quinta-feira, 25 de junho de 2015

Boris Nad - América Mítica

por Boris Nad



Eventos históricos não podemos explicar apenas pelas intenções conscientes de seus protagonistas. Tampouco somente com suas características e traços pessoais, ainda que, é claro, a estrutura psicológicas de atores históricos importantes e sua disposição ideológica ou filosófica não seja insignificante. À parte fatores puramente quantitativos e quantificáveis (econômicos, sociais, etc.), os eventos da história sempre foram influenciados por modos muito mais sutis e delicados de realidade, que não são menos reais qualitativamente, apesar de estarem fora da observação física (tudo isso, aliás, se aplica plenamente às muitas outras esferas de atividade humana, mais ordinárias que a esfera política). Não foi apenas uma vez que alguma ideia "abstrata", um conceito ou um mito selaram o destino de nações ou civilizações inteiras (como os incas, que nos conquistadores espanhóis "reconheciam" deuses brancos). E a ideologia política, acima de tudo, pertence a uma realidade bastante distinta, majoritariamente independente de qualquer indivíduo (de fato, a ideologia é não raro capaz de subjugar plenamente a pessoa, "absorver" qualquer indivíduo concreto).

Em um nível ainda mais profundo, a realidade política está profundamente enraizada (perpetuada) no inconsciente, afundada em arquétipos esquecidos e reprimidos. Porém, a ativação desses arquétipos - usualmente de forma abrupta e inesperada - pode provocar intrusões ígneas imprevistas às profundidades da energia oculta do inconsciente coletivo, tanto por indivíduos como por nações inteiras, especialmente se esses arquétipos forem mais esquivos à consciência. Um exemplo de uma intrusão súbita do tipo nos é dada pela Alemanha à época do Nacional-Socialismo. A pesquisa individual no campo da "metafísica da história", sugere que nessa ocasião deu-se um despertar do arquétipo de Wotan, o antigo deus pagão dos germânicos e que isso se deu através da personalidade do líder alemão (é claro, de uma forma distorcida, patológica, como resultado de uma supressão excessiva e superficial).

Nós podemos concluir, porém, que é por isso que cada análise política relevante não pode estar limitada estritamente a considerações racionais e empíricas. Ao contrário: ela deve buscar incluir o fenômeno político em sua totalidade, sempre tomando em considerações fatores espirituais, religiosos, filosóficos e fatores da psicologia profunda e da geografia simbólica.

Segredo do Prestígio Americano

A América hoje é um fator geopolítico superior. Ela é um modelo que hoje, intencionalmente ou não, conforma qualquer sociedade moderna, tornando-se mais e mais o paradigma da própria modernidade. Esse é o segredo do prestígio americano. Mas por trás da ilusão da sociedade ultramoderna e ultrarracional, centrada exclusivamente no pragmatismo puro, no qual tudo está subordinado ao "business" e à economia, também pode ser visto o contorno de um continente quase mítico. Sua imagem quase tem força magnética e poucas pessoas podem permanecer indiferentes, causando ressentimento em um momento e desejo de imitação no outro, nos círculos diabólicos de americanismo e anti-americanismo. Esse paradoxo simplesmente não é racionalmente explicável.

O Mito da América

O mito da América ou a "América mítica" realmente existe. Em um nível muito básico, esse é um fato disponível para qualquer habitante do planeta, e isso se dá na forma de um sentimento ainda nebuloso, confuso. Mas, em uma base casuística isso se torna mais concreto e óbvio: em seus símbolos e "ícones", nas telas do cinema, nas figuras das paisagens urbanas e nos enormes espaços vazios do "Novo Mundo". A consciência disso encontra sua expressão nos "mitos" e na ideologia estranha desse país. Como notamos algures, nós já discutimos a identificação da América pós-apocalítica com a "Nova Jerusalém", a "Nova Terra" do Apocalipse, que encontra sua fundação nas formas extremas de religião protestante (puritana). Nesse capítulo, nós novamente nos voltaremos para a equação menos explícita, mas não menos importante, que versa: a América é equivalente à mítica Atlântida. A esse complexo inconsciente, que desperta em outras nações, a América deve uma considerável parcela de seu prestígio e glamour atuais.

América ou Atlântida?

Ligar as Américas a uma Atlântida perdida é natural e até inevitável - e se dá no inconsciente, e na consciência ao mesmo tempo, mesmo entre americanos e entre o povo que foi sujeito à nova colonização do Ocidente. Isso é finalmente confirmado pela facilidade com a qual se enraízam profundamente novos termos, que, de outro modo, não fariam o menor sentido, como "comunidade atlante" - um sinônimo para a "Euroamérica", "integração euro-atlante", ou tão somente o nome da aliança militar do norte do Atlântico. Ademais, o "atlantismo" é um termo universalmente aceito para todas as doutrinas geopolíticas que seguem os EUA contemporâneos, outrora parte do Império Britânico. Ainda, o "atlantismo" é uma marca da mentalidade "imperial", psico-ideologia de potências talassocráticas, mercantilistas e coloniais que, desde tempos antigos, estão ligadas ao Oceano Atlântico. Do Atlântico à Atlântida, porém, a nível simbólico, é só um único passo porque na área norte do Oceano está exatamente a Atlântida mítica.

