quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Leonardo Rivalenti - O Tradicionalismo de Julius Evola

por Leonardo Rivalenti


Indubitavelmente, um dos mais controversos filósofos italianos contemporâneos foi o Barão Giulio Cesare Andrea Evola, também conhecido como Julius Evola, monarquista, tradicionalista e pagão; esse pensador, com suas ideias revolucionárias para o contexto a que está acostumada a maioria, desencadeou polêmicas e críticas em vários âmbitos da sociedade, o que fez com que recebesse uma série de acusações, muitas das quais não passando de meras loucuras. Justamente por isso me propus de analisar as ideias deste filósofo e procurar resumi-las e explicá-las, sempre do meu ponto de vista (tradicionalista, monarquista e , por assim dizer), mas com a intenção procurar divulgar e tornar mais aceitáveis em ambientes conservadores as ideias evolianas.

Evola e a Tradição Ocultística 

Evola, enquanto grande conhecedor e estudioso das doutrinas místicas tanto do Ocidente quanto do Oriente, é naturalmente um defensor da apoteosis, isto é, uma possível do homem, que talvez poderia ser mais facilmente entendida como um aperfeiçoamento do espírito humano através de praticas que em passado pertenceram às escolas de mistérios e algumas das quais ainda parecem ser seguidas por algumas ordens místicas; se quiséssemos justificar isso com a ciência positivista poderíamos falar de subconsciente e do fato de que o homem utiliza apenas 10% de suas capacidades cerebrais e que, se utilizasse em uma maior porcentagem, poderia obter resultados surpreendentes. Todavia procurar explicar as Tradições dos Antigos com a moderna ciência positiva seria uma grosseria e uma vulgaridade, no meu entendimento.

Em ambientes conservadores e tradicionalistas, muitas vezes sob forte influência crista e católica, este ponto, por si só, gera muitas polêmicas, já que se liga diretamente com o misticismo pagão ou, de qualquer forma, com Tradições Iniciáticas que pouco ou nada têm a ver com a religião cristã, talvez com a única exceção do misticismo judaico, o qual ja deve possuir uma certa fama por causa da prática da cabala.

In primis, aqui devo observar que muitos assim que leem se deparam com este tema nas obras de Evola já iniciam a julgar e fazer condenações sem nem mesmo ter muito conhecimento sobre o tema, baseando-se no senso comum e ignorando que a tradição do Ocidente antes de ser cristã era pagã, e que o cristianismo afirmou-se apenas depois, absorvendo muitos aspectos dos precedentes cultos; ainda, aos com tendências nacionalistas que viessem a fazer críticas contra este aspecto, poderíamos objetar que, se por um lado as religiões pré-cristãs se ligam diretamente às origens das civilizações ocidentais, o cristianismo possui origens asiáticas e semíticas, e daí questionar sobre quem teria mais legitimidade. Todavia tal confronto, além de totalmente inútil, neste momento serviria apenas para criar ulteriores divisões e disputas em um meio (aquele conservador) que atualmente precisa mais do que nunca de estar unido, para poder reafirmar no ocidente em decadência os valores da Traditio, Imperium e da aristocracia.

A critica movida por alguns ao fato de que o barão tratou, em algumas obras, do sexo e da sensualidade no misticismo (é infantil, mas há pessoas criticando até mesmo isso) pode ser facilmente desacreditada mostrando como esse tema é presente em tradições místicas sobretudo orientais, o que faz com que qualquer ocultista, cedo ou tarde, acabe se deparando também com essa temática.

O Dadaísmo 

Julius Evola teve destaque não apenas como filósofo mas também como artista: desde jovem teve sempre muito interesse pelo futurismo, cujo principal expoente era o Martinetti; em seguida passou a se interessar mais pelo dadaísmo, do qual se tornou um dos principais expoentes italianos.

O que me surpreende é como há pessoas que se servem dos gostos artísticos do barão não para criticá-lo como artista mas...como filósofo! Perante uma similar estupidez não temos muitos argumentos, no máximo um convite, dirigido aos autores dessas criticas, a não confundir o filósofo com o artista, já que se os gostos artísticos dele tendiam para o modernismo, filosoficamente falando a tendência era radicalmente oposta, visto que ele era tradicionalista. Querendo, poderíamos aqui fazer uma pequena crítica acerca desta leve incoerência mas se por outro lado suas tendências filosóficas eram umas e suas preferências artísticas outras, não há muito que se possa fazer.

