terça-feira, 30 de junho de 2015

Álvaro Hauschild - Patriotismo versus Economicismo

por Álvaro Hauschild



Dentro de um modelo capitalista e em prol dele, a educação das crianças se baseia nesta máxima: cada um cuida e usufrui do que é seu. Em um modelo materialmente socialista cabe uma máxima não tão diferente: cada um cuida e usufrui da parte que lhe é dada. Em ambos, como se vê, temos um fundamento e princípio economicista, a partir do que todas as atividades e modos de vida das pessoas se dão. Este princípio economicista regula todas as teorias e modos de pensar e de viver: tudo que o contradiz é condenado pelos governantes e intelectuais e ignorado pelo povo, muitas vezes às algazarras.

É desde o economicismo que alcançamos, tanto no capitalismo como no socialismo (que curioso!), a ideia equivocada de "indivíduo"; pois é ele a célula da sociedade, são suas inclinações, seus desejos e ambições materialistas que dão lógica e motor à sociedade como um todo. A lei é usufruir, usar e abusar daquilo que lhe cabe do modo que lhe convir, com único fim de satisfazer seus desejos mais imediatos. É aí que surge o egoísmo, a competição dos prazeres, o desrespeito e a falta de consideração para com o outro - e com isso tudo que não for da esfera individual é rechaçado, tudo que não for materialmente (ou psicologicamente, o que dá no mesmo) útil, esta palavrinha mágica, tudo o que não for útil é excluído, perde seu valor existencial. Assim, a esfera pública (e a natureza), não servindo de nada para a satisfação imediata do indivíduo, deixa de existir para o povo: aparecendo como um "espaço extra", serve para lá se jogar tudo o que na propriedade individual causa desconforto; então o lixo é jogado das janelas das casas e dos carros nas ruas, monumentos servem para o divertimento de pixadores, e aparece o fenômeno da feificação da sociedade.

Essa feificação, porém, toma proporções quiméricas, e acaba por dominar todos os setores da sociedade, ou seja, acaba por dominar todos os ambientes onde o indivíduo vive. A vida individual se torna um inferno e, sem se dar conta do motivo, covarde do jeito que é, desconta sua raiva justamente na esfera pública: música alta, xingamentos, brigas e empurrões em filas e transporte público, e assim por diante. O indivíduo sabe que não será penalizado gravemente porque não extrapolou a propriedade de alguém - e a propriedade é um mantra do economicismo.

No economicismo, a regra, como dissemos já, é o indivíduo usufruir do que lhe cabe, satisfazer os desejos imediatos. Desse modo, a natureza, o mundo, com sua riqueza de florestas e rios, fauna e flora em geral, tudo isso deixa de ser algo vivo, digno de valor, para se transformar em ferramentas dos desejos individuais. Mais do que isso: o próprio homem, cuja existência é conjunta com a da natureza, se maquiniza, e sua saúde e seus pensamentos passam a obedecer unicamente os desejos; os livros são lidos unicamente para entreter, as ciências naturais perdem sua posição para as engenharias, a metafísica para a ética, o aprendizado para a recreação. Tudo isso força, na esfera pública, uma necessidade de satisfação material, dos sentidos, que bloqueia e expulsa a naturalidade da vida humana; e ao distanciar o homem da natureza, não está a utilizando para fins realmente satisfatórios, quando estes fins significam as satisfações dos desejos sensoriais, mas, pelo contrário, isola o próprio homem na sua imperfeita e incompleta individualidade. Esse modo de ver o mundo e o homem feifica a existência, tira dela todo o valor que contém em si, e acaba gerando, apesar do seu objetivo, justamente o oposto do que deseja: a insatisfação geral.

