domingo, 29 de dezembro de 2013

Jean Thiriart - Os Pretorianos Políticos

por Jean Thiriart



Ou O Preço da Potência Militante

A sociedade plutodemocrática, guiada pelas virtudes da comodidade (facilidade) e não pelas do combate (esforço, risco, compromisso), faz gala de toda uma série de qualidades que em realidade não possui.

A maioria dos resistentes são uns farsantes [refere-se o autor aos membros da Resistência na Segunda Guerra Mundial. NdT], os antigos combatentes igualmente, e o mesmo ocorre com os "heróis da Frente Oriental". Tudo isso é como material contrachapado, trata-se realmente de meio milímetro de bom carvalho sobre trinta milímetros de pinho barato.

O poder da corrupção de uma sociedade hedonista é excessivo, pois afeta inclusive à vida militante dos partidos revolucionários que, por definição, se consideram fora da coletividade degenerada.

Muitos revolucionários são como o material contrachapado. Existem falsos militantes como existem falsos resistentes. Na vida civil, existe todo um ritual da falsa virilidade: as faixas de "rally" pintadas nos carros, os tubos de escape ruidosos, as jaquetas de couro, os bigodes ao estilo dos "mercenários de Katanga". Retiremos esses adornos e só nos ficarão empregados medíocres, homens sem cor, heróis de taverna.

Na vida política, pelo menos nos partidos considerados como duros, sucede o mesmo. Os militantes de contrachapado da extrema-esquerda levam ostensivamente uniformes maoístas, cortam as barbas ao estilo Castro, são intencionalmente repugnantes.

Os pseudomilitantes de extrema-direita também tem seu ritual: as noitadas regadas a cerveja, os discos alemães, as cruzes de ferro compradas em feiras, as boinas ao estilo "Bigeard" [atualmente a estética de uns e de outros variou ainda que sejam igualmente reconhecíveis. NdT]. Isso quanto aos simples. Para os intelectuais, a virilidade consiste em recitar os poemas de Brasillach escritos em Fresnes. Tenho que esclarecer, de passagem, que minha simpatia humana é dirigida a Brasillach e não a seus verdugos. Porém os garotos que quarenta anos mais tarde jogam duro lendo autores fuzilados são, desde o ponto de vista revolucionário, uns impostores. Assim pois, a técnica do contrachapado afeta inclusive os meios revolucionários paraprofissionais.

Seita Política e Seita Juvenil

Mais adiante, farei uma descrição da seita política e das fontes de sua potência. Aqui vamos nos ocupar da seita juvenil.

O adolescente deve passar por um portal psicológico em que está obrigado a se afirmar para poder entrar no mundo dos adultos.

Nas sociedades primitivas (na África e na Amazônia, por exemplo) essa passagem é o objeto de um ritual preciso, imutável, formal, indiscutível. Depois de ter sofrido as provas (geralmente de coragem e mutilações superficiais), o adolescente se faz homem. Uma vez superado isso, seu caráter de adulto não se põe em dúvidas. Nesse aspecto concreto, as sociedades primitivas estão melhor organizadas que as nossas. Posteriormente, na Antiguidade grega, por exemplo, os ritos de adolescência eram também muito precisos, muito ritualizados oficialmente.

Hoje tudo isso foi deixado à iniciativa pessoal. As sociedades plutodemocráticas não se preocupam com esses problemas tão importantes. Assim, os adolescentes criam eles mesmos os ritos: o batismo estudantil, a pornografia verbal, o alcoolismo juvenil, e - o caso que mais nos interessa - o pertencimento a uma seita "dura". Os fenômenos neonazis do pós-guerra são assombrosamente frequentes entre os muitos jovens. Não se trata aqui de opção filosófica, senão de captação de um ritual mágico. Todo um maravilhoso mundo de terror vinculado às lembranças da SS e do NSDAP. Assim, certos jovens atravessam a obrigatória crise de afirmação frente a sua condição de adulto criando frequentes seitas juvenis.

