sexta-feira, 12 de julho de 2013

Alain de Benoist - Tributo a Dominique Venner

por Alain de Benoist


As razões para viver e as razões para morrer são muitas vezes as mesmas. Esse era definitivamente o caso de Dominique Venner, cujo gesto objetivava por sua vida e morte em um profundo acordo. Ele disse que escolha morrer da maneira que era a mais honrada em certas circunstâncias, particularmente quando as palavras se tornam impotentes para descrever, para expressar o que sentimos. Dominique Venner no fim morreu como viveu, com a mesma vontade, a mesma lucidez. Mais notável para todos que o conheceram foi ver como toda a trajetória de sua existência é uma linha pura e reta, uma perfeita linha de extrema retidão.

Honra acima da Vida

O gesto de Dominique Venner é obviamente uma ação ditada por um senso se honra, honra acima da vida, e mesmo aqueles que, por razões pessoais ou outras, se opõem ao suicídio, mesmo aqueles que, diferentemente de mim, não o acham admirável, devem ter respeito por suas ações, porque devemos ter respeito por tudo que é feito a partir de um senso de honra.

Eu não estou falando sobre política. Já em julho de 1967, Dominique Venner havia rompido com qualquer forma de ação política. ele era um observador cuidadoso da vida política, e é claro ele tornou seus sentimentos conhecidos. Mas eu penso que o que era essencial para ele estava em outro lugar, como amplamente demonstrado por muitas coisas já ditas hoje.

Dominique Venner punha a ética acima de tudo, e esta já era a sua perspectiva como jovem ativista. Permaneceu assim, quando gradualmente o jovem ativista se tornou historiador, um historiador meditativo, como ele disse. Dominique Venner era bastante interessado nos textos homéricos, a Ilíada e a Odisséia, em que ele via a fundação da grande tradição imemorial européia, primariamente por razões éticas: os heróis da Ilíada jamais ensinam lições morais, eles dão exemplos éticos, e a ética é inseparável, evidentemente, da estética.

O Belo determina o Bom

Dominique Venner não era daqueles que creem que o bom determina o belo, ele era daqueles que considerava que o belo determina o bom; ele acreditava que juízos éticos que focam nos homens não são tão baseados em suas opiniões ou idéias, mas sim uma função de suas qualidades superiores ou inferiores de ser, e em primeiro lugar a qualidade humana quintessencial que ele resumiu em uma palavra: comportamento.

Comportamento

Comportamento, que é um modo de ser, um modo de viver, e um modo de morrer. Comportamento que é um estilo, o estilo de que ele falou tão belamente em O Coração Rebelde, um livro publicado em 1994, e, é claro, em todas as suas obras, e eu penso especialmente no livro que ele publicou em 2009 sobre o escritor alemão Ernst Jünger. Nesse livro, Dominique disse muito claramente que se Jünger deu, e dá, um grande exemplo, não é apenas através de seus escritos, mas também porque esse homem, que teve uma longa vida e morreu aos 103 anos de idade, jamais falhou com as demandas do comportamento.

Dominique Venner foi um homem discreto, atencioso e exigente - exigindo de si mesmo em primeiro lugar. Ele havia de alguma forma internalizado todas as regras do comportamento: jamais abandonar, jamais desistir, jamais explicar, jamais reclamar, porque o comportamento (tenue) traz a mente e deriva de reserva (retenue). Obviamente, quando falamos sobre tais coisas, devemos parecer como homens de Marte para muitos habitantes dessa era de smartphones e Virgin Megastores. Falar de equanimidade, nobreza de alma, altivez mental, comportamento, é empregar palavras cujos próprios significados escapam a muitos, e é por isso que os filisteus e liliputianos - aqueles que escrevem essas notas paroquiais para os bem-pensantes que a mídia de massa se tornou hoje - foram incapazes de modo geral de compreender o próprio sentido de seu gesto, que eles tentaram reduzir a considerações medíocres.

Um Modo de Protesto Contra o Suicídio da Europa

Dominique Venner não era nem um extremista nem um niilista, e, acima de tudo, ele jamais se desesperou. De fato, suas longas reflexões históricas o levaram a desenvolver um tipo de otimismo. Ele sustentava que a história é imprevisível e sempre aberta, que ela tanto faz os homens como é feita pelos homens. Dominique Venner rejeitava todo fatalismo, todas as formas de desespero.

Eu falo paradoxalmente, porque não foi suficientemente notado, que seu desejo de cometer suicídio foi um modo de protestar contra o suicídio, um modo de protestar contra o suicídio da Europa que ele observava por tanto tempo.