Então o homem é visto como mau, a sociedade como má, o mundo como um erro, a existência como um castigo, o que gera no povo a reivindicação para reformas: leis em cima de leis são feitas, é dado ainda mais poder e "liberdade" ao indivíduo, o que acaba sempre piorando e agravando ainda mais a situação. Em meio a isso, ideologismos cada vez mais bizarros aparecem, os modos artificiais e antinaturais de vida se proliferam: o homossexualismo, o feminismo, o protestantismo, o ateísmo; junto com isso se dividem em cismas o próprio capitalismo e o socialismo, em múltiplas opiniões sem fundamento, que gritam no escuro em busca de salvação geral. Conforme as coisas pioram, o sistema político vai se tornando cada vez mais complexo e, portanto, burocrático - assim como teme a realidade nua e crua da condição física e espiritual do homem, o povo teme a "invasão" da individualidade, obrigando o sistema político se tornar complicado o bastante para que não hajam "tiranos"; assim, o sistema político acaba agravando e perpetuando a situação economicista, impedindo qualquer um de meios para mudá-la.

Esta complexidade do sistema político torna o comércio (jurídico) mais lento e despersonalizado, pois o Estado se tornou uma máquina. Aqui também se pode falar de uma feificação política; a sociedade, como um todo, perdeu seu sentido intrínseco, e os indivíduos começam a buscar a solidão, como modo de afrontar e até mesmo injuriar "os outros" (a sociedade, morta). Para abarcar os infinitos desejos individuais, a sociedade se pluraliza, mas ao mesmo tempo tira a dignidade das pessoas, e cada homem se torna "apenas mais um"; seus ideais, suas verdades recebem um valor meramente subjetivo: "cada um com as suas ideias" - não existe mais o certo e o errado, e com isto toda a sociedade é nivelada por baixo; nada tem dignidade, nada tem valor. Hoje se percebe isso, mas não se conhece sua raiz, e o homem, tal qual na complexificação do Estado, só trabalha para o agravamento da situação: com a psicologia, ciência barata, tenta descobrir meios para distrair ainda mais o homem de sua insignificância; então surgem as aulas de informática para os idosos, a arquitetura colorida e infantil dos espaços adultos, as ridículas premiações, as festas de formatura, as excessivas homenagens, tudo para criar artificialmente uma satisfação que, no íntimo, não existe e é impossível de ser realizada. Eis que a vida, para ser suportável, teve que virar um teatro infantil, numa alegria sem-sentido que ultrapassa os limites do absurdo.

Não há nada de mais vergonhoso para alguém que está sendo homenageado, enquanto indivíduo, perceber que é tudo falso; e nada mais desesperador do que ver que todos aplaudem com falsidade, com teatrinho. Pois está todo mundo cegado pela exigência de satisfação individual, uma necessidade imposta e sem sentido algum. Todos aplaudem pensando fazer uma esmola que, em outro momento, esperam receber de volta, como cabe à ridícula e absurda conveniência.

O homem feifica o mundo, arranca de si todo o valor existencial, e então se desespera por alguma salvação rápida e gratuita através dos sentidos (o que é evidentemente impossível).

Pintura de Vasco Machado.

Pelo contrário, é a porta da saída do economicismo a única capaz de representar a salvação, não apenas psicológica e física, mas também espiritual (do homem e do mundo). O homem deve ter o tempo de aprender o valor intrínseco de si, do mundo e, principalmente, da relação orgânica e do propósito existencial que há entre ele e o mundo. Homem e mundo são um só, ambos devem cooperar; no entanto, a natureza, sempre passiva, está sempre aberta à cooperação, é o homem que, em seu crime, sua vontade de satisfazer seu ego, escraviza e, com isso, condena a si mesmo. O mesmo se dá com a sociedade: na medida em que for escravizada pelos desejos tirânicos dos indivíduos (e "minorias"), destrói a vida de todos e anula a existência. E percebamos aqui que a sociedade de massa, o coletivismo, é apenas outro aspecto do individualismo: ambos evidenciam a anulação da vida humana, da pessoa humana. Um coletivo não é outra coisa que um conjunto de átomos (indivíduos).

