sábado, 14 de setembro de 2013

Mark Gelernter - Abrindo Espaço para a Arquitetura Tradicional

por Mark Gelernter

Em apresentações recentes às conferências de Arquitetura Tradicional e no Fórum de Agosto da revista Traditional Building, eu discuti os argumentos mais comuns usados pelos modernistas para desconsiderar o design tradicional. Nesse ensaio, eu examinarei e refutarei essas idéias em maiores detalhes. Os cinco argumentos mais comumente ouvidos contra a arquitetura tradicional são:

* Design tradicional é uma questão de estilo, e estilo é sobre aparência superficial. Boas construções são moldadas por idéias mais profundas.

* Boa arquitetura expressa sua era. O design tradicional expressa uma era que já se foi.

* Usar linguagens tradicionais de design hoje cria réplicas que não são autênticas, como a Disneilândia.

* O design tradicional não é progressivo, porque ele não move a disciplina para a frente através de inovações.

* Caso se insista em usar linguagens tradicionais de design, deve-se aderir estritamente às regras tradicionais ou o que resultará será uma caricatura. Isso desencoraja a criatividade.



Esses argumentos contra a tradição estão profundamente enraizados em nossas concepções contemporâneas de design. Elas são encontradas na imprensa da arquitetura, nas escolas de design, e na compreensão quotidiana do design entre a maioria dos arquitetos. Eles estão tão profundamente enraizados que eles parecem auto-evidentes e fora de discussão, como a frase "forma segue função".

Essas idéias anti-tradicionais não são nem inevitáveis e nem verdades auto-evidentes, apesar de nos parecerem hoje. Elas foram desenvolvidas na virada do século XX para servir a propósitos particulares que podem ter feito sentido à época, mas que não se sustentam como verdadeiros hoje. Essas idéias foram tomadas de um número de diferentes fontes e então reunidas no que pareceu ser uma teoria coerente do design; mas há um número de inconsistências entre essas idéias, e inconsistências com a evidência com ambiente construído.

Meu objetivo não é promover o design tradicional às custas do moderno, mas meramente nos livrar de idéias outrora criadas para fazer o campo de jogo pender excessivamente em favor exclusivamente do modernismo. Livres desses conceitos às vezes ilógicos e ultrapassados, os arquitetos deveriam se sentir livres para escolher o tradicional ou o moderno segundo necessidade e adequação, ao invés de por ideologia.



Origens da Ideologia Anti-Tradicional

Os esforços para rejeitar toda a tradição arquitetônica se originaram na virada do século XX, um período de reviravoltas políticas e culturais globais extraordinárias. Industrialização maciça, junto com crescimento populacional e urbanização sem precedentes, perturbaram ou destruíram muitos padrões de vida tradicionais.

Conflitos crescentes emergiram relativos a escolhas fundamentalmente diferentes para o futuro: máquina ou artesanato; capitalismo ou socialismo; imperialismo ou democracia; cidades ou campo. Essas escolhas foram traçadas tão distintivamente que os indivíduos se sentiram compelidos a escolher lados. Nenhum caminho do meio parecia possível ou desejável. As tensões políticas mais amplas eventualmente explodiram na Primeira Guerra Mundial, e levaram à Revolução Bolchevique na Rússia.



Arquitetos deram expressão a essas escolhas radicais com três amplas direções arquitetônicas. Os primeiros modernistas focaram no que eles acreditavam fossem os traços salientes do século XX, vendo nas construções similares a máquinas a essência real da era industrial. Os progressivos, evoluindo a partir do Renascimento Gótico nas Artes e eventualmente levando a Frank Lloyd Wright, focaram nos males da industrialização e defendiam um retorno a uma cosmovisão medieval e artesanal em que indivíduos estivessem mais em harmonia uns com os outros e com a natureza. E os acadêmicos ecléticos, exemplificados pela Ecole des Beaux-Arts, acreditavam que os estilos arquitetônicos tradicionais continuavam a expressar valores humanos universais mesmos conforme o mundo mudava de outras maneiras.

