sexta-feira, 4 de abril de 2014

Ray Wilson - Sobre Autarquia

por Ray Wilson



Na sociedade tradicional, é o princípio da autarquia, ou auto-suficiência, que guia o desenvolvimento econômico. Quer dizer, o desenvolvimento político e cultural guia a economia. Falando de modo geral, os Estados levantam dinheiro conforme necessário para conduzir campanhas específicas, obras públicas, e a manutenção geral de estradas e prédios públicos. A idéia de centralizar o desenvolvimento político e cultural na economia pareceria absurda para o Senado Romano, assim como para os macedônios de Alexandre ou para Ciro da Pérsia. Enquanto o comércio global sempre existiu, era reconhecido que uma sociedade que não dependia excessivamente do comércio estava em melhor situação, já que seu curso não seria determinado por mercados estrangeiros, pressões econômicas e pela guerra. De muitas maneiras, isso era uma extensão do estoicismo valorizado como ética pessoa na Antiguidade. Assim como as pessoas são melhores quando são capazes de viver sem serem afetadas pela ausência de luxo, uma nação forte e saudável é aquela que pode existir sem uma necessidade de grande riqueza, mas sim de grande força e caráter.

Hoje este princípio está completamente invertido, como esperado de uma sociedade que é a própria inversão da sociedade tradicional hierárquica, normal. Os Estados são tidos como bem sucedidos apenas com base em sua prosperidade material e quão bem difundidos são certos luxos entre a população. Há estudos por exemplo, que avaliam quantos lares tem televisões, acesso a TV à cabo, um carro, celulares, etc. Uma sociedade que se mede por essas coisas está completamente desconectada da verdadeira vida no sentido mais elevado do termo. A medida adequada de grandeza em uma sociedade não é quanto tem sua população, mas o quanto eles podem dispensar. A verdadeira liberdade e independência é a habilidade de viver uma vida plenamente sadia sem ser escravo de conveniências modernas que, ainda que inofensivas em si mesmas, não são cruciais ou necessárias em qualquer sentido do termo. Defender isso não é defender um "retorno à natureza" no sentido caçador-coletor do termo, ou endossar uma posição ludita, mas sim separar nosso entendimento do bem-estar cultural e espiritual de quinquilharias e conveniências materiais. Como Evola escreveu em Fascismo visto da Direita:

"Naturalmente, não é certo passar dos limites na direção oposta. Em todo sentido, podemos ser guiados pela analogia oferecida pelo comportamento de um homem digno do nome. Ele pode promover o desenvolvimento de seu corpo e a saúde física, mas não se tornar seu escravo. Quando necessário, ele freia os impulsos correspondentes e os faz obedecer a uma vontade superior, mesmo a custo de sacrifícios. Ele faz o mesmo cada vez que ele quer ou deve confrontar uma tarefa que demanda um esforço particular. De modo a tornar possível o que, a nível nacional, corresponde a uma linha similar, relações adequadas devem ser estabelecidas entre o princípio de um Estado nacional orgânico e o mundo da economia, que corresponde a sua parte corpórea".


Esparta, por exemplo, foi durante a maior parte de sua história conhecida por seu desprezo pela riqueza e pelo luxo, junto a sua simplicidade e governo autárquico. Tucídides comentou sobre a cidade, se referindo a ela como um aglomerado de aldeias, inteiramente desapontador para uma cidade cuja reputação era tão grande. Ainda que Esparta produzisse pouco em termos de grande arquitetura, arte, poesia e similares, o caráter interior de Esparta era de um tipo incomparavelmente superior ao de uma tribo de caçadores-coletores, por exemplo. O objetivo da auto-confiança não é criar um Estado perpetuamente empobrecido e desligado do mundo, mas um que situe o sagrado acima do profano, e coloque sua vida cultural e espiritual como algo além da riqueza material.


Mesmo no mundo moderno de economia global, o pensamento autárquico se manifesta independentemente de ideologia. Desde um ponto de vista nacionalista, é a única direção lógica para um Estado, já que a nação e o Estado são identificados como um só, e a independência de influências estrangeiras sobre a nação é primordial. Para fascistas, isso era suficientemente importante para que fosse o terceiro ponto do programa político fascista de Mussolini publicado em 1921 como segue:

"...Terceiro, o gradual desligamento da Itália em relação às nações plutocráticas do Ocidente pelo desenvolvimento de nossas próprias forças produtivas..."


