sexta-feira, 26 de junho de 2015

Jean Carvalho - O Modelo Geopolítico Norte-Americano

por Jean Carvalho



Compreender a geopolítica norte-americana torna-se fator essencial para realizar análises mais coesas e realistas sobre a atual conjuntura política e econômica do mundo. Os Estados Unidos da América formaram-se como nação autônoma, em grande parte, graças ao apoio logístico e militar dos franceses. O sentimento nacionalista americano esteve presente antes da própria independência da nação, consumada em 1776, e foi causa – não consequência – desse ato. Inicialmente, voltaram-se para as questões internas e adotaram um processo de fortalecimento econômico e expansão territorial. 

Essa política semi-isolacionista não permaneceu por muito tempo. A partir do século XIX, os norte-americanos adotaram a política do Manifest Destiny (Destino Manifesto) e realizaram a expansão para o meio-Oeste, aniquilando a maior parte da população indígena ali presente. Essa política genocida foi essencial para o estabelecimento das conexões logísticas entre o vasto território norte-americano, interligando o Pacífico ao Atlântico e permitindo a mobilidade necessária para a industrialização do país que, similar à modernização nipônica, manifestou-se de forma praticamente autônoma em relação aos países europeus.

Inicialmente, o nacionalismo norte-americano adotou um aspecto semi-isolacionista. Apenas parcialmente, já que, mesmo durante o período no qual os EUA preocuparam-se majoritariamente com suas questões internas, sempre revelaram os desejos e aspirações de níveis globais. Os norte-americanos sempre aspiraram posições elevadas, mesmo quando seus meios não lhes permitiam concretizá-las. A construção destes meios representou uma consequência, e não a causa da realização de parte destas aspirações.

Este aspecto semi-isolacionista foi similar ao processo nipônico de consolidação geopolítica. Entretanto, a diferença principal reside no fato de que o Japão iniciou seu expansionismo global apenas na primeira metade do século XX, quando o “Banzai!” começou a ser ouvido em praticamente toda a Extrema Ásia e Oceania. Tendo em mente o fato de que a expansão geopolítica norte-americana foi assegurada pelo dinamismo econômico e poderio bélico, com apoio do revestimento moralista, analisaremos agora de modo pragmático estes três itens primordiais.

O dinamismo econômico norte-americano foi causa e também consequência do poder bélico. A estrutura militar dos Estados Unidos é herdeira do poderio naval britânico e das táticas de infantaria de guerrilha francesas. Desde cedo, os Estados Unidos trataram de constituir um poder nestas duas frentes: terra e mar. Essa dualidade encontra-se bem explícita naquilo que Karl Haushofer tratou como oposição entre povos da terra e povos do mar. Os EUA encaixaram-se, inicialmente, nas duas categorias: uma forte tradição moralista e arraigada, patriótica e nacionalista com viés religioso, telúrica, e um expansionismo comercial, marítimo e militar, altamente dissolvido, marítimo. 

Conforme os Estados Unidos se firmaram como nação global, deslocaram-se mais da concepção de povo da terra para a categoria de povo do mar. Ainda há traços do primeiro elemento, mas o segundo é atualmente predominante. Essa estrutura econômica faz-se presente através do processo de globalização, que deve ser considerado como americanização do mundo. O uso comum do dólar como base para as trocas entre os países é a marca mais evidente dessa estrutura econômica. A vastidão dos efeitos das crises econômicas mostram o poder de influência econômica norte-americana e, ao mesmo tempo, sua fragilidade estrutural.

Os americanos aprenderam com seus antigos senhores, os britânicos, que o poderio naval é determinante para a consolidação política e econômica e a dominação mundial. Deles, tomaram as noções de expansionismo marítimo e de dispersionismo militar. Essa expansão pelas águas deu-se, sobretudo, através do Atlântico, e por isso consideramos os EUA como nação atlantista, ou seja, nação que estende sua influência por meio do Atlântico. 

A expansão marítima é apoiada pela instalação de bases fixas terrestres. Ao todo, 865 bases militares norte-americanas encontram-se atualmente instaladas em 46 países, por todos os continentes do globo. Entretanto, o raio de alcance operacional destas bases ultrapassa os territórios destas 46 nações. O Brasil é uma destas nações cuja presença militar norte-americana é efetivada. Este fator é consequência direta da política de aproximação de Franklin Delano Roosevelt com Vargas, durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Inclusive, o Brasil adota o maior alinhamento com a política norte-americana como meio de atingir suas aspirações, mas essa doutrina acabou por estrangular esses potenciais, ao invés de concretizá-los.

Os Man of War britânicos deram lugar aos porta-aviões norte-americanos. Se os ingleses construíram um império ultramarino, os estadunidenses edificaram uma república internacional ultramarina. A ONU pode ser considerada como uma extensão política norte-americana. A base geopolítica dos Estados Unidos é essencialmente militar e agressiva. Não assume um mero aspecto auxiliar ou interventor, mas sim intrometido e determinista. Apoiam golpes e grupos pré-existentes, mas também criam seus próprios golpes e grupos através de suas agências oficiais e extra-oficiais.

