos", na verdade, são os pequeno-burgueses, donos de pequenas empresas, que ostentam e por isso aparecem mais que os realmente ricos, estes que estão em geral trancafiados em escritórios ou em viagens a negócios, e muitas vezes se locomovem mais de táxi e choferes em horários de pouca movimentação nas ruas; os ricos dificilmente frequentam shoppings e outros locais públicos, o que não quer dizer que não ambicionam, não ostentam e não sejam crueis também. A diferença é o objeto de ambição e o meio social; o rico necessariamente se envolve mais com a política, financia projetos "públicos" e age unicamente em vista do sucesso dos seus negócios, manipulando os pequeno-burgueses como ratos em gaiola - aqui não deixa de estar também a "alma" da classe média, cujos anseios são meramente econômicos e individualistas. Acontece, no entanto, de o rico frequentar ambientes mais silenciosos e solitários (viagens, salas de espera, escritório, etc.), nos quais é possível surgir interesses mais profundos por leituras, artes e até filosofia e religião, mas que muito raramente surtem algum efeito em alguém completamente preso a uma máquina financeira internacional com a qual ele próprio colabora.

No fundo, todo interesse "clássico" do homem médio, seja rico ou pobre, pertencendo à pequeno burguesia ou não, na verdade não passa de afetação sentimental e imagem falsa, máscara. O homem médio quer ser visto como erudito, como um "distinto", por isso estuda alguma coisa básica de francês e lê Voltaire e Kant, na melhor das hipóteses; tudo não passa de um eruditismo típico do individualismo, que não tem interesse algum em avançar nos estudos e na meditação, mas tão somente ostentar e "matar o tempo" com "coisas superiores" - até enjoar de tédio e resolver gastar algum dinheiro em putarias, traições e depravações do tipo.

Essa mentalidade freia a especulação científica do meio acadêmico, desvia o foco político do avanço científico para o "social", desvia o interesse religioso para o entretenimento, e acaba cristalizando um país inteiro, estagnando e fatigando até mesmo os homens mais capazes e talentosos, impedindo-os de avançar nas suas artes e ciências, ou então filosofia e religião. É uma massa inteira engessada que prende e obriga os mais talentosos a abandonarem as disciplinas para se transformarem em escravos em indústrias e comércios da burguesia, profana e individualista.

Embora os ricos parece que estão "à parte", são parte da causa de tudo isto: a pequeno-burguesia é filha dos especuladores financeiros internacionais, do modo de pensar moderno-iluminista-contratualista; a pequeno-burguesia é o que essa gente chamaria de "projeto final" e acabado: uma genuína classe média, urbana, pacífica (covarde), completamente desumanizada e atomizada, como sonharam os ingleses do século XVI e XVII, e o próprio Kant com sua "paz universal". Esses caras só não imaginavam que seria esse mesmo tipo de "homem" que transformaria o próprio homem em mercadoria - o homem deixou de ser o lobo do homem para ser o torturador, o carrasco, num mútuo sado-masoquismo social.

Os partidos neoliberais, muitas vezes auto-proclamados "conservadores", para enganar os bobos, defendem a classe média como um modelo universal de sociedade, em que cada indivíduo tem o "seu espaço", os "seus direitos" e os "seus deveres jurídicos", em um Estado secular e laico (embora possa se auto-proclamar até cristão), desumanizado, mecanizado e altamente burocrático - o Estado, aqui, é uma máquina, e não há pessoa, autoridade alguma, para resolver pessoalmente os problemas populares. As relações humanas são gradualmente cortadas em uma cada vez mais monstruosa formalização da sociedade e da própria vida humana. "Vida humana" passa a significar tão somente o indivíduo, sua "integridade física", como se fosse possível uma existência individual, completamente independente de um todo maior, tanto no contexto social como no religioso e metafísico. As crueldades e os problemas sociais só aumentam e se multiplicam com a classe média: as ambições mesquinhas colocam os indivíduos uns contra os outros, e na maioria dos casos é o melhor dos homens quem se dá mal, pois não gasta tempo o suficiente estudando meios para "enrabar" o outro, sejam estes meios brechas no sistema estatal, alguma astúcia cotidiana ou até mesmo meios legítimos sustentados pelo sistema jurídico, "de direito", que coloca nas mãos de alguns o poder de devastar e controlar terras e matérias-primas, alimentos, enquanto outros ficam sem nada, não tendo o básico e necessário sequer para a existência humana.

