quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Entrevista com Alain de Benoist sobre a Crise Ucraniana

Entrevista dada à Rede Estatal Iraniana



Como avalia os acontecimentos na Ucrânia?

É-nos difícil de avaliar devido a estarmos de certa maneira ainda no meio do caos, há dias levaram-se a cabo confrontos armados em Kiev entre os manifestantes e as forças da polícia, hoje anunciaram-se eleições antecipadas, etc.  Não dispomos do distanciamento necessário para ver se caminhamos para uma crise e, principalmente, quem serão os beneficiários. Surpreende-me que a este respeito as potências ocidentais, e em particular a União Europeia, tenham deitado muita lenha para o fogo apoiando manifestantes da oposição que só tinham, de fato, como ponto de união a hostilidade para com o presidente Yanukovych, pois tudo o mais os divide.

Que opina acerca da reação imediata da Rússia, aludindo à intenção de um golpe de Estado?

Compreendo muito bem a posição de Lavrov ao dar-se conta que estes eventos foram controlados à distância, do estrangeiro, produzindo-se uma ingerência dos Estados Unidos e da Europa, cujos alguns representantes de topo se deslocaram à Ucrânia para animar os manifestantes a levarem a cabo ações que não teriam admitido no seu próprio país. Penso também que a oposição é extremamente variada, tal como na Síria há uns meses onde os opositores correspondiam a facções com opiniões completamente diferentes umas das outras. Na Ucrânia o padrão é o mesmo, sendo que uns são favoráveis à União Europeia, a favor da OTAN e dos Estados Unidos e outros são nacionalistas ucranianos anti-russos, portanto apresentar a oposição como se fosse um movimento unido parece-me extremamente questionável.

Podemos falar em risco de desmembramento do país?

É uma hipótese a ter em conta, a Ucrânia encontra-se dividida há anos, uma parte solidariza-se com a Eurásia Oriental, a Rússia e o Leste enquanto que a outra parte se sente politicamente, religiosamente e culturalmente mais próxima da Europa Ocidental. Esta velha separação combinada com os atuais acontecimentos podem levar-nos a pensar que há um risco, se não de uma guerra civil pelo menos de uma separação.

Não se deslocaram à Ucrânia somente líderes europeus, mas também alguns representantes oficiais dos Estados Unidos, como explicar a atitude dos Estados Unidos?

Há muito que os Estados Unidos tentam cercar a Rússia e impedir a sua liberdade de acção, lembram-se das revoluções coloridas na Geórgia? O objetivo é sempre o mesmo: estender a OTAN até à fronteira da Rússia, algo que a Rússia entende como uma provocação ou até mesmo como uma agressão. A situação geográfica e geopolítica da Ucrânia tornam-na numa posição crucial entre a Rússia e os países da Europa Ocidental e Central. Os Estados Unidos estão a tentar aumentar a sua influência, de todas as maneiras possíveis, nos países da anterior União Soviética com o intuito de cercar cada vez mais a Rússia. Não é por mero acaso que as visitas dos representantes dos Estados Unidos a Kiev tenham por base uma campanha de opinião contra a Rússia e Vladimir Putin, como nos melhores momentos da Guerra Fria. Os Estados Unidos estão a tentar maximizar os seus próprios interesses por intermédio de altercações nacionais que não são muito habituais nesses países.

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