No contexto social, é o patriotismo que salva: o amor à terra, aos compatriotas, faz o homem descobrir a relação viva que tem com o mundo e com os homens; ali ele descobre o fundamento existencial e percorre o caminho que cabe à alma humana. A aproximação com a natureza o faz descobrir a vida dessa relação homem-mundo - então surge o respeito e o cuidado pela natureza, a contemplação e o carinho pela fauna e flora, a preservação das florestas, dos rios, aquíferos e bacias, o conhecimento simbólico das montanhas, grutas e cavernas; e tudo isto dá sentido ao homem, preenche também, e eleva, os prazeres dos sentidos. O amor conjugal (união metafísica entre o polo masculino, ativo, retilíneo e agudo, e o feminino, passivo, curvilíneo e esférico) é natural e real, supera as conveniências e o objetivo individual; as águas não são poluídas, as feras não são vingativas, e a simplicidade mostra-se superior às ambições individuais, que requerem tecnologia e produção em massa, escravidão da natureza e do homem.

A esfera pública sente a bondade humana, não impede um chefe e um líder de braço forte, mas até o prefere, como a um pai que não apenas controla, mas ensina, guia. O espaço público, sendo fundamento da ordem e da felicidade geral, é embelezado e preservado: a pessoa tem interesse e colabora para a limpeza das ruas, para a construção de monumentos, para salvar a vida dos compatriotas e auxiliá-los em momentos de dificuldade. O voluntarismo é maior - todos sabem que sua felicidade defende do cuidado e do respeito por tudo aquilo que envolve a vida humana e do que ela depende, e não da extração e escravidão de tudo isso com fins individuais.

Mas isso tudo não pode ser imposto, e um povo individualizado, massificado, com um sistema político complexo e altamente burocrático, não pode ser convencido da noite para o dia. É sobretudo na educação das crianças que está o mais importante. Uma educação não economicista, que prepara para o mercado de trabalho, mas patriota, que busca realmente ensinar: contato e respeito com a natureza, valorização do espaço público, da história do povo, dos heróis. As sutilezas da alma humana vão sendo, aos poucos, descobertas pelas próprias crianças no contato com estas realidades. E este é o real significado de liberdade, permite o homem ser o que é - algo tão simples linguisticamente falando, mas tão incompreendido para a maioria dos "indivíduos" nos tempos atuais!

Os prazeres, como o de viver em espaços limpos e belos, o de ter uma vida conjugal firme e certa, ter um trabalho digno, digna distribuição dos bens, respeito entre pessoas, entre muitos outros, são consequência, isso tudo vem "de presente", e justamente por não ser buscado imediatamente e por si - é um povo sábio, conhecedor da sua história e da sua terra, inteirado em si, enraizado, que é satisfeito e respeitoso. E assim como a natureza dá tudo a quem não quer arrancar nada dela, nem se impor sobre ela, a alma humana se satisfaz quando não tem por fim roubar do mundo para satisfazer prazeres próprios. A relação homem-mundo é de colaboração e equilíbrio. Quando um é submetido perde-se a ordem. O mesmo acontece na relação homem-pátria: a mãe-pátria aqui representa a mãe-natureza, da qual todos somos filhos, e todos somos cuidados e amados unicamente enquanto filhos dela e irmãos uns dos outros.

Pintura de Vasco Machado.

A Distorção

Ao contrário do que se pensa, o patriotismo não propõe a construção de um paraíso terrestre. Sua proposta não é satisfazer o ego, mas ensinar e fazer o homem adentrar as profundezas da alma humana, permitir a intuição de sua missão existencial. Portanto, não pode existir um patriotismo laico - este laicismo é característico dos nacionalismos, essencialmente estatistas, civilistas, cuja superficialidade confunde a agudeza do espírito, espiritualmente violenta, com a brutalidade das ditaduras e do dogma nacional.

