quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Denes Martos - Ucrânia 2014

por Denes Martos



Não surpreende.

O manual escrito para as "revoltas espontâneas" dos últimos anos também funcionou na Ucrânia. Algo disso já se farejava quando nos referimos ao Holodomor em um artigo passado. Porque, no caso específico da Ucrânia, não estamos diante de algo novo. Já no passado - e se vamos ao caso não faz tantos anos - esse sofrido país já foi empurrado a uma "revolução" com a promessa de que, depois dela, tudo melhoraria.

Pois nada melhorou. Muito pelo contrário. Há décadas que o potencial material, humano, moral e intelectual da Ucrânia vem desabando, no essencial de um modo completamente independente dos personagens que lhe prometem um suposto futuro venturoso às pessoas que vivem ali. Poucos o dizem, mas a população da Ucrânia se encontra em um caminho com risco de extinção. As estatísticas demográficas demonstram que morrem duas vezes mais pessoas do que nascem. Por esse caminho, os ucranianos pareceriam estar decididos a se apagar da história.

Desde a queda do Muro de Berlim, as revoltas que se produziram nos países outrora ocupados pelo Império Soviético - às quais se teria que agregar, certamente e ainda que tenham se desenvolvido em outro contexto, as "primaveras árabes" - terminaram sendo razoavelmente exitosas. Do ponto de vista de seus promotores, óbvio. Os fogos artificiais com que foram saudades pelos meios massivos globalizados conseguiram, pelo menos, enquadrar a opinião majoritária dentro das jaulas conceituais de efetividade bem ensaiada e comprovada.

No caso da Ucrânia o procedimento não foi diferente. O objetivo habitual de determinar quem são os bons e quem são os maus foi cumprido novamente. À enorme maioria do público nem ocorre suspeitar que ambos os bandos enfrentados possam ser maus; e não necessariamente por uma maldade intrínseca - que tampouco é descartável no caso dos dirigentes corruptos - senão porque ambos os bandos contendentes estão fatalmente equivocados.

A maquinaria midiática da plutocracia global nos está impondo o consabido quadro binário. Nos está repetindo uma e outra vez que Putin, Rússia e seus aliados são maus enquanto que os norteamericanos, a União Européia e seus representantes são os bons. Com isso temos o consabido cenário politicamente correto montado e a interpretação garantida: o que sucede na Ucrânia seria assim uma luta entre bons e maus. Os manifestantes são sempre todos bons e aqueles contra os quais se manifestam são, contrariu sensu, sempre todos maus. Com isso, a realidade resulta adequadamente coberta pelo relato.

E a realidade é que nas futuras eleições agora adiantadas o mais provável que ocorra é que os colaboradores corruptos do suposto Império do Mal terminarão sendo substituídos pelos colaboradores igualmente corruptos do suposto Império do Bem. Com o que a miséria dos ucranianos não será minimamente aliviada.

Exatamente isso é o que resulta incorreto assinalar. Não deve ser assinalado porque essas revoltas, provocadas em um falso espaço e ao longo de falsas linhas divisórias, levam a uma guerra civil permanente em meio a qual se dão as melhores condições para que a exploração plutocrática possa continuar a longo prazo. O objetivo real das revoltas instigadas é justamente esse. Que em meio a uma anarquia e um caos quase permanentes as verdadeiras riquezas em um país passem, com preços irrisórios, às mãos de uma plutocracia global que até nega sua própria existência.

A Ucrânia, aparentemente, é um país pobre. Porém, em realidade, é pobre porque a mais extensa e mais fértil terra da Europa só pode ser explorada facilmente mediante a perpetuação da pobreza. O poder global não trabalha só sobre a conjuntura. Trabalha muito em especial com planos estratégicos para o futuro. Por isso sabe que, por sobre e mais além das maravilhas tecnológicas, a terra e a água seguem sendo o fundamento essencial da vida e que isso muito dificilmente mudará no futuro. Não é nenhuma casualidade que trate de pôr sob seu controle, através de testas-de-ferro políticos de confiança, as existências desses elementos vitais.

Sucede simplesmente que a União Européia é um testa-de-ferro mais confiável para o poder global que a Rússia de Putin. A Rússia de Yeltsin era outra coisa; nela a pilhagem podia ser ilimitada. Porém Putin é perigoso e há que lhe impôr limites, para que não lhe ocorra ter idéias próprias. Porque ele as tem. O demonstrou muito bem no caso da Síria. Avançar com os mísseis da OTAN até a própria fronteira da Rússia de Putin pode chegar a ser uma séria forma de lhe sugerir que as abandone.

O entusiasmo da multidão congregada na praça Maidan responde ao fato de que boa parte da população ucraniana espera um milagre. Espera que venha por fim alguém e que, de uma vez por todas, faça algo que melhore as coisas. Os ucranianos não estão sozinhos nessa espera. São vários sobre o planeta que, de forma consciente ou inconsciente, esperam por algo parecido.