Os progressivos e os acadêmicos ecléticos ainda usavam linguagens tradicionais de design arquitetônico, atualizadas para refletir necessidades e sensibilidades contemporâneas. Mas os modernistas rejeitavam em geral o uso do design tradicional. Segundo eles, toda uma era havia emergido, impulsionada e moldada pelas máquinas. As máquinas não levam consigo quaisquer longas tradições, mas foram inventadas em resposta apenas a função e propósito.

A arquitetura similarmente deveria ser libertada da tradição anterior e moldada unicamente por suas realidades e necessidades contemporâneas. A catastrófica Primeira Guerra Mundial endureceu sua rejeição da tradição. Para muitas, as velhas idéias políticas e culturais haviam levado a Europa à ruína, e assim nada poderia ser aprendido de um passado falido. Um novo mundo teria que ser construído sobre idéias inteiramente novas, para as quais deveria haver uma arquitetura nova e sem precedentes.

Cada movimento via o caráter inerente da era muito diferentemente, e cada um promovia sua própria visão como a mais apropriada para as novas realidades. Isso era comumente feito atacando as idéias de seus oponentes. Não havia nenhuma novidade nisso, já que arquitetos ao longo da história muitas vezes se promoveram às custas de seus predecessores ou rivais. Mas nesse contexto na virada do século XX, os modernistas tentaram algo muito mais extremo. Eles não estavam contentes em se promover apenas às custas dos outros dois movimentos arquitetônicos dominantes. Eles queriam deter TODA arquitetura baseada na tradição, o que significava um repúdio da totalidade da história da arquitetura. Eles travaram uma guerra cultural para acabar com todas as guerras, na qual eles definiriam tudo, tirando o modernismo, para fora da existência por toda a eternidade.



Para vencer, os modernistas travaram uma guerra de idéias sustentada e finalmente bem sucedida. Eles adaptaram ou desenvolveram um certo número de conceitos para apoiar apenas sua visão, escreveram livros influentes, e eventualmente conquistaram o controle do sistema de educação de design onde essas idéias seriam transmitidas para as gerações subsequentes de designers. Em apenas algumas décadas, as suas idéias entraram no mainstream do pensamento arquitetônico, tanto que essas agora pareciam benignamente auto-evidentes. Essas idéias não são nem mesmo muito discutidas, exceto quando um modernista encontra um novo design tradicional e se sente compelido a reafirmar as idéias originalmente usadas para atacar seus rivais tradicionalistas há um século.

Então quão bem essas idéias se sustentam hoje? Analisemos cada uma.

A Arquitetura não deve se preocupar com estilo

Os primeiros modernistas dispensaram muito da história da arquitetura como mera estilística, definida como um acréscimo de decoração superficial à estrutura e construção básicas de uma edifício. Eles afirmavam ao invés estar trabalhando além do estilo, encontrando formas de construção que fossem soluções corretas para problemas arquitetônicos, e expressando francamente as realidades do programa e da construção. Até esse dia, a maioria dos arquitetos contemporâneos não aceitam que o modernismo é um estilo, ou que eles próprios desenvolveram um estilo pessoal.

Mas estilo não significa nada além de que um número de pessoas trabalhando em dado tempo usam idéias similares - tão similares que as obras colecionadas formam uma semelhança familiar. Impressionismo, Brutalismo, Internacional Moderno, Renascimento Gótico, blues de Chicago, Nouvelle Couisine, modas punk, são todos exemplos de como podemos ver - e combinar - expressões artísticas humanas partilhando de características similares. Por que o modernismo objetaria a isso? Negar a realidade do estilo é sugerir que todas as expressões humanas são completamente únicas, o que desafia a realidade do que vemos ao nosso redor.



