sábado, 26 de julho de 2014

Aleksandr Dugin - Batalha pelo Estado

por Aleksandr Dugin



No sentido político, a situação na Rússia está se tornando crítica. Essas são mudanças fundamentais mais do que flutuações na superfície. Tentemos criar um esquema conceitual dos eventos atuais.

Há um Povo (Narod em russo, similar ao Volk alemão), e há povo (população). Essas são duas coisas diferentes (conceitos diferentes). E todos eles são coletivamente conhecidos como "Rússia". Essa homonímia gera camadas de significado, e tudo se torna confuso. Vamos ortogonalizar a imagem situado tudo em seu próprio nível.


Narod é uma comunidade histórico-cultural. É um sujeito de destino e criador da história. Porém, nem todas as filosofias e ideologias reconhecem sua existência nesse sentido. Narod não existe para os liberais - há apenas um agregado de indivíduos. Nem ele existe para os comunistas - apenas classes existem; para os nazistas - apenas raça existe; e para os fascistas - apenas o Estado. E, ainda que soa paradoxal, Narod não existe para os nacionalistas também - para eles, há uma nação política baseada na pertença individual (a nação burguesa clássica é um produto da Europa durante o período da Modernidade). Narod não existe para todas essas ideologias - isto é, para a nomenclatura ideológica completa da Modernidade. Mas ele existe - é a única coisa que realmente existe. 

Heidegger costumava dizer, "Dasein existe através de um Povo" (Das Dasein existiert völkisch). Isto é dizer, que a presença do homem no mundo nos é dada através do Narod. Ele nos fornece linguagem, aparência, atributos psicológicos, um lugar no tempo (história) e no espaço (geopolítica).


Hoje, o Narod russo desperta irrompendo através das profundezas de seu sonhos - difíceis e simples, empobrecidos e enriquecidos - mas sonhos não obstante. Ele vê a Criméia e a Nova Rússia como territórios de seu despertar. Assim, o Narod se dirige a um lugar em que a Luz Russa o impele como um imã, brilhando através dos heróis da Nova Rússia. Essas não são emoções, chauvinismo ou ultrapatriotismo. Esse não é um "hurrah!" ou uma superfície, mas ao invés, é a voz da máxima profundidade russa. Nós existimos autenticamos apenas quando encaramos a morte. Apenas quando somos encarados pela morte se torna claro o que significa ser russo. As pessoas vão à Nova Rússia, a Donetsk e Lugansk, obedecendo a Vontade da História Russa, atraídos pela Morte Russa. É essa Morte Vermelha que faz dos russos o que eles são. Morte no mundo. Em nome do Narod. Morte pela Narod é vida. Assim, as pessoas vão à Nova Rússia para viverem à maneira russa.

Igor Strelkov é o símbolo do Narod russo. Strelkov é a corporificação de nosso espírito, nossa vontade, nossa resistência. E mesmo que não estejamos lá com ele, ele nos faz ter vergonha de nós mesmos e orgulho dele, mas mais importante, ele inspira Fé em nosso Narod. Strelkov existe autenticamente. Nele, nosso Narod encontra sua imagem. E todos os que estão com ele - Gubarev, Motorola, Mozgovoi, Babai, Purgin, e todos os heróis das Repúblicas Populares de Donetsk e de Lugansk, vivos ou mortos - eles são todos nosso Narod, suas faces. Enquanto tal. Na medida em que existe. Não se pode rasgá-lo, poluí-lo ou relativizá-lo.

Há também uma população, o povo. Se nosso Narod é unido dos dois lados da fronteira, então a população é diferente. Povo não é exatamente Narod, ou mais especificamente, não tanto Narod. Eles podem se tornar isso se as profundezas despertarem neles, se eles encararem a Morte, se eles acordarem. Mas eles também podem falhar. Nesse caso, eles são indivíduos preocupados com a sobrevivência, conforto, contentamento, sucesso, carreira, bem-estar material, etc.

O indivíduo é a antítese do Narod, um produto de sua decadência. Narod separa em indivíduos para que eles possam se unir nele novamente - como em uma Igreja, Catedral, Pátria. Mas às vezes esse retorno não ocorre. Então nos deparamos com o indivíduo puro. Por conta própria. Em grego, esse tipo de indivíduo puro sem quaisquer laços com a Totalidade ou com seu Narod era conhecido como idiotes, um cidadão privado, que é a origem do termo "idiota". A população é composta por idiotas no sentido etimológico do termo.

Narod é algo totalmente diferente - é aquilo que o homem se torna apenas quando ele confronta suas próprias profundezas, vive dentro da história, e ouve a voz do espaço sagrado da Pátria. É ao indivíduo que se dirigem todas as teorias políticas da Modernidade: eles unem os indivíduos de diferentes maneiras: marxismo - em classes, nacionalismo - em nações políticas, liberais - em uma sociedade civil, mas nenhum desses é um Povo - Narod. Assim, a Modernidade rejeita o Narod lidando apenas com pessoas diversas.

