terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Jean Carvalho - A Luta Popular de Canudos

por Jean Carvalho



Um esquecimento parece recair em nossas cabeças quanto às questões de nossa própria História. Nossas páginas são ou rasgadas, ou embotadas. Canudos é um destes fenômenos brasileiros pouco explorados ou insuficientemente lembrados. Entender o que houve em Canudos, quem foi Antônio Conselheiro e que motivações conduziam aqueles milhares de sertanejos, caboclos e ex-escravos é tarefa essencial para aquele que deseja ter uma compreensão minimamente satisfatória sobre os problemas nacionais e a crise social vigente.

País das oligarquias, das instituições políticas estranhas e de um modo de governo excludente, o Brasil guarda em seus meandros as tristezas de um povo sempre colocado em segundo plano. Embora uma grande carga de desânimo e conformismo acompanhe o psicológico de nosso povo, é incorreto tratar o povo brasileiro como “naturalmente omisso” ou incapaz de agir de modo insurgente. Diversos episódios de nosso passado atestam o contrário. A Revolução Farroupilha e a Revolta da Chibata, por exemplo, acompanham, lado a lado, o exemplo de Canudos.

A vida no sertão é a vida de misérias e privações. Parte por conta da própria geografia, clima e características naturais da região, elemento que foge ao controle humano; mas grande (e talvez maior) responsabilidade pelo quadro social de pobreza na região dá-se por conta do modo de governo e de negligências humanas. O governo ausente, os coronéis e os jagunços são catástrofes muito maiores para o nordestino do que a falta de chuvas ou a mortandade dos animais. Se a vida no sertão é miserável, o ecossistema sertanejo não o é: inúmeras espécies de fauna e flora compõem o cenário e, para o bom conhecedor do ambiente, as necessidades sempre são supridas ou, no mínimo, remediadas.

O Brasil, esta nação criada por lusitanos e guaranis, em seus primórdios foi a terra herdeira da cultura portuguesa, colônia da metrópole de além-mar. Tropeçando pelos caminhos, esta jovem terra decreta sua emancipação, protagonizada por Dom Pedro I, tendo por espectadores os membros de uma população que ainda não entendia os significados dessas mudanças e para os quais a independência não veio. O Império morre antes de atingir a puberdade, e em seu lugar, um monstro de lama e lodo surge no horizonte, a República transportada aos moldes do estrangeiro, completamente estranha à realidade brasileira.

Esta nova forma decadente de governo pouco levou em conta a camada popular que outrora havia utilizado como ferramenta de propaganda, fingindo ter por ela sentimentos superiores àqueles que os monarcas tiveram. Os escravos do Império continuaram sem pão, sem terra e sem trabalho. Mas agora aqueles negros recebiam algo subjetivo, uma palavra bonita sem significado prático para suas vidas: a “liberdade”. O Estado Republicano somente se fez presente na vida da população para coletar, de suas magras riquezas, os impostos.

Como praxe em situações de miséria, um homem surge com ideais mais místicos do que pragmáticos. Antônio Conselheiro, que havia sido um homem de posses e de boa profissão, e que em sua vida particular sofreu as decepções da traição, vagou sem rumo pelo sertão e atraiu, através de sua fala e de seus ideais de salvação, aquela população cuja maior esperança era ver, no céu, nuvens escuras de chuva. Aqueles que já quase haviam perdido os sonhos e viviam suas vidas em um inferno ouviam as palavras de um velho que falava sobre o Paraíso.

Antônio Conselheiro foi, talvez, mais restaurador do que revolucionário. Pregava o retorno do antigo regime monárquico e a retirada dessa coisa disforme chamada República. Para Antônio, a República era o governo do Anti Cristo, a negação da espiritualidade do povo e o sinal do Fim dos Tempos. Era natural, para ele, que os homens que desejassem sua salvação se retirassem deste “sistema”. Os que seguiram o exemplo de Antônio logo formaram, com ele, uma nova cidade, uma “nova Canaã”, um reduto de esperança dos inconformados.

Apesar de apregoar doutrinas contrárias ao novo regime, Canudos (a nova cidade chamada de Belo Monte) não era uma comunidade agressiva nem chegou, em momento, algum a oferecer risco real ao establishment. Dessa forma, quando o governo se lançou - como uma águia sobre o peixe – contra os camponeses de Canudos, o fez de forma covarde e assassina. Boatos sobre intenções de atacar outras cidades foram criados contra aqueles homens e mulheres, mas jamais houve provas concretas sobre estes falatórios.