A motivação modernista de atacar o estilo possui raízes profundas. O conceito de estilo como o compreendemos hoje emergiu no Iluminismo do século XVIII. Até o Iluminismo, o Ocidente concebeu da história como um padrão se desdobrando logicamente, por exemplo, a idéia grega de ciclos recorrentes ou a idéia cristã de movimento progressivo a um objetivo final. Da Renascença em diante, a história do Ocidente foi vista como o desenvolvimento cada mais mais refinado de uma única cultura herdada da Grécia e Roma antigas, interrompida apenas pela perda dessa cultura na Idade Média. Esse padrão se desdobraria de modo geral independentemente das ações de indivíduos, e havia arquitetura boa ou ruim apenas dependendo de ela ter sido desenvolvida nos pontos altos ou baixo da história. A beleza não estava nos olhos de quem vê.

Mas teóricos iluministas focaram nova atenção sobre diferenças em indivíduos e culturas, e começaram a ver a história como uma série de fases ou compartimentos separados - o mundo antigo, a Idade Média, a Renascença - cada uma com suas características especiais, e cada uma moldada pelas ações de indivíduos. Fases diferentes teriam expressões arquitetônicas e artísticas diferentes, eles reconheciam, cada uma igualmente válida dentro de seus próprios termos. Isso veio a ser conhecido como o estilo de um período. E já que essas expressões artísticas eram igualmente válidas, poder-se-ia valorar as mesmas segundo os próprios interesses e valores pessoais.



Pode-se ver por que os modernistas precisariam se livrar dessa idéia. Ela sugere que muitas abordagens de design são possíveis, e que os indivíduos podem escolher livremente entre elas. Isso deixaria o modernismo como uma escolha subjetiva entre muitas, enquanto os modernistas viam sua abordagem como a única escolha possível. Ao invés de argumentar pelas virtudes de seu estilo nessa batalha de estilos, eles escolheram ao invés se definir como algo completamente fora da batalha. Engenhosamente, eles propuseram criar um método de design que sempre resultaria em uma construção inteiramente única projetada especificamente para suas necessidades e condições únicas. Se todas as construções são inteiramente únicas, não haveria similaridades entre elas, e portanto nenhum estilo. Nós podemos ver isso no discurso de Walter Gropius quando ele foi apontado professor de Arquitetura em Harvard em 1937:

"Minha intenção não é introduzir um, digamos assim, 'Estilo Moderno' bem definido da Europa, mas ao invés introduzir um método de abordagem que nos permite lidar com um problema segundo suas condições particulares. Eu quero que um jovem arquiteto seja capaz de encontrar seu caminho não importando as circunstâncias; eu quero ele que ele crie independentemente formas verdadeiras e genuínas a partir das condições técnicas, econômicas e sociais em que ele se encontra ao invés de impor uma fórmula aprendida sobre meios que podem demandar soluções inteiramente diferentes. Não é tanto uma questão de dogma pronto que eu quero ensinar, mas uma atitude frente aos problemas de nossa geração que seja sem preconceitos, original e elástica".

Foi uma esquiva inteligente. Se não se pode vencer a batalha de estilos em uma base estilística, é só pular fora do confronto. E então descartar os outros combatentes como meros estilistas, focados em aparência superficial.



Pena que não equivalia à realidade. Na retrospectiva de 3/4 de um século desde que Gropius escreveu isso, nós podemos ver que o método não gerou construções únicas em resposta a condições únicas todas as vezes. As produções de designs modernistas tem similaridades suficientes em qualquer dado momento que podemos categorizá-las como de estilo internacional, ou como neobrutalismo, ou desconstrutivismo, por exemplo. Charles Jencks convincentemente detalhou os estilos e sub-estilos do modernismo em seu livro de 1973, Movimentos Modernos na Arquitetura. A rica parada de estilos históricos continuou bem através da revolução modernista, e continua hoje. Nesse sentido, os modernistas não foram diferentes dos tradicionalistas. Essa objeção à tradição pode ser descartada.