Evola e Guènon 

Lendo os livros de Evola não é raro vermos citados trechos das obras de outro importante ocultista do século passado: René Guènon, o que pode levar a crer que as ideias evolianas não passem de uma simples redução das do ocultista francês, o que seria um grave erro, como foi pontualmente observado até mesmo em alguns estudos voltados a criticar o filósofo em questão, já que temos algumas diferenças substanciais, como as que serão aqui citadas:

a) Enquanto Guènon da prioridade ao aspecto sacerdotal e contemplativo, Evola exalta aquele aristocrático e guerreiro, defendendo todavia uma união dos dois poderes (espiritual e temporal) no ápice da hierarquia, na figura de um que seja líder tanto político e militar quanto espiritual.

b) Guènon considera o Oriente como único depositário da Tradição, enquanto Evola defende a existência de uma tradição nórdico-ariana ou nórdico-clássica, ou sempre com definições similares, que indicariam justamente a tradição europeia pré-cristã, com uma particular exaltação para as tradições helênico-romanas e germânico-escandinavas; vale aqui relembrar que a Tradição Católica foi, afinal, por ele reconhecida como tal, enquanto vestígio da tradição originaria europeia, enquanto esta teria absorvido alguns aspectos da romanitas e do misticismo clássico.

c) Como foi já dito, Evola via na Igreja Católica Romana uma instituição que ainda conservava alguns aspectos da Tradição Imperial, mas sempre dentro de limites, é claro, e com isso não esquecia de que a Igreja tinha sempre como base a doutrina cristã; defendeu, então, em seu livro Heidnischer Imperialismus, que caso não se conseguisse extinguir a Igreja para permitir a ascensão do paganismo, se deveria submetê-la à autoridade Imperial, deste modo se teria a síntese perfeita dos dois poderes (temporal e material) e se evitaria novas degenerações oriundas da separação dos dois.

Evola anticristão e “anticristo” 

Exploraremos aqui o anticristianismo de Evola, tal como algumas suas teses e responderemos a algumas acusações dirigidas contra ele. A concepção do filosofo aqui se basa quase totalmente, ou pelo menos em boa parte, nas teses do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche, e tem de ser visto como um ataque ao cristianismo primitivo e ao seu espirito, que seria igualitarista, antiaristocrático e anti-imperial, esta afirmação podemos observar que é comprovada em parte por algumas partes do Novo Testamento e em parte pelos estudos sobre a estrutura da primordial Eclésia Cristã, os quais revelam como nesta ficasse explicita a insoferência (intolerância) deles para tais hierarquias, já que as que la haviam tinham mais uma função de coordenação do que de verdadeiro comando; já no Novo Testamento esta insoferência vem mascarada, reprimida e placada por meio de uma no , em um em que os “últimos serão os primeiros”, e assim poderíamos citar inúmeras partes em que há uma certa critica à existência de uma aristocracia e uma certa exaltação da plebe, tudo porém pensado de tal modo a incitar esta revolta e ao mesmo tempo desincentivá-la (“Dai a César o que é de César”), preferindo uma rejeição pessoal de tudo o que é aristocrático e elevado.

Quando se diz que o Barão era contra o cristianismo e considerava este responsável pela queda do Império Romano deve-se antes procurar entender de qual cristianismo e de qual Império Romano ele estava falando: o cristianismo de que ele estava falando era a espiritualidade crista, que ele via como plebeia e servil, e que estaria muito mais difundida do que a própria religião crista; do mesmo modo, quando ouvimos falar em Império, devemos entender que não se trata apenas do império material, mas sim daquele espiritual, caracterizado pelos princípios de Nobreza, Hierarquia, Universalidade e Sacralidade do Soberano.

Tendo então entendido a que o pensador italiano estivesse se opondo nos resulta então totalmente justificável a sua contraproposta: uma restauração de carácter ghibellino (guibelino) e cavalheiresco, que afirme a primazia do Império sobre a Igreja, deste modo a primeira instituição, hierarquizada e aristocrática por natureza, conseguiria impedir que na segunda prevalecessem as tendências a uma progressiva recristianização, que levaria a uma segunda decadência, e que arrastaria consigo todo o IMPERIVM; naturalmente esta possibilidade é posta como alternativa à possibilidade de uma total restauração pagã.

