sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Robert Steuckers - Karl Haushofer

por Robert Steuckers



Nascido em 27 de agosto de 1869 em Munique, Karl Haushofer escolheu a carreira militar desde 1887. Oficial de artilharia na armada bávara em 1890, desposa em 8 de julho de 1896 Martha Mayer-Doss, descendente de uma família de origem israelita de Munique. Lhe deu dois filhos, Albrecht (nascido em 1903) e Heinz (1906). Subindo rapidamente todos os degraus da hierarquia militar, Haushofer se converte em professor na Academia de Guerra em 1904. Em outubro de 1908, é enviado ao Japão para organizar ali a armada imperial.

Encontra na Índia a Lorde Kitchener, que lhe prediz que todo confronto entre Grã-Bretanha e Alemanha custará às duas potências suas posições no Pacífico em benefício dos EUA e do Japão, advertência profética que Haushofer reterá sempre, acima de tudo quando elaborará suas teses sobre a área do Pacífico. Logo de seu longo périplo, é designado ao regimento de artilharia da campanha da 16ª divisão japonesa. Em 19 de novembro de 1909, é apresentado ao Imperador Mutsuhito (1852-1912), iniciador da era Meiji, e à imperatriz Haruko. Regressando à Alemanha, passa pela Sibéria tomando o transiberiano, notando as imensidões continentais da Eurásia russa.

Em 1913, apresenta sua primeira obra destinada ao grande pública, Dai Nihon (O Grande Japão), balanço de sua experiência japonesa que conhecerá um forte êxito. Em abril de 1913, começa a seguir os cursos de geografia na Universidade de Munique, em vista de obter o título de doutor que obterá de fato sob os auspícios do professor August von Drygalski. Mobilizado em 1914, sai em primeiro lugar para a frente ocidental, onde combaterá em Lorena e Picardie. Em 1915, é deslocado para a Galícia para retornar rapidamente à Alsácia e à Champanha. Em 1916, se encontra nos Cárpatos. Termina a guerra na Alsácia. Durante as hostilidades, seu pensamento geopolítica se especifica: os historiadores ingleses Macaulay e Gibbon, o teórico alemão Albrecht Roscher lhe dão a estrutura onde se inscreverão suas reflexões históricas e políticas enquanto que Ratzel e Kjellen lhe fornecem a armadura de seu pensamento geográfico.

Logo do armistício, é nomeado comandante da 1ª brigada de artilharia bávara. Se reinscreve na universidade, apresenta uma tese sobre os mares internos do Japão (17 de julho de 1919), é nomeado professor de geografia em Munique e dita seu primeiro curso sobre a antropogeografia da Ásia Oriental. Conhece Rudolf Hess em 4 de abril de 1919; uma amizade indefectível unirá a ambos homens. Em qualidade de dirigente nacional-socialista, Hess estenderá sempre seu braço protetor sobre a esposa de Haushofer, descendente por parte de pai de uma velha casta separada, e sobre seus filhos, considerados como "semi-judeus" logo da promulgação das leis de Nuremberg.

Durante a década de 20, Haushofer funda a célebre Revista de Geopolítica, destinado a dar aos diplomatas alemães uma consciência prática dos movimentos políticos, econômicos e sociais que vivificam o mundo. Os principais especialistas em relações internacionais colaboraram nela, desde a publicação do primeiro número em janeiro de 1924. Paralelamente a essa atividade, organiza uma associação, a Associação para os Alemães do Estrangeiro, que se dá na ambição por defender e ilustrar a cultura das minorias alemães fora do Reich. Desde 1923, Haushofer aceita organizar os trabalhos preparatórios para a fundação de uma "Academia Alemã". Essa academia será oficialmente fundada em 5 de maio de 1925. Em 1927, apresenta em Berlim seu estudo magistral sobre as fronteiras. Durante esse decênio, Haushofer encontra vários personagens importantes: Ludendorff, Spengler, os coronéis e diplomatas japoneses Kashyi, Oshima e Koozuki, o almirante Tirpitz, o general suíço U. Wille, o cardeal Schute, Konrad Adenauer, Hitler e o Conde Coudenhove-Kalergi, fundador do conceito de "Pan-Europa".