A máquina de propaganda político-científica americano-sionista apresenta essas seitas juvenis como seitas políticas. Essa manipulação é muito rentável para os sionistas, para os meios fanáticos judaicos de extrema-esquerda. A perpetuação do "perigo fascista" é o mito justificativo de sua própria ação. É o pretexto para reclamar umas centenas de milhões de marcos a mais da República Federal Alemã. Todos os círculos denominados de estudantes "nacionalistas" substituem igualmente essas seitas juvenis. Isso dá lugar a que os membros desses grupos se renovem continuamente. O jovem permanece em geral um máximo de um ou dois anos, o tempo necessário para superar sua crise. Uma vez cruzado o umbral, uma vez que se considera adulto, abandona a seita juvenil e se integra facilmente na sociedade adulta e burguesa.

Ocorre às vezes, que à cabeça dessas seitas nos encontramos com alguns homens de idade que não as manipulam para conseguir objetivos políticos, senão para resolver seus próprios problemas psíquicos. A impotência sexual devida à idade ou ao vício em certos quarentões ou cinquentões se vê sobrecompensada por algumas campanhas de imprensa racistas de caráter sexual (a obsessão do negro que tem relações com uma branca). Aqui, ademais, se considera ação política o que é um caso que compete ao sexólogo ou ao psicanalista.

Há que evitar confundir a seita juvenil com uma seita política. A primeira se caracteriza por uma indisciplina interna - o adolescente deve se afirmar e crê ingenuamente que a indisciplina é um ato de maturidade - e pela ausência de uma nova e original ideologia política. A seita juvenil é desordenada, sem hierarquia funcional e busca como referentes mágicos em um passado estimado como prestigioso. Se faz e se desfaz constantemente, seus membros são passageiros efêmeros.

As Seitas Políticas e suas Fontes de Potência

A sociedade em que vivemos, é muito corrupta politicamente, muito fraca devido a suas preocupações economicistas. É uma sociedade sem tensão política. A energia se destina à busca dos meios que proporcionam prazeres. A energia se canaliza na direção do "fazer dinheiro". É uma sociedade hedonista. Por isso, os jovens prefere o carro esportivo ao serviço militar, e os adultos o prestígio de "ter mais" ao de "ser mais". É a sociedade plutodemocrática. Não obstante, a história nos deu a conhecer em épocas passadas formas de sociedades militares ou teocráticas entre outras. Esta sociedade demoplutocrática é extremamente vulnerável à ação de minorias políticas determinadas e organizadas. Não crê no poder puro, crê que todo poder se reduz ao dinheiro e que tudo se soluciona com uma tecnocracia aperfeiçoada. Se equivoca nisso, e se bem em tempos de paz tais sociedades se estabilizam mediante uma espécie de estancamento hedonista, não ocorrerá o mesmo com motivo de uma guerra ou de uma grave crise

A sociedade burguesa demoplutocrática se encontra livre, passiva perante uma ação exterior que irrompa através de um grupo organizado de reformadores decididos. Não confundir reformadores com reformistas. É a analogia entre a faca de carniceiro e a baleia. Com uma pequena faca bem afiada e bem manejada pelo esquartejador, um homem pode esquartejar uma baleia de cinco toneladas. A fonte de potência "da faca", quer dizer, da seita política reside no acúmulo e intensidade das virtudes de que carece a débil sociedade burguesa. Uma das virtudes é a lealdade. É a primeira condição da potência da seita. As seitas políticas extraem suas forças da prática da honestidade interna absoluta. A mentira, o interesse pessoal, a reserva mental, que debilitam tanto à sociedade ordinária como aos vulgares partidos parlamentares, não são admissíveis na seita. A seita obtém sua força de uma virtude real, de uma virtude praticada. Ela possui duas forças morais: uma dirigida à vida interior, outra ao mundo exterior. Assim pois, as virtudes de pureza, de retidão, de lealdade que produzem tanto riso aos burgueses, até o ponto que as qualificam como "moral de escoteiro" é precisamente a fonte da potência da seita política. Aí onde a sociedade está dividida, a seita está integrada; aí onde a sociedade rechaça a força, a seita a glorifica; aí onde a sociedade celebra o prazer, a seita exalta o sacrifício. A sociedade demoplutocrática não toma em consideração aos jovens ambiciosos, aos jovens impacientes, aos espíritos plenos de vida, os grandes sacrifícios.