Esta ação militar, essencialmente agressiva, conta com uma superestrutura de inteligência. A espionagem internacional é ferramenta basilar. Especialmente através da CIA, os EUA conseguem obter informações confidenciais das mais diversas nações do mundo, não apenas terceiro-mundistas, mas até mesmo das próprias potências globais rivais. O único serviço secreto que mostrou-se capaz de rivalizar com essa instituição foi a antiga KGB. A violação da soberania dos países não é apenas física e territorial, mas também no âmbito das informações e dados. Esta última modalidade de intromissão, inclusive, é mais danosa do que a primeira, pois permite a antecipação e flexibilidade das ações políticas.

Em resumo, a dominação econômica estadunidense é favorecida pela presença dispersionista de seu poder bélico, e a múltipla presença militar é, de igual modo, possibilitada pela estrutura econômica internacional. Poder militar significa poder econômico, e poder financeiro significa sustentação desse poderio agressivo. Desde 2001, especialmente pela estratégia geopolítica delineada por George W. Bush, os EUA assumiram um papel não somente interventor e reativo, mas especialmente preventivo. Isso significa que a intromissão internacional passou a ser feita antes mesmo da existência comprovada de prerrogativas, mas sempre que se identificasse a mera possibilidade desses elementos. O maior exemplo de ação preventiva é a invasão do Iraque em 2003, com uma simples alegação (e não com embasamento em ações comprovadas) de que o país árabe possuía armas de destruição em massa. A existência ou a inexistência destas armas jamais foi completamente assegurada, entretanto, é plenamente possível concluir que o Iraque não representava uma ameaça internacional naquela ocasião, tendo previamente desfeito de vários de seus arsenais quase uma década antes da invasão americana.

A política de paz não é prioridade americana. Longe de adotar as ações militares como último recurso, os norte-americanos geralmente fazem uso desse elemento como recurso inicial, estabelecendo conversações diplomáticas depois das ações bélicas. Durante o período da Guerra Fria, a quase totalidade das iniciativas de paz e propostas de desarmamento mútuo vieram da União Soviética. Nota-se, inclusive, que as políticas de desarmamento norte-americanas são focadas na diminuição de poder militar das outras nações, unilateralmente, enquanto reforçam seu próprio poder de persuasão. Os americanos impõe, arbitrariamente, o controle e a fiscalização dos projetos nucleares das outras nações, enquanto ainda detêm o maior arsenal nuclear do mundo e apoiam, por exemplo, os arsenais europeus e israelenses. 

O internacionalismo político norte-americano significa agressão militar. Para exemplificar essa sentença, identifica-se que de 1798 a 2015 (um período de aproximadamente 169 anos), 295 ações militares foram perpetradas contra outras nações. Entre 1890 e 2012, os Estados Unidos invadiram 149 nações, patrocinando golpes de Estado, milícias rebeldes, ditaduras fantoches e ações de terrorismo. Nenhuma destas nações tornou-se um país essencialmente democrático, tampouco nenhuma melhora referente aos famigerados direitos humanos foi notada. A falsa Democracia norte-americana implica, internacionalmente, em ascensão do totalitarismo e dos regimes de déspotas.

O alinhamento das nações com os EUA não acontece de modo espontâneo. Sempre há uma intimidação, uma intervenção, um processo de determinismo unilateral, uma ação artificial. Os países historicamente alinhados com os EUA, como o Brasil, foram espectadores de processos alheios norte-americanos.  ‘Grande República’ aceita regimes anti democráticos, como o dos sauditas, fornecedores de petróleo. 

Essa política internacional não representa o pensamento popular deste país, mas sim as ambições de uma elite político-financeira que age numa sinarquia. Historicamente, o povo norte-americano tem se posicionado contra essa condução da política externa. Se colocaram contra a participação do país na Primeira e também na Segunda Guerras Mundiais. Agiram ativamente em oposição à Guerra da Coreia e a Guerra do Vietnã. Também foram majoritariamente contra a ação norte-americana no Iraque. Quando manifestam apoio às ações militares de seu país, agem notoriamente por conta da desinformação de seus canais e do próprio governo, nunca de modo espontâneo. O espírito supremacistas não é parte da visão que abrange a maioria dos cidadãos. Mesmo os mais belicistas hoje mudam suas opiniões, percebendo que a intromissão norte-americana em assuntos externos significa a deterioração de seu quadro interno. 

Os americanos agora retornam ao pensamento do século XVIII: enfoque nas questões domésticas e isolacionismo, diminuição das ações militares e do apoio de grupos extremistas ou “aliados”. Sentem os efeitos dessa expansão ilimitada e já não desejam a continuidade desse modelo geopolítico. Não aspiram a redução da relevância geoestratégica de sua nação, mas sim a mudança como isso é realizado. A República Universal estadunidense, agora, padece do mesmo mal que acometera o Império Britânico: crise interna que impede a concretização de planos externos. A falta de compreensão do governo norte-americano em relação ao novo pensamento de seu povo e a política de ignorar suas revindicações para uma mudança na postura política evidencia a maior contradição dessa nação: emissária da “Democracia para todas as nações”, não atende seu próprio povo. A esfera de influência americana tem se reduzido gradativamente, mas ainda permanece como potência global. A rivalidade com nações em franco crescimento, em especial Rússia e China, obrigará os EUA a adotarem um novo modelo estratégico e uma nova forma de dialogar com o mundo e com o próprio ambiente interno.

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