A Arquitetura deve refletir sua própria era

Assim como não se usam chapéus tricórnios do século XVIII e culotes com enchimentos de seda, por que se deveria projetar uma construção originalmente moldada para aquele período? Os tempos mudam, dizem os modernistas, e uma construção deve expressar sua própria era. Ironicamente, essa idéia deriva do conceito de estilo já discutida, e rejeitado pelos modernistas. Ela assume que eras diferentes possuem perspectivas diferentes e portanto expressões arquitetônicas diferentes. No fundo, eles sabiam que estavam em uma batalha de estilos, e com esse argumento eles tentaram oferecer justificativa para a superioridade do seu próprio estilo.

À primeira vista, essa é uma idéia inócua e auto-evidente. As pessoas expressam sua perspectiva através de suas criações artísticas e arquitetônicas, e a expressão da era é portanto aquilo que os artistas e arquitetos criam coletivamente. Isso não é favorável ou contrário a qualquer estilo de design em particular; a expressão de um período é o que quer que as pessoas tenham criado. Nem argumenta contra o design tradicional. Deve-se apenas pensar na Renascença, em que os arquitetos reviveram estilos romanos antigos como a expressão arquitetônica mais apropriada de uma revolução cultural mais ampla em seu tempo.

Mas os modernistas querem dizer mais do que isso. Eles usam essa idéia normativamente, para afirmar que seu próprio estilo expressa a era mais adequadamente que os estilos tradicionais. Isto é, nossos valores e perspectiva dominantes são melhor expressos com formas ousadas, não-ornamentadas e a-históricas, em oposição a formas tradicionais e ornamentadas com referências históricas.

Agora, qual é a justificativa para essa afirmação? Vamos primeiro olhar para quando essa afirmação foi feita pela primeira vez, e ver então se e como ela se aplicaria hoje, um século depois.

É fácil ver como formas arquitetônicas simples e a-históricas expressavam os valores dos primeiros modernistas eles mesmos, já que eles eram fascinados por máquinas, e hostis a suas próprias tradições culturais. Mas como eles poderiam afirmar que sua estética expressava melhor os valores de toda a sua era? Se tentarmos explicar a essência de uma era como representada em suas expressões artísticas e arquitetônicas, nós olhamos para as expressões dominantes ao invés de para as idiossincráticas. Por exemplo, nós estaríamos mais próximos de capturar o caráter da década de 60 apontando para o rock n'roll, e não para a valsa. Mas na virada do século XX, as expressões dos primeiros modernistas eram apenas uma minúscula minoria da produção arquitetônica da época. Como eles poderiam afirmar que sua expressão minoritária capturava a essência da era mais precisamente que o trabalho da maioria dos outros arquitetos.

Para defender essa posição, eles se voltaram para o conceito de um Espírito da Era, adquirido da filosofia idealista alemã do século XIX. O Espírito é como uma força mental coletiva, fluindo através dos indivíduos, e fazendo com que eles trabalhem inconscientemente segundo os preceitos do Espírito partilhado. Quando o Espírito de uma Era é forte, a maioria das pessoas responde a ele inconscientemente, e as obras da era possuem uma expressão artística forte e consistente. Mas às vezes, um período não possui qualquer sentimento espiritual forte. Nessas épocas, a maior parte da expressão artística é confusa, carecendo de direção. Um bom número dos primeiros modernistas, incluindo Walter Gropius, via seu próprio período como um tal tipo de época. Segundo eles, seus rivais estilísticos estavam lendo os sentimentos espirituais errados ou inexistentes.

Felizmente, afirmavam os primeiros modernistas, alguns indivíduos possuem maiores poderes do que outros para ver o Espírito dominante. Se ele for fraco ou inexistente, eles podem até criar um novo. Gropius concebeu do Bauhaus como um lugar em que um pequeno grupo elitista de artistas criaria uma nova unidade espiritual em que o resto da sociedade e outros artistas e arquitetos poderiam então participar. A sua era a expressão correta da era, porque eles possuíam intuições especiais na realidade verdadeira, enquanto seus rivais não.