Não, o patriotismo é uma abertura do ser na vivência do espírito, uma porta que se abre ás especulações metafísicas direcionadas ao alto. Não é o dogma do Estado e do civilismo, a doutrina, característico do patriotismo do qual estamos falando. O câmbio de símbolos é permitido nas especulações, a multiplicação dos modos de descrever - o patriotismo não é um sistema (jurídico, filosófico, político, doutrinário ou civil), mas uma direção da visão humana para o centro da alma humana, das paixões humanas, da condição metafísica do homem e, assim, para o centro do seu motivo existencial. Com o patriotismo o homem se enraíza, com o fim de percorrer as profundezas e não a amplitude superficial do seu mundo, superfície na qual, embora os objetos sejam plurais, são essencialmente os mesmos; o patriotismo, voltado à contemplação e à vida religiosa, embora rodeia objetos sempre semelhantes, descobre sempre um passo além, uma visão mais profunda e mais completa, que ultrapassa o efêmero e alcança mundos nunca sequer imaginados por aqueles desenraizados voltados à superficialidade e multiplicidade opaca das coisas do mundo, cujo interesse busca tão somente a satisfação imediata dos sentidos, satisfação para sempre incompleta e imperfeita.

Sendo assim, o patriotismo é uma abertura à religiosidade, um modo particular de participar na religião (re-ligare, re-ligar); pois o patriotismo é uma tradição, um fenômeno da intuição religiosa do homem, uma linguagem comum que traduz (traditio) o indescritível das especulações metafísicas, e é, portanto, o único modo de governo capaz de salvar a alma humana, tanto psicológica quanto espiritualmente. O patriotismo é um modo de pensar, e não um sistema político, por isso independe das variáveis de um sistema; no entanto, o sistema político, este sim, depende, para o sucesso e eficácia do seu fim, do patriotismo, e deve ser direcionado pelas exigências dele. Por isso, todo Estado-nacional patriota vai incorporando de pouco em pouco reformas internas e, a longo prazo, se dirige para a monarquia e pra uma hierarquia final, baseada na preservação de uma sabedoria espiritual que, partindo dos santos sacerdotes, vai banhando de cima para baixo todo o corpo místico da alma humana, até tomar vida e realidade no modo de vida do simples camponês e agricultor, que é completamente envolvido pela relação homem-mundo, por este equilíbrio que evidentemente supera o período efêmero e incompleto entre o nascimento e a morte dos entes particulares (inclusive de uma vida humana).

O patriotismo, portanto, não oferece uma salvação imediata, que é preocupação constante do economicismo; o patriotismo sabe da falsidade desta oferta. A sabedoria popular pode provar: o que vem de graça, dentro de um contexto de interesses, esconde um preço impagável, e esconde também a vulgaridade e a falta de valor naquilo que é oferecido. O economicismo, pois, é trocar gato por lebre, comprar o lobo em pele de ovelha. O patriotismo, pelo contrário, oferece um caminho comum a ser percorrido por cada um, na cooperação mútua e desinteressada, em direção ao auto-conhecimento. Querem dar educação a todos, instruir a todos? Pois esta ciência é o patriotismo, ciência que dispensa o dogma das ciências naturais, sempre imperfeito e necessitado de revisão; o camponês, que acorda de manhã com o canto do galo e com o sinal da autora, que alimenta os animais e ara a terra, observa os ventos, as estações, a posição das estrelas, este é mais sábio e verdadeiramente filósofo do que toda a algazarra somada dos acadêmicos em conjunto. Ao conhecer o comportamento da natureza, seus ciclos, as relações dos fenômenos entre si, o que exige muita contemplação e um olhar continuamente agudo, o homem conhece a si mesmo, nota sua participação, seu encaixe harmônico em todo este mundo (universo), e a condição dessa harmonia de pertencer a uma lei divina, indescritível e, portanto, fugaz para a razão descritiva do homem - pois o modo do conhecer deste camponês patriota, não se baseando na descrição e na conceitualização, fundamenta-se por uma intuição da alma que apreende as leis da metafísica pura.

Não é aqui, portanto, a "metafísica pura" de Kant que, embora engenhosa, é absurdamente defeituosa, que se baseia num conceitualismo dogmático inconcebível para o pensador sério. É a metafísica independente de sistematização, e para a qual o sistema não é senão uma desnecessária limitação de sentido. É uma metafísica revelada aos santos, não científica, não matemática, não materialista, e, na medida do possível, orientada pelos mesmos no corpo hierárquico e "político", como meio de abrir a passagem a todo corpo para que, pela vontade mais própria, este mesmo corpo, como um ato de liberdade, caminhe, percorra o caminho da existência e da sabedoria.