As pessoas da Rússia consideram aquelas no sudeste da Ucrânia como sendo diferentes. E elas estão corretas: desde o ponto de vista legal, este é formalmente o caso se a voz das profundezas permanecerem em silêncio. Nesse caso, é absurdo falar em Mundo Russo, Civilização Russa e Grande Rússia. Ao invés, há as populações respectivas de duas unidades administrativas, dois grupos de indivíduos que tem seus próprios interesses e objetivos.

Assim, a população da Rússia, o povo da Rússia pode permanecer surdo à dor da Nova Rússia. Segundo esse tipo de lógica, pessoas diferentes vivem ali. Elas são assassinadas, violadas, massacradas e bombardeadas, mas isso não é de nossa conta. Isso não é nem bom, nem agradável, mas, talvez, elas tenham feito algo de errado. Sim, pessoas sobrevivem. Mas o Narod vive. Aí está a diferença. Para viver, Narod manda seus melhores filhos e filhas para a Morte. A Morte em prol do Narod, em prol da Vida. Não sobrevivência, mas Vida.

Há também um Estado. Este é um mecanismo, uma superestrutura. Nele, um Povo - Narod vê sua criação e, talvez, a mais bem sucedida de suas criações. Narod cria o Estado como produto de sua vontade histórica, e tem orgulho dele. Mas o Estado pode se apartar do Narod, esquecendo suas fundações. E então ele pode se transformar em um mecanismo autossuficiente e morto, uma máquina. Estados podem ser vivos, mas eles também podem estar mortos. Um Estado vivente não rompe seus elos com seu Narod, que o criou, tirando seu poder dele. Ele vive e existe. Ele é. Mas quando o Estado degenera, ele se torna um aparato, máquina, mecanismo burocrático ao invés de totalidade orgânica viva. Nesse caso, o Estado começa a ver seu Narod como uma população, um povo diverso, uma soma mecânica de átomos. Qualquer unificação desses átomos - em uma classe, nação ou sociedade - é sempre arbitrária. O Estado europeu contemporâneo na era da Modernidade emergiu morto desde o princípio. Esse é um mecanismo de aglomeração da população. Esse tipo de Estado mata seu Narod e o transforma em uma população. Esse tipo de Estado vive parasitariamente de seu Narod, sua dor e sofrimento. Ele mata seu Narod.Encontra benefício nisso. Cria um Gesheft. Isto é, um Estado de gerentes e técnicos; mais especificamente - um Estado de comerciantes e empresários.

Hoje, essa questão é particularmente aguda: o que é o Estado Russo nesse momento? Ele pertence a seu Narod? Ou ele é mecânico? Este é o principal dilema para Putin, pessoalmente, como Chefe de Estado com uma vaga identidade dual. A ascensão do patriotismo na Rússia, a reunificação com a Criméia, e a confrontação com o Ocidente são todos sinais da presença de um Povo, do Narod. Tecnólogos políticos cínicos (cientistas políticos), os onipotentes e constantemente mentirosos gerentes de alto nível, a corrupção insana, o liberalismo dominante, a oligarquia anti-Narod, a ocidentalização da intelligentsia e das elites apontam para o Estado da morte, o Estado da sobrevivência.

Putin tem se equilibrado nessa faixa estreita entre o Estado de um Povo - Narod e o da elite liberal mecânica e alienada pelos últimos 14 anos. Ele se manteve dando passos em uma direção, e então em outra. É claro, sem um certo tipo de apoio à Nova Rússia, a imagem de hoje - ainda que criticamente difícil - não seria possível. Estivesse Putin apenas do lado de um Estado morto, Rússia Corp., ele teria traído tudo há muito tempo atrás. Mas este não é o caso. Ele compreende o drama doloroso do Estado Russo e sua natureza, crucificada entre Narod e a elite (sempre dependente da massa de idiotas sobreviventes - idiotas no sentido etimológico da palavra, isto é cidadãos privados, indivíduos).

Em outras palavras, a imagem é a seguinte: por um lado, Putin (=Estado) tem Strelkov como corporificação do Narod. Isto é a Nova Rússia como um todo. Estes são os russos e tudo que é russo. Por outro lado, há a elite (Yurgens em todas as suas expressões), a burocracia (governo, administração), e cidadãos médios. Este é um Estado ocidental e liberal, mecânico, contemporâneo - em todo caso, não o Narod, e em certo sentido anti-Narod. Putin está entre ambos. Não Putin pessoalmente, mas o Estado, seu sentido e natureza.

