sábado, 1 de novembro de 2014

Aleksandr Dugin - O Terceiro Totalitarismo

por Aleksandr Dugin



(Crítica desde a posição da Quarta Teoria Política)

Nas ciências políticas, o conceito de totalitarismo está subentendido nas ideologias comunista e fascista, que abertamente proclamam a superioridade da totalidade (classe e sociedade no comunismo e socialismo; Estado, no fascismo; raça no nacional-socialismo) sobre o privado (indivíduo).

Eles se opõem à ideologia liberal, a qual situa, ao contrário, o privado (indivíduo) sobre a totalidade (como se essa totalidade não pudesse ser compreendida enquanto tal). O liberalismo assim combate o totalitarismo em geral, incluindo o do comunismo e o do fascismo. Mas, ao fazê-lo, o próprio termo "totalitarismo" revela sua conexão com a ideologia liberal - e nem comunistas nem fascistas concordariam com o termo. Assim, todos os que usam a palava "totalitarismo" são liberais, independentemente de sua consciência sobre isso.

À primeira vista, a imagem é perfeitamente clara e não deixa lugar para ambiguidades - o comunismo é o primeiro totalitarismo, o fascismo é o segundo. E o liberalismo é sua antítese, enquanto tal negando a totalidade e situando o privado acima dela. Se pararmos aqui, reconheceremos que a era moderna desenvolveu apenas duas ideologias totalitárias - comunismo e fascismo, com suas variações e nuances. Mas o liberalismo, como teoria política que apareceu antes das outras duas e sobreviveu a elas, não poderia ser chamado de totalitarismo. Daí, a expressão "terceiro totalitarismo", que sugere uma ampliação da nomenclatura das ideologias totalitárias, para incluir o liberalismo, não fazer sentido.

Porém, o tema do "terceiro totalitarismo" pode bem surgir no contexto da sociologia francesa clássica (escola de Durkheim) e da filosofia pós-moderna. A sociologia de Durkheim mantém que os conteúdos da consciência individual são formados inteiramente sobre as bases da consciência coletiva. Em outras palavras, a natureza totalitária de qualquer sociedade, incluindo uma sociedade individualista e liberal, não pode ser cancelada. Assim, o próprio fato de declarar o indivíduo como o valor mais alto e a medida das coisas (liberalismo) é uma projeção da sociedade, que é, uma forma de influência totalitária e indução ideológica. O indivíduo é um conceito social - sem sociedade, o ser humano sozinho não sabe se ele é ou não um indivíduo, e se o individualismo é ou não o mais alto valor. O indivíduo aprende que ele é um indivíduo, uma pessoa privada, apenas em uma sociedade em que a ideologia liberal domina e realiza a função do ambiente em operação. Portanto, aquilo que nega a realidade social e afirma a individual também possui em si mesmo uma natureza social. Consequentemente, o liberalismo é uma ideologia totalitária que insiste, por métodos clássicos de propaganda totalitária, que o indivíduo é a instância suprema.

Este é o início de uma crítica sociológica da sociedade burguesa, não uma social, mas uma desde uma perspectiva sociológica, ainda que normalmente na França e no Ocidente socialismo e sociologia tenham se aproximado quase ao ponto da identificação total (por exemplo, ao modo de Pierre Bourdieu). Nesse sentido, o caráter totalitário do liberalismo é provado cientificamente e o termo "terceiro totalitarismo" adquire lógica e coerência, ao invés de ser um paradoxo assombroso. A partir de então, uma série de conceitos sociológicos, tais como "a multidão solitária (la foule solitaire - David Riesman) e outros.

A sociedade liberal, se opondo às sociedades de massa do socialismo e fascismo, se tornou ela própria uma sociedade massificada, padronizada e estereotipada. Quanto mais o homem aspira ser extraordinário no contexto do paradigma liberal, mais ele se torna similar a todos os outros. O que o liberalismo traz consigo mesmo é precisamente a estereotipação e uniformização do mundo, destruindo a diversidade e diferenciação.

Por outro lado, há a filosofia pós-moderna. No espírito da busca pela imanência radical - característica à modernidade - os pós-modernistas levantam a questão da figura do indivíduo. Segundo sua visão, o indivíduo é um sinônimo para o totalitarismo, mas transposto ao nível micro. O indivíduo é um micrototalitarismo que projeta um aparato de supressão sobre o qual o totalitarismo normal é construído nos níveis individualista e subindividualista. Em um espírito freudiano, os pós-modernistas, explicando a razão como instrumento para supressão, deslocamento e também projeção, a identificam com o Estado totalitário, que reprime a liberdade dos cidadãos impondo sobre eles sua própria perspectiva. O indivíduo é então um conceito, uma projeção da obliteração e violência de uma sociedade totalitária em seus níveis mais baixos. Os desejos e a força criativa do indivíduo são constantemente obliterados. Acima de tudo, os pós-modernistas fazem a comparação com o totalitarismo social - fascismo e comunismo - apenas por causa da estrutura hierárquica estrita do indivíduo racional. Assim, o conceito de totalitarismo liberal como um "terceiro totalitarismo" adquire sentido pleno e se situa em um fundamento legítimo.

Assim, o liberalismo é uma ideologia totalitária e violenta, um meio para a repressão política direta e indireta, para a pressão educacional e para a propaganda feroz, proclamando ser não-totalitária, ocultando sua própria natureza. Este é um fato científico. O terceiro totalitarismo é inteiramente coerente com toda a perspectiva de seu conceito político.

A Quarta Teoria Política aceita completamente essa noção, uma vez que ela permite perceber a imagem completa que unifica as três teorias políticas clássicas da modernidade - a) liberalismo; b) comunismo, e c) nacionalismo (fascismo). Todas elas são totalitárias, ainda que de forma distinta. Precisamente em outro contexto, a QTP revela o caráter racista de todas as três teorias: o racismo biológico dos nazistas, o racismo de classe de Marx (progressismo e evolucionismo universais) e o racismo colonial e cultural-civilizacional dos liberais (que era explícito até meados do século XXI e se tornou subliminar depois - ver "A Concepção Eurocêntrica da Política Mundial" de John Hobson). A QTP rejeita todos os tipos de totalitarismo - comunista, fascista e liberal. O terceiro totalitarismo hoje é o mais perigoso, já que ele é o dominante. Lutando contra ele é uma tarefa fundamental.

A QTP propõe uma compreensão nova tanto do todo como de suas partes, fora das três ideologias políticas da modernidade. Essa compreensão pode ser chamada de um Mit-sein existencial. Mas nessa compreensão existencial da presença (Dasein), não há átomo (partes, indivíduo), nem soma de indivíduos (totalitarismo). Na QTP, "ser com" significa existir, constituir uma presença - uma presença viva em face da morte. Nós somos juntos apenas quando nos deparamos com nossa própria morte. A morte é sempre profundamente pessoal e, simultaneamente, há algo de comum, algo que afeta a cada um de nós. Assim, é necessário falar não sobre totalitarismo (uma concepção mecânica conectando partes e todo), mas sobre um holismo existencial orgânico. E seu nome é Povo. Dasein existiert völklich. Em clara oposição a um "terceiro totalitarismo". Por um Ser-para-a-morte. Mit-sein. Nós somos o Povo.


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