A identificação simbólica é indubitável, mas a América não é a antiga Atlântida (paleocontinente ocidental), mas sim o continente que, mesmo na era proto-histórica, estava a seu oeste. Tampouco são os americanos atuais o fabuloso povo atlante, mencionado por Platão. A descrição que nos dá o filósofo grego é perfeitamente clara: ele fala no "continente oposto às ilhas cercadas pelo mar", essa terra só se pode reconhecer como o continente americano atual, localizado a oeste das ilhas atlantes.

O Mito de Atlântida

Vamos lembrá-los, nos termos mais básicos, do mito de Atlântida, a qual estava localizada em tempos proto-históricos, segundo a lenda, em algum lugar no Atlântico Norte, a oeste dos pilares de Hércules, hoje o Estreito de Gibraltar. Falando grosseiramente, Atlântida afundou há uns dez mil anos, em um tipo de catástrofe geológica que recaiu sobre a humanidade de então. Um dos testemunhos mais importantes que nos foram deixados, foi por Platão, em seus "Timaeus" e "Critias", onde Platão reporta o que seu professor Sócrates aprendeu do sábio grego Sólon e que este teria ouvido de um sacerdote egípcio.

Resumindo o relato de Platão, podemos ressaltar o seguinte: a Atlântida mítica era efetivamente portadora de uma civilização espiritual superior. Eles foram navegadores chegados das ilhas ocidentais, na qual viviam em prosperidade sem paralelo, também foram os primeiros colonizadores europeus. A catástrofe que recaiu sobre eles - devido à "ira de Deus" - em verdade foi resultado de uma catástrofe espiritual: "O deus dos deuses, Zeus (...)," diz laconicamente Platão, "decide puni-los..."

Como a literatura tardia dedicada à Atlântida hoje inclui dezenas de milhares de bibliografias, mencionaremos a já clássica obra de Otto Muck (Otto Muck, O Segredo de Atlântida), que obteve para esse mito certos argumentos científicos. O autor, na verdade (e não sozinho), identifica o mitológico povo atlante com o homem de Cro-Magnon, portador da agricultura e da navegação, cuja colonização também ocorre na direção noroeste-sudeste.

A obra de Platão é a mais antiga e completa sobre a civilização perdida. Além disso, o relato de Platão, um tanto quanto pequeno em escopo, é rico em detalhes meticulosos e muitas vezes incrivelmente precisos sobre a vida dos atlantes, em relação ao que todos os relatos tardios possuem apenas importância secundária (muitas vezes, se reduzem a meras repetições do que já ouviram de Platão ou simplesmente derivam da imaginação fértil do autor).

América - Portadora do Bem-Estar Atlante

Mas aqui estamos pouco interessados na verdade literal do mito atlante (em geral, os mitos são ambíguos e podem ser interpretados, decifrados com várias chaves, desde cima, relacionada à realidade espiritual, ou do nível mais baixo "naturalista"). Aqui, estamos primariamente interessados na verdade ao nível do inconsciente coletivo e seus arquétipos. Em geral, parece que este mito está profundamente enraizado na estrutura do inconsciente de muitas nações. Sobre isso, afinal, fala claramente o fato de que o mito de Atlântida emerge de novo e de novo, mesmo quando parece ter sido completamente esquecido, tal como sua popularidade (na medida em que, em certos períodos históricos tais como as últimas décadas, é bem possível falar em uma verdadeira "atlantomania").

Os paralelos entre América e Atlântida se impõem por conta própria. A América porta o bem-estar atlante, que enfatiza o mito descrito por Platão (na tradição se indica que a palavra está ligada primariamente a bem-estar espiritual). A América é também portadora de uma civilização "superior", os americanos são também marinheiros e colonizadores da Europa, chegados das "ilhas" do Poente, e daí em diante.

Em toda a América, portanto, efetivamente ergueu-se um mundo há muito morto, perdido sob as ondas do oceano, evocando o tema apocalíptico da "ressurreição dos mortos". Há também o simbolismo da água (mares, oceanos) em seu aspecto negativo, como símbolo da morte, do caos, do não-ser. (Em uma nota positiva seria: regeneração, "purificação dos pecados"). Isso, afinal, está bem de acordo com o simbolismo do Oeste que, em muitas e várias tradições não é apenas uma "face anatemizada do mundo", mas também "a terra dos mortos", "o reino das sombras", para onde vão as almas após a morte.