A Nova Rússia e seu dramático destino - especificamente expressado nas histórias de Strelkov, Gubarev, Mozgovoi e outros - que nosso Narod, os russos assistem com respiração suspensa - é um dos caminhos de Putin e da Rússia. O outro nos leva na direção dos comprometedores, dos traidores óbvios, dos provocadores, dos criadores de intrigas, dos liberais e ocidentalizadores, que usam a dualidade da Rússia a sua própria maneira. São eles que são a sexta coluna, que, em essência, não é diferente da quinta. a população sempre obedece à gerência superior. Afinal, ser despedido, contratado, receber bônus ou sofrer penalidades - em outras palavras, a sobrevivência - depende disso. Narod quer um Czar como corporificação de sua própria vontade superior através da história, como figura sagrada, como aquilo que une Terra e Céu, que ilumina e espiritualiza o próprio Narod. Ele não vê a gerência superior. Ele vê um Governante. Para o Narod, a Rússia é o Estado do Narod russo e daqueles que ligaram seu destino a ele.

Hoje, esses dois pólos - Narod e anti-Narod - entraram no mais duro confronto. Ninguém pode dizer como isso terminará. Cada cenário é possível. E Putin está sendo rasgado. Sua estratégia de equilíbrio não é mais útil. A história situa diante dele o dilema: ou seu Narod ou a elite (mais a população mecânica, atomizada e dividida). Ou a Civilização Rússia (que significa moralidade, Nova Rússia, Strelkov e Gubarev) ou a Corporação Rússia (que significa pragmatismo, realismo político, e, finalmente, Yurgens e suas variações).

Este é o momento mais difícil. Nosso Povo - Narod fez sua escolha. Ele despertou, ainda que não em sua totalidade e não plenamente, mas...olhe ao redor - russos aparecem por todos os lados desde as profundezas do sono da sobrevivência. E ousadamente partem para a Nova Rússia. Para morrer, isto é, para Viver. Para Viver autenticamente, como aquilo que É. Strelkov marca o horizonte de nossa auto-identificação, e é completamente irrelevante quem ele é como indivíduo. Ele é aquele por quem esperamos há muito tempo. Ele é o herói dos russos. E isso basta. Ele mesmo diz claramente que ele vê o raio de luz de Putin, sua encarnação solar. E ele está certo. Se Putin não tivesse esse lado particular, então não haveria Criméia ou a defesa heróica de Slovyansk. O fato de que que a Nova Rússia ainda é- é impensável sem essa parte da Rússia, a do Narod. Mas outra coisa também é evidente: o segundo lado (lunar) do Estado se rebelou. Traidores e "tecnólogos" declararam guerra à Nova Rússia, seus líderes e símbolos. Eles declararam uma guerra a Strelkov. E novamente, nós temos mentiras ao invés de batalhas. Traições ao invés de ajuda. Desunião ao invés de solidariedade. Traição ao invés de lealdade. Você reconhece esse modus operandi?

Este é o anti-Narod enquanto tal. E ele ofereceu ao Narod um desafio mortal. Em comparação, os nazistas ucranianos são simplesmente marionetes nas mãos do anti-Narod global que se espalha. Se não houvesse um poderoso grupo de traidores em Moscou no próprio topo, nós já estaríamos às portas de Kiev. É claro, nós ainda estaremos lá. O Narod estará lá. Os russos estarão lá. Mas há a seguinte questão: e quanto ao Estado? Que caminho escolherá? Será com o Narod ou sua antítese? Essa batalha é mais assustadora do que qualquer iniciativa militar. Ao mudar a razão levemente na superfície, na periferia, acabamos com resultados colossais. Tão logo os traidores mudem levemente os relatórios sobre o que ocorre na Nova Rússia, eles criam desinformação, aumentam as incertezas, e deixam a determinação para trás. Tudo funciona: falsos argumentos, uso seletivo de fatos, mentiras - aqui a burocracia anti-Narod é mestre.

Eu não antecipava que a guerra contra a sexta coluna no topo seria tão sangrenta e difícil, e que sua contra-ofensiva seria tão cruel. Afinal, perder milhares de cidadãos na Nova Rússia, assassinatos de mulheres e crianças - essas são simplesmente as consequências das ações realizadas pela sexta coluna na Rússia, que tem tentado empurrar o Estado para seu lado. Sua tese - retirar Strelkov, começar negociações, firmar compromissos com a junta - senão sua riqueza de bilhões roubados, suas propriedades no exterior, famílias levada para lá há muito tempo, onipotência na Rússia - sofrerão. Afinal, é no anti-Narod que a elite consiste quase plenamente. Há apenas um embaixador para o Narod. Mas ele é restringido pela máquina de morte do Estado.

Como em 1612 durante os Tempos das Atribulações, o Narod deve tomar sua própria iniciativa. Ele não pode depender apenas do Estado. Este é parcialmente paralisado pela sexta coluna. Mesmo Putin não pode portar toda a responsabilidade. O Ser histórico é nossa causa - a causa dos russos. Os russos hoje são a Nova Rússia, no mapa e no coração, na metralhadora e nas redes sociais. Que momento difícil...eu não me recordo de outro desse calibre em minha vida...mas ele é também alegre! Um russo desperto defendendo o Mundo Russo - isso é verdadeira alegria. Nós somos russos armados, que alegria!

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