Evola Maçom e Satanista 

Muitas vezes, sobretudo de ambientes cristãos, surgem criticas de escasso fundamento contra este pensador, que giram em torno de acusas de satanismo e maçonaria; algumas destas acusações se baseiam na relativamente breve amizade entre Evola e um outro ocultista italiano, Arturo Reghini, outras no simples raciocínio: “é contra o cristianismo, se interessa por esoterismo, logo é um maçom satanista”, reforçadas pela ideia boçal de que a maçonaria seria satânica. Pelo que condiz a amizade entre Evola e o Reghini, ilustre maçom do R.’.E.’.A.’.A.’. o que posso dizer é que não durou muito, apesar de que o pitagórico florentino tenha introduzido o nobre siciliano à tradição pagã clássica não há nenhum indício que nos dê razão de suspeitar de uma iniciação deste último na maçonaria, alias, temos alguns que nos sugerem até mesmo o contrário; visto o posicionamento muitas vezes critico com uma certa ponta de hostilidade por parte de Evola em relação à Ordem, acompanhado pela rivalidade que se seguiu à ruptura da amizade com o Reghini. Daqui quero aproveitar para desmentir esta hipotética relação entre a maçonaria e o satanismo: resumidamente, desmentimos isso com facilidade ao observar que a maçonaria pertence claramente à chamada Mão Direita do Ocultismo, e ainda tem algumas influencias judaico-cristãs; já o satanismo pertence ao conjunto de tradições da chamada Mão Esquerda do Ocultismo, que, sem entrar em muitos detalhes se coloca no ponto antípoda da primeira; trata-se de uma noção básica que qualquer um deveria ter antes de tomar posição acerca do tema. Já sobre a questão dele ser satanista acredito haja menos ainda para se dizer: já ficou evidente o fato dele se interessar muito pelas Tradições esotéricas e misticas, e de que costumasse a estudá-las todas, sem limitações de natureza alguma, logo, se tivesse se interessado pelo satanismo ou pelo luciferianismo duvido que algo o teria impedido de seguir em seus estudos, o que é muito diferente de ser um praticante desta magia; e, ainda, posto que ele fosse um satanista ou luciferianista (o que me parece um absurdo), que diferença faria? Independentemente disso, os textos dele tenderiam de qualquer forma para o tradicionalismo e para o monarquismo, o que interessa à maioria de nós.

Evola e o racismo 

Provavelmente um dos pontos mais polêmicos das ideias evolianas, na Europa, e que provavelmente chega a ser ainda mais polêmico no Brasil, que é um país multirracial, é a doutrina da raça, do filósofo italiano.

O que deve estar claro a todos aqui é que a doutrina racista (ou seja que defende a existência de raças, sem conotação negativa) do Barão Giulio Cesare Evola difere completamente daquela formulada pelo Conde Artur de Gobineau, e das que a esta se seguiram; já que, segundo o Evola, a raça, em vez de ser biológica e exterior, era espiritual e interior, e ele mesmo considerava as teorias científicas como incompletas e falhas, ou propensas a falhar e tudo isso como sendo uma consequência da dècadènce, como é possível observar que ele afirma em vários artigos e obras.

Procurando agora focar mais na teoria racial do Barão, tentarei explicá-la em forma sucinta: o que definiria a raça seria a espiritualidade de cada população tal como a história desta espiritualidade; assim povos que tem uma maior tendência ao totemismo e ao tribalismo são identificados como raças telúricas ou meridionais, já que geralmente são estruturadas em clãs ou tribos e têm seu centro em totens; nestas observamos que o individuo é identificado apenas como uma parte da tribo e não como um ser a si correspondente, e que raramente há hierarquias, ou as que se tem são apenas hierarquias de coordenação, mais do que hierarquias aristocráticas.

É assim que ele identifica populações mais primitivas. Tendo estabelecido como ele indica as raças meridionais nos é fácil entender como ele classifica as outras raças (ariana, semítica...): considera como base para definir povos como civilizados a existência de uma sociedade hierarquizada, com uma verdadeira hierarquia por superioridade, sendo portanto uma aristocracia, combinada com uma doutrina espiritual complexa, isto é, que não seja restrita apenas ao aspecto mais popular, mas que possua uma parte místico–iniciática, o que reforçaria e legitimaria a superioridade da aristocracia; com isso podemos entender como ele vê o espírito cristão (de que já falamos) e a democracia, além dos outros males que infectam a sociedade moderna (anarquismo, marxismo...): como uma regressão ao estado telúrico totêmico de raças que já tinham atingido patamares muito elevados; entende-se aqui também o porquê de uma certa tolerância para com a Igreja Romana: pelo menos esta conservou parte do espírito próprio a raças não telúricas, e com isso esta se torna uma das últimas esperanças de restauração (claro, ao lado do ressurgimento do paganismo).

Fica claro, então, que além de espirituais, estas raças não são estáticas, como as biológicas, mas são mutáveis, ou seja, enquanto algumas podem evoluir e crescer, outras podem involuir e regredir.

Conclusão 

Em conclusão, espero que este meu texto possa ter sido de ajuda a divulgar, mesmo que em mínima parte, as ideias de Julius Evola, que devem ser indubitavelmente reconsideradas com olhos diferentes dos com que foram vistas nos últimos 50 anos; espero ainda que este texto, por mais incompleto que possa ser, desperte o interesse no tradicionalismo evoliano em todos os que o lerem, mesmo não sendo necessariamente tradicionalistas e/ou monarquistas.

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