sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Craig FitzGerald e Jamie O'Hara - Subcomandante Marcos e Movimento Zapatista: Terra, Nação e Autonomia

por Jamie O'Hara e Craig FitzGerald



Para que a autonomia descentralizada floresça, comunidades independentes devem ser internamente coesas. Essa unidade tribal é a essência do nacionalismo, e grupos indígenas tem vivido em acordo com esse princípio por milênios. Porém, povos que são produtos de um Estado corporativo globalizado não compreendem esse nacionalismo orgânico e portanto o atacam. Mas isso emerge da confusão de Nações com Estados. A distinção entre essas duas entidades não pode deixar de ser enfatizada. Ward Churchill expressa com muito sucesso essa diferença, e a perspectiva indígena em que ele contextualiza seu ponto serve para elucidar as coisas ainda mais:

“Uma confusão de termos que...ainda parece assolar o discurso, é a confusão do termo ‘nação’ e do termo ‘Estado’. ...Muitos anarquistas correm por aí pensando serem antinacionalistas, que a nacionalidade, o nacionalismo em todas as suas formas, é necessariamente algum tipo de mal a ser combatido, quando é exatamente isso que eles querem criar. Há quatro ou cinco mil nações no planeta; há duzentos Estados. Eles estão usando ‘antinacionalista’ como código para antiestatista. Com povos indígenas, a nacionalidade é um ideal afirmativo, e ela não possui qualquer tipo de similaridade a estruturas estatais” [1].

Algo que tem sido intuitivo para tribos indígenas através da história é bloqueado da consciência do resto do mundo por construtos mentais cismáticos que exaltam conceitos e linguagem acima das nuances da realidade prática. Mas nem todos os radicais caem nesse campo. Comunidades autônomas que tem sido influenciadas por métodos indígenas de organização social são os melhores exemplos de independência sustentável. Um dos exemplos atuais de maior sucesso disso é o movimento zapatista no México, que sincretiza tradições indígenas e teoria política revolucionária.

Chiapas era o lugar ideal para o nascimento do movimento zapatista. Os grupos étnicos maias que vivem ali já tinham por anos experimentado uma autonomia de facto derivada da negligência do governo [2]. Eles também se auto-organizavam conforme seus valores culturais e costumes. Em 1983, três mestiços com formação no grupo guerrilheiro mexicano Forças de Liberação Nacional chegaram à região e uniram três povos indígenas para fundar o Exército Zapatista de Liberação Nacional. Um desses mestiços, conhecido como Subcomandante Insurgente Marcos, tinha uma abordagem bastante autoritária para organizar o movimento. Porém, ele logo percebeu a necessidade de incluir as aldeias indígenas que viviam onde ele e seus companheiros planejavam desafiar o Estado mexicano [3]. Marcos explicou a um grupo de jovens anarquistas que ele chegou se sentindo como a vanguarda revolucionária, mas depois reconheceu a importância de todos os indivíduos terem uma voz nas questões de suas terras natais [4]. Em outra entrevista, Marcos descreve sua evolução filosófica:

“...nós aprendemos que não dá para impor uma forma de política sobre o povo porque mais cedo ou mais tarde você acaba fazendo o mesmo que você criticou. Você critica um sistema totalitário e então oferece outro sistema totalitário. Você não pode impor um sistema político pela força. Antes, eles diziam ‘vamos nos livrar desse sistema de governo e colocar esse outro tipo de sistema no lugar’. Nós dizemos, ‘não, o sistema político não pode ser produto da guerra’. A guerra deve servir apenas para abrir o espaço na arena política para que o povo possa realmente ter uma escolha. Não importa quem vença, não importa se é a extrema-direita ou a extrema-esquerda, desde que eles conquistem a confiança do povo” [5].

Marcos aprendeu que os métodos de organização social usados nessas comunidades indígenas, incluindo um processo de tomada de decisões horizontal, são elementos antigos da cultura maia. [6] Ao harmonizar seus objetivos e métodos com valores e costumes locais, Marcos evoluiu a partir de seu dogmatismo esquerdista totalitário e aprofundou sua compreensão da relação entre terra, cultura, nação e autodeterminação.