Indubitavelmente, essa era uma proposição confortante para os primeiros modernistas. Encarados por visões contrárias às suas próprias sobre o verdadeiro espírito da era, eles poderiam simplesmente dizer que suas próprias opiniões derivavam de dons especiais e intuições superiores. Mesmo hoje, os modernistas que herdaram a idéia de possuírem intuições especiais na realidade verdadeira facilmente descartam aqueles que preferem estilos tradicionais como pessoas carentes de gosto ou intuição, ou necessitando de educação. Mas isso em si não fornece razões convincentes para o motivo pelo qual a estética modernista expressa a época melhor do que a de seus rivais, além de "siga-nos, nós sabemos mais".

Assim, a estética modernista realmente expressa nossa cosmovisão contemporânea melhor que os estilos tradicionais? Para qualquer um ainda fascinado com máquinas, e displicente frente a nossas tradições culturais, variações da estética a-histórica modernista continuam a ser a expressão arquitetônica correta. Mas e quanto a vasta maioria dos consumidores que ainda preferem casas, mobília e bens mais tradicionais? Eles estão então errados em compreender os valores de nossa época? Ou, representariam eles os reais valores de nossa época mais claramente que os designers modernistas cujo gosto estético ainda é uma visão minoritária?

De fato, faz algum sentido em nosso mundo diverso e eclético dizer que QUALQUER idéia singular é o espírito verdadeiro da era? Em outros aspectos de nossa cultura, incluindo música, arte e moda, nós voluntariamente aceitamos muitas expressões diversas de nossos valores como igualmente válidas. Poucos afirmariam que o indie rock ou o rap, por exemplo, capturam a essência do início do século XXI melhor do que blues ou jazz contemporâneos, ou mesmo música clássica. Então por que ainda nos sentimos compelidos a defender apenas um estilo de design como expressivo de toda uma era? Se os designers modernistas podem fornecer um argumento convincente para o motivo pelo qual formas a-históricas são o único jeito de expressar os valores de toda nossa cultura contemporânea, eles devem fornecê-la. Até então, nós podemos deixar de lado a objeção à arquitetura tradicional de que ela não expressa o verdadeiro espírito da era.

Existe uma consequência não-intencional dessa idéia, ressaltada por nossa nova sensibilidade ao design sustentável. Ao se afirmar que cada período deve ter sua própria expressão arquitetônica, é fácil concluir que velhas construções expressam um tempo extinto, e portanto não tem serventia para o presente. Isso facilmente leva a uma cultura descartável, em que derrubamos prédios quando eles não mais são percebidos como sendo de valor para os tempos atuais. Mas nós sabemos que as construções mais sustentáveis são aquelas já foram construídas, já que os materiais já foram colhidos, mineirados e manufaturados.

À luz da necessidade de práticas mais sustentáveis, precisamos olhar para essa idéia com maior proximidade. Quão discretos e únicos são esses diferentes períodos, e com que frequência temos que mudar nossas construções? Nosso mundo demonstra persistência de coisas tanto quanto ele muda, e coisas diferentes mudam em ritmos diferentes. Dos fatores moldando as construções, alguns são eternos, como a gravidade; outros são mais fugidios, como aspectos de gosto estético e moda; e ainda outros evoluem ao longo dos anos, décadas e séculos, como comportamentos humanos, valores culturais, a rede urbana em que o prédio se encontra, e certos tipos básicos de construção. Então ao invés de pensar a história como uma série de eras discretas cada uma necessitando de sua expressão arquitetônica distinta, poder-se-ia mais razoavelmente ver essas eras como fases em sobreposição, com graus variáveis de mudança em relação a diferentes aspectos do design.

Precisamos ser mais inteligentes sobre que idéias arquitetônicas devem mudar para acomodar necessidades em mutação, e quais podem e devem continuar porque elas ainda são necessárias e valorizadas. Isso pode moderar nosso impulso rumo a uma cultura descartável como resultado dessa idéia de expressarmos os nossos tempos.