Seus filhos iniciam uma carreira brilhante, Albrecht, fez uma viagem ao Brasil logo após ter adquirido seu título de doutor em filosofia em Munique. Será secretário de seu pai durante os trabalhos preparatórios à fundação da "Academia Alemã", logo se converterá em secretário da "Sociedade de Geografia" de Berlim.

O cadete, Heinz, obtém seu diploma de engenheiro agrônomo. Em 1930, Karl Haushofer se converte em sócio da Sociedade Geográfica Americana. Efetua numerosas rodadas de conferências na Áustria, na Tchecoslováquia, na Polônia, na Itália e nos Países Baixos. Em 10 de março de 1933, um comando nacional-socialista vasculha a casa dos Haushofer em busca de armas. Gozando da proteção de Hess, que lhe outorga uma "carta de proteção" em 19 de agosto de 1933, Haushofer e seus filhos conservam seus postos universitários, apesar de protestos, a propósito da estirpe de sua esposa e mãe. Em 11 de março de 1934, Haushofer é nomeado Presidente da "Academia Alemã". Permanecerá até abril de 1937. No transcurso desse decênio marcado pelo hitlerismo, Haushofer reencontra, ademais dos dignatários do novo regime, o próprio Hitler, o historiador Hans Kohn, o prefeito independentista de Calcutá, Subas Chandra Bose, o primeiro-ministro húngaro Gombos, o embaixador em Roma Ulrich von Hassell, o Monsenhor Pio XI, Konrad Henlein, o líder dos alemães dos Sudetos, o embaixador do Japão Conde Mushakoji, o almirante Canaris, o Cardeal Pacelli, etc.

É principalmente seu filho mais velho, Albrecht Haushofer, que ocupa um lugar importante na diplomacia alemã a partir de 1935. Aquele ano, de fevereiro a dezembro, Albrecht efetua, por conta da diplomacia alemã, seus viagens à Inglaterra. Regressa ali no ano seguinte. Em 1936 é enviado para uma "missão secreta" em Praga e reencontra Benes. Em 1937, é enviado aos EUA e Japão. Quando a guerra começa, Haushofer entra em profunda depressão: tinha querido evitá-la. Porém o destino da família está selado quando Hess voa para a Inglaterra em maio de 1941. Albrecht é preso em Berlim e Karl Haushofer é convocado pela Gestapo. Em 1944, após o atentado de 20 de julho contra Hitler, a Gestapo vasculha a casa do geopolítico e o interna em Dachau. Albrecht Haushofer passa à clandestinidade e não é preso até dezembro. Heinz, o cadete, é encerrado na prisão de Moabit em Berlim com sua esposa. Em 22 ou 23 de abril de 1945, um comando executa Albrecht com um disparo na nunca. Heinz é liberado.

Logo após a queda do Terceiro Reich, Haushofer é interrogado por oficiais americanos, entre os quais o professor Walsh que tenta protegê-lo. Em 21 de novembro de 1945, um decreto das autoridades de ocupação retiram seu título de professor honorário e seus direitos a uma pensão. Deprimidos, Martha e Karl Haushofer se suicidam em 10 de março de 1946. A geopolítica de Haushofer era essencialmente anti-imperialista, no sentido de se opôr aos conquistadores das potências talassocráticas anglo-saxãs. Estes últimos impediam o desenvolvimento harmonioso dos povos que submetiam e dividiam inutilmente aos continentes. Seduzido pelas idéias pan-asiáticas e pan-européias, Haushofer confessava ultrapassar os nacionalismos e queria contribuir, mediante seus escritos, para o surgimento dos "grandes espaços continentais" formados por nações solidárias. Em seguida, desejo a colaboração dos europeus, russos e japoneses em uma grande aliança eurasiática, fechada às influências inglesas e americanas.