Porém, a América é uma corporificação falsa e paródica do mito atlante, no qual valores espirituais superiores são sistematicamente reinterpretados e substituídos pelo inferior, material: o bem-estar celestial de Atlântida, autêntica era de ouro é substituído pela riqueza material da América, assim como a pretensa superioridade em relação ao "resto do mundo" se manifesta em benefícios consumistas e na civilização tecnológica. Assim, os colonizadores da Atlântida que portavam a luz de uma civilização espiritual, são transformados em colonizadores-captores, enviados de uma civilização extremamente materialista, que se apresentam sob os sinais grotescos do Mickey Mouse, da Coca-Cola e do McDonald's.

Da Escatologia à Utopia

Nova Jerusalém e Nova Atlântida - em ambos os casos são arquétipos do Éden, do paraíso celestial. Mas isso só pode se dar após o fim do mundo. O Paraíso, a Nova Idade de Ouro se situa no outro lado da história e pertence ao início de um novo ciclo do tempo, ou, na escatologia cristã, à era após a Segunda Vinda de Cristo.

Elas são também, em um período tardio da Europa, temas favoritos para projeções utópicas, espaços imaginários, é claro, como no caso da "Nova Atlântida" de Francis Bacon, em contraste à América que se torna aquilo (Nova Jerusalém) de uma maneira bastante concreta, logo após sua descoberta. A América, assim, foi muito rapidamente moldada para a realização de uma utopia. A escatologia foi reduzida a uma medida modesta de utopia, como resultado da secularização (na verdade, paródia), de uma ideia, em sua base, bastante religiosa.

Até então, a primeira tentativa de estabelecer uma utopia em solo americano ("Cidade de Deus" na Terra) foi posta em prática por seus "pais fundadores" puritanos e maçons. Em solo americano emergiram as primeiras colônias comunistas, tal como, por exemplo, Ikaria, construída em 1848 em Missouri. Assim, desde os primeiros tempos de sua história, se diz que "a história da América é realmente a história de um sonho utópico" (D. Kalajic, "Mapa da Anti-Utopia"). A utopia é, porém, uma paródia da escatologia, que ocorre sempre que o "outro mundo" se torna "este mundo".

América, "Nova Terra" do Apocalipse

A falsa Atlântida e a falsa Jerusalém estão conectadas de uma maneira particularmente "feliz" na superstição sincrética americana, a Nova Era pseudo-religiosa, cujos messias e profetas proclamam a seguinte mensagem: a Nova Era, a Idade de Ouro, a Era de Aquário já se iniciou. Em solo americano, é claro. A América não só salvou o mundo de sua história e da desesperança histórica (à qual os americanos não atribuem nenhum valor), pondo um fim à história, porque a América está em posse do seu significado - a América, tal como acreditavam os "pais fundadores", é a "nova terra" da Revelação de São João Teólogo. E, tal como cristãos participam no mistério do sacrifício de Cristo partilhando da comunhão com pão e vinho, a participação nos mistérios da América se dá bebendo Coca-Cola e comendo no McDonald's.

É interessante, porém, que essa ideia foi pronunciada por Cristóvão Colombo, a primeira figura realmente mítica do "Novo Mundo", seu descobridor lendário: "Deus tornou-me arauto de um novo céu e uma nova terra, das quais fala-se no Apocalipse de São João (...) Ele me mostrou onde encontrá-las".

América - O Reino do Anticristo

Regredindo à mentalidade do Velho Testamento (os americanos, como os antigos israelenses, são o "povo eleito", e nas mentes dos primeiros colonos, fugitivos da Europa - "Egito", a América era sua "Terra Prometida", sua "Nova Canaã"), então transpondo a mentalidade religiosa em termos mundanos, e com a tradução do espaço escatológico em espaço utópico - a América não renunciou a suas pretensões messiânicas. Na verdade, parece que as ambições messiânicas dessa alegre "ilha da Utopia" crescem em proporção direta com a secularização e descristianização do "Novo Mundo", alcançando já proporções grotescas.

Por um lado, o processo de secularização e descristianização na América, parece, é mais veloz e mais radical do que em qualquer outra parte do mundo, e por outro, o fato de que a América ainda é um espaço utópico, talvez hoje mais do que nunca, levando a um resultado paradoxal. O longo curso de muitas utopias culmina com a "Nova Ordem Mundial" (que, pela boca de Fukuyama também remete ao "fim da história") - "ordem" que é, em muitos sentidos, não apenas radicalmente anticristã, mas antitradicional em geral. Ela dá razão àqueles que reconhecem na América hoje o "reino do Anticristo", ou pelo menos a criação que é, entre todas as conhecidas da história humana, a mais próxima. Esse motivo, que cada vez mais se ganha espaço nas mentes de não-americanos e também na América cristã - e que irá, em nossa opinião, aumentar rapidamente em importância no futuro próximo - também encerra essa breve excursão através dos espaços míticos da América "supramundana".

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