sábado, 5 de abril de 2014

Boris Nad - A Rússia atravessa o Rubicão ou o Nascimento de um Novo Mundo

por Boris Nad



A América deve aceitar o fato de que após mais de vinte anos, a Rússia retornou como força histórica. Isso é uma questão de realismo político.

A crise na Ucrânia está longe de terminar, mas está claro que ela é o evento mais importante no início do século XXI até agora, muito mais importante do que a Líbia, que a invasão do Afeganistão, ou a questão do futuro do Iraque. Até mesmo a Síria pode ser medida com ela. A crise ainda não está resolvida, mas algumas respostas já são aparentes: a Criméia é russa novamente. O destino do sudeste da Ucrânia agora é quase certo: ele certamente não será parte de uma Ucrânia unitária futura, uma Ucrânia na União Européia e na OTAN. Houve durante a rebelião uma população pró-russa, que articulou suas demandas por muitas "primaveras russas" inesperadas. O sudeste - Novorossiya - pode se tornar parte de uma futura Ucrânia federal ou confederal, Estados independentes parceiros da Federação Russa - mas apenas como solução interna - e em um futuro uma parte integral da Rússia.

A questão da Ucrânia central - Malorossiya e Kiev - para os EUA ainda não foi resolvida. O futuro da junta de Kiev também é questionável. Ela é, afinal, apenas uma "solução" temporária. Para o Ocidente, os conspiradores podem ter algum valor prático se eles conseguirem provocar uma guerra na Ucrânia como resultado. A Ucrânia ocidental (Galícia), em qualquer variação de eventos futuros, indicando uma perspectiva bastante sombria. O mapa geopolítica da Europa e da Eurásia será portanto irreversivelmente modificado. Isso é para a Rússia algo que é alcançado de forma relativamente fácil. E ainda essa não é a coisa mais importante.

Defender Sevastopol

A primeira óbvia vitória russa foi o retorno da Criméia sob soberania russa. Sobre a importância geopolítica e militar da Criméia bem como do porto da Frota russa no Mar Negro, dificilmente precisaríamos falar, e devemos acrescentar que a península da Criméia hoje é de enorme importância simbólica e histórica para a Rússia. Primeiramente, para a fé ortodoxa russa, ela é importante como o berço do Cristianismo Russo, como o "Athos russo".

Relembrem que a Criméia foi anexada à Rússia pela primeira vez em 1783, durante o reinado de Catarina a Grande, poucos anos antes da adoção da Declaração Americana de Independência, e eles lutaram por ela sob líderes militares como Suvorov e Kutuzov, e venceram Napoleão. A Criméia tem sido relatada desde então como um capítulo muito importante na história russa. Então em 1853, e também em 1856, na cena da Guerra da Criméia, quando as potências ocidentais - Grã-Bretanha e França - além do Piemonte e o Império Otomano travaram guerra contra a Rússia foi testemunhada a cena da defesa heróica de Sevastopol.

Sevastopol foi de novo defendida heroicamente na Segunda Guerra Mundial contra as forças alemães, a Wehrmacht e a SS, assim como a chanceler alemã Angela Merkel hoje ameaça que a Rússia pagará um preço alto pela "anexação da Criméia". Que tipo de anexação pode ser discutida aqui, em vistas do fato de que a Criméia russa é indubitavelmente Rússia, e muito provavelmente permanecerá sendo?

Fascismo Liberal

A atual crise ucraniana teve uma longe gênese e vários aspectos, mas ela só pode ser compreendida através da lente fria da geopolítica. É o último, mais profundo e compreensivo nível que abarca todas as outras dimensões (política, cultural, ideológica, histórica, religiosa, étnica...) e as situa no contexto adequado. A crise na Ucrânia é um momento de virada e um teste para todos os seus apostadores, mas também para observadores aparentemente indiferentes ou desinteressados. Em primeiro lugar, é significativa para os EUA, porque o resultado da crise ucraniana, entre outras coisas, determina seu status como superpotência.

A atual crise na Ucrânia formou novas alianças e dita novas divisões. Isso se aplica não apenas para o mapa global e para a geopolítica de países individuais, mas também para uma gama de opções políticas e ideológicas muito diferentes. Algumas dessas alianças são, à primeira vista, inesperadas: por exemplo, aqueles que caem no mesmo campo de antissemitas e neonazistas, junto a liberais pró-americanos e islamistas, eurófilos com os seguidores de de Adolf Hitler, ou Bandera, os chauvinistas e russófobos mais radicais. E isso não parece acontecer apenas na Ucrânia, mas mais ou menos por toda a Europa. Nas ruas de Riga na Letônia (que é membro da União Européia) marcharam colunas nazistas vestidas com uniformes da SS. Nenhum dos funcionários da União Européia reagiu. Um termo bastante adequado para isso é "fascismo liberal".