Para evitar que seja contaminada pelas debilidades da sociedade burguesa, a seita deve se isolar totalmente dela. A seita tem que ter suas próprias forças morais, uma delas muito estrita voltada ao seu interior, e outra muito oportunista para socavar a grande sociedade. Ela deve manter sua organização interna vivendo em um circuito fechado, completo.

Recorrendo a um exemplo, direi que assim como o ovo posto por certos insetos no corpo de um animal de outra espécie, ovo que dará lugar ao nascimento de uma larva que carcomerá inexoravelmente ao animal suporte, a seita política determinada deve ser também um organismo completo inserido em outro organismo. A seita será intransigente e evitará os compromissos com a sociedade, sem isso se dissolveria e paradoxalmente a reforçaria, reviveria o organismo que se propõe a eliminar.

Enfim, a seita estará extremamente "conjurada" (eu entendo por isso que a solidariedade interna total dominará todo o resto de preocupações). É a solidariedade levada até a cumplicidade. Em resumo, a densidade dos comportamentos heróicos multiplicada por uma total cumplicidade cria a seita capaz de se apoderar de uma sociedade moderada, pusilânime, apática. É o Partido Revolucionário.

Por uma parte, há uma imensa sociedade em plena digestão de prazeres que permite todo tipo de concessões para prolongar essa digestão, e por outro lado está a seita determinada, exigente.

Por uma parte, alguns homens que não querem renunciar à menor parte de seus prazeres, e que a priori não estão dispostos a morrer, se chegasse o caso, para ter que defendê-los; por outro lado, alguns homens decididos a buscar sua potência na renúncia a toda uma série de prazeres comuns e que, se chega o caso, porão os pesos de sua vida na balança da luta.

Inevitavelmente ocorre que alguns homens insuficientemente integrados tratarão de dominar a seita não satisfeitos apenas em formar parte dela. Logo deslocados, eles se acabam indo. É o que se denomina na política pelo nome de dissidência e na igreja pelo nome de herege. Em seguida, mais ou menos, esses ramos separados do tronco apodrecem e logo desaparecem.

A explicação do fenômeno é simples. A seita possui uma espécie de aura que lhe outorga poderes especiais no plano psicológico. Essa aura é indivisível. Aquele que abandona a seita levará, às vezes, algum elemento característico dessa aura. Assim, o dissidente, o excluído, o desterrado, o exilado jamais dispõe do elemento paramágico que dá força à seita. Que se chamassem Trotski ou Doriot, não impediu que apesar de seu brilhantismo fossem excluídos e enterrados longe de sua amada terra.

O Preço Humano da Potência Militante

Certos homens podem dispôr de um poder que não é sobrenatural - tal termo os faria rir com muita razão - senão de um poder supranatural (eu entendo por isso tudo que está acima da média). O homem pode dedicar, orientar sua energia a uma ou outra atividade física ou intelectual. É o fenômeno conhecido como "fakirismo" elemental: pode-se dominar a dor física depois de um treinamento adequado. No plano intelectual, pode-se igualmente obter resultados supranaturais. A polarização da energia vital, da vontade, pode proporcionar poderes, resistências. Na vida corrente, a um nível mais trivial, o atleta pode obter resultados inacessíveis ao comum dos burgueses. Porém ao custo de uma disciplina especial: proibindo certos alimentos, proibindo certas distrações, com treinamento diário. Em cada caso concreto é necessário pagar um preço quando se requer um aumento de capacidade.