As Fronteiras e sua Significação Geográfica e Política (1927)

Nesse estudo geral sobre o fenômeno histórico-geográfico das fronteiras, Haushofer exorta a seus compatriotas a terem uma idéia clara e precisa do que são suas fronteiras. Uma consciência concreta, quase instintiva, das fronteiras se impõe naturalmente nos povos fortes contra a ausência das formas territoriais que implicam as ideologias cosmopolitas, abstratas e ignorantes dos fatores tempo e espaço Concretas, as fronteiras são fatos biogeográficos que fazem ranger os conceitos jurídicos quando se quer encerrar os fluxos viventes. Os conceitos jurídicos, que quiçá correspondem a antigas fronteiras, são resíduos, girados no fio dos tempos hostis na Vida. Haushofer deduz sua teoria das fronteiras das obras de Ratzel, Penk, Sieger, Volz e dos protagonistas das escolas inglesa (Holdich, Cruzon, Fawcett, Lyde) e francesa (Ténot). Sir Thomas Holdich é aquele que, aos olhos de Haushofer, soube melhor teorizar a arte de fazer fronteiras justas e duráveis O mar não separa senão une, no sentido que o literal oposto sempre atrai, atração que provoca a comunicação.

As fronteiras biologicamente justas são aquelas que são pensadas, concebidas e traçadas partido de um enfoque multidisciplinar e não estritamente jurídico. O enfoque multidisciplinar científico permite conceber e traçar fronteiras estáveis, capazes de desposar o fluxo do real e mudar o caso que vence. Sem concepção viva das fronteiras, alguns povos, principalmente aqueles que não tem colônias, portanto não tem reservas territoriais, são restringidos, às vezes, a ter que recorrer à limitação dos nascimentos com o fim de manter constante a cifra de sua população. Haushofer denuncia o egoísmo das nações colonialistas que condenam à regressão inclusive até o desaparecimento dos povos que não deixaram sua área de sedentarização original. Essa desigualdade de povos em matéria de espaço é a injustiça e, portanto, se deve conceber, daí em diante, as fronteiras em um espírito evolucionário e já não mais estático/jurídico. Haushofer classifica os diferentes tipos de fronteiras (naturais, resultados de equilíbrio diplomático, defensivas, fluviais, litorais, etc). insistentes, seguindo a geografia francesa. Eugène Ténot, sobre as fronteiras desmembradas, permitindo a penetração militar do território do vizinho hostil. França e Alemanha, sem o nevado alsácio-loreno, tem fronteiras desmembradas. Haushofer critica as vontades (principalmente a vontade francesa, herdada de César) de querer estabelecer fronteiras duráveis ao longo dos rios: rios, como os mares, se unem e não se dividem. Um estudo objetivo e geopolítico das fronteiras é útil para todos os homens políticos, qualquer seja sua adesão ideológica.

Geopolítica das Idéias Continentalistas (1931)

No princípio dos anos 30, Haushofer se converteu em advogado das idéias que buscam promover grandes agrupamentos continentais, superando a estreiteza territorial e econômica dos Estados de tipo clássico. Em dimensões, só os impérios mongóis, unificadores da massa continental eurasiática, já executaram, à risca, uma Pan-Idéia. Em 1900, o continente australiano é unificado em um só Estado porém sem seu complemento insular, Nova Zelândia.

A idéia panafricana descansa sobre uma vontade de emancipação racial. A idéia panamericana se deu a princípios do século das estruturas jurídicas (Doutrina de Monroe de 1823, assembléias regulares de Estados americanos, fundação de um departamento panamericano). A Pan-Europa só ficou em um sonho. A história igualmente conheceu os "circum-marinos" panideanos como Roma e o Islã no Mediterrâneo. O Império britânico é "circum-marino" no Oceano Índico. Os EUA, por um lado, e o Japão, pelo outro, tentam unificar sob sua égide todos os rios do Pacífico. Especialista das questões nipônicas e do Pacífico, Haushofer insiste bastante nas sinergias sobre o contorno nas águas dessa imensidão oceânica. A idéia panpacífica tem uma antiguidade de 400 anos: Nuñez de Balboa, em 1513, a reivindica para a Coroa da Espanha. Sir Francis Drake aceitará o desafio em 158, reduzindo a nada essa pretensão. Os americanos tomarão o lugar dos espanhóis do século XIX, logo que o Japão tenha renunciado povoar a Micronésia, que a Rússia haja abandonado o Alaska e o Mar de Bering e que a aliança tácita entre russos e espanhóis para evitar o poder americano se enfraqueça. O Instituto Pacífico de Honolulu lança depois as bases de uma administração americana da maior zona oceânica do mundo.