Porém, em si mesmo este fenômeno não é novo, algo similar já aconteceu durante a guerra na ex-Iugoslávia, quando os EUA e uma série de intelectuais "liberais", "independentes", como Henri-Levy, abertamente apoiaram o nacionalismo étnico primitivo e o radicalismo islâmico da Croácia ao Kosovo, desde que estes fossem dirigidos contra a Sérvia. Liberais e fascistas (na Ucrânia, os seguidores de Bandera) sob certas condições podem ser aliados, tanto quanto liberais e wahhabis (o caso da Bósnia, do Kosovo, do Cáucaso e da Síria). O critério para isso é o das alianças geopolíticas. A América, novamente, não está em uma posição de escolher seus aliados, pois isso seria, especialmente nas circunstâncias atuais, um luxo. Afinal, os EUA já demonstraram que na verdade eles nunca foram muito seletivos.

O Século XXI não será um "século americano"

A divisão básica é agora, obviamente, uma que contraposiciona de forma irreconciliável a Rússia em relação a América e seus satélites ocidentais. Após a Síria e a Ucrânia, é óbvio que o mundo unipolar, um mundo em que a hegemonia americana era inquestionável, não existe mais. A segunda metade é agora a Rússia. Ela era seguida por China, Índia e Brasil (América Latina), e mesmo o mundo islâmico, ainda que ele esteja em profunda tormenta. Mas apenas a Rússia é forte o suficiente para competir com a América em termos militares, e sem ansiedade aguarda pelas sanções econômicas anunciadas pelo Ocidente.

O século XXI, contrariamente às projeções dos estrategistas americanos, não será um "século americano". A elite política americana é incapaz de compreender isso. A transição para uma ordem multipolar não é indolor. Ela se dá por uma série de crises artificialmente induzidas, guerras sempre nos mesmos lugares (por enquanto guerras localizadas, mas amplas em sua importância), ou mesmo com a ameaça de que armas serão utilizadas. Do ponto de vista dos interesses americanos, o golpe de Kiev de 22 de fevereiro - foi um erro. Até mesmo uma nova guerra fira com a Rússia e uma possível tentativa de exaurir economicamente a Rússia não é uma resposta adequada. O que quer que aconteça no futuro, as mudanças serão tectônicas, e o mundo então parecerá muito diferente.

Outros atores menos importantes são assim deixados para aprender lições e começar, inicialmente de forma suave, um realinhamento do cenário global. Ademais, deve ser notado que a aliança com a América não mais fornece segurança para seus aliados. Repúblicas da ex-URSS, e essa é a primeira lição da crise ucraniana, agora veem que apenas a Rússia (não a América, muito menos a fraca União Européia) pode garantir integridade territorial. Finalmente, os EUA não podem mais garantir a segurança nem mesmo de seus aliados europeus pois a ordem no mundo não é mais unipolar ou americanocêntrica. Os EUA, de agora em diante, não ditado por regras, nem são capazes de prescrever o que é permitido e o que não é. Aqueles que falam sobre os perigos do "imperialismo russo em ascensão" devem ser lembrados da história difícil das últimas duas décadas e meia, da primeira Guerra do Golfo, em seus capítulos sangrentos escritos na ex-Iugoslávia, na Bósnia, no Kosovo, no Afeganistão, e então de novo no Iraque. Milhares e milhares de mortos e mutilados, a destruição de países inteiros, uma longa lista de intervenções americanas ao redor do mundo, com napalm e urânio empobrecido, fomentando guerra civil e a incitação à limpezas étnicas ao redor do mundo, seria um balanço da hegemonia global americana, que hoje se aproxima de seu inevitável fim. Seria bom para os estrategistas de Washington compreender essa realidade nesse momento.

A União Européia, independentemente do resultado, será a maior perdedora na crise ucraniana, simplesmente porque os líderes europeus são incapazes de definir claramente sua posição nas novas circunstâncias. Eles continuam em sua inércia seguindo ordens de Washington. Isso empurra a Europa para uma crise mais profunda. O primeiro e talvez menor preço que a União Européia terá que pagar será muito provavelmente o econômico, causado pelas sanções contra a Rússia, que forçarão Bruxelas, ainda que relutantemente, a aceitar o ditador de Washington. Deve ser notado que aqueles países na Europa Oriental se encontrarão em posição ainda mais dificultosa para apenas passivamente seguirem Bruxelas sem sua própria política externa, esperando um dia se unir à União Européia.