Desde o levante zapatista em janeiro de 1994, [7] o Subcomandante Marcos tem sido objeto de uma quantidade desproporcional de atenção midiática. Em certa medida, isso faz sentido – ele é o porta-voz do grupo, e ele possui diversos traços (incluindo uma educação universitária e eloquência linguística) que o tornam o representante de relações públicas ideal. Mas ao mesmo tempo, veículos de mídia no México e no exterior se encantaram com Marcos e tenderam a negligenciar a maioria dos soldados do EZLN, os “humildes e simples” [8] homens e mulheres indígenas que tornaram o movimento possível. Apesar de se tornar algo como uma celebridade, Marcos consistentemente rejeitou uma posição de liderança unilateral [9].

Um exemplo dessa rejeição é a submissão voluntária do Subcomandante à hierarquia militar do CCRI-CG (Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral). Similarmente, na contraparte desarmada do EZLN, a Outra Campanha, [10] o título de Marcos é “Delegado Zero”. O nome, que foi introduzido no contexto das eleições presidenciais mexicanas de 2006, alcança várias coisas: ele satiriza os candidatos em destaque no país à época, comunica um senso de transcendência em relação a conflitos políticos partidários, e implica a própria insignificância relativa de Marcos. Essa humildade não é tão comumente vista em pessoas políticas tão influentes. Isso é importante desde uma perspectiva anarquista porque demonstra que a liderança pode ser uma entidade fluida, e não é necessariamente uma questão de poder absoluto. Ao invés de ser inerentemente opressiva, a verdadeira liderança é meramente uma manifestação de associação voluntária. Em um contexto anarquista, as pessoas podem tomar decisões conscientes de “seguir” ou apoiar um certo indivíduo por razões particulares. Inversamente, o “líder” também escolhe conscientemente assumir ou não responsabilidade perante esses apoiadores. Cada lado da relação é soberana e não pode escolher se retirar da situação subitamente por qualquer razão. Esse é o tipo de liderança assumida por Marcos. Os zapatistas proclamam que eles “comandam obedecendo”.

Tais relações recíprocas entre cocriadores de comunidades (incluindo dentro de hierarquias voluntárias como o EZLN) são um reflexo da cultura e cosmovisão espiritual maias. Essa correspondência de necessidades políticas e valores religiosos também explica por que a terra é tão importante desde uma perspectiva indígenas. “Tierra y Libertad!” era o slogan do movimento zapatista original, e continua a ser um valor nuclear dos neozapatistas. Para povos indígenas no México e por todo o mundo, a terra é mais do que uma necessidade prática. Ela é não apenas a fonte da própria sustentação tangível; ela é também a fonte da conexão espiritual com o universo como um todo. A autossuficiência que utiliza os recursos naturais em harmonia com o ecossistema como um todo é parte do processo de realização do destino da humanidade. Ser indígena ou nativo a um pedaço de terra em particular acrescenta uma dimensão de significado a sua própria relação com a terra e ressalta a importância da autodeterminação local. As pessoas contribuem para a natureza simbiótica do ambiente desempenhando papéis únicos e cruciais em biorregiões microcósmicas. Como Neyra P. Alvarado Solis explica em “Terra e Cosmovisão Indígena”,

“No México hoje, há oficialmente cinquenta e seis grupos étnicos; dentre desses é possível encontrar uma variedade linguística e cultural que excede em muito a esse número. A cosmovisão de cada grupo expressa uma realidade regional e comunal, elaborada ao longo da história. Essas são culturas agrárias onde terra é vida, sustentadas por relações com forças sobrenaturais e nutridas em ritos comunais e familiares...” [11].

