sexta-feira, 1 de maio de 2015

Caimmy de Sá - Contro Orbis Hodierni

por Caimmy de Sá



Os aristocratas e filósofos helênicos como Platão e Sócrates atribuíam a quem defendia o fim da escravidão ou a democracia o nome de sofista ou demagogo. As razões são simples: o fim da escravidão por si só oferece mais liberdade aos “libertos”? Deixariam por isso tais pessoas de dependerem dos mais ricos apenas por deixarem de se denominar assim? Ou pelo contrário, não acabariam se tornando mais reféns ainda de seus empregadores ao terem de competir e diminuir o preço de seu serviço à medida em que oferecem-no?

A efetivação da democracia por si só ofereceria mais poder ao povo por simplesmente garantir a estes o direito de decidir entre o pior e menos pior? Ou a contrario sensu, não acabaria tal regime deixando o próprio povo cativo por parte de demagogos ou de uma elite plutocrática que pode simplesmente subornar os legisladores e representantes escolhidos?

Por tais questões e pelas mais fundamentais exigências lógicas o aristocrata helênico não se deixou tomar por utopias. Por isso Platão, Xenofonte, Tirteu, Aristóteles e muitos outros atenienses e gregos viram na Excelsa Lacedemônia o modelo mais próximo do ideal de Estado. Licurgo moldou o ordenamento jurídico da Egrégia Esparta com mãos de ferro, criando dentro da tradição do povo dórico o ambiente, o treinamento e a educação que renderá á Hélada grandes heróis além de um povo disciplinado e virtuoso, uma cultura que efetivamente sobrepõe o bem coletivo e o bem da nação sobre o interesses individuais mesquinhos, evitando-se assim a corrupção e o hedonismo. Sendo a piedade helênica escassa de um Valhalla nórdico ou de um paraíso privilegiado aos guerreiros (sendo igualitário e democrático apenas o

domínio de Hades), tal lacuna é locupletada pela imortalização do guerreiro na sociedade. Id est, os esparciatas ansiavam por tombar em combate tendo por objetivo eternizarem-se na memória de seus descendentes e tornando-se assim diferentes de todos os outros homens, provando que são filhos de Héracles. Não à toa Leônidas e seus trezentos homens são lembrados e louvados até hoje.

Toda a tradição aristocrática e a ética que provinha de Aristóteles, Platão e Sócrates foi sendo derrubada com o escoar do tempo. Aristóteles continuou reinando como Doutor absoluto até a Idade Média e a Escolástica Tomista com o Doutor Angélico Santo Tomás de Aquino. A Europa ainda mantinha um norte metafísico e teológico com a Cristandade Medieval, não havendo massa proletária, dispondo os servos das terras abertas dos mosteiros além da fidelidade dos senhores de não expulsarem-nos além da obrigação de protegê-los de invasões, fora isso havendo também nesta era domínio econômico-financeiro das corporações de ofício e proibição da usura com as mais altas penas da época, garantindo-se assim o completo predomínio do trabalho sobre o capital, além de um sistema financeiro limpo do domínio dos banqueiros, hoje em dia seres onipotentes. Da Grécia e Roma Antigas até a Europa Medieval vemos uma continuidade referente ao modelo econômico, intelectual, político, social e econômico das sociedades, havendo ruptura apenas do fim da Idade Média até a Era Contemporânea, id est, Modernidade e Pós-Modernidade. Depois de Duns Scottus, no campo intelectual europeu decaiu-se em um relativismo primeiramente gnosiológico, depois teológico, metafísico e ético que veio a ser efetivo com a Reforma Protestante. Com a ascensão das repúblicas neerlandesas e da Inglaterra protestantes veio o domínio judaico das finanças através da usura e dos bancos, tornando-se hoje onipotentes financeiramente.

Com a Revolução (Anti)-Francesa veio o domínio da maçonaria (Corpo Místico de Satã) e do liberalismo no campo político além do fim das Corporações de Ofício e início das formações de massas proletárias.

Como disse Heidegger, o homem foi se esquecendo do Ser e passou a refletir apenas sobre questões imanentes, prendendo-se ao technos. Ao tipo de ser humano que ambiciona nada mais que viver uma vida pequeno-burguesa e apenas saciar seus apetites mais presos ao mundo sensível sem nada mais querer, nada seria melhor do que viver em um regime político vazio de ética que vá além da simples expansão econômica da classe média. Se tal regime é vazio de ética, tal também se encontra escasso de metafísica e ontologia, uma sociedade que caminha ao niilismo ou já imersa em tal abismo.

Ontologicamente o liberalismo é o mais vazio dos buracos ideológicos modernos. Enquanto que o socialismo tem seu ethos baseado na identidade do trabalhador e almeja vencer a burguesia, e à medida em que o fascismo ou nacionalismo tem seu ethos e seu fim na vitória da nação, raça ou estado sobre a plutocracia global, o liberalismo nada mais almeja que um admirável novo mundo, onde não há mais identidade entre indivíduo e classe, família, fé, povo e estado, encontrando-se tal ente desligado, facultando a este a liberdade de abandonar qualquer uma de suas características que o diferenciam do “outro” ou que lhe dão uma identidade e até um motivo para existir. O liberalismo destrói o Ser-Aí, ou Dasein, como dizia Heidegger. O liberalismo tenta criar um abismo até entre o homem e suas características mais intrínsecas o possível, como o sexo. Hoje se defende que há a faculdade de se ser bi, tri, tetra, penta (ou algarismos ad aeternum)-sexual.