Estilos Tradicionais usados hoje criam apenas réplicas inautênticas

Velhas construções tradicionais, a maioria dos modernistas hoje admite, ainda tem valor. De fato, olhem para como muitas firmas de arquitetura modernistas tem escritórios localizados em construções antigas reformadas por causa de seu caráter intrínseco. Mas há uma diferença entre usar construções que adquirimos do passado, e projetar novas construções que são parecidas com as construções do passado?

Recriar um estilo antigo pode apenas criar uma réplica inautêntica, a maioria dos modernistas dirá, e não a coisa real. Construções contemporâneas projetadas em estilos tradicionais são às vezes consideradas como criar uma "Disneilândia", implicando que há palcos objetivando criar a ilusão de um lugar real, mas que não é em si mesmo real. E isso leva às vezes à questão da honestidade. Enquanto se reconheça que é apenas faz-de-contas, ele pode ser visto pelo que é: um palco; mas a partir do momento que se diga que ele é tão real quanto a tradição de onde ele deriva, então isso é de alguma forma desonesto.

Tentemos um experimento mental para testar essas idéias. Imagine um cliente que ama casas medievais inglesas, e peça a um arquiteto para projetar uma casa reproduzindo fielmente esse estilo. Seria o resultado algo real, ou uma ilusão inautêntica? Em termos de sua beleza, se o original é belo, então presumidamente a reprodução será bela (assumindo que o projetista seja habilidoso no estilo). A funcionalidade seria julgada por sua adequação ao propósito, o que não tem nada a ver com autenticidade ou realidade.

Então de que forma ela poderia ser considerada inautêntica ou irreal? Olhemos para como tipicamente usamos a palavra "autêntico". Em um uso comum, autêntico significa algo que genuinamente é o que afirma ser, como em uma pintura autêntica de Seurat. Enquanto o dono da construção não afirme que a reprodução foi originalmente construída no período medieval, não há enganação aqui. Outro uso de autêntico significa algo se assemelhando a um original ou na tradição de um original, como um menu italiano autêntico. Esse projeto contemporâneo baseado em uma linguagem de design medieval certamente se encaixaria nessa definição.

Um terceiro uso vem da filosofia existencialista, em que um indivíduo é visto como autêntico se ele é verdadeiro a seu eu interior, não falsamente tentando ser algo ou alguma outra coisa. É aqui que modernistas provavelmente criticariam a reprodução medieval. Já que, em sua opinião, construções devem expressar sua própria época, uma construção modelada em um estilo criado em um tempo passado está fingindo ser algo que não é. Ela é, portanto, menos autêntica.

Mas como eu demonstrei na sessão anterior, há uma multiplicidade de perspectivas sobre a realidade expressa por uma multiplicidade de estilos em qualquer época dada, incluindo recuperações de tradições anteriores. Um crítico poderia descartar uma construção como inautêntica apenas se ela não corresponde a sua perspectiva da realidade verdadeira e como ela deve ser expressada na arquitetura. A autenticidade parece estar nos olhos de quem vê tanto quanto essas outras questões estéticas, e não é um traço inerente ao modernismo e ausente do design tradicional contemporâneo.

Usar a autenticidade dessa maneira nos leva a uma ladeira escorregadia em direção a conclusões que não soam verdadeiras. Ela nos faria rejeitar a arquitetura da Renascença, já que ela copiava estilos criados em uma cultura mais antiga. Ela nos faria rejeitar as cópias de Le Corbusier e as mobílias de Mies van der Rohe que ainda aparecem em construções contemporâneas, já que elas foram projetadas há mais de um século. Nem tradicionalistas nem modernistas aceitariam isso.  Está na hora de deixar essa passar.