Não se trata, portanto, de um "remediar no infinito", de um medicar as necessidades mimadas dos desejos humanos, mas de buscar a cura radical da alma humana, buscar o absoluto, a completude, a totalidade. O fim do patriotismo é totalmente outro do que as ideologias modernas ocidentais: a estas, a escravidão do homem pela satisfação mesquinha do indivíduo; ao primeiro, o acatamento da missão mais própria do homem.

O Conhecimento

Tudo no patriotismo é oposto ao moderno (e pós-moderno). Não são apenas os conceitos e a organização material de um governo o diferencial. Há, pelo contrário, na divergência entre o pensamento moderno e o patriota (tradicional), uma radical divergência na concepção de mundo, de homem, e de tudo o mais, seguindo-se disso.

Para o moderno, o homem é um átomo social, composto de braços, pernas, cabeça e tronco e órgãos internos, que, por sua vez, são compostos por moléculas, células, tecidos, elementos químicos e assim por diante; em resumo: o homem é uma máquina, um acidente da natureza como qualquer outro objeto do mundo. Quanto a ele ter livre-arbítrio ou não, os modernos ainda discutem, num falatório sem fim e descontrolado. Como já citamos, num contexto global, o homem é considerado um indivíduo, um átomo, por isso a modernidade, cada vez mais compulsoriamente cismática, dissolve-se constantemente em múltiplas ideologias e sistemas filosóficos, tais como o liberalismo, o socialismo materialista, o nacionalismo, dentro dos quais e entre os quais há ainda muitas ideologias menores. De qualquer modo, este trio representa três aspectos de um mesmo problema; em todos os três, o homem é considerado um átomo e uma máquina cujos fins individuais são o prazer e a satisfação e os fins públicos, a obrigação, o dever de "respeito" e de uma artificial convivência despropositada. Todos os três são aspectos da oposição secular feita contra a hierarquia medieval, oposição que nega a religião, a metafísica, a missão espiritual e existencial do homem, em prol dos desejos de uma burguesia degenerada e mesquinha - em todos os três, o sujeito social é o burguês, o homem urbano, enjaulado no progressismo econômico e tecnológico.

Sob este modo materialista e imediatista de ver o mundo, a concepção de conhecimento mudou: antes, na era dos gregos, o conhecimento era identificado com o ser, conhecer era o modo de existir - a direção metafísica e espiritual é evidente. Na Idade Média não mudou radicalmente: uma ideia, portanto um conhecimento, só o era pois era um conhecimento em Deus; assim, uma descrição, um texto, um escrito que não expressava adequadamente um conhecimento metafísico, simplesmente não era conhecimento, mas palavra sem ordem. Mas agora, com a modernidade, todo este sentido metafísico foi combatido: para o moderno, conhecer é ou empírico ou meramente lógico (matemático, mecânico, silogístico, proposicional etc.). Os problemas decorrentes disto são evidentes: até hoje não se chegou a consenso algum sobre o que é então conhecer, qual o papel dos sentidos nisso, e o que é a "consciência" que pensa e conhece; as ciências naturais, por sua vez, não encontram o "átomo primeiro" (o atual boson de Higgs), o único capaz de servir como objeto do conhecimento empírico, nem a filosofia, nem a psicologia, conseguem delimitar, sistematizar, localizar e por fim compreender o fenômeno da mente humana e do pensar.