Para Haushofer, a organização de tal império circum-marino é a idéia política mais grandiosa da história. Porém sela ao mesmo tempo o destino do Japão que, por ter descuidado do povoamento da Micronésia, chegou muito tarde ao curso e deverá se opôr aos EUA para adquirir liberdade de movimento. As idéias pan-pacíficas e panamericanas são evolutivas, enquanto que as idéias panasiáticas são revolucionárias e sustentadas pelos movimentos comunistas russos ou independentistas chineses (Sun Ya-Tsen) e hindus (B.K. Sarkar; Rabinidranath Tagore).

A organização a longo prazo das idéias circum-marinas não foi possível na antiguidade porque as técnicas de comunicação eram insuficientes. Alexandre não pôde manter seu império porque não pôde absorver o espaço sarmato-cita, povoado de nômades rebeldes avessos a toda tentativa de organização. Quanto à idéia eurasiática, se subdivide em duas correntes: a corrente grande eurasiática, onde a Europa é considerada como uma península da grande massa territorial que é a Eurásia, e a corrente pequena eurasiática, nascida na Rússia, que simplesmente deseja apartar a vista da Rússia do Ocidente e dirigir o fluxo de energia russo para o leste. É impossível traçar uma fronteira definitiva entre Europa e Ásia, já que o imenso território que se estende da Manchúria aos Cárpatos, rota de migrações, forma uma unidade indivisível. Haushofer reúne de certo modo os eurasiáticos russos (Nicolás S. Timachey e N. de Boubnov), assinalando com eles que o espaço ucrano-polaco é uma zona de transição e enfrentamento entre Rússia e Europa no fundamento germano-romano. A Eurásia dos teóricos "eurasiáticos" russos correspondem em última instância ao espaço que MacKinder denominava de "eixo central da história". Os "eurasiáticos" russos, explica Haushofer, desenvolvem um projeto geopolítico hostil às culturas decadentes da Europa e Ásia, semelhante ao projeto autárquico e autoritário dos bolcheviques, exceto no domínio religioso, onde preveem um tzar escolhido e uma adesão obrigatória à religião ortodoxa.

Frente a essa vontade dinâmica, os panasiáticos chineses e indianos se opõem a outra vontade revolucionária e a Pan-Europa de Briand e de Coudenhove-Kalergi se refugiam firmemente na defesa do status quo, à maneira da Santa Aliança de Metternich. O panislamismo, a grande idéia árabe, as idéias panindianas e a grande China são outras idéias semelhantes que tratam do espaço eurasiáticas. A solução é evitar todo conflito dilatador e divisório: reconciliar as idéias paneuropéias, paneurasiáticas e panasiáticas.

Para Haushofer, a marcha da humanidade rumo às entidades de dimensões continentais é ineludível: uma primeira etapa poderia ser as semelhanças "subcontinentais", teorizadas pelo geógrafo E. Banse em 1912. Este falava de 12 áreas: Europa, a Grande Sibéria, Austrália, Oriente, Índia, Ásia oriental, a África, a Mongólia (com acesso aos mares via China central, Indochina e Indonésia), a Grande Califórnia, as Terras Indígenas (voltadas para o Pacífico), América (parte da América do Norte voltada para o Atlântico) e a Amazônia. Essa classificação permite pensar uma organização de pessoas sobre a base subcontinental.

A dinâmica que leva todos esses projetos reduz a nada as pretensões de querer paralisar uma quantidade de partes do mundo em fronteiras exíguas e inviáveis.

Política Mundial Atual (1934)