O homem médio, sua visão de mundo lhe faz ter na cabeça que um documento feito por mãos humanas lhe dá direito para controlar a natureza e se apoderar dela (ou de parte dela, que seja!) - este é o princípio de todo o mal, e primeiro coloca o homem contra a natureza, depois põe os homens uns contra os outros; e não há ciência maior para revelar um conhecimento metafísico e real disso tudo do que a Bíblia (católica e ortodoxa, não protestante). Apoderando-se de um bem necessário, o burguês pensa ser um absurdo reparti-lo com os outros, pois é "dele", está dentro da lei que outorga a cada um "o que é seu", seja por meio do "trabalho", do uso, da especulação financeira, da herança ou outro meio igualmente ilusório, falso e arbitrário de propriedade. Comunistas, capitalistas, nacionalistas, anarquistas etc., são todos aspectos deste mesmo mal que se acha no direito de conceitualizar, delimitar, esquartejar e repartir a natureza e o próprio homem, caráter típico de tudo o que é moderno e pós-moderno. Contra isto, deve se opor um distributismo que leva em consideração a harmonia do homem com a natureza, o respeito à natureza e ao homem, à vida e alma do mundo, que torna homem e natureza dois polos que colaboram e participam de um bem maior e orgânico - extrair o mínimo necessário e retornar o máximo possível, abandonar a tecnologia e a extração para o entretenimento (o que é uma escravidão inútil da natureza), e devolver a todos os homens o direito de alimento e hospedagem, seja onde for e de quem for, em prol de uma sociedade voltada não para a constante e interminável alimentação dos incuráveis desejos egocêntricos, mas para a realização ontológica do próprio homem. Reproduzindo um belo pensamento do papa Francisco expresso recentemente na Bolívia, temos que dizer que a riqueza de um povo está na sabedoria que os velhos transmitem aos jovens, tradicionalmente de geração em geração - através da arte, dos rituais comunitários e religiosos, mas também através da filosofia popular e da metafísica.

A Formalização e a Destruição dos Ideais Sagrados (Pátria e Família)

Todo conceituar e formular é um delimitar, um determinar arbitrário, que inventa limites falsos para "melhor entender"; por isso os racionalistas (e empiristas também) se desesperam em predicar ou significar de "Deus", de "homem", etc., sem nunca, no entanto, encontrar uma fórmula, um conceito, justo com a realidade. Assim, recorreram à lógica, que segundo eles é imparcial, para definir homem, mundo, vida, etc.; é por isso que, na concepção deles, o homem foi reduzido a uma fórmula universal: o indivíduo. Mas o que é o indivíduo? O equivalente humano (pode-se perceber um moralismo sem sentido aqui, ao beneficiar o homem com um conceito distinto) para o átomo das coisas. Mas com a pós-modernidade, em que tudo o que resta por destruir será destruído, não seria de se admirar se "indivíduo" deixasse de existir, e o homem se igualasse definitivamente a um conjunto qualquer de partículas subatômicas inertes no universo.

As noções de família e pátria datam de milênios atrás, mas, como tudo na vida e no cotidiano do homem, sempre instauradas e legitimadas por alguma religião ou, enfim, por princípios religiosos. Foi na Idade Média, porém, que essas noções ganharam a forma herdada a nós, ocidentais. Ideais cristãos, família e pátria são núcleos, comunidades cujo princípio e fim são o Deus cristão e a religiosidade: a pátria, uma mãe metafísica (o monarca, um pai), a família, um seio, um lar onde o Pai reina dos Céus, mas se mantém presente na vida íntima dos homens. O lar, assim, é uma instituição religiosa, tem um motivo, um fim, que é o aperfeiçoamento religioso, tal como a pátria, que por isso deve ser governada por uma família abençoada (a realeza) e acima de tudo por um monarca, um rei cuja fé e profissão deve ser a Igreja cristã, católica e ortodoxa. O lar, assim, deve acima de tudo orientar os homens à oração, à fé e, portanto, ao retorno luminoso do homem perdido e desorientado pelo pecado rumo ao Deus, que é, na verdade, a pátria e o lar originais de toda a humanidade.