Pois o problema está nsa sua raiz, na própria concepção de conhecimento. Os modernos, fatigados, ofuscados por tanta artificialidade teórica, que joga o homem numa dúvida abismal, no nada (nota para Descartes, que explicitou o fenômeno da dúvida e a mecanização do homem), já não são capazes de ouvir a própria intuição interna e mais pura, que as crianças a têm em tão mais pureza do que os adultos. Ao invés de se colocarem diante da natureza e receberem o conhecimento da forma mais direta possível, se entulham de fórmulas e conceitos e sistemas cada vez mais confusos e cada vez mais obsoletos; este "conhecimento", quer dizer, vem sempre de segunda ordem, sempre retraduzido por algum filósofo ou cientista - e de tradução em tradução, sempre se perde o essencial, quando se trata de "conhecimento" descritivo. Eis que o homem moderno, ao invés de progredir, só decai e se degenera.

Pois o homem patriota é diferente, completamente diferente. Para ele, o homem, para começar, não é uma máquina pensante, é uma manifestação de um princípio metafísico. Seu corpo, como um todo, expressa uma vontade espiritual, que é vida pura, e isto inclui carne e mente. E ainda há um princípio vital transcendente, sua alma em conexão com o princípio do ser, do qual o mundo como um todo, a existência de todos os entes, se origina. Deus fez o homem e o mundo, um para o outro, como um só - a distinção entre sujeito e objeto é moderna, não cabe na metafísica. Se há a beleza no mundo, esta sutileza sublime e indescritível, intocável com o corpo, mas essencial e presente, fundante em toda a realidade,, o patriota a toma como uma evidência desta relação homem-mundo e da sustentação deste conjunto por um princípio superior. O moderno, por sua vez, só porque não consegue tocar a beleza com a mão e não poder delimitá-la, sequestrá-la e esquartejá-la numa tese científica de doutorado, se envaidece orgulhoso e alardeia a inexistência da beleza, ou então utiliza a palavra "beleza" para significar outra coisa, outro conceito artificial e palpável, rebaixado ao nível superficial do seu olhar.

O moderno tem ódio ao conhecimento natural e intuitivo da alma humana, única forma de conhecimento real. Mas o patriota e o tradicionalista não, e para eles não pode haver conhecimento sem amor: amor ao homem, ao mundo, à harmonia dos fenômenos da natureza. Porque aquele que realmente sabe do que é feito, da sua origem, e da origem de todas as coisas, da harmonia universal, da obra de Deus, aquele que conhece esta realidade ontológica do todo não tem como não amar esta totalidade, representação da perfeição divina. Não é possível notar o belo e achá-lo feio, por exemplo, e aqueles que alardeiam o contrário estão mentindo, e sabem que mentem, e ainda assim mantêm o orgulho.

Se há algo a ensinar às crianças, não é a "preparação para o mercado de trabalho", não é o saber se portar na mesa, o moralismo barato, nem mesmo as ciências naturais nuas e cruas, através de conceitos e fórmulas prontas, retiradas unicamente dos livros. Pelo contrário, é a existência de um propósito existencial, através da arte, da história do próprio povo, dos heróis do povo, da fauna e da flora, das riquezas naturais, presentes de Deus - todo o resto, todo o esforço pelo bem-estar social, pelas ciências e até mesmo pela tecnologia, pela preservação ambiental, tudo isso é mera consequência do modo patriota de pensar, e não é necessário ser ensinado, imposto, em uma educação formal. A energia gasta em pesquisas que visam à saúde pública podem ser reduzidas a pouca coisa, pois isto também é totalmente secundário para a saúde tanto fisiológica como psicológica das pessoas de um povo.

Batalha do Avaí, de Pedro Américo

O Sagrado

É por tudo isso (e muito mais) que faz-se necessária a ideia do sagrado, da sacralidade. Não voltado para o indivíduo, nem tão somente para o mundo, o sagrado evidencia a relação homem-mundo. Mais do que isso: traz à luz a síntese dessa relação por um princípio superior e transcendente. É do sagrado que vem o respeito, e não de um moralismo barato, baseado no sentimentalismo ou na "razão" de alguém. O sagrado é a mostra da realidade (metafísica e ontológica), e nesta mostra o homem vive na presencização de si mesmo - esta mostra, pois, é a própria vivência do sagrado. O sagrado não se mostra se não for enquanto vivência. Pois o homem é, é em participação no ser, e o sagrado é a consciência, o conhecimento experiencial disso.