Mas vamos entender. Há, por exemplo, uma organização que se chama Center for Social and Economic Research (Centro para Investigação Social e Econômica) - CASE por suas siglas em inglês. Essa instituição, estabelecida em 1991, afirma ser privada, independente e sem fins lucrativos. Seu objetivo declarado é: "Fornecer análises econômicas objetivas e promover soluções construtivas perante o desafio das transições, reformas, integrações e desenvolvimentos a fim de promover o bem estar das sociedades". Bonito, não é? Não obstante, se investigamos um pouco mais, descobriremos que essa instituição "independente" e "sem fins lucrativos" é financiada pela Comissão Européia, pelo Banco Mundial, várias agências da ONU, pelo USAID, pela rede OSI, pela Fundação Ford, e autoridades públicas e corporações de vários países.

Independente? Sem fins lucrativos?

No caso da Ucrânia, o CASE ucraniano é continuador do Macroeconomic Reform Proyect (Projeto de Reforma Macroeconômica) lançado pelo Harvard Institute of International Development (Instituto de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard). Percebem? É a mesma instituição que inspirou as travessuras da Fundação Mediterrânea e de Don Domingo Cavallo aqui na Argentina! 

Casualidade? Não, amigos. Nisso não há casualidades. Ponham isso na cabeça.

A questão é que o CASE ucraniano já deu seu veredito. Segundo sua visão, a Ucrânia tem que passar pela inevitável quebra de suas instituições financeiras estatais. Depois podem vir as reformas que serão necessariamente dolorosas e o acordo com o Fundo Monetário Internacional. Logo depois disso se poderá falar do acordo de integração à União Européia. Segundo o que o veredito mesmo confessa, "lamentavelmente" ainda não apareceu na Ucrânia um político disposto a fazer-se cargo dessas reformas.

Conhecendo aos políticos do mundo em que vivemos não creio arriscar muito se digo que já vai aparecer.

Porém há um problema. A aventura custa ao redor de 35 bilhões de euros. De onde sairá esse montante? Dificilmente dos EUA e dos "grandes" da Europa. O cidadão norteamericano, o alemão, ou o francês, está disposto a sacrificar algo de dinheiro para aumentar a qualidade de imagem de seu televisor; dificilmente estaria de acordo em destiná-lo a uns "cossacos ensebados". O mais provável é que esse dinheiro - ou ao menos grande parte dele - resulte sugado de países quase tão pobres quando a Ucrânia. É assim que funciona. Para isso estão as dívidas externas dos países de terceira e quarta categoria.

Lhes parece que estou defendendo Yanukovich? Não se confundam. Nem mesmo tentaria. Dificilmente se possa encontrar na história ucraniana um Chefe de Estado mais corrupto que esse sujeito. Yanukovich fez crer aos ucranianos que poderiam se integrar à União Européia. Em Bruxelas lhe comunicaram que estava sonhando. Que a Ucrânia primeiro tinha que abrir suas fronteiras, eliminar todos os encargos aduaneiros e aí veriam o que se poderia fazer depois. Yanukovich aceitou o trato e disse aos ucranianos: "já vem a UE e o bem estar para todos". Alguns acreditaram. Pelo mote: "rouba mas faz".

Depois os russos também fizeram sua oferta e também a eles disse que estava de acordo. E o jogo duplo lhe saiu mal. Ao final, tanto Bruxelas como Moscou lhe retiraram o apoio. Como retiraram até vários de seus próprios partidários ao ver que perdia respaldo e poder. Yanukovich é um cadáver político nesses momentos. Tão cadáver como a quase centena de mortos que ficaram na praça. Dificilmente consiga ressuscitar.

Mas após a saída muito pouco honrosa do corrupto Yanukovich voltou o clã de Yulia Timoshenko. Um clã de corruptos até a medula. Não há por que comprar a imagem midiática temperada com uma muito conveniente cadeira de rodas. A loira algo envelhecida no hospital da prisão não tem méritos para se adjudicar o título de mártir. Em sua época não foi parar atrás das grades por defender os direitos humanos. Simplesmente perdeu na guerra que os cleptocratas travavam entre si.

Vitali Klitschko construiu seu partido com dinheiro proveniente da Fundação Konrad Adenauer e tem, ademais, numerosos outros interesses que o relacionam com a Alemanha. Este ex-boxeador que trocou o ringue pela arena política vendeu aos entusiastas da praça Maidan um bilhete de ida à União Européia. Porém sua verdadeira base de sustentação é a máfia ucraniana. Daí surgiram as patotas organizadas que enfrentaram a policia na praça. São elas que estão convocadas a "restabelecer a ordem" na Ucrânia. O que não anuncia nada bom para quase 10 milhões de russos, polacos, romenos e húngaros que vivem no território da atual Ucrânia.

A Ucrânia não enfrenta um futuro promissor. Na ordem interna tirou um ladrão e deixou chegar em seu lugar uma quadrilha de ladrões. Na ordem externa só conseguiu obter o veredito do CASE.

Nas próximas semanas, quando se hajam despejado os eflúvios da vodca caseira e o entusiasmo multitudinário, quando a única coisa que reste for a ressaca de uns dias de paroxismo, quiçá os ucranianos descubram que tudo terá que começar de novo. Quiçá com outra praça e contra quem ontem aplaudiram.

O triste é que poderiam ter evitado tudo isso.

Porque se entendessem realmente o que lhes está acontecendo, quiçá não se massacrariam entre si.

Descobririam que seu verdadeiro inimigo está nesse poder financeiro mundial que insiste em afirmar que não existe, mas perante o qual se inclinam os corruptos de todos os países do mundo.

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