Medidas autárquicas podem ser vistas em tempos modernos em outros lugares, na tendência isolacionista dos EUA antes da Segunda Guerra Mundial, em certas medidas de austeridade e tentativas de industrialização em países do terceiro mundo como o governo de Sankara em Burkina Faso, e a ideologia Juche da República Democrática Popular da Coréia. Nesses casos, a autarquia não está conectada com um ideal tradicional, mas é não obstante percebida como uma necessidade. O caso de Burkina Faso vale pelas medidas enérgicas tomadas pelo líder idealista, ainda que de inclinações marxistas, Tomas Sankara que avidamente buscou romper o ciclo de dependência que assola a maior parte do continente africano. Ele decretou, por exemplo, que toda roupa usada por funcionários do governo tinha que ser feita na própria Burkina Faso, recusou ajuda estrangeira e cortou certos luxos de que funcionários do governo de alto escalão desfrutavam que eram vistos como desperdício e exagerados em relação à pequena e nem um pouco rica nação da África ocidental. Quando ele descobriu que o investimento estrangeiro para uma ferrovia seria caro, ele mandou construí-la do bolso, usando trabalho e material de seu próprio país. Não tivesse seu início promissor sido cortado tragicamente por um golpe financiado desde o exterior, talvez ele tivesse tido um impacto maior no continente.

O Juche já foi discutido em um outro artigo. Enquanto a mídia no Ocidente normalmente ressalta as dificuldades econômicas da RDPC, ela não pode fazer muito mais que isso já que a economia da RDPC, ainda que pequena, está completamente nas mãos dos líderes do Estado ao invés de nas mãos de interesses estrangeiros. Nem mesmo seus aliados na República Popular da China tem tanta independência. Isso em comparação com sua contraparte ao sul, a República da Coréia que apesar de mais próspera é no fim do dia um escravo da economia e vulnerável a qualquer mudança no mercado internacional. Sua população também é saturada com a "cultura de consumo". Essa "cultura de consumo" é o resultado final de um Estado que foca inteiramente em estômagos e desejos físicos, sem qualquer orientação superior. Ela é regressiva em todo sentido do termo. Isso não é apenas algo que existe na República da Coréia mas em qualquer Estado que use o modelo ocidental de "sucesso" como seu guia. Esses exemplos são trazidos não para defender qualquer sistema moderno de pensamento em particular, mas apenas para refutar a noção de que a auto-confiança econômica está fora de moda ou é ultrapassada, como ela tende a ser vista pelos defensores do "livre-comércio", globalistas e similares. Eles demonstram maneiras pelas quais mover um Estado na direção da auto-suficiência fora de uma restruturação completa, e como esses métodos são os mesmos independentemente de vestimentas ideológicas no contexto de um Estado moderno.

A necessidade de alguma medida de auto-confiança é ainda mais aparente hoje quando a "comunidade global", quer dizer, aquelas nações com o poder e riqueza para impor sua ideologia democrática destrutiva sobre o mundo, podem pôr pressão econômica e eventualmente militar em qualquer nação que pise fora da linha ou busque determinar seu próprio curso. A habilidade de pelo menos embotar a primeira arma, o bloqueio econômico, pode ser a diferença entre resistir a tempestade e um colapso. O próprio Mussolini disse o seguinte:

"Sem independência econômica a independência política é duvidosa, e uma nação de grande poderio militar pode se tornar vítima de um bloqueio econômico".

Isso pode significar desistir de luxos, mas isso em uma sociedade sadia seria visto como uma honra, em prol da liberdade e da independência. Como deve um Estado determinar seu próprio curso quando sua vida econômica domina sua vida política e social, e essa vida econômica pode ser alterada a qualquer momento por pressões estrangeiras? Os habitantes isolados da ilha de Saint Kilda ou das ilhas Aran, for exemplo, se preocupavam com o "mercado global" quando reuniam algas marinhas para nutrir sua colheira ou no mar em seus barcos de pesca?

Historicamente, as maiores e mais fortes nações foram aquelas que puseram o crescimento econômico a serviço do Estado e não se interessavam por riquezas por si mesmas. Os romanos em seus primeiros anos podiam ser considerados dessa forma, assim como os espartanos. Aquelas nações que puseram o comércio em primeiro lugar rapidamente se tornaram presas de nações não corrompidas pelo ouro - os Estados comerciais fenícios e a Lídia, por exemplo, só podiam prosperar por causa de sua submissão a vizinhos imperiais mais poderosos, fossem elas os persas de Ciro ou os macedônios de Alexandre.

Os Estados Unidos nessa situação, está em uma posição única; eles possuem os recursos, a massa territorial e a população para serem realmente auto-suficientes em todo sentido, sem desistir substancialmente de luxos, porém eles estão tão inteiramente centrados nessa economia internacional, tão completamente escravizados pela mentalidade consumista de livre-comércio que isso é impensável. Conforme a posição dos EUA no palco mundial declina, isso pode ter que mudar por pura necessidade.



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