Analisa as grandes instâncias da política mundial do pós-Versalhes, Weltpolitik von Heute começa por definir o espaço centro-europeu: para Haushofer como para MacKinder, a Mitteleuropa é a soma dos espaços do Reno e do Danúbio. Para o francês Martonne, pelo contrário, este é o cordão sanitário aliado à França e instrumentalizado contra Alemanha e Rússia. Este cordão sanitário é uma construção artificial, afirma Haushofer, mantida pelas regras abstratas da Sociedade das Nações. Fora da Europa, o mundo foi europeizado. A América do Sul foi "desindigenizada", o Oriente Médio árabe-persa foi dividido em entidades antagônicas em benefício dos ingleses, Índia está sob tutela inglesa, etc. As principais consequências da Primeira Guerra Mundial são: 1) a divisão da Europa entre nações colonizadoras e possuidoras de vastos espaços de reserva, por um lado e nações sem espaço de reserva, aprisionadas em sua área de povoamento inicial, pelo outro; 2) o Império britânico se desloca; 3) os povos colonizados da Ásia reclamam sua independência. Frente a essa ordem, Haushofer exalta uma política que aponta a liberar o espaço no planeta para os europeus que estão despossuídos (alemães, húngaros, romenos, polacos, tchecos, gregos, eslovacos, búlgaros e iugoslavos, onde o destino está ligado ao da Alemanha apesar da "Pequena Entente" teleguiada por Paris); acelerar a decomposição do Império britânico; dar uma mão as colonizados na revolução contra seus dominantes. Essa política implica opôr a lex feranda à lex lata, o devir natural ao estatismo dos parágrafos e dos tratados impostos pelos vencedores egoístas.

Para adquirir o status de grande potência, se deve, explica Haushofer, enfocar a autarquia e rechaçar as monoculturas. A autarquia, factível no sucessivo no grande espaço federado e já não mais nas estruturas bastante exíguas dos Estados-Nação clássicos, permite a independência alimentária e industrial graças a uma agricultura e uma indústria diversificadas, que respondem a todas as necessidades da população. A tentação de edificar "monoculturas" ultraespecializadas deforma a economia e a fragiliza no caso de crise. Weltpolitik von Heute define ademais a noção de "grande potência", enumera os tipos de dependência política (vassalagem, clientelismo, protetorados virtuais, etc), explicita as formas de apropriação de espaços não mais dominados (os pólos) e de dominação de espaços às defesas desmanteladas (Alemanha após Versalhes).

Mares do Mundo e Potências Mundiais (1937)

Obra completamente consagrada à relação entre a dominação das zonas oceânicas e o poder político e militar das nações, Weltmeere und Weltmachte começa por padronizar os trabalhos de oceanografia física que incrementaram o saber dos homens sobre os mares. Esses conhecimentos fáticos destaparam uma prática política de domínio dos oceanos. O alto mar, depois dos gregos e dos romanos é o "bem de todos os homens" (koinon panton anthropon, dizia Teofos) ou "por sua natureza aberta a todos". Sir Thomas Barclay inaugura o debate jurídico para saber se o mar pertence a todos ou a ninguém (se é res communis ou res nullius).

Em 1894, E.W. May em seu Tratado sobre Direito Internacional, recorda que, os princípios indiscutíveis do direito internacional moderno, existe aquele que impede às potências se apropriarem com toda exclusividade das zonas marítimas (a idéia de mare liberum formulada por Hugo Grotius em 1609). Para Haushofer essa visão é hipócrita quando Grã-Bretanha aplica sua estratégia de bloqueio ou se apodera dos cabos submarinos de telecomunicações, se apodera de grandes partes de território marinho. A idéia de mar livre, defendida pelos juristas ingleses, conduziu assim a uma dominação quase exclusiva dos mares do mundo pela Grã-Bretanha, única potência capaz de utilizar eficazmente a arma do bloqueio. As outras potências são a partir desse fato deixadas por sua conta nessa luta pelo domínio dos espaços marinhos.

A dominação dos mares ocorre quando uma potência logra se dotar de órgãos oceânicos eficazes. As talassocracias, como ilustra o exemplo veneziano, desdobram seu poder a partir de um território reduzido e conquistam barras, faixas litorâneas, quer seja tanto de "ventosas aspirantes" relacionadas com a metrópole por tentáculos móveis e elásticos. As talassocracias começam muitas vezes por dominar mares interiores (o Egeu por Atenas, o Mediterrâneo por Roma, o Mar do Japão pelo Japão). São seja dos Estados litorais ou dos Estados insulares. As talassocracias litorais são mais frágeis, já que estão diretamente ameaçadas por seu interior. As talassocracias insulares dispõem ademais de triunfos para passar da dominação de um mar interior à dominação das grandes vias de comunicação transoceânicas. As talassocracias litorais são construções híbridas, obrigadas a dirigir conjuntamente dois tipos de políticas diferentes, uma continental, a outra marítima (Holanda, Portugal), o que esgota seus recursos e os faz perder na competição frente as talassocracias insulares. Os Estados continentais, como Alemanha, estão prejudicados por sua geografia e não podem dar o melhor de si em um mundo ademais fechado, completamente explorado, onde as talassocracias tiveram um maior progresso no domínio das bases de ultramar, de zonas econômicas que asseguram a subsistência e espaços de colonização onde se expande o excesso de sua população.