Recentemente, por ocasião da Ucrânia no Washington Post foi anunciado "um caso clássico de política americana", por Henry Kissinger. Seu "texto programático da Ucrânia" não é nada além do que uma repetição de velhas teses russofóbicas da Guerra Fria, mas dessa vez impostas por uma linguagem esopiana, com grande cautela e contenção. Nós devemos lembrar aqui de muitas avaliações honestas de Kissinger, que são apresentadas com tato muito menos diplomático: "Ser inimigo da América é perigoso; ser seu amigo é fatal". Na sobra da crise ucraniana, esse reconhecimento soa muito mais fatídico.

Impasse Político

Em 2008, durante a curta guerra com a Geórgia, a Rússia escapou da caixa que lhe foi imposta em 1991. Graças à queda da União Soviética, ela era aproximadamente a fronteira da Federação Russa. De certa maneira, a reação da Rússia foi então deduzida. Um cenário simples da crise georgiana havia sido previamente testada na ex-Iugoslávia. A resposta de Moscou à versão georgiana da "Tempestade", porém, foi eficaz e o papel que a Rússia desempenhou, independentemente do fato de que a Geórgia é retratada pela mídia ocidental como vítima, foi construtivo: a intervenção militar russa impediu um genocídio na Abkhazia e na Ossétia do Sul, e a Geórgia não foi transformada no palco de conflitos étnicos que há muito tem desestabilizado a região.

Em paralelo, Moscou orquestrou diversos movimentos de longo alcance, a mais importante das quais indubitavelmente a decisão importante de estabelecer uma união alfandegária eurasiana (amanhã, uma união econômica eurasiana). Clinton então disse que isso era uma tentativa de reconstruir a União Soviética e que a América faria qualquer coisa para impedir isso, mas quanto a essa "qualquer coisa" como a vemos agora, não é o suficiente. Logo depois: Síria. Esse caso demanda um exame das forças russas mais sério do que o caso georgiano. Não há dúvida de que os EUA estavam então determinados a intervir com uma campanha aérea, já que as forças armadas americanas não são mais capazes de realizar uma invasão terrestre (ela não o pôde mesmo em 1999, na guerra de 78 dias contra a Iugoslávia). Houve uma posição consistente do Presidente Putin de intransigência em relação a ameaças e à retórica dura de Washington, e um apoio bastante concreto a Damasco (em oposição à reação morna de Medvedev durante a crise líbia), o que faz os estrategistas de Washington mudarem de opinião e buscarem um caminho para fora do impasse em que os EUA caíram novamente por causa de sua política míope.

Atravessando o Rubicão

Em 2008, a Rússia pela primeira vez desde o colapso da União Soviética saiu de suas fronteiras impostas, e em 2014 o fez novamente. O presidente russo Vladimir Putin, se dirigindo a tropas na Criméia, atravessou o Rubicão, após o que um recuo russo simplesmente não é uma opção. A OTAN, apesar da introdução ilegal e secreta de unidades individuais na Ucrânia, aparentemente carece da vontade ou do poder de intervir, o que significa que a junta está agora abandonada a si mesma. Seu apoio do Ocidente de qualquer maneira, pelo menos, se provou ambíguo. No sudeste da Ucrânia eles provavelmente darão início a um período de terror contra a população russa, que será implementado não pelo exército ucraniano (representando a estrutura do Estado ucraniano no sudeste, agora desintegrada), mas ao invés gangues militantes do "Setor Direito" e do "Svoboda", disfarçados em uniformes da Guarda Nacional da Ucrânia, possivelmente auxiliados por unidades da OTAN. Porém, a junta de Kiev não pode contar com a força total da OTAN.

Nessas condições, a tarefa agora é construir um novo Estado russo no sudeste, a Nova Rússia, que ligará a Rússia, incluindo a Criméia, com a Transnístria. O Ocidente não veria isso favoravelmente e provavelmente tentará agir de alguma forma, mas essa é tão somente a nova realidade geopolítica: a América tem que aceitar o fato de que após mais de vinte anos a Rússia retornou como força histórica. Essa é uma questão de realismo político. 

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