sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

José Alsina Calvés - Contribuições para o Debate sobre a Crise Ucraniana

por José Alsina Calvés



Desde uns dias há um intenso debate nas redes sociais e nos fóruns de Tribuna da Europa sobre os acontecimentos na Ucrânia. Com este artigo pretendo fazer alguma contribuição ao mesmo desde o ângulo da geopolítica.

É evidente que os militantes de grupos nacionalistas tiveram uma participação notável nos acontecimentos, e foram sem dúvida a "força de choque" do movimento opositor. Estes setores nacionalistas pertencem à parte ocidental do país, que sempre foi pró-ocidental e anti-russa. Desconheço as propostas ideológicas desses grupos, mas suspeito que confundem ser anti-russo com ser anticomunista, esquecendo que na atualidade a Rússia já não é a URSS. Sua consigna é construir uma Ucrânia independente tanto da UE como da Rússia.

Porém não há que olvidar que junto a estes setores nacionalistas há forças políticas neoliberais e partidárias da integração na UE, com tudo que isso comporta. De momento são essas forças as que tomaram o poder.

Apresento duas perguntas:

1 - Há alguma possibilidade dessas forças nacionalistas se imporem aos liberais e tomar o poder?

2 - Em caso afirmativo, possui alguma possibilidade geopolítica essa Ucrânia não integrada em nenhum dos dois blocos?

Ignoro a resposta para a primeira pergunta. Não tenho elementos para valorar o equilíbrio de forças, porém vamos ser otimistas, e supor que os nacionalistas consigam se impôr. De início isso suporia a secessão, ou ao menos a tentativa, das regiões orientais, cultural e linguisticamente russófonas. Não esqueçamos que a Ucrânia é um país relativamente recente e bastante artificial. Aleksandr Dugin, em A Quarta Teoria Política já adverte sobre a instabilidade ucraniana e as muitas possibilidades de fratura.

As possibilidades de viabilidade dessa Ucrânia não integrada em nenhum dos dois blocos (UE ou aliança com a Rússia) são praticamente nulas. Isso torna muito improvável a tomada de poder por parte dos nacionalistas, e, em caso de consegui-lo, ainda mais improvável de manter sua consigna de uma Ucrânia independente.

No momento atual, a Rússia é a única potência capaz de se opor ao mundialismo e ao mundo unipolar dirigido pelos EUA. Há forças muito poderosas interessadas em que a Ucrânia entre na UE. Para a própria UE é uma extensão de sua influência mundialista (falsamente européia). Para os EUA significa debilitar o bloco formado pela Rússia de Putin e seus aliados. Não esqueçamos que sem o poder desse bloco, a Síria teria caído há tempo em mãos dos terroristas títeres da Arábia Saudita (por sua vez títere dos EUA).

Resulta muito curiosa a versão que os meios de informação do sistema (começando pela TV3) tem dado do processo ucraniano. Em nenhum momento utilizaram as expressões "extrema-direita", "neofascistas" ou "neonazistas" para se referirem aos militantes nacionalistas. Unicamente falam de opositores "radicais" e "moderados". Resulta surpreendente tendo em conta a facilidade com que colam essa etiqueta a qualquer um que se oponha ao sistema.

Minha conclusão é que os nacionalistas ucranianos atuaram como força de choque da oposição liberal, mas que vão participar pouco ou nada no poder. Dentro de pouco tempo veremos a Ucrânia integrada na UE, e, para piorar, estes nacionalistas fora da lei, se se opuserem ao processo. Ignoro qual será a atuação russa.

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