O aumento da potência em um âmbito se paga com a renúncia em outros âmbitos. Em nenhum caso o crescimento da potência física, psíquica, intelectual vem a se acrescentar à vida ordinária, banal, trivial. Em todos os casos o crescimento da potência se adquiriu a custo de amputações na vida banal, na vida comum. O mesmo ocorre no setor do militantismo revolucionário. Se exige tanto a um militante que resulta impossível conciliar a vida frívola com a vida militante. A vida militante é irreconciliável com a vida normal. A primeira se desenvolverá ao custo da segunda. Existe, pois, certa ascese política. Isso faz pensar injustamente, em muitas ocasiões, que os chefes políticos dessas seitas sejam puritanos. Em primeiro lugar há um abismo entre a ascese e o puritanismo. Ademais, essa ascese não é um fim em si mesmo, senão o meio de adquirir a concentração da vontade indispensável para a posse desses poderes supranaturais aos quais me referia antes. A vida política militante não permite o estilo da sala de festas permanente onde é possível entrar e sair a qualquer momento. Uma revolução vivida e organizada por uma minoria determinada de ascetas implacáveis ou de "monstros frios" exige no plano cronológico, a dedicação de uma vida inteira.

A maioria das pessoas desconhece sempre a longa fase de incubação pois essa fase lhes resulta imperceptível. Só os policiais políticos se dão conta do desenvolvimento das seitas na fase de incubação. Por exemplo, a vocação político-histórica de Lênin se situa no enforcamento de seu irmão em 188, ou seja, trinta anos antes da Revolução de Outubro.

Na vida militante ocorrerá que quando um homem seja excluído, expulso da seita, no mesmo momento perde seus amigos de antes. Não só o partido lhe expulsa com menosprezo, senão também seus amigos de combate lhe rechaçam simultaneamente. É um dos testes que permitem medir a intensidade de uma seita. Se é fraca, o expulso seguirá vinculado a suas amizades pessoais dentro da mesma. Se é forte, o expulso o será duas vezes: uma vez pela seita e outra por cada amigo em particular. Rechaçado pela seita, é simultânea e instantaneamente rechaçado pelos militantes dessa. No militantismo não há lugar para uma amizade que estivesse em contradição com as decisões e atitudes da seita. Essa contradição só é admissível nos meios burgueses onde é possível "conservar uma amizade pessoal" com um excluído, com um expulso. Nos revolucionários, o Partido é cem vezes mais importante que a amizade.

Uma das últimas provas que aguardam o militante em seu noviciado, é a humildade revolucionária que lhe conduz, à diferença do mundo burguês, a se abster sempre de "dar sua opinião" (ato frequentemente estéril em si mesmo, por outro lado) e a se obrigar a executar ordens que sacrifiquem seu amor próprio adquirido em sua antiga educação. Porém essa humildade se compensa amplamente pelo orgulho de pertencer a um grupo eleito, elitista.

Por último, para finalizar, o militante em seu noviciado descobre que a seita é uma sociedade igualitária: ao entrar ali, deve aceitar que à seita não importam as categorias e os cargos obtidos em outros lugares, na vida burguesa. A seita só reconhece suas próprias referências de honra, suas próprias referências hierárquicas.

Assim pois, o preço humano da potência militante é elevado, muito caro, não está ao alcance de todos, nós dizemos inclusive que está ao alcance de muitos poucos. O militante é um tipo de monge político, do mesmo modo que em outro tempo os primeiros templários foram monges-soldados. O que pode e quer pagar o preço humano desejado conhecerá então as sensações estimulantes de participar na conquista de um poder.

A conquista dos demais passa obrigatoriamente e acima de tudo pela conquista de si mesmo. Quem se dirija a si mesmo, dirigirá aos outros. Esse é o primeiro exercício, e com muito, é o mais difícil, o mais duro. Nele está a chave da potência.

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