Não foi necessário aos medievais uma exaustiva conceituação da pátria e da família, o princípio religioso era uma meta e a multiplicidade de formas era irrelevante e se compreendia facilmente, intuitivamente, no mais íntimo espírito humano. Mas foi com a dissecação dos pássaros, ou seja, com a vontade profana de alguns intelectuais e políticos (no caso, nobres) de começar a enciclopedizar o mundo e dar "significados fechados e imortais" a tudo, repartindo e separando arbitrariamente o mundo, a natureza e a sociedade (que na religião são um só), que no fim da Idade Média já se separava a religião de toda a vida cotidiana do homem, e com isso arrancava-se todos os princípios que davam a legitimação da própria vida humana como um todo - era a vida humana que deixava de existir e, de acordo com Nietzsche, Deus morria. A partir de então o Ocidente caiu num abismo e continuou a decair cada vez mais ao fundo, e mais rápido, mais estressado e desesperado: as cidades, com a modernidade, se encheram, as atividades econômicas ganharam prioridade e se impuseram no mundo a todo vapor, a velocidade da vida cotidiana aumentou e continua aumentando até hoje; e com tudo isso, todos os ideais cristãos e os princípios da vida humana foram ruindo e desaparecendo. Por sua vez, a atividade intelectual também aumentou (mas se tornou inferior, superficial e doméstica), e passou a refletir o desespero do homem de encontrar um ponto fixo, uma verdade, uma luz no fim do túnel; pois a metafísica foi negada e até proibida, perseguida, filósofos foram mortos e torturados; logo mais se degeneravam os corpos hierárquicos das monarquias, as nobrezas abandonaram seus deveres religiosos, ocupando-se com tão somente a economia, até que isso tudo provocou sua própria queda e desaparecimento do mundo. A pátria foi substituída pela república e pelas liberal democracias, cujas leis desumanizam o homem continuamente.

Hoje, tendo a família sobrevivido por motivos de conveniência política até aqui, no entanto, ela sofre seus últimos golpes e já dá seu último suspiro, cuja alma já desapareceu há décadas. Antes da família sofrer estes ataques derradeiros, porém, ela sofria na boca dos intelectuais a dificuldade e impossibilidade existencial: sem base religiosa, sendo o indivíduo a célula da sociedade, a família perdeu seu sentido; não havia mais uma tradição familiar, e o composto da família se tornou conveniência jurídica para a herança financeira, e só. Mas como algo concreto, a família há muito deixou de existir. Ela foi então objeto de um interminável diálogo, puro falatório confuso, principalmente na política: pretenderam, alguns, entender a família, então começaram a "dissecá-la", ver no que consistia, delimitar, e dar significado a ela; outros fizeram o mesmo ao tentar defendê-la, e outros para destruí-la, arrancando dela o direito de existência num mundo que já não tinha mais espaço para ela, uma convenção tão frágil. De conveniência jurídica, passou a ser um fardo aos indivíduos que se viam presos a um determinado grupo de pessoas; estamos vivendo a época em que estes indivíduos buscam expurgá-la e expulsá-la da realidade humana através do poder do Estado secular e, principalmente, através das mídias, da educação e dos meios produtivos financiados e controlados por especuladores financeiros. Então alardeiam (não sem uma certa razão, pois a família sem a legitimidade e o fim religioso é uma arbitrariedade) "o que é família?", provocam discórdias, expõem o rosto de uma instituição sem sentido. Por que "família" não pode ser assim e assado (ver argumentos homossexuais, bissexuais, trans, etc.)?

Da família só restou o conceito, toda a realidade dela foi esvaziada, e é por isso que só resta agora o conceito desaparecer, e não há mais sequer o que delimitar - seria preciso reinventá-la, oferecer um valor positivo, ou seja, um conceito novo, todo outro, pois este já se desfez totalmente, nadificou-se, e do nada não se pode sequer delimitar ou, então, significar.

Paralelo a isto, os núcleos humanos, as famílias, os lares, no que ainda são formalmente, juridicamente, só funcionam sob as leis da economia: pai e mãe têm a função de sustentar a criança e prepará-la para o mercado de trabalho; esta criança, por sua vez, na melhor das hipóteses, será ou pai ou mãe, reiniciando o ciclo. Ou seja: a religião está expulsa do cotidiano e da realidade humana mais íntima. O homem tem uma função: ser escravo do mercado de trabalho, e é "homem" somente enquanto indivíduo. E não há escapatória: fora deste ciclo o homem só encontrará a fome, o abandono, a prisão e a morte, pois fora deste sistema ele não tem direito algum, em suma, ele é um ninguém, um nada. Já falamos anteriormente sobre o sistema jurídico legitimar o direito de cada um, que dá "a cada um o que é seu" - pois, fora deste sistema, ele não encontrará nada livre, tendo o mundo sido repartido em propriedades individuais. Aqui, o sistema transforma a família em uma tirania do pai e da mãe, que não possuem legitimidade religiosa para se impor, e são tão somente resquícios formais de uma instituição estiolada e ressecada, degenerada e perversa. Acabando por se tornar um fardo para o homem, será destruída completamente e apagada da memória das classes populares e médias.