No abismo liberal o homem foi forjando suas ideias utópicas e anti-naturais como dignidade da pessoa humana e direitos humanos. E não à toa, foi justamente com o argumento de defesa de tais princípios que foram se efetuando as maiores guerras do século XX e XXI. A diferença se encontra no fato de que enquanto que no passado havia teses nacionais e localistas de direitos humanos, na atualidade encontramos teses globalistas de direitos humanos. Isso não gerou nada mais que guerras e violações de direitos humanos a níveis globais justificadas e motivadas por estes mesmos princípios.

Com o fim de tornar o homem mais fervoroso e renovar a fé cristã, Lutero deu ignição ao processo de decadência da Cristandade, destruindo seu pilar de unidade e fraturando o Cristianismo em diversas seitas. Com o objetivo de libertar o homem a Revolução Francesa deu início a uma das maiores carnificinas e ofereceu à humanidade alguns dos mais sangrentos ditadores: Napoleão e Robespierre. Almejando a mais utópica liberdade humana, a ideologia comunista provocou os maiores genocídios sistemáticos e os maiores regimes liberticidas que já puderam existir, colocando no cimo uma casta burocrática. O capitalismo, ao tentar promover a liberdade do servo diante dos senhores, tornou ainda mais cativo a massa proletária diante da burguesia que tem agora poder político, tornando-se uma plutocracia ainda mil vezes mais poderosa. Enquanto que anteriormente tinham os servos mais horas de ócio para se dedicar à criação de seus filhos, à piedade, com o advento do capitalismo industrial estes só tiveram tempo para se dedicar às fábricas e à produção.

Da mesma maneira, ao criar a ideologia dos direitos humanos justifica-se violação aos direitos de quem nega os próprios direitos humanos. Ao tentar efetivar os direitos humanos, deve-se automaticamente destruir ou eliminar aqueles que discordam ou negam tais princípios. Foi assim que se justificou as ditaduras como a de Robespierre durante a Revolução Francesa, pois ao dar o direito de os franceses escolherem o regime em que gostariam de viver estes fariam nada mais que escolher o rei e continuar vivendo naquele mesmo sistema em que viviam, nisso os revolucionários justificaram tais liberticídios e produziram ditaduras e os mais vergonhosos episódios da história da humanidade, como a execução das mártires carmelitas de Compiègne. Já que agora o estado deve ser laico e deve-se respeitar todas as religiões igualmente, significa na verdade que não se respeitará mais as religiões que se consideram exclusivas do ponto de vista metafísico. É com este raciocínio que se defendeu a execução de alguém como uma freirinha carmelita de 78 anos pela guilhotina, sem falar de diversos outros episódios na história ocidental que foram esquecidos graças à hegemonia maçônica-liberal ou comunista-trotskista nos meios informativos e intelectuais, pois mais importante do que lembrar de episódios como a execução de Gabriel García Moreno, do massacre dos Cristeros, de D. Vital, da Grande Fome Irlandesa é dever da sociedade se atentar às graves violações dos direitos dos travestis em não poderem usar o mesmo banheiro que mulheres usam...

Assim como as maiores violações à liberdade humana foram feitas com o pretexto de oferecer liberdade, hoje em dia se faz guerra na Europa Oriental, no Oriente Médio e se provocam tentativas de balcanizar o mundo com base no ideal de direitos humanos e dignidade da pessoa humana. A deposição de Saddam Hussein no Iraque nada mais fez que oferecer mais poder aos sunitas radicais, a tentativa de destituir Bashar Al-Assad nada mais fez que oferecer mais de um terço da Síria ao Estado Islâmico da Síria e do Iraque, a queda de Kaddafi perpetrada por países da União Europeia e dos EUA nada mais fizeram que provocar mais desestabilização em tal país, a Primavera Árabe se resumiu a histórias com fins trágicos e promessas de utopia que terminaram em mais episódios sangrentos.

A conclusão que se tira de tudo isso é que a ideia de se prometer liberdade ou direitos a todos igualmente nada mais faz do que justificar violações piores ainda àqueles que não aceitam tais premissas. O mundo moderno é construído e edificado sobre pilares de barro que intercalam paradoxos tão profundos quanto abismos.

JAEGGER, Werner. Paideia: A Formação do Homem Grego. 3. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995. Livro Primeiro, A Primeira Grécia, Nobreza e Aretê e Educação estatal de Esparta.
DUGIN, Aleksandr. A Quarta Teoria Política. Primeira edição. 2012. Capítulo 1: Introdução, Ser ou Não Ser. Capítulo 2: Início Conceitual. O Fim do Século XX – O Fim da Modernidade.
DUGIN, Aleksandr. Quarto Estado: História e Significado da Classe Média. Disponível em: http://legio-victrix.blogspot.com.br/2014/11/aleksandr-dugin-quarto-estado-historia.html FORT, Gertrude von Le. A Última ao Cadafalso, trad. de Roberto Furquim. São Paulo: Editora Quadrante. 1998. Apêndice histórico à edição brasileira.

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