A talassocracia britânica é hostil aos canais interiores e à perfuração dos istmos já que essas aberturas relativizam ipso ipso a importância das vias marítimas que controla. Lord Palmerston foi hostil à construção do Canal de Suez já que a França tinha o domínio. A Inglaterra igualmente criticou a construção do Canal do Meio, entre Bordeaux e o Mediterrâneo, já que essa reduzia consideravelmente a importância estratégica de Gibraltar. Ao momento em que a política já não pode ser mundial, os povos que querem sobreviver devem recorrer necessariamente ao largo, aos oceanos, ou organizar seus espaços continentais com o fim de escapar da dominação de uma ou outra potência marítima. Essa organização continental passa pela construção de rotas, de vias férreas, de sistemas de navegação fluvial, etc, controladas pelas únicas potências continentais.

O Bloqueio Continental: Mitteleuropa, Eurásia, Japão (1941)

Escrito logo após o pacto germano-soviético, essa obra persegue dois objetivos: 1) lançar as bases de uma aliança ítalo-germano-nipo-soviética, que reorganizaria a massa continental eurasiática e africana; e 2) reivindicar para a Alemanha o regresso de suas colônias africanas, subtraídas após Versalhes. Analisando os textos editados pelos institutos britânicos e americanos, Haushofer revela uma ameaça recorrente, principalmente a de Lord Palmerstone; e a do geógrafo Homer Lea, de ver se constituir uma aliança entre Alemanha, Rússia e Japão. Tal aliança escaparia totalmente ao controle das talassocracias britânica e americana. As talassocracias, escreve Haushofer, utilizam a política da anaconda: prendem suas presas e as enforcam lentamente. A massa eurasiática se está devidamente organizada, é uma presa bastante grande para a anaconda anglo-americana, uma massa territorial tal, que escapa a todo bloqueio.

A idéia de tal aliança germinou tanto nos cérebros russos e japoneses como nos alemães ou europeus. No momento da guerra russo-japonesa de 1905, quando os britânicos e japoneses conjugam seus esforços para fazer fracassarem os russos, uma parte do corpo diplomático japonês, da qual o embaixador em Londres Hayashi, o príncipe Ito, o primeiro-ministro Katsura e o conde Gote, deseja uma aliança entre alemães, russos e japoneses contra as tentativas inglesas de controlar todo o tráfego marítimo mundial.

Frente a tais proposições, a Alemanha de Guilherme II, deplora Haushofer, fica prisioneira do mito do "perigo amarelo", percebendo muito tarde que os asiáticos são menos perigosos para o futuro da Alemanha que os britânicos e americanos. Na Rússia, a idéia eurasiática foi encarnada pelo Ministro Witte, criador da ferrovia transiberiana e seguidor de uma paz separada com a Alemanha em 1915. O japonês Goto falava da necessidade de uma troika, onde o cavalo central, o mais corpulento e robusto, teria sido a Rússia, flanqueada de dois cavalos mais nervosos, Alemanha e Japão. Na África, a má gestão britânica deixou ir por água a baixo a obra construtora dos colonos agricultores alemães; com a vontade de desenvolver culturas duradouras, os ingleses substituíram a exploração capitalista, que provocava a urbanização das massas africanas, enfraquecendo a agricultura, o que provoca desertificação e fome. Os japoneses, pelo contrário, administraram muito bem a Micronésia ex-alemã.

A "troika" completada pela Itália de Mussolini deve favorecer os independentistas árabes e hindus; a Rússia, em particular, deve se apresentar como a protetora dos armênios e dos curdos com o fim de conectar Mosul com o bloco continental em gestação.

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