Mas não devemos chorar a queda destes ideais apodrecidos. A família, como a pátria, há muito morreram, no início do século XX. Hoje é só o fardo jurídico que está sendo apagado, a sombra. E essa sombra de fato deve ruir, é bom que caia. A família como uma instituição jurídica não deve existir - a única família legítima é a instituída pela religião, cujo lar é a intimidade com Deus, com o belo e sagrado.

Aqui podemos notar a tirania do Estado secular e da "família" jurídica que freiam os homens talentosos e inteligentes, capazes de se elevar a um fim maior, como uma pesquisa científica, metafísica, belas artes, etc. A função econômica imbeciliza o homem, funda o "homem médio", e este, não sendo capaz de enxergar além das sombras, se esforça em impedir e coibir, com seu poder, uma vontade que escapa dos seus limites medíocres, curtos. Então o talentoso é visto como um extremista, um fanático, um "irracional", e é cruel e implacavelmente punido por isso, por conta de um sistema embrutecido e suíno, letárgico, burro, lento, intelectualmente fraco, como todo homem médio, preocupado tão somente com seu dinheiro e seu entretenimento individual, sempre pervertido. A economia, pois, serve melhor ao homem perverso, egoísta, preocupado somente com seus ganhos e vantagens, sua "satisfação pessoal", e é cruel com todo aquele que se sobressai por natureza e por espírito; os maus se juntam para aniquilar os talentosos, caso não puderem dominá-los e dar um jeito de lucrar com eles, pois temem acima de tudo serem superados em suas vantagens; temem perdê-las para outros, que na verdade nem as desejam para si e até mesmo as desprezam.

Não há, portanto, apenas um acidente social, um mero problema social, há sobretudo um problema religioso, metafísico, cujas consequências interferem nas maiores profundezas do caráter e do espírito humano; é isto, por sua vez, que em uma escala social leva aos problemas que conhecemos muito bem, e que se multiplicam quanto mais tentamos resolvê-los apenas superficialmente (pois ao resolvermos assim, conceituamos e delimitamos apenas juridicamente, e a delimitação é paralela ao dualismo, à pluralização). O que há é uma diversificada, porém interligada como uma rede, tendência ao niilismo absoluto, ao nada, em praticamente todo o Ocidente, moderno, irreligioso, laico, racional e sentimental (não espiritual) - é uma tendência que tem o princípio da falsidade (o ψευδής grego) absoluta (pois o nada niilista é falso, e a evidência é a própria existência, o pensamento humano e o mundo), um princípio que orienta uma rede global e universal, como uma aranha perversa que sozinha controla e remenda continuamente sua teia.

Este princípio não é um só partido político, nem um só tirano, não podemos alcançá-lo com a mão - mas podemos presenciá-lo metafisicamente, encontrar certos centros de atuação, e notar que as pessoas obedecem, tal como outras obedecem a Deus e inevitavelmente seguem tendências semelhantes sem jamais terem dialogado e entrado em consenso comportamental. Não está errado, e não é loucura dizer que o sujeito da ação niilista é o Satã, enquanto as pessoas tendenciosas ao niilismo são suas escravas (são meios) sem o saber, inconscientemente. Pois, no fundo, o nada não é, não tem realidade, e só pode "existir" e "atuar" como uma ilusão, uma imagem (emprestada do ser, inevitavelmente) que não representa coisa alguma. E que exemplo para ilustrar esse fenômeno podemos tomar de melhor além da noção de indivíduo? Pois ele não existe, não tem realidade ontológica, no entanto, os auto-proclamados "racionais" nela se apegam com uma força descomunal e totalmente sem sentido. Crente de se livrar da metafísica, ao negá-la, o homem médio, niilista, só faz com que se afunde ainda mais inconsciente em leis metafísicas que não compreende - "liberta-se" de Deus, e se entrega ao Satanás que, por sua vez, também é criação d'Ele e às suas leis obedece, queira ele ou não.

Pátria e família, instaurados no ser rumo à transcendência, através da religião, são derrubadas em um ataque do nada, e o homem médio é o "projeto final" dessa massa corporal nadificada a qual ainda chamam de "homem" - o homem médio é um nada, um zero, assim é toda a classe média, apolítica, apátrida, laica e sobretudo desumanizada.

Publicado originalmente aqui

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