Aliás, uma idéia muito diferente de autenticidade no ambiente construído recentemente emergiu fora do mundo da teoria arquitetônica. Segundo Richard Florida, os membros de uma nova classe criativa - aqueles que ganham a vida criando idéias e coisas - são os verdadeiros impulsionadores do crescimento e desenvolvimento econômico contemporâneos. Muitas cidades obviamente desejam atrair mais desses criadores para ajudar a elevar suas economias locais. Mas como Florida descobriu em entrevistas, esses indivíduos seletivamente escolhem viver naquelas cidades que eles percebem como "autênticas". Eles querem dizer com isso o oposto de genéricas, e isso deriva de um número de fatores:

"...construções históricas, vizinhanças estabelecidas, uma cena musical única ou atributos culturais específicos...Eles equiparam autêntico com ser 'real', como em um lugar que tem construções reais, pessoas reais, história real. Um lugar autêntico também oferece experiências únicas e originais. Assim um lugar cheio de lojas de conveniência, restaurantes de grandes redes e clubes noturnos não é autêntico. Não apenas esses lugares são basicamente a mesma coisa em todo lugar, eles oferecem também a mesma experiência que você poderia ter em qualquer lugar".

Isso vai contra o mundo que os modernistas queriam criar, que aparta construções não apenas da história, mas também da singularidade do lugar. Os indivíduos da classe criativa buscam e encontram autenticidade naqueles mesmos lugares que os princípios modernistas de design não mais criam, como as velhas seções históricas de São Francisco, Denver e Boston.

Construções tradicionais não são progressivas

Modernistas criticam a arquitetura tradicional porque ela não é progressiva. Isso pode significar uma entre duas idéias, ou ambas: 1) O projeto não move a disciplina para a frente criando novas idéias, e 2) o projeto não promove uma agenda social desejável.

A primeira idéia, enfatizando a importância da invenção na arquitetura, segue da rejeição do estilo e a importância de expressar a própria era que já foram discutidos. Nessa perspectiva, o mundo está constantemente mudando, e os arquitetos precisam continuamente inventar novas idéias em resposta a isso. No nível mais alto, eles devem agir como videntes e profetas, lendo o espírito da era e expressando isso em suas novas formas. No nível de um projeto específico, eles devem aplicar um processo de solução de problemas para inventar uma nova idéia para cada novo problema de construção. Um culto do gênio criativo logicamente segue desse ponto de vista, e aqueles que tem que confiar em tradições para suas idéias são vistos como menos capazes, menos inventivos, menos merecedores de elogio.

Mas seriam os arquitetos contemporâneos, como um todo, diferentes nisso de suas contrapartes tradicionalistas? Assim como projetistas tradicionais, projetistas modernistas geralmente se inspiram nas invenções de uns poucos gênios criativos ao invés de inventar idéias genuinamente únicas por conta própria; é por isso que podemos ver os fios estilísticos ao longo do movimento modernista. Arquitetos tradicionais se inspiram em invenções anteriores implícitas em linguagens como o classicismo, e são inspirados pelos gênios inventivos de Palladio e Sir Edwin Lutyens. A maioria dos arquitetos modernistas se inspiram em invenções anteriores implícitas na linguagem modernista, e são inspirados por seus gênios criativos como Le Corbusier, Graves e Gehry. Onde está a diferença em relação a um estilo ser inerentemente mais inventivo que o outro?

A segunda idéia, de que o design precisa promover uma agenda social desejável, emergiu de diversas correntes do pensamento nos séculos XIX e início do XX. O movimento progressivo, particularmente através de Pugin, Ruskin e Morris, advogava um retorno pleno a uma sociedade como a da Idade Média, em que indivíduos estivessem mais em harmonia uns com os outros e com a natureza. Segundo eles, as formas arquitetônicas medievais expressariam e apoiariam isso. Os expressionistas alemães tornaram isso um pouco mais abstrato, ao pedir a artistas e arquitetos que criassem uma Gesamtkunstwerk, ou expressão artística total modelada nas catedrais góticas, levando o mundo a uma nova unidade espiritual. Os arquitetos modernistas europeus após a Primeira Guerra Mundial alinharam seu estilo com a agenda de criar uma sociedade melhor, tipicamente ao focar em projetos para o proletariado.