Na necessidade de não confundir beleza com o atrativo da concupiscência e o amor com o sentimentalismo egoísta, o sagrado é a prova. Com ele também se difere a contemplação silenciosa da preguiça e o êxtase das paixões meramente sexuais e românticas. Pois o sagrado é a mostra da verdade, fria e independente das proposições descritivas - em suma, incondicionada. O sagrado não pode ser tocado, como a beleza também não, mas também não pode ser apontado como se aponta as coisas belas; no entanto, é, e se manifesta com uma música, com a arquitetura de um alto monumento, com o brado de heróis em batalha, com uma pintura, com uma filosofia e uma literatura. Sobretudo, manifesta-se num templo religioso (dentro do cristianismo, estão excluídos os "templos" protestantes e até os católicos romanos mais modernos), durante a liturgia, ou durante a oração pessoal e silenciosa, dirigida ao alto.

Mas o sagrado também se manifesta com a inocência, tanto das crianças como dos adultos, o que só pode acontecer em quem não reina o objetivo individual de se satisfazer e de escravizar o mundo em vista deste fim. Em Dom Quixote temos a personificação da inocência na literatura - suas loucuras são pura dádiva, puro amor à verdade mais reta e incondicionada, amor que lhe faz sacrificar tudo.

A modernidade condenou o sagrado, ele está preso tão somente nos templos, na arqueologia e em algumas artes. O Estado-nacional, burguês e secularizado, extirpou-o do seu espaço, e nas ruas, na constituição do Estado, nos prédios, casas, comércio, trabalho, enfim, nas relações humanas e do homem com o mundo, no que depende do Estado e da "iniciativa privada", reina o utilitarismo, o interesse pessoal, o lucro, o dinheiro, a carreira profissional, os prazeres imediatos dos sentidos, em total contraposição ao sagrado. Vivemos num mundo (o moderno, ou pós-moderno, como preferir) que vive tão somente para atacar e combater o sagrado em uma guerra sem quarteis, por pura birra e mesquinharia.

O sagrado não pode ser descrito, analisado, por isso também o odeiam grande parte dos intelectuais e dos políticos (nem se fala então dos empresários e carreiristas!), e por isso também não se pode impor às crianças em uma educação formal. A educação das crianças deve ser tal que o sagrado fique implícito, a ser contemplado e descoberto por si, tal como um menino que silenciosamente contempla e admira, como a um pai e um professor distante mas sempre presente, um dos maiores heróis da pátria. Deve também ficar implícito na simbologia reservada à condição do camponês e agricultor: o arar a terra, por exemplo, é o que presenciza o homem e o mundo no ser primordial - o ato do homem nos cuidados da terra expressa a eterna ligação do homem com o mundo sob a bondade e lei de um Deus. Para o camponês, no entanto, deve valer a cosmologia revelada aos santos sacerdotes, capaz de guiar o intelecto imperfeito do homem dentro da obscuridade dos conceitos comuns.

Fica claro, assim, a importância que as artes têm, sobretudo as artes sacras, mas deve ficar claro, também, a necessidade dos mitos patrióticos, a necessidade de transformar os ambientes humanos, atualmente profanos, pelo menos no Ocidente, em espaços sagrados, preenchidos com os mitos patrióticos, refazendo a arquitetura das cidades e reformando a hierarquia estatal, em todos os setores do Estado. O espaço público não deve ser um "espaço de ninguém", mas, pelo extremo oposto: deve ser um espaço de todos, e isto significa que deve ser valorizado, deve ter o papel de elevar a situação geral, de educar, inconscientemente, através do belo e do sagrado, do envolvimento metafísico do homem, o que é muito diferente de ficar argumentando e tentando convencer as pessoas que "se deve respeitar o espaço público" e outros falatórios moralistas do tipo.

Tudo quanto expomos aqui serve para pôr luz e afirmar de uma vez por todas que não há sociedade nem conhecimento sem patriotismo, nem patriotismo sem a inocente especulação metafísica e a religião.

Publicado original aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.