Um Suicídio de Esperança Racional como Ato Fundacional

Dominique Venner simplesmente não poderia suportar a Europa que ele amava, sua pátria, se desvanecendo aos poucos da história, esquecida de si mesma, esquecida de sua memória, seu gênio, sua identidade, de alguma forma drenada da energia pela qual ela foi conhecida através dos séculos. Porque ele não podia suportar o suicídio da Europa, Dominique Venner opôs seu próprio, porque ele não foi um suicida do colapso, da resignação, mas sim um suicida da esperança.

A Europa, disse Dominique, está adormecida. Ele queria despertá-la. Ele queria, como ele disse, mobilizar consciências entorpecidas. Devemos ser muito claros nesse ponto: não houve qualquer desespero no gesto de Dominique Venner. Havia um chamado a agir, a pensar, a continuar. Ele disse: Eu dou, eu sacrifico o resto de minha vida em um ato de protesto e fundação. Nós devemos, eu penso, nos agarrar a sua palavra "fundação". Essa palavra "fundação" nos foi concedida por um homem cuja última preocupação foi morrer de pé.

Um Samurai Ocidental

Dominique Venner não era um nostálgico, mas ele era um verdadeiro historiador que estava interessado, é claro, no passado com uma visão do futuro; ele não estudava o passado como refúgio; ele simplesmente sabia que povos que esquecem seu passado, que perdem toda consciência de seu passado, são por conseguinte privados de um futuro. Não se pode ter um sem o outro: o passado e o futuro são duas dimensões do momento, nenhuma mais importante que a outra: dimensões de profundidade.

E nesse processo, Dominique Venner se lembrava, certamente, de um número de memórias e imagens. Ele se lembrava dos heróis e deuses homéricos; ele se lembrava dos antigos romanos, aqueles que o precederam no caminho da morte voluntária: Cato, Sêneca, Regulus, e muitos outros. Ele tinha em mente os escritos de Plutarco e as histórias de Tácito. Ele tinha em mente a memória do escritor japonês Yukio Mishima, cuja morte é em muitas maneiras similar a sua própria. E certamente não é uma coincidência que seu último livro, que logo aparecerá através de Pierre-Guillaume Roux, é chamado de Um Samurai Ocidental: um samurai ocidental!

E na capa desse livro, Um Samurai Ocidental, nós vemos uma imagem, uma impressão, uma gravura famosa: "O Cavaleiro, a Morte e o Diabo", de Albrecht Dürer. Dominique Venner escolheu deliberadamente essa gravura. Algum tempo atrás, Jean Cau devotou à figura do cavaleiro um maravilhoso livro que também levava o título: O Cavaleiro, a Morte e o Diabo. Em uma de suas últimas colunas, escrita apenas dias antes de sua morte, Dominique Venner prestou tributo a esse mesmo cavaleiro que, ele disse, nas estradas e encruzilhadas, sempre continuará seguindo rumo a seu destino, rumo a seu dever, entre a morte e o diabo.

"O Cavaleiro, a Morte e o Diabo":  Desenhado por Dürer em 1513

E nessa coluna, Dominique Venner falou de um aniversário. Foi em 1513, 500 anos atrás exatamente, que Dürer fez essa gravura "O Cavaleiro, a Morte e o Diabo", e essa ênfase me deu uma idéia bastante simples que qualquer um poderia ter: Eu olhei as datas de nascimento e morte de Albrecht Dürer, o homem que desenhou "O Cavaleiro, a Morte e o Diabo", exatamente há 500 anos, e percebi que Dürer nasceu em 1471; ele nasceu em 21 de maio de 1471. Dürer nasceu em 21 de maio; Dominique Venner escolheu morrer em 21 de maio. Se isso é uma coincidência, ela é extraordinária, mas ninguém é forçado a crer em coincidências.

O Coração Rebelde Sempre Estará Lá

É isso que eu gostaria de dizer em memória de Dominique Venner, agora já ido para a grande caçada selvagem, em um paraíso onde se pode ver os gansos selvagens a voar. Aqueles que o conheceram, e eu o conheci por 50 anos, aqueles que o conheceram provavelmente dirão que perderam um amigo. Mas eu penso que estão errados. Ao contrário, eu creio que deveriam saber que, desde 21 de maio de 2013, às 2:422 p.m., ele necessariamente sempre estará lá. Ainda junto aos corações rebeldes e espíritos livres que sempre enfrentaram a coalizão eterna de Tartufos, Trissotins e Torquemadas.

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