Poucos discordariam de um desejo de tornar nossa sociedade um lugar melhor. E talvez seja possível para os arquitetos ajudar a realizar mudanças sociais significativas através da arquitetura, ou criar uma nova idéia espiritual subsequentemente abraçada pelo resto da sociedade. Mas nos termos desse ensaio, seria a arquitetura modernista capaz de fazê-lo melhor do que a arquitetura tradicional? Condições sociais ruins parecem florescer igualmente bem em projetos habitacionais modernistas ou tradicionais, por exemplo. Já que estilo não parece ser um fator aqui, defender responsabilidade social não implica necessariamente argumentar por formas modernistas. A objeção "progressiva" às formas tradicionais pode ser descartada.

A arquitetura tradicional deve aderir estritamente às velhas regras. Quando os primeiros pós-modernistas primeiro redescobriram a linguagem clássica na década de 70, eles empregaram a linguagem de uma maneira jocosa. Entre outras coisas, eles exageraram proporções, embruteceram detalhes, formaram colunas como relevos achatados aplicados a paredes, e selecionaram arcos em neon. Talvez ainda ofendidos pela superficialidade disso, muitos modernistas, quando confrontando um projeto tradicional contemporâneo, insistirão na adesão estrita às regras tradicionais. "Se você insiste em usar essa linguagem, pelo menos use as proporções e detalhes corretos!"

Este talvez não seja um conselho ruim, para evitar a jocosidade rapidamente demodê do pós-modernismo inicial. Mas levada a seu próprio extremo na direção oposta, essa insistência em adesão estrita a regras desencorajaria arquitetos tradicionais de experimentar com sua linguagem de escolha, e evolui-la para se adequar a sensibilidades estéticas atuais. Nossos predecessores tradicionalistas não se restringiram dessa maneira. Deve-se apenas olhar para a história da arquitetura clássica para ver que não houve expressão "correta". Já que não vemos Hawksmoor, Borromini ou Michelangelo como deficientes em seu uso do classicismo por não estar "correto", nós não devemos tomar os classicistas contemporâneos por essa medida hoje. Isso se sustentaria como verdadeiro para designers de quaisquer tradições.

Tempo de tolerância

A revolução modernista na virada do século XX, tentei mostrar, ofereceu um número de idéias filosóficas para apoiar sua afirmação de que o modernismo era a única idéia arquitetônica para o século XX e além. Eu explorei essas idéias, e as encontro deficientes. Elas são inconsistentes umas com as outras. Elas não batem com a evidência do ambiente construído. Elas defendem distinções inexistentes entre modernistas e tradicionalistas. Elas foram desenvolvidas em reação a condições culturais de cem anos atrás que não são as mesmas que as que confrontamos hoje. Essas idéias ofuscam mais do que esclarecem, e devem ser postas para descansar.

Sem essas idéias, o caso dos modernistas para a sua arquitetura como a única arquitetura possível praticamente se dissolve. Apesar de seus árduos esforços para argumentar em outro sentido, o modernismo é apenas mais um estilo. Como todos os outros estilos ao longo das eras, ele expressa um conjunto particular de valores e perspectivas que podem ressoar com uns, mas não com todos. Que assim seja.

O mundo é um lugar rico para diversidade de valores e diversidade de expressões arquitetônicas. Arquitetos podem escolher projetar construções modernas ou tradicionais segundo a adequabilidade do projeto em questão, não porque seja inerentemente intelectualmente superior. E tanto construções modernas como tradicionais podem ser avaliadas em um de modo justo com os critérios que sempre foram os que realmente importam: elas servem a seu propósito, elas são belas, baratas e construíveis? O valor de um projeto individual deve resistir ou cair perante essas questões, não por se adequar a uma perspectiva modernista inventada há cem anos para descartar seus rivais. Nosso novo Espírito da Era demanda isso.

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