A diversidade étnica, linguística e cultural estão intrinsecamente conectada à diversidade biológica e natural. Há valor na preservação de cada forma de vida, mas há também valor no sincretismo e difusão, que são aspectos igualmente naturais da existência. Apesar do fato de que os povos habitam diferentes áreas geográficas com diferentes flora, fauna, topografia e sistemas aquáticos, todos possuem a mesma relação interdependente com a terra, da qual todos precisamos para sobrevivência. Consistente com o símbolo religioso e mito maia, os zapatistas usam metáforas agrárias para descrever sua visão da condução política. Em seu discurso final ao Fórum Nacional Indígena em 9 de janeiro de 1996, Marcos diz:

"Irmãos e irmãs:

Cada um possui seu próprio campo, seu próprio plantio, mas todos temos a mesma aldeia, ainda que algumas vezes falamos línguas diferentes e trajemos roupas diferentes. Convidamos a cada um de vocês a plantar sua própria horta e a sua própria maneira. Os convidamos a fazer desse fórum um bom arado e garantir que todos tenham semente e que a terra esteja bem preparada" [12].

Essas palavras ilustram a relação cooperativa entre diversas localidades individuais e a realidade geral da terra que partilhamos. Tal relação não é uma de homogeneidade ou universalismo, mas de complementariedade no sentido de que as formas infinitas de matéria no universo cocriam nossa experiência. A identidade zapatista se estende externamente em direção ao macrocosmo; sua organização de encontros "intergaláticos" de ativistas reflete este caráter.

Para o movimento zapatista hoje (como o do século XIX), nacionalidade é um conceito flexível e multifacetado. A sua própria identificação com a nação do México não preclui a sua identificação como indígena, maia, chiapaneca, tzotzil, mulher, idoso, e daí em diante até os níveis mais microcósmicos. Em verdade, essas múltiplas nações são compreendidas como constituindo a essência de um mundo autônomo. Como resultado dessa perspectiva, os direitos de autodeterminação étnica e preservação cultural são defendidos. Todos são bem vindos, mas os caracoles [13] não possuem política de portas abertas. Visitantes devem aquiescer a processos de formulários ou ter conexões existentes a indivíduos ou grupos com "passaportes zapatistas" [14]. Essa é uma necessidade óbvia de segurança; o EZLN e a Outra Campanha são agressivamente atacados pelo governo e forças armadas do México.

Segundo Marcos, os zapatistas acreditam que "o México deve reconstruir o conceito de nação" [15]. Apesar do caráter predominantemente indígena do movimento zapatista, e apesar da oposição do EZLN ao Estado mexicano, a identidade nacional dos zapatistas como mexicanos é sustentada. Isso é criticado por muitos radicais. Por que os zapatistas hasteiam a bandeira mexicana acima da vermelha e negra? Por que eles empregam argumentos constitucionais? Por que eles se predispõem a dialogar com o governo? Por que eles fazem comentários nacional-chauvinistas como, "de modo algum o Sexto Comitê do EZLN aceitará quaisquer pessoas em sua equipe de segurança que sejam de qualquer outra nacionalidade além de mexicana" [16]? A resposta é porque, novamente, a concepção zapatista de nacionalidade é fluida. Ela é maleável nas mãos de cada indivíduo. Promover uma diversidade de táticas na luta contra tal opressão onipresente é não apenas pragmático, como também indica que a recusa a ser limitado por cismas ideológicos é o futuro de um movimento de liberação autônomo e descentralizado.

Apesar de algumas críticas anarquistas e socialistas irrelevantes, [17] os zapatistas tem tido grande apelo por causa de seu próprio rechaço a caixas ideológicas. Estudiosos tem ressaltado essa qualidade [18], mas o próprio Marcos captura a dinâmica da melhor forma admitindo culpa a uma série de acusações de todo ângulo possível. É válido citar:

"Os brancos o acusam de ser escuro. Culpado.

Os escuros o acusam de ser branco. Culpado.

Os autênticos o acusam de ser indígena. Culpado.

Os indígenas o acusam de ser mestiço. Culpado.

Os machistas o acusam de ser feminista. Culpado.

As feministas o acusam de ser machista. Culpado.

Os comunistas o acusam de ser anarquista. Culpado.

Os anarquistas o acusam de ser ortodoxo. Culpado.

Os anglos o acusam de ser chicano. Culpado.

Os antissemitas o acusam de ser filossemita. Culpado.

Os judeus o acusam de ser pró-árabe. Culpado.

Os europeus o acusam de ser asiático. Culpado.

Os funcionários do governo o acusam de ser um oposicionista. Culpado.