Quatro expedições foram lançadas contra Conselheiro e seu povo, sendo que três delas foram repelidas pelos camponeses. A primeira expedição, lançada em Outubro de 1896, foi repelida no dia 24 de Novembro no pequeno povoado de Mauá, onde os soldados do Exército foram batidos por milícias populares de Belo Monte, comandadas por Pajeú e João Abade; e, apesar de sofrer as baixas de apenas dez homens (dois destes, oficiais) mortos e dezessete feridos, os soldados perderam o moral e recuaram.

A segunda expedição, lançada em Janeiro de 1897, comandada pelo major Febrônio de Brito, foi batida após passar pela serra do Cambaio, no dia 18 do mesmo mês, tendo sido repelida pelos seguidores de Conselheiro que, apesar da vitória, sofreram pesadas baixas. A terceira expedição, posta em marcha em Março de 1897, liderada por Antônio Moreira César, era composta duma força de 1.300 soldados, sofreu pesadas perdas, e o novo comandante, Pedro Nunes Batista Ferreira Tamarindo, não teve melhor sorte do que o seu antecessor. Em Abril de 1897, a quarta e última expedição é orquestrada e este era o fim de Canudos, após uma luta heroica, a rendição de parte da população e o martírio de quatro homens que não cederam ante a tirania de um regime cruel.

Conselheiro teve a cabeça decepada do corpo. Grande parte daqueles que haviam se rendido após a mentirosa promessa de que o governo lhes resolveria os problemas, incluindo muitas crianças e mulheres, foram friamente executados pelos soldados. As casas foram arrasadas e Belo Monte, a heroica cidade de Canudos, foi arrasada. Mais de 25.000 pessoas morreram neste fatídico fim de uma brava resistência popular. Canudos foi um dos lampejos ocasionais que acontecem na mente de homens e mulheres acostumados à vida dura que têm. Foi a resposta a um governo que nasceu das oligarquias e para as oligarquias, jamais para o povo, e assim persiste.

Mais tarde, o Cangaço reviveria parte deste espírito, a revolta do homem e da mulher que, de uma terra seca, retiram aquilo que precisam para viver uma vida de sonhos e esperanças de um futuro melhor, futuro, entretanto, que nunca chega. O regime insuficiente e desinteressado despertou o desejo de autonomia e autodeterminação do povo sertanejo. Aqueles que dizem que o homem pobre se curva perante a dominação de um tirano certamente não entendem as implicações de Canudos ou de tantas outras revoltas. Nosso país, até o momento, não assistiu a uma verdadeira insurreição popular nacional, mas regionalmente os exemplos de sublevação não são raros.

Há os que consideram que Antônio Conselheiro como apenas um lunático que guiou miseráveis. Mas, muito mais surreal do que um místico idoso, é um governo que não enxerga a realidade ou, se a enxerga, não possui o menor interesse em resolver seus problemas estruturais que diariamente saltam aos nossos olhos; e muito mais miseráveis do que aqueles camponeses são os injustos que governam. Possuem a miséria da alma, e jamais entenderam os desígnios de um povo que é capaz de, em meio à fome e ao abandono, reunir forças no espírito e nos braços e mãos ressecados para construírem uma cidade de acolhimento. Acolhimento ao sertanejo, ao ex-escravo, ao pobre, ao indigente e ao mendigo.

O homem do campo parece sempre mais disposto à insurreição. É como se, nas cidades, especialmente nas grandes, a vida mais fácil destruísse com mais rapidez o espírito de luta dos homens e das mulheres. Está no campo a verdadeira luta popular e está no campo a verdadeira resistência. Se o fogo de Canudos, que ainda está vivo, se espalhasse por nossa pátria como uma fagulha que cresce e consome todo um monte de palha, lançaríamos fora os oligarcas que ainda reinam em nosso país, herdeiros do sangue de nosso povo.


Canudos foi um movimento autêntico, foi uma revolta legítima e uma alternativa concreta a um regime disforme e incapaz. Durou pouco em nosso mundo, mas durará eternamente nas páginas da História. Foi a união do espiritual com o material e a visão crítica de uma população iletrada contra uma nova realidade que não lhes libertava das velhas prisões. Se nós desejamos um futuro melhor, não devemos nos esquecer das lições do passado, e Canudos nos deu uma lição: somos capazes de ajudar nossos iguais. 

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