Os reformistas o acusam de ser um extremista. Culpado.

Os radicais o acusam de ser reformista. Culpado.

A 'vanguarda histórica' o acusa de apelar à sociedade civil e não ao proletariado. Culpado.

A sociedade civil o acusa de perturbar sua tranquilidade. Culpado.

A Bolsa de Valores o acusa de arruinar seu café-da-manhã. Culpado.

O governo o acusa de aumentar o consumo de anti-ácidos por agências do governo. Culpado.

Os sérios o acusam de ser um piadista. Culpado.

Os adultos o acusam de ser uma criança. Culpado.

As crianças o acusam de ser um adulto. Culpado.

Os esquerdistas ortodoxos o acusam por não condenar homossexuais e lésbicas. Culpado.

Os teóricos o acusam de ser um prático. Culpado.

Os práticos o acusam de ser um teórico. Culpado.

Todos o acusam de tudo de ruim que já aconteceu. Culpado" [19].

Esse sentimento expressa uma transcendência de dogmas que é necessária para tempos modernos. Também comunica um tipo de leveza que beneficiaria o milieu político radical. Essas acusações, por mais "verdadeiras" que possam ser, não podem ser levadas a sério. Quando as pessoas que acreditam em liberdade e autonomia deixarem de discutir umas com as outras, elas terão tempo de efetivamente realizar coisas importantes em suas comunidades. É importante estar consciente de como nos comunicamos e interagimos porque a dinâmico entre ativistas e tribos diversas prenuncia o futuro sem o Estado. Isso não significa que todos tem que concordar. A visão zapatista encoraja uma amplitude infinita de autonomias diferentes. A idéia é criar "um mundo em que caibam muitos mundos" [20].

1 - Churchill, Ward. Upping the Anti, No. 1.

2 - Mattiace, Shannan L. “Mayan Utopias: Rethinking the State,” 188.

3 - Higgins, Nicholas. “The Zapatista Uprising and the Poetics of Cultural Resistance.”

4 - Weinberg, Bill. Homage to Chiapas, 197.

5 - Subcomandante Marcos. Interview with Medea Benjamin, 61.

6 - Subcomandante Marcos. “A Storm and a Prophecy: Chiapas: The Southeast in Two Winds,” 33. Aubry, Andres. “Autonomy in the San Andres Accords: Expression and Fulfillment of a New Federal Pact,” 225.

7 - At midnight on New Years Day, the EZLN released the First Declaration of the Lacandon Jungle, in which they expressed their reasons for declaring war on the Mexican state. The EZLN seized several Chiapas locations, destroying military structures and liberating prisoners in San Cristobal de las Casas. Many books and articles have detailed these events, and Zapatista communiques were consistently issued. The
First Declaration of the Lacandon Jungle is a good place to start.

8 - EZLN. Sixth Declaration of the Lacandon Jungle.

9 - Marcos has never appeared in public without wearing his mask. He explains that the mask is like a mirror. All individuals can look at his face and see themselves.

10 - The EZLN is the miltary wing of the Zapatista movement. The Other Campaign, created in 2006, is a strictly civilian-oriented project aimed at facilitating autonomy for many different groups.

11 - Alvarado Solis, Neyra P. “Land and Indigenous Cosmovision,” 127-8.

12 - Subcomandante Marcos. Closing Words to the National Indigenous Forum (1996), 93.

13 - Caracol, the Spanish word for snail shell, is a term the Zapatistas adopted to refer to their autonomous communities.

14 - Aubry, Andres. “Autonomy in the San Andres Accords: Expression and Fulfillment of a New Federal Pact,” 229.

15 - Subcomandante Marcos. “La entrevista insólita.” Proceso.

16 - Subcomandante Marcos. “Subdelegado Zero on Security Issues.”

17 -  “The EZLN is not Anarchist: Or Struggles at the Margins and Revolutionary Solidarity.” Willful Disobedience.

18 - Churchill, Ward. “A North American Indigenist View,” 154.

19 - Subcomandante Marcos. “The Retreat is Making Us Almost Scratch the Sky,” 231.

20 - EZLN. Fourth Declaration of the Lacandon Jungle.

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